Fazer negócios e mudar o mundo. Esta premissa dialoga com a proposta de muitos negócios de impacto, mas qual é o caminho que o dinheiro para o investimento de impacto percorre? O paradoxo de muito dinheiro e pouco investimento no ecossistema ainda continua e é fonte para muito debate [leia mais aqui]

Para responder a essa pergunta, a Aupa entrevistou investidores e family offices e apurou dados sobre iniciativas do mercado e investimentos voltados à tecnologia. A apuração revela tendências no universo de impacto hoje e ajuda a entender a distância entre novos negócios e seus investidores.

Antes de chegarmos aos investidores, vale a pena avaliar o atual retrato do ecossistema.

De acordo com o 2º Mapa de Negócios de Impacto, lançado em março de 2019 pela Pipe.Social [disponível aqui], das 1002 empresas que fizeram parte da pesquisa, 43% não têm faturamento, 34% faturam até R$ 100 mil; 11%, entre R$ 101 mil até R$ 500 mil; 5%, de R$ 500 mil até R$ 1 milhão; 3%, de R$ 1 milhão até R$ 2 milhões; 4%, mais de R$ 2 milhões.

As fontes de recursos nesse retrato geral estão distribuídas da seguinte maneira:

  • investimento próprio (76%),
  • FFF (friends, family and fools; (25%),
  • sócio-investidor (11%),
  • instituto/fundação (11%),
  • aceleradora/incubadora (10%),
  • instituições públicas (9%),
  • empresas/corporate ventures (8%),
  • crowdfunding (8%),
  • anjo profissional (6%),
  • bancos de fomento (3%),
  • bancos privados (3%),
  • private equity (2%),
  • venture capital (2%),
  • crowdequity/crowdlending (1%)

Mas quem está conseguindo captar esse dinheiro? Das 1002 empresas, 85% (o que representa 849 empreendimentos) detalharam fontes e recursos utilizados para injetar recursos no negócio ao longo da jornada. Destas, segundo o estudo, 24% apenas captaram recursos de terceiros, 34% investiram capital próprio e também captaram recursos de terceiros e 42% apenas investiram capital próprio, ou seja, essas últimas não quiseram ou não conseguiram captar recursos.

As 490 empresas que captaram algum recurso puderam se deparar com uma diversificação de fontes, porém com baixo fluxo. “A rede própria é a principal fonte – acessada por um em quatro empreendedores –, enquanto os índices de participação de investidores profissionais se mantêm aquém do demandado”, atesta o estudo da Pipe.Social.

TECNOLOGIA ATRAI DINHEIRO

O pipeline brasileiro conta com a seguinte distribuição nas áreas de impacto: 46% voltados para as tecnologias verdes, 43% para a cidadania, 36% para a educação, 26% para a saúde, 23% para os serviços financeiros e 23% para as cidades. O uso de tecnologias atrai mais investimentos, torna o negócio mais escalável, e é comum ver essa associação partindo de iniciativas investidoras no mercado financeiro. As fintechs podem ser entendidas como essa junção entre tecnologia e mercado financeiro. Elas são startups de menor custo de operação, se comparadas aos bancos tradicionais e que visam otimizar serviços financeiros.

Quando pensadas no setor de impacto, trazem como proposta a diminuição da desigualdade social e a concessão de crédito a grupos identitários que dificilmente conseguem esse acesso. O Conta Black e o D’Black Bank [leia entrevista aqui] são alguns desses exemplos de fintechs voltados ao segmento social e étnico-racial, buscando o fortalecimento de grupos identitários e seus empreendedores, bem como a diminuição de desigualdades e violência. Das mais de quatrocentas fintechs registradas pela Associação Brasileira de Fintechs (ABFintechs), 58% concentram-se na região Sudeste, mesma área que aglomera 62% dos negócios de impacto. Contudo, o desafio é aproximar essas startups financeiras sobretudo do empreendedor na periferia – ou seja, fazer esse dinheiro, de fato, ser escalado e circular onde o impacto socioeconômico e ambiental deve ser feito.

Quando os negócios envolvem tecnologia, segundo o Mapa da Pipe.Social, há mais retorno do investimento, tanto para quem apoia quanto para quem empreende. O empreendimento potencializa a proposta de valor do negócio e propicia o surgimento de inovações tecnológicas, trazendo mais impacto social e ambiental para escalar soluções.. Porém, vale destacar que cerca de 26% dos empreendedores sociais não utilizam ou apoiam alguma tecnologia inovadora.

 Anna Carolina Aranha, fundadora da Impactix Consulting e cofundadora da Pipe.Social, reforça que, quando o assunto é impacto, é inegável a questão da tecnologia como uma possibilidade de escala. “Quando a gente fala em potencial de transformar a vida de milhões, com soluções que realmente sejam escaláveis, é muito difícil que isso não passe pela questão de tecnologia. E a gente vê que, cada vez mais, o mercado vem avançando com relação a isso”, destaca ela. Na primeira edição do Mapa da Pipe.Social (2017), Aranha comenta que foram analisadas “todas as grandes tecnologias exponenciais, que propulsionariam ganho de escala dentro dessas soluções, como blockchain, impressora 3-D, inteligência artificial, IoT (Internet of Things; Internet das Coisas, em português) e drones. Mapeamos um monte de tecnologias e quando fomos perguntar a esses negócios o quanto eles usavam isso, a penetração era baixíssima: era 1%, 2% desse uso de tecnologia pela grande maioria dos negócios. Esse dado melhorou muito este ano, no segundo Mapa da Pipe.Social”, explica ela.

“O uso de tecnologia sempre proporciona maior escala. Óbvio que quando falamos em ter maior escala, se torna mais sexy do ponto de vista de potencial e impacto: são mais pessoas se beneficiando da solução, mas não necessariamente trazendo um impacto individual, muitas vezes, mais profundo”, alerta Aranha. Ou seja, a escala e a tecnologia não são as respostas para todos os problemas, e esta última não é indispensável para todo e qualquer tipo de projeto.

 

MERCADO FINANCEIRO: FAMILY OFFICES

O mercado financeiro também se faz presente e é protagonista no que diz respeito, sobretudo, aos investidores do ecossistema. As family offices são ponte para esse diálogo entre indivíduos de alta renda e o potencial investimento em empreendimentos voltados para causas, bem como fundos e produtos de impacto. Em fevereiro de 2019 o ICE e a Impactix reuniram um grupo de doze famílias para o FORImpact – Family Offices de Impacto, de modo a firmarem compromisso com coinvestimento direto em negócios de impacto socioambiental. Em 2018, essas famílias e representantes desses escritórios familiares tiveram seis encontros para se habituarem à temática do ecossistema. Seis negócios, selecionados após a chamada do ICE-BID, devem repartir o investimento de R$ 1,2 milhão nos próximos anos.

ICE e Impactix promoveram o grupo das famílias do FORImpact (crédito: divulgação ICE)

A família Zaher tem sua trajetória marcada pelo mundo da educação, a partir de empreendimentos do empresário Chaim Zaher, sendo dona do Grupo SEB, que é detentor de escolas como a Maple Bear e o Pueri Domus. A partir do FORImpact, a família faz sua primeira aproximação com o ecossistema de impacto, embora já venha tateando no setor. Thiciana Zaher, vice-presidente do Instituto SEB, associada do ICE e integrante do FORImpact, afirma que “a família entende que faz muito mais sentido produzir impacto na sociedade, contribuindo para a melhoria do ambiente social”. Ela ainda completa que

“o FORImpact foi a porta de entrada para que pudéssemos entender sobre negócios de impacto estruturados, ter contato com famílias interessadas no tema, bem como startups vocacionadas para negócios de impacto”,

Fernando Pedó, diretor executivo da TCA family office, que atende à família Zaher, entende que a contribuição das famílias pode auxiliar na mudança acerca da discrepância entre as possibilidades de investimento, tendo os family offices como opção, e os negócios que conseguem os subsídios, escapando do “vale da morte” – a cada dez empresas, sete não conseguem escapar de tal destino. “As famílias podem colaborar com técnicas de gestão de negócios, aproximando sua rede de contatos com os investidores, de modo a facilitar a linha de financiamento para negócios de impacto”, destaca Pedó sobre os ensinamentos e trocas de culturas dentro do ecossistema.

Quando se trata de investimentos com propósitos, a família Zaher tem preferência por negócios voltados à tecnologia para alocar seus subsídios, de modo a alinhar-se com os outros investimentos da família. “Sempre tivemos nossos propósitos alinhados aos avanços da tecnologia voltados para a educação”, diz a vice-presidente do SEB. Em relação a força do mercado financeiro, Zaher afirma: “Com certeza este pode influenciar o mercado de impacto, pois se eles [atores do mercado financeiro] começarem a voltar os olhos para os negócios de impacto, trarão mais investimento para o setor – com mais investimentos, o setor se sustenta trazendo, assim, mais empreendedores”.

Na Wright Capital Wealth Management, fundada por Fernanda de Arruda Camargo e Alexandre Gottlieb Lindenbojm, aportar 1% dos recursos faz parte da premissa apresentada a todas as famílias para as quais eles gerenciam o patrimônio. A Wright Capital, por intermédio de seus fundadores, une dois saberes fundamentais para o universo de impacto: Camargo é economista e Lindenbojm é advogado. E como convencer as famílias a conhecer esse novo universo: o ecossistema de impacto? “No começo era mais difícil, mas dado que para gente era uma condição, no final, o diálogo funcionava bem. Ressaltávamos que a intenção não era doar o dinheiro da família, mas sim apresentar uma classe de ativos que está em desenvolvimento, em estágios mais incipientes”, comenta Lindenbojm.

Para apresentar a proposta às famílias, a Wright Capital fez uso de um duplo argumento. (1) Ao longo de dez anos, a alocação desse capital inicial, se fosse perdido, não faria diferença alguma no patrimônio das famílias. “A gente não acreditava que ia perder tudo, mas caso acontecesse, sabíamos que teríamos mudado a vida de muitas pessoas”, explica o advogado. (2) O segundo é uma premissa de confiança bastante famosa no mundo das finanças: skin in the game. “Nós decidimos aplicar uma taxa zero na alocação de capital para essa classe de ativos. Assim, abrimos mão completamente da nossa remuneração caso a família aplicasse nessa classe de ativos. Foi um jeito de dizermos: ‘Estamos juntos! Vamos construir juntos, ajudar a criar e fortalecer o ecossistema, levando esses capitais com olhar mais humano”, enfatiza ele. Hoje, há famílias que chegam ao escritório da Wright Capital por conta desse propósito, garante o CEO.

“Atualmente a oferta para impacto está muito mais voltada ao venture capital, embora haja um grupo que está se organizando com private equity, que são tickets maiores. Agora estamos começando a ter ofertas de crédito – não dá para ter uma alocação muito grande em venture capital”, explica Lindenbojm. “Havendo uma agenda de impacto, para as famílias que têm interesse em começar a ver esse tipo de negócio se desenvolvendo, acaba sendo bastante interessante”, salienta o CEO. “Temos algumas famílias que acabaram coinvestindo diretamente em algumas empresas. Mas, dentro da nossa alocação, vamos soltando bem devagarzinho, para entender que precisa ter a responsabilidade para esse negócio dar certo e, dentro do nosso dever fiduciário, não podemos cruzar uma linha tênue”, orienta ele. Vale ressaltar que na Wright Capital o dinheiro é aplicado num fundo gestor, de modo que as áreas que recebem alocação não são por eles escolhidas.

Alexandre Lindenbojm da Wright Capital (crédito: agência Ophelia)

 

REFLEXÕES SOBRE O CAMINHO

Quem está conseguindo captar esse dinheiro? Na análise do fluxo de captação por perfil de negócio, ainda segundo o Mapa da Pipe.Social, observa-se baixa atuação de fundos e investidores fora das regiões Sul e Sudeste (no estudo, 14% e 62% das empresas de impacto encontram-se no Sul e no Sudeste. respectivamente). Dessa forma, a oferta chega com mais recorrência por intermédio de bancos de fomento, institutos, fundações e rede própria. Com relação ao recorte de gênero: mulheres (34% das respondentes da pesquisa) captam mais usando a rede própria, o governo e os bancos privados, enquanto os homens (representam 66% dos empreendedores entrevistados) estão viabilizando maior variedade de fontes e investimentos profissionais; 50% dos negócios têm apenas homens ou mais homens entre seus fundadores. Empresas no vale da morte também têm menor disponibilidade de capital, assim como negócios não acelerados e que não investem na medição do seu impacto. Negócios liderados ou com maioria societária formada por mulheres têm mais dificuldade de atravessar o vale da morte: enquanto esses negócios têm acesso a fontes como crowdfunding, FFF, instituições públicas e governo, bancos de fomento e comerciais, as empresas geridas ou de maioria masculina fazem uso mais recorrente de incubadoras e aceleradoras, empresas privadas, fundos de venture capital, fundos de private equity, instituições e fundações.


O caminho que o dinheiro segue, portanto, pode estar mais ligado ao dinheiro em si do que à própria causa ou ao potencial impacto das empresas. Mas o fato é que há também um movimento, sobretudo de escritórios de famílias abastadas, pensando num legado além do patrimônio em si – um impacto social que, de fato, toca na ferida de desigualdades e degradação que marca o mundo herdado pelos millennials e que esta geração precisa aprender a gerir. A motivação vai além da filantropia e “da beleza” do gesto. Negócios de impacto e/ou com propósito podem ser um caminho efetivo

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