Texto: Fernanda Patrocínio  Vídeo: Fábio Ranzani   Motions: Back2basics   Ilustração: Murilo Mendes

A história dos negócios de impacto é também a história das consequências positivas e negativas da humanidade e da globalização. São as narrativas e os fatos sobre a busca de soluções para problemas que nos afetam sócio, econômico e ambientalmente – escassez e concentração numa equação que não fecha, nem ao curto e nem ao longo prazos. A Aupa, em parceria com o Instituto Sabin, apresenta uma história possível, dentre tantas maneiras de relatar esta movimentação global, de como o ecossistema de impacto se constitui no Brasil, a partir do resgate histórico de seus agentes e conceitos, que atuam em constante transformação e de sua formação atual, assim como o mundo no qual estamos inseridos. Existem questões e problemas antigos e novos, que impactam a humanidade há tempos; porém, agora eles passam a serem enfrentados com novas ferramentas, advindas do mercado. Tal instrumental traz possíveis soluções e, ao mesmo tempo, questionamentos, como: seriam estas “novas” ferramentas adequadas para reverter os problemas de impacto socioambiental? O uso do termo ecossistema não é por acaso, numa história que pode ser entendida a partir do incômodo gerado em consequência da excludente predação e da esperança em soluções que só podem vir de associações coletivas e simbioses. O conteúdo a seguir está inserido dentro dessa constante construção, e segue aberto as profundas transformações que nossa sociedade vive. 

 


PARTE 1

A HISTÓRIA E O NOVO: CONTEXTOS E PRÁTICAS

O mundo pós-Grandes Guerras viveu saltos no que diz respeito a escassez e utilização de recursos naturais, taxas de natalidade, crescimento populacional, desenvolvimento científico e concentração de pessoas nos grandes centros. Para se ter uma ideia da diferença: a Organização das Nações Unidas (ONU) foi criada em 1945 e, segundo sua própria estimativa, em 1950 a população mundial era de 2,6 bilhões de pessoas; em 2019, este número é de 7,56 bilhões de pessoas. Ou seja, a população praticamente triplicou em 70 anos e uma série de mudanças sociais, econômicas, geopolíticas e culturais aconteceu também. Dos baby boomers, passando pela Guerra Fria, além de hippies e movimentos de contracultura pelo mundo, aumento de consumo, êxodo rural, industrialização, globalização e capitalismo. E o que isso tudo tem a ver com o ecossistema de impacto e sua história? – Tudo!

Esse contexto de grandes mudanças carrega também novos comportamentos, aumento de consumo e de desigualdades, além de exclusões. É difícil cunhar o momento exato em que os negócios de impacto surgiram, pois, a prática de ter um movimento, uma solução ou um serviço visando o bem comum é atemporal. Porém, com a nova organização e a maturação do capitalismo global, algumas movimentações nos permitem apontar marcos importantes. Se o Ocidente vivia as resistências políticas contra ditaduras e sua censura (como foi o caso da América Latina a partir da década de 1960) e a favor do reconhecimento de Direitos Civis (como ocorreu nos Estados Unidos com o movimento pelos Direitos Civis dos negros, na década de 1960), a Ásia também dava sua resposta à pobreza extrema enfrentada pelo país. Em 1976, o bengalês Muhammad Yunus desenvolveu o modelo de microcrédito para atender às famílias de pequenos produtores rurais em Bangladesh, sobretudo às populações miseráveis, sem acesso a qualquer tipo de crédito em bancos convencionais. Vale dizer que, em 1990, apenas 30% da população deste país sul-asiático marcado pela pobreza extrema era alfabetizada. Este modelo focava o empréstimo à mãe das famílias – modelo este que, ao longo das décadas seguintes, foi replicado por outros países para políticas sociais, como o próprio Bolsa Família, no Brasil. Yunus é também quem cunhou o termo negócios sociais, que derivou, posteriormente, às noções de negócios de impacto e negócios de impacto social, que se diferenciaram quanto aos lucros e à sua distribuição.

Entenda aqui a diferença entre os termos

A filantropia também faz parte do vocabulário para entender o percurso histórico dos negócios de impacto. Antes mesmo do surgimento do termo negócios de impacto, a filantropia já acontecia no Brasil, afinal, ela data desde o Brasil Colônia e está ligada às organizações, sobretudo com enfoque social e voluntário, encabeçadas pela Igreja Católica. A prática, no Brasil, apresentou desenvolvimento extraordinário desde o fim da ditadura militar, em 1985, segundo levantamento “O futuro da filantropia no Brasil”, feito pelo Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (GIFE). A partir dos anos 1990, a filantropia consolida-se e novos atores surgem a partir desta agenda, embora com pautas que possam surgir de diferentes aspectos dos dilemas socioambientais. Ou seja, enquanto há iniciativas que virão de mobilizações do mercado para doações, há outras que surgem em comunidades, coletivos e organizações da sociedade civil (OSCs). Embora possa haver tensão quanto à relação entre negócios de impacto social, sobretudo o investimento social privado, e a própria efetividade da filantropia, a relação entre estes dois lados é mútua. Aliás, vale ressaltar que, a formação e a consolidação da agenda de investimento social dialogam diretamente com a filantropia. Por isso a importância de agentes como fundações, institutos e mobilizações de indivíduos (sozinhos e organizados) para esta ponte e negociação dentro do setor de impacto. Auxilia no entendimento, assim, do setor de impacto ser reconhecido como setor 2.5, pois ele está entre o setor 2, ligado ao mercado e às organizações privadas, e o setor 3, que versará sobre uma participação não governamental e voluntária de um conjunto de agentes e entidades com o objetivo de obter soluções de âmbito público e não lucrativo.

A economia solidária faz parte também deste contexto de mudanças que visa alcançar soluções para problemas socioambientais, a partir da geração de renda e do trabalho. Ela pode ainda ser entendida como uma alternativa à economia capitalista, mesclando-se ao cooperativismo e à autogestão. A economia solidária traz como premissas: distribuição dos resultados no empreendimento, gestão democrática e participativa e controle coletivo dos meios de produção, distribuição, comercialização e crédito. O economista Paul Singer (1932-2018) foi uma das referências nos estudos e desenvolvimento de políticas voltados à esta economia, tanto no Brasil quanto no exterior. Em 1998, Singer ajudou a criar a Incubadora Tecnológica de cooperativas Populares da Universidade de São Paulo. Ele atuou ainda como titular Secretaria de Economia Solidária (SENAES) do Ministério do Trabalho e Emprego, em 2003. Assim, introduziu o projeto acerca de bancos comunitários para erradicar a pobreza.

As primeiras movimentações em relação a uma proposta semelhante à economia solidária começaram nos anos 1970, com a Crise do Petróleo e suas consequências com endividamento das nações, como o Brasil. Soma-se ainda o momento que o país vivia, caminhando-se para a reabertura política que aconteceria em 1985, com manifestações populares, desemprego e a atuação dos sindicatos. A economia solidária surge justamente para combater a miséria e o conceito como o conhecemos hoje foi cunhado nos anos 1990, mas sua atuação surge das urgências aqui elencadas.

Apesar das mudanças históricas dos termos econômicos, também partindo do entendimento dos negócios com propósito positivo coletivo e de mudanças e contextos para ações de mercado não só predatórias, como a economia solidária e os novos sentidos para negócios sociais e de impacto, a caixinha das nomenclaturas importa menos do que a efetividade positiva das soluções apresentadas à base da pirâmide social. Luciano Gurgel, gestor da área de investimentos da Yunus Negócios Sociais Brasil, empresa que chegou ao país em 2013, acredita que ainda hoje o termo negócios sociais não está superado.

“O norte usado por aqui e por toda a indústria de investimento de impacto é a questão dos negócios como uma ferramenta para solução de problemas sociais. E, neste sentido, eu acho que é um termo mais atual do que nunca”,

Luciano acredita também no crescimento do número de negócios que se propõem a promover a solução de problemas sociais e ambientais. Enquanto o ecossistema cresce, os conceitos vão se aprimorando e os termos se moldando. Vale ressaltar porém que o debate sobre os formatos jurídicos permanece. Parte do ecossistema tende a abordar os negócios de impacto social como empresas alinhadas a lógica de mercado e com preocupações sociais; outra parte prefere abordar as iniciativas alinhadas a modelos como cooperativas ou OCSs. As ideias seguem em debate no setor.

Outro ponto relevante para entendermos o contexto deste movimento global que potencializa o ecossistema de impacto é a criação dos BRICS, em 2006, que trata da coordenação e cooperação entre os emergentes Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. No Brasil, destaca-se ainda o uso exacerbado de recursos naturais numa tentativa de crescimento do país nos últimos 150 anos, a desigualdade como herança social somadas às políticas sociais implementadas após a reabertura política e a implementação da Constituição, em 1988. Desde a queda do Muro de Berlim, em 1989, problemas relacionados ao meio ambiente, sobretudo, sua devastação, têm sido confrontados, de modo a questionar as consequências do capitalismo e dos mecanismos para geração de lucro. A Floresta Amazônica passou a ter atenção global (não só para sua preservação, mas também pelo potencial de seus recursos que podem ser explorados). No Brasil, neste fim de década de 1980, criou-se o Programa Nossa Natureza, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), dentre outras estruturas para monitoramento das matas e demais recursos naturais. Em virtude também da atuação da Frente Verde, houve a inclusão do Capítulo do Meio Ambiente à Constituição Federal de 1988, referente ao Art. 225. Nele, declara-se o direito ao cidadão ao “meio ambiente ecologicamente equilibrado”. Não por acaso a Confederações das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (Eco-92) ocorreu no Rio de Janeiro, em 1992.

Vista aérea do rio Amazonas (foto 2019) crédito: wikimedia

Os negócios e o dinheiro perpassam por todos os problemas e consequências socioambientais apresentados até aqui. O próprio termo sustentabilidade envolve-se cada vez mais com o universo de business. E neste crescimento outras palavras ganham força nos negócios, como bancos comunitários (como o Banco Palmas, em Fortaleza, inaugurado em 1998; o primeiro dos mais de 100 bancos comunitários no Brasil), economia solidária (e demais estudos do economista Paul Singer), moeda social, economia criativa, economia circular, fintechs, internet e redes sociais, empresas unicórnios, Big Data, startups até chegarmos à gig economy. Em 2015, a ONU lançou a agenda 2030, que traz 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) para transformar o mundo – pauta bastante norteadora para o desenvolvimento do ecossistema de impacto hoje.

Em 2002, os professores Coimbatore Prahalad e Stuart Hart, por sua vez, trazem à tona o termo negócios com a base da pirâmide, ou seja, com a população de baixa renda. O conceito de negócios inclusivos surge como uma resposta à essa perspectiva. “A ideia era separar o que efetivamente significava acesso a serviços que gerariam melhoria de qualidade de vida das populações do que era exploração de um mercado de baixo valor agregado e que operava em grandes volumes. Rapidamente ficou muito claro que não seria possível existir negócios inclusivos em mercados que não operassem na mesma lógica”, explica Paulo Rocha, ex-gerente de programas sustentáveis e negócios inclusivos na Fundação Avina (2005); hoje, Rocha é líder de Programas Socioeconômicos da Fundação Renova, entidade responsável pela mobilização para reparação dos danos causados pelo rompimento da barragem do Fundão, em Mariana (MG), em 2015.

No mesmo período, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) entrou no circuito com o conceito de mercados inclusivos. Já na América Latina, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) também comprou essa proposta. “Durante um certo tempo, os principais atores envolvidos se dedicaram a construir esses mercados, o que, hoje, poderia se assemelhar ao conceito de ecossistemas de impacto. Até que, nos Estados Unidos, surgiu o movimento de Investimento de Impacto, capitaneado por várias instituições, entre elas a Rockfeller Foundation”, pontua Rocha. A partir de moldes dos fundos de venture capital e se apropriando de metodologias e terminologias do setor de inovação tecnológica, os fundos começaram a surgir na América Latina.

“O México foi o primeiro epicentro de impacto na América Latina. Porém, naquele momento havia chegado dinheiro e investidores, mas não havia muitos negócios”, relata Rocha.

 


PARTE 2

CONSOLIDAÇÃO E ECOSSISTEMA BRASILEIRO

A consolidação do ecossistema de impacto no Brasil pode ser entendido com o aparecimento de agentes que foram surgindo, sobretudo na década de 1990. É a partir desse movimento que bases conceituais são construídas e organizações de referência são criadas.  Entre o final do século XX e início da década de 2000 que se inicia a trajetória do ecossistema de negócios de impacto.

A criação da Fundação Avina, em 1994, pelo empresário Stephan Schmidheiny, é um destes marcos de empresas que trazem propósito de produzir transformações por intermédio do processo de colaboração. “Começamos na Avina com a agenda de negócios inclusivos nos idos de 2005. Fomos muito criticados pela heresia de misturar a palavra sagrada ‘inclusão’ com a palavra demoníaca ‘negócios’, explica Rocha. “Por mais que a Natura já fosse uma referência de responsabilidade social empresarial, a ideia de se ganhar dinheiro prestando um serviço social ainda era tabu”, completa. Assim, o primeiro passo foi mapear os negócios inclusivos. “Os resultados foram basicamente projetos de geração de renda implementados por OSC [Organização da Sociedade Civil]”, afirma.

Maure Pessanha da Artemisia: liderança feminina foi fundamental para consolidar o pioneirismo da organização

Em 2004, a Potencia Ventures, fundo de investimento de impacto, diante do potencial e do momento político-econômico propício no Brasil para desenvolvimento de negócios, fundou a Artemisia, organização sem fins lucrativos que fomenta negócios de impacto social. A organização nasceu do sonho da norteamericana Kelly Michel, então com 23 anos, que acreditava ser possível integrar negócios e impacto social. Kelly queria apoiar a criação e implementação de negócios que ajudassem a dar mais acesso à saúde, educação, moradia, serviços financeiros para pessoas de baixa renda. Queria estimular o surgimento de empresas que oferecem, de forma intencional, soluções escaláveis para problemas sociais da população de baixa renda. Kelly fundou a Artemisia e logo chamou sua companheira Maure Pessanha que ajudou a fortalecer e sedimentar a trajetória da aceleradora de negócios de impacto social pioneira no Brasil. Com Maure, a organização cresceu e se tornou referência para todo ecossistema.

“Quando começamos essa história de investimento de impacto ainda era muito incipiente. a nossa inspiração, claramente, foi a Artemisia, a primeira a falar em negócios sociais e negócios de impacto social no Brasil”

A frase é de Daniel Izzo, CEO e cofundador da Vox Capital, empresa criada em 2009, a qual o capital empreendedor investe em negócios inovadores e de alto impacto à população de baixa renda. A Vox Capital é a primeira gestora de impacto no Brasil. Izzo destaca ainda o papel do Impact Hub, que atua no Brasil há 10 anos, organização ligada a uma rede global de empreendedores voltados à transformação social. “Com atuações similares, há ainda o fundo indiano Aavishkaar [Venture Capital] e a organização norte-americana Acumen, também um fundo de investimento de impacto”, cita o CEO da Vox Capital. A Ashoka, organização global sem fins lucrativos, cujo trabalho foca o empreendedorismo social, por sua vez, não se vê como um agente protagonista do ecossistema de impacto. “O papel da Ashoka foi o de criar e fortalecer o campo do empreendedorismo social, que pode acabar incluindo negócios sociais como um dos desdobramentos da expansão do campo”, afirma Rafael Murta, coordenador da rede de empreendedores sociais da Ashoka Brasil. A organização chegou ao país em 1986 e não leva em consideração o modelo de negócios, mas, sim, a capacidade do impacto gerado, segundo Murta. Dentre outros players globais, destaca-se também a Grameen Foundation, entidade norte-americana que trabalha junto ao Grameen Bank, o primeiro banco de microcrédito do mundo, fundado por Yunus.

Os agentes em rede também são de suma importância para a dinâmica e as aproximações dentro do ecossistema de impacto. Alguns exemplos são instituições como Sistema B, Aspen Network of Development Entrepreneurs (ANDE) e Global Steering Group for Impact Investing (GSG) e Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP). “Não à toa a Vox trouxe a ANDE ao Brasil. Criamos um grupo de trabalho de investimento de impacto, que é a ABVCAP. É fundamental termos outros players e muito mais gente para atingirmos o objetivo de que os negócios trabalhem como força de transformação social positiva”, explica Izzo.

A Artemisia tem seu trabalho destacado também por Rocha, por ter adotado um “Modelo de fomento a negócios inovadores copiado do setor de tecnologia americano e que hoje prevalece com excelentes resultados”. Há ainda a SITAWI, uma organização social de interesse público (OSCIP), e a Rede Asta, que é um negócio social. “Não podemos deixar de citar a criação do Hub da rede ANDE Brasil, da NESTs, da Tecnoserve, do fundo Vox Capital, dentre outras instituições que surgiram para apoiar os empreendimentos”, coloca Rocha. Em relação aos investidores, vale ressaltar também que o caminho, conforme apresentado, vai além da filantropia, abrindo caminhos para Family offices.

O Instituto de Cidadania Empresarial (ICE) também destaca-se por impulsionar a agenda dos negócios de impacto. A OSC atua há 20 anos e mudou sua estratégia há 7: o tema antes chamado de “’finanças sociais” hoje é “investimentos e negócios de impacto”. Uma adequação atendendo à característica orgânica de constituição do ecossistema. Beto Scretas, consultor do ICE, afirma que há desafios para os diferentes segmentos a serem articulados. “Para fundações e institutos, há ainda uma questão regulatória de uma zona cinzenta sobre a atividade destas fundações e destes institutos, se eles podem ou não livremente investir em produtos financeiros de impacto. Para os investidores ainda há falta de produtos financeiros de impacto. Já para os empreendedores realmente é aquela dificuldade de fazer negócio, de ser uma startup, de fazer e montar um negócio no Brasil, que é inerente a qualquer negócio. A dificuldade adicional do setor está ainda na necessidade de mensurar o seu impacto social e ambiental”, explica ele. O movimento para conectar organizações e temas estratégicos está na Aliança pelos Investimentos e Negócios de Impacto (antiga Força Tarefa de Finanças Sociais), lançada em 2015.

“Precisa de um caldo de cultura [regulatório, cultural e legal] favorável, as pessoas mudando a chavinha para pensar também no impacto que o seu dinheiro causa, não só no risco e no retorno que está ocorrendo”,

Segundo o “Mapeamento dos negócios com impacto social no Brasil”, desenvolvido por Luciana Aguiar e Vivianne Naigeborin, feito a partir de 50 negócios investigados em profundidade, há grande diversidade de negócios de impacto social e sua concentração está no Sudeste, com 50%. Já a partir da amostra de 40 desenvolvedores, ou seja, o grupo de incubadoras, aceleradoras e OSCs, nota-se que o maior surgimento deu-se após a implantação do Plano Real. Enquanto a região Sudeste concentra 35% das incubadoras e 79% das aceleradoras, o Norte apresenta baixa presença de desenvolvedores, embora seja a região onde estão concentradas as classes D e E. Apesar das discrepâncias nos dados, há iniciativas que revelam diálogos entre diferentes atores do ecossistema. Um exemplo deste dado é ANIP (Aceleradora de Negócios de Impacto da Periferia), uma parceria entre a produtora cultural social A Banca, a Artemisia e a Escola de Administração de Empresas de São da Fundação Getúlio Vargas (EAESP/FGV), aproximando periferia e empreendimentos da base da pirâmide, uma organização especializada em fomento em negócios de impacto e academia. Além da FGV, destacam-se ainda os trabalhos práticos da FEA Social USP, Habits Incubadora-Escola Usp leste e Incubadora Social da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) sobre inovação social e impacto em empreendedores de baixa renda.

Dj Bola em evento que anunciou os 10 selecionados do programa de aceleração da ANIP em 2019

Uma das redes mais importantes do ecossistema de impacto é o Sistema B, movimento global que fortalece as articulações entre empresas, pensando em lucros aliados a benefícios socioambientais, mobilizando também massa crítica aos negócios de impacto aliados à responsabilidade social. No Brasil, 160 empresas são certificadas B. “A rede acaba criando uma identidade, fortalecendo conceito e uma cultura. Esta última seria um jeito de pensar e de fazer negócios, causando impacto positivo”, conta Marcel Fukayama, cofundador do Sistema B Brasil, que chegou ao país em 2014; o movimento originário nos Estados Unidos surgiu em 2006.

A posição do Sistema B acaba sendo estratégica dentro da formação do ecossistema. “Primeiro, porque constitui uma rede de empreendedores e empresários comprometidos com uma nova forma de fazer negócio e gerar impacto positivo. Segundo, porque a gente cria infraestrutura para uma mudança de cultura empresarial acontecer”, comenta Fukayama. Tal infraestrutura passa também por gestão de impacto e governança de impacto. “O Sistema B acaba criando uma infraestrutura, seja ela jurídica, seja ela empresarial e de mercado, para que empresários e investidores possam atuar juntos na construção dessa Nova Economia”, destaca o presidente do Sistema B.

Diálogos com o governo, em suas diferentes esferas, não ficam de fora da movimentação do ecossistema. A Estratégia Nacional de Investimento e Negócios de Impacto, o ENIMPACTO, trata de uma “Articulação de órgãos e entidades da administração pública federal, do setor privado e da sociedade civil com o objetivo de promover um ambiente favorável ao desenvolvimento de investimentos e negócios de impacto”, segundo a explicação oficial da página do Ministério da Economia, que atende também o antigo ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços. Criada em dezembro de 2017, a política, a partir dos diálogos de seu Comitê (formado por 25 membros/representantes), tem dez anos para implementar ações para articulações entre órgãos do governo e sociedade civil para a promoção do tema no Brasil. Trata da eliminação da zona cinzenta regulatória, como enfatizou Scretas.

As negociações entre os setores público e privado nem sempre são fáceis, contudo. “Em geral, o setor público é muito avesso à inovação, o que é agravado pelas regras de compras de bens e serviços, que travam os processos de aquisição e levam ao gestor, por conservadorismo, a adotar soluções consagradas, mas não necessariamente inovadoras”, explica Haroldo Torres, cofundador da Din4mo, empresa especializada em negócios de impacto social. Os trabalhos da Din4mo atingem empreendedores e investidores de impacto, através do desenvolvimento de instrumentos inovadores para o campo, a partir do equity crowdfunding ou de recursos às debentures de impacto.

Segundo Torres, os modelos público-privados costumam ser pensando para o setor de infraestrutura, como as estradas, raramente são construídas soluções para a área social.

“Este é um campo onde os negócios de impacto tem ainda muito a evoluir, mas depende de regulamentação inovadora e de uma nova compreensão por parte do setor público a respeito das possibilidades existente no campo de negócios de impacto”

Ainda para compor o ecossistema, há a cobertura midiática e suas premiações. Nomes como Folha de S.Paulo (FSP), Época Negócios, Projeto Draft, Notícias de Impacto, Aupa e coletivos de comunicação que integram a rede de jornalistas da periferia participam desta circulação, de modo que as coberturas potencializam resultados e discussões que ocorrem no ecossistema. O início da ponteAponte, que integra e promove alianças entre organizações da sociedade civil e negócios sociais, está bastante ligado ao Prêmio Empreendedor Social, da FSP – pois dois de seus sócios-fundadores trabalharam no jornal e na editoria do prêmio. “Toda iniciativa séria, sejam prêmios, desafios ou editais, que visa reconhecer o trabalho de impacto, não apenas de empreendedores sociais, mas de organizações da sociedade civil, ou mesmo de coletivos, movimentos ou pessoas físicas, tem um papel importante no ecossistema, atenta Vanessa Prata, sócia-fundadora da ponteAponte. A organização lançou em 2018 o Prêmio Jornalista de Impacto, que visa reconhecer o trabalho de jornalistas, de mídias tradicionais e alternativas, que disseminem temas ligados aos investimentos e negócios de impacto, bem como inovação e transformação social.

Todas organizações e movimentos referenciados fazem parte de um processo orgânico e heterogêneo para a formação constante do ecossistema de impacto; trata-se da ilustração de uma série de movimentos que dizem respeito ao início dos negócios de impacto social no Brasil. Desse modo, observa-se a efervescência na criação de empresas e instituições norteadoras no setor, assim como as bases conceituais e sua legislação.

É preciso lembrar, contudo, que tais ações fazem sentido à medida que a base da pirâmide social ganha espaço para agir, opinar, errar, empreender e transformar, assim como pretendem os demais agentes do ecossistema.


PARTE 3

A HISTÓRIA ACONTECENDO: MOVIMENTAÇÃO CONSTANTE

Dados alertam para a importância da constante movimentação e inovação dentro do ecossistema de impacto no Brasil, considerando os problemas socioeconômicos que o país enfrenta. Muitos desses problemas, como a fome, são considerados crônicos e, à medida que as desigualdades aumentam, os problemas nas camadas mais pobres da base da pirâmide social se agravam. Segundo o relatório do Índice de Pobreza Multidimensional Global 2019 (IPM), feito pelo PNUD e pela Oxford Poverty and Human Development Initiative (OPHI), cerca de 7,7 milhões de brasileiros (3,8% da população) encontram-se em condições de pobreza multidimensional. Esta é definida por medidas unidimensionais, que engloba várias privações vivenciadas cotidianamente por pessoas em situações de pobreza. Algumas dessas dimensões são: saúde, trabalho e educação precários, falta de empoderamento, ameaça de violência, más condições de habitação, de acesso a água e eletricidade. Ainda de acordo com o relatório e com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD), a saúde é a dimensão que mais contribui com a pobreza, com 49,8% do IPM – privações em saneamento básico (11,9%), escolaridade (19,8%) e elevada mortalidade infantil (49,8%).

Dado tal cenário somado ao próprio ecossistema de impacto, que busca, cada vez mais, expandir e consolidar negócios e propósitos positivos, o PNUD Brasil, em parceria com o setor privado, desenvolveu a Iniciativa Incluir. Trata-se da promoção de soluções empresariais que incluam pessoas de menor renda no seu modelo de negócio, de modo a reduzir a pobreza e apoiar o desenvolvimento mais inclusivo. Dos objetivos alcançados, a Iniciativa Incluir trouxe 54 soluções tecnológicas desenvolvidas de maneira comercialmente viável, alinhadas aos ODSs.

 

Segundo pesquisa da Global Entrepreneurship Monitor (GEM), o Brasil tem 52 milhões de donos de negócio próprio, tendo a maior taxa de empreendedorismo total entre os BRICs – 38%. De acordo com o último Mapa da Pipe.Social, hoje há 1002 negócios que, além do lucro, buscam também atender ao menos um dos ODSs. O Sebrae afirma que, dos brasileiros entre 18 e 64 anos, 36 a cada 100 tem negócio próprio, exerce atividade empresarial ou está no caminho desta atividade. Vale lembrar que, no segundo trimestre de 2019, o índice de desemprego registrado foi de 11,8%, em média, ou seja, cerca de 12,5 milhões de brasileiros, segundo o IBGE. Sem emprego formal e com barreiras econômicas, legais e burocráticas, empreender traz também reflexos dos nossos tempos. Afinal, é dono do próprio negócio o empresário que cujo negócio está com o capital aberto na bolsa e também donos de pequenos comércios e prestadores de serviços, como microempreendedores individuais (MEI) – e todos estes casos fazem parte do ecossistema empreendedor no Brasil e parte entra na história dos negócios de impacto, a partir das transformações locais, sobretudo socioambientais, e positivas. Por isso é importante também a leitura histórica de conceitos e práticas – a nomenclatura bate com a ação e vice-versa?

Frente as consequências das diferentes ondas políticas econômicas que ocorrem no Brasil e no mundo, ao longo das décadas, Fukayama explica que a Nova Economia é mais inclusiva e mais sustentável. “Ela é, sem dúvida, fundamental para posicionar os negócios e as empresas do setor privado como protagonistas na criação de soluções de mercado que resolvem problemas ambientais e sociais complexos”. O presidente do Sistema B enfatiza ainda que, de acordo com a ONU, a implementação dos ODSs tem uma projeção de custos de US$ 4 trilhões. “É irreal pensar que somente o governo ou somente a sociedade civil, através da filantropia, serão suficientes para implementar essa agenda. Por isso a mobilização de capital privado e de soluções de mercado são fundamentais. Então, a gente está vendo uma nova onda, uma nova geração de negócios, de economia regenerativa, de economia circular, de economia colaborativa e de economia criativa, que estão criando soluções que resolvem e endereçam problemas sociais e ambientais complexos”.

Contudo, vale o questionamento se o domínio das pautas sobre o ecossistema de impacto não seria uma manutenção do status quo da elite econômica – advinda, sobretudo, do setor privado, obviamente. O escritor Anand Giridharadas, no best seller Winners take all – the elite charade of changing the world (Editora Allen Lane, 2019), contrapõe o discurso de que seria o setor privado quem resolverá os problemas socioambientais. Diante desta dúvida, ele traz à tona a importância do fortalecimento da esfera pública. Pensando no futuro do ecossistema: seriam, portanto, as ferramentas, as práticas e as visões que auxiliariam nas soluções de problemas como a desigualdade, as degradações e as migrações? Faz-se necessário um avanço mais complexo do que a doação abundante – e é essa também uma das provocações de Giridharadas: há de fato uma transformação partindo do topo da pirâmide social ou seria uma falsa filantropia moderna?

Ainda sobre o contexto atual que o ecossistema de impacto enfrenta, há o preocupante dado sobre os recursos naturais disponíveis para o ano. Segundo cálculo da pesquisa Global Footprint Network, no último 29 de julho foi registrado o Dia da Sobrecarga da Terra – o mais adiantado de todos desde que o registro passou a ser feito. Trata-se do esgotamento cada vez mais precoce dos recursos naturais disponíveis na Terra. Tal gasto desenfreado do capital natural está na pauta da ONU, por meio do programa de ações para o meio ambiente, como os ODSs e o Acordo de Paris, que visa reduzir o avanço do aquecimento global. E este cenário está ligado também ao modo como ocorre o crescimento econômico no mundo.

Sendo assim, é inevitável pensar como os setores nos quais os negócios sociais se distribuem afetam diretamente a vida das gerações futuras, tendo um impacto além do presente. Além do meio ambiente, áreas como educação, saúde, moradia, tecnologia, agricultura e pautas identitárias, como o respeito aos povos indígenas e à afrobrasilidade também transversalizam as principais propostas que envolvem negócios de impacto. Segundo o Mapa da Pipe.Social, negócios que envolvem tecnologia costumam ser mais escaláveis e acabam tendo preferência aos olhos dos investidores. Novos tempos.

Para projetar um cenário futuro, é inevitável que o ecossistema saiba lidar com contradições que marcam o processo de cada empresa e a busca por soluções socioambientais. Faz-se preciso também potencializar as diversas formas de ser um negócio de impacto ou mesmo uma organização intermediária. Acerca desta última, destaca-se, sobretudo, o crescimento dos negócios de impacto da periferia, as aceleradoras de ONGs, além da regionalização da pauta de impacto no Brasil, os olhares críticos e analíticos vindos da academia e também a cobertura feita por veículos independentes. Para esta avaliação, nada melhor que as palavras de Vivianne Naigeborin, superintendente da Fundação Arymax, com atuação de 12 anos como conselheira na Artemisia, que vivenciou de perto todas as transformações do setor de impacto social no Brasil desde o início dos anos 2000. Considerando presente e futuro, ela atenta que: “A busca por combinar impacto social e geração de receita, conceito que originou esse campo no Brasil, tinha e ainda tem, como visão de futuro, inspirar a criação de soluções genuinamente comprometidas com a criação de uma sociedade mais justa, inclusiva e sustentável”.

A curiosidade, portanto, é uma aliada. “Para chegarmos lá, temos que seguir questionando as premissas que regem os atuais modelos de negócio que conhecemos e propor inovações e melhorias contínuas até conquistarmos o impacto social que buscamos”, ressalta Naigeborin, que é realista reconhecendo que o caminho é longo, embora avanços significativos já tenham se revelado. “É igualmente importante criar os meios necessários para ampliar o espaço de participação de empreendedores da periferia como protagonistas de suas próprias soluções e seguir fortalecendo a atuação das organizações da sociedade civil, especialmente as que atuam nos territórios”, destaca.

“É na somatória de esforços destes atores que eu espero que se construam as bases do que está por vir”, conclui ela. Essa conta só pode fechar se a perspectiva considerar pluralidade, diversidade e riqueza também nos modos de fazer impacto, indo além daquilo que o “mercado de impacto” quer nos fazer acreditar.


* André Luís Patrício é ator, recentemente participou da Série da Rede Globo “Segunda Chamada” e atuou nos filmes, O dia de Jerusa, Ninjas, Os Doze Trabalhos e na minisérie Amor em 4 atos, entre outros.

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