Cacique Raoni Metuktire: entre a política, a representação e os impactos

Afinal, quem é o líder Caiapó que leva a questão indígena à discussão global?

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Plenário da Câmara dos Deputados durante sessão solene em homenagem ao povo indígena (Foto: Geraldo Magela/Agência Senado)

O cacique Raoni Metuktire – líder Caiapó e ativista ambiental – é um dos rostos que se destacam quando o assunto são as políticas e as ações acerca da proteção dos povos indígenas e da preservação da Amazônia. Não é por acaso: Metuktire é conhecido por tais pautas desde a década de 1960, dialoga com líderes políticos, ativistas e figuras da cultura pop globais, além de ser uma figura emblemática em busca da proteção das matas brasileiras nas últimas décadas.

Mas você pode se perguntar: por que Metuktire e sua articulação são importantes ao ecossistema de impacto? E a resposta talvez venha de provocações e defesas do objetivo maior do setor 2.5: soluções socioambientais. A constante busca por tais saídas converge diferentes atores, instituições e territorialidades rumo ao impacto que diz respeito às gerações atuais e futuras, bem como dilemas e tensões acerca do desenvolvimento e do lucro. Da demarcação do território indígena aos constrangimentos políticos e também advindos da devastação de biomas e matas, como recentemente as queimadas na Amazônia, são temas transversais ao setor 2.5.

A representatividade de Metuktire dá peso em sua fala – e nela estão intrínsecas suas origens e sua circulação social, que vai além de posições e articulações políticas em órgãos como a FUNAI ou mesmo com políticos brasileiros. E a vestimenta também entra no jogo político: seja com trajes tradicionais, informais ou de terno, Raoni sempre usa cocar e botoque. Este adereço é um adorno de madeira usado no lábio inferior, foi adotado por ele aos 15 anos e até hoje é uma das marcas registradas de sua figura política, pois revela traços de sua identidade. O líder Caiapó hoje tem, aproximadamente, 90 anos – não há dados precisos sobre sua data de nascimento.

O primeiro contato de Metuktire com homens brancos foi em 1954, ao se deparar com a expedição dos irmãos Villas-Boas. Na década de 1970, o cacique conheceu o cineasta belga Jean-Pierre Dutilleux, que produziria Raoni (1978), ao lado de Luiz Carlos Saldanha. O líder indígena foi protagonista neste documentário, com abordagens sobre a proteção das florestas e da cultura dos povos originários. A projeção global do cacique veio também a partir desta película, de modo a fazê-lo um símbolo da questão indígena e da preservação ambiental no Brasil.

 

O XINGU PELO O MUNDO

Em 1987, conheceu Sting, cantor e baixista britânico do grupo The Police, na visita do músico ao Xingu. Em 1989, fizeram juntos uma turnê por 17 países para levar questões como a demarcação de terras indígenas para além do Brasil. O Parque Indígena do Xingu (PIX), também conhecido por Território Indígena do Xingu (TIX), virou pauta global neste momento. Este território fica na região de transição entre Cerrado e Amazônia, tem cerca de 2,8 milhões de hectares. Hoje, segundo o Instituto Socioambiental [socioambiental.org/pt-br] (ISA), o Xingu vive com alguns desafios advindos da perda de 66% das florestas nos arredores, devido à monocultura e ao desmatamento. Este dado diz respeito aos últimos 30 anos e afeta diretamente a vida dos indígenas, sobretudo a disponibilidade de recursos naturais com o uso de agrotóxicos, o fogo, as pragas e a seca, além da construção de ferrovias e estradas. Com esta temática, acerca da Floresta Amazônia e do Xingu, Raoni publicou artigo no The Guardian, com a seguinte indagação:

“Você diz que é para desenvolvimento – mas que tipo de desenvolvimento tira a riqueza da floresta e a substitui por apenas um tipo de planta ou um tipo de animal? Onde os espíritos nos deram tudo o que precisávamos para uma vida feliz – toda a nossa comida, nossas casas, nossos remédios – agora só há soja ou gado. Para quem é esse desenvolvimento?”

O próprio contexto brasileiro permitia esta maior circulação do líder indígena e de pautas como a demarcação de territórios e a preservação do meio ambiente. O Estatuto do Índio, Lei 6.001, de 1973, diz respeito à proteção de indígenas, silvícolas e suas culturas. Após a reabertura política, foi feita a Constituição de 1988, considerada um marco na garantia de direitos pelos indígenas no país. Apesar da regulamentação e da proteção legal, não necessariamente todas as garantias ocorrem na prática. O que demandou, posteriormente, debates e implementações de políticas públicas.

Na Constituição, os direitos dos indígenas estão especificados no Art. 232, Título VIII da Ordem Social, Capítulo VIII dos Índios, que diz: “Os índios, suas comunidades e organizações são partes legítimas para ingressar em juízo em defesa de seus direitos e interesses, intervindo o Ministério Público em todos os atos do processo”. Na década seguinte, o Brasil foi ainda sede da Conferência Nacional das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e o Desenvolvimento, a ECO-92.

 

A CIRCULAÇÃO EM 2019

Dado tal contexto e circulação política, Raoni é considerado o embaixador internacional da luta pela preservação das florestas e dos povos amazônicos. Ainda hoje sua atuação política percorre o mundo. Só em 2019, ele se encontrou com o Papa Francisco e com Emmanuel Macron, presidente francês – ambos os encontros levaram como pauta a defesa da Amazônia. E a escolha de tais líderes não foi gratuita. Em outubro, a Igreja Católica realiza o Sínodo da Amazônia, que debate o desmatamento e a situação da população indígena. Em 2020, a França planeja sediar uma cúpula internacional de povos indígenas.

O cacique costuma enfrentar os políticos vigentes brasileiros. No encontro na Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que “Alguns países, chefes de Estado, pegaram Raoni, cooptaram Raoni”, indicando que o indígena seria uma peça de manobras políticas. Metuktire também teve inflexões com os governos Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, devido à construção da hidrelétrica de Belo Monte – localizada na bacia do Xingu.

O ativismo do cacique é atemporal e seu discurso ecoa além dos limites geográficos das sociedades não-indígenas. Resta saber o quanto os debates globais e os marcos regulatórios podem ir além de documentos e apertos de mão e podem ser ação efetivas que beneficiam a sociedade e, sobretudo, os povos originários e a biodiversidade.

 

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