COOMAFITT, Julho de 2017, Tres Forquilhas/RS, Agricultora e Padeira Celi Aguiar Machado, Rua Antônio Witt - 3700 - Boa União , Foto de Ubirajara Machado. Fonte: Conexsus.
Ao longo das semanas após a chegada da pandemia causada pelo Covid-19 no Brasil, articulações de empresas, fundações, coletivos e demais parcerias começaram. De imediato, a população, por um todo, se preocupou se os empregos seriam mantidos – o que diz respeito diretamente à renda das famílias e ao seu poder de compra e acesso aos recursos mínimos e serviços que fazem parte das rotinas privadas.
A seguir estão algumas possibilidades e parcerias que estão acontecendo no ecossistema de impacto e que visam urgências em diferentes aspectos. Conheça o movimento #ONovoNormal, liderado pela Quintessa, e também o Plano de Resposta Socioambiental, encabeçado pela Conexsus.
Possibilidades para o futuro A Quintessa lançou o movimento #ONovoNormal, para que a ações de impulsionamento que visam diminuir desigualdades sociais continuem. Ou seja, que o novo padrão para a “normalidade” seja aquele que coletivamente será construído a partir da experiência após o Covid-19.
A proposta parte justamente das desigualdades escancaradas e da dificuldade de acesso de milhões de brasileiros a direitos básicos, como água para lavar as mãos (medida de higiene fundamental), bem como saúde e educação de qualidade. Soma-se ainda a incoerência de haver brasileiros abaixo da linha da miséria e que passam fome ao fato do país ser uma potência agrícola e agroexportadora; além dos desdobramentos advindos do aquecimento global e da devastação de florestas.
Para este novo “padrão”, a Quintessa ressalta que é preciso o empenho em: atuação feita com base na colaboração, de modo a valorizar o comércio local e a solidariedade; ação de forma integrada entre os diferentes setores da sociedade, considerando também que a decisão individual pode fazer diferença ao coletivo; a reconexão com a missão e os propósitos, tanto para empresas quanto para indivíduos, valorizando o processo (o como se faz) e as parcerias; as pessoas devem estar no centro das decisões; e uma qualidade de vida mais digna e justa a toda população e mais respeito ao meio ambiente.
Para saber mais sobre o movimento #ONovoNormal, clique aqui. A seguir, conheça algumas startups destacadas pela Quintessa e que podem colaborar durante a crise do Coronavírus.
A ideia parte dos dados advindos do levantamento feito pela Conexsus e seus parceiros em abril, onde se evidenciou que empreendedores rurais têm sido bastante afetados, principalmente aqueles que dependem de mercados de nicho, como restaurantes, feiras livres e entrega de merenda escolar. Vale ressaltar que o desmatamento e a degradação dos biomas (ainda mais acentuados) são também consequências da pandemia e seu contexto e que atingem diretamente aqueles que vivem da lida no campo, sobretudo produtores pequenos.
A proposta das organizações em parceria é amenizar os efeitos destes problemas com o desenvolvimento de canais de comercialização com novos compradores públicos e privados. A estimativa é que cerca de 400 negócios comunitários sejam atingidos em todo território nacional.
Para saber mais sobre a ação, acesse o site oficial. Além da realização feita por Conexsus, Unicafes, CNS e Fundo Vale, as seguintes organizações também apoiam esta mobilização: Fundação Arymax, Grupos Pão de Açúcar/Instituto GPA, Climate and Land Use Alliance e Good Energies Foundation.
Produtor segurando cajás. Fonte: Site Oficial da Conexsus.
Créditos da foto de capa: site oficial da Conexsus.
*Este diálogo aconteceu no dia 6 de março de 2020, antes do alastramento do Coronavírus (Covid-19) no Brasil.
Como é envelhecer em um país que idolatra os jovens e não respeita os mais velhos? Acrescente ainda os muitos desafios para a aprovação de políticas públicas. O Brasil é um país que envelhece e rápido. Estima-se, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que em 2050 cerca de um terço da população do país terá 60 anos ou mais. Neste cenário desafiador, também surge um mercado voltado aos que envelhecem: os idosos não só vivem mais, como também consomem mais. É a economia prateada.
E para tratar do assunto, bem como dos desafios sobre envelhecer e das políticas públicas voltadas aos idosos, Aupa conversou com Alexandre Kalache, médico epidemiologista especializado em envelhecimento, sendo um reconhecido nome também internacionalmente sobre questões ligadas à longevidade.
Sobre a economia prateada precisamos ressaltar que o Brasil é um país caracterizado pelas desigualdades. Kalache afirma que a população vive mais, mas com menos saúde. E traz ainda a perspectiva de que a economia prateada é distorcida no Brasil e também no mundo, embora, sim, os serviços oferecidos aos idosos sofram uma demanda.
Também apontou que uma fatia do Produto Interno Bruto (PIB) está nas mãos de pessoas com mais de 50 anos, lado a lado a milhões que não têm o mínimo para viver. Muitos que conseguem se aposentar precisam contar com os serviços públicos, que são precários.
Kalache menciona a necessidade de um olhar mais humanizado sobre o idoso. “As pessoas estão vivendo muito isoladas. Existe uma epidemia de solidão”, ensina.
Dados sobre a formação e a atuação de Alexandre Kalache. Créditos do box: Equipe de Arte da Aupa - Jornalismo de Impacto.
Este conteúdo especial está dividido em grandes temas que serão apresentados ao longo da entrevista:
Economia prateada saúde e moradia;
Envelhecer e os quatro capitais;
Ações para o envelhecimento da população;
Cultura do cuidado;
Envelhecer e as oportunidades;
Comportamento da vida.
AUPA – Muito se fala em economia prateada e nas possibilidades de serviços para idosos devido à alta demanda. E isso tem a ver também com a nova realidade e a nova leitura que é feita sobre o idoso hoje. Como você vê este cenário? ALEXANDRE KALACHE – No Brasil, somos obviamente movidos por aquilo que vem das culturas e sociedades de países que nos influenciam, que são os mais desenvolvidos e mais envelhecidos. Então, pegamos carona em muitas situações, que não necessariamente refletem o que acontece aqui.
O fato é que, de acordo com o Instituto Locomotiva, nós tenhamos R$1,8 trilhões da economia nas mãos das pessoas com mais de 55 anos. É muito – embora, se comparado com os Estado Unidos, onde esse montante soma US$4 trilhões, é bem menos. Obviamente, nós temos muita gente que passou da casa do 50 e que tem no bolso o poder aquisitivo muito grande, mas isso esconde tremendas distorções, já que nós somos um país caracterizado pela desigualdade.
Ainda: nos Estados Unidos, não significa que todo aquele que envelheceu tem dinheiro. Há distorções e, inclusive, as desigualdades lá também estão aumentando. Basta dizer que, nos últimos quatro anos, a expectativa de vida nos Estados Unidos caiu. E isso reflete o fato de que a pobreza, a desigualdade e a dificuldade de acesso aos serviços de saúde estão crescentes.
Um indicador tão sensível de qualidade de vida e de saúde é a expectativa de vida ao nascer. E essas distorções se prolongam ao longo da vida. Nos Estados Unidos, as pessoas com mais de 60 anos também estão hoje vivendo um pouco menos. Mais grave ainda: está aumentando o número de anos em que se vive com menos saúde. Esse indicador, de viver com saúde os anos que ainda se espera viver, é de fundamental importância – muito maior do que simplesmente o número de anos que você tem para viver.
Então, temos que deixar muito claro que a economia prateada é distorcida no Brasil e também no mundo. Ainda assim, já que o número de idosos está aumentando tanto, as possibilidades de serviços a serem oferecidos para idosos sofrerá uma alta demanda. Inegavelmente, háuma parcela de idosos que tem muito dinheiro no bolso para comprar um carro do último modelo, um lançamento imobiliário, fazer um cruzeiro, viagens, turismo ou ter acesso a serviços de saúde de qualidade privados – e, obviamente, fazer demandas em outros setores de prestação de serviços, como cultura, educação, lazer, etc.
Então, temos que sempre pontuar, de uma forma muito clara, que nós temos realmente uma fatia do PIB nas mãos de pessoas com mais de 50 anos, mas temos, sobretudo, um bolo grande de pessoas que não está tendo o mínimo. Mínimo mesmo. Um teto sobre suas cabeças, comida na mesa, dinheirinho no bolso – nem que seja para comprar os medicamentos necessários. É claro que nós não poderíamos dizer que essas pessoas entraram para a “Economia Prateada”.
A nova realidade e a nova leitura que é feita sobre o idoso sofre também dessas distorções. Há pessoas mais idosas lá em cima da hierarquia socioeconômica e a gente sabe que são majoritariamente brancas, e com um nível educacional que os demais não puderam comprar. Para elas, nunca foi tão bom envelhecer. Elas podem comprar serviços de saúde, têm boas moradias e têm tempo e dinheiro para um lazer de qualidade.
Muita gente, no entanto, envelhece muito mal, sem o básico. Por exemplo, 83% dos idosos no Brasil dependem única e exclusivamente do SUS para os seus serviços de saúde.
Muitas dessas pessoas antes tinham acesso a um seguro de saúde e perderam no momento em que se aposentaram, já que o empregador não tem a obrigação de continuar pagando a sua fração. E os prêmios que se paga a partir dos 60 anos passam a ser proibitivos, porque você tem que pagá-los sozinho. O empregador já não participa, não compartilha, e os prêmios aumentam a medida que você envelhece. Ou seja, quando você mais precisa contar com aquele serviço de saúde. E, depois de você ter pago aquelas cotas a vida inteira sem usar por não ter necessidade, na hora em que você envelhece com um risco maior de doenças crônicas que demandam e que são caras, você menos conta com eles. Acaba caindo no serviço público que, como todos sabem, estão num estado bastante precário.
Economia prateada, saúde e moradia AUPA – É crescente o envelhecimento da população e tal fato é também uma oportunidade de negócios voltado a muitas questões da longevidade. Qual setor para o atendimento às pessoas com mais de 60 anos você vê deficiência e por quê? ALEXANDRE KALACHE – Em primeiro lugar,a Saúde. Há muita deficiência e as pessoas mais velhas hoje no Brasil dependem em sua imensa maioria do setor público. Mas há também oportunidade de negócio neste setor. Estão começando a aparecer seguros privados, que têm grandes limitações, mas que oferecem algum tipo de proteção para a pessoa mais idosa, a qual, um pouco por desespero, acaba comprando serviços ou prestação de serviços privados não plenamente satisfatórios, porém que ainda oferecem um básico. É um exemplo de oportunidade que está se abrindo. Ou de agência para prestação de cuidados – já que as famílias são cada vez menores na base e maiores no vértice da pirâmide – muitos idosos e poucos cuidadores em potencial. Ninguém tem tempo, todo mundo está com pressa. Então, vamos contratar umas cuidadoras para fazer o que antes as famílias (vamos fazer justiça, as mulheres da família) faziam de graça. Outro exemplo de oportunidade que o envelhecimento traz.
Há outras áreas que poderiam ser muito mais exploradas como oportunidades de negócios, como a questão de moradia.Temos um déficit de moradia imenso no Brasil. Temos também pessoas que não são necessariamente ricas em termos de capital, mas que tem um lastro, tem patrimônio. Estou falando com você diretamente de Copacabana [Rio de Janeiro], um bairro muito envelhecido, onde há muitas pessoas que para cá vieram nos anos em que tinham um poder aquisitivo alto, compraram propriedades nas quais vivem e que hoje têm dificuldades imensas de pagar condomínio e IPTU, mas ficam presas nessas propriedades, muitas vezes, dilapidadas.
Elas precisavam fazer serviços de renovação, mas não têm o capital para investir. Então, elas são ricas em termos de patrimônio, mas não têm o dinheiro vivo para poder viver com qualidade.
Olha aí uma tremenda oportunidade naquilo que na literatura inglesa chama de hipoteca revertida. Ou seja, você continua a morar onde sempre morou, você “vende” o seu apartamento para o setor financeiro, terá um capital para investir na sua propriedade e viver melhor os anos que lhe restam. Mas você perde sua propriedade e os herdeiros não gostam muito disso. Então, você pode ter um choque intergeracional de interesses, um choque entre aqueles que esperam um dia receber a herança e aquele que precisa usufruir daquilo que construiu, construção no sentido de ter um pé de meia, de ter uma propriedade que para ele não está oferecendo qualidade de vida.
Outras oportunidades de negócios crescentes com o envelhecimento da população vêm do fato, como já disse, que estamos cada vez mais com pessoas que precisam de cuidados. Esse é um setor que cresceu muito. O maior número de empregos gerados nos últimos cinco anos e não só no Brasil. Obviamente, cuidar das pessoas mais velhas que podem pagar. As famílias mais ricas, que não têm tempo, elas terceirizam. Contratam uma cuidadora ou mais, que vão trabalhar em plantões. Essas mulheres (e, majoritariamente, são mulheres), na sua maioria, precisam ser treinadas e supervisadas. Tudo isso precisa ser regulamentado e a gente acaba fazendo isso meio na bagunça.
Estava tramitando no Congresso, já praticamente aprovada, uma Lei da Câmara 11/2016 para regulamentar a profissão de cuidadora. Mas por decreto presidencial isso foi abolido. Eu não consigo entender, porque é um tiro no pé. Se está dando certo na economia, se esse setor do cuidado é praticamente o único que está crescendo, deveria ser de interesse para o governo dar-lhe total apoio. Ainda mais num país que acossado pelo problema grave de desemprego (não só os 12% de desempregados, 12 milhões de desempregados, mas também os desalentados, aqueles que já desistiram, fora os que trabalham menos do que poderiam e gostariam).
Envelhecer e os quatro capitais AUPA – Você já comentou que para envelhecer bem é preciso juntar os quatro capitais: vital (da saúde), do conhecimento, do social e do financeiro. Poderia falar um pouco mais sobre? ALEXANDRE KALACHE – É obvio para todos que, para envelhecer bem, você precisa acumular saúde, o capital vital. O segundo pilar é do conhecimento. Você precisa aumentar seus conhecimentos para continuar empregável e não se tornar obsoleto. Também precisa cultivar o capital social, pois o futuro ninguém sabe. E pode ser quando você venha a precisar de alguém que lhe cuide, percebe que sua ligação com a família, os amigos, os vizinhos não é lá essas coisas, por você não ter investido no tal capital social. Vai querer corrigir, mas pode ser tarde demais.
O quarto capital é o financeiro – mas será que a maioria das pessoas está tendo mesmo oportunidade de acumulá-lo, com tantas necessidades pelas quais estão passando?
Pouca gente hoje no Brasil está conseguindo acumular, investir, pensar no futuro. Não porque não queira. Mas porque o dinheiro está curto, a maioria chegando todo mês no vermelho.
E muitos, como já comentei, estão simplesmente desempregados, sub subempregados ou trabalhando no setor informal, que é um trabalho precário e nada digno. Você pode até tentar ensinar as pessoas a terem capital financeiro, educá-la, mas elas dirão: “Meu senhor, eu não consigo fazer economia nenhuma, não está dando. Meu dinheiro está curto”.
Por tudo isso, nós temos, claro, que educar as pessoas para que elas possam pensar no futuro. Promover a saúde, adotar comportamento e estilos de vida que gerem saúde. As pessoas devem procurar ter mais conhecimento, ter o hábito de aprender sempre. Quem não aprender novas tecnologias, vai dançar. Não é só para o profissional. Estou falando daquele mecânico de automóvel, que, até vinte anos atrás, precisava saber mecânica e ninguém lhe ensinou eletrônica. Ele perdeu o emprego aos 40 anos e não adquiriu o conhecimento para continuar exercendo sua ocupação. Isso tem consequências graves, porque ele vai ficar desempregado e depois dos 40 conseguir outro emprego será muito difícil.
Para acumular o capital social, é preciso que as pessoas sejam mais leves, mais tolerantes. Nós estamos vivendo num mundo muito tenso. O Brasil está muito polarizado, mas não é só isso.
As pessoas estão vivendo muito isoladas. Existe uma epidemia de solidão.
Eu vejo aqui em Copacabana, onde eu moro, que as pessoas não saem de suas casas. Elas têm medo, porque a violência é concreta, o que dirá nas comunidades pobres. Pessoas que não podem sair porque as calçadas não existem, estão cheias de buracos, que com a primeira chuva enchem de lodo. Isso tudo vai dificultando você construir seu capital social.
E também o transporte público. Você deixa de sair. Até gostariam e têm interesse de frequentar um local cultural para usufruir um pouco mais do que as cidades podem lhes oferecer. Mas não tem transporte, não tem condições. Há violência. A mulher vive com medo, em um verdadeiro estado de sitio, enclausurada em sua casa, porque nós temos, no Brasil, 300 mil estupros por ano. As pessoas estão com medo e isso tudo está levando a esta epidemia não só da violência no Brasil, mas também da solidão.
Então, você precisa fazer políticas públicas para que estes capitais possam ser acumulados, capital da saúde, do conhecimento, o social e o financeiro.
Essas políticas públicas também podem ser replicadas para dentro do trabalho. Para aqueles que têm um trabalho formal. É também obrigação do empregador investir no seu capital humano, nessas pessoas que estão envelhecendo. Porém, muitas vezes, é mais barato demitir esta pessoa e contratar um mais novo, talvez com as qualificações que ele busca. Assim, a pessoa que está envelhecendo perde seu trabalho e o empregador paga um salário mais baixo, porque é o mais novinho e está no início de carreira.
Nós precisamos discutir esse pacto que é preciso haver para que o envelhecimento tenha um elemento fundamental, um dos pilares do envelhecimento ativo: que é você ter segurança e proteção de que você não vai ser abandonado na hora em que mais precisa.
Eu diria também que estes quatros capitais são direitos fundamentais da cidadania.As pessoas deveriam ter direito à saúde, ao conhecimento, à oportunidade de ampliar seu leque social, de participar integralmente da sociedade e de não ser abandonado pela família, pelo Estado, pelo Poder Público na hora em que mais precisa.
Para isso, nós temos o Estatuto do Idoso, que é muito bonito quando é lido no branco e preto, mas que não está sendo colocado na prática. E quem deveria monitorar é o Conselho Nacional dos Direitos das Pessoas Idosas, que era constituído pela Sociedade Civil e pelo Poder Público. A participação da Sociedade Civil é essencial para monitorar e cobrar do Poder Público, mas, infelizmente, desde o ano passado, houve uma intervenção e o tal Conselho passou a ser exclusivamente do Poder Público. Uma pessoa apontada diretamente pela Ministra encarregada. Ou seja, a participação da Sociedade Civil ficou capenga, amputada. E é óbvio que ninguém pode se auto-monitorar, cobrar de si, sem a Sociedade Civil participando. Os direitos das pessoas idosas não estão sendo resguardados.
Alexandre Kalache e sua neta. Fonte: Arquivo Pessoal.
Ações para o envelhecimento da população AUPA – Quais seriam as ações mais importantes para o Brasil adotar urgentemente sobre o envelhecimento da população? ALEXANDRE KALACHE – A principal é a saúde. Precisamos cuidar muito para que as pessoas possam envelhecer com um nível maior de saúde.Mas é quase tão urgente que a gente possa colocar mais ênfase na questão da educação.
As pessoas mais pobres, que são a imensa maioria no Brasil, não têm nada a ver com economia prateada.
Essas pessoas dependem do setor público para aprender. São crianças e adolescentes que têm uma educação pública de baixa qualidade, que não os estimulam. Nós temos uma alta proporção de jovens a partir dos 15 anos que nem trabalha, nem estuda. Ou seja, que não aprendem. Difícil que estas pessoas possam dar certo. E a maioria das crianças, dos adolescentes e dos adultos jovens vem das classes socioeconômicas mais baixas. A taxa de fecundidade, ou seja, o número de filhos que uma mulher espera ter até o final da sua vida reprodutiva, é três vezes mais alta se a mulher tem menos de oito anos de educação formal do que se ela tem mais de oito anos de escolaridade. Isso é um indicador socioeconômico potente, o nível educacional.
O Brasil envelhece rapidamente e vai dar um salto de 14% da sua população com mais de 60 anos em 30 anos: serão 31%, passando de 67 milhões de pessoas. Ou seja, cada vez mais idosos e cada vez menos jovens por conta de tais taxas baixas de fecundidade.
É absolutamente urgente fazer uma revolução da educação para que nos tornemos um país com economia sustentável. E que se abrace o conceito da aprendizagem ao longo da vida, da infância à velhice. Será possível?
Com os gastos sociais congelados desde 2017 pelos próximos 20 anos fica difícil ver onde possa haver uma melhoria das condições de saúde e de educação, se não houver investimento.
Os mosquitos não têm muralhas que os detenham – passam por cima. A falta de esgoto, de abastecimento de água e de condições básicas de infraestrutura acabam afetando as condições que todos nós vivemos. É de interesse de todos, sobretudo, em uma sociedade que envelhece tão rapidamente, que haja serviços públicos melhores e menos desigualdades para que a qualidade de vida de todos melhore. E que a gente não viva neste permanente estado tensão e ansiedade em que vivemos.
Cultura do cuidado AUPA – O que é criar uma política de sustentabilidade do envelhecimento? E sobre a cultura do cuidado? O que tem a dizer? ALEXANDRE KALACHE – Na sociedadeé absolutamente indispensável cultivar uma cultura do cuidado: “eu cuido, tu cuidas, ele cuida, nós cuidamos, todos cuidamos” . Todos. Sem exceção de gênero.
Nossa cultura é muito machista. A menina recebe uma boneca para cuidar, o menino, uma bola para chutar, uma pistola para atirar. Generalizando, o homem quer ser cuidado, mas não quer cuidar e participar deste esforço… Vai conjugando o verbo assim: “tu cuidas, ele cuida, ela cuida, vós cuidais e eu não tenho nada ver com isso”. Óbvio que com o envelhecimento rápido de nossa população isso não vai dar certo. Precisamos mudar a mentalidade para que essa cultura do cuidado seja introjetada desde a infância, do nascimento à morte, e assim estejamos todos muito mais voltados a cuidar uns dos outros. Afinal, é o que espero: que quando eu precise de cuidado, eu o encontre. Mas que quando os outros dele necessitem, eu também me predisponha. A cultura do cuidado pressupõe também que as pessoas se autocuidem. Novamente, a questão de gênero se impõem. “Menino não sente dor”. Ora, se menino não pode chorar, não pode reclamar de uma dor com medo de ser chamado de fraco, ele se cala. Cinquenta anos depois, ele não vai ao médico a tempo. Aguenta firme. E perde a oportunidade de prevenir o prevenível ou tratar a tempo aquela doença que, quando diagnosticada, já não há o que fazer. É uma das razões que explica porque as mulheres vivem mais do que os homens.
Envelhecer e as oportunidades AUPA – Na sua visão, como a sociedade olha para as pessoas de mais de 60 anos? Principalmente quando falamos dos maiores obstáculos dos longevos, que é vencer o preconceito no mercado de trabalho. Mesmo com muito a contribuir, eles ainda enfrentam escassez de vagas que se enquadrem em seus perfis.
ALEXANDRE KALACHE – O preconceito é grande e as pessoas têm pressa. As pessoas estão vivendo numa sociedade altamente urbanizada. Não é mais aquela sociedade tradicional, rural, em que o conhecimento do idoso prevalecia e era importante. A urbanização e a complexidade crescente das tecnologias estão mudando tudo. Cada vez mais, as pessoas têm pressa, todo mundo está muito ocupado. E o idoso passa a ser visto como aquele que atrasa a fila, que entra devagar no ônibus, um fardo para a sociedade, que só tira e não acrescenta.
Disso tudo nasce o preconceito, cuja raiz é a falta de empatia. E empatia é você sentir por debaixo da sua pele o sofrer e a dor do outro de poder desenvolver uma sensibilidade para perceber como a outra pessoa está se sentindo.
Daí ser necessário que a gente possa entender que todos nós estamos envelhecendo. Assim, como aceitar que é um privilégio envelhecer.
Antigamente, envelhecer era a exceção, morria-se muito cedo. Quando eu nasci, a esperança de vida era de uns 45 anos! É o que queremos, retroceder? Afinal, o que você prefere? A única opção ao envelhecimento é morrer cedo. Se você não quer chegar à velhice, prefira a morte prematura. Mas, se você quer chegar lá bem aceito pela sociedade, veja bem como são tratados os idosos. Porque essa será a forma como você provavelmente será tratado quando lá chegar.
Os idosos têm, sim, o que contribuir. Várias pesquisas na Europa, nos Estados Unidos e no Japão mostram que equipes intergeracionais são mais produtivas.
Todo mundo tem seu lugar, se complementa. A voz daquela experiência de que tem mais de 60 anos e que não está sendo valorizada é importante.
Inclusive para dinâmica do dia a dia, nas relações interpessoais.
Nas empresas que empregam pessoas com mais de 60 anos, o absenteísmo é mais baixo, porque aquele que tem mais de 60 anos valoriza seu trabalho. Ele se esforça, não falta. E acaba que aquele que é mais novinho fica com vergonha. “Poxa, se seu Manoel está vindo aqui apesar da dor de cabeça, apesar de não estar se sentido bem. Eu posso, sim, ir trabalhar também”. O absenteísmo acaba caindo e a produtividade aumenta.
Eu acho um exemplo fantástico aquele filme que tem o Robert De Niro no papel protagonista, “Um Senhor Estagiário” (Warner Bros., 2015). Ele mostra como sua presença, aquele estagiário com mais de 60 anos, ao entrar na equipe, profundamente transforma o local e o ethos de trabalho daquela empresa hightech. Mesmo sem aquelas qualificações sofisticadas de alta tecnologia, ele acaba mudando o ambiente de trabalho. A forma de trabalho leva a um crescimento da produtividade, o local se transforma para melhor – só porque –, de repente, aquela equipe conta com uma pessoa mais idosa.
Essa contribuição é difícil você dar, se você tiver 25 ou 30 anos. Mas nós estamos também diante de um quadro devastador de uma crise de desemprego, que, acho, o Brasil nunca experimentou. Muitas pessoas estão há mais de cinco anos buscando um emprego. E quanto mais velho você for, mais difícil será você se reempregar. Está complicado.
Ainda assim, há aqui outra oportunidade para a economia prateada. Agências estão sendo criadas, startups especializadas em buscar oportunidades de emprego para os 50, 60+. E estão crescendo – como a Maturi Jobs, que começou em São Paulo e já vai se expandindo para outros estados.
Comportamento da vida AUPA – Você já comentou também que “a qualidade de nossas vidas no futuro é imensamente influenciada pela forma como vivemos antes”. Mas por que não olhamos para isso? ALEXANDRE KALACHE – É o curso de vida. E isso fica óbvio em relação à saúde. Por exemplo: se você não se cuida, não capricha na dieta e toma muito álcool, e, de repente, você ainda fuma e é sedentário, ou você chega na idade adulta ainda jovem com sobrepeso. E aos 40 já está meio obeso e continua sem fazer exercícios. Não tem tempo para nada e vive em um entorno onde isso não é possível – hostil, esburacado, sem iluminação adequada. E tampouco tem dinheiro para ir à “academia” (que luxo, hein!?).
As coisas estão entrelaçadas. Nosso comportamento de vida reflete também os determinantes sociais da saúde e as oportunidades que a gente tem – ou não- para ser saudável.
MAS NÃO HÁ DÚVIDA DE QUE VOCÊ Será NA VELHICE UM RESULTADO DAQUILO QUE VOCÊ PLANTOU, COLHEU OU PÔDE FAZER.
Antes de tudo é preciso que a gente perceba que saúde é criada no dia a dia e no contexto onde vivemos. Onde trabalhamos, moramos, passeamos, buscamos entretenimento, amamos, jogamos e brincamos. É isso que leva a saúde muito mais do que no encontro com um médico ou uma enfermeira.
E o que acontece é que você já vem da infância com hábitos alimentares ruins. O dinheiro está curto e a sua mãe vai comprar aquilo que dá para comprar, como farinha e açúcar. Eu chamo de dieta branca: é muito sal, açúcar, arroz refinado, farinha e banha. E… cachaça!
E, quando você chega à adolescência, que é um período crítico na evolução como pessoa, os hábitos que são nocivos podem se instalar. Do fumo ao uso do álcool, ao sexo não protegido e até os hábitos de sedentarismo. Essa é uma etapa muito sensível e você carrega isso, muitas vezes, para o resto da vida.
De repente, você terá uma hipertensão que poderia ter sido prevenida, mas que não foi aos 30 anos. E também não encontra um serviço de saúde adequado para poder lhe orientar em relação a sua hipertensão. Ou não encontra mais o medicamento, pois está em falta ou é muito caro e, consequentemente, tudo se complica. E aquela que era uma hipertensão, que poderia ter sido prevenida e não foi, complica. E você ao invés de estar com uma hipertensão agora tem um derrame, que é a consequência pior de uma hipertensão.
Então, tudo é muito influenciado pela forma como que vivemos antes. Mas eu volto a repetir:
é preciso que o Poder Público e as políticas possam fazer com que os hábitos mais saudáveis sejam mais baratos e mais acessíveis. E mais: que possam ser também alcançáveis para a população como um todo e não apenas para os mais privilegiados.
Nós não olhamos para isso, porque somos uma sociedade que idolatra a juventude. Ficar velho é feio. Tem que estar todo mundo esticadinho e sarado. É o preço da busca da eterna juventude, que é uma utopia. Nós não olhamos para isso, porque temos um preconceito muito grande em relação ao envelhecimento. Nós não olhamos para isso, porque sempre nos esquecemos que o melhor que nos pode acontecer, repito, é envelhecer. Morrer cedo é o que não presta.
Capa de "Onde foi parar depois do Guri?". Fonte: Projeto Guri.
O que é: “Conhecer os percursos profissionais e pessoais dos ex-alunos do Projeto Guri é o principal objetivo desta pesquisa, procurando observar o perfil atual daqueles que passaram pelo programa. Com este fim, foi elaborado o presente relatório, com base em dados coletados a partir de um questionário quantitativo on-line, dirigido aos ex-alunos, e que se encontra dividido em quatro partes principais”: metodologia, perfil, situação atual e grau de interesse.
“Inovação” é o hype de todos os setores. No campo do desenvolvimento social, quem ainda não ouviu falar de “inovação social”? No mundo das startups, das fintechs, dos desenvolvedores de tecnologias: inovação é mandatório. O pensamento “Lean” e os princípios da agilidade são os norteadores da implementação dos processos de inovação nos setores mais tradicionais da Economia, mas pouco se ouve sobre eles nas organizações de impacto.
O manifesto ágil e seus desdobramentos são muito conhecidos entre profissionais que trabalham com gestão de dados, tecnologia da informação e sistemas. Quando o conheci, fiz um paralelo com aspectos que discutimos na gestão de projetos em organizações que buscam impacto social, e me perguntei: por que a discussão sobre a gestão ágil e o pensamento enxuto ainda é tão reduzida no campo social?
Especialmente neste momento de pandemia mundial, mais do que nunca, as organizações e as respectivas equipes que desenvolverem a habilidade de atender necessidades rapidamente, transformando de maneira muito ágil seus planejamentos e suas entregas, terão especial condição para sobreviver e atender às populações apoiam.
(Coincidentemente, ou não) tenho tido a felicidade de trabalhar, por meio da Tekoha, com a Alexandra Meira. Além de consultora independente, também é diretora de projetos da Aliança Empreendedora. Ela compartilhou comigo que, há dois anos, a Aliança vem passando por um processo de reflexão e análise institucional sobre em quais processos internos eles mais perdiam energia de trabalho. Com a colaboração de alguns consultores especialistas, eles entenderam que, para o caso deles, a implementação de uma cultura de gestão de projetos ágil poderia sanar estas perdas.
Nestes dois anos, diariamente, eles têm passado por um processo de aprendizado e de transformação na comunicação interna: no uso e na implementação de ferramentas que apoiam essas novas formas de se comunicar, de coletar e de usar dados – da maneira mais precisa e rápida. Além disso, têm entregado os resultados para os financiadores dos projetos em ciclos mais curtos e, desta forma, têm conseguido fazer avaliações mais rápidas – possibilitando correções de rotas em ciclos mais curtos.
Quando escuto os relatos da transformação da Aliança Empreendedora, me chama a atenção a importância e o cuidado tomado para que cada um da equipe se desprenda das suas soluções pré-concebidas. As formações e as atividades com a equipe têm a intenção de torná-la mais versátil, resiliente e desprendida emocionalmente das suas próprias soluções. Há um grande foco em tornar cada um capaz de avançar agarrado aos aprendizados passados, mas com uma visão flexível o suficiente para se reinventar radicalmente para os passos futuros, focado na solução do problema.
Grandes mudanças não nascem a partir de uma ideia mirabolante que vem pronta. São pequenas mudanças diárias, que testamos e checamos diligentemente se estamos trabalhando na direção da solução do problema social identificado. Um dos legados que a cultura ágil pode emprestar ao campo social é justamente o foco na solução e não no produto. Parece uma mudança sutil demais, mas, quando o foco é encontrar a solução dos problemas que a instituição se propõe a resolver, a forma de trabalho se transforma, bem como o objetivo das equipes. A urgência diária em caminhar na direção da solução passa a ser o mais importante.
Este artigo é fruto de diálogos entre Andressa Trivelli e Alexandra Meira.
Este texto é de responsabilidade da autora e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa.
Capa de "Cenário da lnfância e Adolescência no Brasil 2020". Fonte: Fundação Abrinq.
O que é: Esta é “A sétima edição do Cenário da Infância e Adolescência no Brasil, lançado pela Fundação Abrinq, com o objetivo de traçar um panorama geral da infância e da adolescência no país, a partir da análise dos principais indicadores sociais do Brasil e das Regiões que estão relacionados com essa população”. Os indicadores estão organizados e relacionados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), propostos na Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU).
Quem fez: Fundação Abrinq.
Autores: Caroline Rodrigues Miranda, João Pedro Sholl Cintra, Juliana Oliveira Mamona, Marta Volpi, Raquel Farias Meira e Victor Alcântara da Graça.
Capa de "Inside Impacto". Fontes: ABVCAP, ApexBrasil e InBrazil.
O que é: Este relatório destaca “As principais oportunidades e os desafios de investimento de impacto no Brasil, bem como as perspectivas dos principais setores que devem catalisar esses investimentos e também o ponto de vista dos especialistas do setor.”
Quem fez: ABVCAP, ApexBrasil e InBrazil.
Autores: Cristiane Nascimento, Jardel dos Santos e Julia Lima (ABVCAP).
Capa de "Povos indígenas no contexto da Covid-19". Fonte: Fiocruz.
O que é: Esta cartilha aborda “Aspectos primordiais sobre saúde mental e psicossocial dos povos indígenas, com recomendações direcionadas tanto aos profissionais de saúde que atuam em territórios indígenas quanto aos profissionais que terão contato direto e indireto com usuários indígenas na rede de serviços do Sistema Único de Saúde”
Quem fez: Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Sistema Único de Saúde (SUS) e Ministério da Saúde
Autores: Ana Lúcia Pontes, Bernardo Dolabella Melo, Bianca Sordi Stock, Carolyne César Lima, Daphe Rodrigues Pereira, Edilaise Santos Vieira (Nita Tuxá), Fabiane Vick, Fernanda Serperloni, Juliana Kabad, Luiz Felipe B. Lacerda, Michele Rocha El Kadri, Michele Souza, Nicolly Papacidero Magrin, Ramiro Gonzalez, Débora da Silva Noal e Fabiana Damásio
Capa de "Nós e as desigualdades". Fonte: OXFAM Brasil e Datafolha.
O que é: “Trata-se de uma contribuição ao debate sobre a redução das desigualdades brasileiras a partir da percepção da população. O Brasil segue como um dos países mais desiguais do mundo. Os desafios são profundos. As desigualdades que enfrentamos vão para além da renda, das crises econômicas ou fiscais. Construímos uma sociedade que normalizou a existência de cidadãos e cidadãs de primeira e de segunda categorias, daqueles que têm direitos e dos que não têm. Um país onde morar em periferias ou ser negro e negra já define, de antemão, a qual categoria você pertence.”
A quarta edição da live Aupa, com debate sobre o ecossistema de impacto e a pandemia de COVID-19, foi ao ar hoje, 13 de maio. As convidadas foram Vivianne Naigeborin, da Fundação Arymax, e Maure Pessanha, da Artemísia, protagonistas e pioneiras no desenvolvimento do campo de impacto no Brasil. Na conversa, elas buscaram responder aos desafios de negócios em contextos periféricos e como a crise sanitária e econômica afetará a captação de recursos e o trabalho de Intermediários e Fundações. Ao propor reflexões sobre o presente do trabalho, além da importância estratégica, economicamente, de pequenos negócios, a conversa ressaltou o estudo Inclusão Produtiva no Brasil, da Fundação Arymax, bem como o novo portfólio da Artemísia, voltado também aos negócios de contextos periféricos.
Estamos há dois meses sob isolamento social, enquanto medida de segurança para o combate ao Coronavírus. Porém, agentes e instituições do ecossistema encontram-se em movimento, devido às articulações necessárias para atender grupos e comunidades vulneráveis, afetadas com mais agressividade pelas conseqüências do Covid-19.
Há doações que são para repasse direto de dinheiro. Já outras são para o repasse de cestas básicas e itens de higiene aos beneficiários. Fato é: com objetivos localizados ou de maior abrangência, as urgências sociais estão escancaradas e é preciso agir rapidamente.
A seguir, conheça algumas dessas iniciativas pelo levantamento feito pela ponteAponte e as propostas de diálogos feitas pela Yunus Negócios Sociais para os próximos dias.
Abaixo, os indicadores do Google Trends para as buscas dos termos filantropia, investimento social privado, doação e solidariedade nos últimos 90 dias.
Os primeiros 60 dias de Covid-19 no Brasil Assim que o primeiro caso de paciente com Covid-19 foi confirmado no Brasil, no dia 26 de fevereiro, uma série de cuidados e cautelas passou a vigorar no país, gradualmente. Os exemplos da primeira onda da doença, que vem do Oriente ao Ocidente do globo, e as imagens de suas consequências expressas em manchetes e documentos, eram um termômetro da nova realidade que o Brasil mergulhava.
E, diante da pandemia, logo nas primeiras semanas, articulações vindas de movimentos, coletivos, Organizações da Sociedade Civil, empreendimentos e demais atores e instituições passaram a surgir. Já eram reflexos das emergências vindas das necessidades das camadas mais vulneráveis da sociedade – as primeiras que sentem, devido às muitas desigualdades e violências estruturais que já enfrentam.
Assim, no ecossistema de impacto, foi possível perceber certa ebulição ao redor de termos como filantropia e investimento social – traduzidos em ações no campo de impacto social. Pensando neste setor, com o recorte no Brasil, a ponteAponte realizou um levantamento destas iniciativas, por intermédio de um documento on-line colaborativo (criado no dia 23 de março) disponibilizado no Google Drive, chamado Consolidação de mapeamentos, campanhas e outras iniciativas contra o Covid-19.
Ao longo das primeiras semanas, houve uma média de mais de 80 acessos simultâneos e mais de 1.250 acessos únicos de investidores sociais, filantropos e organizações de base comunitária em geral. Assim, foram levantadas 450 ações colaborativamente, “Entre campanhas de doações em dinheiro, plataformas on-line diversas, campanhas solidárias em geral, iniciativas de auxílio médico e psicológico, listas de cursos, livros e filmes gratuitos e notícias sobre as periferias brasileiras”, conforme explicado na introdução do levantamento.
Tais dados deram origem ao relatório “Os primeiros 60 dias de Covid-19 nos Brasil em 60 fatos, reflexões e tendências em filantropia, investimento social e o campo de impacto social”. Nele, 154 iniciativas compõem o universo amostral analisado de forma quantitativa, com iniciativas criadas de 20 de março a 7 de abril em 21 municípios em cinco regiões brasileiras, segundo a apresentação do estudo. “Para a análise qualitativa e de tendências, mais de 260 ações mapeadas até 20 de abril foram estudadas individualmente, algumas das quais apresentadas ao longo do documento”, completa o texto.
Interaja com os gráficos a seguir e conheça as iniciativas presentes no documento colaborativo. Use os filtros para conhecer os dados organizados segundo os realizadores de cada uma das ações. Clique nas bolinhas para conhecer as informações compiladas. Os dados dizem respeito às atualizações do documento do Google Drive até o dia 6 de maio.
Agenda A pandemia e suas conseqüências de cunho econômico, sanitário, político e social trazem à tona novos questionamentos. Afinal, o mundo encara uma nova lógica de circulação de pessoas e mercadorias, bem como se evidenciam desigualdades e exclusões na comparação entre as pontas da pirâmide social. São muitas perguntas diante de um cenário de poucas certezas, muita cautela e incontáveis emergências.
Com tal contexto, durante esta semana, entre os dias 13 e 15, a Yunus Negócios Sociais organiza uma série de painéis orientados por um questionamento comum: “Que mundo queremos e podemos construir após a pandemia?”. Serão quatro debates com investidores, empreendedores, mentores e intraempreendedores para dialogar sobre possibilidades para o cenário atual e também no futuro.
A série de debates faz parte do “No Going Back Talks – Plano de recuperação para um novo mundo”. O encerramento conta com a participação especial do Prof. Muhammad Yunus, que fará sua fala sobre as temáticas dos painéis diretamente de Bangladesh no dia 18 de maio. Yunus é o pai do microcrédito e dos negócios sociais, fundador da Yunus Negócios Sociais e laureado Prêmio Nobel da Paz (2006).
Abra, se possível, chamada de recursos emergenciais – de pequenos valores – com desembolso imediato para o contexto atual e que possam ser acessados com rapidez e prestação mínima de contas pelas organizações. Esse tipo de ação ainda se faz necessário, principalmente em estados do Norte e Nordeste do Brasil.
Se viável, aumente imediatamente o volume de recursos financeiros e doações e direcione-os para iniciativas afetadas diretamente pelo Covid-19 e/ou que vão transferir recursos para a população afetada.
Forme coalizões setoriais e multissetoriais para que sejam realizados esforços e investimentos sociais coordenados e bem distribuídos, a fim de que cheguem adequadamente aos que mais precisam, evitando sobreposições e/ou escassez, direcionando melhor os recursos.
Abra diálogo com coletivos e OSCs já apoiados, para entender como trabalhar juntos da forma mais efetiva neste cenário (por exemplo, conhecendo as mudanças nas rotinas de cada liderança ou comunidade e viabilizando internet rápida antes de cobrar reuniões online).
Alongue os prazos dos editais abertos, sobretudo quando envolver lideranças e OSCs periféricas (que estão atuando para mitigar os riscos reais da Covid-19 nas comunidades) e facilite a prestação de contas e as contrapartidas, trabalhando mais com base na confiança e parceria.
Olhe para a sustentabilidade das organizações parceiras e novas no médio e no longo prazos, fortalecendo a atuação, sobretudo, daquelas que tiveram suas operações fortemente impactadas pelo cenário atual.
Créditos da imagem de capa: Instagram ponteAponte.