Um corpo sem cabeça. É assim que Hugo Aguilaniu, diretor-presidente do Instituto Serrapilheira, visualiza um país que não investe em pesquisa e ciência. Ele está à frente da única instituição privada de apoio à pesquisa e divulgação científica do país, cuja concorrência chega a 42 inscritos para uma vaga. Atualmente, no entanto, cerca de 10% dos pesquisadores apoiados pelo Serrapilheira aceitaram ou estão considerando abrir mão do investimento por uma oportunidade fora do país.

“Até um ano e meio atrás, os pesquisadores apoiados pelo instituto recebiam propostas de universidades de fora do país com frequência, mas não aceitavam. São pessoas que já fizeram parte dos estudos fora e escolheram por conta própria voltar para o Brasil. Antes tínhamos apenas um caso de um investido do Serrapilheira que saiu do país, agora seis pessoas já foram embora e outras seis receberam propostas e estão considerando aceitar. Mesmo sem problemas financeiros, não há perspectiva de crescimento para esses pesquisadores no Brasil. Ninguém tem dois, três, cinco anos para perder ficando no escuro”, lamenta Hugo.

Sem valorização, sem segurança, sem vontade de ficar: bem-vindo à realidade de quem faz ciência no Brasil. Em 2021, o orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) regrediu duas décadas, enquanto o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) conta com apenas 22 milhões de reais para fomento à pesquisa – 18% do valor destinado em 2019. Dados da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) mostram que quase 8.000 bolsas permanentes ofertadas pela Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) foram cortadas durante o primeiro ano de pandemia.

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Hugo Aguilaniu, diretor-presidente do Instituto Serrapilheira. Crédito: Divulgação.

Hugo alega que os pesquisadores têm dificuldade de enxergar crescimento a longo prazo e isso só aumenta a fuga de cérebros. De acordo com o diretor e também pesquisador em genética molecular, um cientista depende de um ecossistema produtivo para desenvolver pesquisas. Precisa de produção de conhecimento em conjunto, de laboratórios bem estruturados, de valorização e da certeza de que se pode viver de ciência sem riscos de cortes federais.

Uma fagulha de esperança: conheça o Serrapilheira
Ainda que não seja um substitutivo para o investimento federal – como Hugo faz questão de lembrar -, o Instituto Serrapilheira já financiou 124 projetos de pesquisa e 46 de divulgação científica desde 2017. Fruto de um fundo patrimonial constituído por João Moreira Salles e Branca Vianna Moreira Salles, a iniciativa defende que grandes resultados advêm de uma ciência praticada a partir do risco e da incerteza. Em comparação às bolsas de pesquisa tradicionais, o Serrapilheira oferece mais liberdade para pesquisas ousadas e inovadoras.

Por meio de chamadas públicas para pesquisadores, o programa oferece bolsas de R$200 a 700 mil reais para o desenvolvimento de estudos nas áreas de Ciências Naturais, Ciência da Computação e Matemática – sem foco na Ciência Aplicada, mas, sim, na geração de conhecimento. Além do investimento direto em pesquisa, o instituto tem realizado busca ativa de iniciativas de mídia focadas na divulgação científica, ou seja, canais dedicados a popularizar como funciona e o que faz a ciência brasileira. Um exemplo de sucesso é o biólogo Átila Iamarino, que ganhou notoriedade no YouTube e nas redes sociais com vídeos sobre Virologia, especialmente durante a pandemia.

O instituto ainda estuda formas de manter os pesquisadores no país. No último e mais recente programa ofertado pelo Serrapilheira, o intuito é oferecer formação em ecologia e biologia quantitativas para preparar futuros cientistas na pesquisa transdisciplinar em Ciências da Vida, com foco no uso da Matemática, Física e Ciência da Computação. Sonham em usar o Brasil, país que tem a maior biodiversidade do planeta, como laboratório para uma geração de pesquisadores referência em biodiversidade.

Sem retorno para o Brasil
Victória Ferrari, doutoranda em Ciência e Engenharia de Materiais na Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, estuda o desempenho de baterias de lítio, pesquisa que tem como objetivo desenvolver um produto mais seguro, minimizando casos como os de explosão de celulares em aviões. A pesquisadora tem graduação em Engenharia de Energia, com passagem pela iniciação científica, com bolsa do CNPq, e mestrado em Nanociências e Materiais Avançados, ambos pela Universidade Federal do ABC (UFABC).

Victória Ferrari, doutoranda em Ciência e Engenharia de Materiais na Universidade de Maryland. Crédito: Divulgação.

Prestes a encerrar o mestrado, Victória percebeu que talvez não conseguisse se aprofundar em sua área de pesquisa diante de ameaças de cortes orçamentários. Em meados de 2018, ela começou a se planejar para um doutorado fora do país. Apesar da vontade de retornar ao Brasil, ela ainda teme a incerteza: “Por ter me formado em uma instituição pública, tenho a sensação de que é meu dever como cidadã é retribuir às pessoas que pagaram impostos pela minha educação, mas não sei se no Brasil eu teria emprego. Para quem é doutor, uma das únicas vias é lecionar em universidades. Porém, ficou difícil com a escassez de concursos públicos”, observa.

Enquanto isso, nos Estados Unidos, a pesquisadora alega não encontrar pessoas que se formam no doutorado sem ter garantia de emprego dentro ou fora da academia. Na Universidade de Maryland, Victória recebe salário e benefícios como uma funcionária pública – uma das modalidades de bolsa para pesquisa científica existentes no país. Lá, o financiamento vem tanto de empresas quanto de órgãos federais.

“Não tem muita pesquisa e desenvolvimento financiado por empresas no Brasil, a exemplo das fabricantes de celulares, que simplesmente montam e vendem o produto”, avalia. A pesquisadora estuda patentear o produto desenvolvido durante a pesquisa na universidade norte-americana. Quando finalizar a formação, planeja ficar na academia para um pós-doutorado – não no Brasil, provavelmente.

Ciência na pandemia
Hugo reforça que muitas pessoas ainda desassociam a utilidade da pesquisa científica no dia a dia. “Há um mau entendimento de como funciona a economia de produção do conhecimento, de onde nascem as descobertas. As pessoas usam produtos da ciência cada vez que ligam uma lâmpada, que pegam no celular, que andam em um carro. Passam a vida inteira usando ciência, mas não fazem a conexão de que fabricar um celular, por exemplo, é entender de ondas, radiação e um universo de coisas que nascem em um laboratório”, conta.

É no mínimo contraditório perceber quão longe dos holofotes estão os pesquisadores mesmo durante a pandemia, momento em que descobertas científicas acontecem a todo o vapor, garantindo o avanço no combate à COVID-19. 

“Estudos realizados há anos sobre vacinas de RNA mensageiro possibilitaram o desenvolvimento tão rápido de uma vacina”, analisa Hugo sobre a Pfizer, primeira vacina contra o Sars-CoV-2 aprovada no mundo. Entre 1918 e 1919, pico da gripe espanhola no mundo, estima-se que 50 milhões de vidas foram perdidas até o desaparecimento da doença, cuja cura não foi descoberta. Atualmente, há 11 vacinas para a COVID-19 já aprovadas para uso no mundo.

Segundo o pesquisador, a pandemia expôs à sociedade um tipo diferente de ciência: a que acontece em tempo real, cheia de indagações, mas com poucas certezas. “As pessoas ficaram perplexas, porque esperavam respostas firmes, mas o que há são várias hipóteses e os pesquisadores vão testando – isso é lindo na ciência, essa exploração. O problema é que, no início da pandemia, isso gerou várias contradições e algumas pessoas começaram a usar isso para apoiar uma atitude negacionista”, pontua.

Ser contra o desenvolvimento da pesquisa e ciência no Brasil é apostar na perda de cérebros e fazer o caminho contrário à prosperidade de uma nação. De acordo com o Relatório de Ciências da Unesco – braço das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura -, o Brasil investe 1,26% do PIB em pesquisa, atrás da média global (1,79%) e menos da metade da média dos Estados Unidos (2,84%), país escolhido por Victória e muitos outros cérebros brasileiros.

“O que é investir 1% da sua riqueza para encontrar soluções? Isso define o que um país quer ser. Queremos investir na geração de riqueza e crescimento, no bem-estar, na saúde, no meio ambiente, ou queremos estar em um lugar onde nenhuma dessas preocupações existe? A ciência é uma forma de iluminar o nosso mundo e, nesse momento, estamos perdendo a luz”, Hugo analisa.

“Posso dizer, com certeza, que eu e meus colegas tivemos uma excelente educação – em termos de graduação, até melhor que a dos Estados Unidos. Mas não há incentivo [para seguir na área da pesquisa]. Tenho muitos colegas engenheiros que hoje trabalham em bancos, por exemplo”, lamenta Victória.

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