O novo massacre da juventude – desta vez na década de 2020

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Por Haroldo Torres

Quase todas as gerações de jovens brasileiros enfrentaram crises importantes no último século. A começar por episódios mais antigos, como a gripe espanhola nos anos de 1920 e a revolução da década de 1930 até a Segunda Guerra Mundial na década de 1940. Os anos seguintes foram marcados pelo terremoto político e social decorrente do suicídio de Vargas em 1954 e, não menos traumático, pelo golpe militar de 1964.

Comecei a me tornar uma testemunha ocular dessa história a partir da década de 70, quando entrei na adolescência. Ali, a violência militar e policial era o pano de fundo. Tive um vizinho assassinado brutalmente. Um irmão mais velho preso. O esquadrão da morte imperava livre na Baixada Fluminense, e a presença da polícia era assustadora. Mas aquela geração podia conseguir um emprego com relativa facilidade, apesar da escola ainda destinada quase que exclusivamente à elite. E a cultura em ebulição – expressa no movimento hippie, na música popular brasileira, no rock&roll e na imprensa alternativa – foi um bálsamo. Muitos de nós fomos hippies cabeludos e/ou esquerdistas, até para contrariar o conformismo agudo de nossos pais ou de nossa sociedade.

Nos anos de 1980 me encontrei jovem no meio do turbilhão da redemocratização. Foram tempos de grave crise econômica, política e militar – refletida em descontrole inflacionário, desemprego, instabilidade política, disseminação da violência urbana e inquietação social. Mas foi também uma década cheia de esperança. Pude participar das memoráveis jornadas das Diretas Já. O País foi capaz de fazer uma Constituinte. Os exilados voltaram, os movimentos sociais puderam se organizar e manifestar livremente, e finalmente conseguimos ter acesso a obras anteriormente censuradas.

Já a década seguinte começou mal. O sequestro da poupança em 1990 foi um dos episódios mais assustadores que presenciei como adulto. Mas a partir de 1994, e até 2010, os jovens tiveram finalmente alguma trégua. De fato, apesar dos solavancos das políticas econômica e social, fomos capazes de oferecer um período positivo para a juventude, com estabilidade da moeda, relativa tranquilidade democrática, redução da mortalidade infantojuvenil, aumento da escolaridade e um processo de inclusão crescente das camadas mais vulneráveis da população. Enfim começamos a ver jovens negros entrarem mais frequentemente em nossas universidades – o que não é pouco para um país racista e elitista como o nosso.

Na década de 2010, voltamos a enfrentar instabilidades. As manifestações de 2013 revelaram um jovem inquieto e aguerrido, para surpresa daqueles à esquerda e à direita.

Tornou-se claro que emprego e escola (em muitos casos de má qualidade) eram condições necessárias, mas não suficientes, para que os jovens ficassem mais confortáveis em seu País. Vimos também a ascensão de um radicalismo político, especialmente a partir de 2015, tornado mais complexo pela volta da crise econômica, pelo impeachment presidencial e por uma crescente toxidade nas redes sociais.

Fica claro que, aos meus 61 anos, não me faltaram crises. Ao olhar comparativamente para trás, vejo alguns avanços, especialmente a maior escolarização e a liberdade de os jovens criarem e assumirem sua própria voz e identidade. Mas, neste início da década de 2020, o que mais me surpreende é a perda da esperança. Muitos estão buscando migrar. E dentre os mais vulneráveis, que sequer vislumbram essa possibilidade, observa-se o aumento do abandono escolar e do desalento. Além disso, para além de todas as mazelas anteriormente observadas (como o desemprego), a pandemia da COVID-19 traz um ônus adicional, complexo e infelizmente inevitável.

A verdade é que ainda estamos longe de entender o impacto dos dois primeiros anos desta década para os jovens. Muitos enfrentaram o luto ao perder familiares ou mestres essenciais. Outros tantos ficaram sem emprego, ou sequer conseguiram o primeiro. Há os que tiveram de enfrentar a pobreza extrema, mazela que parecia estar enfraquecendo.

No entanto, esses indicadores mais gerais a que sempre recorremos para a reflexão histórica talvez nem sejam os mais importantes.

O ambiente tóxico das redes sociais e o confinamento são evidências graves de que algo triste e complexo ocorre no plano da subjetividade e da cultura.

Por exemplo, existem evidências de que diversas formas de doença mental estão se proliferando, muitas vezes acompanhadas do aumento da violência aleatória e do crescimento no número de suicídios.

Confesso ser difícil para alguém da minha geração observar esse novo massacre em câmera lenta. Creio que nosso pensamento esquemático (escola, trabalho, lazer) já não é mais suficiente para descrever o momento da juventude – e, no calor dos acontecimentos, ainda é difícil compreender o cenário em todas as suas implicações. Tenho dúvidas se temos as lentes necessárias para entender o que se passa, mas peço a meus contemporâneos – abençoados ou assombrados pelo espectro de 1968 –que deem passagem aos mais jovens. Às vezes, podemos acabar fazendo mais mal do que bem.

Finalmente, àqueles que chegaram ou vão chegar aos 20 anos neste início da década de 2020, desejo a capacidade de achar saídas criativas para o buraco em que estamos todos metidos. Penso aqui na recusa à “contaminação” generalizada como princípio salutar da existência. Tentem compreender melhor o outro. Busquem referências culturais, profissionais e afetivas inspiradoras e inteligentes. Criem os movimentos sociais que julgarem necessários. Combatam o mal. Tudo isso sem perder de vista a necessidade de encontrar espaços de felicidade que tornem a vida menos miserável.

E, quem sabe, isto ajude também o Brasil a sair das trevas estranhas que estamos atravessando.

Boa sorte!


Haroldo Torres é consultor independente na Berlim Consultoria e possui larga trajetória no ecossistema de impacto, 3º setor e governo. É autor entre outros livros de O desafio da inovação pública pós-covid 19, pela Aupa Books.

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