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Gigante pela própria natureza, até quando?

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FOTO: MAYKE TOSCANO / IBAMA GCOM-MT

Em um planeta com quase oito bilhões de pessoas, o paradoxo entre desmatar florestas e conservar o ambiente deve ser equacionado. Não é novidade que as mudanças climáticas — causadas por um modelo de desenvolvimento que depende exclusivamente do capital econômico — põem em risco a segurança alimentar, hídrica e energética.

O Brasil deve demonstrar ao mundo como equilibrar os capitais econômicos, sociais e ambientais validando o modelo de desenvolvimento sustentável adotado pela Organização das Nações Unidas (ONU) e pela Organização para o Comércio e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Temos capacidade para isso: o país já se destacou, no início do século 21, ao propor planos e ações para a sustentabilidade.

Entre 1996 e 2005, 19.500 km2 de floresta foram desmatados por ano. A solução teve foco no desmatamento, que contribui, atualmente, com mais de 40% das emissões de gases de efeito estufa (GEE): foram criados o Plano para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (2004) e o Plano Nacional sobre Mudanças do Clima (2009).

 

Em 2015, ao assinar o Acordo de Paris, o Brasil se voluntariou a reduzir 43% (em relação a 2005) das emissões de GEE até 2030. Esse conjunto de ações se mostrou efetivo. Entre 2004 e 2012, o desmatamento foi reduzido em mais de 75%, quando atingimos 4.500km2  em áreas desmatadas por ano. Os esforços garantiram a doação voluntária de 1,3 bilhões de dólares, que compuseram o Fundo Amazônia.

Hoje, no entanto, os dados mostram um cenário preocupante. O desmatamento acelera na Amazônia, com taxas superiores a 10.000 km2/ano desde 2019, os maiores números registrados desde 2008. Cada área aberta causa a formação de bordas florestais permanentes, matando árvores. O chamado “efeito de borda” aumenta em até 37% as emissões de carbono por desmatamento.

Além disso, essas bordas facilitam a entrada de fogo nas florestas, causando incêndios (e somando outros 30% às emissões). Esses efeitos ainda causam a perda da biodiversidade, comprometendo a bioeconomia nacional. Estima-se que causem também uma redução de até 40% da chuva da Amazônia, a mesma que irriga a agricultura no centro-oeste.

Esse contexto não tem impactos negativos apenas para o meio ambiente, mas afeta a economia. Enquanto o desmatamento impossibilita a captação de bilhões de dólares, ele também favorece o descontrole das queimadas. Para se ter uma ideia, as queimadas que ocorreram no Acre entre 2008 e 2012 geraram perdas superiores a 300 milhões de dólares. O desmatamento e a redução de chuvas têm consequências drásticas ao agronegócio — atividade que sustenta mais de 40% das exportações brasileiras, o equivalente a 86 bilhões de dólares anuais (2010-2019) segundo o Ministério da Economia.

A resposta nacional, contudo, parece-me antagônica. Nosso atual discurso internacional preza a sustentabilidade e os investimentos na área ambiental, mas não converge com o que vemos na prática. Projetos de lei controversos, buscando a descriminalização da ocupação ilegal de terras públicas e a flexibilização do licenciamento ambiental, adicionados a uma drástica redução dos orçamentos, esgotam as maiores reservas de biodiversidade do planeta, aceleram as mudanças climáticas e comprometem o desenvolvimento nacional.

Um país com 750.000 km2 de áreas degradadas, o dobro da área de soja plantada hoje, não tem justificativa para desmatar. A produção agrícola não depende de mais terras, mas de uma gestão sustentável e tecnologias que promovam o aumento de produtividade. Acordar para as prioridades do século 21 é condição inegociável para desenvolver o gigante pela própria natureza.

 

Este artigo é uma reflexão de Luiz Aragão, pesquisador e chefe da Divisão de Observação da Terra e Geoinformática do instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

 

Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa.

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Um termômetro da desigualdade racial nas corporações

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Crédito: Equipe de arte Aupa

Um dos pilares de empresas que buscam se alinhar aos princípios do ESG (traduzido do inglês, governança ambiental, social e corporativa) é ter um papel transformador frente à situação social do país e da comunidade onde estão inseridas – princípio que embasa o “S” da sigla. O desafio já começa dentro do escritório: hoje, ainda que representem mais de 50% da população brasileira, segundo o IBGE, pretos e pardos ocupam apenas 4,7% dos cargos executivos das maiores empresas do país. O dado é do levantamento Perfil Social, Racial e de Gênero das 500 maiores empresas do Brasil e suas ações afirmativas, do Instituto Ethos.

Levando isso em consideração, o Pacto de Promoção da Equidade Racial desenvolveu o IEER, Índice ESG de Equidade Racial, a fim de medir o desequilíbrio racial de uma corporação. Funciona assim: depois que a empresa disponibiliza dados demográficos e tem acesso à condição de equidade racial atual, ela pode aderir voluntariamente ao Pacto e se comprometer com o investimento em ações afirmativas. As etapas seguintes contemplam o fomento à permanência e à promoção de profissionais negros, além de investimentos sociais

Pesquisa Realizada pelo Instituto Ethos

Devido à desigualdade na distribuição racial por cargos no Brasil – quanto mais alto, menor a presença de pessoas negras -, o IEER leva em consideração a ocupação e a distribuição de renda entre brancos e negros, além de ter como referencial a porcentagem da população economicamente ativa no respectivo estado de origem da empresa.

Michael França, pesquisador do Insper e um dos econometristas integrantes do Pacto de Promoção da Equidade Racial. Crédito: Divulgação.

“Uma vez que você amplia a transparência informacional, as empresas conseguirão enxergar o quão próximas ou distantes estão do equilíbrio racial em comparação aos concorrentes. Você muda as regras do jogo”, analisa Michael França, pesquisador do Insper e um dos econometristas integrantes do Pacto. Ele conta que mais de 30 empresas já estão em processo de adesão à iniciativa.

 

 

 

Racismo versus cancelamento
Para Michael, a motivação das grandes corporações para sair do status quo e começar a driblar o racismo estrutural vem, em partes, de reivindicações de movimentos sociais. Mas o pesquisador relembra casos de empresas como o do banco digital Nubank: a cofundadora Cristina Junqueira se queixou em uma entrevista sobre, supostamente, ser muito difícil contratar pessoas negras, porque não poderia “nivelar por baixo”. O caso gerou diversas críticas on-line, ameaças de boicote e uma crise de imagem – e de bolsos – para a empresa, que agora já declarou ter investido mais de R$20 milhões em ações de diversidade.

“Se você é uma empresa crescendo em um cenário racial efervescente, independentemente de aderir ou não aos pilares ESG, você pode estar em perigo. As empresas querem fugir de episódios com conotação racial, pois podem ser canceladas”, observa o pesquisador. Nesses casos, o dinheiro investido em políticas internas de equidade pode sair mais barato do que reparar os danos.

Leia também – Racismo: o que vem depois da hashtag?

O próximo passo
De acordo com o levantamento do Instituto Ethos, é comum entre gestores justificar a ausência de negros entre as lideranças de empresas por falta de conhecimento, experiência ou qualificação para lidar com o cargo. No entanto, mais de 80% das empresas não possui medidas para incentivar e ampliar a presença de negros em todos os níveis hierárquicos.

Patrícia Gonçalves, escritora UX e colaboradora do movimento UX Para Minas Pretas. Crédito: Divulgação.

Para Patrícia Gonçalves, escritora UX (do inglês user experience) e colaboradora do movimento UX Para Minas Pretas, o compromisso de empresas que querem atingir o equilíbrio racial vai muito além de dar abertura para o ingresso de pessoas negras nas empresas. “Pode ser que uma corporação tenha muitos projetos de inclusão, mas não tenha ainda capacitado pessoas para que tenham condições de se manter ali. Não é justo, por exemplo, inseri-la na empresa se a cultura interna continua sendo racista, isolando a pessoa e a colocando em situações ruins”, conta.

Segundo ela, a receita é educar, inserir e fazer a manutenção por meio de oportunidades, como bolsas e descontos em cursos de aprimoramento profissional, além de garantir que pessoas negras se sintam confortáveis em um ambiente de trabalho saudável, respeitoso e inclusivo. Vale também traçar parcerias com comunidades que levantam pautas sociais, como a que Patrícia faz parte. O UX Para Minas Pretas tem como proposta promover a equidade de mulheres negras no mercado de tecnologia através de ações de formação, empoderamento e articulação em rede. A comunidade tem parcerias que viabilizam mais oportunidades para profissionais negras, como bolsas de estudo e reservas de vagas em empresas.

Entre cancelamentos e investimentos dos gigantes do mercado, resta o exercício diário da reflexão: “Faça um teste de pescoço. Na próxima vez que você estiver em um lugar público, levante a cabeça, olhe para os lados e conte quantas pessoas negras estão ao seu redor”, provoca. A escritora UX comemora o fato de que o time com quem trabalha é composto metade por negros, mas lamenta a quantidade de espaços em que ainda se sente sozinha.

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Entre a universidade e a incubação: desafios territoriais, com foco nas soluções socioambientais

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Crédito: Equipe de arte Aupa

A região Centro-Oeste é a segunda maior do Brasil em extensão territorial, ao mesmo tempo que é a menos populosa. Composta pelos estados de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, além do Distrito Federal, a agricultura é uma das atividades de maior destaque nesta região: dos 213 milhões de toneladas de grãos projetados para a safra de 2016/2017, o Centro-Oeste liderou a produção brasileira com 90,6 milhões de toneladas, em 2017. 

Considerando as complexidades desta extensão e da atividade agrícola, bem como os impactos socioambientais, a Arca Multincubadora atua para mostrar que o empreendedorismo pode ser a solução. Trata-se de uma  incubadora que contribui com os negócios de impacto, de modo a apoiar a gestão e o planejamento destes empreendimentos, qualificando pessoas e organizações. 

Celso Kiyoshi Hazama, presidente da Arca. Crédito: Arquivo Pessoal

“Em nosso Estado, as organizações de base comunitária, normalmente, cooperativas e associações, são negócios que nascem com propósito de mitigar os problemas locais – contudo, sem planejamento e, sobretudo, sem nenhuma estrutura física ou financeira”, comenta Celso Kiyoshi Hazama, presidente da Arca. A organização capta recursos para apoiar e estruturar os negócios. Porém,  a incubadora está mudando a estratégia, agora com foco na prestação de serviços e assessoria para as organizações. 

 

A Arca Multincubadora tem atuado em frentes como: desenvolvimento comunitário, disseminação do conhecimento, empoderamento social, participação em fóruns e conselhos, assistência técnica social, promoção do extrativismo, produção agroecológica e formalização de uma rede de Agricultores Familiares no Bioma Pantanal. 

Durante a pandemia, a incubadora fez parceria com a AMAGGI, empresa de produção agrícola, para distribuir 630 cestas básicas para famílias da zona rural na baixada cuiabana. A Arca iniciou a ideia do Fundo “Um Por Todos E Todos Contra a COVID-19”, rede de incentivo para estimular a doação para organizações sociais que estão na linha de frente, junto às famílias que precisam de assistência. Ao todo, a Arca Multincubadora já impactou 29 empreendimentos.

“Nosso trabalho busca promover negócios verdes com base em agroecologia e extrativismo. Contudo, as atuais políticas têm prejudicado o nosso trabalho por diversos fatores, entre eles, a dificuldade de regularização ambiental e a falta de editais e recursos para assistência técnica”, comenta Celso Hazama.

Ruiter Pinto de Araújo, vice-presidente secretário da Arca. Crédito: Arquivo Pessoal

Ruiter Pinto de Araújo, vice-presidente secretário da Arca, conta que a incubadora surgiu com a necessidade dos professores-pesquisadores da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) colocarem em prática suas pesquisas. “Além da UFMT, a Arca tem bom relacionamento com os professores do Instituto Federal do Mato Grosso (IFMT) e da Universidade do Mato Grosso (UNEMAT)”, destaca Araújo.

 

 

Empreendedorismo na região
A Arca Multincubadora foi fundada em 2001, com a iniciativa de pesquisadores da Universidade Federal do Mato Grosso, que estavam incomodados com as dificuldades para fazer com que os resultados de suas pesquisas fossem aplicados nas soluções de problemas regionais. A nova forma proposta, denominada posteriormente de “Pesquisador Cooperado”, teve como ponto de virada a participação de pesquisadores da UFMT, que se tornaram associados da Cooperativa de Pescadores e Artesãos do Pai André e Bonsucesso – Coorimbatá, que havia alterado seu estatuto, incluindo a pesquisa científica como um dos seus objetivos.

Embora a Arca tenha sido criada na UFMT, Araújo explica que, após o falecimento de um dos fundadores, Nicolau Priante Filho, em 2018, a direção da universidade não renovou o contrato com a incubadora. “Quando havia o convênio com a faculdade, os trabalhos dos alunos eram utilizados sob forma de estágios de suas respectivas áreas”, descreve o vice-presidente.

Por sua vez, Hazama destaca que a Arca Multincubadora tem como objetivo o desenvolvimento econômico, financeiro, social e ambiental de negócios de impacto social. “Nossos principais beneficiados são associações e cooperativas de base comunitária que tenham um propósito de impacto social ou ambiental.”

Elisângela Oliveira é presidente da Associação de Mulheres Agricultoras Familiares Pérolas do Cerrado. Crédito: Arquivo Pessoal

Elisângela Oliveira é presidente da Associação de Mulheres Agricultoras Familiares Pérolas do Cerrado, uma das organizações beneficiadas pela Arca Multincubadora. “Produzimos ovos e galinha caipira, melancia, mandioca, abóbora, mamão e extraímos castanha de baru. A associação é composta por mulheres e a parceria com a Arca busca a comercialização”, comenta.

 

 

 

A associação tem trabalhado na forma de assistência familiar através das mulheres,  tornando-as um provedor de recursos por intermédio da produção. Assim, a organização consegue fortalecer o seio familiar e combater o êxodo rural, fomentando a conscientização de produção agroecológica e sustentável. “A comunidade fortalece a economia local, as famílias geram emprego e levam aos consumidores o melhor das produções”, explica Oliveira. 

A Associação de Mulheres Agricultoras Familiares Pérolas do Cerrado surgiu em um momento em que faltavam atividades direcionadas a apoiar mulheres. “A Arca Multincubadora foi fundamental no início desta caminhada. Os treinamentos e cursos despertaram e fortaleceram as ideias das pérolas”, comenta Elisângela.

Entre os projetos da associação, há a cozinha multifuncional que, para funcionar,  incentiva diretamente pequenos projetos de cultivos e extrativismo. A organização ainda valoriza a produção da região para colocar no mercado os produtos embalados e a vácuo. 

Parceiros
Celso Kiyoshi Hazama destaca o Sistema de Crédito Cooperativo (Sicredi) e o Sindicato Rural de Cuiabá como as novas parcerias da Arca. “O Sicredi nos ajuda em cursos de gestão financeira e o Sindicato Rural de Cuiabá com a cessão de uso da atual sede. Apesar de já termos atingido 29 empreendimentos, devido à falta de recursos, esses negócios não conseguem ser mensurados – e mal conseguem manter o funcionamento. Temos um público que precisa profissionalizar o negócio e há ainda muitas dificuldades que precisam ser superadas”, relata o presidente da incubadora.

Vale ressaltar, que Políticas Públicas impactam a atuação da incubadora. “Nós atuamos à luz da Política Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, Política Nacional de Crédito Fundiário, Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica, Política Nacional de Economia Solidária, Política Nacional de Desenvolvimento Regional, dentre outras”, elenca Hazama. “Por sermos uma incubadora com CNPJ próprio, tínhamos um termo de parceria que poderíamos utilizar um espaço no Escritório de Inovação Tecnológica da Universidade, porém este termo venceu e não foi renovado”, completa. 

As ações da Arca têm suas raízes nos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, da Organização das Nações Unidas. Um dos destaques é o ODS 2, que planeja dobrar a produtividade agrícola e a renda dos pequenos produtores de alimentos, particularmente de mulheres, povos indígenas, agricultores familiares, pastores e pescadores. A incubadora alinha-se também ao ODS 12, que busca implementar o Plano Decenal de Programas sobre Produção e Consumo Sustentáveis e alcançar a gestão sustentável e o uso eficiente dos recursos naturais.

 

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7 reflexões e aprendizados sobre a Covid-19: 18 meses depois

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O que é: O relatório foi guiado pela pergunta: “O que aconteceu com as centenas de iniciativas lançadas em prol do combate aos efeitos sociais e econômicos, para além das questões de saúde em si, provocadas pela Covid-19?”. Para isso, a organização retomou o mapeamento de 2020 e refez a mineração de dados, por meio de análise de dados secundários na internet, buscando saber o status atual de cada iniciativa.

Quem fez: ponteAponte.

Ano: 2021.

Clique aqui para acessar o relatório.

10 anos de aprendizados

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Em 10 de outubro, a ponteAponte comemorará 10 anos! Uma década em que trabalhamos para fortalecer o campo socioambiental brasileiro com olhar sistêmico e crítico, visando a uma sociedade mais justa, inclusiva e sustentável.

Quando tudo começou, a partir de um convite para mudarmos o mundo, confesso que não sabíamos bem no que isso ia dar, nem mesmo se iria dar em algo. Mas eis que, 10 anos depois, já realizamos mais de 100 projetos, com mais de R$ 65 milhões mobilizados para a sociedade civil, centenas de organizações/iniciativas potencializadas e uma equipe cada vez maior e engajada.

Ao longo dessa caminhada, foram muitos os aprendizados – e erros –, seja na própria gestão da empresa, no relacionamento com clientes, parceiros e equipe, nos nossos modos de operação dos projetos, além de aprendizados sobre o próprio campo socioambiental e de inovação social. A partir das próximas semanas escreveremos uma série de artigos sobre esses temas e divulgaremos nas mídias da ponteAponte, mas, para dar um gostinho aqui, falarei de alguns aprendizados mais gerais.

 

O primeiro deles, por mais óbvio que seja, é que empreender não é fácil, seja pelas questões burocráticas e tributárias do nosso país, pelas constantes mudanças políticas e econômicas, seja pelos novos conhecimentos necessários para gerir uma empresa e uma equipe. A gente sempre acha que “comigo vai ser diferente” e pagamos para ver, mas no fim sentimos na pele aquela frase de mãe: “eu avisei!”. Por mais que a chamada “curva da morte” costume acontecer até os primeiros cinco anos das organizações (ufa, já passamos!), qualquer empresa precisa seguir evoluindo e se adaptando para se manter ativa. A ponteAponte que criamos 10 anos atrás não é a mesma hoje, e nem poderia ser. Ao longo desses anos, fomos adaptando serviços e metodologias, mudando o público prioritário com quem trabalhamos, construindo novas redes sem, claro, perder nossa essência.

Chegamos, assim, ao segundo aprendizado: para estarmos em constante evolução temos que investir na diversidade da equipe, seja em termos de raça, gênero, idade, território, orientação sexual, entre outros aspectos, para termos uma multiplicidade de vozes dentro da empresa e que ecoem para fora também. Ao longo desses 10 anos, nossa equipe foi crescendo, saindo de um grupo somente de sócios para chegar ao time atual de 18 pessoas e, cada vez mais, estamos nos preocupando em montar uma equipe diversa.

Com mais gente envolvida, vamos descobrindo que lidar com (muitas) pessoas nem sempre é fácil. Segundo nossa sócia Camila Shiguematsu, uma sociedade é mais íntima que um casamento. E como todo casamento, nem sempre as opiniões batem. Para manter a sociedade – e a amizade – bem como o bom relacionamento entre toda a equipe, reforçamos sempre três dos nossos valores: diálogo, confiança e empatia. Divergências sempre vão surgir, mas com esses valores em mente conseguimos lidar com elas (quase sempre).

Para além da diversidade, nossos outros valores são a flexibilidade e a colaboração, que se traduzem principalmente nos aprendizados a partir de todos os projetos que já desenvolvemos. Também pode soar óbvio, mas um trabalho colaborativo, com engajamento real de todos os envolvidos, tanto da nossa equipe como do cliente, sempre tende a ser mais rico e trazer resultados melhores do que um trabalho feito individualmente. Por isso acreditamos na co-criação em nossos projetos. Um processo colaborativo, porém, não costuma ser tão ágil como um trabalho feito por um consultor solo e aqui caímos no difícil equilíbrio do tripé escopo-prazo-preço. Para equilibrar as demandas dos projetos/clientes e a capacidade operacional da empresa, temos o desafio constante de avaliar quando demonstrar flexibilidade e quando precisamos dizer “não”, seja para um cliente/parceiro atual, seja para um novo projeto, para não comprometer a qualidade da entrega e o bem-estar da equipe. Em geral, a gente ainda fala mais “sim” do que “não” e depois “nos viramos nos 30” para fazer acontecer.

Para finalizar, fica o aprendizado de que abrir uma empresa porque você enxerga uma oportunidade de negócio é relevante, mas empreender porque você vê uma possibilidade de contribuir para mudar o mundo, mesmo que uma partezinha pequena dele, faz toda a diferença. 

 

Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa.

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E se a agenda verde ficar apenas na redução das emissões de carbono?

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Crédito: Marcin Jozwiak

Recentemente, o periódico inglês The Economist publicou um artigo mostrando que, nos últimos dez anos, bilhões de dólares passaram a ser investidos no tema da mudança climática, em especial, na chamada descarbonização. Esse movimento é fruto da ação de empresas, fundos de investimento, bancos, governos e famílias de alta renda – todos eles aportando recursos para as chamadas climate techs. Diferentes tecnologias verdes, incluindo baterias, geradores eólicos, energia solar e outras soluções mais ou menos esotéricas, estão se tornando economicamente viáveis. E o mais significativo é que, até recentemente, muitos dos agora investidores consideravam o tema irrelevante – como algumas das maiores empresas do setor de petróleo.

Trata-se, sim, de uma ótima notícia. Mas um recente estudo publicado pelo Painel Global de Mudanças Climáticas das Nações Unidas mostra que esse movimento não será capaz de reverter as tendências do aquecimento global já em curso, fruto do acúmulo de emissões realizadas nos últimos 200 anos. A verdade é que grande parte do estrago já foi feito e precisaremos trabalhar muito para atingirmos a meta de 1,5 grau acima do nível pré-industrial em 2050.

 

Se olharmos bem, essa agenda inclui vários outros assuntos que mereceriam mais atenção. Por exemplo, o que fazer na esfera da adaptação das cidades às mudanças climáticas? Afinal, temos centenas de milhões de habitantes residentes em áreas costeiras ameaçados pela elevação do nível do oceano nas próximas três décadas. Grande parte dessa população vive em cidades de países em desenvolvimento, como Bangladesh, Nigéria, Índia e Brasil. Todos esses locais têm enfrentado o aumento da frequência de eventos climáticos extremos e as cidades costeiras são particularmente vulneráveis a esses fenômenos.

O que fazer em relação à acelerada perda da biodiversidade, fruto da expansão da fronteira agrícola necessária para abastecer a população global, ainda em crescimento? Segundo as projeções das Nações Unidas, a população global já ultrapassa hoje 7,5 bilhões de habitantes e atingirá 9,7 bilhões em 2050.

Além disso, o que fazer com a desertificação decorrente do aquecimento? E com a poluição dos oceanos? E com as populações indígenas? E com os refugiados climáticos? A lista de temas ambientais relativamente negligenciados é de tirar o sono.

E a maior parte desses problemas recebe volume limitado de investimento. De fato, embora alguns deles sejam contemplados por recursos oriundos das fundações e das áreas de responsabilidade social de empresas, as necessidades existentes são gigantescas e deverão aumentar muito no futuro próximo.

O grande problema é que, na maior parte dos casos, esse não é um investimento econômico alinhado às mudanças tecnológicas profundas na área de energia. Enquanto investir em energia eólica dá lucro e tem impacto ambiental positivo, realizar essa mágica para a adaptação das cidades à mudança climática é muito mais difícil. Muitos recursos terão de ser aportados a fundo perdido, o que demandará fortemente de governos já fragilizados por uma agenda social sufocante. Eles dependem também da ação governamental assertiva, sempre incerta abaixo do Equador.

Se a agenda verde ficar apenas na redução das emissões de carbono, apertem os cintos. As próximas décadas serão de muita turbulência.

 

Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa.

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A Onda Verde – Oportunidades para empreender e investir com impacto ambiental positivo no Brasil

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O que é: Este estudo consolida os principais desafios que o país enfrenta e faz um chamado para empreendedores, investidores, governos, consumidores, marcas e atores do ecossistema de impacto brasileiro protagonizarem uma transformação sistêmica na relação entre negócios, pessoas e meio ambiente.

Quem fez: Climate Ventures e Pipe.Labo.

Ano: 2021.

Clique aqui para acessar o estudo.

Scoring de Investimento de Impacto

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O que é: Os investimentos de impacto são uma tendência sem volta, com crescimentos frequentes no volume de dinheiro disponível para ser investido. Por outro lado, os empreendedores ainda não acessam esses recursos. Este estudo traça várias características, práticas e ferramentas que podem facilitar esse encontro.

Quem fez: Pipe.Social.

Ano: 2020.

Clique aqui para acessar o estudo.

V Relatório Luz da Sociedade Civil Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável Brasil

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O que é: Em meio aos desafios causados ou potencializados pela pandemia da Covid-19, a V edição do Relatório Luz da Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável no Brasil avalia o percurso do país em relação à implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Quem fez: Grupo de Trabalho da Sociedade Civil para a Agenda 2030.

Ano: 2021.

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Branquitude: Racismo e Antirracismo

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O que é: A partir dos debates ocorridos sob a coordenação do Instituto Ibirapitanga entre 26 e 28 de outubro de 2020, nasceu a publicação “Branquitude: Racismo e Antirracismo”. A sistematização do encontro aborda a relação de dominação que caracteriza a branquitude, e mostra a importância de que os brancos reconheçam, desaprendam e desmistifiquem ideologias e histórias que os autorizam a colocar a população negra em posições socialmente subalternizadas.

Quem fez: Instituto Ibirapitanga.

Ano: 2020.

Clique aqui para acessar a publicação.

Destaques do Portal

Aupa cria identidade para o Guia do Voto 2024

Projeto editorial contemplou produção de textos e design, além de edição impressa e criação de peças de divulgação e versão inglês.