Um tema recorrente na gestão de projetos de impacto social é o alinhamento do projeto à Teoria de Mudança. Isso diz respeito à importância das ações do projeto estarem de acordo com os propósitos da organização. Sempre que vamos apoiar alguma organização social ou negócio de impacto na estruturação de um projeto, nos preocupamos em entender se aquele projeto está de acordo com a Teoria de Mudança da instituição.

Além disso, há um questionamento constante sobre se o próprio projeto tem uma Teoria de Mudança (ToC, do inglês Theory of Change) compreensível. Isso está cada vez mais em voga, afinal, o campo de impacto socioambiental tem usado a ToC tanto como caminho para apoiar a configuração de projetos quanto para a medição de impacto e dos resultados.

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Há certo tempo, fui apresentada por Morgana Krieger ao conceito de legitimidade cognitiva. De acordo com o que a própria Morgana me ensinou e escreveu em sua dissertação, “Legitimidade das organizações da sociedade civil: análise de conteúdo à luz da teoria da capacidade crítica”:

“a legitimidade pode ser entendida como a percepção de que uma organização tem o direito de existir e atuar em sociedade, tendo suas ações julgadas e adequadas por todos aqueles que estão à sua volta e se relacionando com ela, com base nas justificativas para sua ação social e política”.

Morgana e eu trabalhamos juntas há alguns anos em um projeto que consistia em apoiar organizações no desenvolvimento institucional – e parte do processo era, justamente, ajudar Organizações da Sociedade Civil a desenharem suas Teorias de Mudança. O objetivo era que tais organizações, a partir do desenho da ToC, pudessem entender e aumentar seus impactos socioambientais e também mensurá-los.

Em um levantamento sobre como as organizações estruturaram suas ToCs e os resultados que obtiveram desses processos, um dos dados mais curiosos foi que, das nove instituições que responderam à pesquisa, apenas uma disse que usou a ToC para fins de avaliação.

Diante deste panorama, a construção da ToC por essas instituições e em seus projetos foi um processo muito além do avaliativo, de modo a revelar uma conexão profunda entre o desenvolvimento reflexivo das organizações e a ampliação da legitimidade delas junto aos seus públicos e demais partes interessadas. Ou seja, gerou um aumento da percepção de que as organizações tinham o direito de existir e atuar. Tal fato ocorreu, pois o processo de construção da ToC na maioria dos casos envolveu equipes internas, beneficiários, conselheiros e voluntários. Segundo sete das nove organizações que participaram da pesquisa, o processo reflexivo foi o responsável pela criação de uma cultura de aprendizagem nas respectivas instituições.

Oito destas empresas afirmaram que, após o processo de desenvolvimento da Teoria da Mudança, mudaram atividades, projetos ou objetivos. E não foram apenas mudanças triviais. Após o esclarecimento de objetivos, iniciaram novas atividades para alcançá-los, chegando a estruturar novos projetos ou iniciar novas possibilidades de arrecadação de fundos. É interessante ver como as nove organizações mencionam que passaram a usar a ToC para explicar, de forma diferenciada, o que a organização faz em momentos distintos, como: captação de recursos, relacionamento com parceiros, relacionamento com o conselho e, até mesmo, para melhorarem os treinamentos para a equipe e se candidatarem a prêmios.

De maneira empírica, vemos à alta correlação entre clareza de ToC de organizações e melhor execução de seus projetos. Não é coincidência. Os resultados da pesquisa mostram que organizações que passam pelo processo de desenvolvimento de uma ToC constroem pilares para ter maior suporte interno e externo. Por isso, podemos inclusive ousar dizer que o processo de construção de uma Teoria de Mudança – um processo participativo, reflexivo, aberto a críticas e processos de desconstrução e reconstrução – é tão importante quanto ter a ToC finalizada.

A legitimidade cognitiva é sinônimo do estreitamento de laços e a confirmação acerca daquilo que a organização está fazendo perante os beneficiários. Passar por um processo de desenho e construção de uma ToC ajuda a compreender, organizar e explicar a lógica de existência de uma instituição, além de melhorar os processos de tomada de decisão. Portanto, destaca-se a importância de escolher quais caminhos e estratégias são mais adequadas para cada problema a ser enfrentado.

Este artigo é fruto de pesquisas de Morgana Krieger e diálogos com Andressa Trivelli.

Morgana Krieger. Crédito: FGV

Morgana Krieger
Pesquisadora apaixonada. Doutora em Administração Pública e Governo pela FGV-EAESP, com sanduíche na LSE, mestre em Administração Pública pela UDESC. Áreas de atuação profissional e pesquisa: questões urbanas, democracia e conflitos, organização da sociedade civil e movimentos sociais.

Este texto é de responsabilidade das autoras e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa.

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