A pandemia causada pelo novo Coronavírus se espalhou pelo mundo de forma rápida e impactante, fazendo com que muitas pessoas se isolassem. Antes de tudo isso, quem é cego, surdo, cadeirante ou tem algum tipo de deficiência física ou intelectual já enfrentava vários desafios e, com a pandemia, novas barreiras surgiram para a acessibilidade. 

Agora, um deficiente visual, que precisa tocar em superfícies ou ter o apoio de outras pessoas, está mais vulnerável do que nunca. Tocando em diferentes superfícies ou falando com pessoas que ele não sabe se estão usando máscara, como evitar a contaminação pela Covid-19? Quais são os impactos da pandemia na acessibilidade e no direito de ir e vir?

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Thays Martinez, advogada, responsável pela Lei estadual n° 10.784 (atualizada pela Lei nº 12.907, de 15 de abril de 2008), que garante que cães guia possam entrar em transporte público, compartilha sua experiência. Ela explica que as pessoas que têm deficiência visual estão mais vulneráveis à Covid-19, devido à necessidade de contato com pessoas e, sobretudo, superfícies.“Com a pandemia, as compras on-line aumentaram,  mas muitos aplicativos e sites tornam inviável o uso por pessoas deficientes visuais”, relata. Segundo a 42ª edição da Webshoppers (2020), estudo organizado por Ebit e Nielsen, o faturamento com e-commerce apresentou um aumento de 47% no primeiro semestre.

Thays Martinez, advogada, responsável pela Lei estadual n° 10.784. Crédito: Arquivo Pessoal

Mudar essa situação pode estar relacionado às diretrizes do ODS 9 da agenda da Organização das Nações Unidas, que, até 2030, pretende aumentar significativamente o acesso às tecnologias de informação e comunicação para todos e se empenhar para oferecer acesso universal e preços acessíveis à internet nos países menos desenvolvidos.

Com a visão comprometida, o tato é um dos principais sentidos utilizados por pessoas com deficiência visual. O contato físico se faz necessário sempre e é justamente isto que os deixa mais expostos à Covid-19. De acordo com dados do IBGE no Censo 2010, 1.203.353 pessoas têm deficiência visual no estado de São Paulo. O que equivale a 40% do total de moradores com algum tipo de deficiência.

Credito: Equipe de Arte Aupa

Rotina sem toque
Martinez conta ainda que se sentiu desamparada no que diz respeito ao acesso à informação na pandemia. “Muitos meios de comunicação, até mesmo do Governo, não se preocuparam em serem acessíveis aos deficientes visuais ou auditivos em relação a como se proteger do vírus. A campanha do Governo Federal sobre como lavar as mãos não foi acessível aos deficientes visuais, por exemplo. Afinal, não teve uma explicação em áudio”, explica.

Clarissa de Freitas Pires, supervisora do atendimento da Fundação Dorina Norwill para Cegos. Créditos: arquivo pessoal.

A Fundação Dorina Nowill para Cegos oferece serviços gratuitos e especializados de habilitação e reabilitação, como orientação e mobilidade e clínica de visão subnormal, além de programas de inclusão educacional e profissional. Segundo Clarissa de Freitas Pires, supervisora do atendimento da Fundação, uma das maiores dificuldades para os cegos na pandemia é teclar suas senhas nas maquininhas de pagamento digital.

Alguns estabelecimentos estão colocando protetores nas máquinas, o que atrapalha a sensibilidade tátil no relevo do número 5, que é a tecla central e funciona como referência para que as pessoas com deficiência visual possam localizar os demais números. “Alguns atendidos relataram que muitas pessoas estavam com medo de ajudá-los a atravessar a rua, devido a necessidade de segurar no braço dos videntes”, exemplifica Pires.

Imagem de um protetor de teclado aplicado em elevador.

Sobre as vulnerabilidades que pessoas deficientes enfrentam, Martinez ressalta a importância da consciência de quem oferece um produto ou serviço – uma reflexão que demanda revisão.  “As empresas precisam pensar na inclusão e deixar que seus serviços sejam acessíveis para todos. A consciência sobre isso precisa ser desenvolvida e a pandemia nos mostrou isso”, comenta.

Ainda segundo a advogada, quando o assunto é acessibilidade, as pessoas lembram de rampas e piso pododáctilo, mas o tema é muito mais amplo. “Nós temos diferentes necessidades para cada tipo de deficiência. Por exemplo, em São Paulo, há poucos semáforos sonoros. Então, a forma como é tratada a questão da inclusão no município onde cada um mora, dirá também sobre como se dá o desenvolvimento da acessibilidade naquele local”, destaca Marinez. 

Acessibilidade digital
Segundo 3º Estudo de acessibilidade nos sites brasileiros, organizado pelo Movimento Web para Todos, em parceria com a Big DataCorp, mostrou que dos 14 milhões de sites ativos no Brasil, 99% não estão acessíveis para pessoas com deficiência. Isso revela que os conteúdos não chegam ou chegam de forma ineficiente para um público de 46 milhões de pessoas com deficiência (PCD).

A advogada Thais Martinez considera que o Brasil já tem bastante leis sobre inclusão e acessibilidade, porém é necessário mais especificidade nesses documentos. “A maioria das leis é bem ampla, então, precisamos de leis detalhadas dizendo que os sites e aplicativos devem contemplar as necessidades das pessoas com deficiência. Precisamos criar uma cultura de inclusão na sociedade”.

 Ou seja: como um surdo obtém notícias sobre a pandemia, uma vez que a maioria depende da língua de sinais em sua comunicação? Ou como uma pessoa cega pode realizar compras on-line em um site que não possui uma navegação adequada?

Clique na imagem para ser direcionado aos dados do IBGE. Crédito: Equipe de Arte Aupa

Apoio em tempos de pandemia
Ações pontuais foram realizadas para beneficiar pessoas atendidas na Fundação Dorina Nowill para Cegos, como a parceria com a Google e a operadora Claro. Na oportunidade, a instituição conseguiu oferecer aparelhos de celular com acesso à internet para que os clientes pudessem receber atendimentos à distância. Recriamos nossos atendimentos e serviços prestados,  a partir da criação de uma plataforma EAD de cursos à distância, do trabalho em home office, dos eventos realizados on-line, e  das lives para mantermos as conversas com nosso público”, descreve Pires.

Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD) também teve dificuldades durante a pandemia. Algumas saídas encontradas foram os atendimentos por meio da telemedicina e a disponibilização de orientações em suas redes sociais. Segundo Lina Borges, coordenadora da Terapia Ocupacional da AACD, a associação iniciou entregas e reparos de produtos ortopédicos nas residências dos pacientes. “A pandemia mostrou que devemos investir na acessibilidade digital para que pessoas com deficiência possam ser assistidas virtualmente, conseguindo, assim, atender de forma rotineira suas necessidades”, explica.

Lina Borges, coordenadora da Terapia Ocupacional da AACD. Crédito: Arquivo Pessoal

Para a coordenadora da AACD, os desafios das pessoas deficientes são os mesmos de todas as pessoas. Uma orientação que possa diferir de outras pessoas sem deficiência é apenas relativo ao uso de seus aditamentos de transporte, como cadeira de rodas, andadores e muletas. “Esses equipamentos precisam ser higienizados com uma frequência maior que a habitual. Talvez, o desafio mais significativo que estamos vivendo é o nosso olhar voltado às condições coletivas e não somente individualizadas”, observa Borges.

Em relação a locomoção, orientação e mobilidade, devido ao isolamento social, Pires, da Fundação Dorina Nowill, percebeu que as pessoas cegas ou com baixa visão restringiram as saídas de suas residências. Já no âmbito psicológico, muitos pacientes verbalizaram sentimentos negativos em relação à pandemia, como crises de ansiedade, medos, fobias e sentimento de isolamento, além de desencadear doenças psíquicas, que precisaram de uma intervenção psiquiátrica. “Alguns pacientes relataram dificuldades em acessar esse serviço de maneira rápida”, explica ela.



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