A hora e a vez da quebrada

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“O mundo é diferente da ponte pra cá”. Em 2002, o verso dos Racionais Mc’s evidenciava uma das faces cruéis de São Paulo: o isolamento das periferias. De lá para cá, a realidade não mudou muito. É o que mostrou o Mapa da Desigualdade 2018, organizado pela Rede Nossa São Paulo e publicado em novembro do ano passado. O estudo, que é feito há seis anos, mede 53 indicadores para avaliar quais são as diferenças cantadas por Mano Brown.

Vista aérea do Parque Guarani, em Itaquera, Zona Leste de São Paulo

Os dados comprovam o que a arte já ilustrava. A primeira divisão clara pode ser vista na cor da pele. Dos 96 distritos, 26 tem mais de 46% da população residente negra: todos se localizam no extremo leste, norte ou sul da cidade. É justamente lá onde o acesso à saúde, emprego, diversão e arte são extremamente menores do que nos bairros centrais.

Morar onde o Mapa da Exclusão e Inclusão Social de São Paulo chama de “território de exclusão”, realizado pela PUC São Paulo em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Especiais (INPE), afeta, claro a expectativa de vida. Um dado importante relatado pelo Mapa foi relativo à idade média da expectativa de vida dos indivíduos que moram tanto na região do Jardim Paulista quanto em Cidade Tiradentes. Se compararmos os dados, respectivamente, são 81 anos, na região nobre da cidade e 58 anos, em média, na zona leste.

A situação não é mais alentadora quando o assunto é emprego. O mapa organizado pela Nossa São Paulo mostrou que, enquanto na Barra Funda existem 59 postos de trabalho formal para cada 10 moradores, a proporção em Cidade Tiradentes é de 2 postos de trabalho formal a cada 100 habitantes. Ou seja, são 246 vezes de chance a menos de conseguir um emprego perto de casa.

Ajudando a pintar a cena da desigualdade, foi publicada em maio de 2019 a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), elaborada pelo IBGE. No Sudeste, 13,2 % da força de trabalho está desocupada. O índice nacional que, hoje, é 12%, atingiu seu menor nível no final de 2013, 6,2% e terminou 2018 em uma crescente, atingindo 11,6%. Uma das saídas óbvias para quem quer trabalhar, mas não consegue emprego é começar algo próprio. O empreendedorismo, que entrou para o hype nos últimos 10 anos, sempre foi uma realidade na quebrada, só que com menos glamour e muito empirismo.

Frederico Celentano é diretor-presidente da Agência São Paulo de Desenvolvimento (Ade Sampa), órgão vinculado à Secretaria Municipal do Trabalho e Empreendedorismo diz ter notado uma maior procura por ajuda pelos microempreendedores: “Existe esta procura maior de quem é empreendedor por necessidade do que por oportunidade. Mas muitos desses empreendedores desenvolvem um negócio e acabam descobrindo uma vocação ali.” Na região Sudeste, 23,5% das pessoas ocupadas trabalham por conta própria.

Um bom exemplo dessa verdade é a Ana Paula Nascimento que sentiu essa realidade na pele. Moradora da Cidade Tiradentes, trabalhou no mercado formal até ficar desempregada e teve a iniciativa de criar A Preta Produções, em 2017, que hoje realiza a Feira de Exposição EmpreendTiradentes. Ana faz outro recorte que os estudos também comprovam a da participação feminina diante desse quadro.

“Eu vejo que boa parte do ecossistema econômico é gerida por mulheres. Essas mulheres fazem o que elas conseguem e geram renda! E o que ninguém fala é que elas movimentam a economia de todo bairro.”.

Dados publicados, em fevereiro deste ano, pelo Seade mostram que 18,3% das mulheres da região metropolitana de São Paulo estão desempregadas. E mostra, ainda, como cresceu a proporção de mulheres chefes de família nos últimos 10 anos, de 27,5% para 33,1%.

O ponto de vista de Ana Paula com relação à potência econômica gerada pelas periferias corresponde, mais uma vez, a realidade vivida por este grupo. Em escala nacional, chega a R$ 68,6 bilhões por ano os recursos movimentados pelos habitantes das comunidades. São cerca de 12,3 milhões de habitantes que vivem em comunidades que ajudam a girar a economia do país. O levantamento, realizado em fevereiro, foi feito pelo Data Favela, com apoio do Data Popular e da Central Única das Favelas (Cufa).

Um idioma, duas linguagens

Em dois mundos distantes e diferentes, era de se esperar que a comunicação fosse um problema na hora de promover negócios de impacto nas margens da cidade. Isso acabou dificultando a interação entre o centro e a periferia, reforçando, assim, as particularidades de cada um dos lados. E ainda que as intenções sejam boas, conseguir se entender não será fácil para nenhuma das partes. A experiência do choque de realidades para Ana Paula aconteceu no início da sua jornada empreendedora: “Eu vi que precisava ir atrás de informações, que não dava para ir só pelo processo empírico. E o que me cansou foi ter ido a lugares renomados de empreendedorismo, onde você senta ali e se sente uma idiota, porque não fala nada de empreendedorismo pra você. Fala-se da realidade que não a minha ”. Ela ainda vai mais longe nesta questão:

“O nosso empreendedorismo é igual a de qualquer um, a questão é a dificuldade que a gente enfrenta para empreender. Você tem tantos atropelos na vida, que às vezes não consegue se aprofundar naquilo que você está a fim de saber.”

Hoje, já é possível encontrar vias e provas que os lados estão começando a trilhar para uma linguagem comum. Esta tendência já é tão palpável que pode, até mesmo, ser percebida por quem está do outro lado da ponte, perto do centro. Um bom exemplo disso é a Bemtevi, empresa que viabiliza empréstimos sociais em troca de juros de impacto positivo. A organização está instalada no Civi.co, coworking voltado para negócios de impacto.

Dependências do coworking CIVI-CO (foto: divulgacão)

Eduardo Pedote, sócio-diretor, da Bemtevi relata o mesmo tipo de problemática, mas de forma diferente: “É preciso que haja uma interação real, colocar as cartas na mesa. Às vezes, eu falo uma coisa achando que o sujeito está me entendendo, mas, na realidade, está entendendo outra completamente diferente. Ou seja, eu falo o que está na minha cabeça a partir do meu know-how ou da minha qualidade de especialista e o outro interpretará com a cabeça dele. Esse tipo de situação, na verdade, é um processo de amadurecimento de ambos os lados, onde é preciso fazer um exercício de empatia muito forte.”

Uma experiência bem-sucedida que demonstra bem essa interação entre esses dois mundos foi o empréstimo que a Bemtevi concedeu a um negócio periférico para a criação da Cozinha Criativa, projeto realizado pela Agência Solano Trindade. Tal projeto pretende levar alimentação de qualidade à comunidade do Campo Limpo além de apoiar mulheres cozinheiras da região.

Um investimento ou um empréstimo é, naturalmente, uma operação que envolve risco. Por isso, exige algumas métricas para evidenciar a evolução do negócio. E isso costuma ser um ponto crítico dos dois mundos.

“O empreendedor periférico tem que gerir seu negócio com uma mentalidade de negócio. Os processos são análogos a uma grande empresa”.

“É coxinha? Então, você tem que pensar na questão sanitária, no estoque, nos seus distribuidores, como vai ser seu modelo de vendas, como você vai distribuir, como você vai se apresentar, como é sua comunicação”, comenta Eduardo.

“O empreendedor de periferia tem grande dificuldade de ter uma boa gestão, de conseguir alcançar metas de vendas. Acho que são vários desafios e, na verdade, nossa proposta é conseguir oferecer infraestrutura e apoio técnico para que ele possa estar mais preparado para receber esse investimento”, conta Greta Salvi que é coordenadora de projetos da Fundação Tide Setubal e está à frente do Galpão ZL, um espaço da Fundação voltado para a promoção do empreendedorismo periférico e de negócios de impacto social no Jardim Lapenna, no distrito de São Miguel Paulista, na zona leste.

Roda de conversa promovida na reinauguração do Galpão ZL (foto: divulgacão Fundação Tide Setubal)

O Galpão ZL – antes era chamado de Galpão da Cultura e Cidadania – existe desde 2006 com um olhar de desenvolvimento territorial. Teve papel importante na articulação política para trazer equipamentos públicos para o bairro – que tem duas creches, uma UBS, duas escolas e uma estação de trem. Com a reinauguração no último mês de maio, ganha a função de coworking e sediará eventos sobre empreendedorismo com o objetivo de combater as desigualdades socioespaciais de periferias.

Já como parte das novas ações do espaço, foi realizada uma seleção de negócios de impacto das periferias, onde oito empreendimentos serão acolhidos no Galpão. O processo foi fruto de um edital promovido pela Inova ZL, realizado em parceria pela Fundação Tide Setubal, o Instituto Jatobás e a Rede Comunidade de Inovação Social. Apesar do ZL no nome, o edital recebeu 49 inscritos de toda Grande São Paulo. Os selecionados receberão apoio metodológico e recursos no valor de 8 mil reais para fazer a engrenagem girar, além do acesso a utilização de escritório no local.

“Finalmente, muitas organizações começam a olhar para periferia de outro jeito, não só como o beneficiário de determinada solução social, mas como lugar de protagonismo e um lugar de potência. Por mais que pareça clichê, acho que isso está começando a acontecer”

Greta ainda pontua: “Nosso grande objetivo é, de fato, fazer essa conexão. É muito difícil mesmo. São poucas organizações que têm esse olhar, é uma minoria. As aceleradoras não olham para isso, os investidores, muito menos. E a gente quer se aproveitar da influência da fundação para conectar esses mundos”, completa.

 

Diminuindo os ruídos

Outra iniciativa para melhorar a integração dos espaços foi a criação da Aceleradora de Negócios de Impacto da Periferia (Anip), em 2018, resultado de uma parceria da Artemisia, Centro de Empreendedorismo da FGV (FGVcenn) e da produtora A Banca.

Na Anip, quem lidera o elo de conexão entre o centro e a quebrada é Dj Bola, o nome por trás d´A Banca. Priscila Martins, gerente de relações institucionais da Artemisia comenta sobre a parceria: “Mantemos o papel de liderança e protagonismo do nosso programa com A Banca, porque entendemos que é preciso ter muita responsabilidade, respeitar as necessidades locais e construir soluções de apoio que, de fato, apoiem o crescimento dos negócios. Empoderando quem realmente tem propriedade e conhecimento para estar na ponta, que no caso é A Banca.”

No outro eixo de sustentação da Anip está Edgard Barki, coordenador do FGVCenn, que comenta sobre a importância de estar apto para ensinar e aprender:“A FGV pode levar muito conhecimento do centro para a periferia. Mas nunca é uma via de uma mão única. A periferia também traz conhecimento para a FGV, principalmente, no sentido de como se estrutura um negócio dentro de uma dificuldade extrema. A periferia tem uma visão de inovação social que é muito relevante para os negócios. Então, quando a gente consegue calibrar os dois lados, conseguimos uma potência muito maior”.

Na ponta, Dj Bola sabe que está fazendo mais do que acelerar negócios. “É uma luta de desconstruir os medos, os mitos e as barreiras sociais, que estão impregnados em diferentes realidades”

Dj Bola em evento que anunciou os 10 selecionado do programa de aceleração da ANIP (divulgação ANIP)

“Nosso papel dentro da sociedade é trazer a periferia para ser protagonista no desenvolvimento de soluções para problemas que a gente vive todo dia na base.”


A movimentação do setor público

Do lado do setor público, uma novidade que vem se desenvolvendo para promover negócios nas periferias dentro do município de São Paulo é o programa de coworking Teia, que faz parte das realizações da Ade Sampa. A unidade piloto foi lançada no dia 22 de maio de 2019 em Taipas, periferia da Zona Norte. Fazendo coro com a necessidade de atuar com agentes locais e outras entidades do território assim como dar o protagonismo à periferia, a agência abriu um edital público para organizações e líderes comunitários de base territorial para cuidar da execução do coworking. O aporte do governo do município para custear a gestão da organização contemplada será de aproximadamente 129 mil reais por unidade para um período de 12 meses.

Parte das funções do Teia é mostrar ao empreendedor onde estão as chances de fazer negócio. “Existe uma assimetria muito grande entre o centro e as periferias no que concerne ao acesso à informação e o acesso às oportunidades. Isso é crítico. A grana evidentemente é um problema, mas a capacitação, se não tão importante quanto, chega a ser mais importante, ainda.”, afirma Frederico Celentano, diretor-presidente da Ade Sampa. Também em 2019 está prevista a inauguração de outra unidade do Teia com foco na Zona Leste.

A articulação da Ade Sampa tem também outras frentes, oito ao todo. Uma das mais conhecidas é o programa VaiTec, que está na sua quarta edição e, desta vez, além da bolsa de 33 mil reais, oferecerá uma aceleração de seis meses para 24 negócios periféricos (os selecionados serão anunciados dia 10 de junho de 2019). Com finalidade de rodar o programa de aceleração foram contratadas, via licitação, empresas ligadas ao território periférico.

Além disso, há ainda a política de acesso a microcrédito que a Ade Sampa está desenvolvendo e provavelmente terá início no segundo semestre deste ano.


 

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