A água é um direito e um recurso natural valioso, muitas vezes utilizado como moeda. Conheça as relações que esse bem comum tem a ver com iniciativas de impacto social no Brasil na série de 2 reportagens especiais desse mês da Aupa.

A água é um direito social e pensar este recurso natural é também pensar sua política. Afinal, ter acesso à água – sobretudo, potável e ao saneamento básico–, são marcas socioeconômicas fundamentais em países como o Brasil, ainda mais quando o debate envolve brasileiros em situação de vulnerabilidade. Segundo dados do ministério das Cidades (2018), mais de 35 milhões de brasileiros não têm acesso à água potável e 100 milhões não têm saneamento básico. Outro problema que aflige os brasileiros, diz respeito aos que tem acesso à agua, mas que seu consumo pode estar contaminado. Segundo levantamento, cerca de 25% dos municípios brasileiros registram contaminação com agrotóxicos.

É nesse mesmo cenário desigual e contraditório de acesso à água no país onde multiplicam-se iniciativas em busca de soluções. A partir de um mapeamento que extrapola o eixo Sudeste, a redação da AUPA procurou atores do ecossistema e produziu duas reportagens exclusivas sobre o acesso à água. Com base em exemplos de ações comunitárias, públicas e privadas – em âmbito local e nacional–, a editora Fernanda Patrocínio investigou o tema e trouxe para o debate a pergunta: qual o lugar dos negócios de impacto no debate público sobre o acesso à água?

As provocações e os exemplos você confere em duas partes:

Parte 1: “A água: o homem e os saberes da terra”
Parte 2: “A água: os negócios de impacto e o estado brasileiro”

 


PARTE 1:
A água: o homem e os saberes da terra

TECNOLOGIAS SOCIAIS NO SEMIÁRIDO NORDESTINO

“Entre os galhos retorcidos do sertão, há água. No solo árido, cresce o verde. Da sabedoria popular, nascem tecnologias sociais”. Este trecho faz parte da apresentação do Centro de Educação Popular e Formação Social, o Cepfs, que atua no Sertão, desde 1985. O objetivo da organização é buscar soluções para o desenvolvimento sustentável da agricultura familiar no Semiárido brasileiro. “Algumas pessoas, que integravam essa associação, compreendiam a importância da organização como caminho para o desenvolvimento regional no fortalecimento da agricultura familiar rural local”, conta José Dias Campos, economista e coordenador executivo do Cepfs, organização, não-governamental e sem fins lucrativos, criada em 1989.

Diante do trabalho que relaciona a sabedoria popular com a tecnologia, Dias explica que a compreensão do conhecimento local é fundamental para o processo de desenvolvimento. “Para nós, as tecnologias sociais devem ser compreendidas como inovações frutos do processo de compartilhamento de saberes e conhecimentos já existentes. Assim, tecnologia social, saberes e conhecimentos tradicionais são componentes que caminham juntos ou um nasce do outro”, explica ele.

Oficina de agroecologia e geração de renda promovida pelo Cepfs na Serra de Teixeira, ao sul do sertão do estado da Paraíba

A água é uma pauta especial para o Cepfs. No Sertão, chove, em média, de 200 a 800 milímetros por ano – e a evaporação desta água é três vezes maior do que a quantidade de chuva que cai na região. “A água é fonte de vida, em todos os lugares, mas, no Semiárido, ela é mais preciosa ainda”, comenta o coordenador. O Cepfs oferece capacitações para o desenvolvimento de tecnologia sociais de captação, armazenamento e manejo de água de chuva. Dias elenca exemplos destas práticas, como construção de cisterna de enxurrada, os lajedos de pedras bem como barragens subterrâneas e barreiros-trincheiras. O primeiro passo no diagnóstico feito pelo Cepfs é sempre o ecossistema da família participante, para identificar quais práticas já são adotadas pelo agricultor, suas potencialidades aliadas à natureza, para, então, serem definidas ações que podem ser feitas com as tecnologias sociais.

Família beneficiada com cisterna do tipo enxurrada e sistema simplificado de irrigação na comunidade São Sebastião Cacimbas, na Paraíba
Visita de técnicos em área experimental dos Cepfs, Riacho das Moças, Matureia, Paraíba. Foto: Foto Renalle Benicio

A agricultura familiar é a referência de sabedoria popular adotada pelo centro. “É na agricultura familiar que está a fonte de conhecimentos e necessidades que precisam de suporte para promover inovações rumo ao desenvolvimento local”, diz Dias. O Cepfs atua em 10 municípios e em 116 comunidades da Paraíba, e até o final de 2018 impactou cerca de 95.480 pessoas por suas ações, sempre com dois eixos nos programas realizados: meio ambiente e desenvolvimento sustentável e fortalecimento e desenvolvimento comunitário. “Há o desenvolvimento comunitário por meio de processos de troca de saberes e conhecimentos, processos pelos quais nascem as inovações sociais”, comenta Dias.

O PROBLEMA NÃO É FALTA DE ÁGUA

O Serta (Serviço de Tecnologia Alternativa) é uma Oscip (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público), fundada em 1989 por agricultores, técnicos e educadores, atuando, sobretudo, nos municípios do estado de Pernambuco. Com foco em educação e formação, promove atividades para que jovens, educadores e pequenos produtores rurais trabalhem no desenvolvimento sustentável no campo, tendo a água como uma de suas principais áreas de atuação.

A construção de cisternas no Semiárido é um projeto bastante desenvolvido pelo Serta. “É preciso ter um método e um estudo, não adianta construir a cisterna por construir. Nós identificamos as famílias, conversamos com elas, as capacitamos para que possam, além de captar água, aprender a utilizar este recurso natural”, conta Sebastião Alves dos Santos, também conhecido na região como Tião do Serta. Autodenominado como pesquisador da Caatinga, Santos é técnico em agropecuária e biólogo. Tião diz que, hoje, o projeto é a maior obra de engenharia hídrica do Semiárido. “Chegamos a um milhão e 200 mil cisternas já construídas no semiárido. Isso é bastante significativo na qualidade de vida das pessoas, sobretudo daquelas que vivem no campo”, afirma.

Tião do Serta: “O maior problema do Semiárido é a aridez mental, sobretudo da política, que não direciona políticas públicas que sejam capazes de responder à demanda do povo e aproveitar as oportunidades que o Semiárido oferece”. Foto: divulgação/Youtube/Rede Globo

           Santos tem uma visão diferente sobre a Seca no sertão nordestino. “Temos o Semiárido mais chuvoso do mundo. Na nossa região, chovem, em média, 500 milímetros ao ano. Se olhar atentamente, o problema não é a falta de água, mas, sim, de matemática aplicada, pois se a escola ensinasse jovens e crianças que um milímetro de chuva em um metro quadrado corresponde a um litro de água, desde cedo aprenderíamos que é possível captar, para cada metro quadrado, 500 litros de água para um ano regular de chuva no Semiárido. E engana-se quem pensa que é pouco: isso é muito!”, calcula ele. “Discordamos de quem culpa a seca, pois a aridez do bioma não é, nunca foi e nem será um problema. A gente precisa aprender a conviver com essa aridez. O maior problema do Semiárido é a aridez mental, sobretudo da política, que não direciona políticas públicas que sejam capazes de responder à demanda do povo e aproveitar as oportunidades que o Semiárido oferece”, reclama. O Serta se define como uma organização sem representação política, mas que auxilia e incide na construção de políticas públicas. “Lamentavelmente, a gente encontra ainda pouco espaço no meio político para que essas propostas virem, efetivamente, ações que possam transformar as realidades locais. E eu estou me referido ao Semiárido como um grande e vasto campo que o governo brasileiro teria para atuar”, conclui.

AMAZÔNIA: SABERES LOCAIS

O saber das populações ribeirinhas da Amazônia também tem muito a nos ensinar a respeito de iniciativas da sociedade civil e políticas públicas sobre a água. O Projeto Saúde e Alegria – uma organização não-governamental fundada em 1987–, começou seus trabalhos ao lado de 16 comunidades-piloto da zona rural de Santarém, no Pará. Em 2003, este número subiu para 129 comunidades. “Com a ampliação, estendemos a atuação a praticamente todo o território da Floresta Nacional dos Tapajós, atingindo também comunidades da região do Assentamento Lago Grande – de Agro extração”, comenta João Carlos Dombroski, técnico de organização comunitária do projeto. Estas comunidades foram beneficiadas, na época, pelo projeto Saúde na Floresta, recebendo também incentivos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), para ações, como o saneamento, os poços semiartesianos, as cisternas e os filtros.

Ação local realizada pelo projeto Saúde e Alegria

Segundo os responsáveis, o Projeto Saúde e Alegria já impactou entre 30 e 35 mil pessoas dentro das comunidades e na própria percepção de Carlos o modelo se encaixa atualmente nos moldes de um negócio de impacto social . “Trazemos ideias inovadoras em projetos que podem ser multiplicadas em outras comunidades. Trazemos também inclusão social, principalmente, pois são comunidades bem isoladas. Trabalhamos com questões como saúde, saneamento, renda e inclusão das mulheres na produção de artesanato”, elenca Dombroski, comparando as soluções escaláveis e a entrega do projeto para a população em situação de vulnerabilidade.

Um dos aspectos de impacto que evidencia o modelo de negócio está na geração de renda e trabalho com as mulheres com a criação de uma cooperativa. “É por intermédio desta cooperativa que há uma coordenação mais específica sobre a produção de artesanato e sua comercialização, tanto na região quanto fora dela”, explica o técnico. Além disso, há ainda geração de renda a partir do turismo comunitário e da comercialização de galinhas, abelhas e hortas. “Tudo isso impacta a renda das famílias. Vai além da renda direta, pois as famílias observam e aprendem novas técnicas, novos jeitos de trabalhar: um trabalho coletivo”, comenta ele. E vale ressaltar: organizados em cooperativas e associações, o valor dos produtos oferecidos [veja matéria sobre produção de queijos na Serra da Canastra] tende a ter maior valor agregado do que aqueles que comercializados por quem empreende sozinho.

“Tudo isso impacta a renda das famílias. Vai além da renda direta, pois as famílias observam e aprendem novas técnicas, novos jeitos de trabalhar: um trabalho coletivo”

E o que os saberes indígenas de um território de povos originários podem nos ensinar sobre ações de impacto social em relação à água? Dombroski, que atua há 25 anos no tema e na região, afirma que os aprendizados indígenas são essenciais na construção das soluções propostas pelo projeto, principalmente em relação ao saneamento básico comunitário. Hoje são mais de 40 comunidades com o sistema de abastecimento de água instalado, atendendo cerca de 3.400 famílias, ou seja, mais de 16 mil pessoas com água potável vindo da torneira de suas casas. “Se somarmos os trabalhos feitos na cidade e nas comunidades rurais, hoje são mais de 215 quilômetros de rede hidráulica”, se orgulha o produtor.

Outros destaques do Projeto são ações como a implantação de energia alternativa, energia solar, micro-usinas e a introdução de internet em localidades isoladas. “Nosso forte é o saneamento básico, com a inclusão social, principalmente, em torno de políticas públicas, que vão garantir saúde, saneamento e educação às comunidades”, pontua o sociólogo italiano Tibério Alloggio, que mora na Amazônia desde 1989 e é coordenador de desenvolvimento territorial – o sociólogo também já foi fellow da Ashoka. Essa conexão entre o projeto e o poder público é, inclusive, um dos grandes trunfos e resultados como modelo de negócio de impacto social. O Projeto Saúde e Alegria aproximou e influenciou as políticas públicas locais, como é o caso da implementação do programa de Saúde da Família Ribeirinhas e Fluviais, do Ministério da Saúde. “Ele surgiu da experiência do Projeto Saúde e Alegria, que levava assistência via barcos. O Ministério da Saúde gostou da ideia e hoje são mais de 60 barcos atendendo a população ribeirinha”, explica o sociólogo.

O projeto realiza ações e oficinas com a população local. Acima, imagens do “Teia Cabocla”

Como o próprio nome traduz, a metodologia utilizada nas atividades do Saúde e Alegria é uma proposta lúdica. “A alegria não tira a nossa seriedade. Ela serve para mobilizar, colocar temas dentro das comunidades de uma maneira mais fácil”, comenta Alloggio. A questão principal do projeto hoje é tornar a economia da floresta rentável para quem mora no território e gerar assim sustentabilidade financeira e ambiental juntos. “Estamos fazendo um esforço grande em relação a algumas cadeias produtivas, como o extrativismo da borracha, que entrou em crise. Hoje, a maioria da população tradicional aqui da Amazônia trabalha mais em torno da produção de farinha de mandioca. E usando uma alternativa ainda muito primitiva, que é o corta e queima”, explica ele. “O desafio é produzir um modelo que possa garantir sustentabilidade dos recursos e dos moradores”, completa, acerca de um novo mindset que demanda uma roça sem fogo e a restauração florestal.

Paralelamente às atividades de organização social, o projeto apoia ainda micro e pequenas empresas ligadas às atividades e às cooperativas. “Há um movimento para que tanto as famílias quanto os agroextrativistas saiam da informalidade – pois, se nela permanecerem, eles continuarão sendo vítimas de atravessadores”, destaca Alloggio. São alternativas como essas que transformam há décadas o Semiárido Nordestino e a região amazônica que hoje dialogam com o ecossistema de impacto e influenciam política públicas do estado brasileiro. Os saberes tradicionais se misturam com saberes econômicos mais contemporâneos e jogam luz para uma reflexão em como pensar a água como um direito e um recurso econômico sustentável e de grande impacto para todos nós.

(Na próxima reportagem, o exemplo da água AMA, da empresa Ambev e um sobrevoo sobre a água dentro das políticas do governo).

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