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Aupa lança selo sobre setor de impacto na ACPA dentro da Flip 2019

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A plataforma Aupa – jornalismo de impacto–, lança entre os dias 11 e 14 de julho seu novo selo sobre o setor de impacto dentro da Casa da Porta Amarela, no principal evento literário do país, a Flip em Paraty. Dentre as atividades, está prevista a realização de um debate sobre o tema, além do lançamento da revista Aupa e do primeiro título do selo Aupa | Books, “Impacto na Encruzilhada” do autor Fábio Deboni, colunista do portal.

O autor – e gerente executivo do instituto Sabin–, estará presente no dia 11/7 às 18h dentro das atividades da Casa da Porta Amarela participando do debate e lançando o seu 3º livro, uma coletânea de artigos e reflexões sobre o setor organizado em três eixos temáticos: inovação social, negócios de impacto e investimento social privado.

A Casa fica na rua da Cadeia, próximo ao centro histórico e o painel “Livros de Impacto”, ainda contará com as presenças de Edson Leitte da Gastronomia Periférica, Márcio Black, da Fundação Tite Setubal, Kátia Rocha da Rede Educare e Leonardo Letelier da SITAWI.

 


Para mais informações:

Acompanhe a programação completa da Casa da Porta Amarela

A venda do livro pode ser solicitada direto pelo site da editora mymag

 

Impacto na encruzilhada

 

 

O empreendedor e a importância de ser agnóstico para o sucesso do seu modelo

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O tempo não para…

Como empreendedor, muitas vezes eu bem que gostaria que o tempo parasse. Perguntas sem respostas, recursos escassos, lacunas de informação e dados relevantes, dúvidas em relação ao que fazer ou como fazer e, claro, qual decisão tomar! Diversas são as questões que podem colocar o empreendedor contra a parede e testá-lo. Dependendo da natureza, preparo, capacidade, experiência e serenidade de cada um, o risco é paralisar ou retardar o desenvolvimento do negócio, comprometendo, inclusive, a sua existência ou, na melhor das hipóteses, a sua atratividade.

Na maioria das vezes, os empreendedores subestimam o tempo de desenvolvimento e maturação do modelo. Essa é uma evidência que colho da minha jornada empreendendo e apoiando empreendedores. Não importa se por otimismo em excesso ou por “atritos na pista” de diversas naturezas, o fato é que não é verdade que aprendemos a domesticar o tempo a nosso favor.

Qual a relevância disso para nossa chance de sucesso?

Aqueles que estão olhando para o saldo diário em conta-corrente sendo reduzido, sem o avanço desejado na trilha do negócio, podem responder com maestria.

Para startups em estágio inicial, essa é a principal questão para a sua sobrevivência e evolução. Como já escrevi em outro artigo aqui, o único indicador realmente relevante para esse estágio do negócio é o runway. Em outras palavras, o tempo de vida que a startup tem, calculado pela divisão entre o caixa total em conta-corrente e o valor mensal das saídas líquidas (ingressos menos saídas para pagar custos e despesas), também conhecido como cashburn.

A cultura do projetar versus a do experimentar

A forma mais adequada para lidar com essa armadilha do tempo é fortalecer uma cultura agnóstica, orientada para a experimentação e para o aprendizado veloz, baseado em fatos.

O que isso significa na prática do dia a dia?

Quando estamos na fase de buscar o modelo de negócios, só existem hipóteses. Adotamos premissas sobre diversas particularidades do cliente-alvo, do produto, do preço, dos canais de venda, da comunicação e afins. Ser agnóstico, nessa etapa, significa tratar uma hipótese como o que ela é. Ou seja, algo não comprovado, uma suposição. Hipóteses são o resultado de um exercício de laboratório que todo empreendedor faz quando se debruça sobre mesas de reuniões, post-its, canvas etc.

Como sabemos, não basta estruturar hipóteses robustas para obter êxito. Ter a honestidade e o desapego necessários para lidar com as evidências que emergem do campo de testes, onde a realidade acontece, é essencial para a evolução consistente da busca. Nessa trilha, a verdade não está no laboratório e nem existe a priori. A verdade é uma conquista obtida no campo de jogo, na interação com o possível cliente, com os parceiros e aliados do projeto que estamos construindo.

Quando projetamos o futuro desejado em fluxos de caixa e teimamos em tentar encaixar o pitch e a realidade nas planilhas, temos uma atitude oposta a essa cultura empírica. A cultura de projeções pode ser útil para empresas consolidadas e com elevada previsibilidade de modelo. Não serve para startups. Para elas, a planilha é apoio apenas, dinâmica, em constante evolução à medida que os fatos consolidam aprendizados, validando as hipóteses assumidas ou exigindo um movimento de pivot

O desafio das escolhas e renúncias

Diante desse contexto e nesse estágio inicial, a capacidade de aprender rápido é o maior ativo que o empreendedor pode ter. E arrisco afirmar e destacar que, para essa capacidade estar presente, dada a complexidade e a volatilidade da nossa realidade, a competência essencial que precisa existir no time estratégico é aprender a aprender.

Por isso, viabilizar o engajamento e o desenvolvimento de um time agnóstico, empírico, competente para aprender a aprender o que for necessário e de forma veloz é o foco número um do empreendedor que está na fase de busca de um modelo de negócios exitoso. Quanto mais fortalecida for essa competência no time, maior será a sua capacidade de fazer escolhas e renúncias assertivas, tomar decisões na velocidade adequada e, com isso, ampliar as chances de superação dessa etapa na jornada empreendedora.

Empreendedores saindo do armário

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Fenômeno crescente no campo dos negócios de impacto (especialmente em ecossistemas ainda em “desenvolvimento”) é comum nos depararmos com empreendedores que se descobrem como sendo “de impacto”.

Tinham (têm) um negócio (startup, empresa, etc) e ao serem introduzidos ao conceito de negócios de impacto, prontamente se reconhecem como sendo parte deste movimento. Que bom!

Trata-se de um momento “eureka” de cunho identitário. Um certo rito de passagem, digamos. E o que parece ser um ato banal e de menor importância, é, na verdade, a porta de entrada a um “novo mundo” de oportunidades e conexões.

Daí a brincadeira com a expressão “sair do armário” ou, entrar num novo “armário” como preferir, caro(a) leitor(a).

Se autorreconhecer como sendo um negócio de impacto, implica em algumas mudanças de identidade e, sobretudo, rumo.

De um lado, assumir seu propósito (do fundador e da organização) como sendo algo chave na proposta de valor do negócio. O que antes era algo “desejável”, passa a ser “vital”.

De outro, acessar um novo repertório de ferramentas e conexões – aceleradoras, intermediários, investidores, narrativas, métricas, etc.

Isso reduz a energia necessária para “inventar rodas” que ajudem a gerir e a expandir o negócio, pois, a conexão com outros players e possíveis parceiros traz boas ofertas nestes quesitos.

E quais os ônus que esta autodescoberta traz?

Vejo, ao menos, três:

1 – Necessidade de destinar tempo e energia para mergulhar mais fundo neste novo tema, compreendê-lo com mais profundidade e identificar possíveis sinergias e apoios que tenham fit com seu negócio. Se isso ocorre num ecossistema ainda em “desenvolvimento”, provavelmente demandará recursos financeiros para participação em eventos, em acelerações em SP (ou outro “centro” mais “desenvolvido” no tema). 

Encare isso como investimento e não como despesa. Mas, atenção: como a oferta é crescente, é preciso ter muita clareza do que/onde participar.

2 – Precisa “catequizar” outros neste tema – equipes, parceiros e, especialmente, investidores. Talvez eles também não estejam antenados no assunto e precisarão de estímulo para “saírem do armário” também. Na medida em que o negócio estimula um “microecossistema” ao seu redor, aumentam suas chances de prosperar neste novo movimento.

3 Sensação de solidão. Para nós que vivemos e estamos “fora do eixo”, em ecossistemas “em desenvolvimento”, é natural a sensação de “pregar no deserto” e de “solidão” ao não estar na zona sul de SP e ter acesso a ampla oferta de eventos, cafezinhos, conexões. Para este tipo de sentimento, a saída é seguir em frente e, sempre que possível, buscar esse “oxigênio” estando presencialmente em ecossistemas mais “desenvolvidos”. Sempre quando possível, claro.

Sem dúvida a internet também pode nos ajudar (e como!) a reduzir a distância e a disparidade entre esses ecossistemas e a nos deixar mais “por dentro” das novidades e tendências. Mas sempre é bom lembrar que nosso Brasil é gigante, repleto de diversidade regional e, portanto, há espaço para todos(as) neste “movimento”. 

DOSSIÊ ÁGUA 1: Entre o negócio de impacto e o direito à vida (parte 1)

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crédito: wikimedia

A água é um direito e um recurso natural valioso, muitas vezes utilizado como moeda. Conheça as relações que esse bem comum tem a ver com iniciativas de impacto social no Brasil na série de 2 reportagens especiais desse mês da Aupa.

A água é um direito social e pensar este recurso natural é também pensar sua política. Afinal, ter acesso à água – sobretudo, potável e ao saneamento básico–, são marcas socioeconômicas fundamentais em países como o Brasil, ainda mais quando o debate envolve brasileiros em situação de vulnerabilidade. Segundo dados do ministério das Cidades (2018), mais de 35 milhões de brasileiros não têm acesso à água potável e 100 milhões não têm saneamento básico. Outro problema que aflige os brasileiros, diz respeito aos que tem acesso à agua, mas que seu consumo pode estar contaminado. Segundo levantamento, cerca de 25% dos municípios brasileiros registram contaminação com agrotóxicos.

É nesse mesmo cenário desigual e contraditório de acesso à água no país onde multiplicam-se iniciativas em busca de soluções. A partir de um mapeamento que extrapola o eixo Sudeste, a redação da AUPA procurou atores do ecossistema e produziu duas reportagens exclusivas sobre o acesso à água. Com base em exemplos de ações comunitárias, públicas e privadas – em âmbito local e nacional–, a editora Fernanda Patrocínio investigou o tema e trouxe para o debate a pergunta: qual o lugar dos negócios de impacto no debate público sobre o acesso à água?

As provocações e os exemplos você confere em duas partes:

Parte 1: “A água: o homem e os saberes da terra”
Parte 2: “A água: os negócios de impacto e o estado brasileiro”

 


PARTE 1:
A água: o homem e os saberes da terra

TECNOLOGIAS SOCIAIS NO SEMIÁRIDO NORDESTINO

“Entre os galhos retorcidos do sertão, há água. No solo árido, cresce o verde. Da sabedoria popular, nascem tecnologias sociais”. Este trecho faz parte da apresentação do Centro de Educação Popular e Formação Social, o Cepfs, que atua no Sertão, desde 1985. O objetivo da organização é buscar soluções para o desenvolvimento sustentável da agricultura familiar no Semiárido brasileiro. “Algumas pessoas, que integravam essa associação, compreendiam a importância da organização como caminho para o desenvolvimento regional no fortalecimento da agricultura familiar rural local”, conta José Dias Campos, economista e coordenador executivo do Cepfs, organização, não-governamental e sem fins lucrativos, criada em 1989.

Diante do trabalho que relaciona a sabedoria popular com a tecnologia, Dias explica que a compreensão do conhecimento local é fundamental para o processo de desenvolvimento. “Para nós, as tecnologias sociais devem ser compreendidas como inovações frutos do processo de compartilhamento de saberes e conhecimentos já existentes. Assim, tecnologia social, saberes e conhecimentos tradicionais são componentes que caminham juntos ou um nasce do outro”, explica ele.

Oficina de agroecologia e geração de renda promovida pelo Cepfs na Serra de Teixeira, ao sul do sertão do estado da Paraíba

A água é uma pauta especial para o Cepfs. No Sertão, chove, em média, de 200 a 800 milímetros por ano – e a evaporação desta água é três vezes maior do que a quantidade de chuva que cai na região. “A água é fonte de vida, em todos os lugares, mas, no Semiárido, ela é mais preciosa ainda”, comenta o coordenador. O Cepfs oferece capacitações para o desenvolvimento de tecnologia sociais de captação, armazenamento e manejo de água de chuva. Dias elenca exemplos destas práticas, como construção de cisterna de enxurrada, os lajedos de pedras bem como barragens subterrâneas e barreiros-trincheiras. O primeiro passo no diagnóstico feito pelo Cepfs é sempre o ecossistema da família participante, para identificar quais práticas já são adotadas pelo agricultor, suas potencialidades aliadas à natureza, para, então, serem definidas ações que podem ser feitas com as tecnologias sociais.

Família beneficiada com cisterna do tipo enxurrada e sistema simplificado de irrigação na comunidade São Sebastião Cacimbas, na Paraíba
Visita de técnicos em área experimental dos Cepfs, Riacho das Moças, Matureia, Paraíba. Foto: Foto Renalle Benicio

A agricultura familiar é a referência de sabedoria popular adotada pelo centro. “É na agricultura familiar que está a fonte de conhecimentos e necessidades que precisam de suporte para promover inovações rumo ao desenvolvimento local”, diz Dias. O Cepfs atua em 10 municípios e em 116 comunidades da Paraíba, e até o final de 2018 impactou cerca de 95.480 pessoas por suas ações, sempre com dois eixos nos programas realizados: meio ambiente e desenvolvimento sustentável e fortalecimento e desenvolvimento comunitário. “Há o desenvolvimento comunitário por meio de processos de troca de saberes e conhecimentos, processos pelos quais nascem as inovações sociais”, comenta Dias.

O PROBLEMA NÃO É FALTA DE ÁGUA

O Serta (Serviço de Tecnologia Alternativa) é uma Oscip (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público), fundada em 1989 por agricultores, técnicos e educadores, atuando, sobretudo, nos municípios do estado de Pernambuco. Com foco em educação e formação, promove atividades para que jovens, educadores e pequenos produtores rurais trabalhem no desenvolvimento sustentável no campo, tendo a água como uma de suas principais áreas de atuação.

A construção de cisternas no Semiárido é um projeto bastante desenvolvido pelo Serta. “É preciso ter um método e um estudo, não adianta construir a cisterna por construir. Nós identificamos as famílias, conversamos com elas, as capacitamos para que possam, além de captar água, aprender a utilizar este recurso natural”, conta Sebastião Alves dos Santos, também conhecido na região como Tião do Serta. Autodenominado como pesquisador da Caatinga, Santos é técnico em agropecuária e biólogo. Tião diz que, hoje, o projeto é a maior obra de engenharia hídrica do Semiárido. “Chegamos a um milhão e 200 mil cisternas já construídas no semiárido. Isso é bastante significativo na qualidade de vida das pessoas, sobretudo daquelas que vivem no campo”, afirma.

Tião do Serta: “O maior problema do Semiárido é a aridez mental, sobretudo da política, que não direciona políticas públicas que sejam capazes de responder à demanda do povo e aproveitar as oportunidades que o Semiárido oferece”. Foto: divulgação/Youtube/Rede Globo

           Santos tem uma visão diferente sobre a Seca no sertão nordestino. “Temos o Semiárido mais chuvoso do mundo. Na nossa região, chovem, em média, 500 milímetros ao ano. Se olhar atentamente, o problema não é a falta de água, mas, sim, de matemática aplicada, pois se a escola ensinasse jovens e crianças que um milímetro de chuva em um metro quadrado corresponde a um litro de água, desde cedo aprenderíamos que é possível captar, para cada metro quadrado, 500 litros de água para um ano regular de chuva no Semiárido. E engana-se quem pensa que é pouco: isso é muito!”, calcula ele. “Discordamos de quem culpa a seca, pois a aridez do bioma não é, nunca foi e nem será um problema. A gente precisa aprender a conviver com essa aridez. O maior problema do Semiárido é a aridez mental, sobretudo da política, que não direciona políticas públicas que sejam capazes de responder à demanda do povo e aproveitar as oportunidades que o Semiárido oferece”, reclama. O Serta se define como uma organização sem representação política, mas que auxilia e incide na construção de políticas públicas. “Lamentavelmente, a gente encontra ainda pouco espaço no meio político para que essas propostas virem, efetivamente, ações que possam transformar as realidades locais. E eu estou me referido ao Semiárido como um grande e vasto campo que o governo brasileiro teria para atuar”, conclui.

AMAZÔNIA: SABERES LOCAIS

O saber das populações ribeirinhas da Amazônia também tem muito a nos ensinar a respeito de iniciativas da sociedade civil e políticas públicas sobre a água. O Projeto Saúde e Alegria – uma organização não-governamental fundada em 1987–, começou seus trabalhos ao lado de 16 comunidades-piloto da zona rural de Santarém, no Pará. Em 2003, este número subiu para 129 comunidades. “Com a ampliação, estendemos a atuação a praticamente todo o território da Floresta Nacional dos Tapajós, atingindo também comunidades da região do Assentamento Lago Grande – de Agro extração”, comenta João Carlos Dombroski, técnico de organização comunitária do projeto. Estas comunidades foram beneficiadas, na época, pelo projeto Saúde na Floresta, recebendo também incentivos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), para ações, como o saneamento, os poços semiartesianos, as cisternas e os filtros.

Ação local realizada pelo projeto Saúde e Alegria

Segundo os responsáveis, o Projeto Saúde e Alegria já impactou entre 30 e 35 mil pessoas dentro das comunidades e na própria percepção de Carlos o modelo se encaixa atualmente nos moldes de um negócio de impacto social . “Trazemos ideias inovadoras em projetos que podem ser multiplicadas em outras comunidades. Trazemos também inclusão social, principalmente, pois são comunidades bem isoladas. Trabalhamos com questões como saúde, saneamento, renda e inclusão das mulheres na produção de artesanato”, elenca Dombroski, comparando as soluções escaláveis e a entrega do projeto para a população em situação de vulnerabilidade.

Um dos aspectos de impacto que evidencia o modelo de negócio está na geração de renda e trabalho com as mulheres com a criação de uma cooperativa. “É por intermédio desta cooperativa que há uma coordenação mais específica sobre a produção de artesanato e sua comercialização, tanto na região quanto fora dela”, explica o técnico. Além disso, há ainda geração de renda a partir do turismo comunitário e da comercialização de galinhas, abelhas e hortas. “Tudo isso impacta a renda das famílias. Vai além da renda direta, pois as famílias observam e aprendem novas técnicas, novos jeitos de trabalhar: um trabalho coletivo”, comenta ele. E vale ressaltar: organizados em cooperativas e associações, o valor dos produtos oferecidos [veja matéria sobre produção de queijos na Serra da Canastra] tende a ter maior valor agregado do que aqueles que comercializados por quem empreende sozinho.

“Tudo isso impacta a renda das famílias. Vai além da renda direta, pois as famílias observam e aprendem novas técnicas, novos jeitos de trabalhar: um trabalho coletivo”

E o que os saberes indígenas de um território de povos originários podem nos ensinar sobre ações de impacto social em relação à água? Dombroski, que atua há 25 anos no tema e na região, afirma que os aprendizados indígenas são essenciais na construção das soluções propostas pelo projeto, principalmente em relação ao saneamento básico comunitário. Hoje são mais de 40 comunidades com o sistema de abastecimento de água instalado, atendendo cerca de 3.400 famílias, ou seja, mais de 16 mil pessoas com água potável vindo da torneira de suas casas. “Se somarmos os trabalhos feitos na cidade e nas comunidades rurais, hoje são mais de 215 quilômetros de rede hidráulica”, se orgulha o produtor.

Outros destaques do Projeto são ações como a implantação de energia alternativa, energia solar, micro-usinas e a introdução de internet em localidades isoladas. “Nosso forte é o saneamento básico, com a inclusão social, principalmente, em torno de políticas públicas, que vão garantir saúde, saneamento e educação às comunidades”, pontua o sociólogo italiano Tibério Alloggio, que mora na Amazônia desde 1989 e é coordenador de desenvolvimento territorial – o sociólogo também já foi fellow da Ashoka. Essa conexão entre o projeto e o poder público é, inclusive, um dos grandes trunfos e resultados como modelo de negócio de impacto social. O Projeto Saúde e Alegria aproximou e influenciou as políticas públicas locais, como é o caso da implementação do programa de Saúde da Família Ribeirinhas e Fluviais, do Ministério da Saúde. “Ele surgiu da experiência do Projeto Saúde e Alegria, que levava assistência via barcos. O Ministério da Saúde gostou da ideia e hoje são mais de 60 barcos atendendo a população ribeirinha”, explica o sociólogo.

O projeto realiza ações e oficinas com a população local. Acima, imagens do “Teia Cabocla”

Como o próprio nome traduz, a metodologia utilizada nas atividades do Saúde e Alegria é uma proposta lúdica. “A alegria não tira a nossa seriedade. Ela serve para mobilizar, colocar temas dentro das comunidades de uma maneira mais fácil”, comenta Alloggio. A questão principal do projeto hoje é tornar a economia da floresta rentável para quem mora no território e gerar assim sustentabilidade financeira e ambiental juntos. “Estamos fazendo um esforço grande em relação a algumas cadeias produtivas, como o extrativismo da borracha, que entrou em crise. Hoje, a maioria da população tradicional aqui da Amazônia trabalha mais em torno da produção de farinha de mandioca. E usando uma alternativa ainda muito primitiva, que é o corta e queima”, explica ele. “O desafio é produzir um modelo que possa garantir sustentabilidade dos recursos e dos moradores”, completa, acerca de um novo mindset que demanda uma roça sem fogo e a restauração florestal.

Paralelamente às atividades de organização social, o projeto apoia ainda micro e pequenas empresas ligadas às atividades e às cooperativas. “Há um movimento para que tanto as famílias quanto os agroextrativistas saiam da informalidade – pois, se nela permanecerem, eles continuarão sendo vítimas de atravessadores”, destaca Alloggio. São alternativas como essas que transformam há décadas o Semiárido Nordestino e a região amazônica que hoje dialogam com o ecossistema de impacto e influenciam política públicas do estado brasileiro. Os saberes tradicionais se misturam com saberes econômicos mais contemporâneos e jogam luz para uma reflexão em como pensar a água como um direito e um recurso econômico sustentável e de grande impacto para todos nós.

(Na próxima reportagem, o exemplo da água AMA, da empresa Ambev e um sobrevoo sobre a água dentro das políticas do governo).

Eu Errei: “Não queremos a sua ajuda”

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A gente precisou mostrar para as empresas que acessibilidade é uma oportunidade.” Ronaldo Tenório demorou para encontrar o equilíbrio entre ser “missionário” e “mercenário”, como ele próprio costuma dizer. CEO e fundador da Hand Talk, Ronaldo enfrentou o desafio de trabalhar em uma empresa charmosa e com uma causa forte: um tradutor de libras digital para a inclusão de surdos na sociedade. Porém o faturamento não vinha.  Potenciais clientes da sua solução viam a Hand Talk apenas como mais um projeto legal, mas demoraram a entender que poderiam contratar seu serviço. A virada veio com uma mudança de mentalidade: falar menos da causa em si para aprender a se vender melhor, enquanto negócio. “Se o negócio for escalável, ganhar dinheiro e gerar impacto é a melhor forma! A turma do bem sempre tem que trabalhar de graça?”, questiona.

Leia a reportagem completa e assista o 9º episódio da série Eu Errei

Eu Errei: Henrique Castan, da Nutriens

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“Eu estava começando um negócio a partir de uma ideia. Mas um negócio deve começar para resolver problemas.” Henrique Castan já tinha 36 anos e muita experiência enquanto executivo quando fundou com sua irmã, Natalia, a Nutriens. A empresa nasceu para democratizar e popularizar o acesso a alimentação orgânica no país, principalmente entre faixas da população de menor renda. Porém, antes de se tornar o que é, a Nutriens teve de passar pela prova de fogo de sobreviver à vaidade, principalmente do seu fundador. Como ele mesmo disse, começar no empreendedorismo social partiu de uma solução, que, para Henrique, parecia maravilhosa. Se tivesse insistido nela, a Nutriens nem chegaria até aqui. “Às vezes aquela ideia aparentemente perfeita que vem da cabeça do fundador pode não ser a melhor. Aliás, ela não é a melhor”, conclui Henrique.

Leia a reportagem completa no Eu Errei!

Eu Errei: Gustavo Fuga, da 4you2

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“Tem que testar pequeno para depois fazer a rolagem.” Simples assim. Gustavo Fuga aprendeu de modo até um pouco pitoresco qual é, às vezes, o limite do ímpeto disruptivo que o levou a criar a 4you2. A escola de idiomas nasceu em 2012 com o sonho de democratizar o acesso ao ensino de inglês usando de tecnologia para baratear seus custos. O foco está em alcançar principalmente a população de baixa renda. E tem dado certo: são mais de 10 mil estudantes desde o início da operação em cinco unidades espalhadas pela cidade de São Paulo. Recentemente, porém, na tentativa de digitalizar os processos, a escola optou por enviar os boletos de pagamento para os clientes por e-mail. “Foi quando a galera começou a não pagar”, resume Gustavo.

Leia a reportagem completa no Eu Errei!

Estados da Amazônia Legal não estão preparados para eventos climáticos extremos

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Como os Estados da Amazônia Legal tratam as Políticas Públicas para mudanças climáticas? Divulgado em outubro, o relatório “Emergência climática: estratégias subnacionais na Amazônia” aponta que  nenhum dos estados da Amazônia Legal (Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins) possui sistemas de alerta e planos de contingência permanentes para eventos extremos, como inundações, secas, incêndios florestais e ondas de calor. O estudo é de autoria do Achados e Perdidos, iniciativa da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e da Transparência Brasil, realizada em parceria com a Fiquem Sabendo e com financiamento da Fundação Ford.

No relatório, foram mapeadas as Políticas Públicas dos nove estados da Amazônia Legal que existem em relação às mudanças climáticas. Segundo a avaliação de Jéssica Botelho, repórter do Achados e Pedidos e responsável pela pesquisa, “Apesar de haver uma preocupação de todos os Estados, falta uma política nacional, como também coordenação e gestão entre Estado e Município”, declara.

Luis Felipe Adaime, CEO e fundador da Moss, climatech que conecta empresas com soluções ambientais inovadoras por meio da tecnologia blockchain, acredita que as políticas e estratégias voltadas às emergências climáticas não estão alinhadas. “O Brasil, que tem diretrizes nacionais para a redução dos impactos das mudanças climáticas, precisa que o Governo Federal promova mais sinergia entre todas as esferas em relação a gestão dessas políticas”, defende.

A Amazônia Legal é o território com maior biodiversidade do planeta em plantas, animais e microrganismos, com uma área que corresponde a 59% do território brasileiro, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Ainda: é neste território que residem 56% da população indígena brasileira.

E diante da frequência de uma extensão que sofre cada vez mais com os efeitos da emergência climática, segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, é crucial entender a importância de compromissos climáticos e ambientais que podem ser assumidos pelos governos locais da Amazônia Legal brasileira.


Ações dos Estados da Amazônia Legal

Claramente, cada Estado tem suas demandas, além de formas de conduzir políticas e estratégias voltadas às mudanças climáticas.  Para a professora e pesquisadora Sonaira Souza da Silva que estuda a aplicação geo no contexto amazônico, de modo geral: “As políticas ambientais no Brasil têm sido pouco implementadas. São muitos planos e informações, mas pouca ação, de fato. Uma demonstração são as altas taxas anuais de desmatamento, queimadas, garimpos ilegais, entre outros”, explica. Sobre as falhas na aplicação de leis ambientais no Brasil, o relatório “Estado de direito ambiental: primeiro relatório global”, da ONU, aponta a incapacidade de implementar e de fazer cumprir essas leis, principalmente no Brasil. O documento ainda mostra que entre 2000 e 2015, 527 ambientalistas foram mortos no Brasil.

Sonaira é responsável pelo projeto que monitora a qualidade do ar do Acre. A iniciativa sobre a rede de monitoramento da qualidade do ar é uma parceria entre a Universidade Federal do Acre e o Ministério Público do Estado do Acre. Mesmo com o projeto em andamento, ela defende que “No Acre, não há política ou plano específico sobre mudanças climáticas, mas planos temáticos sobre desmatamento, queimadas e recursos hídricos, mesmo tendo uma secretaria de Estado, o Instituto de Mudanças Climáticas e Regulação de Serviços Ambientais (IMC) em atuação”.

Por sua vez, a atuação no Tocantins é defendida por Marli Santos, diretora de Gestão e Instrumentos Ambientais da Secretaria do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Semarh):  “Estamos trabalhando com mitigação (redução de emissões) e adaptação (estudo sobre os impactos das mudanças climáticas no Tocantins e medidas que precisam ser implementadas). Construímos nos últimos 16 anos todo um trabalho de elaboração e implementação de políticas públicas voltadas para as mudanças climáticas”, explica.

Essa atuação dos departamentos estaduais, com a presença de políticas ou planos de gestão de recursos hídricos para desenvolver Políticas Públicas de mitigação e adaptação, é reiterada no relatório Emergência climática: estratégias subnacionais na Amazônia:

“Há a existência de departamentos dentro da estrutura administrativa dos órgãos de gestão ambiental e de fóruns de mudanças climáticas e a presença de políticas ou planos de gestão de recursos hídricos em todos os estados também é um destaque positivo”, alerta o documento.


Dados do relatório

O trabalho analisou a presença de instrumentos de gestão ambiental em observação aos efeitos das mudanças climáticas nos estados que compõem a Amazônia Legal. Para verificar a atuação destes territórios, as informações obtidas foram cruzadas com dez indicadores desejáveis para o controle da situação de emergência climática na região, divididos em três grupos: governança, mitigação e adaptação.

A pesquisa revela que dos nove Estados, quatro (Acre, Amapá, Mato Grosso e Pará) não têm sistemas de monitoramento para acompanhar o impacto da emergência climática sobre os recursos naturais, a biodiversidade e o clima.

Ainda conforme o relatório, a maior parte dos Estados criou uma política relativa a mudanças climáticas, com aprovação de lei estadual. Inclusive, o Ministério Público Federal e os estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul criticaram, em outubro de 2020, o Governo Federal por omissão em relação a queimadas em biomas brasileiros.

Vale lembrar que a Amazônia Legal brasileira registrou 8.381 km² de desmatamento no acumulado de 11 meses, entre agosto de 2020 e junho de 2021, a maior devastação para o período em dez anos, segundo o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon).

Para Sonaira Souza da Silva, o relatório aponta para a ação dos governos. “Os efeitos das mudanças climáticas são devastadores, principalmente para as populações mais pobres que não têm condições para se adaptar a esses extremos”. O dado é confirmado pelo relatório  “Monitorando o Avanço na Saúde e nas Mudanças Climáticas”, publicado na revista cientifica Lancet Countdown, de 2017, e que enfatiza que os países mais pobres são os mais afetados por mudanças climáticas e poluição. Um dos dados revelados é que entre 2000 e 2016, houve um aumento de 46% na quantidade de desastres naturais no mundo.

Contudo, um avanço nacional, em abril de 2021, foi a aprovação da resolução do Plano Amazônia 2021/2022, que “Estabelece diretrizes para a continuidade das ações de fiscalização e combate aos ilícitos ambientais e fundiários, particularmente o desmatamento ilegal e as queimadas na Amazônia Legal”.

No relatório publicado pela Abraji, como avaliação final, é apontado que os Estados estão, sim, preocupados com as mudanças climáticas: “A presença de políticas ou planos de gestão de recursos hídricos em todos os estados é um destaque positivo, considerando o impacto desse aspecto ambiental sobre as condições de vida, não só da população local, mas de todo o país, como se pode observar diante da atual situação hídrica e energética brasileira”, segundo o documento. 

Tal como afirma Jéssica Botelho, “É necessário esse esforço conjunto, na estrutura administrativa de governos estaduais e municipais para agregar as estratégias”. Luis Felipe Adaime completa ainda que “É preciso haver trabalho conjunto entre desenvolvimento socioeconômico, conservação ambiental e redução de emissões relativas ao uso da terra”.

Estudo mostra falta de transparência em quase metade dos dados para acompanhamento das ações do Ministério do Meio Ambiente

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Uma das maneiras dos cidadãos acompanharem e fiscalizarem a execução de políticas públicas ambientais brasileiras é por meio da divulgação de informações e dados públicos de forma transparente pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), órgão responsável por elaborá-las. No entanto, estudo divulgado no dia 15 de dezembro de 2021 mostra que quase a metade (47%) das informações desejáveis para monitoramento das ações da pasta apresenta algum grau de incompletude e/ou estão indisponíveis. A pesquisa foi realizada pela Achados e Pedidos – iniciativa da agência de dados Fiquem Sabendo, da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e da Transparência Brasil – e contou com financiamento da Fundação Ford.

Para avaliar a disponibilidade e a qualidade dos dados, que permitiriam ainda o cumprimento da Lei de Acesso à Informação, foram considerados o site institucional do MMA, o Portal da Transparência e o Portal Brasileiro de Dados Abertos. Em alguns casos, recorreu-se a outros sistemas, como Consulta MMA, Painel de Informação de Colegiados (PIC) e Dados Abertos Ambientais.

No total, foram analisados 55 itens, divididos em dois grupos: Transparência ativa e Competências da pasta. No primeiro grupo, foram considerados 31 itens que se referem a dados institucionais e informações disponibilizadas pelo órgão, como ações e programas desenvolvidos, relatórios de gestão, certificados de auditoria e execução orçamentária e financeira. Já o grupo incluiu 24 itens que dizem respeito ao conjunto de atribuições e responsabilidades do MMA ligados diretamente às políticas públicas ambientais, como indicadores ambientais nacionais e dados de recuperação e redução da degradação da vegetação nativa nos biomas.

Também foi objeto de análise o Plano de Dados Abertos (PDA) do MMA, que é um instrumento de planejamento, coordenação e disseminação de informações. Cada um dos 55 itens foi avaliado quanto à sua disponibilidade, link de acesso, formato do arquivo, data da última atualização e situação (satisfatório, incompleto, inconsistente, indisponível). Toda a análise foi feita entre os dias 28 e 29 de outubro de 2021.

Os resultados revelaram que, embora o MMA atenda parcialmente às exigências de transparência institucional – dos 31 itens analisados, 23 estavam satisfatórios em relação à disponibilidade, formato e atualização dos dados –, o mesmo não se verifica em relação aos assuntos de sua competência específica, ou seja, as políticas públicas ambientais. Dos 24 itens considerados nessa esfera, seis estavam satisfatórios, 15 incompletos e 3 indisponíveis.

O pior desempenho foi em relação a políticas e programas ambientais para a Amazônia. Não foram encontrados dados sobre o Programa Áreas Protegidas da Amazônia, e as informações estavam incompletas para os itens Prevenção e controle do desmatamento ilegal, dos incêndios florestais e das queimadas e Redução das emissões de gases de efeito estufa provenientes do desmatamento e da degradação florestal.

“Isso confirma uma tendência que já vínhamos percebendo sobre a transparência governamental. É o que chamamos de opacidade de dados, relacionada à não continuidade na produção de determinados indicadores, existência de defasagens e dificuldade em encontrar as informações”, diz a pesquisadora e jornalista Jéssica Botelho, da Fiquem Sabendo, que foi a responsável pela avaliação dos dados e redação do relatório.

Ela acrescenta que, em relação ao meio ambiente, além da Lei de Acesso à Informação, há a Lei da Transparência Ambiental, com toda uma regulamentação sobre como devem ser publicados e divulgados os dados socioambientais. “Percebemos que está havendo uma violação dessa lei para dizer o mínimo.”

De acordo com a pesquisadora, “se o principal órgão do país ligado à questão ambiental está descumprindo a lei, órgãos vinculados ao MMA, como o Ibama [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis] e o ICMBio [Instituto Chico Mendes de Conservação da  Biodiversidade], provavelmente também estão cometendo deslizes na divulgação de dados e na transparência”. Outros estudos da Achados e Pedidos, como “Transparência Inativa: a opacidade da Funai” e “Área Socioambiental: Império da Opacidade” já apontavam nesse sentido.

Em relação ao Plano de Dados Abertos, Jéssica conta que foram encontrados os mesmos problemas: dados defasados, descontinuados e pulverizados em releases, o que dificulta recuperar a informação e elaborar uma série histórica, por exemplo. “Tudo isso gera dificuldades para a sociedade avaliar a gestão pública. Podemos dizer que, no geral, a transparência está comprometida”.

Fonte: Agência Bori.

Retrato do aumento da fome no Brasil

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19 milhões de brasileiros estão passando fome, segundo o estudo “Insegurança alimentar e Covid-19 no Brasil”, realizado em 2021 pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN). E mais de 116,8 milhões de pessoas estão em situação de insegurança alimentar. Um retrato que volta a  assombrar o país – que, em 2014, havia saído do Mapa Mundial da Fome. De um lado, o Brasil é o 4º maior produtor de grãos do mundo,  de outro, ocupa a 10ª posição dos países que mais jogam comida fora, segundo dados do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e da organização britânica de resíduos WRAP.

O contexto da pandemia aumentou a fome no mundo, que passou por um agravamento dramático em 2020 e atinge 155 milhões em 55 países, segundo o relatório O vírus da fome se multiplica: uma receita mortal misturando conflitos armados, covid-19 e crise climática acelera a fome no mundo”, da Oxfam. Diante das evidências, será necessário esforço para o mundo honrar a promessa de acabar com a fome até 2030, considerando-se a ODS 2 da Agenda 2030 das Nações Unidas.

Mas o que explica a volta do cenário da fome no Brasil? “As Políticas Públicas foram desmontadas”, indica Rodrigo “Kiko” Afonso, diretor-executivo da Ação da Cidadania, entidade que atua com lideranças conforme as necessidades de cada região. Segundo o diretor, estas são consequências estruturais e a pandemia apenas agravou a situação. O desmonte das Políticas Públicas foi apresentado no “Relatório Luz da Sociedade Civil sobre a Agenda 2030”, estudo realizado pelo Grupo de Trabalho da Sociedade Civil para a Agenda 2030 (GT Agenda 2030), coalizão formada por 57 organizações e fóruns de todo o país.

A falta de Políticas Públicas também é compartilhada por Daniel Balaban, representante no Brasil do Programa Mundial de Alimentos (WFP). Vale lembrar que o programa da ONU foi laureado com o Prêmio Nobel da Paz de 2020 pelos seus esforços em combater a fome e por sua contribuição para melhorar as condições de paz em zonas de conflito. Daniel, que também é diretor do Centro de Excelência contra a Fome no país, afirma que “Tudo é ocasionado por Políticas Públicas que não tiveram uma continuidade. Não existe nada por acaso”.  

Leia também: Programa Mundial de Alimentos da ONU ganha Nobel da Paz e traz lições importantes sobre combate à fome

Essa leitura também é compartilhada por Luciana Chinaglia Quintão, economista e fundadora da ONG Banco de Alimentos, associação civil que auxilia pessoas em situação de insegurança alimentar através do combate ao desperdício de alimentos. Segundo Luciana,A infraestrutura social, política e a economia é fraca, o que colabora para o atual quadro”. 

Pobreza triplica no Brasil e a exportação de alimentos decola

A pandemia, a falta de emprego e o fim do Auxílio Emergencial compõem a fórmula que fez com que o número de brasileiros que vivem na pobreza triplicasse em seis meses, segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV). O número de pobres saltou de 9,5 milhões, em agosto de 2020, para mais de 27 milhões, em fevereiro de 2021.

Em meio a esse cenário, está o agronegócio, alvo de discussões quando o assunto é o aumento do Produto Interno Bruto (PIB) e o contraste com o aumento da fome no país. Para Kiko, há uma mudança no olhar político, que está mais focado em produzir para exportar do que alimentar a própria população com qualidade: “Em um momento de crise, como regular esse mercado? Não há força política no congresso para fazer isso”. O diretor-executivo da Ação da Cidadania acredita ser necessário um modelo que consiga pensar no alimento como algo coletivo.

Esse argumento pode ser melhor explorado no artigo “O agro não é tech, o agro não é pop e muito menos tudo”, assinado por Marco Antonio Mitidiero Junior e Yamila Goldfarb. No documento, os geógrafos desmascaram a versão de que o agronegócio é a maior força econômica do Brasil. “O agronegócio usa diversas estratégias para construir o consenso na sociedade brasileira de que é o setor mais dinâmico, moderno e importante da economia. No entanto, uma análise detalhada dos números do agro revela outra realidade. A de um setor que recebe muito e contribui pouco com o país”, afirmam os dois geógrafos no estudo.

Leia também: Especial: os reflexos da pandemia no mercado de trabalho 

Contudo, vale destacar que o faturamento com as exportações do agronegócio brasileiro em junho alcançou recorde, de US$12,11 bilhões, o que representa uma alta de 25% em comparação com US$9,69 bilhões de junho de 2020, de acordo com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Desperdício de comida e desigualdades regionais

O desperdício de alimentos é um dos grandes desafios pendentes para  que a integridade da segurança alimentar possa ser alcançada. Daniel Balaban explica que, “No Brasil, a falta de estrutura  faz com que muitos alimentos sejam desperdiçados. Desde produção, colheita, até transporte, comercialização e consumo final das famílias. A maioria dos desperdícios não está nas famílias, porque elas estão mais conscientes”.

Segundo o representante da WFP, seria necessário modificar o sistema de transporte para reduzir os desperdícios. “O melhor formato seria o ferroviário, como os países desenvolvidos fazem. Muitas vezes, o alimento se perde, porque precisa estar refrigerado. Não-raro, o próprio caminhão não está refrigerado adequadamente e um potencial problema na estrada faz com que ele perca toda a carga”, explica. No Brasil, 41 mil toneladas de comida são jogadas fora por dia, de acordo com o Programa Mundial de Alimentos. Para Luciana Chinaglia Quintão, há falta de gestão do governo, pois “O desperdício é uma desordem social”. 

Vale ressaltar ainda que no Brasil as desigualdades também são regionais. Segundo o estudo realizado pela Rede PENSSAN, o Nordeste é a região mais afetada, com 7,6 milhões de pessoas em estado de insegurança alimentar. Daniel explica que “O Brasil nunca se desenvolveu por igual e por inteiro. Então, temos bolsões de desenvolvimento. Devido à história e aos processos brasileiros, a região Nordeste foi delegada em segundo plano, junto com a região Norte”. Luciana, por sua vez, destaca que “O Nordeste é um país dentro do Brasil”.  

Além disso, o Nordeste foi a região mais afetada em rendimento do trabalho pela segunda onda da pandemia, segundo o estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ou seja, o rendimento efetivo do trabalho recuou 7,05% no primeiro trimestre deste ano, comparado ao mesmo período de 2020.

Pandemia gerou recessão brutal e prejudicou acesso a alimentos

Os preços dos alimentos subiram no mundo inteiro e ajudaram a impulsionar a inflação global.   Segundo dados da FAO, os preços pelo mundo já subiram quase 33% no último ano. Por sua vez, a recessão no Brasil tem diversas justificativas. Uma delas é a inflação que afeta gêneros alimentícios básicos desde o ano passado, como também a seca no país, o aumento do dólar, instabilidade política, aumento do desemprego.

Diante da triste realidade que os números mostram, Daniel Balaban indaga: “O Auxílio Emergencial acabou e o Brasil, assim como o mundo, não mudou. O índice de desemprego está altíssimo e as pessoas farão o quê para se alimentar?” Para ele, o caminho pode ser a articulação social. “Ela deve ser feita com sociedade civil organizada, municípios, Estados, iniciativas privadas e uma ação forte dos governos. Somente ação do Estado vai evitar uma catástrofe maior”.

Hortas urbanas e transformação das cidades: muito além das hortaliças

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Hortas urbanas são uma alternativa para quem vive nas cidades / crédito: depositphotos

Apesar de ter-nos pego de surpresa, a pandemia de Covid-19 não foi um fenômeno tão imprevisto quanto se imagina. Ela integra a explosão de doenças que presenciamos nas últimas décadas. Tendo problemas ecológicos como agravantes, registramos o surgimento de cerca de 300 novos patógenos nos últimos 50 anos. Com isso, desenvolvemos doenças emergentes (como a própria Covid-19) e presenciamos o retorno de outras.

Nesse contexto, a alimentação é central. Ao longo do isolamento social, vimos reportagens alertando para a possibilidade de novas pandemias, destacando, por exemplo, a criação de animais para consumo humano como um criadouro de novos patógenos. Alguns cientistas consideram que o que estamos enfrentando nos últimos anos é uma “sindemia” (conjunto de pandemias) caracterizada pela simultaneidade de desnutrição, obesidade e mudanças climáticas, fruto da atual organização de nossos sistemas alimentares. Tudo está conectado.

Assim, as cidades e seus habitantes estão cada vez mais vulneráveis e ao mesmo tempo são corresponsáveis por problemas complexos que envolvem o meio ambiente, a saúde e a alimentação.

A busca por soluções implica envolver as cidades nas políticas agroalimentares pensando os diversos territórios urbanos não apenas como locais de consumo, mas como espaço de vivências e de produção de alimentos pela agricultura.

A chamada Agricultura Urbana e Periurbana (AUP) é potente nesse sentido: relaciona-se com as dimensões humana, ambiental e de saúde das cidades. Trata-se de um fenômeno relativamente recente em diversos lugares do mundo e adaptável às diversas práticas culturais de cada cidade ou comunidade. Os impactos positivos são vários, indo desde a coesão social até o estímulo à economia local, passando, é claro, pelo apoio à segurança alimentar.

Partindo da cidade de São Paulo como um exemplo, percebemos que os bairros e populações que vivem em periferias altamente urbanizadas têm manifestado um crescente interesse em hortas urbanas, uma vez que descobrem suas funções de produção de alimento a preço acessível.

Quando acompanhamos os espaços de organização de hortas urbanas — os quais ainda são de difícil acesso para mulheres, mas que, uma vez que as acolhem, melhoram significativamente sua qualidade de vida — é possível entender o entrelaçamento das práticas ambientais, redes de apoio e saberes populares e a capacidade de gerar e fomentar fluxos de abundância. Isso tem impacto positivo em questões como falta de emprego, de oportunidade, de conformidade às forças do mercado de trabalho e das estruturas opressoras contra a mulher. Além disso, as hortas urbanas têm efeitos positivos na saúde: foram relatadas percepções como perda de peso, melhora na pressão arterial e na sensação de bem-estar em geral.

Esse conjunto de vantagens reafirma a importância de formulação de políticas efetivas para transformar sistemas agroalimentares em busca de segurança alimentar e equidade. A articulação de esforços entre setores da sociedade civil, Estado (em suas diversas instâncias) e produtivos é fundamental para redesenhar os sistemas agroalimentares nacionais. Essas novas formas de organização devem considerar a integração das cidades e o envolvimento permanente de moradores e gestores públicos.

As hortas urbanas comunitárias têm o potencial de integrar ações mais amplas num horizonte de construção de uma governança democrática da alimentação e uma nova geografia alimentar. As relações que se estabelecem nesses espaços mostram potenciais de transformação dos sistemas agroalimentares em direção a possibilidades concretas de integração das práticas das hortas comunitárias urbanas às dimensões da saúde coletiva, justiça social, ambiental e de gênero e ao direito à cidade.

 

Este artigo é uma reflexão de Laura Martins de Carvalho e Márcia Tait Lima.

Laura Martins de Carvalho é doutora em Saúde Global e Sustentabilidade pela Faculdade de Saúde Pública da USP. Atualmente é assistente de pesquisa no projeto “Better Decision Support for Better Urban Governance”, liderado pela Universidade de Manchester (Reino Unido), em parceria com a Universidade de Brasília, a Fundação Getulio Vargas de São Paulo e El Colegio de Jalisco (México), sobre métodos que apoiam a tomada de decisão usados por diferentes atores envolvidos na governança urbana.

Márcia Tait Lima é pesquisadora no Departamento de Política Científica e Tecnológica (DPCT) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Em 2021 integrou a equipe de pesquisa contemplada com o financiamento do Conselho Latino-americano de Ciências Sociais (Clacso) e da Organização das Nações Unidas (ONU-Mulheres) para projetos no tema Feminismo e Ambiente na América Latina.

Este texto é de responsabilidade das autoras e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa. 

Fazendas de ilusões

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Crédito: Equipe de arte Aupa

Os números de curtidas, seguidores e comentários em redes sociais são cada vez mais importantes em nossa sociedade. Não são apenas um detalhe de vaidade ou ego. São números que influenciam nas condições financeiras de milhares de pessoas. E nesse contexto surgiu um movimento chamado de “Fazenda de Cliques”. São plataformas que oferecem um novo tipo de crescimento artificial desses números. Os mais variados profissionais, de empresários a celebridades, se interessam por esse serviço e criam, na verdade, uma “Fazenda de Ilusões”.

As “Fazendas de Cliques” possuem duas frentes. Na primeira, são sites que prometem milhares de seguidores, curtidas e engajamentos. Garantem até que todos seguidores serão “reais”, ou seja, não serão robôs feitos automaticamente nas plataformas. Em outra frente, as “Fazendas de Cliques” reúnem as pessoas que vão buscar os números. Prometem que eles poderão trabalhar de casa, com horário flexível, utilizando apenas o próprio Instagram. “Ganhe dinheiro online usando suas redes sociais” é a promessa mais comum, que atrai muitas pessoas.

E assim começa o serviço na “Fazenda de Cliques”: os trabalhadores passam a seguir perfis contratados e interagir com as publicações deles. E para cada ação é pago um valor determinado – em média é R$ 0,006.

Diante de um valor tão pequeno, o trabalhador precisa de muitas contas nas redes sociais para conseguir fazer tantas curtidas e comentários. Essa demanda gera um problema imediato: os trabalhadores passam a criar robôs para terceirizar as ações. Portanto, aquela promessa de “seguidores reais” não é cumprida.

Quem trabalha nessa área não tem qualquer vínculo empregatício e ainda enfrenta dificuldades, como a queda repentina no valor de pagamento. Recentemente, foi organizada até uma greve porque muitas “Fazendas” estavam baixando os pagamentos para R$ 0,003 por ação.

Consequências para a informação

As “Fazendas de Cliques” geram consequências negativas para a informação. Afinal, muitas pessoas medem a credibilidade de mensagens por seguidores e curtidas. E se esses dados podem ser comprados, há uma distorção natural e perigosa sobre o  que circula nas redes sociais.

Segundo pesquisa “Histórias da Inteligência Artificial”, desenvolvida pelo DigiLabour, laboratório de pesquisa sobre mundo do trabalho e plataformas digitais ligado à Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), muitos compradores de cliques são da área da saúde. Normalmente são profissionais interessados em ganhar relevância artificialmente. Eles não são autoridades no assunto, mas recebem esse status por causa de seguidores e curtidas comprados. Em uma época de pandemia, quando a sociedade está cheia de dúvidas sobre saúde, essa distorção passa a ser perigosa.

O Laboratório de Pesquisa DigiLabour produz investigações em torno das conexões entre mundo do trabalho e tecnologias digitais. crédito: Digilabour

Consequências para o e-commerce

Outra consequência das “Fazendas de Cliques” é criada para quem investe em e-commerce. Até nano e microempresários investem nessas “Fazendas de Cliques”, pois os valores cobrados estão cada vez mais acessíveis – com menos de R$100 é possível comprar mil seguidos. Mas, nestes casos, a eficiência da estratégia pode ser muito questionável.

Silvia Rodrigues, consultora de negócios do Sebrae-SP, explica que ninguém se beneficia com a prática. Para a empresa, adotar essa estratégia é ruim em três aspectos: “Além de ser uma forma de fraude virtual, constrói uma audiência fictícia, a qual prejudicará a própria empresa em sua imagem, reconhecimento de marca e relação com seus consumidores”. E, segundo ela, os próprios compradores são prejudicados: “Sabemos que o consumidor tende a escolher produtos bem avaliados, acreditando que outras pessoas passaram por experiências positivas. Então, quando existe uma fraude nesse processo, o consumidor é o primeiro a ser prejudicado. Por outro lado, também pode prejudicar outras empresas concorrentes que foram preteridas por receberem menor quantidade de avaliações”.

Silvia Rodrigues, consultora de negócios do Sebrae-SP. Crédito: Linkedin

A recomendação de Silvia é investir em anúncios dentro das próprias plataformas, com muito cuidado na segmentação de público. E ela também ressalta que nem todo pequeno empreendedor precisa ter um e-commerce. “Não é o único caminho. Muitos empreendedores vendem através dos marketplaces, que são grandes shoppings on-line, outros divulgam pelas redes sociais e se comunicam pelo Whatsapp. O on-line trouxe inúmeras oportunidades e diferentes formas de conexão, por isso é importante analisar cada caso”.

 

Apesar do crescimento das “Fazendas de Cliques”, Silva avalia que a gestão de redes sociais dos pequenos empreendedores brasileiros tem evoluído bem. “Percebo que os empreendedores têm se dedicado muito à gestão das mídias digitais, expondo seus produtos, fazendo a demonstração de uso, criando conteúdo e principalmente interagindo com o público”.

 

Posicionamento do Instagram

Principal rede social afetada pelas “Fazendas de Cliques”, o Instagram tenta autenticar contas e acabar com a criação de robôs – o que faz com que os trabalhadores das “Fazendas de Cliques” não ganhem nada por suas ações. Não-raro, as moderações das redes sociais são feitas por trabalhadores em condições precárias.

Questionado pela reportagem sobre as “Fazendas de Cliques”, o Instagram divulgou o seguinte posicionamento:  

“É muito importante para nós que as interações no Instagram sejam genuínas, e trabalhamos arduamente para manter a comunidade livre de comportamentos inautênticos. Serviços que oferecem formas de aumentar a popularidade de uma conta por meio de curtidas, comentários e seguidores ilegítimos não são permitidos e todos os dias milhares de contas falsas, inautênticas ou automatizadas são detectadas e bloqueadas automaticamente”.

É preciso sair da bolha do impacto. Mas será que a estratégia está correta?

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Uma das prioridades do ecossistema de impacto é potencializar a comunicação sobre esta agenda, fazendo-a chegar a outras bolhas dos não-convertidos. Convenhamos, a bolha atual é bastante elitizada e fala-se há tempos da necessidade de furar bolhas.  

Para além desta boa e necessária intenção, será que a estratégia adotada até aqui está nos conduzindo nesta direção?

OK, mas de qual estratégia estamos falando? A referência está disponível no documento  “Visões de Futuro para a Agenda de Impacto no Brasil – Recomendações para o avanço dos investimentos e negócios de impacto até 2025”, da Aliança pelos Investimentos e Negócios de Impacto. 

Aliás, um documento-chave para todo o campo do impacto, não apenas para os interessados em comunicação. Das nove recomendações que o documento traz (para avanço dos investimentos e negócios de impacto no Brasil até 2025), uma delas (a nona) é focada em Comunicação para Impacto.

Ela prevê:

  •       Coconstruir narrativas que aproximem públicos de interesse à causa dos investimentos e de negócios de impacto, garantindo a criação de uma linha de base (metas e indicadores de partida) que permita o monitoramento coletivo de resultados de comunicação
  •       Popularizar o tema entre empreendedores(as), investidores(as), gestores(as) públicos(as) e consumidores(as).

O documento traz as seguintes diretrizes, já com algumas provocações que faço por minha conta e risco (em vermelho):

  •       Cocriação de mensagens simples e efetivas para a divulgação da causa.
    Quem está fazendo isso? De que forma? Com que apoio? Por quais canais? Uma mensagem simples é um meme ou um artigo na Folha?
  •       Produção de conteúdo e sistematização de casos.
    Quais casos? Os de sempre? E os casos desconhecidos e longe dos holofotes do centro do ecossistema? Quem faz as vezes de olheiro para encontrá-los?
  •       Financiamento e apoio a veículos especializados e independentes.
    Dá uma olhada nos apoiadores da Aupa, por exemplo, pra ver que o buraco é mais embaixo. Uma coisa é dizer que é importante financiar veículos independentes, outra coisa é eles conseguirem se financiar na prática. Quem/como vai financiá-los? Premiações de 10 mil é financiamento?
  •       Ampliação do relacionamento com atores do mainstream.
    Será que a mídia empresarial tradicional (minha interpretação para o tal “mainstream”) está mesmo disposta a cobrir esse tema? Se sim, com que tipo de abordagem? Essa abordagem reforça nossas assimetrias ou as reduz? Esse espaço supostamente aberto pela mídia tradicional nos fortalece ou nos separa como setor? Se for pra sair na grande mídia reforçando a ideia equivocada de “caça a unicórnios”, tô fora. Nada contra os unicórnios, mas eles não representam a única visão de “sucesso” para o setor.
  •       Fomento de linguagens, imagens e conceitos positivos e propositivos.
    Como é ser positivo em termos de abordagem na produção e disseminação de conteúdo sobre impacto? Ser positivo é passar pano para as tantas contradições que nos cercam como setor? Em “ser propositivo” cabe também um raio X do caso do “fundo do MST”, por exemplo? Curiosamente, um baita “case de sucesso” que não virou hit nas paradas de sucesso do setor. Por que será?
  •       Criação de um grupo de trabalho nacional para construção de uma linha de base para monitoramento coletivo de resultados de comunicação da causa do impacto.
    Quem vai criar? Com quais participantes? Quem vai financiar? Esse grupo vai dialogar com o atual governo federal? Esse grupo supostamente nacional terá mais da metade dos seus membros de São Paulo? Isso é ser nacional? Note, caro(a) leitor(a), que estou questionando o grupo e não a ideia de se ter uma linha de base e de se ter uma estratégia de comunicação desta causa chamada impacto.

Obviamente, é preciso concordar com o estudo ao sublinhar que:

“É necessário criar interlocução, principalmente com atores que ainda não são sensíveis ao tema, mas que são indispensáveis à conversa”.

Em outras palavras, precisamos sair da nossa bolha de já convertidos. Bingo!

A questão fundamental aqui é: como?

Olhando para as diretrizes anteriores, caro(a) leitor(a), é possível identificar alguma relacionada a este aspecto? Eu não consegui perceber nenhuma.

Estamos vivendo um boom de podcasts (Podpah, Flow, Mano a Mano, Mamilos, etc) e quais nossos planos para levar esse tema até eles? Curiosamente, nenhuma meta ou ação nesta direção. Afinal, se queremos sair da nossa bolha, por que não criar pontes com esses veículos?

Citei os podcasts, mas poderia incluir os inúmeros influencers (youtubers, blogueiros(as), etc) que têm uma audiência extraordinária e, infelizmente, passam longe desta nossa conversa. Se essa turma não é considerada como jornalismo (concordo), são comunicadores muito eficazes e deveria estar em nosso radar.

Pra fechar, importante enfatizar que não sou um profissional da comunicação. Sou engenheiro agrônomo não praticante que se aventura pela produção de conteúdo, na raça. Escrevo diariamente em meu blog (e LinkedIn) e estou lançando em 2022 meu quinto livro (“Inovação Social em tempos de soluções de mercado”). Também me aventuro pelos podcasts (já conferiu o AupaCast?, mas tenho os meus caseiros também).

O que quero dizer é que há um perfil de pessoas que não tem formação em comunicação, mas que também produzem comunicação. Possivelmente, esse perfil estaria fora do radar de ações de comunicação. Para o bem e para o mal. Esse, talvez, seja um pouco da encruzilhada da própria Aupa. Muitos que consomem seu conteúdo acham lindo e necessário sua existência, mas poucos topam por a mão no bolso para apoiá-la. Mas, se a comunicação de impacto é tão estratégica assim, porque tão pouco apoio $? Afinal, o nono lugar na lista de prioridades dá direito a uma vaga para a libertadores? Pelo visto não.

Lei do Bem abre espaço para a inovação nas empresas

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Crédito: Equipe de arte Aupa

Incentivar a pesquisa, o desenvolvimento e a inovação na iniciativa privada é o objetivo da Lei do Bem (nº 11.196/2005), que fomenta projetos dedicados a desvendar desafios tecnológicos. Em contrapartida, a empresa acessa incentivos fiscais, como o abatimento dos investimentos realizados nas despesas com o imposto de renda. Em um país onde o orçamento para pesquisa e ciência de base andam seriamente comprometidos, a Lei do Bem representa uma porta para a inovação por caminhos diferentes – do chão de fábrica aos laboratórios de ponta -, possibilitando o avanço científico aplicado em produtos e serviços feitos no Brasil.

Clique para acessar fonte.

O incentivo fiscal abrange trabalhos teóricos e experimentais, pesquisa aplicada e experimentações que envolvam risco tecnológico, conhecimento agregado e inovação, sem limitação de setor econômico ou região geográfica. Para usufruir dos benefícios, não há necessidade de aprovação prévia, somente autodeclaração e apresentação de relatórios detalhados no ano subsequente. Quem avalia se o projeto será aprovado, reprovado ou aprovado parcialmente é o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI). Só em 2018, o investimento do MCTI para a Lei do Bem correspondeu a R$12 bilhões e chegou a 1% das empresas brasileiras.

Débora Beraldo, gerente técnica na GAC Group – consultoria especializada na lei -, explica o benefício na prática: “Ao demonstrar quais atividades dentro da empresa serão dedicadas à pesquisa e ao desenvolvimento, comprovando as despesas do ano, a redução de imposto dela será de no mínimo 20,4%, e é possível, inclusive, zerá-la. A empresa também abre espaço para a contratação de profissionais exclusivos para essas atividades. Isso pode aumentar ainda mais a porcentagem de desconto no imposto e, provavelmente, pagar o salário de novos profissionais com folga”, analisa.

 

Expectativa x realidade

Gianna Sagazio, diretora de Inovação da CNI.
Créditos: Iano Andrade/CNI

Segundo Gianna Sagazio, diretora de Inovação na Confederação Nacional da Indústria (CNI), a Lei do Bem é o único instrumento fiscal transversal que abre portas para a produtividade e a inovação nas empresas – um movimento estratégico e essencial para o país. “O Brasil está na 57ª posição de 132 países no Índice Global de Inovação (IGI). Desde 2011 caímos 10 posições. Essa classificação não é compatível com a nossa indústria, com a nossa economia. Podemos estar entre os 20 países mais inovadores do mundo”, provoca. 

 

A regra é clara: empresas que não inovam comprometem o próprio futuro e correm o risco de deixar de existir. Enquanto países como Coreia do Sul, Alemanha e Japão destinam de 3 a 4% do Produto Interno Bruto (PIB) para pesquisa e desenvolvimento, os tímidos 1,26% do Brasil deixam a desejar. Não por acaso, os três países ocupam, respectivamente, a 5ª, 10ª e 13ª posição no ranking global de inovação. “Em países como esses, não precisamos dizer que ciência e tecnologia são importantes, porque isso está refletido nas Políticas Públicas, nas estratégias de crescimento do país e no volume de investimentos nessa área. No Brasil, o que falta é priorização”, avalia a diretora. 

Vale lembrar que os recursos orçamentários das três principais fontes de investimento em pesquisa científica no Brasil – Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) e Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e CNPq foram reduzidos em mais de R$8 bilhões entre 2015 e 2020. No último ano, o orçamento do FNDCT ficou com mais de 90% do previsto na reserva de contingência, colocando em risco projetos como a Lei do Bem. Um descaso que impacta a formação de profissionais, a geração de empregos e o mercado em efeito dominó.

 

Fazendo a roda girar
Beneficiada pela Lei do Bem desde 2006, a multinacional de tecnologia 3M tem cerca de 250 colaboradores envolvidos em projetos ligados à iniciativa, distribuídos nos departamentos de Pesquisa e Desenvolvimento, Engenharia, Manufatura e Supply Chain. Em nota à reportagem, afirmam: “Inicialmente, submetemos apenas projetos realizados no laboratório e, nos últimos anos, temos conseguido aplicar projetos de inovação tecnológica da manufatura, logística e variados departamentos. No último ano, identificamos mais de 200 projetos considerados enquadráveis com potencial de inovação tecnológica”.

Para as empresas, a Lei do Bem representa mais do que o abatimento de impostos. Ao investir em produtos e serviços mais inovadores, a qualidade aumenta, a demanda por trabalhadores aumenta, aplicam-se novas habilidades e competências e, consequentemente, a empresa fortalece a competitividade no mercado – todo mundo ganha.

Outro exemplo é o Grupo GSA Alimentos, indústria exportadora de produtos alimentícios, localizada no Centro-Oeste. Com 215 pessoas envolvidas em projetos de inovação – passando por Marketing, Produção e Manutenção -, a empresa alega ter visto na Lei do Bem uma oportunidade para investir em suas fábricas. “Conciliar um período de grandes investimentos na empresa com o respectivo planejamento tributário para prestação de contas com o Ministério é um desafio, mas sabemos que temos uma contrapartida positiva ao final do processo, de forma que parte dos gastos retornam à empresa através da economia efetiva no imposto a pagar”, declaram em nota.

 

Obstáculos à inovação
Ainda que a Lei do Bem tenha critérios evidentes, sobre utilização imediata, além de ter disponível gratuitamente um guia prático de utilização, de acordo com a gerente técnica, Débora Beraldo, o benefício não atrai tantas empresas quanto poderia. “Além de não ser muito divulgada e, por isso, não alcançar muitas empresas, algumas ainda têm medo de utilizar o incentivo por não haver necessidade de uma pré-aprovação, a exemplo de créditos e financiamento. Você primeiro utiliza e depois presta contas disso. Caso avaliem o projeto como não viável, você precisa quitar os valores com juros muito altos”. Esse é um risco que, segundo ela, limita o acesso de pequenas e médias empresas ao benefício.

Débora Beraldo, gerente técnica na GAC Group. Crédito: Divulgação

Outro fator limitante costuma ser o período despendido no processo de análise e aprovação dos projetos. Empresas desaprovadas ou aprovadas parcialmente podem realizar o envio de contestações, mas, quando o processo volta para as mãos do MCTI, não há prazo estimado para a devolutiva. Até a finalização desta reportagem, os últimos lotes do Parecer Técnico de Contestação liberados tinham como ano-base 2016 e 2017. Para Débora, a demora na fiscalização envolve o risco de que os executores que inicialmente submeteram o projeto à Lei do Bem sequer estejam na empresa.

 

Obstáculos como esses têm criado espaço para consultorias como a dela, responsáveis por coordenar todas as etapas de submissão, avaliação e acompanhamento dos projetos de pesquisa e desenvolvimento, garantindo segurança às empresas.

 

Caminhos para a Lei do Bem
Com o objetivo de ampliar o uso do benefício, a CNI tem levantado propostas de melhoria relacionadas às restrições fiscais para empresas e ao usufruto dos incentivos por períodos prolongados. O esforço é baseado em estudos recentes acerca do contexto de inovação na pandemia: segundo pesquisa realizada pela confederação com mais de 500 médias e grandes empresas industriais, 8 em cada 10 delas inovaram na busca por soluções para a crise desencadeada pela pandemia. Como resultado, 88% tiveram ganhos de produtividade e lucratividade por causa da inovação.

Ainda de acordo com o levantamento, para que a inovação vire regra, faltam trabalhadores qualificados, acesso a recursos financeiros de fontes externas e orçamento interno reservado para esse fim. A Lei do Bem deve estar no cerne desse movimento – desde que os orçamentos de ciência e pesquisa estejam garantidos. Em um cenário otimista, as portas estarão abertas para diversos outros avanços: “A inovação pode amplificar os esforços de empresas que praticam a sustentabilidade e novos modelos de negócios baseados em bioeconomia, biotecnologia, para resolver outros grandes desafios de desenvolvimento do Brasil. Tudo depende do projeto de país que queremos ter”, finaliza Gianna.

 

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Qual o papel das fintechs de impacto na proteção social da população de baixa renda?

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Crédito: Pexel

Há alguns anos, quando se falava em bancarização da população de baixa renda, era possível identificar muitas ressalvas entre os gestores de políticas de assistência social. Afinal, eram inúmeros os relatos de beneficiários do Programa Bolsa Família que entravam no cheque especial após ter sido convencidos por algum funcionário da Caixa Econômica Federal a trocar o seu cartão de benefício por um cartão de conta corrente. Sem saber que aquele dinheiro se tratava de um empréstimo a juros altíssimos, achavam que estavam recebendo um valor a mais, e não hesitavam em gastá-lo.

Em abril de 2021, o Banco Mundial divulgou um relatório com o seguinte título: Aumentando a resiliência dos trabalhadores de baixa renda no Brasil – Instrumentos financeiros e inovações. De forma muito resumida, o relatório propõe que sejam pensados instrumentos financeiros que 1) aumentem a capacidade de poupança da população de baixa renda; 2) assegurem proteções em momentos de choque, sendo os principais os ambientais e os ligados à criminalidade; 3) forneçam crédito barato a essa população e; 4) promovam ações de educação financeira que permitam com que as pessoas possam identificar os riscos que correm e pensar no longo prazo.

Nesse curto período, os instrumentos financeiros deixaram de ser um problema e passaram a ser uma possível solução. O que mudou? Em primeiro lugar, a pandemia de Covid-19 revelou que existe um número enorme de pessoas que não são atendidas nem pelas transferências de renda, nem protegidas pelos direitos assegurados pelo trabalho formal. Sem a perspectiva de aumentar a cobertura da transferência de renda, e tendo em vista um mercado de trabalho cada vez mais precarizado, passou a ser necessário pensar em soluções que garantam alguma segurança de renda para as pessoas mais vulneráveis. E aí entram os produtos financeiros.

Mas os produtos financeiros não podem ser os mesmos que os bancos estão acostumados a oferecer. Afinal, oferecer cartão com limite alto é totalmente prejudicial para essa população. Na verdade, os produtos financeiros devem incentivar a poupança de médio e longo prazo, de modo que as famílias possam enfrentar momentos de dificuldade sem a necessidade de pegar um empréstimo com juros altos. Ou, ainda, podem fornecer proteções a baixo custo para esses momentos, já que nem sempre é possível poupar o suficiente para cobrir alguma necessidade imprevista.

Neste cenário entram os negócios de impacto. As fintechs compõem alguns dos negócios de impacto que mais recebem investimentos. Será que suas soluções financeiras respondem a essas questões? Ou seriam apenas bancos digitais com algumas facilidades que podem interessar às pessoas, mas que não as apoiam no desenvolvimento de sua segurança financeira? Como pautar a questão das finanças sociais a partir do viés da proteção e não somente do acesso ao crédito e serviços bancários?

É sempre bom lembrar, como bem menciona o relatório, que a população de baixa renda é muito mais exposta a riscos do que a população historicamente atendida por serviços financeiros. São quem mais morrem em função da violência urbana e deixam suas famílias desamparadas. Com o aquecimento global, certamente serão o público mais atingido por desastres ambientais.

Caso o ecossistema de impacto não seja capaz de encaminhar essas questões, provavelmente as instituições financeiras desenvolverão produtos com essas finalidades, a seu modo. Assim, essa é uma oportunidade para os negócios de impacto que estão desenvolvendo soluções financeiras voltadas à população de baixa renda – de modo que esses cidadãos possam ser capazes de se inserirem em um debate bastante relevante e encaminhar soluções para problemas reais e que, se nada for feito, tenderão a aumentar cada vez mais.

Este texto é de responsabilidade da autora e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa. 

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5 sugestões para um ano realmente novo

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Crédito: Equipe de arte Aupa

Mais um ano vai chegando ao fim. E um novo ano começará em breve. Mas será que vai ser um ano “novo” mesmo? Ao final de 2020, estávamos esperançosos de que o pior já havia passado, de que a pandemia seria em breve controlada com a vacinação que estava prestes a começar e que com o controle da pandemia a economia se recuperaria logo. Não foi bem assim, como sabemos. A demora na vacinação da maior parte da população e as novas variantes continuaram ceifando centenas de milhares de vidas, e a economia não só não se recuperou como, para 69% dos brasileiros, a situação econômica do país piorou nos últimos meses, segundo pesquisa Datafolha, realizada de 13 a 15 de setembro. As perspectivas para 2022 também não são muito promissoras, com previsão de alta na inflação e nos juros, aumento do desemprego, agravamento da crise hidroenergética, sem contar as eleições conturbadas que estão por vir.

Nem tudo podemos controlar, infelizmente, mas algumas medidas, tomadas coletivamente, podem ao menos minimizar os riscos e/ou as consequências mais graves da pandemia e da crise política, econômica, social e ambiental que estamos enfrentando. Vamos a algumas sugestões:

1)     Trocar resoluções irreais de ano novo por metas que realmente contribuam para o mundo. Este texto de dezembro de 2020, publicado no portal UOL, continua válido para fazermos a diferença! Nele, o psicólogo Richard Ryan, professor da Universidade de Rochester, nos Estados Unidos, afirma que nenhuma resolução de ano novo garante tanta satisfação quanto metas que envolvam doar algo aos outros e pensar em formas de contribuir para o mundo.Tal afirmação vem ao encontro do Movimento por uma Cultura de Doação, que visa construir um Brasil melhor para todos os brasileiros e fortalecer a sociedade civil e a democracia por meio de um país mais doador. Algumas sugestões de metas nesse bloco podem ser tornar-se um doador recorrente, fazer trabalho voluntário, recolher três pedaços de plástico de cada praia que visite, entre outras ações.

2)     Colocar o ESG em prática “pra valer”. Essas três letrinhas viraram moda (ou tendência? Confira o artigo da Andressa Trivelli aqui na Aupa), mas para além de querer “fazer bonito” nos relatórios de sustentabilidade, cabe às empresas repensar suas atuações e fazer os investimentos necessários para de fato mitigar (se possível eliminar) os efeitos negativos socioambientais que causam, não apenas diretamente, mas em toda a cadeia de fornecedores. E, claro, de preferência que consigam promover impacto positivo também. Dependendo do tipo e do tamanho da empresa, algumas medidas podem envolver políticas afirmativas na seleção de colaboradores, a substituição de combustíveis fósseis por fontes renováveis de energia, uma política de investimento social alinhada ao core business da empresa, entre outras práticas.

3)    Consumir conscientemente. Em 29 de julho de 2021, três semanas mais cedo do que em 2020, “celebramos” o Dia da Sobrecarga da Terra (em inglês, Earth Overshoot Day), que marca o dia do ano em que a demanda da humanidade por recursos naturais supera a capacidade da Terra de produzir ou renovar esses recursos ao longo de 365 dias. É importante nos lembrarmos de que cada consumo que fazemos no dia a dia, seja uma cápsula de café, uma nova peça de roupa, um novo celular, um novo carro, contribui para gastarmos os recursos naturais do planeta. Precisamos mesmo comprar esse novo item? Dá para seguir usando ou consertar o antigo? E qual será o destino do que não vamos mais usar? Não existe “jogar fora” do planeta Terra.

4)    Promover, no nosso dia a dia e nas empresas, práticas antirracistas (e práticas feministas, antietaristas, antiLGBTfobistas…, mas fiquemos só no primeiro exemplo). Algumas atitudes simples passam por informar-se mais sobre racismo, ler mais autores negros, reconhecer os privilégios de ter nascido branco, apoiar ações que promovam a igualdade racial nos diferentes âmbitos da sociedade, entre outras ações, sugeridas pela filósofa e escritora Djamila Ribeiro, em seu livro Pequeno Manual Antirracista (Companhia das Letras).

5)    Votar conscientemente. Claro que não podemos deixar de lado as eleições de 2022 que, ao que tudo indica, tendem a ser tão polarizadas e conturbadas como as de 2018. Escolher conscientemente os futuros governantes do país, sem repetir os erros do passado (e de um passado nem tão distante assim), é essencial para uma sociedade mais justa e igualitária.

Como já diz o poema Receita de Ano-Novo, de Carlos Drummond de Andrade:

“Para ganhar um Ano-Novo / que mereça este nome, / você, meu caro, tem de merecê-lo, / tem de fazê-lo novo”.

Vamos fazer em conjunto um ano novo realmente novo?

Este texto é de responsabilidade da autora e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa. 

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Impactos da energia

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Crédito: Pexel

Para haver uma transformação relevante do setor energético do Brasil seria necessário a integração de diferentes níveis de governança local e regional, assim como levar em consideração os conflitos de demandas entre diferentes setores. A conclusão é de estudo realizado por pesquisadores da Faculdade de Saúde Pública e do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (USP) em parceria com o Instituto de Energia da Universidade de Durham, do Reino Unido, publicado na revista “Energy Research & Social Science”.

Os autores usaram dados públicos do setor energético do estado de São Paulo e do Brasil da base de dados de 1980 a 2019. As análises dos balanços energéticos documentados pelo Ministério de Minas e Energia foram realizadas sob um dos modelos de avaliação validados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, em inglês). A pesquisa considerou os indicadores de consumo de energia, emissão de gases do efeito estufa por consumo de combustíveis, geração de energia renovável e frota de veículos do estado.

A partir da avaliação das mudanças energéticas ocorridas no estado de São Paulo no período, o estudo discutiu o papel e influência de políticas públicas nessas transições energéticas a um nível local e, posteriormente, nacional. A matriz energética de São Paulo figura como uma das mais limpas do mundo, com destaque para hidrelétricas e derivados da cana-de-açúcar.

Ainda assim, os pesquisadores concluíram esse cenário não pode ser considerado uma transição energética, mas sim uma adição de fontes de energia. Isso porque o consumo do estado, por mais diverso que seja hoje, permanece altamente dependente de derivados do petróleo. Isso pode ser associado, afirmam os autores, ao fato de que a maior parte do seu consumo é representado pelo setor de transporte.

Segundo o estudo, uma transição energética integral precisa alterar o consumo do estado ou considerar sua real demanda e ir além do que apenas disponibilizar outras fontes no contexto. Da mesma forma, é necessário que as transições sejam realizadas contemplando a gestão de outros setores associados. De acordo com Leandro Giatti, coautor do estudo, “a indústria do bioetanol compete com a produção de alimento, demanda energia e gera impacto pelo uso do solo e de recursos hídricos. Tudo isso está interconectado”, afirma.

O trabalho também mostra que a matriz energética de São Paulo apresentou experiências mais bem sucedidas e avanços. Contudo, tais avanços não são expandidos a um nível federal, dado que qualquer tomada de decisão dessa área, de acordo com o artigo 22 da Constituição de 1988, é de responsabilidade do governo federal. Lira Lázaro, autora principal do artigo, diz que no Brasil o governo não consegue conhecer as realidades de pequenos municípios e não avaliaria o que os governos subnacionais estão fazendo para contribuir em soluções. Para ela, levantar a discussão sobre o impacto que uma governança multinível teria nas decisões foi uma grande motivação para o estudo e essa necessidade aumenta com as mudanças climáticas.

Nesse contexto, assim como no Acordo de Paris foram estabelecidas as contribuições nacionalmente definidas, o mesmo poderia ser aplicado a nível nacional. A partir de um problema do país, cada região poderia contribuir com soluções a partir do seu próprio contexto e possibilidades.  No entanto, devido à centralização de políticas energéticas, os estados são impossibilitados de que suas colaborações promovam alguma reestruturação. “Mostramos que São Paulo está criando várias alternativas, mas não existe o espaço desse recorte regional para fazer uma voz atuante na estrutura da governança atual. Para nós, essa é a grande falha que exploramos”, diz Giatti.

Fonte: Agência Bori.

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