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Alimentos são ‘pra’ ver ou ‘pra’ comer: o que é que Parelheiros tem?

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Fisális em Parelheiros, na cidade de São Paulo. Créditos: Pablo Pereira.

Atenção: esta reportagem tem uma trilha sonora como complemento. Amplie sua experiência na narrativa a seguir apertando o play.
Boa leitura!

Créditos das fotografias:
Pablo Pereira

Parelheiros é conhecida como “a zona rural” da capital de São Paulo. Localizado no extremo Sul, o distrito – e seus 153km² de extensão – ocupa 30% do território verde paulistano, segundo informações do Plano Diretor. Um local repleto de Mata Atlântica, com diversas unidades de conservação e comunidades indígenas, e atendido pelas águas dos Rios Monos e Capivari – os últimos limpos da cidade. Também, concentra a maior parte dos agricultores da metrópole: são mais de 400 famílias agrícolas entre grandes, médios e pequenos produtores.

Desde sua fundação, a região tem como principal atividade a agricultura. Por isso, serve de exemplo – e inspiração – para os debates relacionados à alimentação e às práticas sustentáveis para o meio ambiente. Despercebida pelo ecossistema de impacto (e seus atores), o território ainda não tem iniciativas (com a tarjeta impacto) atuando e recebendo investimentos. Vale citar alguém fora da curva: a Enjoy Orgânicos, um negócio de impacto do M’Boi Mirim – distrito vizinho – que realiza delivery de alimentos orgânicos, de produtores e produtoras de Parelheiros, para moradores das periferias da zona sul, como Jardim São Luís, Jardim Ângela, Santo Amaro, Capela do Socorro e Campo Limpo. Uma conexão periferia com periferia.

O caminho até Parelheiros (São Paulo/SP).

Antes, irei falar sobre mim
Internamente, venho questionando minha relação com a alimentação e onde é que minha ação de se alimentar, ou seja, fornecer aquilo que é necessário para que meu corpo funcione, está saudável e, até diria, correto. Das várias hipóteses, decidi voltar ao primeiro passo: o contato. Você se lembra da primeira vez que viu um abacaxi, alface ou abacate?

Dividindo com vocês: nunca tive uma relação próxima com a comida. Dentro de casa, alimentos são para comer e ponto final. Não importa de onde venham: sejam dos arcos dourados, da Rita – uma pasteleira da minha rua -, ou de algum mercado ou sacolão. Se “brotou” na mesa, é extremamente importante comê-lo. Tem alguma coisa errada aqui?

Querendo sanar minhas dúvidas, fui até Parelheiros saber dos moradores e produtores locais: “Afinal, alimentos são pra ver ou pra comer?” Depois de 28,4 km de viagem, do Campo Limpo – onde eu moro – até o distrito, minha primeira parada é na casa da Bê.

 

Bernardete Alcibíades em sua produção. Créditos: Pablo Pereira.

Fases de Bernardete
Maria Bernardete Alcebíades, conhecida como Bê, mora há 20 anos na região. A agricultura entrou na sua vida em meados de 1995, ao fazer um curso e se encantar por hidroponia – uma técnica de cultivar plantas suspensas (sem solo), onde as raízes recebem uma solução com água e nutrientes essenciais para seu desenvolvimento. No início, a ideia era deixar aos cuidados do irmão. Bê morava em Interlagos, Zona Sul de São Paulo, e tinha um emprego fixo. Cinco anos depois, seu irmão faleceu e tudo mudou. Lentamente, tomou conta da produção, contratou mão de obra, saiu do emprego e, ao mesmo tempo, se mudou definitivamente para Parelheiros.

Foram 15 anos com a hidroponia, fazendo feiras livres e entregas a domicílio. Alguns problemas começaram a surgir financeira e pessoalmente, até a mão de obra foi piorando. No limite da situação, Bê parou tudo e tirou um tempo para refletir. Mesmo assim, estava decida a parar com a horta. Vendeu metade de seus equipamentos e conservou cinco estufas.

Após o convite de uma amiga, participou de um curso de produção orgânica e no processo, conheceu o Ligue os Pontos – projeto da Prefeitura para promover e aprimorar o desenvolvimento sustentável do território rural – e através do investimento semente dele, foi possível trazer melhorias para sua horta. “Quando você voltar daqui dois meses, a horta vai ter outro visual. Comprei uma estufa, vou reformar duas e vou modificar uma. Comecei a investir em morangos, venho estudando sobre esse plantio”, conta Bê.

Ela detalha que seus produtos são orgânicos e certificado pelo IBD (Associação de Certificação Instituto Biodinâmico). Eles rodam a cidade inteira através de cestas, com entregas a domicílio para clientes em Pinheiros, Vila Mariana, Jardins e outras regiões. Sua área de cultivo – onde planta e colhe suas produções – chega à 700m² e para ela, é o tamanho ideal: “Pretendo ficar deste tamanho, assim posso dominar [a prática] e ter maior qualidade. Não quero ter quantidade e, sim, qualidade dos alimentos. Então, dedico a minha parcela [de espaços] para morangos, hortaliças [específicas] e para algumas PANCs [Plantas Alimentícias Não Convencionais]”. Bê é apaixonada por PANCs, sua preferida nas refeições é a ora-pro-nóbis, mas, no geral, é seu cultivo mais prazeroso e já sabe onde poderá vendê-las. [Pausa para o suco de cambuci e como é maravilhoso!]

Clique na imagem para ampliar o ensaio fotográfico.

A produção da Bê
Fui conhecer de perto o pomar e a horta dela. Bê cultiva várias coisas. No pomar tem “pé” de tudo: acerola, amora, café, cambuci, cereja do Brasil, figo, jabuticaba, lichia, limão, manga, mexerica, pêra, romã e por aí vai. Nem todas as frutas são comercializadas, o que é ótimo para os parentes que não saem de lá. Entre elas, há algumas plantas medicinais como xantinon e também um pé de Pau Brasil – uma árvore comum na Mata Atlântica, porém ameaçada de extinção.

Na horta, encontro plantações de alface, abóbora, açafrão, beterraba, cará-moela, chuchu, couve, brócolis, fisális, mandioca, manjericão, mirtilo, pimenta, pimentão, salsa, shisô, tinguensai, zedoária. E, claro, as PANCs: azedinha, bertalha, capeba, nirá, ora-pro-nóbis e peixinho. Bê explica que cada cultivo exige um método diferente, como o slab (plantação em sacos) e o mulching (técnica que envolve a cobertura do solo). Para driblar as pragas, planta estrategicamente acelgas – um chamariz natural de insetos.

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Edna Celestino trabalha com Bê na produção. Créditos: Pablo Pereira.

O bendito morango
Durante a visita, conheci Edna Rodrigues Mariano Celestino – tirando as formalidades, só Edna. Há algum tempo, ela conhece e trabalha com Bê e também a auxilia na produção. Um pouco tímida, Edna conta que gosta bastante de mexer com a terra: “É glorificante, você plantar uma ‘mudinha’ e ver ela se desabrochar nisso. É muito bonito! Outro dia, eu plantei uma azedinha, depois vim aqui [na plantação] conferir se pegou [o cultivo] e se estava bonita. Cada dia, gosto de passar pelos ‘pés’ para ver como estão [risos]”.

Edna revela que sua plantação favorita é a de morangos e tem uma história por trás. Há 27 anos, ela enfrentou um sufoco com sua filha Nina (criança na época) por conta do morango. Vou explicar: tempos atrás não era tão fácil encontrar frutas fora da estação apropriada. Dito isso, Nina ficava reclamando muito que desejava comer uma certa fruta vermelha. Edna não sabia qual ela se referia, até colocar um pano de prato estampado com morangos. Nina ao reclamar de novo, apontou para o tecido e Edna finalmente entendeu. Então, começou a caça aos benditos morangos, que foi sem sucesso. Nina veio a ficar muito doente, por não comê-los. “Entendeu por que são meus favoritos?”, questiona Edna.

Morangos da produção da Bê. Créditos: Pablo Pereira.

São 46 anos como moradora em Parelheiros, nunca desejou mudar de região e por morar em uma terra muito fértil, em sua própria casa também há pequenos cultivos. “Tenho muitas plantas de vaso e uma mini-horta para plantar algumas coisas que acho bonito e interessante, como as PANCs. Nada pensando em comércio”, ela diz. “Esses dias, estava pensando como ia plantar morangos em casa. Tenho umas jardineiras, vou plantar lá. Acho que seria legal ter de enfeite. Quando vier uma visita, ela achará bonito”, acrescenta.

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Uma ex-moradora que tem um olhar pra lá
Troco alguns e-mails com a Mariana Belmont, ex-moradora do bairro de Colônia Paulista – um dos bairros que compõem o distrito -, membra da Rede Jornalistas das Periferias e colaboradora na Uneafro Brasil. Hoje, morando na Zona Oeste da cidade, Mari nunca deixou seu território para trás. Rememora com bons sentimentos: “Nasci no meio da Mata Atlântica, com alimentação saudável, horta em casa, convivia com agricultores e toda natureza em volta. Parece bonita e uma história romantizada, como se não houvesse problema, mas havia, claro”. Ela completa: “Meus sentimentos de quem nasceu, cresceu e foi criada em Parelheiros são os de liberdade e conexão justa com a natureza, com as brincadeiras e acampamentos. Me traz um sensação de privilégio nascer e viver ali. Sentimento de viver e poder viver de modo mais simples.”

Fã das verduras (escarola, azedinha, tinguensai, almeirão e afins), pergunto a Mari se alimentos “são pra ver ou pra comer”, ela traz a reflexão que comer pode – e é, de fato – um ato político: “Alimento é as duas coisas. Não se entende o ciclo da produção do alimento e toda a importância da agricultura familiar para a produção de água, economia local e preservação do meio ambiente. Comer é político e é privilégio também, por isso apoiar e fazer a informação desses alimentos girar é fundamental e necessário.”

Das coisas que a região marca a lembrança de Mari, fica uma recordação sobre o ato de preparar os alimentos: “Ver colher, guardar, depois lavar, preparar e armazenar, me emociona muito estar próximo e consumir alimentos tão necessários e importantes para o ciclo ambiental e social da cidade. Da infância, lembro do meu avô plantando, colhendo e preparando, eu chegava da escola e acompanhava esse ciclo de perto. Era nosso jeito de estar junto também.”

Localizada do outro lado da ponte (do Rio Pinheiros), Mari ainda tem acesso a alimentos orgânicos, porém os preços praticados por lá são altos:

“Ainda priorizo comprar os alimentos direto de Parelheiros, indo buscar ou recebendo as cestas aqui em casa. Além de ajudar a economia local girar, eu me alimento com o lembranças de afeto também”. 

Mariana Belmont, ex-moradora do bairro de Colônia Paulista, que compõe o distrito de Parelheiros. Créditos: Arquivo Pessoal.

Reflexões da viagem
Na volta para casa, verifico mentalmente se as dúvidas – do início do dia – foram esclarecidas. Boa parte delas sim, porém novas interrogações aparecem. Calma, que não existe espaço para mais perguntas nessa reportagem. Quem sabe na próxima? Das certezas, vejo que a alimentação nos dias atuais ficou automatizada. Praticidade é a palavra correta, porque o tempo é um moinho – como diria a música. Com internet e celular (ou computador) na mão, você pode pedir o que deseja: uma lasanha de quatro queijos até uva sem semente – nem vou comentar sobre esse item.

De verdade, ir até Parelheiros trouxe um sentimento de que “perder tempo” é necessário. É importante saber de onde vem aquilo que se encontra no prato, um simples ato de perguntar. As respostas não virão clara e facilmente, eu sei bem disso, mas fazem parte do processo. E para aqueles que não tem o privilégio de perguntas, leve as respostas (com cuidado e sem degraus). 

De volta à estrada. Créditos: Pablo Pereira.

*Conteúdo apurado antes da pandemia e das medidas de segurança com isolamento social.

Fique em casa! Porém, que casa?

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No início de 2019, segundo levantamento realizado pela Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc), em parceria com a Fundação Getúlio Vargas (FGV), o déficit habitacional (indicador de quantidade de cidadãos sem moradia adequada) no Brasil cresceu 7%, entre 2007 e 2017, e chegou a 7,78 milhões de moradias. Você pode ler mais sobre este estudo, aqui.

O déficit é calculado considerando variáveis, como a precariedade da moradia, a quantidade de famílias no mesmo domicílio, o valor do aluguel em face da renda per capta e o adensamento em dormitórios compartilhados. Pessoas com renda acima de quatro salários mínimos não são consideradas para cálculo do déficit habitacional, mesmo se usarem mais de 30% da renda com moradia.

A questão da moradia é uma das principais preocupações da Agenda 2030, a partir dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável,  e está diretamente ligada às estratégias que devem ser pensadas por empresas, ONGs e a sociedade como um todo para que se chegue a soluções a curto, médio e longo prazos.

A pandemia agrava ainda mais a situação da moradia no Brasil, com a impossibilidade de muitas famílias de manterem o aluguel em dia ou a dificuldade que as pessoas têm de respeitarem o isolamento social, devido à falta de uma moradia digna. Por isso, organizações como o Vivenda, o Moradigna e o FICA têm realizado planos emergenciais para continuar, de formas diversas, o trabalho junto às famílias por eles apoiadas.

Vivenda
O Programa Vivenda realiza reformas habitacionais em bairros do extremo Sul de São Paulo, com o foco em melhorias de moradias inadequadas. O Vivenda facilita o acesso às reformas e ao pagamento, parcelando os valores de projeto, mão de obra e material em até 30 vezes. O Programa já atendeu 5.600 pessoas e favoreceu mais de 1.600 reformas.

Sobre as ações que foram tomadas devido ao Covid-19, Fernando Assad, empreendedor social e idealizador do Programa, explica: “Paramos todas as obras para preservar os nossos executores parceiros, os pedreiros, bem como as famílias. Postergamos as parcelas dos próximos meses para as famílias que estão pagando seus empréstimos de reformas já feitas e ajudamos, com recursos adiantados, os trabalhadores para que executem as obras, de forma que os valores serão descontados futuramente”, O empreendedor salientou também a busca por crédito para manter a saúde econômica da empresa.

Além disso, o Vivenda conseguiu, por meio de doações de parceiros, o valor de R$100 mil, que foi destinado às famílias já cadastradas no Programa, para suprir bens de primeira necessidade. “Durante este tempo de isolamento e devido às restrições de circulação, estamos trabalhando na criação de uma plataforma nacional, que pretende ser um espaço de facilitação para outras pequenas organizações que estão na luta em ações semelhantes às que fazemos”, comenta Fernando. “O objetivo é disponibilizar, gratuitamente, informações para que estas organizações tracem um caminho mais linear”, completa.

Entre os apoiadores do Vivenda, o Bloco do Beco está com uma campanha de apoio aberta até o dia 28 de maio. O objetivo é apoiar ONGs que atuam nas periferias de São Paulo. O valor arrecadado será distribuído às famílias em situação de risco para a compra de cestas básicas e itens de primeira necessidade.

Fundo FICA
O FICA é um fundo imobiliário de propriedade coletiva.

Principais características do Fundo FICA. Fonte: fundofica.org. Créditos: Equipe de Arte da Aupa - Jornalismo de Impacto.

O público-alvo para o atendimento são famílias de baixa renda. Dessa forma, O FICA avaliza a diversidade, a permanência e a segurança das comunidades no território. O fundo adquire imóveis e os torna acessíveis, de modo a construir modelos alternativos ao mercado imobiliário tradicional.

Durante a pandemia, o FICA tem trabalhado na mobilização das redes para auxiliar projetos e instituições sociais ligados à moradia e à cidade. O Fundo Emergencial FICA em Casa foi criado para receber os valores, debater e decidir coletivamente quem vai receber os recursos, e destinar os valores recebidos a instituições ligadas à moradia urbana. Preferencialmente, são atendidos coletivos pequenos, que lidam diretamente com problemáticas, como moradia adequada e aluguel justo.

A primeira doação aconteceu no dia 10 de abril e o plano é doar semanalmente uma parte do total arrecadado para uma instituição ou um coletivo em situação de emergência durante oito semanas. Cada instituição receberá o valor de R$ 12.000,00 e a destinação dos recursos é decidida por um conselho, que se reúne semanalmente e à distância. Os critérios que definem quem receberá o recurso também são decididos semana a semana. Para cadastrar-se e concorrer aos recursos, a instituição deve preencher um formulário disponível neste link. As sugestões de entidades serão analisadas coletivamente pelo Conselho Curador.

Moradigna
O Moradigna é um negócio social que busca mudar a vida de milhões de brasileiros que moram em situação de insalubridade. Com atuação em toda a Zona Leste de São Paulo, em Manaus e no Rio de Janeiro (em Tabajara, Santa Marta, Bangu e Realengo), já impactou mais de duas mil pessoas e reformou mais de 500 moradias.

Com as obras de reformas paradas, a equipe está trabalhando de forma remota e aproveitando o tempo para tirar do papel um projeto de reforma virtual, que pode ajudar muitas famílias a melhorarem suas condições de vida, que é uma urgência em tempos de isolamento social.

O Reforma Virtual será uma solução para que a pessoa faça a reforma de forma autônoma e, num primeiro momento, vai oferecer o serviço para profissionais da construção civil para que possam fazer a reforma de suas próprias casas, com orientação do Moradigna.

Moradia e Política: conheça também a UNMP
A União Nacional por Moradia Popular foi fundada em 1989, com a articulação para a coleta de assinaturas para o primeiro Projeto de Lei de Iniciativa Popular realizado no Brasil. Em 2005, este PL deu origem ao Sistema, Fundo e Conselho Nacional por Moradia Popular (Lei 11.124/05). A atuação da organização articula e mobiliza movimentos de moradia, entendendo esta como um direito. Desse modo, a concentração do trabalho da UNMP se dá em movimentos que atuam em áreas de favelas, cortiços, sem-teto, mutirões, loteamento e ocupações.  Como resultados destas três décadas de mobilização, cerca de 30 mil moradias foram construídas em mutirões, além de prédios reformados para fins habitacionais e favelas urbanizadas. A organização participou ainda da construção de Políticas Públicas voltadas à habitação, como o Programa Minha Casa Minha Vida – Entidades. A UNMP também se mobiliza em ações, como distribuição de cestas básicas, neste contexto pandêmico. A União dos Movimentos de Moradia de São Paulo (UMM-SP), por exemplo, está com canal aberto para doações aos que desejam ajudar na compra destas cestas que serão destinadas às ocupações urbanas de prédio e terra favelas e mutirões autogestionários.

Para conhecer mais as discussões sobre moradia, periferia e desigualdades diante do Covid-19, você pode acessar o diálogo “Do emergencial ao longo prazo: pensando a cidade para além da pandemia”, organizado pela Rede Nossa São Paulo e pela Fundação Tide Setubal. Participaram do diálogo: Jorge Abrahão (Rede Nossa São Paulo), Maria Alice Setubal (Fundação Tide Setubal), Vagner de Alencar (Agência Mural) e Evaniza Rodrigues (UNMP).

Créditos imagem de capa: Instagram do Fundo FICA.

Como vai a comunicação do seu negócio diante desta pandemia?

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Um exercício breve: consegue se lembrar como as empresas as quais você consome produtos e serviços têm se comunicado? A estratégia mudou durante esta época de isolamento social? Agora faça esse mesmo exercício pensando em micro e pequenos empreendimentos  ao seu redor, que nem sempre têm em seu orçamento estratégias bem definidas de comunicação e marketing.

Com o isolamento social, enquanto medida de proteção, empreendedores têm se virado para continuar ofertando seus produtos e serviços. E muito dessa força vem de estratégias que alinham criatividade, redes sociais e acesso à internet – sendo este último um recurso não tão acessível assim. Sem esquecer, claro, do impulso das parcerias.

O Comitê de Impacto Social, por exemplo, é um destes coletivos que buscam dialogar com pequenos empreendedores de diferentes maneiras para que eles possam vender seus produtos e serviços em épocas de crise. Encabeçado por Emperifa, Aupa, Meninas Mahin e Back to Basics, o comitê atende sobretudo pequenos empreendimentos de regiões periféricas  com técnicas de vendas, comunicação, dicas para usar redes sociais e processos de entrega de produtos. Para receber os conteúdos e os alertas das lives, você pode se cadastrar neste link.

Encontro online do Comitê de Impacto Social. Na imagem, Marcelo Machado, da causar, dialoga com Ednusa Ribeiro, do coletivo Meninas Mahin. Créditos: Divulgação.

Marcelo Machado, fundador da causar, plataforma de conteúdo focados em propósito, foi um dos convidados pelo comitê para o diálogo com empreendedores, via webinar. Na oportunidade, ele compartilhou sua experiência no mercado audiovisual e deu dicas para tornar o celular e sua câmera aliados na hora de expor e vender um produto. por exemplo. “Estamos vivendo um momento inusitado e convivendo com algo para o qual não estávamos minimamente preparados. Fomos convidados, ainda que de forma compulsória, a ficarmos em casa e repensarmos sobre quem somos e como são nossas relações com nós mesmos, com o outro e com o mundo”, pondera ele.

A relevância das parcerias é um caminho também para enfrentar velhos problemas estruturais e suas consequências – como uma espécie de união entre os pequenos negócios. “Vivemos em um país pressionado por três crises simultâneas: sanitária, econômica e política. Isso tudo num Brasil com extrema desigualdade social (raça, gênero, renda) e baixíssima mobilidade social o que agrava ainda mais os nossos problemas, sobretudo nos territórios periféricos onde vivem pessoas em vulnerabilidade”, destaca Machado. 

As atividades do Comitê de Impacto Social continuam e em maio a nova programação será divulgada.

Designers em ação!
E se cada um dos profissionais de design, marketing e tecnologia ajudar um micro-negócio local durante a crise e a se adaptar a um mundo totalmente digital?”. É com esta provocação que a iniciativa Designers do Povo se apresenta. Trata-se do encontro de profissionais digitais com os proprietários de pequenos negócios, de maneira colaborativa e sem custo. Uma forma de firmar parcerias e apoiar a economia local e os pequenos empreendimentos que não se encontram na classificação de negócios essenciais – e que sentem com mais força as consequências do impacto econômico, sobretudo devido à pandemia.

A iniciativa pretende atuar em escala global (já conta com a adesão de designers de países como Itália, Canadá e México) e explora potencialidades da Economia Criativa e da comunicação digital. Os designers são voluntários e cadastram-se pelo app, onde é possível procurar um pequeno negócio para auxiliar. Se você é um nano ou microempreendedor e precisa de ajuda, basta acessar gratuitamente este formulário. A ideia é fazer a ponte entre quem precisa e quem está disposto a ajudar estas marcas.

Rui Lira é o idealizador da iniciativa e ressalta a importância de aliar o conhecimento e a tecnologia em momentos de crise como o que vivemos. “É onde o nosso trabalho se torna mais relevante, pois o potencial de transformação social está latente”, explica. Ele também fala sobre a urgência de globalizar a ideia. “Para criar consciência sobre a relevância do comércio local e do microempreendedor para a prosperidade das economias locais e vitalidade das cidades”, completa. Em pouco tempo de desafio, a iniciativa já cumpre o seu propósito: na primeira semana, já foram mais de 100 designers e 30 proprietários envolvidos.

Rui Lira, idealizador da iniciativa Designers do Povo. Fonte: Site do Rui Lira/ruilira.com.

Para outras informações, você pode entrar em contato com a iniciativa pelo e-mail ou pelas redes sociais FacebookInstagram

BOX: Articulação, parceria e mobilização
Um dos negócios que recebeu auxílio foi a mobilização liderada por Alex Fisberg e Vitor Motomura, ao lado da Pivoart e do Feito a Laser, para a confecção de máscaras do modelo face shield para instituições de Saúde, sobretudo aquelas que atendem ao SUS. Eles contaram com o apoio da designer Paula Ynemine na criação de posts para a campanha de arrecadação. “Essa era uma campanha bem emergencial, por questão de necessidade. Existe um pequeno empreendimento por trás da iniciativa”, comenta Paula. Um exemplo de comunicação digital e design aliado ao impacto social positivo – e urgente. A campanha de doação, feita no site Benfeitoria, foi concluída e alcançou as seguintes marcas:

Dados da campanha de doação de máscaras face shield feita pela Pivoart e pelo ateliê Feito a Laser. Créditos: Equipe de Arte da Aupa – Jornalismo de Impacto.

Vote em impacto para presidente

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Primeiramente, a realidade nua e crua: vivemos tempos de exceção, com um presidente autoritário eleito e índices sociais e econômicos em declínio. Nossa carta magna e as instituições democráticas são colocadas à prova a todo momento. Ao mesmo tempo, seguimos com um congresso nacional viciado em um fisiológico sistema de poder, permeado por interesses de balas, bois e bíblias. O momento é difícil para todos e a sociedade está mais dividida que anos atrás.

Já naturalizamos o que deveríamos combater. Assistimos manifestações claras de fascismo, ataques ao STF e à imprensa, e flertamos com convites a golpes militares. Tudo ao redor nos faz criar aversão à política e aos políticos. A descrença no sistema é enorme e em reação a tudo e a todos: a “sociedade civil” parte para o ataque. Imbuídos de espírito cívico, surgem pelo país milhares de iniciativas e pessoas inspiradas para fazer, apoiar ou financiar negócios que salvarão o planeta, vidas humanas ou preencher com propósito milhares de carreira. Tudo certo, só há um pequeno detalhe.

A sociedade não se transforma sem política. Não há vácuo de poder e se o setor de impacto quer impactar a sociedade, precisa impactar também a política, precisa ocupá-la. A pandemia, que ceifa vidas e nos faz (os que podem) ficar em casa, traz a necessidade do pensamento coletivo. E, por mais maravilhosos, fundamentais e bem sucedidos que os negócios de impacto sejam, por mais que lideranças sociais das periferias ou arrependidos do setor financeiro surjam, por mais que o setor cresça em financiamento e adesão de novas mentes e corações impactados pelo impacto, nada será feito em profundidades e sem a política.

Se todos os negócios querem mudar o mundo, é preciso combinar com quem também move o mundo, os representantes eleitos em uma democracia.

Não dá para ser omisso: é preciso falar, se posicionar, sujar as mãos. Lideranças do setor de impacto têm que falar abertamente de política e de políticos. Sem política, sem representantes, o movimento pelo impacto social não avançará. Não basta só agir via advocacy ou compliance. É preciso representação política dentro de todas as esferas do poder público, principalmente no Legislativo e no Executivo. Não ter medo de falar abertamente e começar a pensar quem serão os próximos vereadores, deputados, senadores, prefeitos e governadores, não somente comprometidos, mas que representem o impacto como fundamental para a sociedade. Imagine se boa parte dos representantes fossem empreendedores sociais?

Se há receio de entrar nessa arena, às vezes tóxica e burocrática, o impacto será limitado. Acreditar somente no poder do capital financeiro e abdicar do capital político pode ser um erro estratégico que será cobrado no futuro. É preciso ir além do Enimpacto ou da legislação e dos entendimentos judiciais sobre impostos e doações para o Terceiro Setor. A sociedade pede taxação de grandes fortunas e acredita que a renda mínima poderia ser implantada. O que o setor de impacto pensa sobre esses temas? Ficar alheio à política é deixar o setor de impacto pequeno diante do desafio.

Não se posicionar ou não participar do debate: é covardia. Precisamos ocupar a política. Vamos juntos?

Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa.

Alternativas e desafios do ensino a distância

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***NÃO USAR EXCLUSIVO EMPREENDEDOR SOCIAL*** SAO PAULO, SP - 28 JULHO: Alunos usam a plataforma Geekie para melhorar seus estudos, e escolas publicas e particulares, em Sao Paulo, em 28 de julho de 2014. (Foto: Na Lata)

A suspensão das aulas presenciais em todo o país, sem um prazo definido de retorno à normalidade, pegou de surpresa pais, professores e alunos. Medida preventiva para evitar a disseminação do Coronavírus (Covid-19), a decisão acendeu o sinal amarelo principalmente para quem está no ano de prestar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e vestibulares. E, ao reconhecer essa situação, algumas empresas na área de Educação tomaram iniciativas para ajudar nos estudos.

A empresa de impacto social Geekie disponibilizou, de maneira gratuita desde o dia 30 de março, 20 mil bolsas para o Geekie Games, plataforma online de preparação para o Enem. A ferramenta, reconhecida pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC), chegou a figurar como principal meio de estudo online para o Enem em 2016 e é voltada para estudantes de escolas públicas de todo o país. Intuitiva, ela traça uma análise sobre o desempenho do aluno, identifica as disciplinas que ele tem mais dificuldade e elabora um plano de estudos personalizado.

Claudio Sassaki, fundador da Geekie, espera, com a medida, beneficiar estudantes que se preparam para o Enem e vestibulares e que podem se sentir prejudicados pela suspensão das aulas.

Claudio Sassaki, CEO da Geekie. Créditos: Divulgação.

“É a nossa forma, como negócio de impacto social, de fazer a nossa parte para que, como sociedade, possamos vencer esse grande desafio de saúde pública”,

afirma Claudio Sassaki.

A escola online Stoodi também resolveu liberar temporariamente o acesso gratuito a todas as suas videoaulas e bancos de exercícios. A medida, tomada no dia 13 de março, valeria por apenas 30 dias, porém o prazo foi prorrogado para dar “suporte àqueles que ainda não tiveram a oportunidade ou a condição de se adaptar a uma nova realidade”, como consta em nota divulgada pela escola.

Maíra Villamarin, coordenadora de comunicação da Stoodi, explica que a ideia inicial era de manter a ação “Stoodi de Portas Abertas” por 30 dias, mas com a prorrogação da quarentena, o prazo foi estendido também. “Já estamos há quase dois meses ‘de portas abertas’, recebendo alunos de todo o país, firmamos parcerias com Secretarias de Educação dos Estados de São Paulo e Ceará, para atender, sem custo, os alunos da rede pública e ainda manteremos nossa plataforma aberta ao público até o final do mês de maio“, detalha ela.

Acessibilidade desigual
Apesar de bons esforços de empresas como a Geekie e a Stoodi, o acesso à internet ainda é uma barreira para muitos brasileiros. Mesmo após um grande salto em um período de quase uma década, de 39% da população com acesso em 2009 para 70% em 2018 (dados da pesquisa TIC Domicílios 2018), esse número ainda representa uma grande disparidade para se pensar em uma educação online inclusiva. Ao trazer o recorte para escolas rurais, a desigualdade fica ainda mais evidente. A pesquisa TIC Educação realizada em 2018, com 1.433 diretores ou responsáveis por escolas rurais, apontou que 43% dessas escolas não possui acesso à internet por falta de estrutura na região.

Essa realidade apresentada está longe de poder propiciar aulas a distância, como foi anunciado pelos governos de alguns estados do país, como Rio Grande do Sul e São Paulo. E mesmo nos estados e municípios em que o ensino a distância foi adotado, outros problemas também entram na lista de desafios: conexão limitada em algumas regiões periféricas, celulares defasados, e a falta de interação dos alunos com os professores durante as aulas.

Por conta das desigualdades, entidades representativas dos estudantes como a Ubes (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas) e a UNE (União Nacional dos Estudantes), assim como o Consed (Conselho Nacional de Secretários de Educação), manifestaram sua posição contra a manutenção do calendário do Enem. O exame, por ora, segue com as datas marcadas para 1º e 8 de novembro para a prova impressa, e 22 e 29 de novembro para prova digital.

Para ler mais:
– O portal IDeA apresenta o Indicador de Desigualdades e Aprendizagem (IDeA), que revela o nível de aprendizagem para cada município brasileiro, assim como as respectivas desigualdades de aprendizagem entre grupos sociais por nível socioeconômico, racial ou de gênero. O portal é uma iniciativa da Fundação Tide Setubal e de diferentes grupos de pesquisa em Educação e Desigualdades.

– Segundo o portal IDeA, especificamente no Brasil, não há registro de “pesquisas sobre as consequências de longas interrupções das atividades escolares sobre as desigualdades de aprendizagem”. Porém, embasado em outras experiências, pesquisas e dados, propõe esta reflexão sobre a suspensão das aulas em meio ao Covid-19.

– A UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) criou uma página exclusivamente para informações e dados sobre os impactos do Coronavírus na Educação no mundo todo.

– O GIFE (Grupo de Institutos Fundações e Empresas) também propõe reflexão acerca dos desafios da educação em meio à pandemia e lista a ação de algumas organizações sobre este tema.

– O projeto Universidade Emancipa (do movimento social pela educação Rede Emancipa) está com inscrições abertas até o dia 9 de maio para o curso on-line “Entender o mundo hoje: lições da pandemia para as periferias”. Os diálogos serão sobre impactos do Covid-19 e potenciais saídas considerando a experiência periférica.  O curso é gratuito e será realizado entre 5 de maio a 7 de julho, às terças-feiras, das 19h às 21h. O apoio é feito por docentes da Faculdade de Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP).

Selo UNICEF: impacto na vida de crianças e adolescentes da Amazônia e do Semiárido brasileiro

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Do interior do Ceará aos menores municípios do Pará. Das estradas do sertão às marés dos rios amazônicos. O Selo UNICEF hoje cobre 70% do território nacional atuando em duas regiões distintas do país: a Amazônia e o Semiárido. O programa criado pelo Fundo das Nações Unidas pela Infância tem sido diferencial para fomentar políticas públicas em prol dos direitos de crianças e adolescentes brasileiros. A 57 dias do fim da edição 2017-2020 do Selo, cerca de 1.200 municípios buscam pela certificação – dados do dia 4 de maio de 2020.

Mapa do Brasil indicando as regiões amazônica e semiárida. Créditos: Equipe de Arte da Aupa - Jornalismo em Negócios de Impacto Social.
O impacto do Selo consiste em unir diferentes órgãos setoriais públicos – Saúde, Assistência Social e Educação – e incentivar o trabalho conjunto para alcançar metas estabelecidas pelo UNICEF durante quatro anos, acompanhando o mandato da gestão municipal. Entre os objetivos estão: aumentar o número de crianças na escola, reduzir a taxa de gravidez na adolescência, promover acesso ao pré-natal e, acima de tudo, incentivar que crianças e adolescentes sejam porta-vozes de suas próprias reivindicações.
Selo UNICEF. Ao aderí-lo, o município assume o compromisso de manter a agenda de suas políticas públicas pela infância e pela adolescência como prioridade. Crédito: UNICEF.

De acordo com relatório do UNICEF com base no PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) de 2015, seis em cada 10 crianças e adolescentes brasileiros vivem na pobreza monetária e privações múltiplas, como o acesso à educação, informação, água, saneamento e moradia. Nas estatísticas por região, Norte e Nordeste aparecem com os maiores índices – 75,1% e 63,4%, respectivamente, é a porcentagem de crianças e adolescentes com privação de um ou mais direitos.

“É importante afirmar que o Selo não inventa nada, é um projeto que busca, a partir dos marcos legais da infância e adolescência – o Estatuto da Criança e do Adolescente, a Constituição, entre outras políticas públicas – reafirmar a importância da promoção, da realização e da garantia dos direitos de crianças e adolescentes”, destaca Ida Pietricovsky, especialista em comunicação do UNICEF na Amazônia.

Os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável estabelecidas pela ONU. Créditos Reprodução/Agenda 2030 ONU.

A proposta também visa cumprir oito dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), a agenda global de metas estabelecidas pelas Nações Unidas que devem ser alcançadas até 2030. Na prática, o UNICEF monitora indicadores, mobiliza e capacita agentes para alcançar os objetivos – os da ONU e do Selo.

A adesão é voluntária. Quando a gestão pública se compromete, quem faz acontecer são técnicos, gestores, conselheiros, lideranças comunitárias e adolescentes – também voluntários do programa. Cada município seleciona voluntários para atuar como articuladores e mobilizadores de adolescentes pelo Selo. De jornalistas a funcionários públicos, eles não escondem a paixão pelo trabalho: 

“Enxergamos no olhar de cada criança e adolescente que eles estão aqui conosco e querem ser alguém que um dia poderá contribuir com o crescimento do município. Os vemos receberem educação, assistência social, saúde. Sou motivado pelo crescimento da comunidade, melhorando e trazendo prosperidade a crianças e adolescentes que levam uma vida muito difícil”, conta Jhonny Marques, mobilizador em Envira, no Amazonas.

Entre os desafios, Jhonny lembra da demanda por diálogo e instrução. “No início do Selo, tivemos que fazer as famílias entenderem que o lugar de criança é na escola, que abuso sexual é crime, que os cuidados com a gestação da mulher são essenciais”.

Caminhada “18 de maio” em Envira (AM) - contra o abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes. Créditos: Jhonny Marques.

Realidades da Amazônia e do Semiárido

Entre as frentes de atuação do Selo está a Busca Ativa Escolar, momento quando profissionais saem às ruas, de porta em porta, para identificar crianças que não estão indo à escola e conscientizar suas famílias. “Há vários fatores sociais que levam uma criança a desistir da escola: abuso sexual, condições financeiras, não ter material escolar ou uma sandália para ir à escola, ou necessidade de trabalhar para ajudar a família”, aponta o mobilizador Jhonny. 

Outras necessidades identificadas ao longo do programa também motivam a adequação do Selo. Ida Pietricovsky, especialista do UNICEF, revela que foi a partir da observação do território que os indicadores de saneamento básico da Amazônia também ganharam destaque.

Segundo o UNICEF, enquanto, no Brasil, o índice de atendimento de esgoto é de 51,9%, no Amapá, Amazonas, Pará e em Rondônia, esse percentual não chega a 10%. “Levantamos a  discussão com os municípios para que pelo menos produzissem o Plano Municipal de Saneamento Básico (PMSB), de acordo com a exigência da Lei 11.445 de 2007. De pouco mais de 30 municípios até setembro do ano passado, cerca de 90 aprovaram seus PMSB e outros 362 iniciaram sua construção”.

De pouquinho em pouquinho, ações do Selo têm movimentado indicadores nacionais: entre 2004 e 2016, a taxa de abandono escolar nos estados comprometidos com o Selo caiu de 14% para 3%. Mais de um milhão de crianças e adolescentes deixaram de abandonar a escola e 55 mil crianças deixaram de morrer por causas evitáveis. Na comparação entre os municípios de cada região, o avanço de quem se compromete com o Selo tende a ser ligeiramente maior.

“É importante dizer ainda que, na medida em que o município abre espaço de participação e engajamento de adolescentes, há melhoria na autoestima de todos os envolvidos, pois melhoram os resultados escolares e cai dramaticamente o abandono escolar”, reforça Pietricovsky.

A voz dos adolescentes

Todos os municípios também devem formar um Núcleo de Cidadania de Adolescentes (NUCA), o principal meio de inclusão de jovens na discussão sobre a gestão pública. Cada núcleo deve cumprir uma série de desafios envolvendo direto à inclusão digital, alimentação saudável, práticas de enfrentamento ao racismo, emissão de título de eleitor, entre outros.

Foi lá que Wilmarques Cruz começou a se envolver no Selo, 13 anos atrás. Quando adolescente, ele foi membro do núcleo. Atualmente, é o articulador do Selo UNICEF em Itabaiana (SE). Como ele, muitos jovens têm encontrado vocação, motivação e oportunidades em 1.470 núcleos pelo país. “O que me motiva é saber que estou contribuindo direta ou indiretamente para a melhoria da qualidade de vida das crianças e adolescentes do meu município, sendo um agente transformador da realidade local para assegurar a equidade no acesso a direitos conferidos pela Constituição Federal e fazer valer o Estatuto da Criança e do Adolescente”, salienta.

Outro exemplo é Felipe Caetano, integrante do NUCA de Aquiraz (CE). Em depoimento ao UNICEF, ele conta que trabalhava para gerar renda à família desde os 8 anos. Aos 13, como agente do Selo, começou a refletir sobre sua situação: “Nossa, eu estou lutando pelos direitos de crianças e adolescentes, mas eu também estou trabalhando. Estou retirando meus próprios direitos. Estou tentando garantir os dos outros, mas os meus estão sendo tirados”.

Mesmo com a dificuldade financeira da família, Felipe buscou conscientizar seus familiares e evitou que a irmã mais nova também fosse vítima do trabalho infantil. Tornou-se um ativista. Aos 18, participou de uma reunião com o Conselho Executivo do UNICEF, em Nova York, em setembro de 2019. 

Os exemplos de representatividade são diversos: ainda no ano passado, 53 jovens integrantes de NUCAs de todo o país redigiram uma carta manifesto, lida no Tribunal Superior Eleitoral, em Brasília.

Quando o próximo mandato começar…
Ao final de cada edição, quem comprova ter atingido os resultados esperados pelo UNICEF recebe uma certificação reconhecida globalmente e ganha o status de município aprovado pelo Selo, uma espécie de indicador positivo da gestão pública. A média de municípios certificados, no entanto, ainda deixa a desejar. Do número inicial de inscritos em cada edição, menos da metade ganha o Selo. Mas quem sempre ganha são as crianças e adolescentes – pontos para quem leva à frente os Direitos Humanos.

O ciclo 2017-2020 chega ao fim, mas o trabalho em prol das crianças e adolescentes ainda continua em muitas edições e mandatos governamentais futuros. Questionada sobre como se sente enquanto profissional e agente de mudança, a especialista Ida Pietricovsky afirma ter um “sentimento dúbio”: “Trabalhar com direitos humanos num país como o Brasil é lidar com avanços e retrocessos. Cada denúncia de destruição da floresta, de uma criança que morre por causas evitáveis, de um adolescente assassinado por ser negro e pobre, me dói na alma. Mas, ao mesmo tempo que dói, me dá energia para seguir lutando. Espero que minha luta seja a luta de muita gente, pois isso atinge a todos, indistintamente.”

Vale o lembrete: ainda que a obtenção do Selo UNICEF seja um indicador positivo aos gestores públicos, a proposta do UNICEF não passa de um reforço à execução de ações prioritárias na agenda de qualquer prefeito ou governador, independentemente da adesão ao Selo. Prezar pelas políticas públicas voltadas a crianças e adolescentes ainda é dever de todos. Fique atento ao compromisso do seu candidato com as políticas pela infância na próxima eleição!

Alerta à pandemia:
Pela situação global vivida com o Covid-19, atividades do Selo como a Busca Ativa Escolar foram suspensas. Mas a mobilização continua: entre as prioridades do UNICEF estão o apoio para que sejam disponibilizados acesso a água, materiais de limpeza e higiene pessoal para as comunidades mais vulneráveis, além do suporte às equipes municipais dos Conselhos Tutelares e da Assistência Social para prevenção e encaminhamento dos casos de violência contra crianças e adolescentes.

O UNICEF também lançou, em parceria com Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho (IFRC) e a Organização Mundial da Saúde (OMS), um documento com orientações globais para proteger crianças e escolas da transmissão do vírus. Acesse aqui.

*Conteúdo apurado antes da pandemia e das medidas de segurança com isolamento social.

Jardim Ângela e Inglaterra: uma conversa sobre o impacto das trocas

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No Jardim Ângela, região Sul da capital de São Paulo, pesquisadores da Universidade Loughborough (Londres) se reuniram para conversar e trocar conhecimentos sobre empreendedorismo social, principalmente dentro das periferias. Os anfitriões do encontro foram DJ Bola e Fabiana Ivo, da ANIP (Articuladora de Negócios de Impacto da Periferia), referência no ecossistema que fomenta empreendimentos sociais e de impacto nas regiões periféricas. Este diálogo foi fruto de uma ponte feita entre Aupa e as organizações envolvidas.

Mapa de São Paulo indicando Jardim Ângela. Créditos: Equipe de Arte da Aupa - Jornalismo em Negócios de Impacto Social.

Ao longo do dia, Bola e Fabiana guiaram os pesquisadores pela história do distrito e como os contextos de violência, vivido pelos integrantes na década de 1990, influenciaram a criação da produtora A Banca e, posteriormente, a ANIP.

Para entender esse contexto: Em 1996, a Organização das Nações Unidas considerou a região do Jardim Ângela, um dos lugares mais perigosos do mundo. Devido aos altos índices de criminalidade e baixos indicadores de IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) entre os moradores. Na última década, a região, que abriga 317 mil habitantes – dados do último Censo IBGE -, vem tendo um cenário melhor. Porém, os desníveis sociais ainda persistem e são trabalhados ou amenizados com iniciativas, como a da A Banca.

Fabiana Ivo vê que todas as ações desenvolvidas (por organizações e coletivos), nos últimos vinte anos, contribuíram para essa melhoria no local. No caso da A Banca, utilizar da cultura Hip-Hop – muito popular e forte nas periferias – criou um diálogo direto com aquela juventude. “A gente fez da música uma ponte, inclusive, para fazer com que as pessoas se encontrassem na própria periferia. Algo próprio na época, nossos encontros em praças públicas permitiram essas misturas e, delas, criou-se a consciência de que eram iguais, independentemente do lugar. Rompeu com as práticas de violência que existiam no território”, diz Fabiana. Os membros da A Banca formam a banda Abôrigens.

O que agrega para ambos os lados?
Ana Cristina Suzina, pesquisadora na área de Mídia e Democracia da Universidade Loughborough e guia da expedição pelo Brasil, acredita que conexões como essa visita ao Jardim Ângela, permite entender quais são as reais questões de desenvolvimento que as periferias enfrentam, indo além de problemas estruturais e financeiros. “Se nós queremos falar sobre desenvolvimento ou conhecimento social, precisamos estar com os olhos mais abertos e os ouvidos atentos para se aproximar a essas realidades e dialogar com elas”, ela comenta.

Para Fabiana, espaços como esse provocam um auto-reconhecimento de privilégios e uma reflexão em cima das práticas no dia a dia: conversar com pessoas fora da sua realidade (econômica, racial ou gênero). “Receber pessoas da ‘gringa’ ou brasileiros que são de relações sociais diferente das nossas, mostrou, para nós, a potência que temos e qual inovação desenvolvemos. Entendemos que intercâmbios, trocas e redes, que vamos construindo e nos conectando, impactam a mudança de uma vírgula no processo histórico e é uma vírgula no processo histórico”, afirma Fabiana.

*Conteúdo apurado antes da pandemia e das medidas de segurança com isolamento social.

A filantropia também padece de respiradores

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Assistimos da janela do nosso PC,
durante a quarentena,
atores da filantropia
rompendo barreiras
e se comunicando com muita facilidade,
redes de trocas sendo geradas,
compartilhamentos solidários, 
marcas bilionárias sendo mobilizadas
e
um claro propósito comum na mesa:

Ajudar pessoas, comunidades e organizações
em situações de maior vulnerabilidade
social, econômica, sanitária, etc.

É pra isso que estamos aqui, não é?!
Creio que boa parte de quem, como eu, atua no setor
traz isso dentro de si

tem sido isso que nos move dia a dia.

Neste sentido, 
milhões de reais são mobilizados,
regras de compliance são flexibilizadas,
etapas simplificadas,
enfim, 
propósito maior e senso de urgência
são colocados acima de quaisquer
questões menores.

Outro golaço do nosso setor!

Mas…

por que passamos a atuar desta forma apenas em contextos de ‘guerra’?

 

não deveríamos atuar assim como setor fundacional desde sempre?

 

E quando a poeira desta crise terrível baixar?
Voltaremos aos nossos quadradinhos institucionais?

Aos nossos editais, sistemas, jurídicos, processos?

Às reuniões inúteis, ás metas imbatíveis, aos formulários chatos,
que tanto nos consomem tempo, energia
e nos distanciam deste propósito maior, que,
aparentemente, todos compartilhamos?

No contexto da crise atual,
há algumas clarezas visíveis a olho nu, que bom!
– pouca dúvida sobre a quem servimos e porque existimos.

Mas nem tudo são flores.

Nosso setor e nossa natureza humana
trazem conosco
o exibicionismo da ajuda.
Afinal,
é preciso mostrar ao mercado, ao setor, aos pares, aos Conselhos
que estamos fazendo bonito neste momento.
Isso também nos fortalece interna e externamente, não é?

Vem junto neste combo
nossa incapacidade de dar conta das demandas intermináveis,
em priorizarmos o que é essencial,
em não sermos capazes de escolher qual problema iremos atacar.

Em outros tempos, isso se chamava foco.

Daí, e-mails não respondidos, comidas de bolas e furos
e a demonstração de nossa fragilidade como agentes de transformação.

Sim, também temos nossos limites,
embora tentamos deixá-los sob o tapete.

Pra complicar um pouco mais 
olhares divergentes sobre o ‘modo apagar incêndio’
não são muito bem-vindos.

Soam como mimimi
ou jogando contra.

Aliás,
nosso setor tem dificuldade crônica em lidar com auto-crítica,
afinal, tudo o que somos e fazemos é lindo maravilhoso, não é?

Afinal,
convém lembrar que:
– nem todos os institutos e as fundações têm fundos de reserva/patrimoniais
ou políticas orçamentárias que assegurem caixa para prosseguir com suas operações.

Em outras palavras:
– dependemos como nunca de nossas mantenedoras,
que em menor ou maior grau, sofrem no contexto atual
(alguém sai ou sairá ileso a ele?).

– Alguns investidores sociais têm inclusive revelado seu lado ‘captador de recursos’,
procurando identificar oportunidades de captar recursos (‘funding‘),
a partir da mobilização de doações de diversas ordens que se apresentam.

Faz parte…
Embora já haja uma classificação clássica no setor
entre grantmakers e grantseekers
(investidores e captadores, no tupiniquês).

– Já outros, seguem um pouco desorientados sobre quais rumos seguir,
sobre quais seriam análises sensatas de contextos e que façam real sentido
aos seus propósitos institucionais e aos seus bolsos orçamentários.

Se espremem em calls, lives e webinares,
buscam em artigos e opiniões
alguma reflexão sobre a conjuntura atual,
algum fio de luz de sensatez.

Mas o que parece mais funcionar são as trocas de contatos
e a comunicação unilateral institucional do tipo:
‘nosso instituto está fazendo isso ou aquilo, vejam que lindo’.

Eu sei, leitor(a),
estou sendo meio ácido aqui,
mas o propósito deste texto é este mesmo.

Mas como construir análises de contexto face a um cenário absolutamente volátil
e que não exponha marcas, instituições e bolas divididas?

Que não exponha que nosso setor
precisa de respiradores de forma crônica.

Afinal,
não tem faltado oxigênio novo
na filantropia?

Tanto é que
os cafezinhos e os corredores dos eventos
vinham sendo os melhores momentos de trocas
entre pares.

Mas, neste momento de crise,
como nos fortalecermos como setor?
Como reforçar relevância de nosso instituto ou fundação,
evitando cairmos no estouro da boiada,
sem sair lançando iniciativas a toque de caixa, pra mostrar a todos
que nossa organização também tem uma ação autoral bacana pra apresentar
(com ou sem live)?

Será que é assim que se mostra seu valor,
perante mantenedoras e conselhos?
Perante a sociedade?

Que triste…

E qual o legado essa onda deixará em nosso DNA institucional?
Difícil prever, mas, ao menos, poderia listar aqui um par de itens
de uma lista pessoal e aspiracional de sonhos de consumo:

  1. Que repensemos nosso modus operandi
    sendo menos burocráticos e mais ágeis.
    Atuando mais em rede e de forma cooperativa (pra valer!),
    apoiando financeiramente organizações da sociedade civil com atuação na ponta
    (sim, elas também precisam de $ pra bancar salários, aluguel, sem ter que
    dar um ‘migué’ nas rubricas dos projetos),
    resistindo às pressões de mantenedoras de seguir a boiada do branding,
    revisitando modelos de governança à luz da agilidade e do virtual.
    Enfim, que sejamos mais ágeis, mais acessíveis, mais disponíveis e com mais pé na realidade.

 

  1. Que repensemos nossos projetos próprios, que só atacam sintomas
    e superfícies das questões socioambientais complexas que nos permeiam.
    Pra isso, teremos que passar a nos assumir como atores políticos (não partidários),
    a nos assumir como players relevantes no tabuleiro chamado esfera pública,
    que vai muito além da prefeitura do território onde atuamos.

Terreno bastante pantanoso, não?

Venho participando de uma série de calls e conversas virtuais
entre investidores sociais
e tenho saído delas com um mix de motivação e desmotivação
(por tudo já exposto aqui).

Às vezes, fico me perguntando o que sigo fazendo aqui no setor.

Outras vezes, tenho a clareza de que aqui segue sendo o meu lugar,
mais pelo nosso potencial transformador,
menos pelo nosso modus operandi elitista, burocrático e pouco empático,
embora nosso discurso tente dizer o contrário.

O que parece tirar meu sono, 
pra minha felicidade ou desgosto,
parece tirar o sono de tantos outros,
sobretudo, aqueles que ainda não migraram de área de atuação,
ao menos por enquanto….

#LiveAupa 3 – O ecossistema de impacto durante (e pós) a Pandemia

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Na transmissão de hoje sobre o ecossistema de impacto e a pandemia da COVID-19, Aupa convidou para o diálogo o executivo Joan Melé, catalão, reconhecido pela disseminação do conceito de “bancos éticos” pelo mundo. Com mais de 35 anos de atuação na área de finanças sustentáveis, ele foi diretor do banco Triodos, na Espanha, do qual é conselheiro. Nos últimos anos, tem se dedicado à promoção do Banca Ética na América Latina e à promoção de seminários sobre economia consciente e empresas sustentáveis. Atualmente, Joan é o presidente da Fundación Dinero y Conciencia e lidera o processo de implementação do “banco ético” no Brasil. A transmissão foi ao ar hoje, dia 24 de abril, diretamente pelos canais da Aupa e busca dar respostas aos desafios de uma nova proposta de sistema financeiro sustentável durante e após o Coronavírus.

ONGs unem esforços para apoiar refugiados em meio à pandemia

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Mais de 200 mil refugiados haviam feito solicitação de reconhecimento da condição de refúgio no Brasil, segundo informações do Conare (Comitê Nacional para os Refugiados) de outubro de 2018. Este dado reforça a necessidade de apoio específico a este público em meio à pandemia do coronavírus. 

São pessoas que já se encontram em condições de vulnerabilidade, uma vez que deixaram o país de origem, pois não têm proteção e sofrem ameaças e perseguições. Aqui no Brasil, na maioria das vezes, trabalham em condições informais e encontram mais dificuldade em acessar políticas públicas, como o recente auxílio emergencial de R$600,00 disponibilizado para desempregados e trabalhadores sem carteira assinada.

“Tem muita dificuldade, vários casos dão como CPF não autorizado. Articulamos com a DPU [Defensoria Pública da União] para identificação do imigrante. Tem pessoas que foram aprovadas, mas muitos não conseguiram cadastrar. Estamos tentando cobrar, negociar, fazer valer nossa voz”, afirma Jean Katumba, presidente da ONG África do Coração

 

Mobilização
Fundada por imigrantes, a ONG África do Coração tem desenvolvido diversas ações  para apoiar refugiados. Neste último mês de abril, a ONG distribuiu cestas básicas e kits de higiene para mais de 50 famílias de migrantes na região central de São Paulo. A organização pretende atender outras famílias de migrantes, além de apoiar uma ocupação que possui mais de 300 famílias refugiadas. É possível contribuir com doações neste link.

Para ajudar refugiados e imigrantes que estão em processo de regularização de documentos e possuem dúvidas em relação ao atendimento em meio ao Covid-19, o escritório de Advocacia Mattos Filho juntamente com a Caritas de São Paulo desenvolveram um documento com orientações para este público.

Soluções para apoiar a empregabilidade dessas pessoas também se adaptaram aos tempos de pandemia. A Toti Diversidade foca em educação para desenvolvimento web para refugiados. A organização articula uma jornada de aprendizado com foco nas demandas das empresas de tecnologia e, ao final do curso, os refugiados conseguem emprego nesses locais. A startup social teve que mudar o formato das aulas presenciais quando foi estabelecida a quarentena. 

“Todo este momento do Covid-19 pegou a gente de surpresa, em uma semana mudamos totalmente o planejamento e revivemos a ideia que tínhamos de fazer formação online. Ainda não sabemos se é o melhor formato, mas estamos inovando e nos reinventando”, comenta Caio Rodrigues, Diretor Executivo da Toti. 

Neste cenário novo, a Diretora de Operações da Toti, Bruna Amaral, também entendeu que os refugiados precisam de apoio para questões básicas. Por isso, a organização está se mobilizando para uma campanha de financiamento coletivo,  liderado pelo Programa de Atendimento a Refugiados e Solicitantes de Refúgio da Cáritas do Rio de Janeiro (PARES Cáritas RJ), com o apoio da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), do curso de idiomas Abraço Cultural, do Colégio Cruzeiro, e da Associação das Defensoras e Defensores Públicos do Estado do Rio de Janeiro (ADPERJ). A campanha deve ir ao ar nos próximos dias.

“É a primeira vez que estamos participando de uma campanha assim. Ações assistencialistas não fazem parte do nosso negócio, mas o cenário mudou e as necessidades mudaram”, afirma Bruna.

Precisamos olhar para as questões mais urgentes”, completa a Diretora de Operações da Toti.

A Toti Diversidade possui turmas em São Paulo e no Rio de Janeiro. Em 2019, formaram oito refugiados e, em menos de 45 dias, todos os formandos já estavam empregados. A renda dessas pessoas aumentou 155%. Com o desenvolvimento da plataforma online, a startup pretende alcançar outros refugiados além do eixo Rio-São Paulo e fazer parcerias com empresas de locais como Roraima – estado que tem recebido um grande número de refugiados venezuelanos.

Até dezembro de 2019, cerca de 32 mil pessoas já foram reconhecidas pela condição de refúgio no Brasil, de acordo com números do Conare . O grande pico de reconhecimentos aconteceu em dezembro de 2019, quando mais 21.432 venezuelanos foram reconhecidos de uma vez pela reunião Plenária do CONARE.

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Projeto editorial contemplou produção de textos e design, além de edição impressa e criação de peças de divulgação e versão inglês.