A sigla ESG (em tradução livre, ASG: ambiental, social e governança) tem ganhado cada vez mais destaque no mercado de investimentos. Isso porque a forma com que as empresas direcionam esses tópicos são critérios cada vez mais considerados por investidores. 

Apesar de ter raízes no mundo financeiro, é importante entender o histórico de ESG e as relações com a agenda de impacto. A preocupação de mitigar impactos negativos norteiam empresas há muito tempo. Exemplos como o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) das empresas listadas na B3, que é feito desde 2005, e relatórios de sustentabilidade são práticas comuns entre companhias.

Segundo Gustavo Pimentel, diretor da SITAWI, anteriormente à sigla ESG, o SRI (socially responsible investment; na tradução livre, investimento socialmente responsável) era conhecido no mercado de investimento e tinha como norteador excluir empresas de setores considerados nocivos como fumo, armas, entre outros. 

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“Quando a sigla ESG surgiu, em 2006, havia uma abordagem de melhores empresas de cada setor sem excluir”, comenta Gustavo. Na SITAWI, o executivo lidera a maior prática de pesquisa e consultoria no tema Finanças Sustentáveis da América Latina.

Crédito: Pexels Joslyn Pickens.

Para especialistas, enquanto os negócios de impacto nascem com o objetivo de combater problemas da sociedade, empresas norteadas por ESG buscam reduzir os impactos negativos com um olhar mais para dentro dos critérios ambientais, sociais e de governança, que, inevitavelmente, impactarão o externo.

“É uma trajetória diferente de impacto, pois o impacto surge para contribuir com a mudança do mundo. O ESG é de dentro pra fora, onde investidores analisam como a empresa se relaciona com os funcionários, comunidade e entorno. O ideal é que as empresas incorporem ESG nos modelos de negócios”, avalia Marina Cançado, head de Sustainable Wealth na XP Private.

Créditos: Pixabay.

Neste sentido, é possível que um negócio de impacto não adote critérios ESG internamente e esse é um ponto importante de tensionar. “A minha crítica é de não olhar o interno. Na pandemia vimos isso, startups de impacto com posturas questionáveis frente aos stakeholders”, pontua Marina Cançado.

De acordo com Aron Belinky, líder da ABC Associados, a perspectiva ESG precisa discutir mais a interdependência entre os vários aspectos (ambiental, social e governança) com análises e ferramentas que integrem os conceitos.

“Desenvolvimento sustentável com base nos ODS da ONU, desempenho econômico e impacto estão na agenda das empresas, mas na perspectiva ESG a interligação entre esses itens não aparece como prioridade, apesar de olhar para esses fatores”, comenta Aron, que atua como parceiro técnico em projetos como o Guia Exame de Sustentabilidade e ISE B3. 

Esses conflitos existentes quando se fala em negócios de impacto e empresas guiadas por ESG mostram que os mercados estão em constante evolução e um não invalida o outro. “Podemos pressionar para uma determinada empresa ter mais padrões sustentáveis, mas isso não invalida que temos que apoiar quem deseja montar uma startup para melhorar o saneamento no Brasil ou a habitação”, exemplifica Beto Scretas, consultor do ICE. 

Outro ponto de discussão é como avaliar os critérios ESG e fazer um comparativo entre empresas. Não há um consenso, já que depende muito do que o investidor considera importante. A SITAWI, por exemplo, faz avaliação ASG de empresas e ativos. Eles possuem relatórios disponíveis de 150 empresas listadas em bolsas e debêntures.

Gustavo Pimentel, diretor da SITAWI. Crédito: Acervo SITAWI
Beto Scretas, consultor do ICE. Crédito: Divulgação

“Mas não existe um padrão global para análises ASG, existe uma guerra de padrões,

comenta Gustavo Pimentel.

Marina Cançado, head de Sustainable Wealth na XP Private. Crédito: Divulgação/XP
Aron Belinky, líder da ABC Associados. Crédito: Divulgação

Já os negócios de impacto tendem a ter mensurações mais rigorosas a medida que o modelo de negócio evolui.  A cada cinco anos, a Aliança pelos Investimentos e Negócios de Impacto faz uma escuta com diferentes atores do setor e, a partir disso, divulga recomendações para o avanço da agenda. Para o período de 2020-2025 o foco é contabilidade de impacto. 

O objetivo é ter  mais transparência para conseguirmos mais dinheiro disponível para o investimento de impacto”, ressalta Beto Scretas, que faz parte da diretoria-executiva da Aliança. 

Como uma tendência, alguns defendem que as empresas vão incorporar, cada vez mais, o impacto nos seus modelos de negócios. “Dá pra imaginar que as grandes empresas buscarão trazer para seu portfólio o impacto, pois esses negócios estão ligados à inovação, seja social ou tecnológica. A escala que isso acontecerá não sabemos”, pondera Aron Belinky. 

Investimentos ESG
No segundo trimestre de 2020, fundos que investem com base nos critérios ESG alcançaram, pela primeira vez, o valor de US$1 trilhão em patrimônio, de acordo com o levantamento da Morningstar, empresa de pesquisa sobre investimentos. 

A mesma pesquisa ainda apontou que a maioria desses investimentos (US$870 bilhões) está na Europa, que concentra 78,8% dos 3.432 fundos ESG. A outra fatia está nos Estados Unidos, que acumula US$158,9 bilhões investidos. 

Isso mostra o mercado aquecido mesmo em tempos de pandemia.

No Brasil, o mercado de fundos ESG ainda está em ascensão. Segundo dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), fundos com princípios socioambientais têm patrimônio líquido de R$543,1 milhões – o número cresceu 43% desde o fim de maio. A captação líquida no ano é de R$76,1 milhões.

A XP Investimentos anunciou, recentemente, a cobertura de fundos ESG e indicou 10 ações com base nos critérios de avaliação do MSCI ESG Ratings. “Vamos, cada vez mais, democratizar fundos na nossa plataforma para que os clientes possam, junto com os assessores, encontrar o que faz sentido para cada um”, disse Marina Cançado.

Outro anúncio que movimentou o mercado ESG foi o lançamento do índice S&P/B3 Brasil ESG. Esse indexador utilizará critérios baseados em práticas ambientais, sociais e de governança para selecionar empresas brasileiras à carteira. 

Segundo o comunicado da B3, “O índice utiliza o universo das empresas listadas na B3 e que compõem o S&P Brazil BMI (Broad Market Index), com exceção daquelas que não estão aderentes aos princípios do Pacto Global ou que fazem parte de setores específicos (tais como, armas, tabaco e carvão térmico)”.

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