BioEmpreendedorismo como alicerce de um novo marco civilizatório

Enquanto não encararmos as barreiras internas das crenças que nos impedem de redefinir um novo pacto civilizatório, ético e político, viveremos apagando os incêndios causados pelo paradigma que tem no lucro máximo o seu santo graal.

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Todo empreendedor deseja transformar a realidade e cocriar o futuro. O que diferencia um empreendedor social de um empreendedor tradicional são as suas motivações, assim como a dimensão e a amplitude da realidade que desejam transformar. O primeiro tem como centralidade do seu modelo de negócios gerar soluções para grandes problemas que afligem a humanidade e o planeta, tais como a pobreza, a fome, o acesso à saúde, educação, enfim, a uma vida mais digna em um planeta mais sustentável. A grande maioria das vezes, não só cria um produto ou serviço como também estrutura mercados para atender necessidades reais. O segundo foca o seu modelo de negócios para capturar boas oportunidades de mercado e trata o impacto social e ambiental como externalidades, sejam positivas ou negativas. A grande maioria das vezes, desenvolve produtos e serviços que criam necessidades em mercados existentes e estruturados.

Minha observação empírica sobre esses dois perfis de empreendedores me leva a crer que há um racional e uma mecânica que norteiam as respectivas formas de escolher e decidir os respectivos caminhos dos seus negócios, cada uma alicerçada nas crenças e percepções sobre até onde vai a sua responsabilidade como ator social. Empreendedores sociais olham para o mundo com a noção de que seus atos influenciam ecossistemas sociais, ambientais e econômicos e que são protagonistas integrais do futuro que emerge. Para estes, as escolhas do negócio, inclusive as econômicas, são tomadas colocando em um mesmo patamar (quando não são efetivamente subordinadas) os aspectos de impactos sociais e ambientais. Empreendedores tradicionais olham para o mundo de forma mais reducionista e apoiados em uma filosofia mais individualista, sendo os problemas sociais normalmente de responsabilidade dos governos, das ONGs, dos atores outros. Para estes, as escolhas do negócio são orientadas pela dinâmica da maior rentabilidade.

Me pergunto se é possível evoluirmos como espécie e sociedade enquanto não formos capazes de compreender, com uma visão sistêmica, que não há intervenção na realidade e cocriacão de futuro sem impacto e que, quando estes não são considerados como variáveis da equação que definem o futuro, normalmente o resultado coletivo não é bom.

Haja visto a necessidade de hoje precisarmos de uma agenda global com Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, como pauta prioritária para a sobrevivência do planeta e das sociedades. É um fato facilmente comprovado com evidências que somos interdependentes e não independentes.

Mas se assim é, será mesmo verdadeira a premissa que embasa a filosofia individualista, de que o ótimo local / individual leva ao ótimo global / coletivo? As evidências oferecidas pelos indicadores sociais, econômicos e ambientais dos nossos últimos 40 anos parecem contradizer essa hipótese. Ainda assim, o que vemos hoje na maior parte das universidades que tratam de negócios é a repetição do mantra da maximização do lucro como principal objetivo de uma empresa existir. Jovens sendo doutrinados por um pensamento que já não sobrevive à análise dos impactos das suas próprias práticas, qualquer que seja a ótica que se deseje observar.

Urge ressignificarmos o que é sucesso em nossa sociedade, tanto individual, como familiar, econômico, social e ambiental. Urge criarmos infraestrutura e mecanismos que desafiem a reprodução de padrões carcomidos e alicerçados em narrativas fracas, posto que não subsistem a uma avaliação que se paute em verdadeira honestidade intelectual. Urge criarmos condições para que jovens e novos empreendedores abracem a causa do impacto como a essência dos novos negócios. Urge fazermos um exame de consciência sobre como encaramos a nossa responsabilidade por um futuro comum.

Toda ação humana deveria estar subordinada a condição de criar as condições para a perpetuidade da vida planetária. Isso significa estar subordinado a atender as condições para que cada ser humano possa ter acesso a condições de realizar o seu potencial humano, mas também que isso seja feito de forma a não comprometer a existência das espécies vivas e as futuras gerações. No campo dos negócios, esse BIOEMPREENDEDORISMO, redefine as escolhas, pauta as decisões, ressignifica sucesso, constrói pontes e busca complementaridade e sinergias na diversidade.

Enquanto não encararmos as barreiras internas das crenças que nos impedem de redefinir esse novo pacto civilizatório, ético e político, viveremos apagando os incêndios causados pelo paradigma que tem no lucro máximo o seu santo graal.

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