No último mês, o Brasil chegou ao número histórico de R$5,5 bilhões doados para o combate à pandemia do Covid-19 no país, segundo monitoramento feito pela Associação Brasileira de Captadores de Recurso (ABCR). Deste total, R$4,5 bilhões saíram de empresas e, para se ter uma ideia do que esse número representa, é o equivalente ao montante aplicado em investimentos sociais nos anos de 2017 (2,4 bi) e 2018 (2,1 bi) somados – dados do relatório BISC 2019, com participação de mais de 250 empresas. Alavancadas pelo banco Itau (R$ 1,2 bilhões) e pela indústria de alimentos JBS (R$ 400 milhões), as doações tem como propósito financiar desde a infraestrutura de hospitais até a compra de respiradores, materiais de higiene, alimentos, confecção de máscaras e testes. Mas a complexidade do impacto da pandemia faz com que a mobilização vá além do aporte das empresas.

Diversas lives e centenas de campanhas de financiamento coletivo já movimentaram mais de R$400 milhões em doações para as mais variadas causas. O G10 Favelas, por exemplo, realiza simultaneamente mais de 20 campanhas de crowdfunding, para fomentar o empreendedorismo local e ajudar pessoas em situação de vulnerabilidade em várias favelas pelo Brasil. Destacam-se as campanhas da comunidade de Paraisópolis (Zona Sul de São Paulo): “Adote uma diarista durante o Coronavírus” e  “Ambulâncias, brigadas e socorristas”. Esta última visa a aparelhagem de bases de emergência de saúde na própria região devido à dificuldade alegada pelos moradores de serem atendidos pelo SAMU, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência.

Foi a partir da motivação em ajudar várias causas dentro desse contexto de enfrentamento que nasceu o “Fundo dos Amigos”, criado por Alex Fisberg, Mari Brunini, Mariana Resegue e Teresa Harari. Experientes na área de empreendedorismo social, cada um deles ajudou com um valor e foi atrás de amigos e pessoas próximas para captar doações. A decisão de limitar a divulgação do fundo entre amigos se explica pela confiança no grupo, para que pudessem agir como uma forma de curadoria, direcionando o dinheiro de quem queria doar mas se via paralisado por não saber que causa apoiar.

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Em duas rodadas de captação feitas ao longo de um mês, o grupo conseguiu R$82 mil, que foi destinado a 59 iniciativas de todo o país. “A gente queria uma diversidade grande, para estimular as pessoas que doaram a perceberem a amplitude das necessidades neste momento e o impacto que a gente poderia ter”, explica Fisberg. A escolha das organizações beneficiadas também passou por um minucioso trabalho de leitura de artigos e contatos com os organizadores das campanhas, além de levar em conta o impacto nas periferias e a temática social de cada uma delas (como ajuda a povos indígenas, população LGBT e movimentos negros).

A distribuição dos valores ficou entre R$1.000, como valor mínimo, e R$ 1.800, como valor máximo, a depender da necessidade que eles avaliavam de cada campanha (como a proximidade de bater uma meta, por exemplo). “Talvez num cenário diferente faria sentido apoiar apenas um grande intermediário que saberia distribuir bem os recursos, mas, no caso, a gente era o intermediário, então a ideia era fazer o dinheiro chegar na outra ponta”, conclui Fisberg.

A outra ponta
Carlos Antonio dos Reis, de 52 anos, o ‘Carlão Catador’, é coletor de material reciclável há duas décadas, e faz parte de um coletivo de 19 catadores do Jardim Itapema, bairro da Zona Leste de São Paulo. Com a determinação de isolamento social e por não ter o trabalho considerado como um serviço essencial, a solução encontrada para gerar uma renda para essas famílias foi a criação da campanha “Panela Velha”. A proposta é que as pessoas separem tudo o que pode ser reciclado, inclusive alumínio e papel, como panelas velhas e cadernos, e, então, todo o material é coletado na porta das casas. Em troca, os trabalhadores pedem uma ajuda de custo para pagar o deslocamento, combinado de acordo com a distância, e quem quiser contribuir com um valor extra para ajudar a campanha é muito bem-vindo. Ao saber dessa mobilização, Fisberg, que já conhecia o trabalho de Carlão, indicou a campanha para ser uma das beneficiadas pelo Fundo dos Amigos.

“Essas pessoas que apoiam campanhas pequenas, não sabem a diferença que estão fazendo. É uma diferença cultural – e também é diferença financeira. Estão tirando nós da mão dos atravessadores”, reflete Carlão. A última parte da frase se explica pelo preço que tem sido praticado na compra de materiais recicláveis, que caiu muito (o vidro, por exemplo, caiu de 14 para cinco centavos o quilo). Por conta disso, os catadores, que têm deixado todos os materiais coletados de quarentena antes de comercializá-los, estão guardando boa parte da coleta para não se sujeitar a esses preços. Além disso, parte do valor arrecadado volta a circular na comunidade, com a compra de máscaras feitas por costureiras que são do grupo de risco.

Diferentemente da maioria das iniciativas apoiadas pelo fundo, a “Panela Velha” não possuía uma campanha de arrecadação on-line, e por isso consta no relatório de transparência do grupo como “Cata Tudo e Recicla – Carlão”, que é como o catador divulga seu trabalho nas redes. Porém, a preferência por campanhas on-line se justificou para facilitar a parceria com o Instituto Sincronicidade, que cuidou da administração dos recursos (as doações eram direcionadas na conta do instituto), e também da parte jurídica e contábil. Além de dar esse apoio sem custos, o instituto também indicou algumas organizações a serem ajudadas e dobrou o valor do aporte direcionado a elas pelo fundo.

Conheça a equipe do “Cata Tudo e Recicla – Carlão”, na galeria a a seguir.

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Campanha Cata Tudo e Recicla – Carlão
O grupo de Carlão lançou a “Campanha da Panela Velha”, que funciona da seguinte forma:
Em sua residência, você separa panelas, cadernos, revistas antigas e livros. A equipe do Cata Tudo buscará o material e pedirá uma ajuda de custo, entre R$25 e R$30 – o valor fica a critério da pessoa.
A coleta de todo material separado em cada residência é feito uma vez por semana pela equipe do Cata Tudo.
O objetivo da campanha é que o grupo possa ter recursos para dar continuidade ao trabalho de reciclagem.
A iniciativa busca fortalecer a categoria dos catadores, de modo a dar visibilidade a um trabalho essencial na sociedade.
Para maiores informações, você pode ligar para (11) 98328-9457 ou (11) 98553-1851 – ou ainda acessar o Instagram @catatudorecicla05.

A doação e o brasileiro
A última edição divulgada da pesquisa “Brasil Giving Report” mostrou que 70% das pessoas responderam que doaram ao menos uma vez entre o período de agosto de 2017 e julho de 2018. O estudo, realizado pela CAF (Charities Aid Foundation) foi feito on-line e entrevistou mais de 1.000 pessoas para entender o comportamento do brasileiro quando o assunto é doação. Nesta pesquisa, o apoio a instituições médicas constou na resposta de apenas 8% dos doadores, enquanto 52% ajudou alguma instituição religiosa, seguido de ajuda a crianças carentes (38%) e ajuda aos pobres (31%).

Para a Rede Filantropia, existe no Brasil uma cultura de doação, que é “movida pelo coração”, ou seja, quando alguém se sensibiliza ao enxergar a dor do outro e age para aliviar a situação. Porém, a falta de ligação entre a doação e uma causa não formaria um doador constante.

Com o ineditismo de situações trazidas pela pandemia e outros tantos problemas já existentes que ganharam maior visibilidade neste período, fica a se o visível aumento no número de doações irá passar com a pandemia ou se irá firmar um novo hábito na cultura brasileira.

Para se proteger
O Ministério da Saúde recomenda o distanciamento mínimo de cerca de dois metros de qualquer pessoa, esteja ela espirrando ou tossindo e/ou assintomática. É necessário também evitar abraços, beijos e apertos de mãos – o comportamento amigável é bem-vindo, mas sem contato físico. Leia aqui sobre as medidas de prevenção ao Covid-19.

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