fotos: Agência Ophelia

Não existe ninguém melhor para representar e falar sobre o poder das mulheres nas periferias do que elas próprias. Com cada vez mais visibilidade, é nos bairros onde o protagonismo de iniciativas lideradas por mulheres ganha maior relevância e impacto. É a partir da periferia que a cidade conhece a força das mulheres. Historicamente, sempre foi assim. Elas sempre impactaram, principalmente as mulheres negras, empreendedoras históricas, que se apoiaram entre si e continuam se fortalecendo a cada dia.

A Aupa foi escutar as histórias de diversas iniciativas que cresceram graças à força do empreendedorismo feminino e dá a voz para Alânia, Ednusa, Vilma, Ana, Ítala e tantas outras mulheres que causam impacto com seus negócios e iniciativas a partir das margens.

A força da cultura e da memória

Alânia Cerqueira é fundadora do Macambira Sociocultural (foto: divulgação)

Quando ainda nem existia o termo empreendedor social, Alânia Cerqueira, do extremo sul de São Paulo, já causava impacto no seu território. Há mais de vinte anos ela atua no bairro e ali fez nascer o seu negócio de impacto. É a fundadora da Macambira Sociocultural, um negócio que desde 2012 – em parceria com fundações e órgãos públicos – gera recursos para desenvolvimento local, conecta pessoas e dá apoio a artistas e empreendedores locais. Após articulação consolidada, o grupo também passou a investir em educação empreendedora, realizando, além das feiras, ações, encontros e formações.

 

Alânia explica que o primeiro trabalho de impacto parte da própria periferia, reconhecendo não só as necessidades, as ausências, mas também as riquezas, os recursos. É a partir dessa compreensão que nasce o negócio, que depois se fortalece em articulação de redes locais e na consciência de aspectos, como a ancestralidade africana. (Leia entrevista com Jessica Cerqueira sobre a força afro-brasileira no ecossistema de impacto.)

“A gente tem Jardim Ângela, Jardim Letícia, Jardim Lígia, Maria Helena, um monte de bairro com nome de mulheres. nomes simples, mulheres reais.”

Uma “gestão da sobrevivência”, que agora começa a dialogar dentro da narrativa de um ecossistema próprio e ainda em formação. Trata-se de um processo de aprendizagem, acesso e também de mudança e transformação que rompe questões de raça e gênero na sociedade. (Leia entrevista com Elena Martinis sobre como o empreendedorismo feminimo pode transgredir raça e gênero.) Alânia quer acreditar: “Se esse empreendedorismo social, de impacto, com sua consolidação, maturidade, não trouxer transformação nessas questões, isso pode continuar”.

Esse capital humano e cultural periférico, que desde o surgimento desses bairros impactou no território, tem memória marcada, conta Alânia. Vários nomes de bairros da zona sul, por exemplo, têm nomes de mulheres, por conta da mobilização e do reconhecimento que elas tiveram enquanto lideranças. “A gente tem Jardim Ângela, Jardim Letícia, Jardim Lígia, Maria Helena, um monte de bairro com nome de mulheres, nomes simples. ‘Quem é a liderança desse bairro? Ah, é a Alice. Ah, é a Ângela. São mulheres, mulheres reais.”

 

“Agir da ponte pra cá” a partir da própria periferia

Os eventos realizados pelas Meninas Mahin em praças públicas da zona leste já começaram grandes, com palco e financiamento. As mulheres do coletivo se conheceram em um projeto chamado Itaquera do Futuro e tinham em comum a produção de produtos ligados à ancestralidade. Descobriram que tinham potencial para virar um negócio e decidiram empreender a partir da periferia da capital paulistana. “Muita coisa aconteceu no centro. Agora os olhares estão voltando para zona leste”, comenta Ednusa Ribeiro, uma das fundadoras do coletivo que traz como slogan o dizer “Representatividade e beleza, além da estética”.

 

Ednusa, que também é gestora pública, encontrou dificuldades como mãe, mulher e empreendedora negra. Os entraves para gerir um negócio ficam maiores ainda para empreendedores negros, e o coletivo segue enfrentando estigmas para ser sustentável dentro de um contexto adverso. Cerca de 44,6% dos empresários negros que buscam crédito não são atendidos, enquanto apenas 29,4% dos brancos enfrentam esse problema ( veja pesquisa) Mesmo assim, Ednusa e Vilma seguem avançando, e desde 2016 empreendem fomentando o empreendedorismo da mulher preta por meio da Feira Afro Meninas Mahin. O evento acontece no segundo sábado de cada mês na Praça das Professoras – Cid. A. E. Carvalho e no último sábado do mês no Largo do Rosário-Penha, ambos na zona leste de São Paulo.

Este ano, com certificação do Cieds – ONG que apoia empreendedores sociais –, o objetivo da dupla é seguir consolidando o que já fazem, para além das quase cem feiras já realizadas. Estão programados eventos diferentes, entre eles no Parque do Carmo e na Flip – Festa Literária Internacional de Paraty. Os locais onde os eventos acontecem se tornam “a oficina da mulherada”, conta Vilma. E Ednusa complementa: “A gente consegue falar assuntos de autoestima, de representatividade, de negócio, de família, de erros e acertos”.

Como artesãs e com viés empreendedor, as Meninas Mahin recebem apoio e contam também com capacitação e mentoria especializada, como o Emperifa. A empresa promove e fortalece a cultura empreendedora, colaborando para o desenvolvimento dos territórios periféricos, com oficinas e consultoria para qualificar a crescente demanda da zona leste.

“falaMOS de autoestima, de representatividade, de negócio, de família, de erros e acertos”

Também contando com o apoio da Emperifa, Ana Paula Nascimento resolveu empreender onde mora, na Cidade Tiradentes, e nos bairros vizinhos – Guaianazes, São Mateus, São Miguel: “É insalubre sair da periferia, das pontas para servir o centro”. Desde 2017, Ana conta que a luta do zero capital de giro é empreendida todos os dias, seja sozinha ou “articulando-se” com parceiros. Significa “vender a janta para o café da manhã, vender o café da manhã para o almoço”, explica Ana, que ainda vê inadequação na proposta do MEI – microempreendedor individual. “A Globo, fala: ‘Olha, vai lá, faz o seu MEI’, mas a maioria não tem os R$ 54,00.” Em sua visão, falta leitura e sentido nesse convite.

Flyer de divulgação do EmpreendTiradentes

Ana Paula se baseou em muito conhecimento empírico para fundar A Preta Produções, produtora cultural, artística e empreendedora, especializada no público periférico. Seu negócio busca dar atenção à população que vive nesses bairros e abrange questões como transporte e circulação no território, bem como, claro, a questão do gênero: “Essa mulher não pode ter informação e apoio distantes”. A Primavera Empreendedora, um dos seus produtos, trabalha com o objetivo de unir empreendedores locais, levando apoio, formação e visibilidade. A última edição, em 2018, teve dez expositores, com público de 320 pessoas, além da presença de empresários locais.

 

Outras duas iniciativas da Preta Produções são o Festival Brechó Bom e a Feira Empreend Tiradentes, ambas voltadas para a exposição de produtos. A empreendedora quer, agora, investir em mais articulação e captação: “Quero diversificar e movimentar a economia, que já é pujante e ativa aqui na Cidade Tiradentes, mas que infelizmente é invisibilizada e não tem apoio financeiro”. Entre outras frentes, Ana também está procurando investimento para um espaço físico no bairro, que, segundo ela, seria uma solução que geraria impacto junto à população local: “É esse pessoal que faz a economia girar”.

 

Empreendedoras pioneiras

O caráter empreendedor das mulheres negras é um indicador histórico do pioneirismo dos negócios de impacto nas periferias. As ancestrais negras foram as principais responsáveis por empreender a liberdade de todas as pessoas escravizadas, financiando alforrias, revoltas e revoluções. Mulheres que passaram, de repente, a sustentar a si mesma e aos seus filhos depois de conquistada a abolição e que nas décadas seguintes empreenderam melhorias de vida em suas comunidades.

Ítala Herta do Vale do Dendê em Salvador: a holding já pré-acelerou 30 e acelerou 10 startups

se for pensar na periferia, a gente vai pensar, claro, na figura feminina

Um retrato muito representativo dessa história talvez seja o da cidade de Salvador: “A gente tem essa cidade fora do radar de investidores de porte, mesmo tendo grandes ativos culturais e sociais”, coloca Ítala Herta, do Vale do Dendê – o Vale do Silício brasileiro –, uma holding social que tem se expandido na cidade e que tem o destaque na diversidade como premissa básica, evidenciando cada vez mais os jovens e as mulheres. Nesse sentido, e organizando o ecossistema local, entendem que é a forma mais efetiva de fazer diferença no território, articulando local e globalmente suas ações.

“A gente sempre reforça, dentro dessa narrativa, o quanto a periferia é inovadora, o quanto a margem é potência. E, claro, se a gente for pensar na margem, se for pensar na periferia, a gente vai pensar, claro, na figura feminina. Como uma figura dentro de um contexto de manutenção, um grande pilar de sua família, para atender esse nível de vulnerabilidade e responsabilidade”, explica ela. A capital baiana sempre foi uma capital inovadora na economia criativa, naturalmente por ter um olhar para a identidade da região.

Patrocinada pela Fundação Itaú Social e pela Fundação Alphaville, a holding pré-acelerou 30 e acelerou 10 startups que atuam nos segmentos de moda, mobiliário urbano, turismo, tecnologia automotiva, games, design de joias, entre outros, todos os negócios desenvolvendo produtos e soluções tecnológicas de baixo custo e elevado impacto socioeconômico. Com essas experiências sistematizadas, prototiparam um modelo de escola, com cursos, ações, imersões, até chegar em um formato de “jornadas de conhecimento” que vai ser lançado em breve, em um espaço na Estação da Lapa.

 

Os territórios, seus espaços

Uma última volta por São Paulo, na zona leste, e visando apoiar negócios como o do coletivo Meninas Mahin e Primavera Empreendedora, surge um modelo de negócio similar ao de Salvador. A Fundação Tide Setúbal, ONG com forte atuação territorial em São Miguel Paulista, reformou seu antigo Galpão da Cultura e Cidadania­ no Jardim Lapenna – local criado há mais de dez anos para fomentar ações culturais e educativas – e inaugurou um novo polo de conexão empreendedora. O agora renomeado Galpão ZL foi inaugurado no último dia 17 e tem o objetivo de acolher negócios de impacto e iniciativas empreendedoras. Assim como na Lapa em Salvador, o espaço de coworking espera atender principalmente jovens e mulheres.

Neca Setubal discursa no dia do lançamento do Galpão ZL: a Fundação aposta no empreendedorismo de impacto (foto: Aupa)

O espaço renasce para apoiar com proximidade. Segundo Greta Gogiel Salvi, gestora do Fundo Zona Leste Sustentável, da própria Fundação, a organização atua há nove anos com empreendedores locais e identificou a “sevirologia” da periferia e a necessidade de gestão que qualquer empreendimento precisa. O trabalho sistematizado tem hoje o tripé: recurso financeiro, capacitações e acesso ao mercado. Mas talvez, acima de tudo, vem entendendo a necessidade de um acompanhamento personalizado, um apoio pessoal.

O Galpão ZL não vai perder o caráter “de porta aberta” que sempre teve, os serviços de assistência social e ponto de leitura. A programação está sendo construída junto com organizações parceiras, além dos próprios empreendimentos periféricos. Por postos de trabalho rotativo irão trabalhar três principais temas: culinária (foodlab), comunicação, inovação e tecnologia ­– desde tecnologias digitais a ferramentas de soluções de impacto para problemas sociais. Haverá programas de residência, trabalho, geração de renda, salas para eventos, criação de rede de negócios, entre outros.

O trabalho sistematizado tem hoje o tripé: recurso financeiro, capacitações e acesso ao mercado

Com saberes próprios e as tecnologias da comunidade, as mulheres – ainda sem recursos, apoio, espaço e tempo – seguem impactando cada vez mais. Essa radiografia de algo que está acontecendo agora faz alguns retratos. Uma troca dialógica entre periferia e centro, para que o ecossistema se expanda constantemente. Uma contínua abertura, sustentação e transformação desses espaços geográficos e simbólicos periféricos. Uma fértil relação entre empreendedor e território.

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