Madeireiras, bancos, ONGs, multinacionais, institutos de pesquisa e outras iniciativas unidas em torno de uma pauta comum: assim se classifica a Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, criada em 2015 com o objetivo de articular e facilitar ações para promover a economia de baixo carbono no Brasil. Entre suas principais atividades estão o estímulo de diálogos com governo e instituições, estudo de desafios e oportunidades e o lançamento de manifestações públicas acerca de problemáticas ambientais.

A Coalizão se divide em um grupo executivo, responsável pelo dia a dia operacional; grupo estratégico, à frente das decisões e posicionamento; e os fóruns temáticos, que contam com ampla participação dos membros. Os fóruns são o ponto de partida para o debate de temáticas relevantes e atuação conjunta da Coalizão. Nas instâncias superiores estão os líderes de associações setoriais, representantes da academia e diretores de companhias nas áreas de madeira, cosméticos, siderurgia, papel e celulose, entre outras.

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Pautas urgentes
Não poderia ser diferente: o desmatamento, responsável por quase metade das emissões de gases do efeito estufa do Brasil, está entre as pautas prioritárias do grupo. A degradação das florestas na região amazônica tem batido recordes consecutivos – uma área equivalente a cinco vezes o tamanho de Belo Horizonte foi desmatada na região apenas em agosto de 2021, de acordo com o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). Com esse cenário em vista, um documento lançado pela Coalizão propõe seis ações para a queda rápida do desmatamento. No ano passado, o plano foi apresentado ao Vice-Presidente da República e Presidente do Conselho Nacional da Amazônia Legal, Hamilton Mourão. 

Marcello Brito, presidente da Associação Brasileira do Agronegócio e co-facilitador da Coalizão. Crédito: LinkedIn.

Marcello Brito, presidente da Associação Brasileira do Agronegócio e co-facilitador da Coalizão, explica o objetivo dos posicionamentos lançados pelo grupo: “Nossa função é fazer um advocacy positivo por ações dentro da agricultura, floresta e clima. Apresentamos propostas a vários ministros, governadores, senadores e congressistas, em defesa da formatação ou melhoria de políticas públicas. Fazemos isso de forma muito transparente, com frequentes publicações na imprensa”, avalia. Segundo ele, depois do diálogo com o Governo Federal, não se notou adesão à pauta.


Além do desmatamento, a Coalizão tem como foco estudos acerca da floresta nativa, agropecuária e silvicultura e políticas públicas. Para cada uma dessas temáticas formam-se diferentes forças-tarefa dedicadas a endereçar desafios, propondo soluções práticas para execução e implementação do próprio grupo. Exemplo disso é o relatório “
A Rastreabilidade da Cadeia da Carne Bovina no Brasil: Desafios e Oportunidades”, com recomendações para o fortalecimento do controle da qualidade ambiental da carne, lançado na Climate Week 2020, em Nova York. A força-tarefa de rastreabilidade da carne foi liderada por representantes da World Wide Fund for Nature (WWF) e da indústria JBS, que já foi indiciada pela compra de gado originado de áreas de desmatamento ilegal.

Soluções para o Brasil
Para Rachel Biderman, vice-presidente da Conservação Internacional para as Américas e co-facilitadora da Coalizão, a união de membros de diferentes áreas de influência no país garante o acesso a tomadores de decisão relevantes. Torna-se, então, responsabilidade do grupo dar luz a importantes reivindicações coletivas: “O Brasil precisa ter mais ambição, se comprometer a reduzir ainda mais as emissões de carbono. Uma das formas para alcançarmos isso é a rápida reconstrução da nossa capacidade de monitoramento, policiamento e controle do desmatamento”, defende. Além de monitorar a emissão de gases nocivos no país, a Coalizão já estudou como o setor privado faz uso de dados sobre o desmatamento nas tomadas de decisão.

Rachel Biderman, vice-presidente da Conservação Internacional para as Américas e co-facilitadora da Coalizão. Crédito: Arquivo Pessoal.

Desde sua fundação, a Coalizão tem participado ativamente das Conferências das Nações Unidas sobre Mudança Climática, conhecidas como COP – oportunidades de advocacy positivo internacional para o país. “Participamos de eventos, palestras, fazemos contato com governos estrangeiros, divulgando o que o Brasil tem de bom. Usamos o espaço da COP para mostrar as soluções de agricultura, de agrofloresta, de silvicultura”, conta Rachel. O grupo tem estudado caminhos para a regeneração e plantio de espécies nativas com fins econômicos.

 

A COP26, próxima edição do evento global, ocorre entre 31 de outubro e 12 de novembro e deve reforçar a necessidade de comprometimento dos países signatários do Acordo de Paris para evitar catástrofes climáticas. De acordo com Joaquim Leite, Ministro do Meio Ambiente, o Brasil apresentará a meta de zerar o desmatamento ilegal antes de 2030.

Enquanto isso, na corrida pelo mercado de carbono, o  Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), composta por uma parcela de membros da Coalizão, lançou posicionamento em favor da economia de baixo carbono. Na esfera política, uma comitiva de executivos estaduais – entre eles, João Dória, governador do Estado de São Paulo – pretende comparecer à COP26 para reivindicar a regulamentação do crédito de carbono. Segundo Rachel, a Coalizão tem atuado junto ao Congresso Nacional pela aprovação da lei do mercado de carbono.

Se muito está em jogo na COP, mais ainda no Brasil. Ainda é necessário olhar para a influência de diversos agravantes da crise ambiental somados ao desmatamento, como a agropecuária, produção energética e operações industriais. A adesão numerosa à agenda da Coalizão aponta para um horizonte positivo, mas pede por mais compromisso de agentes governamentais.

 

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