Gerente de Projetos versus Equipe de Gestão. Por que os projetos no campo social falham?

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Esses dias uma cliente me trouxe a seguinte reflexão: “É complexo o papel do gerente de projetos no terceiro setor porque exigem que ele seja especialista em tudo. Ninguém consegue ser especialista em tudo”.

É fato. Além de não ter equipe de apoio em gestão, os gerentes de projetos sociais ainda precisam buscar a excelência em todas as fases do projeto, embora sejam necessários conhecimentos muito diferentes para cada fase.

O profissional que é excelente em planejamento (altamente analítico) dificilmente será o melhor profissional para lidar com a dinâmica e bagunçada fase de monitoramento.

Geralmente um profissional excelente em avaliação de impacto – que compreende estatística, números, planilhas de excel e toda essa parte lógica, raramente é também uma pessoa excelente em transição de projetos –, que exige comunicação visual, powerpoint, textos com foco em apresentação institucional, falar em público…

A pergunta que fica é: as organizações têm espaço para equipes de projetos e profissionais especialistas ou elas querem um “faz-tudo” na gestão para focar na execução?

O quanto elas perdem em eficiência com essa escolha?

Gestão de riscos, gestão de pessoas, gestão Financeira, avaliação de impacto, marketing institucional, identificação e desenho de projetos… são matérias extremamente profundas e estratégicas, que podem ser determinantes para o sucesso de um projeto. Não é possível ter um projeto social de alto impacto sem uma equipe de gestão. E eu reforço: equipe – mesmo aqui na Ink Inspira, onde temos um time de profissionais especialistas em cada fase da entrega, essa tarefa não é nada fácil.


Quantas pessoas são necessárias para gerenciar com qualidade um projeto social nos moldes do PMD (Project Management for Development)? No mínimo, quatro:

• Um especialista com pontos fortes em equipe e gestão de pessoas, que vai determinar as atividades do time, controlar as entregas, equilibrar os interesses do projeto com o orçamento e capacidade da organização, fazer as comunicações e relatórios de atividades, lidar com a implementação do plano de ação quando ocorrer um problema…

(consigo ouvir algumas pessoas perguntando: e precisa de mais do que isso para gerenciar projetos sociais? Precisa.)

• Um especialista com pontos fortes em planejamento, responsável por desenhar a Teoria de Mudança e o Marco Lógico, montar e atualizar o plano de risco, definir e coordenar o plano orçamentário, prever o plano de ação para gestão de problemas, estruturar a EAP do projeto, montar a matriz de responsabilidades, montar um fluxograma de atividades do projeto…

(mas isso é necessário? É. E aquela pessoa ali de cima não consegue fazer isso? Sozinha, não.)

• Um especialista em avaliação de impacto que vai montar o Plano de Monitoramento e Avaliação, montar questionários, montar o banco de dados, definir os métodos de coleta, definir o grupo de controle, montar gráficos, isolar dados, analisar resultados, organizar grupos focais, montar relatórios…

(Agora eu sei que peguei muita gente… Avaliação de impacto é obrigatória por lei, mas poucas organizações fazem, a maioria pede ao gerente – esse mesmo que está fazendo tudo aquilo ali em cima sozinho – para avaliar os resultados, mas lendo detalhadamente agora, como ele poderia fazer tudo isso?)

• Um assistente para ajudar esses especialistas na parte operacional de cada etapa, apoiando na organização dos documentos, na melhoria visual das entregas, no preparo dos rascunhos e em todas as atividades complementares necessárias.

(mas ele também precisa de um assistente? Pois é…)


 

Ter tudo isso é possível em uma só pessoa? Eu acredito que não.

A experiência que temos na Ink Inspira tem nos garantido um aumento real no impacto de um projeto que antes não possuía especialistas e, quando ensinamos o PMD nos nossos cursos, vemos muita gente sair frustrada por saber que não vai conseguir fazer tudo o que aprendeu, por ser um só, e não ser capaz de saber tanto sobre tudo.

Mas quem trabalha com projetos sociais acorda para matar um leão por dia.

Quando as organizações sociais buscam gestores de projetos que sabem um pouco de tudo, elas devem ter ciência de que fases importantes do projeto serão negligenciadas, porque não é possível uma única pessoa ser excelente em tudo.

Gasta-se bilhões com editais para selecionar projetos sociais que não preveem uma equipe de gestão profissional e capacitada no orçamento.

Gasta-se bilhões anualmente com projetos de impacto e não incluem a verificação do impacto gerado por eles.

Convido vocês a refletirem comigo: se fosse possível para as organizações ter equipes de projetos sociais tão especializadas quanto as equipes da área comercial poderíamos ter organizações sociais tão eficientes em fazer o bem quanto temos empresas eficientes em vender seus serviços?

O que deve ser mais complexo: gerenciar a construção de prédios ou a redução da pobreza de uma comunidade?

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