A água sempre foi um dos elementos fundamentais para a vida no planeta Terra. Recentemente, ela ganhou ainda mais importância, pois contribui para a prevenção contra Covid-19. E, dentro desse contexto, surgiu no estado da Califórnia (Estados Unidos) uma novidade relevante: a especulação sobre a água da região na Nasdaq, uma das principais Bolsas de Valores do mundo. O mercado financeiro poderá negociar contratos futuros desse bem em breve. O início dos investimentos deve acontecer em 7 de dezembro, a depender apenas de revisões regulatórias.

Crédito:Equipe de Arte Aupa.

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Especular na Bolsa de Valores sobre o preço da água gera uma preocupação natural. De imediato, pode não parecer uma boa ideia colocar preço e fazer negócios com um recurso vital. Mas é preciso aprofundar no assunto e entender possíveis pontos positivos e negativos.

Como vai funcionar
A Califórnia é também conhecida por seus problemas ambientais.Por isso, há 2 anos, criou um índice que estabelece um preço para a água. É uma forma de tentar controlar as negociações desse bem entre indivíduos, companhias de distribuição e governo. Agora esse índice servirá também para a Bolsa. E, a partir desse preço, haverá a negociação de contratos futuros. Na Nasdaq essas negociações serão identificadas como Nasdaq Veles California Water Index. O código que aparece nos sistemas tem um detalhe curioso, o H2O (remetendo H2O) no final: NQH2O.

Baseados neste índice de preço da Califórnia, que agora deve variar mais do que nunca, os investidores vão comprar ou Se eles entenderem que a água vai ficar escassa, provavelmente haverá uma grande procura, afinal o preço subirá em breve.

Essa discussão sobre o preço da água tem ganhado espaço e gera controvérsias. “Sempre pensamos na água para abastecimento. Mas a água presta muito mais serviços para nós, enquanto reguladora do clima, por exemplo, e para manter a funcionalidade dos ecossistemas.

E, se estou precificando a água, estou junto com isso precificando a regulação do clima. É difícil precificar o quanto isso custa. É algo tão complexo e tem tantas variáveis, até com questões éticas relacionadas. A partir do momento que você põe valor, você diz que isso pode ser trocado por dinheiro. Mas um recurso natural não é tão substituível por dinheiro”, observa Leticia Marques, especialista e co-head da área de Direito Ambiental do KLA Advogados.

Leticia Yumi Marques, especialista e co-head da área de Direito Ambiental do KLA Advogados. Crédito: Arquivo Pessoal

A empresa que controla a Nasdaq, CME (Chicago Mercantile Exchange), garante que oferecerá a agricultores, empresários e prefeituras “transparência, mapeamento de preços e transferência de risco com o custo da água”.

Rodrigo Zeidan, professor da New York University Shanghai e da Fundação Dom Cabral. Crédito: Arquivo Pessoal

Apesar da novidade chamar atenção, a entrada dos investidores no mercado futuro da água deve ser tímida inicialmente. O economista Rodrigo Zeidan, professor da New York University Shanghai e da Fundação Dom Cabral, explica o motivo: “Esses contratos são rastreados em direitos de água de certos locais dos Estados Unidos. Não é um grande contrato para qualquer investidor querendo ter um seguro contra risco de falta de água. É algo bem local”.

Vantagens
Tanto Leticia quanto Rodrigo consideram que é possível encontrar vantagens nesses contratos futuros da água. Eles entendem que um dos caminhos para o sucesso do desenvolvimento sustentável é estimular as empresas a se engajarem nisso. Mas isso só vai acontecer se os cuidados ambientais gerarem dinheiro. “Pode não ser moralmente bonito de se dizer, mas é importante que a preservação gere lucro, afirma Leticia.

As possíveis vantagens dos contratos futuros da água estão ligadas ao que está sendo feito agora: as revisões regulatórias. É o estabelecimento de padrões para todos os contratos. Essas regras serão determinantes para o fracasso ou para o sucesso da proposta.

“Esses contratos futuros dão, para quem está vendendo, a obrigação de entregar água daqui a 1 ano ou 2 anos. E para você ter isso, precisa garantir estabilidade desse recurso. O que a legislação prevê é que precisa de base técnica para que esse recurso hídrico seja mantido. Então, é necessário preservar bacias e haver sustentação do meio ambiente. Caso contrário, o recurso fica escasso”, confirma Leticia.

Essa “obrigação de entregar” água não existirá em muitos casos, pois nem sempre os contratos futuros terminam com entrega física. Um investidor pode comprar um contrato futuro de água e vendê-lo antes do vencimento, para obter lucro. Rodrigo Zeidan acredita que isso deve acontecer com frequência: “Contratos futuros não costumam virar venda física. E não vai ser diferente com esses. A maior parte é para ser negociada financeiramente”.

Mas mesmo assim Rodrigo aponta para outra possível vantagem das especulações: o alerta que pode ser gerado pelo aumento no preço da água. Se muitas pessoas começarem a vender os contratos, para obter lucro com o preço alto, será preciso atenção. “Se água foi mais vendida que comprada, isso acende alerta e talvez antecipe investimentos públicos para suprir a água. Isso seria bom. Quando teve racionamento em São Paulo, por exemplo, se tivesse contrato futuro, com o pessoal apostando que ia ter falta de água, talvez acionasse uma luz na mente do gestor público para não deixar faltar água”, afirmou ele, referindo-se à crise hídrica que se agravou no Estado de São Paulo em 2014.

Essa “conversa” entre mercado financeiro e governo pode ser fundamental para o desenvolvimento sustentável. Rodrigo citou como exemplo as multinacionais que cuidam do meio ambiente porque precisam de recursos da Amazônia. Denis Minev, co-fundador da Fundação Amazonas Sustentável (FAS), concorda que as empresas precisam ter um papel na preservação do meio ambiente. E explica a importância disso: “A geofísica da Amazônia é diferente, devido à cobertura (de árvores). A maior parte da chuva cai na árvore e não é drenada para os rios. Isso transpira e vira nuvem de novo e continua a jornada para o Oeste, batendo nos Andes e fazendo curva pro Sul do país. Essa chuva abastece essa região. Por isso o Centro-Oeste é úmido. Então, tem um serviço ambiental sendo prestado para tudo, até para o abastecimento das hidrelétricas, que geram maior parte da energia. Portanto, a manutenção da floresta tem sua importância. Se não tiver (a floresta), a água vai para os rios e vai pro Oceano Atlântico. O Centro-Oeste vai deixar de ser úmido e produtivo para o agronegócio”, explicou Denis, destacando a importância da preservação ambiental inclusive para os investidores do agronegócio, que, muitas vezes, são a favor do desmatamento desmedido.

Riscos
Colocar a água na Bolsa de Valores não envolve só possíveis vantagens. Existem riscos que precisam ser bem protegidos pelas revisões regulatórias, que estão sendo elaboradas neste momento.

“O ponto negativo é ficar à mercê da flutuação do mercado. No mercado futuro, quem compra só se dá bem se lá na frente tiver havido falta de água ou carência de abastecimento. Isso faz o valor ser maior que o valor efetuado no passado. Em uma situação dessa, perde quem emitiu o título. E não sei se essa questão comercial, de perda de dinheiro mesmo, pode fazer com que essa briga interfira na preservação de recursos. Por isso precisa de uma regulação restritiva, para prever e mitigar impactos negativos, alerta Leticia.

Também é importante se preocupar com possíveis situações emergenciais. Ainda não está explicada qual será a prioridade dada para entrega dessa água se houver uma grande escassez do recurso.

“Existe na política nacional de recursos hídricos o uso prioritário da água. Ou seja, em situação de escassez, o uso prioritário é para abastecimento humano e de animais. Depois vai, como uma escadinha, flexibilizando até o uso menos nobre, que seria a água como recurso em uma indústria. Pensando no mercado futuro, em uma situação de falta da água, se houver declaração do governo de um estado de urgência hídrica, na minha opinião esse contrato futuro sofreria reflexo disso. Se eu fizer contrato para 2022, mas quando chegar em 2022 tiver outra crise hídrica, onde estaria a prioridade? Será que seria permitido entregar essa água pra usar?”, questiona Leticia.

É tendência para o futuro?
Investimentos ambientais não costumam virar uma grande tendência no mercado financeiro. E, como destacou Rodrigo, a iniciativa da Califórnia deve ficar restrita inicialmente. Mas o fato da água ser tão vital aumenta a importância dessa mudança, pois ela pode influenciar novas ideias. E se funcionar bem na Nasdaq, outros países podem fazer projetos parecidos em suas Bolsas de Valores.

Só as revisões regulatórias e o tempo vão dizer se é uma boa ideia. Mas a criação desse iniciativa deixa uma reflexão importante, levantada por Leticia: “Talvez eles (americanos) pensem mais no futuro do que nós. Aqui passamos por uma crise hídrica, que mexeu com a vida de toda a população, e como fica hoje? Tudo que foi feito pelo governo é para manter abastecimento. Mas não temos notícias do que está sendo feito para evitar que outra crise aconteça. Quando um Estado pensa no mercado futuro, me parece uma preocupação de que é possível que a água falte novamente”.

Portanto, ainda é cedo para afirmar se a entrada da água na Bolsa de Valores é uma boa ideia ou um risco para o meio ambiente. Mas é fácil cravar que esse projeto merece ser observado, pois tem chances de contribuir para um desenvolvimento sustentável que gera lucro.

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