Crédito:Pixabay

Na primeira quinzena de novembro, o planeta esteve atento ao que acontecia na cidade de Glasgow, na Escócia (Reino Unido). Por lá ocorreu a COP 26, ou seja, a 26ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança Climática (UNFCCC, no termo em inglês), na qual diversos países, governos, organizações da sociedade civil, cientistas, ativistas, empresários, dentre outros, se reuniram para discutir os próximos passos da agenda climática global.

Você pode estar se perguntando: e por que um evento sobre clima é tão importante assim, a ponto de mobilizar mundialmente grandes tomadores de decisão? Basicamente, porque estamos falando da maior ameaça à vida neste planeta. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas publicou, em agosto deste ano, um relatório mostrando que a crise climática causada pelos seres humanos é irrefutável, irreversível e irá se agravar nos próximos anos se nada for feito.

As consequências dessa crise vão desde o aumento da temperatura média do planeta – que eleva o nível do mar e pode ocasionar o desaparecimento de ilhas e cidades litorâneas – a uma maior frequência de eventos extremos climáticos, como tempestades tropicais, inundações, ondas de calor, seca, nevascas, furacões, tornados e tsunamis, com graves consequências para populações humanas e ecossistemas naturais, e até mesmo o deslocamento forçado de milhões de pessoas em busca de alimento, água e moradia, que estão cada vez mais escassos.

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A COP é, portanto, a melhor oportunidade de reunir representantes de diversos setores e colocá-los numa mesma mesa de debate a fim de encontrar soluções conjuntas, que mitiguem as consequências que estão por vir e adaptem aquilo que já não é mais possível de reverter. Atrelado a essas ações, surge o movimento por Justiça Climática, que nos intima a olhar para esse colapso sob a ótica dos Direitos Humanos.

O glossário da EmpoderaClima, plataforma criada para conscientização dos impactos desproporcionais que meninas e mulheres enfrentam no Sul Global devido às mudanças climáticas, acrescenta ainda que a Justiça Climática:

“(…) insiste na mudança de um discurso apenas sobre as emissões de gases de efeito estufa e o derretimento das calotas polares, para um movimento pelos direitos civis que se volta às pessoas e comunidades mais vulneráveis ​​aos impactos climáticos. (…) A maioria dos riscos recai sobre populações vulneráveis ​​e impotentes, como mulheres, negros, indígenas, ribeirinhos, população LGBTQIA+, dentre outros. Justiça Climática implica na direito a um ambiente seguro, saudável e produtivo para todos, que pode ser exercido livremente, preservando, respeitando e realizando as identidades individuais e coletivas, além da dignidade e autonomia das pessoas”.

 

Nesse sentido, a brasileira Amanda Costa, que é uma mulher negra, ativista e fundadora do Instituto Perifa Sustentável, argumentou que “a COP 26 será a COP dos ativistas”, em uma publicação no Instagram anunciando sua chegada ao evento. A jovem, que participou da primeira edição do programa Potencializa, promovido pela ponteAponte, diz ainda que “a juventude não aguenta mais blá-blá-blá, queremos que as negociações virem Políticas Públicas, projetos para as populações mais vulneráveis e ações práticas que vão transformar nosso mundo”.

As palavras da Amanda ecoam bravamente as demandas de bilhões de seres humanos, que exigem ações concretas para já. A sensação que se tem é que a pauta das mudanças climáticas foi – e ainda está sendo – empurrada com a barriga, postergada para o futuro. Acontece que o futuro é feito no presente, hoje!

E a COP 26 frustra justamente ao não atender às importantes reivindicações de países em desenvolvimento por justiça climática e não garantir o objetivo de limitar o aquecimento global, exigências indispensáveis principalmente para ativistas e cientistas. O portal Climate Action Tracker checou os discursos e as metas apresentadas pelos países em relação ao Acordo de Paris, mostrando que a maioria está longe do limite seguro de 1,5°C: o cenário mais otimista projetado é de 1,8°C e o mais pessimista, 2,7°C!

O Brasil, por sua vez, confirma as análises de que está um pária quando o assunto é meio ambiente. Apesar de alguns avanços por pressões externas, como a facilitação para criação de um mercado de carbono no país, a assinatura de um acordo para diminuição das emissões de metano e outro para a diminuição do desmatamento – com metas pouco ambiciosas ou irrealistas, diga-se de passagem -, o país precisou delegar as negociações ao Itamaraty, ao invés do Ministério do Meio Ambiente, e repete discursos erroneamente ideológicos alinhados ao presidente Bolsonaro, como foi no caso da fala do Ministro Joaquim Leite dizendo que onde há floresta, há pobreza.

Por fim, o último produto da COP 26, chamado Pacto Climático de Glasgow, não é ideal, está repleto de concessões, provoca desapontamentos e deixa muitas partes insatisfeitas, como foi o caso das delegações de Fiji e Ilhas Marshall, países insulares, que ficaram consternados com a flexibilização no texto sobre o carvão (nos rascunhos dizia-se em “eliminação”, mas aprovou-se “redução”) e surpresa com as alterações de última hora. Ainda assim, o acordo é considerado um avanço que nos mantém na direção contra a crise climática, mas também um alerta de que nós ainda estamos batendo à porta da catástrofe climática e que é hora de entrar em modo de emergência e ação direta.

 

Referências:

 

Este artigo é uma reflexão de Luis Fernando Macedo Iglesias.

Luis Fernando Macedo Iglesias. Crédito: LinkedIn.

Luis Fernando Macedo Iglesias é assistente de projetos na ponteAponte, pós-graduando em Meio Ambiente e Sustentabilidade, além de pesquisador na EmpoderaClima.

 

 

 

 

Este texto é de responsabilidade da autora e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa. 

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