A pandemia causada pelo novo Coronavírus trouxe um aumento relevante na quantidade de pessoas que estão passando fome ou ainda que estão expostas à insegurança alimentar e nutricional, segundo a ONU. Com isso, podemos destacar as propostas do ODS 2, que trata de zerar a fome e promover agricultura sustentável. Este é um dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU). Até 2030, a ONU pretende acabar com a fome e garantir o acesso a alimentos seguros, nutritivos e suficientes.

ODS 2, que trata de zerar a fome e promover agricultura sustentável. crédito: Equipe de Arte Aupa

A ONU projeta também adotar medidas para garantir o funcionamento adequado dos mercados de commodities de alimentos e seus derivados, e facilitar o acesso à informação de mercado, inclusive sobre as reservas de alimentos, a fim de ajudar a limitar a volatilidade extrema dos preços dos alimentos.

O que é insegurança alimentar? Crédito: Equipe de Arte Aupa

A fome voltou a crescer no Brasil e a quantidade de pessoas que estão nessa situação aumentou 43,7% em cinco anos, ainda segundo o IBGE. Entre 2017 e 2018, o nível de segurança alimentar dos domicílios caiu abaixo do nível registrado em 2004. A pobreza extrema também registrou crescimento durante a pandemia, além do alto índice do desemprego.

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Em 2019, 43,1 milhões de pessoas no Brasil  consumiam menos calorias do que o necessário para uma vida saudável. Para comparação: em 2016, o número era de 37,5 milhões. Ou seja, houve alta de 13% em três anos, afetando cerca de 5,6 milhões de brasileiros, de acordo com o relatório  O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2020 (State of Food Security and Nutrition – SOFI), da FAO/ONU.

Para Felipe Gasko, engenheiro ambiental e co-fundador da duLocal, startup de gastronomia orgânica, a procura por alimentos orgânicos aumentou com a pandemia. Ao mesmo tempo, as pessoas estão se preocupando mais com a qualidade dos alimentos. Vale dizer que a maioria dessas pessoas se concentra nas classes Ae B.  “Com a pandemia, a quantidade de pedidos de  comida por delivery aumentou muito e isso fez com que as pessoas consumissem mais alimentos de pior qualidade”, conta Gasko.

Felipe Gasko, engenheiro ambiental e co-fundador da duLocal. Crédito: Arquivo Pessoal

De acordo com a Associação de Promoção dos Orgânicos (Organis), durante a quarentena, a procura por alimentos orgânicos cresceu 55%.

O consumo de alimentos saudáveis diminuiu durante a pandemia, segundo um estudo feito pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), realizado em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Além disso, dos 68,9 milhões de domicílios do país, 36,7% estavam com algum nível de insegurança alimentar, atingindo, ao todo, 84,9 milhões de pessoas entre 2017 e 2018, ainda segundo o IBGE

Gasko explica que a insegurança alimentar existe em duas dimensões: abastecimento e renda. A população vulnerável não tem renda para comprar alimentos na quantidade certa e também não consegue prezar pela qualidade, então acaba consumindo alimentos industrializados. “Falta também a informação de ir com R$20,00 para a feira e priorizar frutas, legumes e verduras, ao invés de alimentos de rápido preparo”, avalia ele. O engenheiro ambiental explica  que “Isso poderia ser resolvido com o pequeno agricultor vendendo direto para o consumidor final, pois, assim, ambos sairiam ganhando, pagando menos e o consumidor periférico começaria a ter mais acesso a alimentos naturais, sem agrotóxicos”. Além de uma alimentação mais saudável, Gasko conta que o consumo de alimentos orgânicos ajuda ainda na preservação do meio ambiente.

Barbara Lopes, diretora de invenções do Instituto EcomAmor. Crédito: Arquivo Pessoal

Para Barbara Lopes, diretora de invenções do Instituto EcomAmor, ONG que promove ações para conscientização sobre cidades sustentáveis, um dos problemas da insegurança alimentar é a falta de Políticas Públicas que não apoiam o acesso à alimentação saudável. “As pessoas precisam diminuir o consumo de alimentos industrializados e serem informadas sobre o que é um alimento natural, pois, nas classes mais baixas falta o acesso a esses alimentos por causa dos preços elevados. Precisamos apoiar o produtor local”, enfatiza Lopes.

A diretora do Instituto EcomAmor acrescenta que é preciso melhorar as Políticas Públicas para fortalecer a informação e educação. “Esse acesso à conscientização precisa ser feito além das escolas e empresas, mas também no SUS para trazer informação alimentar e combater a desnutrição e principalmente, a fome”, relata Lopes.

Obesidade x fome
Segundo o estudo Implicações da Pandemia Covid-19 Para a Segurança alimentar e Nutricional no Brasil (2020), além da fome, há ainda o risco de sobrepeso e obesidade, pois as pessoas em isolamento tendem a comer mais e ingerir alimentos mais calóricos. A desnutrição, o sobrepeso e a baixa ingestão de micronutrientes, como ferro, cálcio e vitaminas causa doenças, ainda de acordo com estudo. Atualmente, 55,7% da população adulta do Brasil está com excesso de peso e 19,8% está obesa, de acordo com a Pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel).

O que é sobrepeso, obesidade e desnutrição? Fonte: estudo Cuidados com os Alimentos.

Maurício Almeida Prado, diretor executivo do Plano CDE, relata que a questão da obesidade de um lado e a fome de outro acontece no Brasil devido à falta de cultura que as pessoas não recebem em relação a como se alimentar de forma mais saudável. “Não necessariamente quem está entrando no grau da obesidade está comendo mais do que quem está passando fome. Isso acontece porque as pessoas se alimentam de forma errada.  Já a questão da fome pode ser explicada pela renda informal de pessoas vulneráveis”, salienta Prado.

Maurício Almeida Prado, diretor executivo do Plano CDE - Crédito: Divulgação.

Alta de exportação e desabastecimento interno
O aumento das exportações de alimentos, a alta do dólar e a maior demanda interna, em decorrência da pandemia do Coronavírus, estão causando alta no preço dos alimentos básicos. Segundo pesquisa feita pelo IBGE, a prévia da inflação oficial brasileira avançou 0,45% em setembro, devido à alta dos preços dos alimentos. Os valores dos alimentos e das bebidas pressionaram o indicador com a maior alta (1,48%), segundo o instituto. 

Prado destaca que a alta no valor do arroz, por exemplo, pode ser explicada pela alta no consumo. Pessoas que viviam em situação de vulnerabilidade quando se depararam com o Auxílio Emergencial, começaram a ter condições de comprar alimentos básicos. “Outro fator que influenciou no aumento dos alimentos, foi a alta do dólar. A moeda valorizada incentiva os produtores a exportarem o produto e, consequentemente, encarecer a venda para o próprio país”, explana o executivo.

"Guia alimentar para população brasileira". Crédito: Equipe de Arte Aupa

Clique nos botões a seguir e conheça mais sobre o “Guia alimentar para população brasileira” e a “Nota Técnica nº 42/2020/DAEP/SPA/MAPA”.

"Guia alimentar para população brasileira". Crédito: Equipe de Arte Aupa.
O MAPA emitiu nota técnica em setembro de 2020, reivindicando pontos do "Guia alimentar para população brasileira", de 2014. O pedido de revisão é sobre normativas relacionadas aos alimentos processos e ultraprocessados. Crédito: Equipe de Arte Aupa

O diretor executivo do Plano CDE conta que uma saída para essa alta nos alimentos seria o governo bancar a diferença do valor dos alimentos para não ser exportado e valorizar o mercado. “A questão da fome ter voltado a assombrar os brasileiros gira em dois pontos: o primeiro é por causa da economia, que não cresce desde a crise de 2015, onde o Brasil gastou demais e agora estamos sem dinheiro, e o segundo é pela falta de aposta do governo em problemas sociais”.

Por sua vez, Gasko destaca que as classes altas estão comendo bem: se preocupando com qualidade da alimentação, cozinhando sua própria comida e apostando nos orgânicos. Já os mais pobres estão trocando o frango pela salsicha, devido à queda na renda e ao aumento nos preços – afinal, o percentual de renda interfere muito na quantidade e na qualidade alimentação, ainda segundo o co-fundador da duLocal.

Segundo Prado, a alta nos preços dos alimentos impacta mais as vidas das pessoas mais vulneráveis, pois quanto mais vulnerável é uma família, menos alimentos essas pessoas consomem – e os alimentos ingeridos costumam ser de menor qualidade. A inflação interfere no bolso desses cidadãos, fazendo com que a maior parte da renda seja gasta com alimentos. “A renda informal e o desemprego afeta a insegurança alimentar dos brasileiros e os programas  Bolsa Família e Auxílio Emergencial ajudaram a amenizar esse problema social. Mas a maior parte desse dinheiro está sendo usado pelas classes mais baixas para compra de alimentos. A perda desses benefícios pode agravar esse problema de insegurança alimentar”, enfatiza Maurício.

Crianças na pandemia
A ONU pediu que os governos implementassem medidas a favor da população escolar, a qual as famílias que têm mais dificuldades em acessar alimentos, fossem amparadas pelo apoio nutricional que os programas de alimentação escolar garantiam nas escolas. As recomendações para minimizar o impacto gerado pelo fechamento de programas de alimentação escolar na segurança alimentar devem ser decididas por cada país. Algumas cidades adotaram o programa chamado Bolsa Alimentação, que já está liberado.

O governo, por sua vez, sancionou a Lei 13.987/2020, que garante a distribuição dos alimentos da merenda escolar às famílias dos estudantes que tiveram suspensas as aulas na rede pública de Educação Básica devido à pandemia.

Tal quadro se formou com o fechamento das escolas, as crianças que faziam a maior parte das refeições na instituição de ensino, ficaram em uma situação vulnerável e delicada. “Cada criança é mais uma pessoa para se alimentar em casa e, muitas vezes, a família não tem condições de alimentar mais uma pessoa. Algumas prefeituras deram um benefício financeiro para ajudar na alimentação das crianças, por exemplo”, elucida Prado.

Claudia Maria Ribeiro, de 42 anos, é recepcionista de loja e mãe de Ezequiel Felício, de 7 anos. Crédito: Arquivo Pessoal

Claudia Maria Ribeiro, de 42 anos, é recepcionista de loja e mãe de Ezequiel Felício, de 7 anos. Ele é aluno do primeiro ano do Ensino Fundamental na Escola Estadual José Nascimento, localizada em São Paulo. Segundo Ribeiro, Ezequiel não fazia as refeições na escola e ela não conseguiu receber o benefício Bolsa Alimentação (no valor de R$ 55,00), onde crianças da rede pública estão sendo beneficiadas para manter o acesso à alimentação. “Eu prefiro que as aulas só voltem depois de uma vacina, pois criança não sabe seguir as regras do distanciamento social sem um adulto por perto o tempo todo”, relata Ribeiro.

Com a pandemia, a Ribeiro se deparou com o ensino on-line, onde precisou alfabetizar seu filho. “A escola manda as atividades semanalmente, mas além de passar essas lições, eu aplico outras mais aprofundadas, pois vi que as mães dos coleguinhas da escola do Ezequiel, não estavam conseguindo alfabetizar os filhos e com isso, eu fiquei com medo que meu filho perdesse o ano”, explica a mãe.

De acordo com a Secretaria Municipal da Educação de São Paulo, 353 mil estudantes receberam um cartão alimentação para suprir a falta de merenda.

A insegurança alimentar é um drama vivido por brasileiros que se encaixam nas classes mais baixas e a pandemia causada pelo Covid-19 pode aumentar o índice deste problema. Até 2030, o ODS 10, que trata da redução de desigualdades, projeta alcançar e sustentar o crescimento da renda dos 40% da população mais pobre a uma taxa maior que a média nacional. Resta saber como será este desenvolvimento no Brasil.

O ODS 10 trata da redução de desigualdades. Crédito: Equipe de Arte Aupa.

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