Andar pelas ruas do Campo Limpo é deixar de lado a imagem de violência dos noticiários e conhecer um reduto cultural dinâmico e um ambiente empreendedor bem articulado. Mas como isso funciona? Conhecer a Agência Popular Solano Trindade e a história do Banco Comunitário União Sampaio pode ser uma das respostas para entender o impacto local dessas iniciativas. A reportagem da Aupa foi conhecer de perto esse laboratório de inovação em negócios de impacto e conversou com um de seus principais articuladores.

Thiago Vinicius de Paula da Silva, de trinta anos, é empreendedor social, produtor cultural e criador da agência. Para entender a história de Thiago é preciso olhar a história das mulheres de sua família e da comunidade. “Venho de uma família onde a maioria das lideranças é de mulheres, uma história de trabalho e de luta”, comenta ele. “As mulheres atravessaram séculos buscando qualidade de vida, e tudo o que temos de bom hoje na comunidade, como escolas e unidades básicas de saúde, é graças ao movimento delas. É interessante notar que sempre que uma mulher consegue um direito, toda a sociedade é beneficiada”, diz Thiago enquanto segura no colo a filha de um ano, Maria Flor. Prova viva da presença feminina é a própria mãe de Thiago, tia Nice, ou dona Nice, que, no dia da reportagem, comandava a cozinha preparando feijoada tradicional e vegetariana para um encontro cultural naquele domingo de sol.

Tia Nice e sua neta Maria Flor: duas gerações de mulheres na vida do Thiago (crédito das fotos: divulgação Ag. popular Solano Trindade)

 

“É interessante notar que sempre que uma mulher consegue um direito, toda a sociedade é beneficiada”

O diálogo da agência com a comunidade é bem direto. “Nossa comunicação é do post ao poste. Quando há eventos, como o Festival Percurso, fazemos faixas, usamos carros de som. Afinal, nem todo mundo tem smartphone.” A agência está presente nos espaços e também oferece seu próprio espaço para articulação local. Quem quiser trabalhar ou fazer reuniões na agência é bem-vindo. A casa também oferece um espaço de coworking.

As ações da agência impactam milhares de pessoas por ano. “Temos o Festival Percurso e também uma rede de empreendimentos que a gente dedica à formação”, explica. Ele acredita que o verdadeiro impacto das iniciativas é “tirar a comunidade das páginas policiais para ocupar as páginas culturais”. Indagado sobre o modelo de negócio, Silva afirma que a palavra que o define é versatilidade. “Precisa ser um modelo bem dinâmico, porque a gente não tem uma coisa certa. Desde o evento que fazemos na agência até os empreendimentos-satélites, tudo faz com que a gente não dependa do governo”, elenca o empreendedor social.

Apresentação no Festival Percurso, em 2018

O INÍCIO

Tudo começou em 2009, quando Silva e seus amigos perceberam que havia muitas ONGs, porém nem sempre as atividades impactavam o local. “Era bastante assistencialismo e pouco desenvolvimento”, comenta ele, que fez parte do Projeto Arrastão, organização sem fins lucrativos que atua na região do Campo Limpo desde 1968, dando suporte às famílias que vivem em condição de pobreza, oferecendo programas relacionados às áreas de educação, cultura, geração de renda, habitação e qualidade de vida. Em 2004, quando tinha quinze anos, depois da participação no Arrastão, Silva fez parte da primeira turma da Artemisia e criou o projeto Reativar e Empreender, sobre educação ambiental e coleta seletiva. A família de Thiago morava em frente ao córrego Pirajuçara, onde há problema de acúmulo de lixo e enchentes. Com o apoio da Artemisia, ele ainda cursou dois anos de Administração de Empresas na Pontificia Universidade Católica de São Paulo (PUC).

“Era bastante assistencialismo e pouco desenvolvimento”

Foi partindo desses incômodos e provocações que, há dez anos, o grupo de Thiago começou a estudar um tema que, segundo ele, “é muito complicado na periferia: a questão do crédito e do microcrédito”. Foi nesse momento que o grupo se organizou e montou um banco comunitário, com o apoio da Incubadora Tecnológica de Cooperativas da Universidade de São Paulo (ITCP/USP), que tem a missão de promover a economia solidária.

E daí despertou a conscientização. “Começamos a causar uma grande reflexão na periferia, sobre o potencial econômico do território. As pessoas olhavam pra gente e perguntavam: ‘Nossa, mas vocês sabem o que são juros?’. É um racismo estrutural”, relata Silva. “Foi a primeira vez que os pobres se uniram para falar de dinheiro numa perspectiva de microcrédito, e não numa perspectiva de dívida. E aí fundamos o banco, que é aqui no Jardim Maria Sampaio”, completa ele, enquanto aponta para o bairro e mostra um enorme grafitti, feito pelo artista plástico Gamão Souza Dias, em homenagem a Marielle Franco.

Grafitti do artista Gamão Souza Dias no bairro

Mas o debate vai além da questão da moeda e chega também na produção e comercialização de itens culturais. O grupo participa da cena cultural local, em saraus e shows e perceberam a dificuldade que os artistas locais tinham para lançar livros e discos. Era necessário investir nesses talentos, e Thiago articulou esse movimento. “Fizemos nosso primeiro empréstimo cultural para o financiamento do livro Manda busca, do Luan Luando, em 2011. Com o financiamento do livro, vimos também o retorno da grana e, nesse momento, compreendemos o surgimento da Agência Popular Solano Trindade, com três eixos no ciclo produtivo: fomento, produção cultural e comercialização”, explica Silva. “É na parte da comercialização do produto que o artista dialoga com a comunidade. Então, durante muito tempo a gente ‘exportou’ a cultura da periferia para cidade, já que a distância é gigantesca”, recorda Thiago.

A atuação e o diálogo das iniciativas vão além das próprias relações comerciais e inserem-se também no campo artístico, com a participação da Agência Solano na 31ª Bienal Internacional de Arte de São Paulo, em 2014. “Levamos mais de vinte atrações da periferia lá”, comenta Silva.

Intervenção artística durante a 31º Bienal de São Paulo

FESTIVAL PERCURSO 

A Agência Popular Solano Trindade, em parceria com o grupo C de Cultura, organiza o Festival Percurso – de Jardim a Jardim, que promove música, poesia, dança, teatro, encontros e negócios entre as comunidades periféricas. A presença de povos de matriz africana e indígenas de Parelheiros reforça a identidade do evento. O festival acontece todos os anos na Praça do Campo Limpo e conta com a presença de nomes fortes da cena cultural local, como MV Bill, em 2018, e os membros dos Racionais MC’s – Mano Brown apresentou o show Boogie Naipe ao evento em 2017.

A cada edição, o festival tem um custo de R$ 300.000,00 e, para acontecer, conta com apoios como o do Sesc, Greenpeace, Poiesis, Fábrica de Cultura, entre outras empresas que contribuíram para a edição 2018. “Não cobramos porcentagem de nada: são famílias, mulheres que lideram suas famílias em uma ação empreendedora”, comenta Silva. Para a última edição, a agência conseguiu apoio do Programa de Ação Cultural (ProAC) e do Programa Municipal de Apoio a Projetos Culturais (Pro-Mac), com isenção estadual e municipal. O evento de 2018 homenageou Paul Singer, economista e docente da USP, que faleceu naquele ano e foi um dos grandes pensadores sobre economia solidária no país.

“Não cobramos porcentagem de nada: são famílias, mulheres que lideram suas famílias em uma ação empreendedora”

Durante o evento o agência promove a circulação da moeda social solano e sua cotação para o real é de um para um. Durante o Festival Percurso, cada convidado recebeu cinquenta solanos – ao todo, haviam 6 mil solanos em circulação no evento, que conta ainda com equipe de cerca de duzentas pessoas para se viabilizar.

Matizes africanas e ancestralidade fazem parte das iniciativas culturais da Agência Solano

Assim, o solano serve para mostrar a força de ações de economia solidária. O articulador cultural ressalta ainda a frase do poeta Solano Trindade: “Pesquisar, ir na fonte de origem e devolver ao povo em forma de arte”. A circulacão da moeda é uma maneira de fomentar, produzir e comercializar os produtos desenvolvidos na comunidade, de modo a gerar renda e sustentar a cadeia de trabalho comunitário a partir de trocas de serviços. “Uma andorinha só não faz verão, mas pode acordar o bando todo”, conclui o empreendedor social parafraseando o poeta Binho, em entrevista concedida para o Imagina Coletivo

 

COMIDA NA CABEÇA

É comum ver Silva dando entrevistas e palestras para falar sobre comida in natura e orgânica. A casa também vende orgânicos em sua sede às quintas-feiras, conta ainda com uma Kombi para o transporte e a venda itinerante, além de uma equipe de deliveries. Por mês, eles fazem cerca de quinhentas entregas para bairros como Butantã, Brooklin, Lapa e Centro – desse montante, cerca de cinquenta cestas são para atender pedidos feitos na própria periferia. “Temos uma história de busca por segurança alimentar há muitos anos. A região do Campo Limpo se organizou para lutar contra a carestia”, contextualiza o articulador sobre o movimento dos anos 1970, que lutava contra o encarecimento do custo de vida e, claro, do acesso à comida. “Há mulheres na comunidade que atuaram nesse movimento e seguem, hoje, conosco. O próprio bairro fala muito sobre isso: aqui antes eram grandes chácaras. Quando as pessoas passaram a chegar, vindas da Bahia e outras partes do Nordeste ou mesmo do Paraná, como é o caso da minha mãe, elas se deparavam com um lugar completamente detonado, com poucos terrenos – e, claro, sem ter onde plantar”, revela Thiago.

A gastronomia e a cultura da alimentação orgânica está presente na Solano: na foto comida é preparada no festival Percurso. Em breve, restaurante também será inaugurado no Campo Limpo.

A agência percebeu, então, um fenômeno: as camadas mais ricas passaram a ter acesso ao orgânico, e as mais pobres, à comida industrializada ou de baixa qualidade. E isso revela os quadros de desertos alimentares, ou seja, lugares de difícil acesso a alimentos nutritivos, gerando a diminuição de seu consumo. O problema, fruto da desigualdade social, é tão grave que há mapeamento dessas localidades, além de discussões entre governo, universidades e demais representações da sociedade civil em busca de soluções (ver o filme Fonte da juventude [2017], de Estevão Ciavatta, que traz essa questão e tem relatos de Silva sobre o assunto).

A cultura do alimento orgânico e das Pancs (plantas alimentícias não convencionais) sempre esteve na base das comunidades, mas hoje esses alimentos acabam sendo acessados pelas camadas mais abastadas da sociedade. Dentro dos córregos que cortam o Capão Redondo nasce uma planta chamada sabugueiro – hype em restaurantes de alta gastronomia em São Paulo –, e esses estabelecimentos vão até Campo Limpo buscá-la.

 

Só quando entendemos o mecanismo é que conseguimos abalá-lo com algumas conexões fortes

Otto Scharmer, professor do Massachussetts Institute of Technology (MIT) e cofundador do Presencing Institute, desenvolveu o laboratório de inovação e nutrição em alimentação no Campo Limpo. “Ele e sua equipe vieram até a quebrada compreender junto com a gente o sistema de alimentação. Desde 2014, eles me apoiam na compreensão do sistema – porque não adianta agir sem entender o funcionamento. Só quando entendemos o mecanismo é que conseguimos abalá-lo com algumas conexões fortes”, ensina Thiago. Está prevista para 2019, na sede da agência, a inauguração do restaurante da Solano Trindade. “A gente estima que serão servidas oitocentas refeições por mês, cerca de trinta por dia”, comenta o empreendedor.

As iniciativa são muitas, e Thiago traz consigo a inovação periférica realizada dentro do seu laboratório vivo no Campo Limpo. Seja qual for a ação e o impacto realizados pelo banco comunitário, pela agência ou pelo futuro restaurante, a missão é uma só: empreender em rede para articular a periferia.

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