Programa Mundial de Alimentos da ONU ganha Nobel da Paz e traz lições importantes sobre combate à fome

Conhecida como WFP, a agência humanitária distribui 15 bilhões de refeições anualmente

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Alimentar por dia mais de 100 milhões de pessoas ao redor do mundo e apoiar a criação de Políticas Públicas para erradicar a fome nos países mais pobres são algumas das atividades do Programa Mundial de Alimentos da ONU, conhecido em inglês pela sigla WFP (World Food Programme).

A criação do programa aconteceu em 1961, quando o então presidente americano Dwight Eisenhower fez um pedido durante a Assembleia Geral da ONU para o desenvolvimento de um projeto capaz de promover assistência alimentar por meio do sistema das Nações Unidas. Em 2020, após 59 anos da criação, veio o grande reconhecimento: o prêmio Nobel da Paz.

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David Beasley, diretor executivo do Programa Alimentar Mundial da ONU, ao saber que o WFP havia sido laureado com o Prêmio Nobel da Paz de 2020. Créditos da imagem: News 19 WLTX.

A agência humanitária presente em mais de 80 países, com 17 mil pessoas, trabalha para cumprir o segundo ODS (Objetivos Desenvolvimento Sustentável) da ONU: fome zero e agricultura sustentável. Nesta direção, o programa distribui 15 bilhões de refeições anualmente.

ODS 2, que trata de zerar a fome e promover agricultura sustentável. Crédito: Equipe de Arte Aupa.
Daniel Balaban, representante do WFP no Brasil e diretor do Centro de Excelência Contra a Fome. Crédito: Divulgação

“No mundo, trabalhamos para levar comida onde precisa. Naqueles países já estáveis, ajudamos a criar Políticas Públicas para que não haja mais fome. Ensinamos a desenvolver estrutura e políticas através de especialistas. Trabalhamos também com países africanos e asiáticos”, conta Daniel Balaban, representante do WFP no Brasil e diretor do Centro de Excelência Contra a Fome.

Aqui no Brasil a atuação do Programa Mundial de Alimentos se dá pelo Centro de Excelência contra a Fome, com sede em Brasília. O principal foco no país é ser um hub global de diálogo para formação de Políticas Públicas, desenvolvimento de capacidades, aprendizagem e assistência técnica Sul-Sul para erradicar a fome.

O Brasil se tornou um centro de aprendizagem para outros países graças à saída do Mapa da Fome, em 2014, e ao conseguir tirar 50 milhões de pessoas da extrema pobreza.

“Mais de 50 países do mundo aplicam políticas sociais que foram desenvolvidas no Brasil, como a política de alimentação escolar, de apoio à agricultura familiar e o Bolsa Família”, explica Balaban.

Mas este quadro está ameaçado. No Brasil, segundo a agência, há uma previsão de que mais de 5 milhões de pessoas passem para a extrema pobreza por conta da pandemia. A ONU também tem alertado para o crescimento da fome em 269% na América Latina devido ao cenário – este dado diz respeito ao número de pessoas enfrentando insegurança alimentar severa.

O cenário mais frágil faz com que o trabalho do Centro de Excelência Contra a Fome seja cada vez mais necessário, principalmente no que diz respeito ao incentivo para investimento em Políticas Públicas. Com isso, a agência concentra esforços para convencer líderes da importância de focar na manutenção e aprimoramento das políticas.

“Nosso papel no Brasil é a participação no debate, mostrar a importância da retomada dos orçamentos das Políticas Públicas e sociais. Precisamos que aqueles que têm o poder decisório nas diferentes esferas entendam a importância da retomada disso”, afirma o representante do WFP no Brasil.

Para Balaban, lidar com em termos sociais e econômicos do que investir em políticas sociais. A concentração de renda é outro problema que perpassa essas desigualdades.

“Por que o Brasil é tão rico e tão desigual? Poucas famílias detêm todo o dinheiro do país. Não falamos contra as famílias. O sistema está errado. Precisamos mudar o sistema. Ao criar novos formatos de políticas sociais, estamos levando renda para pessoas que não possuem renda”, reflete Baladan.

A seguir, clique no box para acessar o Centro de Excelência Contra a Fome. 

Crédito: Equipe de Arte da Aupa.

O agro é pop?
O Brasil vive um paradoxo. Enquanto produz alimento para mais de 1 bilhão de pessoas, cerca de 10 milhões de brasileiros sofreram com falta de alimento, ao menos, em alguns momentos de 2017 e 2018, de acordo com dados do IBGE. 

A necessidade de descentralizar a renda se coloca ainda mais forte e abrange o agronegócio, segundo Baladan. “O agronegócio está na mãos de poucas pessoas, o negócio está pensando no lucro. Nada contra, mas não dá falar que ele vai resolver os problemas sociais”.

Neste contexto, a importância de valorizar o pequeno agricultor familiar se mostra urgente, pois, sem apoio, essas pessoas abandonam as terras e migram para os grandes centros. Isso impulsiona a vulnerabilidade, já que muitos são alocados em subempregos ou ficam desempregados.

Outra problemática que brasileiros enfrentam é a qualidade e segurança alimentar. Em 2019, o Brasil aprovou a liberação de 474 agrotóxicos, maior número registrado pelo Ministério da Agricultura desde 2005, quando os dados começaram a ser divulgados.

Precisamos parar um pouco com a preguiça. É mais fácil jogar pelo avião o agrotóxico e não acompanhar a planta. Hoje, agricultores estão criando vacinas para as plantas ficarem mais resistentes às pragas e isso é mais natural. É uma questão de avanço tecnológico”, ressalta o diretor do Centro de Excelência Contra a Fome. 

Delegação de Uganda conhecendo a horta hidropônica em visita de estudos a uma escola localizada em Brasília. Crédito: WFP/Natan Giuliano.

A mensagem principal do Centro de Excelência contra a Fome é que o combate à miséria e à fome seja o foco em todos os poderes. Isso significa disponibilizar recursos orçamentários para Políticas Públicas.

Corremos o risco do país com a maior exportação ter pessoas morrendo de fome. Ainda há tempo. Desde que as pessoas se conscientizem e que quem detém o poder em todas as áreas trate o tema com prioridade”, afirma Baladan.

 

Imagem de capa extraída da página do WFP Brasil no Facebook.

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