Inicio este texto saudando nossas forças. Salve, salve, nossas forças. Salve, leitora e leitor dos canais da Aupa. Precisamos, genuinamente, buscar meios para nos desafiar a pensar um futuro próximo em meio ao caos da pandemia. Tempos complexos e difíceis de compreender, mas de fundamental importância para buscarmos uma construção de rede próxima e aproximada das pessoas e/ou organização que potencializam as pontes de apoio. Apoio estes de diferentes frentes e possibilidades. Práticas cotidianas ancestrais de amparo, cuidado, afeto. Tempos que enxergamos o amor e o ódio no mesmo dia e em diferentes esferas, mas que precisamos do fundo do nosso coração pensar no futuro.

Na coluna do mês passado, citei Aílton Krenak, neste mês trarei um dialeto africano: “Nossa cabeça pensa conforme nossos pés pisam”. Não tem sido nada fácil para as empreendedoras e os empreendedores das periferias deste Brasil com as não possibilidades de eventos, vendas diretas e a rua como vitrine do nosso fazer. Estamos tendo as finanças totalmente alteradas ou, até mesmo, extintas. Neste momento, 37% dos moradores das periferias que pediram o auxílio emergencial ainda estão em análise ou foram negados ao acesso dos R$ 600,00 que daria um fôlego. Muitos desses moradores são e estão nas empreitadas do negócio próprio, das frentes empreendedoras, sejam de negócios de impacto da periferia, sejam de meios tradicionais do fazer da sua força de trabalho, do seu ganha-pão. 

Dentro desse percentual, dos que ainda aguardam ou buscam novamente o acesso ao auxílio, há um número expressivo que não tem outra possibilidade de finanças. O aluguel, as contas básicas e os alimentos começam a ficar sem possibilidade de custeio e muitas destas pessoas contam com apoio das organizações sociais ou de pessoas que estão organizando meios de compartilhar cestas básicas de alimentos. É difícil ver empreendedoras solicitarem as cestas básicas neste momento – há três meses, estas mesmas pequenas empresárias conduziam seus negócios, com sucesso, e hoje não têm o básico para a alimentação de suas famílias. Segundo ouvi de uma delas, “Quando chega a cesta, eu agradeço, porque agora meu filho pedirá e eu terei [alimento] para fazer”; é forte e desumano com todo o esforço empregado para realizar o sonho de ser dona do seu negócio. 

Mesmo com o número expressivo de aportes financeiros por meio do microcrédito oferecido pelas redes tradicionais bancárias, mulheres como esta acima mencionada e tantos outros empreendedores não conseguem acesso, ora pelo nome com restrição, ora por preconceito de CEP, ora pela impossibilidade de ter um fiador (pois este deve ter três vezes o valor do empréstimo como garantia de pagamento). O que se apresenta no mercado formal não atende às necessidades das empreendedoras das periferias. Desse modo, no momento em que o Covid-19 acomete o Brasil, algumas organizações e institutos criam meios próprios ou em parcerias para dar conta deste empréstimo, com a necessidade deste empreendedor olhada de forma próxima, como tem feito o Empreende Aí e a Firgun, o ÉdiTodos (composição de negócios de impacto das periferias), a ANIP e o Banco Pérola ou os matchfundings, como o da Fundação Tide Setubal. Dentro das formas possíveis, há os empréstimos com juros baixo, os sem juros (para aqueles já atendidos pelas aceleradoras) ou ainda as vaquinhas virtuais (podendo ter o valor triplicado pela organização e seus parceiros, como é o caso do matchfunding da Fundação Tide Setubal). Diante destas iniciativas, pode-se dizer que foram e vêm sendo meios para a sobrevivência de alguns negócios e/ou empreendedores.

Veja, estou dizendo que, neste momento, mais do que nunca, as desigualdades se mostram nas periferias e quebradas dos Brasil. Observar e ser parte deste lugar de fala tem nos ajudado a ter ações mais concretas e direcionadas à necessidade imediata do fazer empreendedor. É preciso também dar um passo adiante: compreender que os insumos básicos nas operações dos negócios/empreendimentos são amplos, vão desde o crédito até o Wi-Fi (ou seja, internet para as possibilidades de vendas on-line ou de participação em espaços que dê apoio formativo, dados de operadoras para as facilitações dos canais de comunicação, investimento em postagens nas redes sociais para ampliar sua possibilidade de vendas). 

“Como assim, Fabiana? O empreendedor precisa de tanto auxílio?” Sim, neste momento, as ações deixam de ser solitárias para ser solidárias, precisamos ouvir esse empreendedor e essa empreendedora na suas necessidades – premissa para que possam ter um bom desempenho e condições de passar por mais essa crise. Precisamos avançar nos aprendizados com as novas ferramentas. Os desafios com a internet, que chega nas pontas fragmentada, instável e com os equipamentos técnicos que nem todos antes da pandemia tinham já operacionalizado.

O ecossistema de negócios de impacto da periferia é amplo, pulsante, potente, mas passa por uma crise. E é preciso compreender que o networking neste momento, mais do que nunca, tem que ser rede: rede de apoio, rede de possibilidades, rede de redistribuição de recursos financeiros, rede de troca de conhecimento, rede de afeto. Comecei dizendo que “nossa cabeça pensa conforme nossos pés pisam” exatamente para chegar aqui. Você, que está na ponta, sabe onde seu sapato aperta. E, você, que está intermediando ou é a ponta da base da pirâmide, pode operacionalizar, levando em conta a escuta como premissa de todo o caminho a ser traçado junto e com os empreendedores da base da pirâmide e este, por sua vez, se permitir ser conhecido e conectado pelos seus iguais e por outros que possam contribuir na sua jornada. 

Nossa jornada precisa ser ampliada, por meio do fazer juntas e juntos, da interação, de compreender nossos privilégios e como eu posso aportar o que tenho em excesso ou como possibilidade de troca, meio de ser sujeito de mudança nas relações com o mundo. Que sejamos luz! Ponto de possibilidade! Roteiro da busca pela igualdade.

Aqui continuamos a caminhada acreditando que alguns seres humanos escolhem ser concreto através dos seus muros, nós, da ANIP, queremos ser ponte.

Este texto é de responsabilidade da autora e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa.

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