Um sistema de captação de água da chuva, que garante água limpa para famílias em vulnerabilidade socioeconômica na Amazônia. Uma ótica com o objetivo de doar um milhão de óculos de grau até 2021. Uma plataforma de inclusão de refugiados e imigrantes no mercado de trabalho. Todas essas iniciativas têm duas coisas em comum: ganharam o mundo como negócios sociais e foram criadas por estudantes universitários voluntários da Enactus. A organização global, com sede no Brasil desde 1998, representa um movimento de fomento ao empreendedorismo social na prática que, mesmo heterogênero, tem transformado a experiência universitária de quem participa.

Como funciona?
A Enactus estimula a formação de “times Enactus” dentro das universidades, reunindo estudantes para desenvolver soluções sustentáveis para problemas locais, como a falta de água e a desigualdade de oportunidades. No Brasil, são 120 times distribuídos em 21 estados. No mundo, são 37 escritórios nacionais apoiando o desenvolvimento de times na América, Europa, Ásia, África e Oceania.

Com o tripé Enactus “social, econômico e ambiental” para a criação de projetos, estudantes compreendem as necessidades de comunidades locais e aplicam conhecimento técnico-científico em uma jornada de impacto fora dos muros da universidade. A experiência exige inovação, visão de negócios e capacidade de empreender – habilidades que lentamente começam a integrar grades curriculares e programas nas universidades do país. 

Crédito: Pixabay

“Ao longo das últimas décadas, universidades em todo o mundo têm realizado uma virada empreendedora, fomentando cada vez mais essa temática. O que não implica dizer, obviamente, que o caminho esteja sendo percorrido a contento em termos de velocidade e muito menos que ele seja homogêneo”, observa José Augusto Lacerda, embaixador da Rede de Professores Academia ICE e Coordenador de Empreendedorismo na Agência de Inovação Tecnológica da Universidade Federal do Pará. 

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Segundo o relatório feito pelo Sebrae e pela Endeavor, sobre o empreendedorismo nas universidades brasileiras, 54% da disciplinas de empreendedorismo ofertadas por instituições de Ensino Superior destacam o tema “inspiração para empreender”, mas não oferecem estrutura completa que apoie potenciais empreendedores, como conteúdos de gestão de negócios e inovação.

 A oferta de atividades extracurriculares, como feiras de empreendedorismo e hackathons, acontece em menos de 35% das IES. “Há um universo bastante assimétrico, que vai desde manjedouros de inovação, como é o caso de instituições como Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), fundamental para o sucesso do Porto Digital (em Recife), até aquelas que estão dando os primeiros passos nessa seara”, completa José Augusto.

José Augusto Lacerda é embaixador da Rede de Professores Academia ICE e coordenador de Empreendedorismo na Agência de Inovação Tecnológica da Universidade Federal do Pará. Crédito: Divulgação.
Crédito: Equipe de Arte Aupa

"É preciso encontrar novos mecanismos de ensino. É utópico querer jovens extremamente por meio de técnicas e procedimentos didáticos, muitas vezes, arcaicos",

salienta José Augusto.

Quem faz?
O programa da Enactus abrange o acompanhamento de times por coordenadores de programa do escritório nacional, mentoria de um professor conselheiro vinculado à universidade do time de origem e diversas oportunidades de desenvolvimento profissional e dos projetos. Além de oferecer treinamentos e eventos gratuitos, patrocinados por empresas parceiras, os times disputam em editais exclusivos para a rede Enactus e participam anualmente de uma competição nacional, onde o vencedor representa o Brasil na copa mundial de empreendedorismo social da Enactus.

Enactus World Cup. Créditos: Divulgação Time Enactus UFPA

São empresas como KPMG, Amanco Wavin e Fundação Cargill que realizam investimentos sociais para a manutenção de times e projetos, conectando jovens com suas marcas e amplificando o impacto social para ambos os lados. Segundo Joana Rudiger, presidente da Enactus no Brasil, a abrangência da organização torna-a um vetor de disseminação da cultura do empreendedorismo no país.

“Nos vemos como uma rede de alcance nacional e internacional que não encara as barreiras geográficas como determinantes para o desenvolvimento de impacto local. Por isso, contribuímos para o desenvolvimento dos jovens enquanto parte de suas comunidades locais para servirem no futuro como pontos de disseminação e pulverização do investimento de impacto”, explica Joana.

Joana Rudiger, presidente da Enactus no Brasil. Créditos: Enactus no Brasil
Crédito: Equipe de Arte Aupa

Assim como relatado no Guia 2.5 de mapeamento de iniciativas que investem em negócios de impacto no Brasil, feito pela Quintessa, as iniciativas de financiamento e aceleração de impacto concentram-se no Sudeste, 62,5% do total. No caso das empresas parceiras da Enactus não é diferente. Ainda que a localização do escritório nacional em São Paulo favoreça o estabelecimento de financiadores sociais, o crescimento dos times também depende do apoio regional. No Ceará, por exemplo, a concentração do número de times veio do interesse de um parceiro Enactus local, raridade fora do território paulista. Ainda assim, nos últimos anos os times de maior destaque nos campeonatos anuais da Enactus foram das regiões Norte e Nordeste, reforçando o potencial de desenvolvimento e impacto.

Créditos: Arquivo Enactus Brasil

A trajetória Enactus
Mais de 400.000 horas voluntárias trabalhadas, 200 projetos criados, mais de 3.000 estudantes e 215 professores envolvidos na transformação das vidas de 77.632 pessoas. Esse foi o impacto da Enactus no último ano, que mesmo em meio à pandemia da Covid-19 fortaleceu as atividades da rede para atender as necessidades urgentes de comunidades vulneráveis no país. 

“Os desafios se intensificaram no quesito de sustentabilidade financeira, uma vez que os investimentos em organizações sociais ganharam um novo foco durante a pandemia”, reflete Joana. Enquanto projetos com enfoque emergencial ganharam relevância, a Enactus combinou ações emergenciais com o desenvolvimento de soluções adaptadas à nova realidade, a exemplo do Enpathos. Criado pelo Time Enactus da Universidade Estadual de Santa Cruz, em Ilhéus (BA), consiste em uma plataforma gratuita para conectar apoiadores (empresas, mentores e voluntários) com empreendedores sociais locais afetados pela pandemia.

A presidente da Enactus Brasil reforça que o sucesso de grandes profissionais está diretamente relacionado à sua capacidade de descobrir oportunidades e de reagir rapidamente a mudanças. “Na Enactus, geralmente, é a primeira vez que os jovens ficam diante de problemas mais complexos, como as relações humanas dentro de seus times, os entraves burocráticos de gerir um negócio, o impacto de uma política pública mal implementada. Essas são as grandes questões que encontrarão para resolver, seja em empresas, seja como empreendedores ou agentes públicos”, relata. Não é à toa que alguns projetos Enactus ganham o potencial de se tornar, de fato, negócios sociais.

“A Enactus me ensinou muito a trabalhar em equipe, me posicionar mais sobre minhas ideias e valores, em ser mais proativa e desenvolver esse espírito empreendedor”, conta Isabel Cruz, sócia fundadora do Amana Katu e membro da equipe desde a fundação do projeto no Time Enactus UFPA.

A oportunidade de se conectar com executivos e empreendedores refletiu no título de embaixadora brasileira da Ford Foundation no Brasil para Isabel, além de dois títulos mundiais do World Water Race para o Amana Katu.A premiação global da Enactus para atingir o ODS 6 consagrou a iniciativa em 1º lugar em 2018 e 2º em 2019 em apresentações para líderes empresariais no Vale do Silício, Estados Unidos.

Isabel Cruz, sócia fundadora do Amana Katu e membro da equipe desde a fundação do projeto no Time Enactus UFPA. Crédito: Time Enactus
ODS 6. Crédito: Organização das Nações Unidas/Equipe de Arte Aupa.

Durante o desenvolvimento na Enactus, a equipe do projeto se conectou com empresas e aceleradoras nacionais e internacionais que apoiaram a transição do projeto para empresa social. Os negócios de impacto socioambiental da região Norte ainda representam a menor porcentagem do país – 7%, segundo mapeamento feito pela Pipe.Social

No entanto, as financiadoras e desenvolvedoras de impacto na região também têm a menor abrangência: somente três das 48 mapeadas pela Quintessa estão no Norte. Outra experiência aliada à Enactus foi a de Matheus Cardoso, fundador do Moradigna. O negócio de reforma de cômodos e residências insalubres nas periferias de São Paulo e Rio de Janeiro, que visa atender a população de baixa renda, foi desenvolvido enquanto Matheus participava do Time Enactus Mackenzie. 

“Eu cursava Engenharia Civil e não via nada sobre empreender, sobre gestão de projetos e de pessoas, análise de resultados. Na Enactus, pude aprender tudo isso na prática e simultaneamente aplicar no Moradigna”, revela. Nas universidades brasileiras, as disciplinas relacionadas ao empreendedorismo estão presentes em 74% dos cursos de Administração e Negócios, 56,1% nas Engenharias em menos da metade em cursos de outras áreas, segundo pesquisa do Endeavor e Sebrae.

Matheus Cardoso, fundador do Moradigna. Crédito: Divulgação
Créditos: Divulgação Moradigna

Futuro
Diferente de programas institucionais, os times Enactus se formam organicamente, por indicação ou interesse de grupos de estudantes. O reconhecimento da Enactus como atividade de extensão acadêmica e maior suporte local aos times são algumas das ações que poderiam garantir o peso da Enactus na transformação das estatísticas do empreendedorismo brasileiro. Outra oportunidade é pautar no ambiente acadêmico ações práticas e ordenadas do uso de recursos naturais, promoção de vida e trabalho digno a todas as pessoas e alinhamento aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas.

José Augusto reforça que somente com a união de esforços entre organizações e profissionais será possível alcançar um modelo de desenvolvimento mais inclusivo e harmônico. “Neste ponto, é lógico que as universidades, pela sua pujança na criação, difusão e aplicação do conhecimento, têm um papel fundamental nesse processo. Daí a necessidade de fortalecer o Ensino Superior, de valorizar professores, pesquisadores e estudantes que fazem a educação acontecer nesse país. É por meio deles que novos rumos se abrem, processos/produtos se criam e problemas viram soluções, explica. Nesse sentido, vale também reforçar a necessidade de fortalecer o diálogo entre universidades, agentes articuladores de impacto e órgãos governamentais.

Não restam dúvidas de que a Enactus marca a trajetória de quem passou pela experiência de trabalhar com impacto social. A rede de alumni da Enactus no Brasil envolve centenas de profissionais experientes que contribuem para a formação de novos líderes universitários e carregam consigo a consciência de um novo modelo de desenvolvimento. A fórmula da organização pode e deve ser replicada em programas institucionais.

O foco da Enactus daqui para frente é investir na internacionalização dos estudantes e na qualidade de times e projetos, apostando na maturidade e na possibilidade de tornar-se referência a nível global. A guinada das universidades para a inserção de experiências empreendedoras no currículo traz esperança: “Se hoje a Enactus ainda não é uma instituição tão conhecida das reitorias, em breve o será. E se hoje o relacionamento ainda é truncado com algumas instituições, em breve não será mais”, prevê Joana.

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