Os dilemas de empreender no social

FA.VELA, negócio de impacto de Belo Horizonte (MG), atua como ponte para garantir acessos e oportunidades a quem mora em territórios vulnerabilizados

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Este é o terceiro episódio da série “O que não te contaram sobre impacto?”, do AupaCast. Fábio Deboni conversa com João Souza, diretor de novos negócios e parcerias do FA.VELA.

Mineiro, escoteiro e mecânico, João se viu em dado momento ingressando no empreendedorismo social e, logo depois, nos negócios de impacto socioambiental. Em 2014, ao terminar a dissertação de mestrado sobre o tema e, com a ajuda de seus amigos, resolveu empreender, abrir um negócio ou, como João brinca, “arranjar problemas”. “Nosso objetivo era, a partir das nossas experiências (profissionais), levar mais acessos e possibilidades para quem estava na ponta”, comenta.

O negócio
O diretor de novos negócios e parcerias justifica que, pelas influências do mercado e a necessidade de vender serviços para remuneração da própria equipe, a verdadeira sevirologia –  habilidade de “se virar com o que tem” -, o FA.VELA foi mudando sua narrativa com o tempo. Localizada em Belo Horizonte (MG) e fundada em 2014, a holding ou o hub de impacto atua com tecnologia e educação empreendedora para promover empoderamento e desenvolvimento de territórios vulnerabilizados. Em referência ao campo, João apresenta a tese de impacto do seu negócio: “Nossa tese (de impacto) é conectar pessoas e territórios através da educação, da tecnologia e por meio de processos de inovação social”.

A organização social utilizou as experiências acumuladas para consolidar o modelo de negócio. Principalmente, no desenvolvimento de metodologias, o que trouxe conteúdos e ferramentas para capacitação de pessoas que abriram portas para uma nova oportunidade de atuação: desenvolver projetos customizados, seja de novas edições dos programas conhecidos, como Perifa 60+ e Corre Criativo, que possuem recortes de gênero e faixa etária, até propor novos projetos às empresas. “Nunca trabalhamos com doações governamentais ou incentivos fiscais, o que é comum no setor. A sustentabilidade sempre foi importante para nós pela perspectiva que precisamos remunerar a equipe”, reforça.

Nos últimos dois anos, a principal fonte de recursos do negócio veio das consultorias prestadas para organizações, como Fundação Renova, Sebrae MG, Fundo Baobá, entre outras. “Desses trabalhos, surgiu a necessidade de separar as coisas. No final de 2020, lançamos no mercado nosso braço de consultoria, com um novo CNPJ [Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica] e novo nome, a Futuros Inclusivos”, conta.

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O desafio e as soluções
No ecossistema brasileiro, ainda não existe uma definição jurídica sobre o que é e como é constituído um negócio de impacto, seu modelo de negócio. Esse cenário nebuloso provoca constrangimentos para iniciativas com a estrutura do FA.VELA. “Quando abordamos (as empresas) nos intitulando como uma Organização da Sociedade Civil (OSC), eles já entendiam ‘como posso lhe ajudar?’. Só que eu estava ali vendendo um serviço, um projeto para eles e fomos colocados automaticamente em um lugar mais assistencialista”, lembra. A criação da Futuros Inclusivos, além da necessidade, serve como uma máscara para o mercado, facilitando as relações B2B, empresa com empresa.

Outro desafio percebido pela holding foi sua atuação fora do eixo São Paulo, cidade berço de vários empreendimentos e que concentra a maior parte dos investidores. Por se encontrar na periferia do Sudeste, a dificuldade em acessar recursos se torna maior. João relembra sua “peregrinação de impacto”, onde planejava viagens para a capital paulista para participar de eventos e criar conexões dentro do campo.

Por outro lado, João reflete sobre o envaidecimento de alguns atores e seu papel centralizador: “Existem esses lobistas (os intermediários) que podem ser uma pessoa branca de classe média ou aquele negócio periférico que chegou primeiro e se tornou a referência. Tudo antes de chegar às outras pessoas periféricas, LGBTQIA+ ou pretas, passa pela sua validação. Inclusive mencionam isso ao lhe ligar com alguma proposta. Entendo isso como algo ruim”, observa. Assim como em países como os Estados Unidos, João defende que as atividades de lobby no Brasil também precisam ser regulamentadas. Segundo ele, a “disputa” seria mais justa. 

Confira o episódio completo.

Serviço
Nome do empreendedor: João Souza.
Negócio: FA.VELA.
O que (o negócio) faz: Conectar pessoas e territórios através da educação, da tecnologia e por meio de processos de inovação social.
De onde é: Belo Horizonte, Minas Gerais.
Quando começou: 2014.
Principal tema da conversa: Entendimento sobre modelos de negócios de impacto.
Soluções buscadas: No caso do FA.VELA, separar as atuações e abrir um segmento dedicado às relações B2B

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