É fato: nós envelheceremos! Alguns já se preparam, pensam nos investimentos para o futuro, cuidam da saúde. Ao mesmo tempo, para outros, chegar aos 60 anos parece algo distante – ou mesmo um desafio. Mas existe um mercado promissor que acompanha a longevidade e que também se encontra em expansão – a Economia Prateada.

As pessoas estão vivendo mais. Hoje, você tem 30 anos e, se tudo der certo, em 2050 terá 60. E assim fará parte de um terço da população do país que terá 60 anos ou mais, conforme projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ou seja, este número terá saltado dos atuais 33 milhões para 66 milhões de pessoas.

Esses dados são apresentados, pois, o ritmo de envelhecimento da população, em todo o mundo, também está aumentando drasticamente. Sendo assim, este fato é um dos obstáculos que o Brasil enfrenta e, infelizmente, diante de tantos desafios nas questões de políticas públicas de Saúde, Assistência Social e Previdência que enfrentamos atualmente (questões estruturais que se somam também às consequências multifacetadas da pandemia), podemos encarar inúmeros problemas se nada for feito agora.

Uma vida mais longa traz consigo oportunidades, não só para as pessoas idosas e suas famílias, mas também para a sociedade, como um todo. Por isso, aborda-se a Economia Prateada, conjunto de atividades econômicas das pessoas acima de 60 anos. Ou seja, um mercado consumidor promissor que demanda soluções específicas para a sua faixa-etária.

Nesta reportagem, falaremos da Economia Prateada na saúde, no aspecto mental, na ação e no conhecimento. Soluções muito bem integradas ao ecossistema de impacto e que trazem perenidade em seus negócios voltados direta ou indiretamente a este nicho econômico.

 

Capa do Relatório "A Economia Prateada no Brasil", desenvolvido pelo Tsunami 60+. Créditos: Reprodução.

Estamos envelhecendo: como vamos chegar aos 60 anos ou mais?
Segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), a cada segundo, duas pessoas fazem 60 anos no mundo. E mais: hoje, existem mais pessoas com mais de 60 anos do que crianças com menos de cinco anos.

O mundo está envelhecendo e isso implica em enormes desafios, em diferentes frentes. Segundo os Estudos Estratégicos Brasil 2050: Desafios de uma nação que envelhece, realizado pela Câmara dos Deputados Federais, pelo Centro de Estudos e Debates Estratégicos e pela Consultoria Legislativa:

“O crescimento exponencial do número de idosos produzirá impactos avassaladores sobre o financiamento de aposentadorias, o Sistema Único de Saúde e a renda das famílias, muitas das quais dependem dos benefícios pagos pelo sistema previdenciário”.

E o Brasil ainda não está preparado para essas transformações. Os gestores públicos começam a se mover lentamente nessa direção.  No geral, todos os países enfrentam grandes desafios para garantir que seus sistemas sociais e de saúde estejam prontos para aproveitar ao máximo essa mudança demográfica no envelhecimento da população. O estudo ainda alerta:

“A saúde pública, que já parece insuficiente para atender a sociedade brasileira, terá que se robustecer para dar conta de uma população de idosos no mínimo duas vezes maior do que a atual”.

Todas essas questões estão interligadas à forma como as políticas são desenvolvidas e às oportunidades que as pessoas idosas têm de experimentar um envelhecimento saudável.  E se a previsão se confirmar, o Brasil envelhecerá em 34 anos o que países europeus demoraram um século.

É preciso adequar as Políticas Públicas e o atendimento em saúde para o idoso. Enfatizam-se os desafios que existem, principalmente em países com baixa renda. Ainda mais quando se discorre sobre os sistemas de pensão e previdência social.

O Japão e a Itália, por exemplo, se destacam entre os países com população mais velha. Por sua vez, na França, a população idosa dobrou em 100 anos: de 7% para 14%.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) espera que quase dois bilhões de pessoas em todo o mundo tenham mais de 60 anos até 2050, um número que é mais do que o triplo do que era em 2000. Já no Brasil, a expectativa de vida projetada para 2050 pelo IBGE é de 80,7 anos.  Mas como estarão os idosos nessa idade? O que eles consumem? Há oportunidades para essa área?

As oportunidades de negócios apresentadas pelo envelhecimento da população são grandes. Conforme estudo realizado pela Hype60 e pela Pipe.Social, intitulado Tsunami 60+, estima-se que a Economia Prateada seja a terceira maior atividade econômica do mundo, movimentando US$ 7,1 tri anuais. Dito isso, a Economia Prateada é uma oportunidade de mercado que ainda demanda soluções.

 

Longevidade Expo Fórum. Créditos: Denis Ribeiro/Lab60+.

Economia Prateada: oportunidade de mercado
As pessoas idosas contribuem de muitas formas para suas famílias e comunidades. Mas qualquer contribuição só advém se a pessoa de 60 ou mais tiver saúde. Neste momento, sabemos que não estamos prontos, se levarmos em conta questões estruturais, como Políticas Públicas voltadas a Saúde, Assistência Social e Previdência. Há um longo caminho a ser trilhado.

 

Se esses anos adicionais são dominados por declínios na capacidade física e mental, será uma tarefa gigantesca gozar de boas experiências. E a experiência de vida é muito relativa. Enquanto alguns com 70 anos estão com boa saúde, outros, na mesma idade, já não conseguem realizar tarefas básicas. Isso mostra que o cuidado com a saúde é fundamental, além de outros aspectos, como genética, condição social.

Porém, o cenário da Economia Prateada é positivo. Estima-se que este mercado tenha uma renda anual de R$ 940 bilhões. Ou seja, o público dos 60 anos, consome. Sejam produtos ou serviços. Para isso, as empresas precisam se preparar. Até porque é uma geração que ainda não se vê representada na comunicação com as marcas. “Só colocar grisalhos na peça publicitária não adianta”, afirma Martin Henkel, fundador e Diretor da SeniorLab. Martin alerta que:

“Existem dificuldades que vão desde conteúdo e informação consistentes a maturidade e visão de médio e longo prazos para profissionais e empresas. As ciências do consumo ignoraram por décadas este público”.

Por sua vez, Layla Vallias, co-fundadora do Hype60+, relata: “A Economia Prateada está crescendo cada vez mais rápido, com cada dia mais empreendedores qualificados e grandes empresas acordando para a revolução da longevidade. Porém, ainda vejo muitas pessoas apenas falando sobre o assunto, quando precisamos agir”.

Fachada da clínica +60 Saúde. Créditos: Reprodução.

O desenvolvimento da Economia Prateada em alguns pilares

Saúde: a atuação da +60 Saúde
Algo primordial é a saúde. Por isso, o destaque da +60 Saúde, clínica especializada no cuidado com o idoso. Com sede em Minas Gerais, mas com expansão do seu espaço, foi fundada por médicos que tiveram passagem tanto pelo sistema público, quanto pelo sistema privado de saúde.

Estevão Valle, diretor da +60 Saúde, falou contou que a vontade de empreender nessa área aconteceu devido aos desafios de cuidar de uma população crescente, com necessidades peculiares. “O envelhecimento traz aumentos de custos para os sistemas de saúde, demanda cuidadores mais preparados e novas tecnologias, como medicamentos, insumos e processos. Sabíamos que novos modelos deveriam ser criados e ofertados”, disse o diretor.

Sobre a Economia Prateada, Estevão ressalta a expansão deste nicho:

“Há demandas, em todos os setores da economia, relacionadas ao envelhecimento das pessoas: transporte, moradia, lazer, educação, turismo, varejo, entre outros. Há enorme pressão nos governos para deixar as – de fato, uma cidade amigável aos 60+ é amigável a crianças, aos deficientes, a todos”.

Além das experiências com as pessoas de 60+, Estevão dá dicas para uma longevidade de mais qualidade: “Tudo se baseia em escolhas e atitudes, sendo as principais: ter uma vida ativa (mexer-se, estar fisicamente ativo), comer comida de verdade (menos ou nada processadas), manter a mente ativa (com leitura, jogos, desafios para a mente), ter círculos sociais ativos (cuidar da família, dos amigos, da comunidade) e, finalmente, escolher bem as referências de saúde (o vínculo é fundamental – não basta ter um monte de médicos)”, explica ele, que ainda lembra que:

“Não há limite de idade para ser feliz”.

A clínica +60 Saúde já atendeu mais de 10 mil pessoas em suas unidades. Hoje, são mais de 3.500 pessoas com 60 anos ou mais vinculadas aos programas.

Em 2017, a empresa recebeu aporte da Vox Capital, principal gestora de investimentos de impacto do Brasil. Gilberto Ribeiro, sócio da Vox Capital, explicou que: “A escolha da +60 Saúde [para compor o portfólio da gestora] tinha como tese central o cuidado integral da saúde do idoso. No entanto, a ausência de um profissional de saúde que centralize o cuidado do paciente e cada patologia sendo tratada individualmente, as condutas médicas passam a acumular prescrições e o paciente fica sobrecarregado de medicação, muitas vezes experimentando piora de quadros crônicos e perda de qualidade de vida”. Gilberto ainda ressaltou o diferencial da + 60 Saúde:

“A +60 tem um modelo que é voltado para o cuidado do indivíduo e não da patologia. Complementa a intervenção médica e os medicamentos com outras formas de cuidado, como circuitos de equilíbrio, apoio psicológico, nutricional e socialização, obtendo melhores resultados a um custo menor e, muitas vezes, com menos medicação”.

 

Mental: games para prevenir o envelhecimento
A saúde é importante e não podemos esquecer da importância que o aspecto mental tem em nossa vida. Principalmente para aqueles que param de trabalhar e acabam não mais exercendo atividades diárias como antes, em sua rotina de trabalho.

É por isso que o trabalho da  ISGAME tem ganhado repercussão positiva. A empresa foi criada por Fábio Ota em 2014 e sua sede está em São Paulo. Depois que a criou, o empresário percebeu que a metodologia que tinha utilizado antes, voltada às crianças, poderia ser usada para melhorar e ajudar a parte cognitiva dos idosos.

Fábio foi percebendo que o que era trabalhado em curso, como raciocínio lógico, criatividade, planejamento e trabalho em equipe, poderia auxiliar na memória cognitiva e prevenir o Alzheimer.

Para validar esses benefícios, Fábio conseguiu o apoio da FAPESP no programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas – PIPE. Na oportunidade, a empresa recebeu um aporte de R$200 mil para fazer a pesquisa e comprovar os benefícios da metodologia de jogar e ensinar e desenvolver videogames com os idosos. Tal comprovação deixou Fábio satisfeito com o percurso feito: “Em 2017, terminamos essa pesquisa e conseguimos comprovar realmente os benefícios, tanto na memória, quanto na concentração e na qualidade de vida.

Mas desenvolver games é algo que as pessoas de 60 anos ou mais ainda têm um preconceito, segundo relata Fábio. E não apenas com games, mas aprender algo novo. A metodologia adotada nos cursos ensina os alunos a aprender. E não é decorando: é na prática! “Na hora que você consegue aprender, você consegue pesquisar depois para saber como fazer. A nossa metodologia trabalha principalmente isso: que você aprenda a fazer as coisas diferentes e, se você não souber que você aprenda a pesquisar também”, explica.

Para disseminar mais o trabalho, a ISGAME desenvolveu ainda um aplicativo: o Cérebro Ativo. O jogo está disponível para celular (iPhone e Android) e tem as funcionalidades para que você consiga aprender a desenvolver o raciocínio.

É por isso que Fábio destaca a importância dos exercícios mentais: “Os exercícios físicos são muito importantes, sim, assim como os exercícios mentais. Vejo um executivo que se aposenta. Vai fazer só exercício físico e esquece o mental. Passarão alguns anos e ele terá um declínio mental muito grande. Por quê? Porque ele usava muito o cérebro e, de repente, parou de usá-lo”.

O empresário conta ainda que entrou nesse segmento sem pensar que estava fazendo algo voltado para Economia Prateada. Mas ressalta o cuidado para quem pensa em se voltar a esse segmento:

“O que temos que tomar cuidado é que tem muita gente querendo entrar nessa economia achando que vai ganhar dinheiro porque é o futuro. Pode até ganhar dinheiro – e vai. Mas o principal é pensar que estão lidando com pessoas. Então, você tem que pensar nos seus produtos e serviços, que realmente atendam tais pessoas, antes de pensar em ganhar dinheiro em cima delas”.

Os cursos da ISGAME não apenas ajudam a desenvolver games, mas também são uma forma de sociabilização entre as turmas, que, após a aula, conversam, tomam chá ou café. A ISGAME trabalha com o licenciamento da empresa para outras cidades que queiram pôr em prática o trabalho adotado pela empresa contra o envelhecimento.

 

Palestra da Aging 2.0. Créditos: Reprodução.

Ação: o trabalho do Aging2.0
O Aging 2.0 é uma organização internacional presente em 26 países e com 107 representações (chapters) em diferentes cidades. O foco do Aging 2.0, em São Paulo, é o envelhecimento populacional e sua missão é identificar soluções, preferencialmente tecnológicas, que atendam às demandas e aos desejos da população 60+.

Desse modo, o Aging2.0 trabalha com oito pilares que se conectam e a tecnologia é um fator de catalizador neste congraçamento. Os oito pilares são: Saúde Mental; Propósito; Finanças; Mobilidade; Cuidado; Coordenação do Cuidado; Estilo de Vida; e Fim da Vida.

No Brasil, Sergio Werther Duque Estrada é o representante do Aging2.0 e explica como enxerga este mercado: “Há um crescente interesse em criar produtos e serviços para os 60+ no Brasil. Há uma combinação de, pelo menos, dois fatores muito relevantes que concorrem para essa resultante: a forte redução da taxa de natalidade (hoje em torno de 1,8) e o aumento da longevidade – as pessoas estão vivendo mais e, com isso, surgem novas necessidades e oportunidades também”. Sergio ainda discorre sobre as perspectivas e o futuro da economia prateada no país:

“Tendo em vista que, em tese, boa parte deste contingente populacional já não tem filhos para criar e mais tempo livre, a imaginação está solta para criarmos produtos e serviços sob medida. A grande questão é: conhecemos o que essa população, tão heterogênea, quer? Esse é um ponto crucial para uma definição de estratégia de mercado”.

 

Economia prateada: o que esperar?
Apontamos no texto alguns negócios pautados pela economia prateada, ressaltando que há tantos outros. Estes negócios de impacto social têm em comum o propósito de trazer inovação à indústria da longevidade, enxergando as oportunidades e os desafios na aceleração de negócios de impacto.

Empreendedores de impacto podem olhar para este segmento, mas também precisam pensar: para a população idosa do futuro, que terá uma base trabalhadora menor diante de um grande número de idosos, o que deve ser feito?

Possivelmente, muitos empregadores terão que se adaptar com uma nova realidade, onde pessoas de 50 e 60 anos ainda levam vidas produtivas e consomem, e aliar também Políticas Públicas de atenção à saúde. Um futuro sustentável precisa incluir esse público na economia e no empreendedorismo. Mais do que isso: o mercado precisa se atentar à importância do público 60+ e deixar de lado uma visão equivocada sobre a população da terceira idade.

*Conteúdo apurado antes da pandemia e das medidas de segurança com isolamento social.

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