Empreendedorismo exige trabalho coletivo

O coletivo "Nós, mulheres da periferia", estreia sua coluna na Aupa. Na primeira contribuição, as seis integrantes contam a trajetória do grupo em forma de um manifesto pelo fortalecimento do jornalismo, do empreendedorismo e das mulheres na periferia.

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Diferentes trajetórias, mas reunidas por sermos “periféricas”. Éramos jovens jornalistas, cada uma moradora de um bairro diferente das regiões mais afastadas da cidade de São Paulo, quando criamos o coletivo “Nós, mulheres da periferia”.

Hoje, somos um projeto jornalístico independente, atuante em diferentes plataformas de comunicação. Nossa principal diretriz é disseminar conteúdos produzidos por mulheres e a partir da perspectiva delas, tendo como linha editorial a intersecção de gênero, raça, classe e território.

Juntas fazíamos parte do Blog Mural do jornal Folha de S. Paulo. O projeto cresceu e se tornou a Agência Mural de Jornalismo das Periferias, que mantém o blog e também produz conteúdo próprio e para outros canais de comunicação, mobilizando mais de 60 pessoas.

Em 2012, surgiu a oportunidade de preparar um conteúdo especial para a versão impressa do jornal sobre o Dia Internacional da Mulher. Em 7 de março, integrantes fundadoras do coletivo publicaram um artigo atentando para a invisibilidade e direitos não atendidos de uma parte das mulheres – as que moram em bairros periféricos de grandes metrópoles. O título escolhido foi: “Nós, mulheres da periferia”.

O texto teve grande repercussão e foi replicado em outros veículos de mídia, além de ter encontrado eco entre nossas iguais: mulheres moradoras da periferia que se sentiram representadas. O artigo foi amplamente compartilhado nas redes sociais e, além disso, leitoras do jornal se manifestaram por cartas e mensagens. Percebemos, naquele momento, a existência de um vazio de representatividade. A partir de então, iniciou-se o processo de pesquisa e consolidação do coletivo.

O website nasceu em 2014 com o intuito de contribuir para a construção de narrativas jornalísticas mais humanas e contextualizadas. Além do site, que mantemos permanentemente, realizamos em 2015 o projeto “Desconstruindo Estereótipos”, promovendo oficinas sobre mídia em diferentes bairros e organizações sociais, impactando cerca de 100 mulheres. Em consequência, nasceram a mostra artística “Quem somos [POR NÓS]” (2015) e o curta-metragem “Nós, Carolinas” (2017).

Construímos o coletivo de forma muito orgânica e espontânea. Primeiramente, ao nos assumirmos feministas. Antes, esta nunca tinha sido uma questão e, com a repercussão, tivemos que, nós mesmas, entendermos que fazíamos parte de uma causa, ainda que a partir de uma diversidade de ideias, crenças e opiniões.

Também refletimos sobre como gostaríamos de construir nosso trabalho, se dentro de uma perspectiva voluntária e militante ou se estávamos defendendo uma causa profissionalmente. Diante disso, em 2018 resolvemos conciliar as duas possibilidades e nos formalizamos com um CNPJ.

Nossas experiências a partir das nossas periferias sempre nos colocaram em ações coletivas, seja por necessidade ou por culturalmente vivermos em comunidades. Entendemos que empreendedorismo exige trabalho coletivo e que, ao que hoje se atribui à criatividade e inovação nos projetos e negócios, venha de nossas origens que, claro, conseguimos aperfeiçoar com acesso à educação.

Queremos compartilhar, então, nossas experiências, refletindo sobre quais são as práticas possíveis, viáveis, dignas para o empreender feminino (e feminista) nas periferias. Para isso, também pretendemos ouvir mulheres e apresentar outras histórias, pois, afinal, “Nós, mulheres da periferia” somos diversas e nos opomos aos perigos da história única.

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