Nossas entrelinhas mostram o brasileiro ainda distante do olhar crítico e autônomo que o leitor constrói, livro por livro, ao longo de sua vida. Há, porém, quem se debruce para mudar essa “realidade severina”. Uma preocupação que não vem de hoje e envolve muitos esforços. 

Há 27 anos, o  Itaú Social plantou suas primeiras sementes no solo da educação almejando despertar novos leitores. Na perspectiva do direito à leitura e ao letramento, ao uso social da leitura e da escrita, a organização vem promovendo diferentes iniciativas relacionadas à leitura.  

A principal delas é o Leia para uma Criança, que completou dez anos e recebeu o Prêmio Jabuti, em 2019. O programa permitiu levar a literatura infantil de qualidade para lares, escolas e bibliotecas de todo o país. Foram mais de 57 milhões de livros físicos distribuídos gratuitamente, desde 2010, e 26 títulos disseminados. 

À frente do Leia para uma Criança está Dianne Melo, que coordena a área de Engajamento Social e Leitura do Itaú Social e participa da elaboração, implementação, acompanhamento e avaliação de programas e projetos desenvolvidos na área da Leitura e da Escrita.

“Para contribuir na diminuição das desigualdades e buscar uma sociedade mais justa e igualitária, é fundamental trabalharmos para garantir a formação de leitores nesse país”,

resume Dianne Melo, coordenadora da área de Engajamento Social e Leitura do Itaú Social.

É sobre as questões e os desafios que cercam a leitura no Brasil que a coordenadora conversa com Aupa, a seguir.

AUPA – De que forma a falta de leitura reflete as desigualdades e as condições da sociedade?
Dianne Melo O Brasil é um país de dimensões continentais e os desafios sociais, educacionais e culturais são proporcionais. O acesso à leitura e à literatura, apesar de ser um direito, ainda é privilégio de uma parcela da sociedade. Os exemplos desse desequilíbrio são muitos e os resultados apontados por estudos recentes são alarmantes. 

Segundo o Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf 2018), apenas 12% da população brasileira são considerados plenamente capazes de entender e de se expressar por meio de letras e números. No Ensino Médio, apenas 4,52% dos estudantes apresentam aprendizagem adequada em Matemática e 1,62% em Língua Portuguesa, de acordo com o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb 2017). O mesmo indicador revela que menos da metade das crianças atingem níveis adequados de proficiência em Matemática e Leitura ao final do 3° ano do Ensino Fundamental.

Sobre leitura especificamente, 52% dos brasileiros possuem o hábito de leitura (ou 100,1 milhões de pessoas), segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (2020). O resultado é 4% menor do que o registrado em 2015, quando a porcentagem de leitores no país era de 56%. O índice é considerado baixo na comparação com outros países, reflexo da qualidade da formação escolar do país. Por outro lado, a mesma pesquisa mostra que para grande parte dos brasileiros, a leitura é vista como possibilidade de ampliar horizontes e, até mesmo, de melhoria das condições de vida.

Apesar de todas essas evidências, sabemos que a leitura propriamente dita também nos ajuda a ler o mundo. Como já dizia Paulo Freire, “A leitura de mundo, precede a leitura da palavra”, isto é, a percepção que temos da nossa realidade, da situação vivida por outros grupos sociais, da nossa constituição identitária, da nossa capacidade criativa e imaginativa, perpassa pela leitura, pelo acesso a todas as linguagens.

AUPA – Mais do que gostar ou não gostar de ler, há o valor da leitura para a vida, a cidadania, as escolhas. Como vocês trabalham essa conscientização no núcleo familiar?
Dianne Melo – É muito importante que as famílias incorporem o hábito de leitura desde o nascimento do bebê. Viver em um ambiente com livros e com adultos que estejam dispostos a ler para e com as crianças é fundamental para a formação de novos leitores. Dessa forma, separar um momento prazeroso, todos os dias, de afeto, de atenção para ler e estar com as crianças é uma prática essencial para o desenvolvimento integral da criança. As conversas que derivam após a leitura de um livro são riquíssimas e estabelecem uma relação de vínculo e confiança com os adultos da família. 

No entanto, sabemos que o acesso a livros ainda não é uma realidade de todas as famílias. Assim, não só na ausência de livros, mas, sobretudo, quando o livro não está presente, devemos valorizar as narrativas orais, as histórias e os saberes que pertencem à família e que são passados de geração em geração.

Mas o Itaú Social também atua na formação de mediadores de leitura. O “Polo” oferece o curso “Infâncias e Leituras”, com o objetivo de incentivar práticas de leituras do adulto para e com a criança como oportunidade de fortalecer vínculos e participar ativamente na sua educação, desde a primeira infância.

AUPA – Como os educadores, que estão na ponta, podem ser instrumentalizados para engajar as crianças à leitura? Nesse sentido, como vencer a barreira da crise da educação no país, que inclui a precarização dos professores?
Dianne Melo – É uma questão bastante complexa. Não se trata exatamente de precarização de professores, porque estes, muitas vezes, assim como muitos brasileiros, também não tiveram acesso à leitura e não se constituíram como leitores. 

A importância da leitura e também das práticas efetivas para inserir o professor na leitura não são bem trabalhadas na formação inicial. Consequentemente, professores, que deveriam formar leitores, também não conseguem trabalhar a leitura de maneira efetiva, como direito e fruição. 

A formação em serviço é fundamental para que professores ressignifiquem suas práticas e incluam livros de Literatura em suas aulas — não como instrumento didatizante ou conteúdos ditos paradidáticos, que cumprem uma função temática, de conteúdo, mas de ampliação de repertório, conhecimento de mundo, de outras realidades, de empatia. 

A escola não é o único lugar para se ter acesso à livros, mas é o lugar privilegiado que, muitas vezes, é a única opção para crianças e adolescentes terem contato com livros. 

Dessa forma, aumenta ainda mais a responsabilidade da escola na constituição de um acervo de qualidade, que considere uma diversidade de gêneros, autores brasileiros e estrangeiros, diversidade temática, literatura negra, indígena, além de garantir acessibilidade para crianças com deficiência. Junto a isso, soma-se a importância de formar bons mediadores de leitura, que possam fazer essa ponte entre crianças e livros.

Projeto de Leitura do Itaú Social. Crédito: Divulgação

AUPA – Quais as maiores dificuldades para levar os projetos adiante durante a pandemia? E o que fica como desafio para o futuro?
Dianne Melo – Esse período de pandemia nos mostrou o poder transformador do conhecimento nos mais diversos âmbitos. O grande desafio da população mundial foi se adequar às dificuldades trazidas pelo vírus: as mudanças nas rotinas, as adaptações no trabalho, na convivência e, sobretudo, a agilidade que a ciência precisou ter para desenvolver as vacinas que ajudarão na imunização de todos. E toda forma de conhecimento está diretamente relacionada à capacidade de leitura e aprendizado.

É claro que diante deste cenário inusitado, foram muitas as dificuldades. De articulação, de envolvimento das pessoas nas ações, na própria logística de distribuição de livros. O distanciamento social retirou as pessoas dos ambientes de leitura, como as escolas, as bibliotecas comunitárias, as livrarias e tantos outros locais.

AUPA – O Brasil já caminhou para mudar a estatística de um país não leitor? Há o risco de esse quadro se tornar um problema crônico? O que é urgente ser feito e por quem? 
Dianne MeloO acesso à leitura é um direito que precisa ser garantido por Políticas Públicas consistentes, bem construídas e realizadas. É essencial que haja um comprometimento dos governos com a implementação dessas políticas e sua continuidade. 

Todos nós sabemos da importância das Políticas Públicas de fomento à leitura para a cultura e para a educação. Uma sociedade leitora pode atingir ótimos índices de desenvolvimento em todos os aspectos da vida pessoal e coletiva. Porém, ainda é necessário que gestores públicos e a sociedade civil se organizem para instituírem os planos e desenvolverem suas ações.

Um exemplo é a Rede LEQT (Leitura e Escrita de Qualidade para Todos), que reúne mais de 80 organizações que atuam no campo da promoção da leitura, da educação e da cultura. A rede entende como fundamental que todos os municípios atuem em favor da realização dessa lei, num esforço que reúne forças vivas da sociedade civil e do Poder Público. 

Muitos municípios já construíram seu Plano Municipal de Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca, instrumento de governança importante para o alcance de objetivos, metas, investimentos e avaliações dos avanços locais, principalmente para as populações mais vulneráveis.

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Já a Lei 13.696/18, que institui a Política Nacional de Leitura e Escrita (PNLE), conhecida como Lei Castilho, estabelece quatro eixos estratégicos: (1) democratização do acesso; (2) fomento à leitura e à formação de mediadores; (3) valorização institucional da leitura e do seu valor simbólico e (4) fomento à cadeia criativa e à cadeia produtiva do livro. Pela lei, o Estado brasileiro se compromete, a cada dez anos, a criar um novo Plano traçando e estabelecendo metas e ações para o livro, leitura, literatura e bibliotecas no país.

É preciso monitorar e acompanhar essa política. Nos últimos anos, tivemos muitas interrupções e falta de incentivos. O Itaú Social participa na articulação das Políticas Públicas que garantam o direito ao livro e à leitura e em ações que ampliem as oportunidades de acesso.

Quando os cidadãos se apropriam das práticas literárias e da cultura escrita, eles se tornam também multiplicadores dessas práticas. Da mesma forma, escolas, bibliotecas públicas e comunitárias e organizações da sociedade civil podem se tornar espaços potenciais para compartilhamento de produções autorais, o que reforça identidades locais e garante a formação de leitores no país.

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