Vindo do Jardim D’Abril – periferia de Osasco, município vizinho da capital de São Paulo – Márcio Black celebra seu momento atual: “Cheguei vivo até os 42 anos, contrariando realmente a estatística” e acrescenta: “Chegar vivo não é trivial, considerando que os nossos corpos (negros), nascem para morrer muito rápido. Estar vivo e sendo capaz de influenciar na política, atuar politicamente para que outras pessoas, como crianças e adolescentes negros, não passem pelas mesmas violências que eu sofri, para mim, me bota num lugar de realização. Sei que posso chegar mais longe”.

O cientista político ocupa hoje a coordenação do programa “Democracia e Cidadania Ativa”, da Fundação Tide Setubal. Vale lembrar que a Fundação ganhou destaque no último ano devido ao Matchfunding Enfrente – plataforma de financiamento coletivo, feita em parceria com a Benfeitoria -, que destina recursos às iniciativas periféricas de enfrentamento da pandemia de Covid-19 nestes territórios.

Márcio conta que os efeitos da Covid-19 provocaram mudanças na Fundação e o Enfrente serve como um reflexo. “Entramos com o ano todo planejado e, de repente, fomos soterrados pela pandemia. Ela [a pandemia] apareceu como um grande risco e, por outro lado, percebemos que os projetos estavam pulverizados e meio triviais. O que fizemos foi pegar um projeto que estava pronto, o Enfrente, e redirecionar todo o orçamento da Fundação, mais as captações feitas com os parceiros, para a plataforma e, assim, chegar ao resultado atual”, explica ele.

Triplicando o valor de cada doação feita, a plataforma já mobilizou quase R$6 milhões para projetos das periferias brasileiras. Ao comentar sobre esses resultados, Marcio vê o saldo positivo: “Vários parceiros entraram na iniciativa junto com a Fundação, somando para que o Matchfunding Enfrente fosse o maior matchfunding da sociedade civil no Brasil. Houve o aporte de uma série de organizações, como Instituto Galo da Manhã e Itaú Social. Então, não tem como não ficar contente”. Além da abrangência nacional, a iniciativa destinou a maior parte dos recursos para itens de necessidade, como alimentação e produtos de higiene.

A seguir, leia a entrevista com Marcio Black sobre suas inspirações, os desafios com o Estado, as agendas antirracistas das organizações e a ascensão de movimentos vindos das periferias.

AUPA – Quais aprendizados ficaram desse ano pandêmico?
Márcio Black – Há o grande aprendizado, na linha “buscar parcerias sempre é interessante”, mas também há outro: “Não é o Terceiro Setor que vai resolver o problema”. Quero dizer, toda essa movimentação que aconteceu na sociedade civil, como um todo, não só na Fundação em particular. Se nós olharmos para o setor, os atores entraram entendendo a urgência do momento. Esse campo aumentou e aqui não me refiro só à filantropia, mas também às doações e tudo mais.

Outra coisa, foi a consciência de que o Estado ainda é o maior vetor para a redução da desigualdade no país. O Estado [governo] é quem mais tem capilaridade e está vocacionado para combater as desigualdades em geral e, principalmente, as desigualdades que ficaram em evidência com a pandemia da Covid-19. 

Precisamos fortalecer, cada vez mais, nossa aproximação do Estado, seja tanto legislativo quanto executivo.

AUPA – Quais são os desafios dessa relação com o Estado?
Márcio Black – Uma das crises que o Brasil sempre teve é a do patrimonialismo. Não podemos esquecer que o Brasil é justamente patrimonialista e que até leituras liberais lêem o Estado brasileiro como promotor de desigualdade. O que não estaria de todo errado, olhando pela ótica dos altos salários que são praticados.

No Brasil, hoje, contudo, quem é motor e promotor de redução de desigualdade é o Estado por excelência, porque precisamos pensar também que a desigualdade, tanto de distribuição de renda quanto de acesso, é fruto de fenômenos de desigualdade de poder. Por exemplo, um número pequeno de famílias ou de grupos controla terras, capital, acesso a emissoras de TV e rádio. Controlam o fluxo de informação e conhecimento.

Não existe qualquer possibilidade de pensar um horizonte de redução de desigualdades ou de distribuição de renda mais igualitária, se também não alterar essa concentração – que não é muito grande – dos meios de comunicação, produção e também dos meios de governança. O Estado cumpre todas essas funções. Acredito que o Estado regula essa distribuição de renda, por meio de reforma tributária e outros tipos de regulamentações. Ele [o próprio Estado] também precisa ser alvo dessa redução. Ou seja, mais pessoas negras e periféricas precisam acessar esses espaços para poderem coordenar Políticas Públicas direcionadas às periferias e a essas comunidades, que vêm sendo alvo de uma política desigualitária.

AUPA – Como você enxerga esse protagonismo das lideranças periféricas ao longo de 2020?
Marcio Black – Há dois eixos. Um lugar é o começo do ano, com a chegada da pandemia, quando ficou explicita a desigualdade que existe no país – quando vemos as populações negras e periféricas serem as mais atingidas pelos efeitos do Coronavírus. Um setor econômico completamente paralisado e todo o “papo” de capitalismo consciente que não sai do lugar, como se não tivesse acontecendo uma crise. O que temos é as periferias mostrando, mais uma vez, sua capacidade de articulação, movimentação e captação de recursos. Um grande exemplo é Paraisópolis (periferia da Zona Sul de São Paulo), com lideranças comunitárias capacitadas e mobilizadas de uma maneira que os efeitos foram menores naquele território, porque a União dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis foi capaz de articular a captação de recursos, mobilizar a comunidade das demandas e criar mecanismo de distribuição e gestão do território. O que o Terceiro Setor e o Estado não foram capazes de realizar.

AUPA – O debate racial foi um grande tema em 2020 no Brasil. Como você enxergou este debate ao longo do último ano?
Marcio Black: Acredito que a questão racial sempre foi muito forte no Brasil, não podemos atribuir o que está acontecendo agora ao movimento atípico que tem acontecido nos últimos dois anos. Com o Black Lives Matter batendo e influenciando alguns setores brasileiros (econômicos e sociais), fomos um pouco a reboque também, o que não tira nenhum mérito dos movimentos negros que vem acontecendo desde a década de 1930 no Brasil. Essa reivindicação é uma demanda de anos. Principalmente, aquela que reivindica o acesso ao espaço de decisão política, com candidaturas extremamente potentes, exemplo a Gabinetona (um mandato coletivo), em Minas Gerais, que elegeu a Áurea Carolina.

(Da esquerda pra direita) Elaine Mineiro e Erika Hilton. Crédito: Equipe de Arte Aupa.

Não podemos esquecer toda a movimentação que aconteceu após a execução da Marielle Franco em 2018. Ela [Marielle Franco], em si, já era uma potência política que estava ganhando protagonismo, tendo como base essa movimentação negra e periférica, e sua execução joga mais luz para o problema da potência das legislaturas negras e da sua fragilidade política, as quais elas estão susceptíveis, um ponto de atenção. O assassinato do George Floyd, em maio de 2020, é o que dispara e comove mais ainda nesse lugar.

Não é só o George Floyd. Precisamos ficar martelando esse dado, porque é real: a cada 23 minutos um jovem negro morre violentamente no Brasil. Fazendo um parêntese, ao escutar a introdução de “Capítulo 4, Versículo 3” do Sobrevivendo no Inferno – disco de 1997 do grupo Racionais MC’s – encontramos a mesma estatística. Quer dizer, ela [a estatística] ao longo de 20 anos, não se mexeu. Hoje temos alguns setores da sociedade realmente comovidos e criando uma grande aliança antirracista, entre brancos e negros, que vem permitindo certos acessos e avanços. Por outro lado, no final, ainda somos nós, negros, que estamos sendo assassinados na mão de segurança privada como aconteceu com o João Alberto, na véspera do Dia da Consciência Negra.

Minha leitura é que as mudanças estão sendo implementadas, não podemos tirar o valor delas, porém temos um longo caminho ainda para percorrer antes de dizer que a desigualdade racial, por exemplo, está diminuindo de fato. Porque quando olhamos para as principais organizações, os principais movimentos ou as lideranças ainda vemos majoritariamente pessoas brancas e ainda são majoritariamente masculinas, não se pode perder isso de vista.

AUPA – Você consegue citar alguns caminhos possíveis para diminuir essas desigualdades?
Marcio Black – Uma movimentação bem legal são os comitês de diversidade criados nas organizações e os programas de bolsas e de formação de lideranças com cotas para a questão racial. Outro movimento, que tenho acompanhado de perto, são as escolas antirracistas. Sobre como garantimos acesso à Educação de qualidade para crianças negras e periféricas. Vale dizer que esta discussão das escolas antirracistas é encabeçada por escolas particulares. É importante entender que a desigualdade racial promove também desigualdade na aprendizagem, quer dizer, o racismo, mesmo nas escolas públicas, é um dos vetores que leva também a desníveis de aprendizagem.

Há lugares para serem ocupados hoje e já existe uma movimentação em torno disso, mas, ao olharmos para as escolas e para as crianças, estamos falando de um novo marco civilizatório, futuro, projeto de país. Ou seja, é sobre reduzir as desigualdades e a percepção em relação ao racismo entre crianças e adolescentes. Hoje, vejo escolas e jovens como o lugar mais frutífero para isso.

Tanto politicamente, quanto em relação à questão racial, ter um foco nas juventudes é o melhor investimento que podemos fazer.

AUPA – Existem espaços de formação política dentro do ecossistema?
Marcio Black – Não temos espaço de formação, o que está acontecendo são organizações fomentando iniciativas que rodam dentro das escolas. Trazendo o lugar da cultura, nas periferias de São Paulo já existem espaços de formação política, são as Casas de Cultura, os saraus, os sambas. Sem parecer leviano, mas os espaços tradicionais de formação política ficaram esvaziados e falo desde os institucionais, como sindicatos, até aqueles religiosos. Os novos espaços estão sendo fortalecidos ao longo dos anos e são saraus, slams e pancadões. Esse último, inclusive, vem sucessivamente nas últimas eleições, lançando candidatas e candidatos da própria Liga do Funk de São Paulo.

Citando outras, existe essa formação política que acontece em espaços públicos nas periferias, as ocupações culturais, como a Ocupação Ermelino, a Casa Poética – inclusive esta última faz trocas muito legais entre estudantes da rede pública e esses movimentos culturais. Vale ressaltar que a maior parte dessas candidaturas – eleitas na última corrida eleitoral – negras, periféricas e LGBTQ+ têm como base justamente essa movimentação cultural que acontece nas periferias. Então, se queremos ver um espaço de formação por excelência, o foco são esses espaços.

AUPA – Segundo dados do Censo GIFE 2018, pretos e pardos são 24% no quadro de funcionários do ISP (Investimento Social Privado). O que mostra uma aderência tímida de pessoas negras dentro das organizações do Terceiro Setor. Quais os desafios e caminhos para aumentar essa participação?
Marcio Black – Esse lugar, por exemplo, é onde veremos a efetividade das agendas antirracista nas organizações. Tenho o privilégio de trabalhar na Fundação Tide Setubal, que conta com metade de seus colaboradores negros e de origem periférica, mas ainda é algo raro no setor. Vemos uma movimentação surgindo com a criação de comitês e a busca de quadros negros, o intuito é alcançar a paridade, porém o maior desafio ainda está em negros ocupando cargos de liderança dentro dessas organizações.

Acredito em dois desafios: esses quadros negros ocuparem lugares de liderança e serem também os financiadores. Hoje, ao olharmos para os principais financiadores, estes ainda são também majoritariamente brancos e majoritariamente masculinos. Segundo Sueli Carneiro – ativista e fundadora do Geledés – e outras pensadoras negras, isso cria o “pacto narcísico da branquitude”, afinal, temos as lideranças brancas no topo da cadeia das organizações negociando com os financiadores também brancos. Isso acaba enviesando, de certa maneira, a atuação das organizações.

Minha leitura é que, ainda assim, a movimentação para a concentração de mais pessoas negras vem acontecendo de uma maneira bem legal. Por outro lado, essa movimentação para ter pessoas negras em cargos de liderança ainda está rolando com uma certa timidez. Assim, tanto o Terceiro Setor quanto as empresas estão longe ainda de ser algo razoável.

AUPA – Devemos confiar nessas agendas antirracistas adotadas pelas organizações ou temos que desconfiar?
Marcio Black – Eu não colocaria nessas chaves, assim, os movimentos antirracistas brancos e negros têm que cada vez mais botar pressão. Não podemos, em nenhum momento, aliviar a tensão em relação a essa agenda, porque está longe de chegar perto do que consideramos – minimamente – razoável. Tendo avanços, o nosso papel é tensionar para que outros avanços aconteçam. Então, mesmo que eu confie na agenda de uma organização, não posso, em nenhum momento, baixar a guarda em termos de fiscalização ou de mobilização em torno do tema.

Gestos como fiscalização, monitoramento e tensionamento precisam ser diários, porque não é só colocar uma pessoa em um lugar X. É necessário ter toda uma rede de acolhimento e cuidado. Estamos falando de camadas, como essas agendas estão capilarizadas no corpo da sociedade, de como elas vão implicar na Educação tanto de base quanto universitária e como isso será refletido no mercado de trabalho. Temos uma jornada bem longa pela frente. E o acesso ao cursinho vestibular? A Uneafro e o Educafro realizam esse trabalho há anos. Garantimos a entrada na universidade e, chegando lá, a permanência é um problema. Como criamos garantias e fundos, por exemplo, para ter uma permanência tranquila para estudantes de baixa renda nas universidades públicas ou privadas? Depois, como garantimos o acesso ao mercado de trabalho? Não são questões tão simples.

E, olhando para um país caminhando, cada vez mais, para o conservadorismo – onde vejo como um último suspiro desse lugar -, que cria obstáculos para os avanços que tivemos no Terceiro Setor, nas empresas e no próprio tecido social. Muito foi perdido, em termos de Políticas Públicas, com a chegada do Governo de Jair Bolsonaro (sem partido) e sua agenda conservadora, que traz uma série de reduções de direitos já conquistados. Então, não enxergo como uma questão de confiança ou desconfiança, mas, sim, de vigilância permanente e de atuação constante para garantir que nenhum passo para trás seja dado.

AUPA – Quais são suas inspirações dentro do ecossistema? Quais trabalhos lhe inspiram?
Marcio Black – Hoje, há uma série de pensadores que podem ser lidos na chave negra desde o Túlio Custódio até o Silvio Almeida, a Djamila Ribeiro e a Juliana Borges. São autores que transitam muito no tema e tensionam essa agenda antirracista, inclusive, a produção de conhecimento científico nas universidades.

Na cultura, como já mencionado, há todo esse movimento cultural das periferias, onde há muitas pessoas tensionando o antirracismo a partir da agenda cultural. Estou falando de Cooperifa, Sarau do Binho, entre outros. Pessoas incríveis que conheci na agenda cultural, como Esmeralda Ribeiro, Márcio Barbosa (dos Cadernos Negros) e Osvaldo de Camargo. Há 40 anos, essas pessoas publicam literatura negra sem nenhum tipo de suporte governamental ou privado, quer dizer, isso é extremamente inspirador.

No campo da política, o trabalho da Uneafro na Educação, no que diz respeito à projeção de novas lideranças políticas, como Douglas Belchior, a própria Erika Hilton, a galera de Minas Gerais – sou muito fã do trabalho do Dú Pente e da Áurea Carolina. Há ainda Mônica Oliveira, em Recife (Pernambuco), que toca a Juntas, um mandato coletivo na Assembleia Legislativa de Pernambuco. Inspirações não faltam.

AUPA – Qual conselho você daria, com base na sua vivência, para um jovem ou uma pessoa negra que está chegando agora ao setor?
Marcio Black – Primeiro, não é fácil. Não dá para ficar romantizando, as pessoas vão estar o tempo inteiro dizendo que você não é capaz de ocupar os lugares que está ocupando ou que não está preparado. Minha dica: passe por cima disso e busque aliados no campo, tanto brancos quantos negros, para poder fazer um trajeto mais seguro. Basicamente, crie uma rede de segurança em torno de você, de pessoas que você confie. 

Crie essa rede de confiança, brancos e negros, para que elas sejam geralmente esse lugar de acolhimento, porque não é fácil, você vai ser o tempo inteiro bombardeado com uma série de coisas e, se você não tiver esses lugares para onde escapar, pode criar problema.

E, também, não perca a confiança no seu trabalho e na sua capacidade. Acredito que o que nos mantém vivos é isso, uma profunda crença em nossa capacidade e o que estamos fazendo é o certo. E tem uma outra parada, como diria o Emicida: “Pra quem já mordeu um cachorro por comida, até que eu cheguei longe”.

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