O quanto você conhece do ecossistema de impacto além de São Paulo e do Sudeste, onde os investimentos e as iniciativas estão concentrados? Parte da resposta para este exercício mental está relacionada ao quanto conhecemos das potencialidades do nosso país. De tamanho continental e rico na pluralidade cultural, o Brasil apresenta também discrepâncias sociais e muitos problemas que demandam soluções socioambientais das mais variadas. Quando não se tem a devida atenção dos investidores, a resolução vem de um ativo poderoso e conhecido pelas periferias: a criatividade.

Da esquerda para a direita: Helio Santos, Ítala Herta, Paulo Rogério Nunes e Rosenildo Ferreira (camisa vermelha). Os fundadores da Vale do Dendê. Fonte: site oficial da Vale do Dendê.

Salvador, a capital da Bahia, é um dos principais polos da criatividade e, consequentemente, da Indústria Criativa. Assim, a junção entre a inovação e a criatividade é uma das marcas da região. E desse potencial vem o trabalho da Vale do Dendê. Trata-se de uma holding social que iniciou suas atividades em 2016, quando 50 makers, agentes públicos, acadêmicos e organizações sociais se reuniram para ajudar na cocriação e na validação de um modelo de negócio diferente no ecossistema. E a resposta para isso estava na inovação, na criatividade e na diversidade. A holding social foi fundada por Paulo Rogério Nunes, Ítala Herta, Helio Santos e Rosenildo Ferreira.

Assim, a Vale do Dendê fomenta o ecossistema de Salvador (Bahia) a partir de três pilares: investimento em negócios de impacto social e econômico por intermédio da Aceleradora Vale do Dendê; forma talentos criativos pela Vale do Dendê Academy; e presta serviços para órgãos públicos e privados por serviços de consultoria de estratégia.O nome da empresa, aliás, já carrega a força de um dos aromas típicos da culinária baiana – se nos Estados Unidos, o Vale do Silício é território de inovação, o Vale do Dendê, não fica para trás e ainda traz as características do território.

Paulo Rogério Nunes, de 39 anos, é publicitário,  empreendedor e uma das mentes criativas da Vale do Dendê. E ele enfatiza a necessidade de descentralizar investimentos para que mais negócios de impacto social possam surgir e outras regiões possam se desenvolver. “Quanto mais centralizado, menos diversidade teremos. E aí eu não estou falando em diversidade racial e de gênero, que também são aspectos importantes relacionadas a desigualdades. Mas, sim, sobre a desigualdade regional. Para mim, é o tópico que a gente precisa falar no Brasil”, reforça ele. Nunes foi um dos 11 jovens líderes brasileiros a encontrar Barack Obama, ex-presidente dos Estados Unidos, em 2017, num encontro privado, em São Paulo. Depois da ocasião, ele ainda recebeu o convite para palestrar na Obama Foundation, em Chicago. Para saber mais sobre a atuação da Vale do Dendê, a articulação e o diálogo com os Estados Unidos e também o investimento social no Brasil, leia a entrevista a seguir.

11 lideranças jovens brasileiras se encontraram com Barack Obama, ex-presidente dos Estados Unidos, em 2017. Fonte: Obama Foundation.

AUPAVocê foi uma das lideranças jovens escolhidas para o encontro com o Barack Obama, em 2017. Em seguida, você foi convidado a proferir uma palestra na Obama Foundation. Comente sobre essa experiência e quais os aprendizados possíveis para o ecossistema de impacto no Brasil, a partir desse diálogo.

PAULO ROGÉRIO NUNES – A vinda do Barack Obama foi um momento bem interessante e que mostrou a importância do setor social brasileiro, internacionalmente. Foram escolhidas algumas lideranças jovens para este encontro, e de lá para cá, fui convidado para outros eventos, como este da palestra na Fundação. Pude falar sobre o Brasil e seus destaques em relação ao tema da inclusão e diversidade e, também, como temos avançado em alguns aspectos, apesar dos problemas que conhecemos. A abertura da minha fala foi sobre a cidade de Salvador e seu Centro Histórico, e isso deu um destaque bacana ao que estamos trabalhando desde 2016. Ou seja, o potencial criativo da comunidade afro, o potencial empreendedor e, especialmente, como a diversidade é um ativo. Foi uma honra apresentar o Brasil no evento. Há muitas coisas legais no nosso país, que são referências para o setor social. Afinal, o Brasil tem tamanho continental e é multicultural, tem desafios conhecidos, por ser um dos países mais desiguais do mundo e pelas questões ambientais. Apesar de tudo isso, acho que o Brasil precisa se posicionar mais, o setor social precisa ser mais conhecido internacionalmente.

AUPA – A Indústria Criativa se expande cada vez mais. A Bahia é um exemplo disso, desde sempre, afinal, culturalmente, é riquíssima e a criatividade é oportunidade de muitos negócios, principalmente para quem vem da periferia. Fale sobre essa relação, que é importante para o desenvolvimento de negócios no Brasil, e como começar a empreender pensando em inovação e criatividade.

PAULO ROGÉRIO NUNES – A criatividade é o grande ativo da nova economia, digamos assim. A tendência é que vá além da base na indústria, na produção de coisas tangíveis e de produtos, atingindo também o capital intelectual, a propriedade intelectual e a criatividade. Então, o mundo está indo para esse caminho e há algumas regiões [do mundo] que têm se especializado nisso. Por exemplo, a Califórnia, nos Estados Unidos: basicamente, seu PIB vem da área criativa, devido à tecnologia, ao Vale do Silício, que é o braço mais conhecido, além do cinema e da música. E a Bahia tem um potencial muito parecido, não é à toa que estamos também em uma baía – eles estão na Bay Area. Acaba sendo uma geografia mais descolada, com forte potencial cultural e a Bahia sempre foi um berço de criatividade. Desde sempre, mesmo: desde os movimentos culturais africanos, o momento pós-escravidão, os movimentos políticos sociais, a Tropicália, o Cinema Novo, a própria Bossa Nova, que teve um baiano participando, João Gilberto. Depois a indústria da música, do Axé Music, que tem suas questões, mas foi protagonizado inicialmente por essa periferia negra, no início. E passando por esses novos movimentos que surgem agora, de 2010 para cá. A nova música baiana vem repercutindo nacionalmente, com essa cena que tem Xênia França e Baiana System. A única questão é que, infelizmente, como o capital ainda é bastante concentrado  no Sudeste, faltam recursos aqui para que essa criatividade alcance o seu potencial máximo. Porque, sem capital, não dá para você desenvolver suas indústrias, então falta investimento aqui para isso. Mas a gente tem visto muita coisa legal: Salvador sai de um cenário onde era uma das capitais menos inovadoras, para ser, hoje, a líder no número de startups no Norte e Nordeste, segundo a Associação Brasileira de Startups (Abstartups). Temos visto um grande aumento nas iniciativas de cunho social e o nosso trabalho é também apoiar esses empreendedores que estão na base.

Vale do Dendê: Um dos pólos criativos de Salvador.

AUPA – Toda essa forte carga identitária que a Bahia tem contribui bastante para o ecossistema. Mas quais obstáculos, em relação à territorialidade, você nota?

PAULO ROGÉRIO NUNES – O primeiro ponto é a identidade local, que é também uma identidade nacional, mas que se concentra muito fortemente aqui: a identidade afro, um grande ativo da cidade e do estado. A Bahia é reconhecida internacionalmente por essa influência africana. Pessoas vêm do mundo todo para cá para buscar isso. Apesar de ainda não ser valorizado completamente, pois ainda é visto como algo acessório, menor do que o tamanho que tem. Alguns lugares têm valorizado bastante a identidade afro, como Atlanta (Geórgia), que é considerada a Hollywood do Sul, devido aos filmes com negros protagonistas e na produção, além da cena tech afro muito forte. Nova Orleans (Louisiana) também é conhecida pela questão cultural, com forte apelo afro. No Brasil as pessoas não valorizam da maneira como deveriam, ainda, nem o poder público, os empresários, as grandes empresas ou os investidores e fundos de investimento. Essa galera ainda não entendeu esse potencial. Fica uma bolha muito restrita ao Sudeste, às relações pessoais: investe nos amigos e colegas, mas não busca outras alternativas. Apesar de termos percebido, nos últimos anos, um novo eixo econômico no Brasil, estamos tentando mostrar isso, que é uma proximidade de São Paulo e do Recife, pelo destaque com tecnologia, e do Rio de Janeiro e da Bahia, na criatividade. Fizemos um mapeamento da verba publicitária – marketing, pesquisa e inovação – de multinacionais e empresas brasileiras e é uma grande desproporção, com enfoque em São Paulo, Rio de Janeiro, seguido de Brasília e Belo Horizonte.

AUPA – E o trabalho do Vale do Dendê, nesse processo todo, é primordial, sendo um dos principais protagonistas de empreendedorismo no Nordeste, hoje. Como você vê essa projeção nacional?

PAULO ROGÉRIO NUNES – Temos trabalhado, desde o início, não para sermos maiores nem menores, mas para mostrarmos que há esse potencial. Realmente, temos visto que mudou muita coisa aqui na Bahia, desde 2016. Chacoalhou um pouco o establishment, digamos assim, acerca do que era a discussão oficial sobre empreendedorismo e sobre impacto social. Isso é muito bom. Apesar de que: se estivéssemos no Sudeste, por exemplo, acho que o acesso seria maior. Precisamos desconcentrar o capital no Brasil. Isso é importante também.

Nova Orleans e Atlanta: Identidade afro reconhecida e estabelecida.

AUPA – Muito se fala sobre a necessidade de atrair dinheiro do mercado financeiro aos investimentos voltados aos negócios de impacto. Porém, como tornar o ecossistema atraente para o investidor tradicional? Quais características inovadoras de ecossistema de impacto baiano você destaca? 

PAULO ROGÉRIO NUNES – O capital (os recursos), obviamente, segue uma lógica, tem um método, uma forma de investimento e uma série de critérios que são assim desde sempre. O que eu desafio aos investidores pensarem é que, às vezes, sair da caixinha é muito bom. Porque o risco aumenta, mas o valor das oportunidades é maior. Tem muitos mercados e oportunidades que estão desmobilizados, justamente pela falta de visão estratégica dos investidores, que preferem, às vezes, aportar em casos tradicionais demais. No setor de impacto social acaba sendo a mesma história: mais um aplicativo do cara que saiu da empresa, que quer mudar a vida. Então, precisamos sair desse ciclo vicioso e ir para um ciclo virtuoso de qualquer jovem de periferia, qualquer jovem que está no interior do Nordeste, do Norte, do Sul; se ele está em uma capital, que possa tentar suas ideias, possa ter monitoria, porque ninguém está pronto. Nem os investidores estão prontos para obter todas as respostas. Mas que eles [jovens da periferia] possam ser guiados a tentar que suas ideias sejam apoiadas. Então, essa é a nossa provocação. Aqui na Bahia, particularmente, isso tem muito apoio.

AUPA – Sobre a constante negociação entre centro e periferia: como você vê estas pontes, pensando no ecossistema de impacto da Bahia, em relação ao Nordeste?

PAULO ROGÉRIO NUNES –Primeiro, é preciso desafiar esses conceitos de o que é centro e o que é periferia, no sentido que alguém diz que um é centro e que o outro é periferia. Na prática, sabemos que existe, quem está longe e quem está perto. O que chamam de periferia, no sentido mais complexo da palavra, pode ser o centro. Por exemplo, uma tecnologia criada em uma favela de São Paulo, do Rio ou de Salvador tem capacidade de escala maior para o mundo do que uma tecnologia criada no Vale do Silício. E eu não estou falando isso de modo aleatório: afinal, objetivamente, o mundo tem muito mais favelas e cidades em desenvolvimento e interiores. Claro que isso que estou falando diz respeito ao interior da África, da América Latina, do próprio Leste Europeu (que muita gente não conhece) e do Sudeste Asiático. Eu já morei no Leste Europeu, eu sei que há muitos desafios parecidos com os nossos no Brasil. Então, é ilusão achar que a periferia vai fazer uma coisa que não tem escala, que é muito pequeno. Na verdade, se tiver investimento, se tiver metodologia, pode ser escalado para o mundo todo. É preciso desafiar mesmo esse conceito de que a periferia é limitada. A periferia, na verdade, não é limitada, não é essa periferia de comunidades, não incluída no centro. Acredito que precisamos fazer um novo pacto social, envolver o poder público, que tem uma destinação específica para esses territórios, que são impotentes e não têm muitas oportunidades. Um pacto com o setor privado corporativo, para destinar sua verba publicitária, de pesquisa e de marketing para investir nos empreendedores deste território. E também com os investidores mesmo, de venture capital, as pessoas que têm acesso ao capital e transferir dinheiro às famílias. Esse é o impacto real.

É muito mais do que um impacto social de discurso. É um impacto real.

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