O destino dos resíduos, como embalagens, muitas vezes é invisível aos olhos. Abre-se a porta de casa, a sacola é colocada na lixeira, o caminhão leva e pronto: aquilo deixa de existir. Mas, na verdade, esse caminho é bem mais complexo, sobretudo na pandemia do coronavírus.

Muitas pessoas estão sem sair de casa e aquecem o mercado de serviços por delivery, principalmente de comida, em embalagens que poucas vezes são recicladas. Ao mesmo tempo, os casos de Covid-19 seguem subindo e a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (ABRELPE) acredita que o país terá, até o fim da pandemia, um crescimento de 10 a 20 vezes na geração de resíduos hospitalares, como máscaras e luvas.

Nesse cenário, como assegurar padrões de produção e consumo sustentáveis por meio da redução na geração de resíduos, como prevê um dos objetivos da Agenda 2030? Para Daniela Lerario, co-presidente do Conselho do Sistema B, negócios do ecossistema de impacto estão mais avançados no debate. “Empresas que mensuram e gerenciam seu impacto apresentam maior probabilidade de se adaptar aos cenários atuais e futuros, com menos risco e maior conhecimento e controle da sua cadeia de valor. É provável que a crise sanitária favoreça opções de embalagens que atendam comprovadamente questões de higiene e segurança do consumidor”, explica Daniela.

Resíduos hospitalares
Máscaras e luvas descartáveis são trocadas várias vezes ao dia por quem luta para cuidar dos pacientes com Covid-19. Elas não podem ser reaproveitadas e se acumulam numa velocidade que só aumenta. São resíduos que precisam de uma cuidadosa descontaminação antes do destino final para evitar que a doença se espalhe ainda mais.

Na capital paulista, que concentra o maior número de casos de Covid-19 no país, os materiais infectantes passam por autoclaves. Nesse tratamento térmico, os resíduos são colocados dentro de equipamentos e ficam em contato com vapor de água quente até serem esterilizados antes do descarte em aterros sanitários. O problema é que nem sempre essa etapa acontece e aí o risco de contaminação aumenta. “Infelizmente ocorre, sobretudo se não há programas de capacitação no manejo dos resíduos da geração até o abrigo, onde acontece a coleta para o tratamento. Em alguns locais do Brasil, eles não recebem o tratamento e seguem para aterros sanitários”, alerta Neuzeti Santos, especialista em gerenciamento de resíduos de saúde.

Para garantir que esses materiais também sejam descartados corretamente das casas com pacientes, a Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental recomenda que os resíduos sejam colocados em um saco limpo, dentro de outro saco. Ele deve ser fechado com um nó ou lacre quando estiver com até dois terços da capacidade e precisa ser identificado para quem for fazer a coleta. 

Embalagens de comida
Nas ruas, entregadores de comida por aplicativo trabalham num ritmo acelerado. Só que com menos contato com os clientes que fizeram os pedidos. O coronavírus mudou a rotina de quem faz, leva e recebe as refeições.

A startup DuLocal, que faz parte da rede Artemísia, ampliou a área de delivery e reforçou os cuidados com higiene não apenas na entrega, mas também no preparo dos alimentos. Quem cozinha os pratos são 14 mulheres que moram em Paraisópolis, uma das maiores comunidades de São Paulo. “Como elas trabalham de suas casas, conseguem o direito ao home office. Se sentem empoderadas e parte de uma sociedade mais justa que oferece a elas direitos iguais – coisas que mulheres da periferia normalmente não têm”, conta Roberta Rapuano, COO da DuLocal.

A comida da Dulocal em prato reciclável - Foto: Divulgação.
A comida da Dulocal em prato reciclável - Foto: Divulgação.
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Todas as embalagens usadas para as refeições de comida orgânica são de papel reciclável. “Enxergamos que esse segmento traz para a sociedade um grande problema com o aumento considerável de lixo e desperdício. Então buscamos uma embalagem completamente reciclável”, diz Roberta.

As dificuldades para reciclar
A reciclagem ainda é um desafio no Brasil. Toneladas de resíduos que poderiam ser reaproveitados, contribuindo para a economia circular, ainda são despejadas em locais que nem deveriam mais existir por lei. “Aproximadamente três mil municípios ainda encaminham os seus resíduos e rejeitos de forma inadequada a lixões, contaminando recursos hídricos, lençol freático, solo”, afirma Fabricio Soler, especialista em Gestão Ambiental e advogado especializado em Direito dos Resíduos.

Na pandemia, o problema se agrava. Um relatório da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES) alerta que o coronavírus pode permanecer por tempos diferentes na superfície do que é descartado.

No meio de tudo que é descartado, uma das maiores dificuldades é a reciclagem do plástico. Segundo a ONG WWF, o Brasil é o quarto país que mais gera lixo plástico: são 11,3 milhões de toneladas, mas apenas 1,28% desse tipo de material é reciclado. Um percentual muito baixo que esconde outros problemas, como a falta de estrutura e a alta carga tributária. “A tecnologia disponível no Brasil pra poder fazer com que ele recicle ainda é muito baixa. Existem vários impostos no país, então, às vezes, para a indústria e o mercado é mais barato comprar a matéria-prima virgem do que comprar ela reciclada”, explica Cláudia Pires, fundadora da So+Ma Vantagens, startup de reciclagem que também tem apoio da Artemísia.

Casa Soma SP - Foto: Divulgação.

As casas So+Ma recebem materiais recicláveis em São Paulo, Salvador e Curitiba. Nesses locais, moradores principalmente de periferias levam resíduos reaproveitáveis e ganham pontos que podem ser trocados por recompensas como descontos em mercados, cursos e exames. Na pandemia, apenas a casa em Curitiba foi reaberta com vários cuidados, como uma barreira de distanciamento social na entrega, uso de máscaras, limpeza reforçada e isolamento dos materiais por 72 horas antes do transporte para a cooperativa.

Para Cláudia, o momento atual é de reflexão sobre o consumo e o descarte conscientes. “O hábito da reciclagem tem que ser um hábito de todo mundo, porque ele impacta a cidade como um todo. Não é parar de consumir, mas eu deveria consumir essa embalagem? Como é que eu consumo e o que estou consumindo? É um despertar da gente se perguntar e esse é um empoderamento que o cidadão precisa começar a ter”, ressalta Cláudia.

O olhar para a questão dos resíduos, como mensuração e caracterização, também deve estar presente nos negócios de impacto, como diz Daniela Lerario. 

“A adoção de princípios circulares nas atividades, como a visão sistêmica, distribuída e inclusiva, irá acelerar a construção de uma nova economia que além do lucro.”

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