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Aupa lança selo sobre setor de impacto na ACPA dentro da Flip 2019

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A plataforma Aupa – jornalismo de impacto–, lança entre os dias 11 e 14 de julho seu novo selo sobre o setor de impacto dentro da Casa da Porta Amarela, no principal evento literário do país, a Flip em Paraty. Dentre as atividades, está prevista a realização de um debate sobre o tema, além do lançamento da revista Aupa e do primeiro título do selo Aupa | Books, “Impacto na Encruzilhada” do autor Fábio Deboni, colunista do portal.

O autor – e gerente executivo do instituto Sabin–, estará presente no dia 11/7 às 18h dentro das atividades da Casa da Porta Amarela participando do debate e lançando o seu 3º livro, uma coletânea de artigos e reflexões sobre o setor organizado em três eixos temáticos: inovação social, negócios de impacto e investimento social privado.

A Casa fica na rua da Cadeia, próximo ao centro histórico e o painel “Livros de Impacto”, ainda contará com as presenças de Edson Leitte da Gastronomia Periférica, Márcio Black, da Fundação Tite Setubal, Kátia Rocha da Rede Educare e Leonardo Letelier da SITAWI.

 


Para mais informações:

Acompanhe a programação completa da Casa da Porta Amarela

A venda do livro pode ser solicitada direto pelo site da editora mymag

 

Impacto na encruzilhada

 

 

O empreendedor e a importância de ser agnóstico para o sucesso do seu modelo

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O tempo não para…

Como empreendedor, muitas vezes eu bem que gostaria que o tempo parasse. Perguntas sem respostas, recursos escassos, lacunas de informação e dados relevantes, dúvidas em relação ao que fazer ou como fazer e, claro, qual decisão tomar! Diversas são as questões que podem colocar o empreendedor contra a parede e testá-lo. Dependendo da natureza, preparo, capacidade, experiência e serenidade de cada um, o risco é paralisar ou retardar o desenvolvimento do negócio, comprometendo, inclusive, a sua existência ou, na melhor das hipóteses, a sua atratividade.

Na maioria das vezes, os empreendedores subestimam o tempo de desenvolvimento e maturação do modelo. Essa é uma evidência que colho da minha jornada empreendendo e apoiando empreendedores. Não importa se por otimismo em excesso ou por “atritos na pista” de diversas naturezas, o fato é que não é verdade que aprendemos a domesticar o tempo a nosso favor.

Qual a relevância disso para nossa chance de sucesso?

Aqueles que estão olhando para o saldo diário em conta-corrente sendo reduzido, sem o avanço desejado na trilha do negócio, podem responder com maestria.

Para startups em estágio inicial, essa é a principal questão para a sua sobrevivência e evolução. Como já escrevi em outro artigo aqui, o único indicador realmente relevante para esse estágio do negócio é o runway. Em outras palavras, o tempo de vida que a startup tem, calculado pela divisão entre o caixa total em conta-corrente e o valor mensal das saídas líquidas (ingressos menos saídas para pagar custos e despesas), também conhecido como cashburn.

A cultura do projetar versus a do experimentar

A forma mais adequada para lidar com essa armadilha do tempo é fortalecer uma cultura agnóstica, orientada para a experimentação e para o aprendizado veloz, baseado em fatos.

O que isso significa na prática do dia a dia?

Quando estamos na fase de buscar o modelo de negócios, só existem hipóteses. Adotamos premissas sobre diversas particularidades do cliente-alvo, do produto, do preço, dos canais de venda, da comunicação e afins. Ser agnóstico, nessa etapa, significa tratar uma hipótese como o que ela é. Ou seja, algo não comprovado, uma suposição. Hipóteses são o resultado de um exercício de laboratório que todo empreendedor faz quando se debruça sobre mesas de reuniões, post-its, canvas etc.

Como sabemos, não basta estruturar hipóteses robustas para obter êxito. Ter a honestidade e o desapego necessários para lidar com as evidências que emergem do campo de testes, onde a realidade acontece, é essencial para a evolução consistente da busca. Nessa trilha, a verdade não está no laboratório e nem existe a priori. A verdade é uma conquista obtida no campo de jogo, na interação com o possível cliente, com os parceiros e aliados do projeto que estamos construindo.

Quando projetamos o futuro desejado em fluxos de caixa e teimamos em tentar encaixar o pitch e a realidade nas planilhas, temos uma atitude oposta a essa cultura empírica. A cultura de projeções pode ser útil para empresas consolidadas e com elevada previsibilidade de modelo. Não serve para startups. Para elas, a planilha é apoio apenas, dinâmica, em constante evolução à medida que os fatos consolidam aprendizados, validando as hipóteses assumidas ou exigindo um movimento de pivot

O desafio das escolhas e renúncias

Diante desse contexto e nesse estágio inicial, a capacidade de aprender rápido é o maior ativo que o empreendedor pode ter. E arrisco afirmar e destacar que, para essa capacidade estar presente, dada a complexidade e a volatilidade da nossa realidade, a competência essencial que precisa existir no time estratégico é aprender a aprender.

Por isso, viabilizar o engajamento e o desenvolvimento de um time agnóstico, empírico, competente para aprender a aprender o que for necessário e de forma veloz é o foco número um do empreendedor que está na fase de busca de um modelo de negócios exitoso. Quanto mais fortalecida for essa competência no time, maior será a sua capacidade de fazer escolhas e renúncias assertivas, tomar decisões na velocidade adequada e, com isso, ampliar as chances de superação dessa etapa na jornada empreendedora.

Empreendedores saindo do armário

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Fenômeno crescente no campo dos negócios de impacto (especialmente em ecossistemas ainda em “desenvolvimento”) é comum nos depararmos com empreendedores que se descobrem como sendo “de impacto”.

Tinham (têm) um negócio (startup, empresa, etc) e ao serem introduzidos ao conceito de negócios de impacto, prontamente se reconhecem como sendo parte deste movimento. Que bom!

Trata-se de um momento “eureka” de cunho identitário. Um certo rito de passagem, digamos. E o que parece ser um ato banal e de menor importância, é, na verdade, a porta de entrada a um “novo mundo” de oportunidades e conexões.

Daí a brincadeira com a expressão “sair do armário” ou, entrar num novo “armário” como preferir, caro(a) leitor(a).

Se autorreconhecer como sendo um negócio de impacto, implica em algumas mudanças de identidade e, sobretudo, rumo.

De um lado, assumir seu propósito (do fundador e da organização) como sendo algo chave na proposta de valor do negócio. O que antes era algo “desejável”, passa a ser “vital”.

De outro, acessar um novo repertório de ferramentas e conexões – aceleradoras, intermediários, investidores, narrativas, métricas, etc.

Isso reduz a energia necessária para “inventar rodas” que ajudem a gerir e a expandir o negócio, pois, a conexão com outros players e possíveis parceiros traz boas ofertas nestes quesitos.

E quais os ônus que esta autodescoberta traz?

Vejo, ao menos, três:

1 – Necessidade de destinar tempo e energia para mergulhar mais fundo neste novo tema, compreendê-lo com mais profundidade e identificar possíveis sinergias e apoios que tenham fit com seu negócio. Se isso ocorre num ecossistema ainda em “desenvolvimento”, provavelmente demandará recursos financeiros para participação em eventos, em acelerações em SP (ou outro “centro” mais “desenvolvido” no tema). 

Encare isso como investimento e não como despesa. Mas, atenção: como a oferta é crescente, é preciso ter muita clareza do que/onde participar.

2 – Precisa “catequizar” outros neste tema – equipes, parceiros e, especialmente, investidores. Talvez eles também não estejam antenados no assunto e precisarão de estímulo para “saírem do armário” também. Na medida em que o negócio estimula um “microecossistema” ao seu redor, aumentam suas chances de prosperar neste novo movimento.

3 Sensação de solidão. Para nós que vivemos e estamos “fora do eixo”, em ecossistemas “em desenvolvimento”, é natural a sensação de “pregar no deserto” e de “solidão” ao não estar na zona sul de SP e ter acesso a ampla oferta de eventos, cafezinhos, conexões. Para este tipo de sentimento, a saída é seguir em frente e, sempre que possível, buscar esse “oxigênio” estando presencialmente em ecossistemas mais “desenvolvidos”. Sempre quando possível, claro.

Sem dúvida a internet também pode nos ajudar (e como!) a reduzir a distância e a disparidade entre esses ecossistemas e a nos deixar mais “por dentro” das novidades e tendências. Mas sempre é bom lembrar que nosso Brasil é gigante, repleto de diversidade regional e, portanto, há espaço para todos(as) neste “movimento”. 

DOSSIÊ ÁGUA 1: Entre o negócio de impacto e o direito à vida (parte 1)

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crédito: wikimedia

A água é um direito e um recurso natural valioso, muitas vezes utilizado como moeda. Conheça as relações que esse bem comum tem a ver com iniciativas de impacto social no Brasil na série de 2 reportagens especiais desse mês da Aupa.

A água é um direito social e pensar este recurso natural é também pensar sua política. Afinal, ter acesso à água – sobretudo, potável e ao saneamento básico–, são marcas socioeconômicas fundamentais em países como o Brasil, ainda mais quando o debate envolve brasileiros em situação de vulnerabilidade. Segundo dados do ministério das Cidades (2018), mais de 35 milhões de brasileiros não têm acesso à água potável e 100 milhões não têm saneamento básico. Outro problema que aflige os brasileiros, diz respeito aos que tem acesso à agua, mas que seu consumo pode estar contaminado. Segundo levantamento, cerca de 25% dos municípios brasileiros registram contaminação com agrotóxicos.

É nesse mesmo cenário desigual e contraditório de acesso à água no país onde multiplicam-se iniciativas em busca de soluções. A partir de um mapeamento que extrapola o eixo Sudeste, a redação da AUPA procurou atores do ecossistema e produziu duas reportagens exclusivas sobre o acesso à água. Com base em exemplos de ações comunitárias, públicas e privadas – em âmbito local e nacional–, a editora Fernanda Patrocínio investigou o tema e trouxe para o debate a pergunta: qual o lugar dos negócios de impacto no debate público sobre o acesso à água?

As provocações e os exemplos você confere em duas partes:

Parte 1: “A água: o homem e os saberes da terra”
Parte 2: “A água: os negócios de impacto e o estado brasileiro”

 


PARTE 1:
A água: o homem e os saberes da terra

TECNOLOGIAS SOCIAIS NO SEMIÁRIDO NORDESTINO

“Entre os galhos retorcidos do sertão, há água. No solo árido, cresce o verde. Da sabedoria popular, nascem tecnologias sociais”. Este trecho faz parte da apresentação do Centro de Educação Popular e Formação Social, o Cepfs, que atua no Sertão, desde 1985. O objetivo da organização é buscar soluções para o desenvolvimento sustentável da agricultura familiar no Semiárido brasileiro. “Algumas pessoas, que integravam essa associação, compreendiam a importância da organização como caminho para o desenvolvimento regional no fortalecimento da agricultura familiar rural local”, conta José Dias Campos, economista e coordenador executivo do Cepfs, organização, não-governamental e sem fins lucrativos, criada em 1989.

Diante do trabalho que relaciona a sabedoria popular com a tecnologia, Dias explica que a compreensão do conhecimento local é fundamental para o processo de desenvolvimento. “Para nós, as tecnologias sociais devem ser compreendidas como inovações frutos do processo de compartilhamento de saberes e conhecimentos já existentes. Assim, tecnologia social, saberes e conhecimentos tradicionais são componentes que caminham juntos ou um nasce do outro”, explica ele.

Oficina de agroecologia e geração de renda promovida pelo Cepfs na Serra de Teixeira, ao sul do sertão do estado da Paraíba

A água é uma pauta especial para o Cepfs. No Sertão, chove, em média, de 200 a 800 milímetros por ano – e a evaporação desta água é três vezes maior do que a quantidade de chuva que cai na região. “A água é fonte de vida, em todos os lugares, mas, no Semiárido, ela é mais preciosa ainda”, comenta o coordenador. O Cepfs oferece capacitações para o desenvolvimento de tecnologia sociais de captação, armazenamento e manejo de água de chuva. Dias elenca exemplos destas práticas, como construção de cisterna de enxurrada, os lajedos de pedras bem como barragens subterrâneas e barreiros-trincheiras. O primeiro passo no diagnóstico feito pelo Cepfs é sempre o ecossistema da família participante, para identificar quais práticas já são adotadas pelo agricultor, suas potencialidades aliadas à natureza, para, então, serem definidas ações que podem ser feitas com as tecnologias sociais.

Família beneficiada com cisterna do tipo enxurrada e sistema simplificado de irrigação na comunidade São Sebastião Cacimbas, na Paraíba
Visita de técnicos em área experimental dos Cepfs, Riacho das Moças, Matureia, Paraíba. Foto: Foto Renalle Benicio

A agricultura familiar é a referência de sabedoria popular adotada pelo centro. “É na agricultura familiar que está a fonte de conhecimentos e necessidades que precisam de suporte para promover inovações rumo ao desenvolvimento local”, diz Dias. O Cepfs atua em 10 municípios e em 116 comunidades da Paraíba, e até o final de 2018 impactou cerca de 95.480 pessoas por suas ações, sempre com dois eixos nos programas realizados: meio ambiente e desenvolvimento sustentável e fortalecimento e desenvolvimento comunitário. “Há o desenvolvimento comunitário por meio de processos de troca de saberes e conhecimentos, processos pelos quais nascem as inovações sociais”, comenta Dias.

O PROBLEMA NÃO É FALTA DE ÁGUA

O Serta (Serviço de Tecnologia Alternativa) é uma Oscip (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público), fundada em 1989 por agricultores, técnicos e educadores, atuando, sobretudo, nos municípios do estado de Pernambuco. Com foco em educação e formação, promove atividades para que jovens, educadores e pequenos produtores rurais trabalhem no desenvolvimento sustentável no campo, tendo a água como uma de suas principais áreas de atuação.

A construção de cisternas no Semiárido é um projeto bastante desenvolvido pelo Serta. “É preciso ter um método e um estudo, não adianta construir a cisterna por construir. Nós identificamos as famílias, conversamos com elas, as capacitamos para que possam, além de captar água, aprender a utilizar este recurso natural”, conta Sebastião Alves dos Santos, também conhecido na região como Tião do Serta. Autodenominado como pesquisador da Caatinga, Santos é técnico em agropecuária e biólogo. Tião diz que, hoje, o projeto é a maior obra de engenharia hídrica do Semiárido. “Chegamos a um milhão e 200 mil cisternas já construídas no semiárido. Isso é bastante significativo na qualidade de vida das pessoas, sobretudo daquelas que vivem no campo”, afirma.

Tião do Serta: “O maior problema do Semiárido é a aridez mental, sobretudo da política, que não direciona políticas públicas que sejam capazes de responder à demanda do povo e aproveitar as oportunidades que o Semiárido oferece”. Foto: divulgação/Youtube/Rede Globo

           Santos tem uma visão diferente sobre a Seca no sertão nordestino. “Temos o Semiárido mais chuvoso do mundo. Na nossa região, chovem, em média, 500 milímetros ao ano. Se olhar atentamente, o problema não é a falta de água, mas, sim, de matemática aplicada, pois se a escola ensinasse jovens e crianças que um milímetro de chuva em um metro quadrado corresponde a um litro de água, desde cedo aprenderíamos que é possível captar, para cada metro quadrado, 500 litros de água para um ano regular de chuva no Semiárido. E engana-se quem pensa que é pouco: isso é muito!”, calcula ele. “Discordamos de quem culpa a seca, pois a aridez do bioma não é, nunca foi e nem será um problema. A gente precisa aprender a conviver com essa aridez. O maior problema do Semiárido é a aridez mental, sobretudo da política, que não direciona políticas públicas que sejam capazes de responder à demanda do povo e aproveitar as oportunidades que o Semiárido oferece”, reclama. O Serta se define como uma organização sem representação política, mas que auxilia e incide na construção de políticas públicas. “Lamentavelmente, a gente encontra ainda pouco espaço no meio político para que essas propostas virem, efetivamente, ações que possam transformar as realidades locais. E eu estou me referido ao Semiárido como um grande e vasto campo que o governo brasileiro teria para atuar”, conclui.

AMAZÔNIA: SABERES LOCAIS

O saber das populações ribeirinhas da Amazônia também tem muito a nos ensinar a respeito de iniciativas da sociedade civil e políticas públicas sobre a água. O Projeto Saúde e Alegria – uma organização não-governamental fundada em 1987–, começou seus trabalhos ao lado de 16 comunidades-piloto da zona rural de Santarém, no Pará. Em 2003, este número subiu para 129 comunidades. “Com a ampliação, estendemos a atuação a praticamente todo o território da Floresta Nacional dos Tapajós, atingindo também comunidades da região do Assentamento Lago Grande – de Agro extração”, comenta João Carlos Dombroski, técnico de organização comunitária do projeto. Estas comunidades foram beneficiadas, na época, pelo projeto Saúde na Floresta, recebendo também incentivos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), para ações, como o saneamento, os poços semiartesianos, as cisternas e os filtros.

Ação local realizada pelo projeto Saúde e Alegria

Segundo os responsáveis, o Projeto Saúde e Alegria já impactou entre 30 e 35 mil pessoas dentro das comunidades e na própria percepção de Carlos o modelo se encaixa atualmente nos moldes de um negócio de impacto social . “Trazemos ideias inovadoras em projetos que podem ser multiplicadas em outras comunidades. Trazemos também inclusão social, principalmente, pois são comunidades bem isoladas. Trabalhamos com questões como saúde, saneamento, renda e inclusão das mulheres na produção de artesanato”, elenca Dombroski, comparando as soluções escaláveis e a entrega do projeto para a população em situação de vulnerabilidade.

Um dos aspectos de impacto que evidencia o modelo de negócio está na geração de renda e trabalho com as mulheres com a criação de uma cooperativa. “É por intermédio desta cooperativa que há uma coordenação mais específica sobre a produção de artesanato e sua comercialização, tanto na região quanto fora dela”, explica o técnico. Além disso, há ainda geração de renda a partir do turismo comunitário e da comercialização de galinhas, abelhas e hortas. “Tudo isso impacta a renda das famílias. Vai além da renda direta, pois as famílias observam e aprendem novas técnicas, novos jeitos de trabalhar: um trabalho coletivo”, comenta ele. E vale ressaltar: organizados em cooperativas e associações, o valor dos produtos oferecidos [veja matéria sobre produção de queijos na Serra da Canastra] tende a ter maior valor agregado do que aqueles que comercializados por quem empreende sozinho.

“Tudo isso impacta a renda das famílias. Vai além da renda direta, pois as famílias observam e aprendem novas técnicas, novos jeitos de trabalhar: um trabalho coletivo”

E o que os saberes indígenas de um território de povos originários podem nos ensinar sobre ações de impacto social em relação à água? Dombroski, que atua há 25 anos no tema e na região, afirma que os aprendizados indígenas são essenciais na construção das soluções propostas pelo projeto, principalmente em relação ao saneamento básico comunitário. Hoje são mais de 40 comunidades com o sistema de abastecimento de água instalado, atendendo cerca de 3.400 famílias, ou seja, mais de 16 mil pessoas com água potável vindo da torneira de suas casas. “Se somarmos os trabalhos feitos na cidade e nas comunidades rurais, hoje são mais de 215 quilômetros de rede hidráulica”, se orgulha o produtor.

Outros destaques do Projeto são ações como a implantação de energia alternativa, energia solar, micro-usinas e a introdução de internet em localidades isoladas. “Nosso forte é o saneamento básico, com a inclusão social, principalmente, em torno de políticas públicas, que vão garantir saúde, saneamento e educação às comunidades”, pontua o sociólogo italiano Tibério Alloggio, que mora na Amazônia desde 1989 e é coordenador de desenvolvimento territorial – o sociólogo também já foi fellow da Ashoka. Essa conexão entre o projeto e o poder público é, inclusive, um dos grandes trunfos e resultados como modelo de negócio de impacto social. O Projeto Saúde e Alegria aproximou e influenciou as políticas públicas locais, como é o caso da implementação do programa de Saúde da Família Ribeirinhas e Fluviais, do Ministério da Saúde. “Ele surgiu da experiência do Projeto Saúde e Alegria, que levava assistência via barcos. O Ministério da Saúde gostou da ideia e hoje são mais de 60 barcos atendendo a população ribeirinha”, explica o sociólogo.

O projeto realiza ações e oficinas com a população local. Acima, imagens do “Teia Cabocla”

Como o próprio nome traduz, a metodologia utilizada nas atividades do Saúde e Alegria é uma proposta lúdica. “A alegria não tira a nossa seriedade. Ela serve para mobilizar, colocar temas dentro das comunidades de uma maneira mais fácil”, comenta Alloggio. A questão principal do projeto hoje é tornar a economia da floresta rentável para quem mora no território e gerar assim sustentabilidade financeira e ambiental juntos. “Estamos fazendo um esforço grande em relação a algumas cadeias produtivas, como o extrativismo da borracha, que entrou em crise. Hoje, a maioria da população tradicional aqui da Amazônia trabalha mais em torno da produção de farinha de mandioca. E usando uma alternativa ainda muito primitiva, que é o corta e queima”, explica ele. “O desafio é produzir um modelo que possa garantir sustentabilidade dos recursos e dos moradores”, completa, acerca de um novo mindset que demanda uma roça sem fogo e a restauração florestal.

Paralelamente às atividades de organização social, o projeto apoia ainda micro e pequenas empresas ligadas às atividades e às cooperativas. “Há um movimento para que tanto as famílias quanto os agroextrativistas saiam da informalidade – pois, se nela permanecerem, eles continuarão sendo vítimas de atravessadores”, destaca Alloggio. São alternativas como essas que transformam há décadas o Semiárido Nordestino e a região amazônica que hoje dialogam com o ecossistema de impacto e influenciam política públicas do estado brasileiro. Os saberes tradicionais se misturam com saberes econômicos mais contemporâneos e jogam luz para uma reflexão em como pensar a água como um direito e um recurso econômico sustentável e de grande impacto para todos nós.

(Na próxima reportagem, o exemplo da água AMA, da empresa Ambev e um sobrevoo sobre a água dentro das políticas do governo).

Eu Errei: “Não queremos a sua ajuda”

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A gente precisou mostrar para as empresas que acessibilidade é uma oportunidade.” Ronaldo Tenório demorou para encontrar o equilíbrio entre ser “missionário” e “mercenário”, como ele próprio costuma dizer. CEO e fundador da Hand Talk, Ronaldo enfrentou o desafio de trabalhar em uma empresa charmosa e com uma causa forte: um tradutor de libras digital para a inclusão de surdos na sociedade. Porém o faturamento não vinha.  Potenciais clientes da sua solução viam a Hand Talk apenas como mais um projeto legal, mas demoraram a entender que poderiam contratar seu serviço. A virada veio com uma mudança de mentalidade: falar menos da causa em si para aprender a se vender melhor, enquanto negócio. “Se o negócio for escalável, ganhar dinheiro e gerar impacto é a melhor forma! A turma do bem sempre tem que trabalhar de graça?”, questiona.

Leia a reportagem completa e assista o 9º episódio da série Eu Errei

Eu Errei: Henrique Castan, da Nutriens

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“Eu estava começando um negócio a partir de uma ideia. Mas um negócio deve começar para resolver problemas.” Henrique Castan já tinha 36 anos e muita experiência enquanto executivo quando fundou com sua irmã, Natalia, a Nutriens. A empresa nasceu para democratizar e popularizar o acesso a alimentação orgânica no país, principalmente entre faixas da população de menor renda. Porém, antes de se tornar o que é, a Nutriens teve de passar pela prova de fogo de sobreviver à vaidade, principalmente do seu fundador. Como ele mesmo disse, começar no empreendedorismo social partiu de uma solução, que, para Henrique, parecia maravilhosa. Se tivesse insistido nela, a Nutriens nem chegaria até aqui. “Às vezes aquela ideia aparentemente perfeita que vem da cabeça do fundador pode não ser a melhor. Aliás, ela não é a melhor”, conclui Henrique.

Leia a reportagem completa no Eu Errei!

Eu Errei: Gustavo Fuga, da 4you2

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“Tem que testar pequeno para depois fazer a rolagem.” Simples assim. Gustavo Fuga aprendeu de modo até um pouco pitoresco qual é, às vezes, o limite do ímpeto disruptivo que o levou a criar a 4you2. A escola de idiomas nasceu em 2012 com o sonho de democratizar o acesso ao ensino de inglês usando de tecnologia para baratear seus custos. O foco está em alcançar principalmente a população de baixa renda. E tem dado certo: são mais de 10 mil estudantes desde o início da operação em cinco unidades espalhadas pela cidade de São Paulo. Recentemente, porém, na tentativa de digitalizar os processos, a escola optou por enviar os boletos de pagamento para os clientes por e-mail. “Foi quando a galera começou a não pagar”, resume Gustavo.

Leia a reportagem completa no Eu Errei!

Giovanna Marcelino: “É preciso que a Educação seja um direito e não uma mercadoria”

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Crédito: Divulgação

A Educação é uma das principais preocupações durante o período da pandemia. Afinal, através dela também se revelam múltiplos problemas estruturais da sociedade e o acesso às aulas usando gadgets atendem apenas uma parcela de alunos e professores. Vale dizer que os problemas relacionados ao ensino, sobretudo à qualidade e aos investimentos e cortes feitos, são também anteriores à chegada da Covid-19.

Tanto na articulação quanto no debate público novos atores vêm surgindo, de modo a renovar e trazer novas perspectivas sobre a Educação. E um destes exemplo é a Rede Emancipa, movimento social de Educação popular nacional.  Há mais de 12 anos a iniciativa constrói uma rede de cursinhos populares, pautada no trabalho associativo, colaborativo e solidário em diversas regiões do Brasil, com o objetivo de construir uma Educação crítica e transformadora para colocar a juventude periférica dentro das universidades. “Entendemos que existe no Brasil essa desigualdade. Há uma barreira histórica, que é o acesso e a permanência dentro das universidades públicas. Por isso, defendemos uma Educação emancipadora e a construção de um movimento social que lute por essa demanda”, explica Giovanna Marcelino, coordenadora da Rede.

Nesta entrevista, a socióloga e pesquisadora enfatiza que “Existe uma pressão social por uma Educação pública gratuita e de qualidade para todos como um direito”. Giovanna destaca ainda que as Política Públicas devem ter um espaço fundamental para garantir que a Educação não seja uma mercadoria. A seguir, confira o diálogo completo para o especial “Educação na pandemia”. 

Crédito: Equipe de Arte da Aupa.

AUPA – Como é o trabalho da Rede Emancipa?
Giovanna Marcelino – Ele acontece nos territórios junto com as famílias e as comunidades dos bairros. Esse trabalho voluntário faz toda a diferença pra juventude periférica. Ao longo desses anos, a rede conseguiu efetivar a aprovação de muitos alunos que entraram nas universidades e que conseguiram mudar tanto as suas vidas quanto as trajetórias de suas famílias, sendo os primeiros a fazer um curso de nível superior em suas respectivas família.

Dentro desse cenário de pandemia, atuamos também sobre a questão de não ter o volta às aulas, por questões de segurança. Para nós, o ano letivo se recupera, mas as vidas não. Preferimos fazer assistência aos nossos alunos e que o Enem e os vestibulares sejam adiados nesse contexto.

Além disso, estamos também construindo, nesse momento de eleições municipais, uma plataforma, chamada Poder para as Periferias. Trata-se de uma tentativa de síntese desse trabalho, que é colocar as periferias como sujeito político ativo capaz de intervir e decidir sobre a construção das cidades, na tentativa de buscarmos saídas para a crise que vivemos. A juventude negra e periférica é quem mais sente na pele os problemas das nossas cidades ( como Educação, saúde, moradia, transporte) e quem, portanto, pode melhor apontar caminhos e encontrar soluções. 

AUPA – Como você vê a importância da Educação diante do atual cenário político-social?
Giovanna Marcelino – Acredito que a Educação cumpre um papel essencial para a sociedade, não só na formação de trabalhadores qualificados para o mercado de trabalho, mas também na formação de sujeitos e cidadãos providos de uma visão crítica sobre o mundo, a história e seus próprios direitos. Trata-se de uma capacidade ativa de entender e de poder atuar no mundo e na realidade.

Mas isso depende muito da forma como o sistema educacional se organiza em cada país. Ou seja, se há investimentos ou não, se valoriza ou não o professor, a maneira como se engaja o aluno no processo de ensino, como é a relação da comunidade escolar, a gestão escolar, o processo de decisão interna dentro da escola.

A forma como está organizado o sistema educacional de cada país é um termômetro extremamente importante para entender a estrutura de desigualdade de cada sociedade.

Neste sentido, a depender como está organizada, a Educação, na verdade, pode ser um instrumento para combater e revelar essa desigualdade e para pensar em um outro futuro. O problema é que, no nosso caso atual, nos deparamos com um contexto atual de crise – e essa crise tem,  de uma maneira muito evidente, uma dimensão sanitária, econômica, política, ambiental, mas também é uma crise educacional.

Muitos têm ressaltado, inclusive, a ideia que vivemos um colapso na Educação do Brasil, que não é de hoje, mas, sim, um processo de alguns anos de sucateamento e de precarização, que a pandemia apenas escancarou. Isso em todos os seus níveis educacionais. Do município ao Estado e da creche à universidade. E a pandemia revelou tudo isso de uma maneira muito intensa.

AUPA – O que a pandemia deixou ainda mais evidente na Educação?
Giovanna Marcelino – Em vários lugares do país, por exemplo, vimos o quanto os educadores e os professores da rede pública sofrem com a má remuneração e com a sobrecarga de trabalho. Com a pandemia, o ensino e o trabalho remotos intensificaram esse processo. A sobrecarga de trabalho recai também sobre os estudantes. Muitos abandonaram a escola por não terem um ambiente propício para o estudo dentro de casa, além das condições tecnológicas de acesso a equipamentos, como celulares e computadores, e internet. É preciso ressaltar que  muitas famílias do Brasil inteiro sofreram o impacto da perda de renda. Como consequência, esses estudantes estão abandonando o sonho de entrar na universidade para poderem trabalhar e ajudar a família – e contribuírem com a renda familiar. É um cenário muito crítico.

AUPA – Poderia explicar melhor a crise política e educacional, por favor?
Giovanna Marcelino – Somado ao impacto que a pandemia teve, interrompendo o ensino presencial e essa nova realidade de ensino remoto, também enfrentamos um problema de financiamento da Educação, que é muito estrutural e se aprofundou ainda mais com a crise. Justamente com a redução brutal dos recursos dos Estados para Educação pública, que foi a recente batalha do Fundeb. Tudo o que estamos passando é fruto também de um projeto para a Educação que está vinculado a um programa econômico ultraneoliberal. E está também relacionado com essa tentativa de se implementar no Brasil um programa econômico educacional, com a retirada de financiamento de Educação básica e com a falta de estrutura nas escolas e nas universidades.

Crédito: Equipe de Arte da Aupa.

A questão é séria, por conta do papel que a Educação cumpre na nossa sociedade. Há também a ausência de uma perspectiva educacional, que, de fato, esteja preocupada com os alunos e com a valorização dos professores.

E esse cenário afeta muito a nossa juventude hoje e se depara com a falta de perspectiva de carreira, de emprego, de estudo e de futuro.

AUPA – Quais os impactos é possível projetar na Educação, a longo prazo?
Giovanna Marcelino – É importante ressaltar dois momentos importantes. O primeiro diz respeito ao que estamos vivendo durante a pandemia. A discussão atual está centrada na volta às aulas. Existe uma oposição muito sólida contra a reabertura das escolas, justamente pela argumentação de que não existe, hoje, garantia e nem condições de segurança de estrutura dentro das escolas. Nesse ponto, um fator é a própria exposição de alunos e professores a um risco de saúde muito explícito, como o fator de locomoção. Muitos discentes e docentes usam o transporte público para se locomover até a escola. Existe toda uma cadeia de problemas que justificam a importância do não retorno das aulas presenciais.

Crédito: Pixabay.

Hoje, é mais importante garantir a vida daqueles que fazem parte da comunidade escolar e que o ano letivo possa ser recuperado a partir do momento que isso for possível. Aqui em Campinas (SP), a cidade de onde moro, isso foi uma conquista da comunidade escolar, a partir de uma mobilização de escolas, famílias, professores e estudantes. Assim, a volta às aulas presenciais na rede municipal foi adiada a partir dessa pressão.

O segundo momento diz respeito ao debate em torno da Educação à distância. Vale dizer que este projeto já está sendo testado. A pandemia revelou uma oportunidade de sucateamento e de privatização da Educação com a presença das fundações empresariais, que tentam assumir, cada vez mais, a administração das escolas, além do argumento de que, diante do aumento do desemprego, vale tentar o ensino de empreendedorismo, por exemplo. A escola não é um lugar de negócios. A Educação é um direito e tem uma função social de formação de sujeitos e cidadãos. Há uma luta sobre concepção de Educação.

O que existe é uma pressão para luta pela Educação pública gratuita e de qualidade para todos como um direito. E há uma tendência que está colocado no agora, reforçada pela pandemia, que é o ensino à distância na Educação formal.

O Ensino a Distância (EaD) também é um projeto que precisa ser ponderado. Apesar de tentar projetar essa imagem de modernidade e de inclusão, o EAD é em si um projeto excludente. Apesar de ter se criado um discurso que funciona muito bem – que tem muitos alunos, que a Educação continuou as suas atividades, que está tudo normal -, na verdade, observando ensino on-line com profundidade, é possível notar que  existem muitas barreiras já de antemão que colocam em xeque a possibilidade sobre esse projeto.

Novamente, são barreiras quanto ao acesso de tecnologias, como celulares, computadores e internet, e à falta de um ambiente propício dentro de um lar, para se ter um ambiente educacional. Inclusive, muitos lares tem somente um celular para a família toda. Acho que o lar se revelou um debate de importância, pois se tornou quase que uma fábrica – o home office, para quem teve condição de garantir a quarentena nesse momento. Vale lembrar que aumentaram os índices de violência contra a mulher dentro de casa. Como o lar pode ser um ambiente propício para o estudante?

Há ainda a barreira da falta de interação entre aluno e professor, porque as telas não permitem isso. Se vende a falsa ideia de inclusão dentro do ensino à distância. Então, é uma ilusão achar que trata-se de um projeto bem sucedido, do ponto de vista educacional e também como um projeto de Educação a longo prazo. Pode-se dizer que esse futuro da Educação que está sendo vendido – principalmente pelas fundações empresariais, que têm interesse econômico e financeiro nesse processo de mercantilização da Educação, além do ensino à distância – tem que ser visto com olhares críticos, porque há uma tendência de diminuir a qualidade educacional [para saber mais, veja a pequisa do Instituto DataSenado].

AUPA – Como você enxerga o Brasil no cenário internacional, no que diz respeito ao desenvolvimento de pesquisa e ciência?
Giovanna Marcelino – O Brasil só pode cumprir o papel e explorar as suas qualidades, justamente, valorizando a Educação. É com mais financiamento, investimento e valorização dos professores da Educação pública que o Brasil pode cumprir esse papel. E, infelizmente, na crise que estamos vivendo o movimento tem sido inverso. E isso é muito crítico.

Para fazer uma comparação: da mesma forma que a pandemia viabilizou o trabalho dos profissionais da Saúde e a importância do SUS, isso também vale para a Educação. Porque se não há trabalhadores saudáveis, não existe trabalho.

Se a pandemia viabilizou esse trabalho dos cuidados com a Saúde, ela viabilizou a importância da Educação pública.

É perceptível o quão heroico é o trabalho do professor e do estudante, que também tem a sua jornada para se formar. 

Em termos da internacionalização, é ainda mais gritante o cenário da universidade, da graduação e da pós-graduação. Eu sou doutoranda e tenho bolsa e minha pesquisa é financiada pelo CNPQ. E é muito triste ver como muitos colegas estão sentindo na pele o sufoco que é a situação das bolsas e do financiamento de pesquisa no nosso país. Existe um desmonte da Educação pública também nas universidades. Acredito que, inclusive para pensar o Brasil no ambiente da ciência e da Educação, internacionalmente, é muito importante que haja intercâmbios, que os estudantes da pós-graduação sejam garantidos a uma oportunidade de fazer estágio doutoral, por exemplo. Ter a experiência fora do país, conseguir publicar suas pesquisas também de fora do país. fazer os resultados e as pesquisas circularem. Acho que o próprio cenário do desenvolvimento da vacina da Covid-19 é explícito no que diz respeito ao desenvolvimento da ciência que vem de dentro da universidade. Nossas universidades públicas são exemplo também de descobertas científicas.

É muito importante ter investimentos e a situação de desmonte, com corte de bolsa e de condições de infraestrutura para ter pesquisa hoje no país, também é um termômetro de como o Brasil está atrás para conseguir cobrir esse papel de referência internacional. E a vacina é um bom exemplo de como ter ciência, conhecimento científico, autonomia das universidades e investimento da pesquisa no Brasil são elementos cruciais para o desenvolvimento – e diz muito sobre o lugar que o Brasil pode ocupar internacionalmente.

AUPA – Então, como você vê a importância das Políticas Públicas?
Giovanna Marcelino – Acredito que, durante a pandemia,  a garantia ao atendimento aos estudantes e suas famílias, antes de mais nada, deveria ser uma orientação de Política Pública. Na verdade deveria ter mais investimentos para garantir que as escolas fossem uma espécie de centro de apoio da realidade para o enfrentamento da situação difícil que estamos passando, com muitas mortes e famílias sendo atingidas. E também com muita desestruturação econômica e social dentro das famílias. Além disso, vale lembrar da discussão sobre renda básica. Isso deveria ter sido uma orientação de Política Pública.  Vimos, na prática, o que isso significou para essas famílias, estudantes e professores.

Por que falar em políticas de renda mínima?

Clique na imagem para acessar o artigo.

A escola deveria, em primeiro lugar, ter se preocupado em dar apoio e ser um centro de solidariedade ativa para as famílias e os estudantes que estavam precisando de apoio em todos os sentidos nesse momento da pandemia.

No futuro, no pós-pandemia, será fundamental garantir a Educação como um direito para todas e todos. Ainda mais com a busca pela implementação de ensino a distância e de ensino remoto, inclusive, sendo um legado da pandemia, digamos assim. É preciso que as Políticas Públicas garantam que isso não seja uma saída para mais sucateamento, mais precarização da Educação – que é um objetivo justamente dos setores empresariais, que querem lucrar com a Educação -, e que não estão necessariamente preocupados com a qualidade da Educação, do ensino, mas, sim, em transformar em uma Educação mais lucrativa.

AUPA – Gostaria de acrescentar mais algum comentário?
Giovanna Marcelino – É interessante notar que esse quadro também pode ser visto a partir de uma leitura sociológica mais geral, pois, o que assistimos hoje no campo da Educação, reflete um processo social mais geral de financeirização do mundo social, no qual a sociedade passa a ser reconcebida em termos da valorização financeira. Um exemplo disso é o quanto assistimos de maneira muito acelerada a colonização de espaços sociais que até então se constituíram a partir de uma distinção moderna entre esfera pública e privada e que hoje passaram a ser concebidos como lugares de investimento do capital e de mercantilização.

Isso é muito nítido no caso da Educação: cada vez mais, sendo tomada por uma visão de mundo que pensa a Educação como algo rentável, um investimento que pode ter um retorno financeiro, destruindo, assim, a noção de Educação pública como um bem comum e um direito.

Isso corresponde concretamente a um processo econômico de privatização, mas também a um processo social e cognitivo mais geral, pois, para se instituir, a valorização financeira também depende de atores, de uma nova visão de mundo e de dispositivos sociais que a tornem possível. É por isso que nos deparamos, com tanta freqüência, com escolas sendo colonizadas por uma mentalidade e por um léxico em que palavras como “risco”, “impacto” e “investimento” viraram corriqueiras no cotidiano escolar. É por isso também que o educador e o pedagogo não são mais entendidos como especialistas e formuladores de Políticas Públicas educacionais, mas, sim, economistas, gestores e juristas, que justamente atuam em favor dos mecanismos da financeirização e são colocados nesses postos mesmo não sendo realmente especialistas no assunto e nos problemas reais da Educação. Esse processo revela, portanto, de maneira escancarada, uma inversão, na qual quem define o que deve ser Educação não são mais professores, estudantes, associações de pais, comunidade escolar e movimentos sociais, mas, sim, fundações e think thanks. E essa ressignificação das questões públicas sobre as questões privadas e financeiras corroboram para desqualificar o político e as noções de coletividade, em um processo que acaba sendo nocivo para uma concepção de Educação realmente transformadora e crítica.

Leia também os outros conteúdos do especial “Educação na pandemia”.

Clique para ler a reportagem "Educação: os impactos da pandemia depois de sete meses".
Clique para ler a entrevista com Mozart Ramos.

O desafio da inovação nas políticas sociais brasileiras pós-Covid-19

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Crédito: Pexel

O tema da inovação é cada vez mais crítico para a sociedade humana. A cada dia, nossa existência é transformada pela introdução de novos produtos, assim como pela forte evolução das soluções já existentes. A internet não existia antes de 1995; as redes sociais e os telefones inteligentes são fenômenos dos anos 2000. E as soluções e os serviços digitais que atendem hoje a milhões de brasileiros, como WhatsApp, Uber, Nubank e iFood, têm menos de dez anos de existência.

Essas inovações acabam por mudar profundamente a vida dos indivíduos e das empresas, para o bem e para o mal. Na perspectiva do consumidor, a inovação costuma significar o barateamento de preços e a melhora da qualidade da provisão. Por outro lado, é comum que a inovação signifique também a “obsolescência tecnológica” de alguns, levando ao aumento do desemprego e à quebra de empresas menos competitivas.

O setor público – e as políticas sociais em particular – têm grande dificuldade de inovar. As formas burocráticas são mais rígidas e a estrutura de incentivos existente faz os funcionários públicos evitarem correr riscos. No entanto, aceitar certo nível de risco é condição básica para a emergência de processos de inovação.

Querendo ou não, a recente crise econômica e social derivada da epidemia de Covid-19 tem mostrado que a incorporação de inovações é também um requisito essencial para as políticas sociais. Mesmo que aos trancos e barrancos, a gestão pública está sendo obrigada a inovar, adaptando-se a uma nova realidade que envolve o uso de recursos, como o ensino à distância (EAD) e a telemedicina. Até recentemente, tais alternativas eram rejeitadas com frequência, enfrentando resistência tanto de gestores como de educadores e profissionais de saúde.

Considerando esses elementos, a publicação tem dois objetivos principais. Primeiro, buscamos conceitualizar os principais aspectos distintivos da inovação pública. Segundo, indagamos de que forma inovações em curso nos serviços privados de saúde e educação no Brasil poderiam contribuir (ou não) para uma agenda efetiva de inovação no âmbito das políticas sociais no país, em especial neste momento delicado que vivemos.

Apresentamos inicialmente uma reflexão mais geral sobre o tema de inovação pública, para em seguida refletirmos sobre como fortalecer esses processos de inovação no contexto de diferentes estratégias governamentais. Ao final, fazemos uma breve conclusão.

* Esta  publicação teve por base o capítulo 7 do livro Políticas sociais e startups (Torres, 2020).

** Este texto trata da Introdução de O desafio da inovação pública pós-Covid-19 (2020). 

Clique aqui para comprar o livro O desafio da inovação pública pós-Covid-19.

Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa.

Abuso sexual infantil: educação e fortalecimento familiar são fundamentais para prevenção

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Crédito: Agung Pandit

O abuso sexual na infância, infelizmente, é uma das diversas problemáticas que o Brasil precisa lidar. Os números endossam a urgência de ações para o tema: o país é o quarto no mundo em casamentos infantis, segundo dados de 2019 da UNICEF. O Ministério da Saúde aponta que 70% das 527 mil pessoas estupradas, anualmente, são crianças e adolescentes.

Dados do Disque Direitos Humanos (Disque 100) traçam o perfil das vítimas desse tipo de violência, sendo 82% do sexo feminino. No caso do abusador, 87% são homens e 64,8% possuem vínculo familiar ou são conhecidos da vítima. 

Segundo Albertina Duarte, coordenadora do Programa Saúde do Adolescente do Estado de São Paulo, grande parte das meninas abusadas sofrem desde a infância, mas só falam na adolescência. “Isso porque é na fase da juventude que elas têm mais contato com informações e reconhecem que aquele tipo de carinho não era normal”, comenta a médica doutora em Ginecologia.Por isso, especialistas defendem que a prevenção aliada à educação na infância é um dos caminhos mais importantes de combate à violência sexual.

Albertina Duarte, coordenadora do Programa Saúde do Adolescente do Estado de São Paulo. Crédito: Jonathan Nóbrega.
Albertina Duarte, coordenadora do Programa Saúde do Adolescente do Estado de São Paulo. Crédito: Jonathan Nóbrega.

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Neste sentido, fazer com que a criança entenda as formas de se proteger é o objetivo da cartilha “Eu Me Protejo”.

Patrícia Almeida, coautora
Patrícia Almeida, coautora "Eu me projeto". Crédito: Divulgação.

A coautora do projeto, Patrícia Almeida, teve como principal motivação para criar a cartilha a trajetória pessoal com a filha caçula com Síndrome de Down. Após 10 anos fora do Brasil e a experiência de não ter uma escola regular e inclusiva durante o período em que ficou na Suíça, Patrícia encontrou no desenvolvimento da cartilha uma maneira de proteger a filha que teve pouco contato social. “Muitos pais não sabem por onde começar. Como eles não tiveram a prática em casa, ficam constrangidos.

A cartilha é bem didática, não há conteúdo de nudez para evitar constrangimentos, por exemplo”, conta Patrícia. A cartilha ensina de forma simples quais são as partes íntimas, a importância de proteger esses locais e de que toques íntimos não devem ser considerados carinhos. “Nosso mote é educar a criança para proteger o próprio corpo e respeitar o do outro”, afirma a coautora do projeto.

O material é acessível a todos os públicos, está traduzido em português, inglês, espanhol e libras. Também é possível encontrar em videolivro português e em libras. A linguagem simples e desenho universal para aprendizagem são as técnicas que norteiam a cartilha. O recorte da faixa etária é de 0-8 anos.

Conteúdos como a cartilha “Eu Me Protejo” reforçam o papel da sociedade em introduzir a temática de forma consciente em diferentes espaços. “Falar sobre abuso e sexualidade não exacerba o desejo da criança. Pelo contrário, ele previne. Todos os países onde se falou sobre abuso, foi o grande caminho para a prevenção e a denúncia. O silêncio deixa marcas na alma, físicas e psicológicas”, defende Albertina Duarte.

Outro benefício de pautar o assunto é o incentivo à denúncia. Estudos apontam que menos de 10% dos casos de violência sexual contra crianças e adolescentes são denunciados. Um dos desafios para as denúncias serem feitas, além do medo, é o processo judicial pelo qual a criança é exposta, em que muitas vezes ela precisa ficar na presença do abusador e revive a violência várias vezes.

A Lei n° 13.431/2017, conhecida como Lei da Escuta Protegida, estabelece o apoio de diferentes áreas para a criança vítima de violência sexual e rompe com o modelo de depoimento tradicional. “É uma lei importante para romper o ciclo de impunidade. Ela fala para organizar toda a rede (justiça, educação e saúde) para receber a criança e estabelecer um pacto municipal com um protocolo comum para evitar revitimização”, conta Itamar Gonçalves, gerente de Advocacy Childhood Brasil. 

Childhood Brasil tem participação neste processo por meio do projeto Depoimento Especial, que oferece metodologias não revitimizantes para a escuta de crianças e adolescentes vítimas ou testemunhas de abuso sexual. O projeto orienta profissionais neste processo, onde é recomendado um espaço acolhedor em que a criança não precise encontrar o agressor e que tenha uma equipe multidisciplinar capacitada em entrevista forense com crianças. Outra ferramenta é a gravação do depoimento para evitar a repetição da história, que representa outra violência para a vítima.

Itamar Batista Gonçalves, gerente de advocacy da Childhood Brasil. Crédito: Divulgação.
Itamar Batista Gonçalves, gerente de advocacy da Childhood Brasil. Crédito: Divulgação.

“A mensagem de estarmos em ano eleitoral, os candidatos à prefeitura podem fazer a diferença. A grande maioria dos municípios do país não implementou a Lei da Escuta Protegida. É importante que isso seja feito”, 

defende Itamar Gonçalves.

Olivia Valente, coordenadora de Serviços no Acolhimento na Aldeias Infantis. Crédito: Arquivo Pessoal

Um dos últimos recursos para a criança vítima de violação de direitos – e isso pode ser ou não a violência sexual – é o acolhimento em uma casa-lar. A ONG Aldeias Infantis SOS Brasil atua nessa frente mais prioritariamente com foco em fortalecimento das relações para evitar a desvinculação da criança do ambiente familiar. “Dentro do que chamamos de violação de direitos, o abuso é uma das possíveis causas do acolhimento.

Não deveria ser, pois, quando a criança é abusada, quem deveria sair do contexto familiar é o abusador, e não a criança”, pontua Olivia Valente, coordenadora de Serviços no Acolhimento na Aldeias Infantis.

Como ferramenta de fortalecimento, a Aldeias Infantis utiliza roda de conversa com crianças e famílias para fortalecer a comunicação. “É através da confiança que os abusadores vão atuar, se não tiver um vínculo com os pais, fica difícil”, comenta Olivia. 

Esses aspectos endossam a necessidade de se olhar para o abuso sexual infantil sob diferentes perspectivas. Tanto a esfera da prevenção quanto a de cuidados pós-violência são fundamentais para o enfrentamento dessa violação de direitos.

Colocar o abuso sexual infantil no centro das discussões e ações de Políticas Públicas é garantir e proteger os direitos das crianças e adolescentes, já previstos no Estatuto da Criança de Adolescente

Educação: os impactos da pandemia depois de sete meses

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Crédito: Equipe de Arte Aupa

A pandemia fez com que 1,5 bilhões de estudantes ficassem fora da escola em mais de 160 países, segundo relatório do Banco Mundial. Os problemas, que antes já eram visíveis, ficaram ainda mais escancarados com as consequências do coronavírus, principalmente na rede pública. 

Neste cenário, a busca por uma Educação pública e de qualidade será ainda mais desafiadora pós-pandemia. Desse modo, é fundamental assegurar o direito à Educação e à proteção das pessoas em situações de vulnerabilidade.

Crédito: Equipe de Arte Aupa

Mas como o ecossistema de impacto atuará na Educação após esse cenário pandêmico? Mesmo se aproximando do Poder Público, os esforços terão que ser ainda maiores. Nas escolas, o receio é pelo aumento da evasão escolar. É aí que entra o papel das Políticas Públicas com as ações integradas do governo.

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Impactos
Portões fechados e alunos distantes das salas de aulas. Quem viveu essa mudança foi Jaqueline Furtado, aluna no 1º ano do Ensino Médio da Escola Estadual Monte Alverne do interior de Santa Cruz do Sul, distante 150km da capital Porto Alegre (RS). Segundo Furtado, o maior desafio para sua turma foi a internet: ela precisou melhorar a rede para conseguir assistir às aulas de casa. Além disso, há ainda a dificuldade de se concentrar nos estudos fora da escola: “Em casa temos interferências dos outros membros da família, que, muitas vezes, interrompem nosso momento de estudo”.

Jaqueline Furtado. Crédito: Arquivo pessoal
Jaqueline Furtado. Crédito: Arquivo pessoal

A estudante destacou os desafios da aula on-line e acredita que a volta às aulas irá sobrecarregar ainda mais os docentes. “Além de terem que dar aula presencialmente, os professores ainda precisarão adaptar os conteúdos e dar aulas on-line”. Na dúvida quanto à eficiência dos cuidados coletivos, Furtado afirma que prefere continuar com as aulas on-line por enquanto.

O uso da tecnologia e seu acesso também é destacado pela professora Maria Cristina Wink Sehnem, que ministra aulas na EMEF Bom Jesus e na EEEM Willy Carlos Frohlich também de Santa Cruz do Sul. “Houve o problema de alunos que não possuíam meios digitais para acompanhar as aulas e ainda aqueles que ficaram desinteressados e realmente não queriam acompanhar a matéria e enviar as tarefas”, contou. A docente também destacou a falta de incentivo dos próprios pais. “A sociedade pensava que eram férias e não cobrou que seus filhos estudassem, de fato” comenta ela. Somado a isso, Sehnem destaca ainda que o que sobrecarregou a rotina dos professores foram “Os diversos cursos que as redes de ensino disponibilizavam para fazermos. Tínhamos que receber (às vezes, tentar decifrar o material) e avaliar as tarefas recebidas de todos os alunos.”   

Essa exaustão foi compartilhada por Tatiana Klik, diretora do Porvir, uma plataforma de conteúdos e mobilização sobre tendências e inovações educacionais. Os professores estão cansados e muitos tiveram que se adaptar à nova rotina com o uso das tecnologias defendeu: “Também estão sobrecarregados e têm a angústia de ver que nem todos estão conectados. Porque ficou na mão dos professores essa responsabilidade. E isso é pesado”, explicou.

Tatiana Klik, diretora do Porvir. Crédito: Arquivo Pessoal
Tatiana Klik, diretora do Porvir. Crédito: Arquivo Pessoal

Klik também ressaltou, contudo, que pode haver uma valorização do professor, já que muitos pais precisaram ajudar os filhos na nova rotina de estudos em casa. Com os alunos também foi um desafio a “Falta do convívio. Essa troca e socialização”, segundo a diretora.

Ivan Gontijo Akerman, coordenador de projetos do Todos pela Educação. Crédito: Arquivo Pessoal
Ivan Gontijo Akerman, coordenador de projetos do Todos pela Educação. Crédito: Arquivo Pessoal

Na realidade, o cenário da Educação, que já era de muitas dificuldades, pode ser agravado. É a opinião de Ivan Gontijo Akerman, coordenador de projetos do Todos pela Educação,uma organização sem fins lucrativos composta por diversos setores da sociedade e com o objetivo de assegurar o direito à Educação Básica de qualidade. Akerman apontou três impactos:

 O primeiro é a queda nos indicadores de aprendizagem. No ensino remoto, se aprende menos e nem todos estão acostumados. O segundo diz respeito ao aumento da desigualdade. Estudantes mais ricos se aprofundaram melhor. E o terceiro impacto é o aumento do risco de evasão. O fechamento das escola quebra o vínculo”.

Esses mesmos desafios foram expostos por Ricardo Henriques, superintendente-executivo do Instituto Unibanco. O uso da tecnologia tem sido um desafio e continuará sendo, segundo ele. “Trata-se da adaptação no uso de tecnologias, não como alternativas, mas como ferramentas que façam parte do ano letivo”, comentou. Atrelado a isso, há ainda a evasão escolar em decorrência da crise econômica que estamos vivendo. “Com a queda brusca da atividade econômica, o desemprego aumentou e, consequentemente, pioraram as condições dos estudantes e de suas famílias”, completa Henriques.

Ricardo Henriques, superintendente-executivo do Instituto Unibanco. Crédito: Arquivo Pessoal
Ricardo Henriques, superintendente-executivo do Instituto Unibanco. Crédito: Arquivo Pessoal

Outro ponto que superintendente destaca é o aumento da desigualdade entre escolas privadas e públicas. “Pode haver uma precarização da oferta de aulas para dar conta das novas demandas de adaptação das escolas, em função da Covid-19, mas com um cenário de diminuição das receitas das escolas. O problema estrutural de desigualdade fica ainda mais em evidência”. Por isso, Henriques ressaltou “O esforço significativo de Estados e municípios para mitigar o efeito de suspensão das aulas”.

O ecossistema de impacto na Educação
E como o ecossistema de impacto pode contribuir para um cenário mais favorável? Mesmo o Terceiro Setor se aproximando do Poder Público é necessário muito diálogo para que projetos postos em prática possam contribuir na mudança da realidade e no impacto da Educação. Vale ressaltar que este é um problema estrutural profundo, que traz ainda as consequências de políticas de sucateamento da Educação pública.

Um dos focos do ecossistema de impacto tem sido a Educação Básica, segundo Ricardo Henriques. “O Terceiro Setor tornou-se parceiro do Estado na busca de melhores soluções para a pasta, a fim de otimizar recursos, definir e implementar políticas baseadas em evidências e, com isso, oferecer melhores condições de acesso e aprendizagem aos estudantes brasileiros”, afirma.

E, durante a pandemia, entre as iniciativas do Instituto Unibanco houve o desenvolvimento de ações de ajuda humanitária em três estados (Ceará, Minas Gerais e Rio de Janeiro), com foco no apoio às famílias em situação de vulnerabilidade e no fortalecimento de organizações sociais atuantes nesses locais, de acordo com Ricardo Henriques.

Já para Ivan Gontijo Akerman, a solução está dentro do governo, mas com o apoio de instituições. “O Terceiro Setor apoia escolas e Secretarias, que são beneficiadas com dinheiro privado e que tem essa função de apoiar o governo e trazer as ferramentas”, conclui. contudo, ele também contrapõe sobre as fragilidades do setor público. “Sabemos das potencialidade do setor público e de suas fragilidades”, ressalta.

Por sua vez, Tatiana Klik acredita no envolvimento da sociedade. “É muito importante que a sociedade se envolva. É necessário seja um trabalho coletivo, onde todos se envolvam com a escola”, explica. Klik ainda destaca que Educação não se faz sob quatro paredes e é possível explorar o aprendizado fora das escolas.

Agenda 2030 da ONU e os desafios na Educação
O compromisso diante das metas da Agenda 2030 da ONU será um desafio.Olhando para o contexto brasileiro, para dar um salto na Educação é uma série de políticas, que precisam ser eficientes”, explica Akerman. O desafio na Educação é a desigualdade que o cenário agrava ainda mais, apontou Tatiana Klik. “Mesmo dentro da Educação pública existe muita desigualdade, depende da gestão, da rede e do bairro”, explica.

Ricardo Henriques, por sua vez, destacou uma política mais efetiva e transformadora: “Pensando em Brasil, a pandemia deixou mais visível a situação de vulnerabilidade da sociedade como um todo, não só a situação de pobreza, mas outras condições frágeis também”. Ele ainda explicou a importância da articulação da Educação com as demais áreas. “É necessário que se pense a política econômica alinhada à política social, o que requer uma requalificação da infraestrutura social, de modo a produzir uma visão integrada de áreas, articulando, por exemplo, as áreas da saúde, da Educação e da assistência social para atender a populações mais vulneráveis”, afirma.

Como proposta do avanço da Educação Pública no Brasil, Ricardo Henriques destaca: “Precisamos terminar de implementar uma série de importantes políticas públicas, como a reforma do Ensino Médio e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC)”. Outras questões são importantes, na visão de Henriques, como “a formação continuada para professores, coordenadores e diretores escolares, além da aproximação entre as secretarias de Educação e universidades, para que a formação inicial seja mais próxima do que é necessário em sala de aula”.

Relatar por que, para que, para quem?

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Relatar por que, para que, para quem ? Crédito: Andrea Piacquadio

A cena é comum em muitas organizações, principalmente aquelas menores ou menos maduras: chega o fim do ano – ou, às vezes, somente no começo do próximo – e alguém lembra que é necessário fazer o relatório de atividades. Correria daqui e dali para juntar informações, selecionar fotos, depoimentos, escrever o texto, diagramar, revisar, mandar para a gráfica… Com um pouquinho de organização, sai no primeiro trimestre ainda, mais provável no segundo, quando não atrasa. Ao receber a publicação impressa e enviar para os parceiros e apoiadores, muitos elogios de que ficou linda! Mas a verdade é que praticamente ninguém lê (exceto quem produziu) – ao menos, não na íntegra.

Embora a ponteAponte já tenha feito relatórios de atividades para alguns clientes anos atrás, decidimos encerrar essa frente de atuação, pois somos cada vez mais críticos do modelo tradicional desses documentos, em que se produz uma linda “publicação de prateleira”, com alto custo, investimento de tempo e recursos, mas que será, no máximo, folheada e ficará esquecida até uma primeira faxina geral jogar no lixo (com sorte, irá para reciclagem).

Claro que reportar atividades, resultados, indicadores, demonstrações financeiras, entre outras informações, continua sendo essencial, especialmente para organizações da sociedade civil, que devem prezar sempre pela transparência, como mencionei em minha coluna anteriorA questão é como fazer relatórios mais inovadores, atrativos e úteis, que não sejam somente publicações “pro forma” e que de fato sejam lidos (ou vistos, já que entre as inovações há até relatórios em vídeo, um deles com um rap!*).

Para economizar dinheiro e recursos naturais, muitas organizações já estão optando por versões somente digitais dos relatórios, seja em formato PDF ou diagramados no próprio site. Ou ainda optando por versões mais resumidas, com infográficos ou sumários executivos. Se a economia de recurso não for a questão principal, mas, sim, a atratividade do relatório, este pode ser incorporado a um brinde, como uma agenda (recebemos um relatório nesse modelo, há alguns anos, da ImageMagica), o que pode garantir uma “vida útil” maior ao relatório – se bem que ninguém mais usa agenda de papel… A opção pelos vídeos também não é exatamente barata, mas tende a atrair mais a atenção, desde que sejam curtos! E que tal inovar e fazer um relatório como uma história em quadrinhos? Ainda não vi!

Independentemente do formato, no entanto, o que quero reforçar aqui é a importância do processo de reflexão interna ao longo da elaboração do relatório, ou melhor, ao longo de todo o ano.

Acreditamos que um relatório de atividades não deve ser feito às pressas, somente para prestar contas aos patrocinadores ou à própria sociedade, nem deve ficar restrito à área por vezes, a uma pessoa só de comunicação.

Dentro do possível e da realidade de cada organização, sugerimos que toda a equipe seja envolvida no processo, cada um com sua expertise, num processo fluido de comunicação e alinhamento internos. Sugerimos ainda que a elaboração do relatório aconteça ao longo do ano, isto é, que os dados sejam coletados regularmente, que os indicadores sejam monitorados e discutidos com frequência, até para permitir mudanças de rota, se necessário. Que fotos, vídeos e depoimentos já sejam pré-selecionados e arquivados, de uma forma que seja fácil recuperar depois, que os parceiros sejam consultados para sabermos o que eles gostariam de ver no relatório…

Enfim, que ao final do ano seja necessário somente fazer o fechamento e não começar do zero. E, principalmente, que o produto finalizado não fique somente na prateleira, mas que sirva para, de fato, comunicar e engajar.

 

*A incubadora estadunidense American Underground inovou ao lançar seu relatório de 2016 em vídeo com um rap (em inglês).

O relatório 2019 da SulAmérica também é um vídeo protagonizado por beneficiários, colaboradores e corretores.

Outras empresas e organizações também vêm lançando vídeos curtos como complemento do relatório em si.

A alimentação dos brasileiros sofre alterações na pandemia

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Fome, preocupação com a quantidade e a qualidade dos alimentos é uma das realidades que os grupos em situação de vulnerabilidade enfrentam. Crédito: Equipe de Arte Aupa

A pandemia causada pelo novo Coronavírus trouxe um aumento relevante na quantidade de pessoas que estão passando fome ou ainda que estão expostas à insegurança alimentar e nutricional, segundo a ONU. Com isso, podemos destacar as propostas do ODS 2, que trata de zerar a fome e promover agricultura sustentável. Este é um dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU). Até 2030, a ONU pretende acabar com a fome e garantir o acesso a alimentos seguros, nutritivos e suficientes.

ODS 2, que trata de zerar a fome e promover agricultura sustentável. crédito: Equipe de Arte Aupa

A ONU projeta também adotar medidas para garantir o funcionamento adequado dos mercados de commodities de alimentos e seus derivados, e facilitar o acesso à informação de mercado, inclusive sobre as reservas de alimentos, a fim de ajudar a limitar a volatilidade extrema dos preços dos alimentos.

O que é insegurança alimentar? Crédito: Equipe de Arte Aupa

A fome voltou a crescer no Brasil e a quantidade de pessoas que estão nessa situação aumentou 43,7% em cinco anos, ainda segundo o IBGE. Entre 2017 e 2018, o nível de segurança alimentar dos domicílios caiu abaixo do nível registrado em 2004. A pobreza extrema também registrou crescimento durante a pandemia, além do alto índice do desemprego.

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Em 2019, 43,1 milhões de pessoas no Brasil  consumiam menos calorias do que o necessário para uma vida saudável. Para comparação: em 2016, o número era de 37,5 milhões. Ou seja, houve alta de 13% em três anos, afetando cerca de 5,6 milhões de brasileiros, de acordo com o relatório  O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2020 (State of Food Security and Nutrition – SOFI), da FAO/ONU.

Para Felipe Gasko, engenheiro ambiental e co-fundador da duLocal, startup de gastronomia orgânica, a procura por alimentos orgânicos aumentou com a pandemia. Ao mesmo tempo, as pessoas estão se preocupando mais com a qualidade dos alimentos. Vale dizer que a maioria dessas pessoas se concentra nas classes Ae B.  “Com a pandemia, a quantidade de pedidos de  comida por delivery aumentou muito e isso fez com que as pessoas consumissem mais alimentos de pior qualidade”, conta Gasko.

Felipe Gasko, engenheiro ambiental e co-fundador da duLocal. Crédito: Arquivo Pessoal

De acordo com a Associação de Promoção dos Orgânicos (Organis), durante a quarentena, a procura por alimentos orgânicos cresceu 55%.

O consumo de alimentos saudáveis diminuiu durante a pandemia, segundo um estudo feito pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), realizado em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Além disso, dos 68,9 milhões de domicílios do país, 36,7% estavam com algum nível de insegurança alimentar, atingindo, ao todo, 84,9 milhões de pessoas entre 2017 e 2018, ainda segundo o IBGE

Gasko explica que a insegurança alimentar existe em duas dimensões: abastecimento e renda. A população vulnerável não tem renda para comprar alimentos na quantidade certa e também não consegue prezar pela qualidade, então acaba consumindo alimentos industrializados. “Falta também a informação de ir com R$20,00 para a feira e priorizar frutas, legumes e verduras, ao invés de alimentos de rápido preparo”, avalia ele. O engenheiro ambiental explica  que “Isso poderia ser resolvido com o pequeno agricultor vendendo direto para o consumidor final, pois, assim, ambos sairiam ganhando, pagando menos e o consumidor periférico começaria a ter mais acesso a alimentos naturais, sem agrotóxicos”. Além de uma alimentação mais saudável, Gasko conta que o consumo de alimentos orgânicos ajuda ainda na preservação do meio ambiente.

Barbara Lopes, diretora de invenções do Instituto EcomAmor. Crédito: Arquivo Pessoal

Para Barbara Lopes, diretora de invenções do Instituto EcomAmor, ONG que promove ações para conscientização sobre cidades sustentáveis, um dos problemas da insegurança alimentar é a falta de Políticas Públicas que não apoiam o acesso à alimentação saudável. “As pessoas precisam diminuir o consumo de alimentos industrializados e serem informadas sobre o que é um alimento natural, pois, nas classes mais baixas falta o acesso a esses alimentos por causa dos preços elevados. Precisamos apoiar o produtor local”, enfatiza Lopes.

A diretora do Instituto EcomAmor acrescenta que é preciso melhorar as Políticas Públicas para fortalecer a informação e educação. “Esse acesso à conscientização precisa ser feito além das escolas e empresas, mas também no SUS para trazer informação alimentar e combater a desnutrição e principalmente, a fome”, relata Lopes.

Obesidade x fome
Segundo o estudo Implicações da Pandemia Covid-19 Para a Segurança alimentar e Nutricional no Brasil (2020), além da fome, há ainda o risco de sobrepeso e obesidade, pois as pessoas em isolamento tendem a comer mais e ingerir alimentos mais calóricos. A desnutrição, o sobrepeso e a baixa ingestão de micronutrientes, como ferro, cálcio e vitaminas causa doenças, ainda de acordo com estudo. Atualmente, 55,7% da população adulta do Brasil está com excesso de peso e 19,8% está obesa, de acordo com a Pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel).

O que é sobrepeso, obesidade e desnutrição? Fonte: estudo Cuidados com os Alimentos.

Maurício Almeida Prado, diretor executivo do Plano CDE, relata que a questão da obesidade de um lado e a fome de outro acontece no Brasil devido à falta de cultura que as pessoas não recebem em relação a como se alimentar de forma mais saudável. “Não necessariamente quem está entrando no grau da obesidade está comendo mais do que quem está passando fome. Isso acontece porque as pessoas se alimentam de forma errada.  Já a questão da fome pode ser explicada pela renda informal de pessoas vulneráveis”, salienta Prado.

Maurício Almeida Prado, diretor executivo do Plano CDE - Crédito: Divulgação.

Alta de exportação e desabastecimento interno
O aumento das exportações de alimentos, a alta do dólar e a maior demanda interna, em decorrência da pandemia do Coronavírus, estão causando alta no preço dos alimentos básicos. Segundo pesquisa feita pelo IBGE, a prévia da inflação oficial brasileira avançou 0,45% em setembro, devido à alta dos preços dos alimentos. Os valores dos alimentos e das bebidas pressionaram o indicador com a maior alta (1,48%), segundo o instituto. 

Prado destaca que a alta no valor do arroz, por exemplo, pode ser explicada pela alta no consumo. Pessoas que viviam em situação de vulnerabilidade quando se depararam com o Auxílio Emergencial, começaram a ter condições de comprar alimentos básicos. “Outro fator que influenciou no aumento dos alimentos, foi a alta do dólar. A moeda valorizada incentiva os produtores a exportarem o produto e, consequentemente, encarecer a venda para o próprio país”, explana o executivo.

"Guia alimentar para população brasileira". Crédito: Equipe de Arte Aupa

Clique nos botões a seguir e conheça mais sobre o “Guia alimentar para população brasileira” e a “Nota Técnica nº 42/2020/DAEP/SPA/MAPA”.

"Guia alimentar para população brasileira". Crédito: Equipe de Arte Aupa.
O MAPA emitiu nota técnica em setembro de 2020, reivindicando pontos do "Guia alimentar para população brasileira", de 2014. O pedido de revisão é sobre normativas relacionadas aos alimentos processos e ultraprocessados. Crédito: Equipe de Arte Aupa

O diretor executivo do Plano CDE conta que uma saída para essa alta nos alimentos seria o governo bancar a diferença do valor dos alimentos para não ser exportado e valorizar o mercado. “A questão da fome ter voltado a assombrar os brasileiros gira em dois pontos: o primeiro é por causa da economia, que não cresce desde a crise de 2015, onde o Brasil gastou demais e agora estamos sem dinheiro, e o segundo é pela falta de aposta do governo em problemas sociais”.

Por sua vez, Gasko destaca que as classes altas estão comendo bem: se preocupando com qualidade da alimentação, cozinhando sua própria comida e apostando nos orgânicos. Já os mais pobres estão trocando o frango pela salsicha, devido à queda na renda e ao aumento nos preços – afinal, o percentual de renda interfere muito na quantidade e na qualidade alimentação, ainda segundo o co-fundador da duLocal.

Segundo Prado, a alta nos preços dos alimentos impacta mais as vidas das pessoas mais vulneráveis, pois quanto mais vulnerável é uma família, menos alimentos essas pessoas consomem – e os alimentos ingeridos costumam ser de menor qualidade. A inflação interfere no bolso desses cidadãos, fazendo com que a maior parte da renda seja gasta com alimentos. “A renda informal e o desemprego afeta a insegurança alimentar dos brasileiros e os programas  Bolsa Família e Auxílio Emergencial ajudaram a amenizar esse problema social. Mas a maior parte desse dinheiro está sendo usado pelas classes mais baixas para compra de alimentos. A perda desses benefícios pode agravar esse problema de insegurança alimentar”, enfatiza Maurício.

Crianças na pandemia
A ONU pediu que os governos implementassem medidas a favor da população escolar, a qual as famílias que têm mais dificuldades em acessar alimentos, fossem amparadas pelo apoio nutricional que os programas de alimentação escolar garantiam nas escolas. As recomendações para minimizar o impacto gerado pelo fechamento de programas de alimentação escolar na segurança alimentar devem ser decididas por cada país. Algumas cidades adotaram o programa chamado Bolsa Alimentação, que já está liberado.

O governo, por sua vez, sancionou a Lei 13.987/2020, que garante a distribuição dos alimentos da merenda escolar às famílias dos estudantes que tiveram suspensas as aulas na rede pública de Educação Básica devido à pandemia.

Tal quadro se formou com o fechamento das escolas, as crianças que faziam a maior parte das refeições na instituição de ensino, ficaram em uma situação vulnerável e delicada. “Cada criança é mais uma pessoa para se alimentar em casa e, muitas vezes, a família não tem condições de alimentar mais uma pessoa. Algumas prefeituras deram um benefício financeiro para ajudar na alimentação das crianças, por exemplo”, elucida Prado.

Claudia Maria Ribeiro, de 42 anos, é recepcionista de loja e mãe de Ezequiel Felício, de 7 anos. Crédito: Arquivo Pessoal

Claudia Maria Ribeiro, de 42 anos, é recepcionista de loja e mãe de Ezequiel Felício, de 7 anos. Ele é aluno do primeiro ano do Ensino Fundamental na Escola Estadual José Nascimento, localizada em São Paulo. Segundo Ribeiro, Ezequiel não fazia as refeições na escola e ela não conseguiu receber o benefício Bolsa Alimentação (no valor de R$ 55,00), onde crianças da rede pública estão sendo beneficiadas para manter o acesso à alimentação. “Eu prefiro que as aulas só voltem depois de uma vacina, pois criança não sabe seguir as regras do distanciamento social sem um adulto por perto o tempo todo”, relata Ribeiro.

Com a pandemia, a Ribeiro se deparou com o ensino on-line, onde precisou alfabetizar seu filho. “A escola manda as atividades semanalmente, mas além de passar essas lições, eu aplico outras mais aprofundadas, pois vi que as mães dos coleguinhas da escola do Ezequiel, não estavam conseguindo alfabetizar os filhos e com isso, eu fiquei com medo que meu filho perdesse o ano”, explica a mãe.

De acordo com a Secretaria Municipal da Educação de São Paulo, 353 mil estudantes receberam um cartão alimentação para suprir a falta de merenda.

A insegurança alimentar é um drama vivido por brasileiros que se encaixam nas classes mais baixas e a pandemia causada pelo Covid-19 pode aumentar o índice deste problema. Até 2030, o ODS 10, que trata da redução de desigualdades, projeta alcançar e sustentar o crescimento da renda dos 40% da população mais pobre a uma taxa maior que a média nacional. Resta saber como será este desenvolvimento no Brasil.

O ODS 10 trata da redução de desigualdades. Crédito: Equipe de Arte Aupa.

Interpreendedorismo

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Crédito: Equipe de Arte Aupa

“Somos mais cooperativos e menos egoístas do que a maioria acha. A organização deveria ajudar todos a dar vazão a esse sentimento de colaboração”.
Yochai Benkler

A pandemia causada pelo Coronavírus fortaleceu movimentos sociais de ajuda e relacionais de negócios, com objetivo de assegurar as condições básicas da vida e da manutenção dos negócios. Observando tais movimentos, percebemos a verdade enunciada por Yochai Benkler (Professor de Direito da Universidade de Harvard), conforme expressão que introduz este artigo.

Num breve olhar para a História, podemos entender que o empreendedorismo sempre fez parte da vida humana. O termo francês entrepreneur (em português, empreendedor) é aplicado à pessoa que assume riscos e começa algo novo. Ao longo do tempo, o termo foi direcionado aos seguintes grupos:
– Aqueles que gerenciavam projetos (entre os séculos V e XV).
– Aqueles que que assumiam riscos (no século XVII). 
– Aqueles com características comportamentais empreendedoras (entre os séculos XIX e XX).

Não há consenso sobre o conceito de empreendedorismo, tanto como área de estudo de negócios, quanto enquanto atividade desempenhada pelas pessoas. Contudo, a partir do contexto apresentado, é possível destacar três elementos fundamentais: a pessoa que empreende, fatores sociais e econômicos e inovação.

No Brasil, mais de 10 milhões de negócios são constituídos por microempreendedores individuais, micro e pequenas empresas. As micro e pequenas empresas têm atuação muito forte em atividades do comércio e dos serviços, correspondendo à participação de 30% do PIB nacional. Por isso, são fundamentais nos contextos sociais e econômicos do país.

A pandemia de Covid-19 acentuou os olhares de empresas e investidores brasileiros e estrangeiros às pessoas que empreendem e aos micros e pequenos negócios, em especial de territórios periféricos. Reuniões empresariais e de investidores, encontros de empreendedores, lives e fóruns foram realizados para discutir ações que pudessem ajudar pequenos empreendedores a se manterem vivos. Foram estabelecidas conexões entre grandes e pequenas empresas, bem como entre os próprios microempreendedores individuais, micros e pequenos negócios. Percebeu-se também que foram disponibilizadas recursos financeiros, espaços em plataformas para comércio on-line, além das  estratégias de divulgação, em diversas mídias, de produtos e serviços dos pequenos empreendimentos.

Os olhares e as ações em socorro aos pequenos negócios tinham como premissa a possibilidade do fluxo econômico, com a sobrevivência da maior quantidade possível desses negócios – reconhecendo-se a possibilidade de falência de muitos empreendimentos. Conforme pesquisa realizada pelo IBGE e publicada em 16 de julho, 716.000 empresas fecharam as portas, sendo que 522.000 declararam que a situação foi provocada pela pandemia. Os setores mais impactados foram comércio (39,4%) e serviços (37%). A pesquisa mostrou ainda que 99,8% dos pequenos negócios não voltarão a abrir as portas após a pandemia.

Ajudar pequenas empresas é esforço que impacta positivamente a vida de muitas pessoas e, de alguma forma, colabora para o fluxo econômico e financeiro do país. Entender as pequenas empresas como custo é de uma ignorância horrível, sustentada por arrogância e prepotência.

Desse modo, reforço o entendimento de que o empreendedorismo é motor do desenvolvimento social e econômico.

Diante da amplitude dos contextos que atinge todos os empreendedores, torna-se fundamental conceber o interpreendedorismo, como a aplicação de ações de parcerias estratégicas entre empreendedores, com objetivos comuns, para manutenção, posicionamento e evolução dos negócios, possibilitando a geração de impactos positivos de sustentabilidade social, econômica e ambiental. Este termo foi criado a partir das observações da Emperifa, de modo a expressar a relação existente entre os empreendedores neste período da pandemia.

O interpreendedor é a pessoa física que empreende, seja ele microempreendedor individual, micro e pequeno empreendedor, ou ainda empreendedor de médio e grande porte interessado em estabelecer parcerias, em relação ganha-ganha. O intuito é elaborar, a partir da cooperação, ações estratégicas capazes de agregar valor aos negócios, com diferenciação ou inovação, gerando resultados sustentáveis social, econômica e ambientalmente.

A partir da experiência de atuação com pessoas que empreendem, principalmente nas periferias da cidade de São Paulo, ficou muito evidente o movimento interpreendedor. O Comitê de Negócios de Impacto da Zona Leste foi constituído sob as bases deste conceito, aliás.

Desse modo, destacam-se alguns fatores-chave de sucesso para o interpreendedorismo: como a valorização da pessoa que empreende, a relação ganha-ganha entre os interpreendedores, a aplicação dos princípios fundamentais de gestão de negócios e da criatividade e a relevância das ideias, ações e soluções criativas, além do espírito de liderança. Um conceito que pode contribuir com o desenvolvimento social e econômico, principalmente dos territórios periféricos do Brasil.

Referências:
BENKLER, Yochai. O gene altruísta. Harvard Business Review: julho 2011, p.41.
DORNELAS, José Carlos Assis. Empreendedorismo: transformando ideias em negócios. Rio de Janeiro: Campus, 2001.

Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa.

Mozart Ramos: “O que difere um país de outro são as pessoas”

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Mozart Ramos é enfático: “O Brasil precisa aprender com o próprio Brasil”. Ele é professor e ex-reitor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e tem uma trajetória de mais de quatro décadas destinada à Educação. Neste especial “Educação na pandemia”, o educador defende que o Brasil precisa investir fortemente na formação de professores e gestores escolares, com foco na aprendizagem dos estudantes. Mozart ainda destaca a necessidade de criação de uma agenda positiva e de se buscar alternativas como forma de superar a crise.

A importância da continuidade política também é um dos pontos abordados por Ramos. Por exemplo, em Pernambuco, no que diz respeito ao Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB), o estado conseguiu saltar da 21ª colocação, em 2007, para o primeiro lugar, em 2015.

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Sobre o ecossistema de impacto, Ramos afirma que o Terceiro Setor vem investindo dinheiro na Educação e destaca que: “A Educação é o vetor essencial para o desenvolvimento sustentável de cada país”.

A seguir, confira a entrevista com Mozart Ramos sobre sua carreira, os impactos da pandemia na Educação, os desafios e a polêmica sobre o Fundeb. 

Crédito: Equipe de Arte Aupa

AUPA – Você estudou em universidades públicas e trabalha em uma hoje. Como vê a relação entre ciência, inovação e a busca por investimentos?
Mozart Ramos – Toda a minha formação foi na universidade pública e na carreira pública também. Me formei na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), onde também fui reitor. Por 13 anos, trabalhei com o Terceiro Setor, no Todos Pela Educação e no Instituto Ayrton Senna,  e, a partir de janeiro deste ano, eu assumi a Cátedra Sérgio Henrique Ferreira, do Polo do Instituto de Estudos Avançados de Ribeirão Preto (IEA-RP) da Universidade de São Paulo (USP). Naturalmente, o que fica evidente é que qualquer país que quer ser protagonista precisa investir em Educação. O país deve levar a sério a Educação Básica, porque o que difere um país de outro são as pessoas. Então, é preciso formar os jovens na Educação Básica. Porém, Temos uma Educação Básica sem qualidade na aprendizagem. Por isso, é fundamental que a universidade pública também entenda essa importância, equilibrando esse trabalho. E a universidade pública precisa olhar para a Educação Básica, que precisa ser de mais qualidade, para que os resultados lá no topo se realizem.

Aupa – Você trabalhou com inovação e articulação no Instituto Ayrton Senna. O que pode comentar sobre a atuação do ecossistema de impacto? O que este setor pode melhorar?
Mozart Ramos – O Terceiro Setor vem conseguindo cumprir um papel estratégico na Educação. No próprio Instituto Ayrton Senna se costuma dizer com muita frequência que se trabalha com inovação. E inovação é tudo, pois ela empurra para a fronteira do conhecimento. Por isso, é preciso ter capacidade de resposta mais rápida na universidade. E o Terceiro Setor vem investindo dinheiro na Educação, como a Fundação Lemann e o Itaú Social. O Terceiro Setor ocupa espaço estratégico na tomada de decisões.

Aupa – Acha que, após a pandemia, a população, no geral, se mostrará mais interessada na pesquisa?
Mozart Ramos – A questão da ciência foi bastante ressaltada. Ela pode ser fundamental para problemas ideológicos e de outras vertentes, afinal desempenha um papel relevante. Por isso, a produção da vacina e o monitoramento do desenho da pandemia ganharam relevância – e, de fato, os governantes viram como estratégia do país. Mas estamos vendo o governo do Estado de São Paulo tomando uma decisão contrária. Eu represento a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), então olhamos a ciência mostrando um papel importante e o governo do estado tomando uma decisão de tirar dinheiro da ciência e da universidade pública. Essas coisas são incongruentes.

Saiba mais: no dia 8 de outubro, o Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (CRUESP) informou que o governo do Estado de São Paulo excluiu as universidades estaduais paulistas e a Fapesp do PL 529/2020,  que previa o recolhimento de seus respectivos superávits financeiros ordinários, referentes ao ano de 2019. Leia o comunicado completo aqui.

Aupa – Pensando na agenda 2030 da ONU, qual ação focaria no que diz respeito à Educação e à infância?
Mozart Ramos – A primeira infância ganhou relevância mostrando que essa faixa etária é fundamental para o desenvolvimento pleno da criança. A própria creche tem recebido atenção e qualidade, acerca daquilo que é oferecido. No passado, a creche era assistência social. Hoje, o cuidar é o binômio central para o desenvolvimento da criança. Então, a qualidade do ensino que tem a ver com a agenda brasileira. O país colocou as crianças na escola sem qualidade. Como colocar qualidade e quantidade? A educação é o vetor essencial para o desenvolvimento sustentável de cada país. A Educação tem capilaridade com outros elementos como trabalho, renda, desempenho social e saúde. Por isso, a Educação é central.

Aupa – Em outras entrevistas, você já falou sobre a  importância de melhorar a qualidade da Educação Básica e que “só botar para dentro da universidade não basta”. Poderia falar mais sobre essa relação, por favor?
Mozart Ramos – No Brasil, de cada 100 alunos do Ensino Fundamental, metade chega ao Ensino Médio. Dos que concluem o Ensino Médio, apenas nove aprenderam o que se espera em Matemática. Isso tanto em escola pública quanto na particular. Por isso, a própria universidade fica com a qualidade comprometida. São universidades sem alunos preparados. A universidade precisa entender que isso respinga na sua qualidade. Há um estudo do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) sobre o acompanhamento de estudantes do ensino superior. De cada 100 estudantes que começou em 2010, 57 abandonaram a universidade. Ou seja, aquele problema de Educação Básica, nós temos no Ensino Superior, consequentemente. Parte disso tem a ver com a Educação. O Brasil precisa olhar para toda Educação ou o país não terá um desenvolvimento sustentável no cenário mundial. Tudo está relacionado com a qualidade da Educação oferecida. 

Aupa – Em um artigo, você afirma: “Para resolver problemas complexos, é importante haver o compromisso entre pessoas e instituições de diferentes setores na construção de uma agenda comum”. Você poderia falar mais a respeito, por favor?
Mozart RamosO mundo traz muitas incertezas e o grande desafio de viver nesse mundo é produzir inovação a partir de problemas complexos e trabalhar em colaboração, em redes colaborativas. Ninguém resolve nada sozinho. Hoje, trabalhar em rede é central para resolução dos problemas. E como enfrentar problemas complexos com muitas incerteza? Você tem hoje uma sequência de complexidade cada vez maior. É necessário trabalhar de forma colaborativa e com pessoas que desempenham sua competência. Trabalhar em equipe, com criatividade e ter pensamento crítico é fundamental para isso.

Aupa – O que acha das startups de tecnologia voltadas à Educação, que auxiliam os educadores e as redes de ensino? Como enxerga as possibilidades de uso de tecnologia e onde elas estão disponíveis para a efetiva incorporação em seus processos educacionais?
Mozart Ramos – Em primeiro lugar o mundo não é digital. A tecnologia é um meio importante para vivermos. No caso, as startups produzem conhecimento e elas têm flexibilidade. Você não inova quando acerta tudo. As startups têm capacidade de desenhar a tecnologia em aspectos digitais e isso em várias áreas, como a Educação, dentre outras.

Aupa – Apesar da satisfatória presença de comunidades de empreendedorismo tecnológico em sua extensão territorial, ainda existe elevada concentração no Sul e no Sudeste. Como pode ser feita essa articulação entre empreendedores, grandes empresas, sociedade e instituições governamentais são beneficiadas.
Mozart Ramos – O Brasil é assimétrico. Há muita desigualdade. E isso ficou evidente na pandemia. As escolas privadas assumiram rápido o protagonismo. E essa assimetria se observa no país em várias áreas. Na Educação, na economia e na centralidade das regiões Sul e Sudeste. Todavia, começamos analisando algumas outras linhas de frente. Em Recife, o Porto Digital é referência para o mundo. E o Ceará é exemplo na educação infantil. É preciso olhar o país de forma mais sistêmica. 

Aupa: Poderia falar sobre o Fundeb e as polêmicas sobre onde esse dinheiro será aplicado?
Mozart Ramos: O Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb) ainda está tramitando. O Fundeb tem sua característica e é um financiamento da Educação Básica central para a maior parte dos municípios e para tornar mais equânime a oferta educacional. Dessa forma, o Fundeb foi central para valorizar o professor. O novo Fundeb também aumenta dos atuais 10% para 23% a participação da União no Fundo. Será elevada de forma gradual: em 2021 começará com 12%; passando para 15% em 2022; 17% em 2023; 19% em 2024; 21% em 2025; e 23% em 2026. Isso amplia a participação do Governo Federal. E tem a novidade dele ser melhor distribuído, quando se olha, por exemplo, os municípios.

Aupa – Você já falou de modelos e estratégias bem-sucedidas de municípios de pequeno e médio portes, que, muitas vezes, com verbas escassas, obtêm resultados surpreendentes.  Por que é difícil esses modelos se espalharem pelo Brasil?
Mozart Ramos – Porque tem características próprias. Por exemplo, no Ceará é um trabalho de muitos anos e que fez a diferença. O Brasil precisa aprender com o próprio Brasil, e isso já está acontecendo, com as escolas de tempo integral. Já há experiência, mas precisa de escala. Infelizmente, o país sofre com o descuidado das Políticas Públicas a cada governo. É preciso mobilizar a sociedade e trabalhar com evidências.

Aupa – Como enxerga o ecossistema de impacto no cenário da Educação, especialmente projetos de expansão dos negócios locais?
Mozart Ramos – Tudo tem a ver com Artigo 205 da Constituição Federal do Brasil. A Educação é dever do Estado e da família. É necessário que a Educação se desenvolva em colaboração com a sociedade, oferecendo iniciativas, seja de uma organização social ou não. Veja só: de cada 100 jovens, só 25 vão para o Ensino Superior! E também contribuir no campo cultural.  Essas iniciativas fundamentam a ciência, a cultura e a inovação para o desenvolvimento pleno de nossa juventude. Essas iniciativas complementam onde o Estado não chega.

Artigo 205 da Constituição Federal do Brasil. A Educação. Crédito: Equipe de Arte Aupa.

Não podemos esquecer que, para o enfrentamento da Educação, a qualidade do professor é muito importante – afinal, tudo passa pelo professor. É necessário a valorização do docente e que ele tenha as condições de trabalho para desenvolver todo o seu potencial. Temos que colocar a figura do professor central nesse cenário. Sem esse conhecimento não tem como ele ensinar. Após ser protagonista, se precisa de ciência, mas se precisa também de um professor bem formado. Um professor valorizado para que seus alunos possam se desenvolver.

Impacto no Pantanal

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Ação Amparo Silvestre. Crédito: Pedro Beck

O Pantanal nunca queimou tanto. Em 2020, o fogo já incinerou 3,4 milhões de hectares. Cada hectare corresponde aproximadamente ao tamanho de um campo de futebol oficial. Em 2019, no mesmo período, o fogo alcançou menos da metade dessa extensão: 1,5 milhões de hectares. Essa crise atingiu mais de duas mil espécies de plantas diferentes. Também impactou mais de mil espécies variadas de animais. São números que impressionam. Mas falar só de números não basta. É preciso contar histórias para entender o tamanho real dessa tragédia.

Comparação entre hectare e campo de futebol. Crédito: Equipe de arte Aupa.

No Mato Grosso, na comunidade de Barra do São Lourenço, uma queimada atingiu dezenas de casas. Enquanto tentava fugir, uma criança de 2 anos caiu no rio e morreu. O corpo só foi encontrado dois dias depois. Portanto, em pouco tempo, os pais perderam a casa e um filho. Agora tentarão reconstruir a vida de forma dramática.

Mas eles contarão com uma ajuda importante: o Projeto Comitiva Esperança acompanhou o caso e está agindo de diferentes formas na região. Começou em março, distribuindo proteção para Covid-19. E agora já trabalha em diversas frentes. “A gente precisa se unir nesse momento para começarmos a construção de abrigos emergenciais. É mais uma necessidade que vai surgir”, conta Beatriz Coelho, co-fundadora do projeto.  “Comitiva Esperança” é uma música de Almir Sater, que pertence à cultura pantaneira.

Beatriz Coelho, co-fundadora do projeto Comitiva Esperança. Crédito: Comitiva Esperança.
Beatriz Coelho, co-fundadora do projeto Comitiva Esperança. Crédito: Comitiva Esperança.

Ouça a canção que inspirou a Comitiva Esperança.

 A letra fala de um coletivo que chega para animar diversas regiões. “Queremos passar esse sentimento para as pessoas, para elas se sentirem abraçadas em um momento de dificuldade”, explica Beatriz, que é dona da Angí, uma empresa que produz chocolates orgânicos e veganos. Ela ficou mais preocupada com o Pantanal depois que ouviu os relatos do amigo João Mazini, que foi até Campo Grande quando a pandemia de Covid-19 estava começando. Comunidades pobres, que viviam basicamente do turismo, estavam ficando isoladas e sem assistência.

A Comitiva Esperança começou a ajudar com informações, máscaras, itens de higiene e alimentação. Eles organizam recursos para fazer essas doações. Só não podem doar álcool, por preocupação com dependentes alcoólicos. Ainda assim, o controle da Covid-19 tem sido bem sucedido, principalmente por acontecer em regiões que têm pouco contato externo.

Mas depois começaram as queimadas, que fugiram do controle. Novas dificuldades surgiram, assim como novas histórias tristes. “Ainda estamos na contenção de danos. Há famílias que perderam tudo. Tiveram até balsas queimadas. Então, colocamos entre as nossas demandas comprar novas balsas. Estamos vendo a questão do saneamento básico também. As pessoas moram sem caixa d’água. Vivem com tambores de 200 litros abastecidos por um caminhão pipa, mas não tem abastecimento com frequência. E essas pessoas estão respirando fumaça. É fuligem preta. Eu passei um final de semana no pantanal, respirando essa fumaça e, quando voltei, estava rouca, com sensações de tontura e passando mal. Imagina o impacto para quem vive lá todo dia”, relatou Beatriz. 

Mapa de progressão de queimadas em comparação a 2019. Crédito: LASA/UFRJ.
Gráficos das queimadas 2020. Crédito: LASA/UFRJ.

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Flora e fauna
Flávia Altenfelder Santos também enfrentou fogo e fumaça de perto. Ela fez parte de uma pequena equipe que combateu um incêndio de grandes proporções no interior de São Paulo. Foram só 11 pessoas inicialmente, com pouco ou nenhum treinamento, tentando apagar chamas que não paravam de se espalhar. Durante quase uma semana de trabalho árduo, as pessoas acumularam dor no peito, dor nas costas, arranhões e outros ferimentos leves. O problema só foi resolvido por causa da ajuda de um helicóptero. Flávia é gestora de comunicação de um projeto de agricultura sustentável, a Fazenda Malabar.

Flávia Altenfelder é gestora de comunicação de um projeto de agricultura sustentável, a Fazenda Malabar. Crédito: Fazenda Malabar
Flávia Altenfelder é gestora de comunicação de um projeto de agricultura sustentável, a Fazenda Malabar. Crédito: Fazenda Malabar

As plantações ficam em uma tríplice fronteira entre Campinas, Itatiba e Morungaba. “O fogo chegou em uma mata mais rala e mais bloqueada. O parecer do Corpo de Bombeiros é que ele só seria apagado com helicópteros, mas toda frota estava em Águas de Prata, onde tinha outro incêndio. Por sorte, um vizinho nosso se ofereceu para bancar um helicóptero e apagar o fogo por horas. Sem isso não teria apagado, porque eram muitos cipós e matas íngremes”, explica Flávia.

Tríplice fronteira entre Campinas, Itatiba e Morungaba. Crédito: Google Maps.

Questionada qual foi a principal consequência para a agricultura, Flávia explicou que não é algo visível imediatamente. “A nascente de um rio, que já está em uma área de muita urbanização, sente isso e passa a secar com o passar do tempo. São danos muito mais ecológicos do que diretos. Precisamos tomar atitudes, como fazer reflorestamento, para ter água daqui a 10 anos”.
A ONG Ampara Silvestre organizou uma “vaquinha” para ajudar apenas nas questões relacionadas ao Pantanal. A meta era arrecadar R$1,1 milhão e foi atingida com sobras, pois já somou R$2 milhões. Mas a ONG continua recebendo doações, pois planeja ampliar as ações no Pantanal. A doação pode ser feita no site Ampara Animal. A Comitiva Esperança também recebe doações para compras de cestas básicas e outros itens, que são entregues aos moradores de regiões isoladas do Pantanal.

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“Os vídeos da Duda (Eduarda Fernandes) chegaram ao nosso veterinário, Jorge. E ele já atuou na região. Então, perguntou se podia ir até lá como voluntário, com a Ampara bancando os custos. Ele foi e percebeu que a situação era grave. Então começamos a atuar em resgates de animais”, explicou Marcele Becker, uma das donas da ONG, que organizou um financiamento coletivo para ampliar o atendimento no Pantanal.

Marcele Becker, uma das donas da ONG Ampara Silvestre
Marcele Becker, uma das donas da ONG Ampara Silvestre

   Marcela explica as dificuldades de atendimento aos animais: “Duas onças resgatadas tiveram que ser levadas para Goiás. Antas estão em uma universidade, que não é o local adequado. A gente sente falta de um centro especializado para receber os animais”, conta ela. Outras duas dificuldades para quem atua na região são os acessos restritos, onde só é possível chegar de helicóptero, assim como a total falta de comunicação. “Não tem sinal. Enquanto estive lá, mal tive acesso ao telefone”, lembra Marcela.

Onça resgatada. Crédito: Eduardo Leporo.
Onças resgatadas em ação contra as queimadas Crédito: Eduardo Leporo.

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Apesar de todas essas dificuldades, o governo brasileiro demorou para agir. Marcela contou que Eduarda Fernandes  pediu apoio às autoridades inicialmente, mas não foi atendida. Depois pediu ajuda a outras organizações de impacto social e começaram surgir resultados. As ONGs deram mais visibilidade para essa causa, as imagens passaram a aparecer nos jornais e finalmente o governo começou a agir. “Hoje a situação está um pouco melhor, porque o governo ajuda com a Marinha e o Exército. Tem helicópteros e aviões jogando água, por exemplo”, comemora Marcela.

Mas nem toda ajuda do governo chegou ao Pantanal. O Auxílio Emergencial, criado para melhorar as condições dos brasileiros durante a pandemia, não foi entregue para muitos moradores da região. “A Comitiva Esperança tem zero ajuda do governo. E as pessoas não estão conseguindo o auxílio. Elas estão sendo assessoradas por nós e pelas igrejas para pedir. Mas não conseguem a aprovação. O meio rural está esquecido. São invisíveis sociais”, define Beatriz.

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É assim a vida no Pantanal atualmente: sem ajuda do governo, muitas vezes sem casa e praticamente sem fauna e flora. A partir de setembro, a tendência é que as chuvas sejam mais comuns e, aos poucos, as queimadas vão diminuir. O Pantanal vai aparecer menos nos jornais. Mas os problemas não vão acabar. Não são apenas números. São pessoas, animais e plantas que precisam de mais cuidados.

Crédito: Equipe de Arte Aupa.

Os impactos da fome

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Crédito: gente pra brilhar

A cada grupo de 20 brasileiros, um destes indivíduos não tem acesso regular à alimentação básica. Segundo o IBGE, hoje há 10,3 milhões de brasileiros enfrentando a fome grave. Um problema que é crônico e, mais do que nunca, tem urgência para ser debatido.

Diante deste contexto e motivado pelo Dia Mundial da Alimentação Saudável, que ocorre em 16 de outubro, o Coletivo Banquetaço encabeça a campanha “Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome”. Trata-se de uma aliança para firmar compromisso diante do enfrentamento da fome, unindo organizações do terceiro Setor e da sociedade civil.

Entre os dias 12 e 16 de outubro se iniciará a programação destes diálogos, com diversos seminários on-line e com a presença de cozinheiros, educadores, nutricionistas, lideranças religiosas e pesquisadores.  Além disso, nos dias 17 e 18 deste mês acontecerá o “Marmitaço” em algumas capitais brasileiras, onde coletivos atuarão para a distribuição de marmitas. Algumas destas articulações foram montadas a partir do contexto da pandemia de Covid-19.Para mais informações, acesse o site oficial.

Ouça a canção que inspirou o nome da campanha.

O objetivo das ações é denunciar o avanço da fome no país e os desmontes de Políticas Públicas que contribuíram para o agravamento do quadro, além de fortalecer campanhas de arrecadação e ações solidárias que atendem pessoas em situação de vulnerabilidade social. Tudo para aumentar a discussão pública sobre a defesa da vida e do direito ao acesso à alimentação segura e de qualidade, envolvendo diversos setores da sociedade civil.

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