O artigo anterior, Impacto essencial I, trouxe o “ODS 0” como o passo essencial que precisamos dar, ressaltando o quanto precisamos olhar para dentro e aprender a ouvir a voz que discrimina entre o que importa e o que não importa, para que possamos, a partir desta consciência mais elevada, fazer as escolhas responsivas na construção do novo mundo que queremos. Nosso interior é a causa raiz do mundo, que é o território dos efeitos.

O Covid-19 nos traz uma oportunidade ímpar, que jamais seria possível acontecer nessa escala e que, talvez, seja o único lado positivo da sua presença em nosso planeta. Ao gritar silenciosamente uma única palavra – PAREM – ele nos oferece as condições para que possamos, literalmente, DESACELERAR e FECHAR PARA BALANÇO, deixando de lado as distrações com o exterior, para podermos ouvir o que emerge do silêncio que se instala ao longo das semanas em quarentena.

É desafiador, pois algo em nós não aceita esse convite imposto e resiste, quer evitar, nos impulsionando a manter uma dinâmica de agitação, de calls diversos e seguidos, de múltiplos afazeres em casa ou até mesmo o desperdício do tédio. Entretanto, com o passar do tempo, podemos perceber que uma janela é aberta e que um instante de consciência brota do silêncio, catalisado por uma dor emocional ou por uma reflexão mais profunda. E, assim, a pergunta que ecoa do porão da consciência é: “Qual é o sentido de tudo isso? Qual é o significado da minha vida? Como eu tenho feito escolhas até aqui? Estou feliz ao observar até onde elas me trouxeram e nos trouxeram? Então, é isso: esse é o fim? E, logo em seguida, para alguns, uma voz completa…. “Ah, mas se sairmos dessa, muita coisa precisa mudar. Não é mais possível seguir com as mesmas escolhas, distrações e padrões, além do vazio existencial, que me empobrece como Ser Humano e nos empobrece como sociedade.”

Diante deste silêncio, temos a oportunidade de nos redescobrirmos como Seres Humanos. É essencial se render a essa sensação de reencontro e sentir esse sabor inigualável da vida que pulsa e saboreia as coisas simples, como o sorriso de um filho, o telefonema de uma mãe, uma mensagem de um irmão ou uma amiga, sentar à mesa para bater papo longamente com quem amamos, ser solidário com o próximo e, assim, voltarmos a sentir algo que estava adormecido, negligenciado, atropelado pela velocidade e pelas imposições de fazer mais, de ter mais poder, mais dinheiro, mais metas, ser o primeiro, vencer, conquistar e blá, blá, blá… Para quê? Qual é o real valor disso?

Pensando em COMO podemos aproveitar com mais profundidade essa oportunidade singular, compartilho a figura que batizei de “MATRIZ EXISTENCIAL”. Essa ferramenta tem sido útil como um pequeno mapa para aprofundar mais e mais a descoberta interior e apoiar a construção de novos pactos, crenças e, por conseguinte, possibilitar novas escolhas, atitudes e comportamentos. Para que seja útil para você, precisará da sua VONTADE e da sua ATENÇÃO.

Tabela "Matriz existencial". Autor: Marco Gorini. 2020.

INTENÇÃO, VONTADE e ATENÇÃO formam a tríade de energia mais poderosa do universo. Aprender a alinhá-las é essencial para o salto de consciência e a possibilidade de novas escolhas.

Tudo nasce da INTENÇÃO, que orienta o que nutrirmos com a ATENÇÃO e, com isso, estabelece o motivo para a AÇÃO que exercemos no mundo. A intenção nos define, pois dela irradia o que vai ganhar concretude na nossa vida. Se a observamos com honestidade, podemos conhecer mais nossa identidade, nossa essência, nosso ego, aprender mais sobre nós mesmos e, com isso, elevarmos a nossa consciência à medida que compreendemos os impactos que geramos.

A INTENÇÃO impulsiona ao que “SERVIMOS” na vida. A partir das nossas crenças, emergemos valores e princípios que podem alimentar um propósito virtuoso ao nos ajudar a responder: o que, de fato, importa na minha vida?

Ao exercitarmos mais e mais essa pergunta, nossa VONTADE nos permitirá agir no mundo com integridade, coerência e consistência, garantindo que a nossa ATENÇÃO esteja focada e bem balanceada na forma como endereçamos a nossa AÇÃO. Com tempo e prática, as ATITUDES vão ganhando legitimidade nas ações, que fortalecem os laços de confiança interna e externa, gerando um looping de feedbacks positivos.

Nossas atitudes definem a forma como GERIMOS e DISTRIBUÍMOS AS RIQUEZAS que possuímos: nosso corpo em movimento, nosso conhecimento, nosso sentimento, nosso tempo e nossos recursos materiais. Por meio destas riquezas intervimos no mundo, nutrindo o que nos é caro. A prática consciente de analisar como esses “ativos” estão alocados e quais resultados (impactos) geram pode endereçar aprendizados que convidem o nosso olhar à análise e à compreensão mais profundas das nossas ESCOLHAS, RENÚNCIAS e OMISSÕES.

É neste instante de observação que uma janela de oportunidade para a transformação é aberta, pois, ao revisitarmos as nossas escolhas, renúncias e omissões, iluminamos as crenças, assim como os princípios e os valores os quais “servimos” e que, ao fim, definem quem somos no mundo. Importante notar que as consequências das nossas atitudes impactam diferentes relações da nossa existência: Eu-Comigo mesmo,  Eu-Nós (família, amigos, comunidade, sociedade) e Eu-Planeta (Natureza). Esse é o palco da Vida. É como conduzimos a nossa Vida e nos relacionamos com a Vida existente ao nosso redor.

O uso honesto e contínuo desta ferramenta pode ser poderoso na busca depor ressignificarmos quem somos. Para isso, é necessário um ato sustentado de vontade, que nos permita fazer novas escolhas, mais conscientes, assumindo um novo patamar de protagonismo na co-criação da nossa existência. A consequência da aplicação frequente deste exercício é o alinhamento crescente entre quem somos, o que fazemos e os resultados que geramos, refletido na nossa auto-realização, felicidade, saúde e capacidade de impactar o mundo.

No fundo, no fundo, é simples. “A Verdade tem na simplicidade a sua assinatura”. Basta estarmos disponíveis para ouvi-la. Vivemos um contexto que nos chama como espécie. Não é tempo de resistir, é tempo de transformar. SER mais, FAZER melhor, TER menos.

E você? Como você tem feito as suas escolhas? Como você tem gerido e distribuído as suas riquezas?

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