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O coronavírus, a Amazônia e o setor de impacto

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Barco-hospital Abaré, com rodadas regulares de atendimento aos ribeirinhos do Tapajós, modelo que inspirou a política de “Saúde da Família Fluvial”, hoje com mais de 60 embarcações pela Amazônia e Pantanal. Foto: Projeto Saúde e Alegria.

Dos centros urbanos às comunidades das florestas, as condições sociais e ambientais da região amazônica desvelam cenários críticos em plena pandemia. Não que a situação estivesse favorável antes. As manchetes sobre a Amazônia pré-pandemia já alertavam sobre o valor da floresta em pé e as consequências do descaso com a região*. Agora, a crise da COVID-19 traz à tona a fragilidade do sistema de saúde e a falta de preparo para atender às necessidades das populações da Amazônia. 

Nas periferias dos grandes centros se encontra parte da população que sentiu de imediato as consequências sociais e econômicas da pandemia. As orientações básicas dadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e por outros órgãos ligados à Saúde e à Governança, como a higienização frequente das mãos, tornam-se impossíveis de serem cumpridas por famílias que sequer possuem água encanada para lavar as mãos. Em 2020, as cidades da região amazônica continuam a figurar entre as últimas do ranking de saneamento básico do Trata Brasil, mesmo sendo a região com maior reserva de água do planeta, segundo a Agência Nacional de Águas.

Segundo Lília Melo, moradora da Terra Firme – bairro periférico em Belém do Pará, 95ª colocada de 100 cidades do Ranking de Saneamento Trata Brasil – a sensação é de que as recomendações gerais de saúde não se aplicam à realidade vivida ali. Na “TF”, apelido dado ao bairro pelos próprios moradores, a conscientização acontece de maneira diferente:

O registro faz parte de uma série de publicações do Cine Clube TF, coletivo que trabalha as expressões artística e criativa entre jovens estudantes da rede pública de ensino. Coordenados pela professora Lília, os alunos começaram a produzir conteúdos, que vão do manifesto ao apoio e à conscientização, condizentes com as próprias realidades e com um toque do dialeto regional. A prática de gravar vídeos sobre o dia a dia na periferia e a mobilização dos estudantes do bairro em prol daqueles que não têm como ficar em casa pode parecer ordinária, mas no discurso dos jovens estudantes percebe-se a resistência e a reivindicação de direitos daqueles que, por vezes, sentem-se esquecidos pelo Poder Público.

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“Mesmo que não tenhamos a internet como instrumento maior dentro da periferia, temos a conexão entre nós”, defende a professora. Na periferia, a conexão consiste em cuidado e preocupação com vizinhos, parentes e amigos da comunidade. Muito mais do que um movimento de conscientização que ganha likes e compartilhamentos na internet com a hashtag #NãoTeFazDeLesa, o coletivo tem dado suporte e orientação de porta em porta, levando cartilhas informativas, distribuindo máscaras e orientação. “Os mais novos passaram a ter mais paciência para ensinar os mais velhos a mexer no celular, no WhatsApp”, observa a coordenadora do coletivo, ao mencionar as estratégias da comunidade para manter-se unida e informada.

O “Cine Clube TF - Do extermínio ao protagonismo” é liderado pela professora Lília Melo e seus alunos, mas busca envolver toda a população da Terra Firme em uma rede de apoio. Foto: Instagram @cineclub_tf

O apoio civil e governamental às camadas vulneráveis parece seguir a passos lentos, limitando-se a doação de cestas básicas e outros insumos. A professora observa que esse tipo de assistência durante a pandemia tem sido fundamental; no entanto, deve ser planejado em conjunto com as lideranças das comunidades.

“Não tem como, por exemplo, marcar um ponto de entrega e esperar que todos cheguem lá sem problemas para buscar as cestas e fazer registros. E se eu não tiver como largar o meu comércio, o meu trabalho? E se for distante demais da minha casa? Se eu não tenho sequer bicicleta, vou andando até lá  sob a chuva, sob o Sol? Embora todos precisem, não deveríamos mapear as famílias mais vulneráveis?”,

indaga a professora Lília Melo.

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Caetano Scannavino - Foto: Reprodução Facebook
Lília Melo - Foto: arquivo Cine Clube TF
Thiago Cavalli - Foto: Simone Donha

Os efeitos da pandemia na região que abrange 60% do território brasileiro se mostram no crescimento dos índices de desmatamento – somente em abril de 2020 o número de alertas de desmatamento cresceu mais de 60% em comparação ao mesmo período em 2019, de acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), até a explosão da doença no Amazonas, com 20.913 casos confirmados segundo o Ministério da Saúde, atrás somente dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Ceará (dados do dia 18 de maio de 2020). Em meados de abril, o próprio governo do Amazonas já havia admitido que a disponibilidade total de leitos, antes do início da construção de hospitais de campanha, era de pouco mais de 6 mil.

Bernardino Albuquerque, médico infectologista e professor da Universidade Federal do Amazonas, aponta diversos fatores agravantes, entre eles a disseminação sazonal de viroses e síndromes respiratórias no período de chuvas e o despreparo das unidades de saúde da capital e do interior. “O vírus adentrou, se reproduziu e agora os municípios vivem uma dificuldade logística. Não há regional de saúde estabelecida ou equipamentos adequados [no Amazonas]. Algumas necessidades de saúde têm como única referência a capital”, esclarece. Transpor as longas distâncias entre os municípios depende, muitas vezes, da maré dos rios.

A seguir, interaja com os dados.

No epicentro amazônico da doença, a prevenção pode fazer a diferença entre a vida e a morte, já que no início de abril a ocupação de UTIs no Amazonas chegou a 95%. “Aqui no município também não há respiradores, e ainda estão testando muito pouco”, completa Thiago Cavalli, coordenador da Casa do Rio, localizada em Careiro, interior do estado. Segundo ele, a ONG começou a distribuição de máscaras e kits de higiene desde os primeiros sinais da crise em São Paulo, antes mesmo de qualquer ação por parte do Estado. O despreparo do Poder Público também foi apontado por Bernardino: “Nós estamos correndo atrás para apagar um incêndio que não está sendo e não será pequeno na Amazônia. Ainda vamos ter problemas sérios quando a doença adentrar os municípios do interior”, alerta.

A 102 quilômetros da capital Manaus, a Casa do Rio trabalha com iniciativas que contribuem para o desenvolvimento humano e territorial, como cursos e assessoria técnica em agroecologia e produção de alimentos saudáveis. Uma das alternativas para dar suporte aos produtores mesmo com as atividades suspensas foi comprar insumos produzidos pela própria comunidade e distribuí-los em cestas de alimentos. Enquanto isso, o coordenador revela que tem passado os últimos dias em busca de parcerias para executar outras medidas emergenciais.

A urgência em atender as necessidades da população amazônida só muda o endereço. Na região Oeste do Pará, a ONG Saúde e Alegria iniciou em abril a campanha #ComSaudeAlegriaSemCorona, que consistia na arrecadação de suprimentos à comunidades e na doação de equipamentos de proteção aos profissionais de saúde, produzidos em impressoras 3D em parceria com a Universidade Federal do Oeste do Pará. Um mês depois, o agravo da situação resultou em um plano emergencial completo para alcançar diversos municípios do Baixo Amazonas.

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Projeto Saúde e Alegria.
Assinatura de convênio feita entre Conselho Comunitário de Alter e Clube de Mães para produção de máscaras para profissionais de Saúde da Semsa. Secretaria de Saúde fez entrega de tecido para confecções. Foto: Projeto Saúde e Alegria.
Parceria com a UFOPA e empreendedores locais está produzindo máscaras face shields, óculos e outros acessórios através de impressoras 3D. Foto: Projeto Saúde e Alegria.

Nas comunidades ribeirinhas e nas aldeias indígenas, a doação de cestas básicas, kits de proteção e higiene representa um esforço para que as famílias não precisem se deslocar para as áreas urbanas a fim de fazer compras e outras atividades que as colocariam em risco de contaminação pelo vírus. “Em maio esperamos evitar que se repita o que vimos no mês anterior”, anuncia Caetano Scanavinno, coordenador do Saúde e Alegria, fazendo referência ao risco de contágio em comunidades afastadas dos centros urbanos. 

Vale destacar que os indígenas possuem alto índice de vulnerabilidade a patógenos que a população não indígena já lidou e, uma vez que o vírus chegue às aldeias, eles precisam “disputar” pelos mesmos leitos que o restante da população e ainda sujeitos a um risco de letalidade muito maior. Até o dia 18 de maio, a Secretaria da Saúde Indígena (SESAI) notificou 23 óbitos entre indígenas, sendo 11 deles na região do Alto Solimões, localizada no estado do Amazonas. No levantamento independente da Associação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), já são 103 óbitos e 44 comunidades atingidas (dados de 15 de maio de 2020). Segundo o movimento indígena, a diferença nos números se dá porque a SESAI está considerando ocorrências apenas nas áreas dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs), vinculados à secretaria.

Na Amazônia, as consequências sociais e ambientais da pandemia se misturam. “O garimpo continua e as atividades predatórias ainda podem se intensificar enquanto as atenções estão voltadas para o vírus – do garimpo ilegal ao desmatamento. Isso preocupa não só do aspecto ambiental, mas porque também são focos de contaminação do vírus para os garimpeiros e as comunidades que moram no entorno”, lamenta Caetano. Ainda sobre a problemática do desmatamento, dados do Imazon já apontam 529 quilômetros quadrados de desmatamento na Amazônia Legal em abril de 2020, um aumento de 171% em relação ao mesmo mês de 2019.

 

O impacto social no avançar da pandemia
O setor de negócios de impacto social na Amazônia sempre enfrentou seus próprios desafios. De acordo com o mapa de negócios de impacto, produzido pela Pipe.Social em 2019, somente 7% dos empreendedores sociais brasileiros estão na região Norte, enquanto o Sudeste, líder do ranking, concentra 62%. Mas a disparidade deve ser analisada com atenção. 

“Existe uma demanda reprimida de organizações de impacto de outros lugares do Brasil, mas, muitas vezes, o indivíduo que trabalha naquela comunidade nem sabe desse conceito de impacto. Ele nasceu pra resolver um problema, mas não se entende com essa vontade ainda. A gente percebeu que por isso muitas vezes a demanda não chegava até nós”, reflete Fernanda Dativo, coordenadora de investimentos na SITAWI Finanças do Bem, plataforma intermediária de investimentos de impacto. Assim, o apoio aos empreendedores na mensuração de impacto e planejamento de finanças já seria o suficiente para concretizar mais investimentos na região.

Um dos cinco negócios da Amazônia apoiados pela SITAWI atualmente, a Cooperativa dos Extrativistas da Floresta Nacional de Carajás (COEX Carajás) de Parauapebas (PA) visa gerar renda para população local por meio do extrativismo dentro da reserva. A partir da extração das folhas do jaborandi (foto), faz-se produtos cosméticos e farmacêuticos, como colírio para doenças oculares e glaucoma. Foto: SITAWI Finanças do Bem

“Os temas da agressão à floresta na Amazônia estão muito em alta. Então, investidores do Sudeste que têm dinheiro pra isso viram uma oportunidade de apoiar com segurança, porque já conheciam a gente”, revela Fernanda. No início de 2020 a SITAWI abriu a primeira rodada de investimentos voltados exclusivamente a negócios da Amazônia. As reservas de investimento esgotaram em 24 horas e a fila de espera dos investidores já acumulava mais de R$1.000.000,00 (um milhão de reais).

No contexto da pandemia, a coordenadora de investimentos relata que houve muito mais prejuízo aos empreendedores da Amazônia em comparação a outras regiões. “Refizemos todo o nosso cronograma, porque a maior parte das atividades exigia ir até as comunidades beneficiadas, mensurar impacto, realizar treinamentos. Todos tiveram que se retrair e a receita caiu a quase zero”, explica Fernanda.

Enquanto isso, os pagamentos foram suspensos e a SITAWI tem oferecido opções alternativas para salvar o caixa, evitando ao máximo demissões.

Entre diversas perdas em consequência da COVID-19, algumas oportunidades: refletir sobre o valor da Amazônia a nível nacional, buscar união e aproximação – mesmo com o distanciamento social -, assimilar diferentes experiências e modos de vida. 

“O que deveria uma nação como o Brasil fazer é puxar uma reflexão mais aprofundada sobre o desafio social e de saúde que se apresenta na Amazônia, e não meramente tê-la como uma fonte de riquezas para a parte mais abastada da nação. Não dá mais para extrair, extrair, extrair sem que essa riqueza se converta em bem estar para os moradores da Amazônia”, defende Caetano. Nesse contexto, Thiago faz uma reivindicação: “Precisamos de infraestruturas de desenvolvimento social, ambiental e econômico que permitam que a gente permaneça de forma sustentável no território. Se tivéssemos estruturas de comunicação eficientes, por exemplo, as comunidades poderiam estar muito mais preparadas para a pandemia”.

Somado a isso, a professora Lília reivindica o reconhecimento do lugar do outro.

“No mundo todo, houve várias estratégias e soluções para se viver o isolamento. Essas soluções ignoraram o pobre, ignoraram as pessoas que não têm acesso. Tudo é via internet, conexão, com a câmera na frente. Mas se a gente faz uma pergunta do tipo ‘e se não tem?’, a maioria fica de fora. É bom pensar nisso, sair da bolha. Além da gente ter esforços para ajudar o outro, é momento de contemplar a diversidade e perceber que nossos padrões não são os únicos que existem.”

O caminho dos resíduos na pandemia

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O destino dos resíduos, como embalagens, muitas vezes é invisível aos olhos. Abre-se a porta de casa, a sacola é colocada na lixeira, o caminhão leva e pronto: aquilo deixa de existir. Mas, na verdade, esse caminho é bem mais complexo, sobretudo na pandemia do coronavírus.

Muitas pessoas estão sem sair de casa e aquecem o mercado de serviços por delivery, principalmente de comida, em embalagens que poucas vezes são recicladas. Ao mesmo tempo, os casos de Covid-19 seguem subindo e a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (ABRELPE) acredita que o país terá, até o fim da pandemia, um crescimento de 10 a 20 vezes na geração de resíduos hospitalares, como máscaras e luvas.

Nesse cenário, como assegurar padrões de produção e consumo sustentáveis por meio da redução na geração de resíduos, como prevê um dos objetivos da Agenda 2030? Para Daniela Lerario, co-presidente do Conselho do Sistema B, negócios do ecossistema de impacto estão mais avançados no debate. “Empresas que mensuram e gerenciam seu impacto apresentam maior probabilidade de se adaptar aos cenários atuais e futuros, com menos risco e maior conhecimento e controle da sua cadeia de valor. É provável que a crise sanitária favoreça opções de embalagens que atendam comprovadamente questões de higiene e segurança do consumidor”, explica Daniela.

Resíduos hospitalares
Máscaras e luvas descartáveis são trocadas várias vezes ao dia por quem luta para cuidar dos pacientes com Covid-19. Elas não podem ser reaproveitadas e se acumulam numa velocidade que só aumenta. São resíduos que precisam de uma cuidadosa descontaminação antes do destino final para evitar que a doença se espalhe ainda mais.

Na capital paulista, que concentra o maior número de casos de Covid-19 no país, os materiais infectantes passam por autoclaves. Nesse tratamento térmico, os resíduos são colocados dentro de equipamentos e ficam em contato com vapor de água quente até serem esterilizados antes do descarte em aterros sanitários. O problema é que nem sempre essa etapa acontece e aí o risco de contaminação aumenta. “Infelizmente ocorre, sobretudo se não há programas de capacitação no manejo dos resíduos da geração até o abrigo, onde acontece a coleta para o tratamento. Em alguns locais do Brasil, eles não recebem o tratamento e seguem para aterros sanitários”, alerta Neuzeti Santos, especialista em gerenciamento de resíduos de saúde.

Para garantir que esses materiais também sejam descartados corretamente das casas com pacientes, a Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental recomenda que os resíduos sejam colocados em um saco limpo, dentro de outro saco. Ele deve ser fechado com um nó ou lacre quando estiver com até dois terços da capacidade e precisa ser identificado para quem for fazer a coleta. 

Embalagens de comida
Nas ruas, entregadores de comida por aplicativo trabalham num ritmo acelerado. Só que com menos contato com os clientes que fizeram os pedidos. O coronavírus mudou a rotina de quem faz, leva e recebe as refeições.

A startup DuLocal, que faz parte da rede Artemísia, ampliou a área de delivery e reforçou os cuidados com higiene não apenas na entrega, mas também no preparo dos alimentos. Quem cozinha os pratos são 14 mulheres que moram em Paraisópolis, uma das maiores comunidades de São Paulo. “Como elas trabalham de suas casas, conseguem o direito ao home office. Se sentem empoderadas e parte de uma sociedade mais justa que oferece a elas direitos iguais – coisas que mulheres da periferia normalmente não têm”, conta Roberta Rapuano, COO da DuLocal.

A comida da Dulocal em prato reciclável - Foto: Divulgação.
A comida da Dulocal em prato reciclável - Foto: Divulgação.
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Todas as embalagens usadas para as refeições de comida orgânica são de papel reciclável. “Enxergamos que esse segmento traz para a sociedade um grande problema com o aumento considerável de lixo e desperdício. Então buscamos uma embalagem completamente reciclável”, diz Roberta.

As dificuldades para reciclar
A reciclagem ainda é um desafio no Brasil. Toneladas de resíduos que poderiam ser reaproveitados, contribuindo para a economia circular, ainda são despejadas em locais que nem deveriam mais existir por lei. “Aproximadamente três mil municípios ainda encaminham os seus resíduos e rejeitos de forma inadequada a lixões, contaminando recursos hídricos, lençol freático, solo”, afirma Fabricio Soler, especialista em Gestão Ambiental e advogado especializado em Direito dos Resíduos.

Na pandemia, o problema se agrava. Um relatório da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES) alerta que o coronavírus pode permanecer por tempos diferentes na superfície do que é descartado.

No meio de tudo que é descartado, uma das maiores dificuldades é a reciclagem do plástico. Segundo a ONG WWF, o Brasil é o quarto país que mais gera lixo plástico: são 11,3 milhões de toneladas, mas apenas 1,28% desse tipo de material é reciclado. Um percentual muito baixo que esconde outros problemas, como a falta de estrutura e a alta carga tributária. “A tecnologia disponível no Brasil pra poder fazer com que ele recicle ainda é muito baixa. Existem vários impostos no país, então, às vezes, para a indústria e o mercado é mais barato comprar a matéria-prima virgem do que comprar ela reciclada”, explica Cláudia Pires, fundadora da So+Ma Vantagens, startup de reciclagem que também tem apoio da Artemísia.

Casa Soma SP - Foto: Divulgação.

As casas So+Ma recebem materiais recicláveis em São Paulo, Salvador e Curitiba. Nesses locais, moradores principalmente de periferias levam resíduos reaproveitáveis e ganham pontos que podem ser trocados por recompensas como descontos em mercados, cursos e exames. Na pandemia, apenas a casa em Curitiba foi reaberta com vários cuidados, como uma barreira de distanciamento social na entrega, uso de máscaras, limpeza reforçada e isolamento dos materiais por 72 horas antes do transporte para a cooperativa.

Para Cláudia, o momento atual é de reflexão sobre o consumo e o descarte conscientes. “O hábito da reciclagem tem que ser um hábito de todo mundo, porque ele impacta a cidade como um todo. Não é parar de consumir, mas eu deveria consumir essa embalagem? Como é que eu consumo e o que estou consumindo? É um despertar da gente se perguntar e esse é um empoderamento que o cidadão precisa começar a ter”, ressalta Cláudia.

O olhar para a questão dos resíduos, como mensuração e caracterização, também deve estar presente nos negócios de impacto, como diz Daniela Lerario. 

“A adoção de princípios circulares nas atividades, como a visão sistêmica, distribuída e inclusiva, irá acelerar a construção de uma nova economia que gera valor para a sociedade e para o planeta, além do lucro.”

Negócios da Economia Prateada: soluções e um mercado em expansão

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É fato: nós envelheceremos! Alguns já se preparam, pensam nos investimentos para o futuro, cuidam da saúde. Ao mesmo tempo, para outros, chegar aos 60 anos parece algo distante – ou mesmo um desafio. Mas existe um mercado promissor que acompanha a longevidade e que também se encontra em expansão – a Economia Prateada.

As pessoas estão vivendo mais. Hoje, você tem 30 anos e, se tudo der certo, em 2050 terá 60. E assim fará parte de um terço da população do país que terá 60 anos ou mais, conforme projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ou seja, este número terá saltado dos atuais 33 milhões para 66 milhões de pessoas.

Esses dados são apresentados, pois, o ritmo de envelhecimento da população, em todo o mundo, também está aumentando drasticamente. Sendo assim, este fato é um dos obstáculos que o Brasil enfrenta e, infelizmente, diante de tantos desafios nas questões de políticas públicas de Saúde, Assistência Social e Previdência que enfrentamos atualmente (questões estruturais que se somam também às consequências multifacetadas da pandemia), podemos encarar inúmeros problemas se nada for feito agora.

Uma vida mais longa traz consigo oportunidades, não só para as pessoas idosas e suas famílias, mas também para a sociedade, como um todo. Por isso, aborda-se a Economia Prateada, conjunto de atividades econômicas das pessoas acima de 60 anos. Ou seja, um mercado consumidor promissor que demanda soluções específicas para a sua faixa-etária.

Nesta reportagem, falaremos da Economia Prateada na saúde, no aspecto mental, na ação e no conhecimento. Soluções muito bem integradas ao ecossistema de impacto e que trazem perenidade em seus negócios voltados direta ou indiretamente a este nicho econômico.

 

Capa do Relatório "A Economia Prateada no Brasil", desenvolvido pelo Tsunami 60+. Créditos: Reprodução.

Estamos envelhecendo: como vamos chegar aos 60 anos ou mais?
Segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), a cada segundo, duas pessoas fazem 60 anos no mundo. E mais: hoje, existem mais pessoas com mais de 60 anos do que crianças com menos de cinco anos.

O mundo está envelhecendo e isso implica em enormes desafios, em diferentes frentes. Segundo os Estudos Estratégicos Brasil 2050: Desafios de uma nação que envelhece, realizado pela Câmara dos Deputados Federais, pelo Centro de Estudos e Debates Estratégicos e pela Consultoria Legislativa:

“O crescimento exponencial do número de idosos produzirá impactos avassaladores sobre o financiamento de aposentadorias, o Sistema Único de Saúde e a renda das famílias, muitas das quais dependem dos benefícios pagos pelo sistema previdenciário”.

E o Brasil ainda não está preparado para essas transformações. Os gestores públicos começam a se mover lentamente nessa direção.  No geral, todos os países enfrentam grandes desafios para garantir que seus sistemas sociais e de saúde estejam prontos para aproveitar ao máximo essa mudança demográfica no envelhecimento da população. O estudo ainda alerta:

“A saúde pública, que já parece insuficiente para atender a sociedade brasileira, terá que se robustecer para dar conta de uma população de idosos no mínimo duas vezes maior do que a atual”.

Todas essas questões estão interligadas à forma como as políticas são desenvolvidas e às oportunidades que as pessoas idosas têm de experimentar um envelhecimento saudável.  E se a previsão se confirmar, o Brasil envelhecerá em 34 anos o que países europeus demoraram um século.

É preciso adequar as Políticas Públicas e o atendimento em saúde para o idoso. Enfatizam-se os desafios que existem, principalmente em países com baixa renda. Ainda mais quando se discorre sobre os sistemas de pensão e previdência social.

O Japão e a Itália, por exemplo, se destacam entre os países com população mais velha. Por sua vez, na França, a população idosa dobrou em 100 anos: de 7% para 14%.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) espera que quase dois bilhões de pessoas em todo o mundo tenham mais de 60 anos até 2050, um número que é mais do que o triplo do que era em 2000. Já no Brasil, a expectativa de vida projetada para 2050 pelo IBGE é de 80,7 anos.  Mas como estarão os idosos nessa idade? O que eles consumem? Há oportunidades para essa área?

As oportunidades de negócios apresentadas pelo envelhecimento da população são grandes. Conforme estudo realizado pela Hype60 e pela Pipe.Social, intitulado Tsunami 60+, estima-se que a Economia Prateada seja a terceira maior atividade econômica do mundo, movimentando US$ 7,1 tri anuais. Dito isso, a Economia Prateada é uma oportunidade de mercado que ainda demanda soluções.

 

Longevidade Expo Fórum. Créditos: Denis Ribeiro/Lab60+.

Economia Prateada: oportunidade de mercado
As pessoas idosas contribuem de muitas formas para suas famílias e comunidades. Mas qualquer contribuição só advém se a pessoa de 60 ou mais tiver saúde. Neste momento, sabemos que não estamos prontos, se levarmos em conta questões estruturais, como Políticas Públicas voltadas a Saúde, Assistência Social e Previdência. Há um longo caminho a ser trilhado.

 

Se esses anos adicionais são dominados por declínios na capacidade física e mental, será uma tarefa gigantesca gozar de boas experiências. E a experiência de vida é muito relativa. Enquanto alguns com 70 anos estão com boa saúde, outros, na mesma idade, já não conseguem realizar tarefas básicas. Isso mostra que o cuidado com a saúde é fundamental, além de outros aspectos, como genética, condição social.

Porém, o cenário da Economia Prateada é positivo. Estima-se que este mercado tenha uma renda anual de R$ 940 bilhões. Ou seja, o público dos 60 anos, consome. Sejam produtos ou serviços. Para isso, as empresas precisam se preparar. Até porque é uma geração que ainda não se vê representada na comunicação com as marcas. “Só colocar grisalhos na peça publicitária não adianta”, afirma Martin Henkel, fundador e Diretor da SeniorLab. Martin alerta que:

“Existem dificuldades que vão desde conteúdo e informação consistentes a maturidade e visão de médio e longo prazos para profissionais e empresas. As ciências do consumo ignoraram por décadas este público”.

Por sua vez, Layla Vallias, co-fundadora do Hype60+, relata: “A Economia Prateada está crescendo cada vez mais rápido, com cada dia mais empreendedores qualificados e grandes empresas acordando para a revolução da longevidade. Porém, ainda vejo muitas pessoas apenas falando sobre o assunto, quando precisamos agir”.

Fachada da clínica +60 Saúde. Créditos: Reprodução.

O desenvolvimento da Economia Prateada em alguns pilares

Saúde: a atuação da +60 Saúde
Algo primordial é a saúde. Por isso, o destaque da +60 Saúde, clínica especializada no cuidado com o idoso. Com sede em Minas Gerais, mas com expansão do seu espaço, foi fundada por médicos que tiveram passagem tanto pelo sistema público, quanto pelo sistema privado de saúde.

Estevão Valle, diretor da +60 Saúde, falou contou que a vontade de empreender nessa área aconteceu devido aos desafios de cuidar de uma população crescente, com necessidades peculiares. “O envelhecimento traz aumentos de custos para os sistemas de saúde, demanda cuidadores mais preparados e novas tecnologias, como medicamentos, insumos e processos. Sabíamos que novos modelos deveriam ser criados e ofertados”, disse o diretor.

Sobre a Economia Prateada, Estevão ressalta a expansão deste nicho:

“Há demandas, em todos os setores da economia, relacionadas ao envelhecimento das pessoas: transporte, moradia, lazer, educação, turismo, varejo, entre outros. Há enorme pressão nos governos para deixar as cidades mais amigáveis às pessoas idosas – de fato, uma cidade amigável aos 60+ é amigável a crianças, aos deficientes, a todos”.

Além das experiências com as pessoas de 60+, Estevão dá dicas para uma longevidade de mais qualidade: “Tudo se baseia em escolhas e atitudes, sendo as principais: ter uma vida ativa (mexer-se, estar fisicamente ativo), comer comida de verdade (menos ou nada processadas), manter a mente ativa (com leitura, jogos, desafios para a mente), ter círculos sociais ativos (cuidar da família, dos amigos, da comunidade) e, finalmente, escolher bem as referências de saúde (o vínculo é fundamental – não basta ter um monte de médicos)”, explica ele, que ainda lembra que:

“Não há limite de idade para ser feliz”.

A clínica +60 Saúde já atendeu mais de 10 mil pessoas em suas unidades. Hoje, são mais de 3.500 pessoas com 60 anos ou mais vinculadas aos programas.

Em 2017, a empresa recebeu aporte da Vox Capital, principal gestora de investimentos de impacto do Brasil. Gilberto Ribeiro, sócio da Vox Capital, explicou que: “A escolha da +60 Saúde [para compor o portfólio da gestora] tinha como tese central o cuidado integral da saúde do idoso. No entanto, a ausência de um profissional de saúde que centralize o cuidado do paciente e cada patologia sendo tratada individualmente, as condutas médicas passam a acumular prescrições e o paciente fica sobrecarregado de medicação, muitas vezes experimentando piora de quadros crônicos e perda de qualidade de vida”. Gilberto ainda ressaltou o diferencial da + 60 Saúde:

“A +60 tem um modelo que é voltado para o cuidado do indivíduo e não da patologia. Complementa a intervenção médica e os medicamentos com outras formas de cuidado, como circuitos de equilíbrio, apoio psicológico, nutricional e socialização, obtendo melhores resultados a um custo menor e, muitas vezes, com menos medicação”.

 

Mental: games para prevenir o envelhecimento
A saúde é importante e não podemos esquecer da importância que o aspecto mental tem em nossa vida. Principalmente para aqueles que param de trabalhar e acabam não mais exercendo atividades diárias como antes, em sua rotina de trabalho.

É por isso que o trabalho da  ISGAME tem ganhado repercussão positiva. A empresa foi criada por Fábio Ota em 2014 e sua sede está em São Paulo. Depois que a criou, o empresário percebeu que a metodologia que tinha utilizado antes, voltada às crianças, poderia ser usada para melhorar e ajudar a parte cognitiva dos idosos.

Fábio foi percebendo que o que era trabalhado em curso, como raciocínio lógico, criatividade, planejamento e trabalho em equipe, poderia auxiliar na memória cognitiva e prevenir o Alzheimer.

Para validar esses benefícios, Fábio conseguiu o apoio da FAPESP no programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas – PIPE. Na oportunidade, a empresa recebeu um aporte de R$200 mil para fazer a pesquisa e comprovar os benefícios da metodologia de jogar e ensinar e desenvolver videogames com os idosos. Tal comprovação deixou Fábio satisfeito com o percurso feito: “Em 2017, terminamos essa pesquisa e conseguimos comprovar realmente os benefícios, tanto na memória, quanto na concentração e na qualidade de vida.

Mas desenvolver games é algo que as pessoas de 60 anos ou mais ainda têm um preconceito, segundo relata Fábio. E não apenas com games, mas aprender algo novo. A metodologia adotada nos cursos ensina os alunos a aprender. E não é decorando: é na prática! “Na hora que você consegue aprender, você consegue pesquisar depois para saber como fazer. A nossa metodologia trabalha principalmente isso: que você aprenda a fazer as coisas diferentes e, se você não souber que você aprenda a pesquisar também”, explica.

Para disseminar mais o trabalho, a ISGAME desenvolveu ainda um aplicativo: o Cérebro Ativo. O jogo está disponível para celular (iPhone e Android) e tem as funcionalidades para que você consiga aprender a desenvolver o raciocínio.

É por isso que Fábio destaca a importância dos exercícios mentais: “Os exercícios físicos são muito importantes, sim, assim como os exercícios mentais. Vejo um executivo que se aposenta. Vai fazer só exercício físico e esquece o mental. Passarão alguns anos e ele terá um declínio mental muito grande. Por quê? Porque ele usava muito o cérebro e, de repente, parou de usá-lo”.

O empresário conta ainda que entrou nesse segmento sem pensar que estava fazendo algo voltado para Economia Prateada. Mas ressalta o cuidado para quem pensa em se voltar a esse segmento:

“O que temos que tomar cuidado é que tem muita gente querendo entrar nessa economia achando que vai ganhar dinheiro porque é o futuro. Pode até ganhar dinheiro – e vai. Mas o principal é pensar que estão lidando com pessoas. Então, você tem que pensar nos seus produtos e serviços, que realmente atendam tais pessoas, antes de pensar em ganhar dinheiro em cima delas”.

Os cursos da ISGAME não apenas ajudam a desenvolver games, mas também são uma forma de sociabilização entre as turmas, que, após a aula, conversam, tomam chá ou café. A ISGAME trabalha com o licenciamento da empresa para outras cidades que queiram pôr em prática o trabalho adotado pela empresa contra o envelhecimento.

 

Palestra da Aging 2.0. Créditos: Reprodução.

Ação: o trabalho do Aging2.0
O Aging 2.0 é uma organização internacional presente em 26 países e com 107 representações (chapters) em diferentes cidades. O foco do Aging 2.0, em São Paulo, é o envelhecimento populacional e sua missão é identificar soluções, preferencialmente tecnológicas, que atendam às demandas e aos desejos da população 60+.

Desse modo, o Aging2.0 trabalha com oito pilares que se conectam e a tecnologia é um fator de catalizador neste congraçamento. Os oito pilares são: Saúde Mental; Propósito; Finanças; Mobilidade; Cuidado; Coordenação do Cuidado; Estilo de Vida; e Fim da Vida.

No Brasil, Sergio Werther Duque Estrada é o representante do Aging2.0 e explica como enxerga este mercado: “Há um crescente interesse em criar produtos e serviços para os 60+ no Brasil. Há uma combinação de, pelo menos, dois fatores muito relevantes que concorrem para essa resultante: a forte redução da taxa de natalidade (hoje em torno de 1,8) e o aumento da longevidade – as pessoas estão vivendo mais e, com isso, surgem novas necessidades e oportunidades também”. Sergio ainda discorre sobre as perspectivas e o futuro da economia prateada no país:

“Tendo em vista que, em tese, boa parte deste contingente populacional já não tem filhos para criar e mais tempo livre, a imaginação está solta para criarmos produtos e serviços sob medida. A grande questão é: conhecemos o que essa população, tão heterogênea, quer? Esse é um ponto crucial para uma definição de estratégia de mercado”.

 

Economia prateada: o que esperar?
Apontamos no texto alguns negócios pautados pela economia prateada, ressaltando que há tantos outros. Estes negócios de impacto social têm em comum o propósito de trazer inovação à indústria da longevidade, enxergando as oportunidades e os desafios na aceleração de negócios de impacto.

Empreendedores de impacto podem olhar para este segmento, mas também precisam pensar: para a população idosa do futuro, que terá uma base trabalhadora menor diante de um grande número de idosos, o que deve ser feito?

Possivelmente, muitos empregadores terão que se adaptar com uma nova realidade, onde pessoas de 50 e 60 anos ainda levam vidas produtivas e consomem, e aliar também Políticas Públicas de atenção à saúde. Um futuro sustentável precisa incluir esse público na economia e no empreendedorismo. Mais do que isso: o mercado precisa se atentar à importância do público 60+ e deixar de lado uma visão equivocada sobre a população da terceira idade.

*Conteúdo apurado antes da pandemia e das medidas de segurança com isolamento social.

TIC Domicílios – 2019

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Capa de "TIC Domícilios 2019". Fonte: CETIC BR.

O que é: “Realizada anualmente desde 2005, a pesquisa TIC Domicílios tem o objetivo de mapear o acesso às TIC nos domicílios urbanos e rurais do país e as suas formas de uso por indivíduos de 10 anos de idade ou mais. Esta pesquisa conta com módulos fixos (coleta anual) e módulos rotativos (outras periodicidades). Os indicadores gerados pela pesquisa oferecem um cenário do acesso e do uso de TIC do Brasil”.

Quem fez: Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br)/ Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (CETIC.br).

 Autores: Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br)/ Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (CETIC.br).

 Ano: 2020.

Clique aqui para acessar a pesquisa.

Vamos lá! Aupa completa dois anos

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Quando a equipe me pediu para escrever este artigo, tentei resgatar os obstáculos que ultrapassamos para chegar até aqui – ao completarmos dois anos de existência como Aupa. Poderia ser uma reflexão sobre a travessia pelo Vale da Morte [ainda se usa esse termo para os empreendedores sobreviventes?]. Mas confesso que pensei mais nas pessoas. Naquelas que nos ajudaram a pensar se fazia sentido, que se debruçaram para desenvolver a plataforma, que discutiram as primeiras pautas, que foram para outros caminhos, que permaneceram e também nas que acabaram de chegar… Parece um “filosofar demais sobre pessoas”, mas é assim que a Aupa nasceu e sobrevive: pelas pessoas e com pessoas que acreditam no Jornalismo e na necessidade de buscar entusiasmo naquilo que produzimos e compartilhamos com outras pessoas. Sim, o setor de impacto ou de negócios de impacto que escolhemos, para dedicar a nossa vocação, é feito de pessoas e para pessoas… Embora, algumas vezes, isso passe despercebido por alguns.

Desbravar e vivenciar o setor de impacto social é lutar e aprender diariamente. Faz-se necessário reconhecer e valorizar a equipe de trabalho, os talentos individuais, bem como conquistar o respeito dos pioneiros do setor, ser validado por institutos e organizações intermediárias, ir atrás de recursos, elaborar projetos e entender o seu papel e o seu lugar. Apesar de tudo isso parecer óbvio, e necessário, a Aupa tem se dedicado a cumprir sua missão colaborando com o setor. Na minha maneira de olhar o dia a dia, e menos o desespero do futuro (embora, o planejamento seja feito), divido aqui que a maior motivação e a persistência em fazer um portal de jornalismo se manter em pé, mesmo diante do cenário incerto que atravessamos com a pandemia, é ver a dedicação da equipe e o foco em busca da inovação.

A Aupa tem um significado forte (a palavra é basca e quer dizer Avante) e lutamos para que seja relevante para quem lê e, principalmente, para quem faz parte dela. Reportagens, entrevistas, notas, seja qual for o tamanho, o tema ou a personalidade da pauta, sempre são construídas a quatro mãos ou, pelo menos, com duas ou mais cabeças pensantes.

Não nascemos para enaltecer atores nem organizações. Nossa missão é questionar e dar luz aos movimentos e às ações que resolvem os problemas socioambientais, às inquietações do setor de impacto social e, principalmente, valorizar os agentes que fomentam o setor, os empreendedores periféricos. Sem as iniciativas de coletivos e líderes das comunidades, o setor seria incapaz de crescer. Por isso é tão significativo também o papel dos intermediários: fundamental para levar recursos e ensinamentos aos que mais necessitam.

E acredito que nossa posição está aí: ser intermediário em um setor em expansão, que atrai cada vez mais pessoas com o propósito de colaborar para um mundo mais igualitário, que não ignoram a desigualdade e lutam para que as oportunidades sejam para todos. Que continue fazendo sentido e atraia mais pessoas para o debate (mesmo para divergir sobre os caminhos). A pandemia e as mudanças necessárias, que emergiram nos aspectos humano e profissional, ressaltam ainda mais a atuação dos intermediários que fazem as doações chegarem às pessoas em situação de maior vulnerabilidade. Bom seria se o “tapinha nas costas” se transformasse em apoio financeiro, importante para que todos os intermediários possamos seguir, focados em impulsionar os empreendedores e colaborar com o desenvolvimento do setor.

A Aupa é um convite para quem quer discutir e compartilhar conhecimentos. Acho que eu sou assim também. Gosto de discutir=conversar e compartilhar=dividir o que aprendi com as pessoas. Gosto de abraços também. Acho que, minha melhor contribuição nesses dois anos da Aupa, foi ter empatia e resiliência. Gratidão é minha palavra por essa oportunidade de conhecer pessoas com coração nobre, que me ensinam muito a interpretar as variáveis dessa jornada, que é longa e desejo que seja positiva.

Do Norte ao Sudeste: iniciativas de impacto social são fundamentais para o SUS durante o Covid-19

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Exército sanitiza UPA de Samambaia contra a_Covid 19 / AG. BRASIL

O Brasil registra mais de 363.340 infectados e mais de 22.772 mortes pelo coronavírus, segundo dados das Secretarias Municipais de Saúde, compilados pelo Brasil.IO e registrado no dia 24 de maio de 2020. O país já é considerado epicentro da doença – na sexta-feira, dia 22 de maio, a Organização Mundial da Saúde (OMS) confirmou que a América do Sul passou a ser o novo epicentro da doença, muito impulsionado pelos dados apresentados oficialmente pelo Brasil. Com o avanço da pandemia, o SUS (Sistema Único de Saúde) pede socorro em diversos municípios do país. 

Créditos: Equipe de Arte da Aupa Jornalismo de Impacto.

A situação em Manaus
As regiões Norte e Nordeste são algumas das mais vulneráveis. A cidade de Manaus, por exemplo, foi palco de cenários de calamidade pública, em que corpos de vítimas pelo vírus estavam ao lado de pacientes vivos infectados. Até o dia 20 de maio, o município possuía mais de 23 mil infectados e 1.506 óbitos, contando com a capital e interior. Mais de 400 pessoas estão internadas na rede pública de saúde a taxa de ocupação dos leitos de UTI chega a 80%.

Antes da vinda do Ministério da Saúde era angustiante, sabíamos o que precisávamos fazer e não tínhamos o meio para fazer. Não temos amparo psicológico: seu psicólogo é seu colega de plantão”, afirma Ana Galdina, infectologista que trabalha no Pronto Socorro João Lúcio e no Hospital de Campanha Nilton Lins, ambos em Manaus. O ex-ministro da Saúde, Nelson Teich, visitou a cidade no dia 4 de maio.

Segundo a médica, o Estado oferta um serviço de teleconsulta para apoio psicológico aos profissionais de saúde. Porém, ela afirma que o que mais traz impacto positivo à saúde mental de quem está na linha de frente é ter insumos para atuar.

“Vou lhe falar uma coisa de quem está vivenciando isso: precisamos de alguém que visualize isso e dê um amparo. Nesse momento que estamos no olho do furacão, o que precisamos é a resolutividade”,

desabafa Ana Galdina infectologista. 

A infectologista ainda relata que a situação dos equipamentos de saúde melhorou após a visita do ex-ministro da Saúde Nelson Teich no início de maio. Após a polêmica compra de respiradores inadequados, que foram adquiridos em uma loja de vinho (segundo reportagem do UOL) com denúncias de superfaturamento, o Hospital de Campanha Nilton Lins recebeu os respiradores corretos e está atuando em sua totalidade. 

“Tivemos um momento em que vários profissionais tiveram que sair, pois adoeceram, e o Ministério da Saúde trouxe profissionais essenciais para a máquina continuar funcionando”, conta Ana Galdina, que trabalha com casos de pacientes em estado grave. 

Hospital de Campanha Nilton Lins. Créditos da foto: Michell Melo Governo do Amazonas. Arte: Equipe de Arte da Aupa Jornalismo de Impacto.

Em meio ao cenário turbulento, surgem iniciativas de pessoas físicas que se unem para apoiar profissionais da saúde e pessoas em vulnerabilidade social durante a pandemia. A servidora pública municipal Luciane Fridschtein participa da iniciativa União Amazonas, que atua com diferentes frentes, entre elas o apoio ao SUS para aquisição de insumos aos atuantes na linha de frente.

“Aqui não medimos em quilômetros, mas, sim, em quantos dias de barco. Tem moradores na Amazonas que nunca viram médico. Foram chegando pessoas de diversos movimentos, como as lideranças indígenas, periféricas, venezuelanos. Para onde eu ligo, as pessoas estão ajudando. Temos uma lista de amazonenses pelo mundo, entro em contato com eles pedindo ajuda. Nossa saúde é muito sucateada e o contrato de trabalho é muito frágil”, compartilha a servidora pública. 

Em um financiamento online, o grupo já arrecadou mais de R$ 6 mil para apoio na compra de EPIs como máscaras, face shields, luvas, entre outras. Segundo a página União Amazonas no Instagram, 700 face shields foram entregues ao Sindicato dos Médicos do Amazonas para serem distribuídas no Hospital 28 de agosto, em parceria com o Ateliê Feito A Laser.

O Amazonas enfrenta um cenário específico que difere de outros estados, como a logística de estradas de rios que dificulta o acesso ao sistema de saúde. Habitantes de cidades do interior podem levar semanas para chegar à capital Manaus de barco, e, infelizmente, a doença tem se espalhado por esses locais. De acordo com o monitoramento diário da Secretária de Saúde, 15.986 estão infectados no interior de Manaus, o que representa 53,5% dos casos do município. Acesse os dados de monitoramento de Covid-19 do Governo do Estado do Amazonas.

A chegada do vírus para os moradores no interior é uma preocupação real para a população e o sistema de saúde. 

“Estamos recebendo pacientes extremamente graves. E o Amazonas tem uma característica de que não há UTI no interior. Recursos humanos são limitados, isso muito me preocupa. Passamos por uma onda enorme aqui e, pelo andar da carruagem, ela virou uma tsunami para o interior”, comenta a infectologista Ana Galdina. 

A falta de logística mais rápida faz com que os pacientes piorem enquanto tentam chegar a uma unidade hospitalar na capital. E esta demanda importante do Amazonas deve ser considerada pelo Poder Público e pelas iniciativas do ecossistema de impacto. A União Amazonas está recebendo doações para ajudar os povos mais vulneráveis neste link.

Cases no Nordeste:
Soluções para evitar deslocamentos e possibilitar que o paciente seja monitorado por meio da tecnologia já existem. O aplicativo UPSaúde, criado por Rodolfo de Lira, cientista da computação e cirurgião-dentista, oferece para o sistema de saúde uma possibilidade para realização de teleconsultas e acompanhamento diário do paciente. 

“Quando surgiu a pandemia criamos uma maratona para adaptar o aplicativo dentro das especificidades do Covid-19. Lançamos um pacote de funções para a triagem inicial e direcionamento para a teleorientação e teleconsulta”, comenta Rodolfo.

Atualmente, a UPSaúde já impactou cerca de 500 mil pessoas e atua nos estados da Paraíba, Maranhão, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Ceará. A cidade de Anápolis, em Goiás, está em fase inicial de implementação do aplicativo, que deve ser adquirido pelo sistema de saúde. 

“Já estive em Manaus, iniciamos algumas conversas, mas o problema lá é mais a logística. A questão dos barcos que demoram 2 ou 3 dias para chegar, às vezes é o maior desafio. É necessário investir nesses pontos de apoio”, afirma o criador do projeto, que é do Rio Grande do Norte.

Enfermeira mede febre de homem em Fortaleza. Reprodução/Câmara Municipal de Fortaleza. Arte: Equipe de Arte da Aupa Jornalismo de Impacto.

A pandemia reforça a necessidade de potencializar os investimentos no SUS e em tecnologias próprias para equipamentos como respiradores. Um grupo de estudantes do Ceará responsável pelo Projeto Rispira lidera o desenvolvimento de respiradores com custo-benefício para atender à população. Segundo informações do sistema Integra SUSo Ceará possui 46.386 infectados e 2.330 óbitos, e é o segundo estado com mais casos de coronavírus no país, segundo dados do dia 25 de maio.

 
 
 
 
 
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O ventilador mecânico é composto por: válvulas reguladoras de pressão e fluxo de ar, umidificador/aquecedor e filtro de ar. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ O ar sai da central de oxigênio hospitalar e tudo é controlado por uma unidade de processamento. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ O aparelho tem duas fases (ciclos): ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ I – Ciclo inspiratório: abre-se automaticamente uma válvula, liberando oxigênio, que passa pelo umidificador/aquecedor e vai para os pulmões. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ II – Ciclo expiratório: fecha-se a válvula aberta, e o ar sai dos pulmões levando CO2 e passando por um filtro antes de ser liberado. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ Ao final da fase expiratória, reinicia-se todo processo. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ Os parâmetros ventilatórios são ajustados pelos profissionais de saúde conforme a necessidade do paciente. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ #rispira #respiradores #saúdepública #todoscontraocoronavírus #nãoseremosabalados #comofunciona

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O Projeto Rispira conseguiu R$ 5 mil em um financiamento coletivo para desenvolver o protótipo do respirador, que irá atender pacientes em casos mais graves do Covid-19.

“Não é só sobre o equipamento funcionando, temos que cumprir as normas da ABNT e nenhuma decisão pode ser tomada antes da chancela da Anvisa”, explica André Lima, um dos participantes do projeto. 

O próximo passo do grupo é começar a aquisição das peças e, após isso, o prazo de produção é em torno de 28 dias. “Fortaleza está vivendo uma situação de lockdown e teremos dificuldade para comprar os insumos, são desafios a mais”, comenta André. 

De acordo com o Índice de Vulnerabilidade Municipal – Covid-19, do Instituto Votorantim, a capital do Ceará, Fortaleza, marca 58,84% no indicador de estrutura do sistema de saúde, que avalia questões como leitos hospitalares e de UTI, bem como ventiladores e respiradores disponíveis. O índice vai de de 0 a 100, sendo 100 a porcentagem de maior vulnerabilidade. 

Em São Paulo, Brasilândia é epicentro do Covid-19

O prefeito Bruno Covas participou da abertura do Hospital Municipal da Brasilândia, no dia 28 de março, com 150 leitos de tratamento intensivo para pacientes com Covid-19. Crédito da foto: Edsom Lopes. Arte: Equipe de Arte da Aupa.

Com mais de 206 mil habitantes, Brasilândia é o 7º distrito mais populoso de São Paulo. Infelizmente, o bairro é o que sofre a maior taxa de óbitos pela Covid-19 e registrou 185 mortes até 22 de maio. 

Após muitos atrasos e cobranças dos líderes locais, o primeiro hospital da região foi inaugurado parcialmente no dia 11 de maio, com 20 leitos de UTI e 16 leitos de enfermaria focados em pacientes diagnosticados com o Covid-19.

“A gente nunca imaginou que passaria por uma situação dessas. Ouvimos, fizemos plano de contingência, mas, de tudo o que planejamos, só sabíamos como seria, de fato, na hora que acontecesse. O primeiro caso suspeito era de pessoas que tinham vindo da Alemanha, estavam com todos sintomas antes do primeiro caso confirmado. O exame demorou bastante pra sair o resultado, pois foi o começo do boom de testes”, conta Andrea Alves Garanito, gerente da UBS Vila Penteado.

Com a gritante desigualdade e os desafios para o isolamento social, diversas organizações e pessoas físicas se uniram para formar a Rede Brasilândia Solidária, que tem como foco o combate ao coronavírus na região.

Entre as atividades desenvolvida pelo grupo de 200 voluntários, estão blitz com os profissionais da saúde com faixas para dialogar com os moradores sobre a importância do distanciamento social e o uso das máscaras. Além disso, a campanha “Máscaras para a Brasilândia”, liderada pela Rede, recebeu uma doação de 100 mil máscaras do Banco Daycoval. Os materiais serão distribuídos pelas 13 UBSs da região.

“Nossa luta continua para que este hospital seja entregue logo na sua totalidade. Queremos também que os CEUs sejam pontos de acolhimentos para os infectados”, disse Carlos Cordeiro, economista e participante da Rede Brasilândia Solidária. Saiba como ajudar a rede neste link.

A prova de que o CEP é determinante nas desigualdades fica evidente quando se compara a concentração dos leitos de UTIs em São Paulo. Segundo um mapeamento da Rede Nossa São Paulo, apenas 3 subprefeituras de São Paulo concentram mais de 60% dos leitos de UTI do SUS da cidade, são elas: Sé, Pinheiros e Vila Mariana – localizadas em regiões centrais e mais ricas.

Em contrapartida, 20% da população vive em 7 subprefeituras onde não há um leito sequer para casos graves. Brasilândia fazia parte desta estatística antes de receber os 20 leitos de UTI com a pandemia.

Os créditos dos dados apurados e do mapa são da Rede Nossa São Paulo. Reprodução: Rede Nossa São Paulo.

Aplicando uma Lente de Gênero no Apoio ao Empreendedorismo: Insights do Brasil

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Capa de "Aplicando uma Lente de Gênero no Apoio ao Empreendedorismo: Insights do Brasil". Fonte: Aspen Network of Development Entrepreneurs ANDE

O que é: “Existe, na comunidade empresarial, um reconhecimento crescente dos benefícios proporcionados pela diversidade e, mais especificamente, pelo investimento em mulheres e na igualdade de gênero. Apesar deste interesse crescente, a maioria dos investidores e intermediários que trabalham com empresas sociais e pequenas e médias empresas em crescimento (SGBs), ainda estão dando os primeiros passos na compreensão da melhor forma de incorporar uma lente de gênero. Este estudo visa compartilhar lições e inovações do ecossistema brasileiro sobre como trazer essa lente para apoiar as SGBs brasileiras.”

Quem fez: Aspen Network of Development Entrepreneurs (ANDE), Institute of Development Studies (IDS) e DICE/British Council.

Autores: Aspen Network of Development Entrepreneurs (ANDE), Institute of Development Studies (IDS) e DICE/British Council.

Ano: 2020.

Clique aqui para acessar a pesquisa.

Covid-19 and Human Development: Assessing the Crisis, Envisioning the Recovery

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Capa de "COVID-19 and Human Development: Assessing the Crisis, Envisioning the Recovery". Fonte: United Nations Development Programme.

O que é: Esta pesquisa aborda “A gravidade da crescente crise do desenvolvimento humano, causada pelo Covid-19. A abordagem apresentada neste relatório implica uma estrutura avaliativa para mensurar a crise e moldar a resposta política, de modo a enfatizar o potencial de as pessoas serem e fazerem o que aspiram na vida, em oposição a recursos materiais ou atividade econômica. Para avaliar a crise, a pesquisa baseia-se em simulações originais a partir de um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) ajustado – com a dimensão educacional modificada para refletir os efeitos do fechamento de escolas e medidas de mitigação – e que incorpora as projeções atuais da renda nacional bruta (gross national income, GNI) por capita para 2020.”

Quem fez: Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

Autores: Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

 Ano: 2020.

Clique aqui para acessar a pesquisa.

Avaliação na Educação Integral

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Capa de "Avaliação na Educação Integral". Fonte: Centro de Referências em Educação Integral.

O que é: O objetivo desta pesquisa é “Desenvolver um primeiro compilamento de um referencial teórico-prático de avaliação para a Educação Integral no contexto brasileiro. Isto se deve ao fato de que esta pesquisa complementa e aprofunda a proposta coletiva do Centro de Referências em Educação Integral de desenvolver uma plataforma e uma metodologia nomeada Educação Integral Na Prática com o objetivo de apresentar caminhos para o desenho e a implementação de políticas de educação para o desenvolvimento integral nos territórios locais e em redes públicas de ensino.”

Quem fez: Centro de Referências em Educação Integral, Move Social e Itaú Social.

Autores: Daniel Brandão, Natacha Costa, Julia Pinheiro Andrade, Juliana Moraes e Walquíria Tiburcio.

Ano: 2020.

Clique aqui para acessar a pesquisa.

Celebrar as contribuições brasileiras para gestão de impacto e mensuração

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O lançamento da pesquisa GIIN 2020, sobre o estado da arte da Gestão de Impacto e Mensuração (Impact Measurement and Management – IMM, na sigla em inglês), aqueceu o debate sobre o tema no começo deste ano e lançou luzes para o amadurecimento de sistemas que permitem alavancar o tripé de sustentação dos investimentos de impacto: transparência, governança e articulação entre decisões financeiras e de impacto. Os principais resultados deste estudo foram tratados em artigo anterior.

O Brasil ganha ótimas contribuições sobre o assunto com o recente lançamento de dois relatórios. Um dele é oriundo do fundo de investimentos Vox Capital e outro, do Programa de Aceleração da Plataforma Parceiros pela Amazônia (PPA). Ambos passam a compor o repertório de experiências nacionais e já anunciam respostas ao repto do relatório GIIN relacionado à ausência de estudos de caso para orientar o amadurecimento de estratégias de mensuração.

Considerando que a pandemia do novo Coronavírus tem suscitado grande interesse por ações de apoio a comunidades, como mostram o monitor de doações da ABCR, o mapeamento de iniciativas capturadas pela ponteAponte ou o apoio que tais ações tem alcançado na grande mídia, observa-se um ambiente ainda mais favorável para o engajamento em investimentos de impacto social + ambiental na sociedade brasileira. Tal contexto reforça o imperativo do amadurecimento de estratégias de gestão de impacto e mensuração, como as oferecidas pelos relatórios citados.

O desenho da Gestão de Impacto e Mensuração já encontra boas referências conceituais, como a ciclo sugerido pela European Venture Philanthropy Association. De maneira geral, esta gestão parte do due-diligence, no qual a propensão de impacto do negócio é observada, seguida pelo desenho da teoria de mudança em que a ambição de mudança social + ambiental ganha uma narrativa consistente. A conexão com os ODS é indispensável nestas etapas. A teoria de mudança cria a estrutura básica para o enquadre do negócio nas cinco dimensões propostas pelo Impact Management Project (o que, quem, quanto, contribuição e risco). Da plataforma IMP também se deriva a classificação dos ativos nas suas três dimensões de impacto pretendido, perspectiva que já se manifesta entre investidores brasileiros e foi abordada, talvez de maneira pioneira, no relatório da Mov Investimentos, de 2019[1].

A teoria de mudança orienta também a definição dos indicadores que devem ser preferencialmente articulados com as propostas do IRIS+, numa cadência que pode conjugar métricas significativas para o investidor com indicadores relevantes para o empreendedor.

Tem-se, então, o passo desafiador de distribuir a abordagem avaliativa e sua agregação de valor no ciclo de vida do próprio negócio, entendendo-se que cada momento da iniciativa exige formas especificas de avaliação.

Tal estruturação deixa claro o que deve ser avaliado diretamente pelo investidor, pelo empreendedor ou por agentes externos. Por fim, considera-se que a consolidação dos dados coletados em sistemas digitais é recomendada por facilitar o acesso, a leitura, a visualização e a publicação de informações.

A Vox Capital oferece um relatório que apresenta de maneira cristalina a sua lógica de gestão de impacto, na qual destaca-se a inovação do “Impactômetro”. Este painel plota os negócios de seu portfólio entre dois eixos: o estágio de maturidade do negócio na horizontal e o nível de acuracidade de avaliações e estudos para determinar o impacto na vertical, o que permite uma clara localização de cada investees num gradiente de evolução do negócio e nível de mensuração.

Esta criativa proposta pode funcionar como farol para iluminar decisões que integram evidências de impacto e questões financeiras dos negócios, enfrentando um dos conhecidos desafios do campo. Ao mesmo tempo a leitura permite discernir em que momentos diferentes tipos de avaliações podem ser utilizadas. Assim, conhecer este “impactômetro” já se faz fundamental.

A contribuição do PPA se faz pelo exemplo que traz ao campo. O relatório apresenta uma ótima articulação entre Teoria de Mudança, indicadores e dados, numa arquitetura interessante que informa sobre gestão do programa, o impacto do PPA nos negócios e impacto dos próprios negócios na transformação socioambiental das comunidades que atendem.

Há ainda enorme espaço para avanços para a consolidação e a divulgação de soluções de gestão de impacto e mensuração por iniciativas com e sem fins de lucro. Mas é motivo de celebração o movimento de publicação de experiências no Brasil, as quais contribuem para influenciar novas práticas e dinamizar uma indústria transparente de negócios de impacto social + ambiental. Inspirem-se e vamos adiante com ideias ainda mais ousadas.

[1] Para esclarecimento, a Move Social não tem relação com a Mov Investimento, apesar da proximidade dos nomes.

Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa.

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