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Dissensos sobre a agenda do impacto

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Temos notado um crescente e suposto consenso em nossa bolha sobre a tese de que “soluções de mercado são mais poderosas e mais escaláveis para resolver problemas socioambientais”. Será? É neste lugar que a agenda de investimentos e negócios de impacto se insere, não sem alguma divergência, evidentemente. É sobre esses dissensos que abordarei.

Na medida em que a, então, agenda da transformação socioambiental se converte em um novo mercado do impacto (ou do investimento de impacto, como preferir), cabe indagar se esta agenda se soma ou se separa do conjunto de atores socioambientais que já buscavam endereçar esses problemas, mas não por meio de soluções de mercado. Neste sentido, a emergência do mercado de impacto criaria uma cisão ou uma especialização à, então, “frente ampla da transformação socioambiental”, que já atuava há tempos global e localmente?

Tenho notado que parte destes atores socioambientais, que já atuava no campo antes da emergência deste mercado, tem encarado essa agenda com certa desinformação ou com certo grau de ceticismo/resistência. Enquanto alguns enxergam o copo meio cheio nesse novo mercado, outros preferem se manter observando a agenda mais à distância.

 

Mas, nesta encruzilhada de inter-relações possíveis, quais seriam os principais pontos de dissenso que parte destes atores da “frente ampla da transformação socioambiental” traz consigo? Antes de nada, é importante enfatizar que minha intenção, ao propor essa discussão, é tão somente deixar o mais didático possível esses aspectos, de modo a facilitar reflexões sobre o assunto.

Identifiquei quatro pontos de dissenso, os quais apresento a seguir. Vale lembrar que há outros recortes e inúmeras análises possíveis e, desde já, convido o(a) leitor(a) a partilhar suas reflexões sobre o tema.

  1. Conceitual: o “serviço sujo” não recai sobre os investidores de impacto?

Comecemos pelo princípio, ou melhor, pelo conceito de investimento de impacto, como sendo aquele que concilia impactos sociais e/ou ambientais positivos com retorno financeiro. É o famoso “E” ao invés de “OU” que tanto se fala no setor.

OK, mas uma questão pouco debatida passa por quem deve financiar todo o “serviço sujo” imprescindível para que “bons negócios” cheguem aptos a acessar capital de investidores de impacto?

Na literatura sobre o tema, nota-se que filantropia e governo são os atores que têm assumido esse papel, mas poderíamos indagar se esse papel não caberia também aos investidores de impacto? Por que eles só entram no final, quando já há um pipeline “qualificado”?

Assumindo que eles também poderiam dividir esse papel, a pergunta que vem na sequência é: como eles poderiam rachar essa conta e, desta forma, apoiar o fortalecimento do ecossistema de impacto e consequentemente ampliar a geração de pipeline “qualificado”?

Pra fechar esse tópico, tenho adotado comigo mesmo um conceito mais lato sensu de investimento de impacto, considerando que aporte de recursos (não reembolsáveis) para programas de aceleração (geração de pipeline e fortalecimento do ecossistema) é, sim, parte deste conceito e, portanto, deveria ser incluído nesta conta e neste conceito (de investimento de impacto).

 2. Narrativa: a mágica de conciliar risco x retorno x impacto

O tripé – risco, retorno e impacto – é largamente utilizado para explicar o eldorado mágico do investimento de impacto. Mas será que essa narrativa não estaria muito vinculada à lógica dos investidores (venture capital, fundos de impacto, entre outros)? Seriam eles os únicos porta-vozes desta agenda? Nesta, não haveria também espaço para outras falas? Se sim, quais seriam essas outras narrativas?

Tem me incomodado o fato de, geralmente, a narrativa carro-chefe sobre esta agenda omitir outras possíveis explicações sobre este tema. É como se não houvesse outras abordagens, visões e sínteses. Pergunte a empreendedores periféricos (ou negócios comunitários), por exemplo, qual a compreensão deles sobre este tema e provavelmente encontrará narrativas distintas desta, com outros elementos e camadas. E por que essas outras narrativas não têm também seu lugar nos feeds, publicações e matérias sobre o tema? Elas até têm conquistado algum espaço, mas ainda de maneira mais marginal.

3. Mercado é sempre solução e não parte do problema?

Parte desta narrativa do tópico anterior também passa por empacotar as “soluções de mercado” como sendo quase sempre as “mais escaláveis”, num certo contraponto (equivocado), ao universo supostamente “ultrapassado” e “limitado” da filantropia e de governos. Na hora de custear o “serviço sujo”, governo e filantropia são bem-vindos e necessários, mas, no momento de apresentar um pacote de “soluções mais escaláveis”, eles mais parecem um “bode nesta sala”.

Outro aspecto que convém refletir é que o mercado – o mesmo que supostamente têm as “melhores soluções” para os problemas socioambientais – raramente é vinculado às causas destes mesmos problemas. Isentá-lo desta co-responsabilidade me soa absurdamente ingênuo, além de desonesto intelectualmente. Com isso, não estou colocando todo o mercado numa vala comum, pois, dentro deste setor, há uma boa diversidade de players e com responsabilidades bastante diferentes entre si.

  1. Governança deste “movimento”: a caneta está nas mãos de quais atores?

Costuma-se utilizar o termo “movimento” ao se referir aos atores e organizações envolvidos neste campo do impacto. Eu, particularmente, gosto do termo e entendo que ele busca fortalecer a ideia de pertencimento e de coletividade a esta agenda. O ponto que pouco se debate diz respeito aos aspectos de governança deste “movimento”, em termos globais e nacionais. Afinal, quem dá as cartas e quem financia esse “movimento”? Se a “ONU” do impacto é o GSG e se o ‘Papa’ é o Sir. Ronald Cohen, como se escuta no setor, a pergunta que fica é: quais outros atores afeitos a esta agenda não estão representados nestas instâncias? Por outro lado, há atores super-representados?

Uma visualização rápida em âmbito global nos permite identificar certa predominância nas características desta representação:
– pessoas brancas,
– majoritariamente homens,
– do Norte global,
– do mercado financeiro, de organismos multilaterais ou de grandes fundações.

No Brasil e em cada país, as respectivas “Forças Tarefas” têm buscado refletir sua diversidade local nos seus Conselhos, o que é bastante louvável. Ainda assim, há atores sub-representados (ou não representados) e outros super representados. Por fim, poderíamos também indagar se este modelo de “representação” seria o mais coerente com a tese de um movimento, mas isso é assunto pra outro momento.

Pra concluir, reafirmo meu engajamento a este movimento. Minha escolha tem sido a de me somar a ele, tentando construir por dentro alternativas que busquem lidar com os dissensos aqui apresentados sempre num horizonte mais inclusivo, de compromisso com a justiça social e climática e com a democratização destes espaços e de suas soluções. Pra alguns, eu seria taxado como estando mais “à esquerda” deste movimento e, pra outros, como um “bode na sala”. Antes de nada, estou de bem com minha consciência e isso é o que segue me movendo tanto pelas bandas do impacto quanto pela tal “frente ampla”.  Afinal, a complexidade dos problemas socioambientais pressupõe uma diversidade de modos, formatos e ferramentas para o seu enfrentamento.

As soluções de mercado são apenas uma delas e não a última bolacha deste pacote.

Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa. 

 

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Os impactos da água – e da falta dela

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Grandes queimadas e a queda na produção de energia são alguns dos impactos que refletem uma grave realidade brasileira: a redução da superfície de água em todas as regiões hidrográficas, em todos os biomas do país. De acordo com um levantamento de agosto de 2021, feito pelo MapBiomas, a superfície coberta com água no Brasil foi de 20 milhões de hectares para 16,6 milhões de hectares, entre 1985 e 2020, uma perda de mais de 15%.

 

De acordo com Carlos Souza Jr., pesquisador associado do Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e coordenador do MapBiomas Água, as mudanças climáticas devem ser o principal fator da seca deste ano. Segundo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), atividades humanas, como a alta emissão de carbono na atmosfera, já causaram mudanças irreversíveis no planeta. Com o mais rápido aumento da temperatura global dos últimos dois mil anos, há consequentes eventos extremos, como ondas de calor, chuvas fortes e grandes secas.

Carlos Souza Jr., pesquisador associado do Imazon e coordenador do MapBiomas Água. Crédito: Imazon.

“A atual crise hídrica vivida pelo país, com reservatórios das hidrelétricas atingindo os níveis mais baixos já registrados, é um dos resultados da redução da superfície de água. E, por causa da crise hídrica, também sofremos com o aumento no preço da energia elétrica”, explica o pesquisador do Imazon. Ele lembra que a bandeira tarifária “escassez hídrica”, cujo custo é de R$14,20 a cada 100 kWh, se dá pelo acionamento das usinas termelétricas, que produzem energia de forma mais cara e mais poluente.

 

 

Outros fatores apontados por Carlos também agravam a situação: a mudança no uso da terra, com o aumento da conversão de florestas para a agropecuária; o aumento da construção de represas em fazendas ao longo dos rios, usadas para irrigação ou bebedouro de animais, causando diminuição do fluxo hídrico; e, em maior escala, a construção de grandes represas para a produção de energia, o que deixa extensas superfícies de água sujeitas a evapotranspiração, ou seja, a perda de água para atmosfera.

Na Amazônia, bioma dono da maior bacia hidrográfica do mundo, a redução da superfície de água foi de 10,4%. Mas uma bacia do Centro-Norte brasileiro ganhou água – não que seja boa notícia. O MapBiomas aponta, em seu relatório, que o aumento de corpos hídricos está predominantemente associado à presença de hidrelétricas. É o caso da bacia Araguaia-Tocantins, onde está instalada a Usina Hidrelétrica de Tucuruí.

Cadê a água que estava aqui?
No período analisado pelo MapBiomas, o estado com a maior perda absoluta e proporcional de superfície de água foi o Mato Grosso do Sul, com redução de 57%. No ano passado, quando 26% do Pantanal foi consumido pelo fogo, devido a queimadas, 1,7 milhão de hectares de terra viraram cinzas no Estado. As consequências ficam a longo prazo: de acordo com o monitor de secas da Agência Nacional de Águas (ANA), todo território do Mato Grosso do Sul estava, em julho de 2021, em situação de seca grave, moderada ou extrema. 

Leonardo Sampaio, gerente de Recursos Hídricos do Imasul. Crédito: Imasul.

A região pantaneira tem enfrentado uma estiagem longa e preocupante. Leonardo Sampaio, gerente de Recursos Hídricos do Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul), lembra que os períodos de baixa estação chuvosa são naturais no bioma, mas quanto mais longos, maior se torna o risco de queimadas. “O Pantanal tem sempre períodos de cheia e seca e, durante a estiagem, parte do solo permanece úmido. Por isso, em um regime normal, não há tantas queimadas. Mas com ciclos anuais de estiagem, o material seco do solo vira uma espécie de combustível para o fogo”, analisa.

Entre as ações humanas que também ocasionam queimadas estão as atividades agropastoris, apontadas pelos Ministérios Públicos de Mato Grosso do Sul e Mato Grosso como quase 60% dos incêndios no Pantanal em 2020.

Alternativas possíveis
De encontro à tradicional lógica mercadológica de esgotamento de recursos naturais, o negócio social de Anna Luíza Beserra promove a abundância para zonas que, historicamente, enfrentam secas, como o semiárido nordestino. Ao traçar parcerias com grandes empresas, o Aqualuz, uma das iniciativas do Sustainable Development & Water for All (SDW), financia uma tecnologia que garante até 30 litros de água limpa por dia para residências familiares. O tratamento é feito com o uso de um equipamento movido pela radiação solar.

Anna Luísa Bessera Santos é empreendedora ambiental e a fundadora e CEO da Safe Drinking Water for All. Crédito: Divulgação.

O modelo de negócio do SDW envolve diagnóstico da situação das comunidades, implantação de tecnologias, capacitação da comunidade e monitoramento e já alcançou 11 Estados brasileiros. Outras tecnologias têm sido desenvolvidas, como um banheiro seco – ou seja, sem uso de água – e um dessalinizador de água – para áreas abundantes em água salobra. Segundo Anna, “A cada R$1,00 investido por empresas no SDW, R$14,00 retornam para a sociedade – em economia de água, acesso a saneamento e saúde”. Quem investe no negócio social, atualmente, busca cumprir normas de licenciamento ambiental e/ou quer melhorar o relacionamento com comunidades locais.

Em busca do equilíbrio
Para o pesquisador do Imazon, ainda é possível reverter o quadro de grandes perdas de água. O Brasil pode contribuir significativamente na agenda global reduzindo o desmatamento na Amazônia, que está no pior ritmo dos últimos 10 anos, e também acelerando a agenda de restauração florestal, ou seja, plantando árvores para proteger os rios e as nascentes do país. “Além disso, precisamos desenvolver um plano de ação multissetorial para mitigar fatores locais que estão comprometendo a disponibilidade dos recursos hídricos, como a existência de represas não licenciadas”, defende Carlos.

Por fim, ele reivindica o investimento em serviços ambientais e na abertura ao extrativismo sustentável. Na Amazônia diversas práticas extrativistas coexistem com a floresta e garantem renda para comunidades tradicionais, como as produções de açaí, castanha, cumaru e copaíba – exemplos de que é possível (e muito) ganhar com a floresta em pé, favorecendo a manutenção da biodiversidade e também o fluxo dos rios. E se ficarmos sem água, quem ganha?

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Riscos à segurança hídrica do Brasil

Crédito: Luis Quintero

Qual Brasil queremos daqui a 50 anos? Como pretendemos nos desenvolver enquanto país? Quais serão a proposta e o caminho de desenvolvimento? Essas são provocações fundamentais que nós, enquanto sociedade, devemos nos debruçar de forma inadiável. E, para realizar tal exercício, a dimensão “água” é um componente fundamental, relacionado diretamente à vida, à saúde, às condições de bem-estar e às capacidades e às atividades da própria economia.

Bem comum, fundamental à vida, a água é elemento essencial para quase todas as nossas dimensões existenciais. Não por acaso, a Política Nacional de Recursos Hídricos elenca como princípio fundamental a garantia dos usos múltiplos da água (abastecimento público, agricultura, indústria, energia, navegação, pesca, turismo, lazer, entre outros), reconhecendo que em situações de escassez o abastecimento humano e a dessedentação de animais têm prioridade em relação aos demais.

Os apontamentos da ciência são claros. A água é um recurso finito e o cuidado com ela é fundamental para garantir suas condições de existência. E, as mudanças climáticas, aceleradas pela ação humana, impactam nos padrões de chuva em toda a Terra. Na prática, equivale a chuvas mais intensas e concentradas, e períodos de secas mais alongados.

 

Diante desse cenário, qualquer perspectiva de futuro de país e de construção de uma proposta de projeto de desenvolvimento a longo prazo exige considerar os questionamentos: qual é a estratégia de segurança hídrica do Brasil? Como garantir os usos múltiplos da água e o cuidado especial com a dimensão dos direitos humanos de acesso ao saneamento básico, em um cenário de eventos extremos? 

Se não sabemos, ainda, onde queremos estar daqui a cinco décadas e sob quais condições, ao menos, é possível ter clareza sobre nossa realidade presente.

Ainda há, segundo os dados do Ministério do Desenvolvimento Regional, 39,9 milhões de brasileiros sem atendimento de água potável e 99,8 milhões sem sequer ter conexão com a rede de esgoto. No Brasil, a cada 100 litros de água captada e tratada, perdemos mais de 39 litros. Isso equivale a 339 litros de água perdidos diariamente a cada ligação. Perdemos um manancial fundamental para nossa segurança hídrica por conta de tubulações antigas ou mal reparadas.

O Atlas do Esgoto, publicado pela Agência Nacional de Águas e de Saneamento Básico, apontou que mais de 110 mil km de nossos rios brasileiros estão poluídos, sem a possibilidade de uso para fins potáveis, uma distância que seria suficiente para dar quase três voltas completas em torno  da Terra.

Nossa falsa estratégia de segurança hídrica prioriza a garantia da oferta d’água a qualquer custo e, portanto, relega ao último escalão de preocupação o cuidado com as nossas águas dos territórios e o combate à poluição.

Foram registrados 350 conflitos pelo uso da água no Brasil somente em 2020. No ano que antecedeu, foram 489 disputadas listadas, segundo a Comissão Pastoral da Terra,

As estratégias de reuso da água tampouco ganharam escala e consistência no Brasil. Outros países deveriam servir de inspiração, a exemplo de Israel, onde 85% do esgoto tratado é reutilizado na agricultura – esse setor é o que mais utiliza água no Brasil, responsável por 46,2% da demanda nacional.

Desde 2019, o Brasil conta com um Plano Nacional de Segurança Hídrica, que, em grande medida, pode ser compreendido como um plano de investimentos em grandes obras, padecendo dessa leitura enviesada de que se trata simplesmente de uma questão de infraestrutura. Ainda assim, o próprio Plano aponta que 73,7 milhões de brasileiros irão viver até 2035 em cidades com menor garantia de abastecimento de água.

Fica evidente a ausência de uma estratégia nacional de contingência e adaptação para os momentos de escassez hídrica mais aguda. Este ano de 2021, o país passa por momentos de dificuldade tanto em termos de geração de energia quanto de abastecimento hídrico. E as autoridades tentam colocar a culpa em São Pedro, por conta das chuvas menores do que os padrões históricos registrados. O Brasil poderia se inspirar nas ações e estratégias de convivência com a escassez hídrica que locais como Austrália, Cidade do Cabo e Califórnia vêm adotando, com especial destaque ao pilar central que une essas experiências: a comunicação transparente com a sociedade. Essa deveria ser a aprendizagem número um de nossas autoridades e tomadores de decisão.

Portanto, a realidade brasileira, em termos de segurança hídrica, enseja preocupações muito significativas, por mais contraditório que isso possa parecer ao país com a maior reserva de água doce do mundo. Temos agora o novo Marco Legal do Saneamento Básico (Lei Federal No. 14.026/20), que pode ser enfrentado, ao mesmo tempo, como um desafio e como uma oportunidade para incluir essa dimensão da segurança hídrica, em especial em se tratando do segundo setor que mais utiliza água no país.

O principal risco à segurança hídrica do Brasil é de ordem de percepção. É necessário reconhecer tais condições, incorporar os apontamentos da ciência, introjetar a dimensão de uma nova cultura de cuidado com a água em nosso planejamento e em nossas ações. Um novo acordo social, que coloque essas preocupações no topo das prioridades, é necessário para que esse avanço civilizacional ocorra e façamos com que o Brasil deixe essa dimensão medieval de nossa realidade para os séculos passados.

Este artigo é uma reflexão de Guilherme Checco.

Guilherme Checco. Crédito: Divulgação.

Guilherme Checco é Mestre em Ciência Ambiental (USP) e Coordenador de Pesquisas do Instituto Democracia e Sustentabilidade. 

 

 

 

Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa. 

 

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Negócios de impacto: setor 2.5?

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Os negócios de impacto muitas vezes são caracterizados como setor 2.5, porque estariam no meio do caminho entre o mercado e a sociedade civil. Teriam uma ação voltada a contribuir para a resolução de um problema socioambiental, como organizações sem fins lucrativos, mas teriam que se sustentar financeiramente por meio da oferta de produtos ou serviços, como o mercado.

Caracterizar os negócios de impacto como setor 2.5 pode simplificar a sua apresentação à primeira vista. Mas, se olharmos com mais cuidado, pode revelar uma grande confusão sobre qual deve ser o papel do mercado e da sociedade civil e, de forma complementar, do Estado.

Se considerarmos a Teoria Política, Estado e mercado são categorias bem distintas, embora, na prática, às vezes seja difícil identificar os seus limites. O Estado se responsabiliza pela institucionalização de uma comunidade política, que, por meio dos poderes legislativo, executivo e judiciário, define quais são os direitos e os deveres dos cidadãos e os operacionaliza em forma de Políticas Públicas.

Já o mercado se constrói a partir da produção e da comercialização de bens e serviços pelos indivíduos. O Estado regulamenta o mercado, mas não se detém sobre o quê e como cada pessoa vai produzir e comercializar. É uma atividade eminentemente privada, ou seja, a pessoa produz e comercializa o que mais lhe interessa, contanto que não descumpra alguma lei.

 

A questão do interesse, embora possa passar despercebida, é uma das mais fundamentais para se caracterizar o mercado. Tem a ver com uma ideia de ação utilitária, ou seja, autointeressada. Nessa visão, não existe interesse público no mercado, mesmo que as ações do mercado possam gerar benefícios ao coletivo.

A ação desprovida de interesses se daria no âmbito da sociedade civil, local no qual, primordialmente, se constroem os laços de solidariedade a partir do debate público e do associativismo. Esse último, quando detém um caráter explicitamente cívico, teria um papel fundamental para o fortalecimento da democracia, porque seria onde se formam as demandas e as propostas que podem ser discutidas no âmbito estatal.

Dito isso, embora existam muitas experiências de organizações da sociedade civil na prestação de serviços públicos, o argumento filosófico que fundamenta essa atividade é pobre. Em geral, incorre-se à justificativa da ineficiência do Estado. Exceção a essa regra se faz quando se pensa em grupos vulneráveis, quando o Estado não tem sequer conhecimento sobre como abordar tais públicos. Nesse caso, as organizações da sociedade civil teriam um papel fundamental de tornar os serviços públicos (mesmo que exercidos por organizações não estatais) mais sensíveis às demandas desses públicos.

Assim, o papel da sociedade civil seria, de modo eminente, não lucrativo e, muito provavelmente, sem sustentabilidade financeira. Realizar controle social, produzir conteúdo que gere debates públicos, cobrar que direitos sejam garantidos, nada disso se paga. Desse modo, exigir que organizações da sociedade civil sejam financeiramente sustentáveis não faz sentido. Mais inteligente é propor formas diversas de financiar essas atividades que são tão caras à democracia, de modo que as organizações da sociedade civil possam se manter de forma minimamente independentes.

Cobrar do mercado que realize serviços públicos também não faz sentido, pois por ter um caráter privado legítimo, pode não os ofertar como melhor corresponde ao interesse público, por mais que possam gerar benefícios públicos específicos. Somente o Estado tem a capacidade de realizar a coordenação necessária para fazer com que todas as pessoas sejam atendidas, garantindo direitos.

Mas isso não impede que o mercado possa ofertar bens e serviços que gerem impacto socioambiental positivo. Produtos e serviços que aumentam as oportunidades para pessoas de baixa renda, que produzam de forma sustentável, que resolvam algum problema específico são exemplos de como o mercado pode promover transformação social. Isso não contradiz a ação autointeressada própria do mercado, visto que ela é importante para a sustentabilidade financeira.

A partir dessa reflexão sobre o papel do Estado, do mercado e da sociedade civil só posso concluir que essa classificação dos negócios de impacto como setor 2,5 não contribui para compreender o papel desse tipo de empresa. Em primeiro lugar, porque pressupõe que o mercado, por si só, não tem capacidade de gerar impacto positivo. Ele precisaria do olhar benevolente da sociedade civil para ter o potencial de realizar a transformação social. Mas o mais perverso dessa classificação é que ela traz consigo a ideia de que a sociedade civil precisa se sustentar financeiramente, rompendo com a lógica de que ela se baseia, sobretudo, na solidariedade social, que busca identificar problemas públicos e debatê-los para que possam ser resolvidos coletivamente.

 

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Climate Change 2021: The Physical Science Basis

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O que é: 6º Relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) traz o que há de mais atualizado no tema mudanças climáticas. O material combina diversas linhas de evidências e inclui simulações regionais de clima.

Quem fez: IPCC.

Ano: 2021.

Clique aqui para acessar o relatório.

Saiba descobrir e impedir que sustentabilidade e ESG se tornem o conto do vigário

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Crédito: Equipe de arte Aupa

 “Somos biodegradáveis, somos recicláveis – Omo é diferente para fazer um mundo diferente”. Essa propaganda do sabão em pó Omo, da multinacional Unilever, acaba de ser denunciada por greenwashing, por tentar se apropriar de questões de sustentabilidade de forma enganosa. A denúncia foi feita ao Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar), que recomendou a Unilever alterações na propaganda, de forma a explicar os aspectos biodegradável e reciclável do produto anunciado.

Entretanto, esse não é um caso isolado. Uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) com o Instituto Market Analysis apontou que indícios de greenwashing – ou lavagem verde, em tradução livre – podem ser encontrados em oito em cada 10 produtos vendidos no Brasil. A pesquisa também revelou que, apenas de 2010 a 2014, a quantidade de produtos que se autodeclaram “verdes”, muitas vezes sem apresentar provas, cresceu quase cinco vezes (478%), principalmente na categoria produtos de limpeza e de higiene e cosméticos.

 

Clauber Leite, coordenador do programa de Energia e Sustentabilidade do Idec. Crédito: LinkedIn.

Segundo Clauber Leite, coordenador do programa de Energia e Sustentabilidade do Idec, o greenwashing consiste em usar uma “informação enganosa” para transmitir a sensação de que um produto ou serviço “está fazendo um bem”, para o meio ambiente e a sociedade, quando, na realidade, isso não é comprovável. De modo que é uma prática condenada pelo Código de Defesa do Consumidor.

 

 

Riscos associados ao greenwashing e a importância de combatê-lo
O novo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC), publicado em agosto, revelou que as mudanças climáticas causadas pelo comportamento humano estão influenciando eventos climáticos extremos no mundo todo – o que é um “alerta vermelho” para a humanidade. No Brasil, períodos de seca prolongada já têm prejudicado o abastecimento de água em diversas cidades e a geração de energia no país. Portanto, a adoção de padrões sustentáveis de produção e consumo são hoje fundamentais.

Glaucia Terreo, diretora da Global Reporting Initiative (GRI) no Brasil. Crédito: Divulgação.

“É muito importante que as empresas entendam a responsabilidade delas” nesse contexto, e se prontifiquem a gerenciar seus impactos socioambientais na prática, não só na propaganda, segundo Glaucia Terreo, diretora da Global Reporting Initiative (GRI) no Brasil, uma organização internacional de normas para relatórios de sustentabilidade. “Quando uma empresa faz a gestão do próprio impacto [negativo], ela diminui os riscos para ela mesma, além de criar valor para a sociedade e o planeta”, destaca.

Além disso, segundo o Idec, a prática de greenwashing por empresas pode causar adversidade no engajamento dos consumidores com o consumo sustentável. Tal fato pode resultar ainda em “prejuízos ao meio ambiente, aos consumidores e à própria imagem da empresa”, afirma Leite.

Um exemplo é o protetor solar Sundown, fabricado pela Johnson & Johnson do Brasil, que apresenta o selo “I’m green”. Esse selo foi colocado para mostrar que as embalagens do produto agora são produzidas com polietileno de cana-de-açúcar, um “plástico verde”. Porém, a empresa não respondeu ao pedido do Idec por documentos para comprovar esse selo, o que sugere ser um caso de greenwashing. Aliás, a maioria dos protetores solares contém componentes químicos muito prejudiciais ao meio ambiente e à saúde humana, apontam estudos internacionais, o que torna mais urgente mudar a formulação do produto do que a embalagem.

Juliana Albuquerque, diretora do Conselho de Ética do Conar. Crédito: GMB.

Segundo Juliana Albuquerque, diretora do Conselho de Ética do Conar, a divulgação correta de informações relacionadas com ações de sustentabilidade pode contribuir tanto para melhores práticas empresariais, quanto para a oferta de melhores opções aos consumidores – que estão cada vez mais atentos aos impactos socioambientais de produtos e empresas.

 

 

 

Como descobrir e denunciar o greenwashing
Uma forma confiável para descobrir se um produto ou uma empresa pratica greenwashing, é conferir o trabalho de organizações da sociedade civil que pesquisam e monitoram essa prática. O Idec, por exemplo, tem uma página em seu site dedicada a esse tema, que informa sobre como identificar e não cair nas armadilhas do greenwashing.

Leite também alerta que não basta um fabricante propagandear que “seu produto é vegano, não testado em animais, que gera 70% economia de água ou é 100% biodegradável”. Essas afirmações precisam ser pautadas em provas concretas e é direito do consumidor confirmar sua veracidade. O consumidor pode entrar em contato com o Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC) da empresa e solicitar provas sobre tais afirmações. E, se constatar greenwashing, pode denunciar a marca e o fabricante nos canais de defesa do consumidor.

O trabalho de autorregulamentação da publicidade desenvolvido pelo Conar também busca combater o greenwashing. “Ausência de precisão, exagero ou uso de conceitos genéricos para a divulgação das ações de sustentabilidade” foram problemas detectados em matérias publicitárias já reprovadas pelo Conar, que baseia suas decisões no Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária, destaca Juliana Albuquerque. Esses problemas são caracterizados como greenwashing, pois podem levar a um “entendimento ampliado ou equivocado da ação [de sustentabilidade] efetivamente realizada” pelo anunciante, segundo a diretora do Conselho de Ética do Conar.

Qualquer pessoa física ou jurídica pode fazer uma denúncia ao Conar, através do site do Conselho, caso encontrem uma propaganda comercial veiculada no Brasil que aparenta ser greenwashing, por apresentar algum dos problemas citados acima. Se a denúncia for aprovada pelo Conselho de Ética, o Conar poderá solicitar a alteração ou a suspensão do anúncio.

Como identificar e combater o ESG-washing
O greenwashing também pode ser visto aplicado às informações ESG – ambiental, social e de governança – de empresas e instituições financeiras – sendo conhecido, nesse caso, como ESG-washing. Tariq Fancy, o ex-diretor de Investimentos Sustentáveis da BlackRock, afirmou recentemente que parte do movimento ESG, propulsionado mundialmente pela BlackRock, se resume a pouco mais do que marketing. Fancy também revelou, ao jornal USA Today, que, durante sua gestão, notou que muitos fundos de investimento são “rebatizados como ‘verde’, sem alteração perceptível para o próprio fundo ou suas estratégias subjacentes, simplesmente por uma questão de aparências”.

Uma forma de identificar se uma empresa pratica ESG-washing é conferir seu relatório de sustentabilidade – que é publicado voluntariamente pelas empresas ou obrigatoriamente em alguns setores, para divulgar impactos no meio ambiente, sociedade e economia. Segundo Glaucia Terreo, esses relatórios devem respeitar um princípio de equilíbrio, como recomenda a GRI: “As informações relatadas deverão refletir aspectos positivos e negativos do desempenho da organização, de modo a permitir uma avaliação fundamentada do seu desempenho geral.”

Dessa forma, se o relato de sustentabilidade ou ESG de uma empresa só apontar impactos positivos e não esclarecer o que está sendo feito para gerir e evitar os impactos negativos, é provável que ela esteja praticando greenwashing. Terreo explica que já se deparou com empresas do agronegócio, por exemplo, que não mencionam em seus relatórios a gestão de impactos relacionados com desmatamento ou uso de pesticidas – são atividades que comprovadamente geram riscos socioambientais.

Despejos de lixo ilegal criam gigantescos lixões na ilha de Taiwan. Crédito: Pexel

Contudo, relatar os impactos com transparência é só o primeiro passo em direção ao desenvolvimento sustentável. É preciso ainda que as empresas adotem uma nova cultura organizacional, segundo Terreo: “Essa ‘matrix’ que foi criada para manter o sistema econômico girando – de produção insustentável à propaganda insustentável ao consumo insustentável ao resíduo insustentável – precisa mudar.”

Para a diretora da Global Reporting Initiative o Poder Público também tem um papel a exercer no combate às falsas promessas de sustentabilidade. “Na União Europeia, por exemplo, o Green Deal é por meio do Estado – eles vão mudar regulações e procedimentos”, para alinhar a economia Europeia com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, explica Terreo. Entretanto, a fiscalização da conformidade de empresas com essas novas regulações é tão importante quanto a sua promulgação, para não abrir margem para más práticas e greenwashing.

As pessoas que são impactadas direta ou indiretamente por atividades empresariais, tal como cidadãos, consumidores e investidores, também têm como papel serem vigilantes e cobrarem responsabilidade socioambiental das empresas. “Mas isso é uma coisa que ainda falta no nosso cenário”, no Brasil, enfatiza Glaucia Terreo.

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Legitimidade, Teoria de Mudança e projetos

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Um tema recorrente na gestão de projetos de impacto social é o alinhamento do projeto à Teoria de Mudança. Isso diz respeito à importância das ações do projeto estarem de acordo com os propósitos da organização. Sempre que vamos apoiar alguma organização social ou negócio de impacto na estruturação de um projeto, nos preocupamos em entender se aquele projeto está de acordo com a Teoria de Mudança da instituição.

Além disso, há um questionamento constante sobre se o próprio projeto tem uma Teoria de Mudança (ToC, do inglês Theory of Change) compreensível. Isso está cada vez mais em voga, afinal, o campo de impacto socioambiental tem usado a ToC tanto como caminho para apoiar a configuração de projetos quanto para a medição de impacto e dos resultados.

 

Há certo tempo, fui apresentada por Morgana Krieger ao conceito de legitimidade cognitiva. De acordo com o que a própria Morgana me ensinou e escreveu em sua dissertação, “Legitimidade das organizações da sociedade civil: análise de conteúdo à luz da teoria da capacidade crítica”:

“a legitimidade pode ser entendida como a percepção de que uma organização tem o direito de existir e atuar em sociedade, tendo suas ações julgadas e adequadas por todos aqueles que estão à sua volta e se relacionando com ela, com base nas justificativas para sua ação social e política”.

Morgana e eu trabalhamos juntas há alguns anos em um projeto que consistia em apoiar organizações no desenvolvimento institucional – e parte do processo era, justamente, ajudar Organizações da Sociedade Civil a desenharem suas Teorias de Mudança. O objetivo era que tais organizações, a partir do desenho da ToC, pudessem entender e aumentar seus impactos socioambientais e também mensurá-los.

Em um levantamento sobre como as organizações estruturaram suas ToCs e os resultados que obtiveram desses processos, um dos dados mais curiosos foi que, das nove instituições que responderam à pesquisa, apenas uma disse que usou a ToC para fins de avaliação.

Diante deste panorama, a construção da ToC por essas instituições e em seus projetos foi um processo muito além do avaliativo, de modo a revelar uma conexão profunda entre o desenvolvimento reflexivo das organizações e a ampliação da legitimidade delas junto aos seus públicos e demais partes interessadas. Ou seja, gerou um aumento da percepção de que as organizações tinham o direito de existir e atuar. Tal fato ocorreu, pois o processo de construção da ToC na maioria dos casos envolveu equipes internas, beneficiários, conselheiros e voluntários. Segundo sete das nove organizações que participaram da pesquisa, o processo reflexivo foi o responsável pela criação de uma cultura de aprendizagem nas respectivas instituições.

Oito destas empresas afirmaram que, após o processo de desenvolvimento da Teoria da Mudança, mudaram atividades, projetos ou objetivos. E não foram apenas mudanças triviais. Após o esclarecimento de objetivos, iniciaram novas atividades para alcançá-los, chegando a estruturar novos projetos ou iniciar novas possibilidades de arrecadação de fundos. É interessante ver como as nove organizações mencionam que passaram a usar a ToC para explicar, de forma diferenciada, o que a organização faz em momentos distintos, como: captação de recursos, relacionamento com parceiros, relacionamento com o conselho e, até mesmo, para melhorarem os treinamentos para a equipe e se candidatarem a prêmios.

De maneira empírica, vemos à alta correlação entre clareza de ToC de organizações e melhor execução de seus projetos. Não é coincidência. Os resultados da pesquisa mostram que organizações que passam pelo processo de desenvolvimento de uma ToC constroem pilares para ter maior suporte interno e externo. Por isso, podemos inclusive ousar dizer que o processo de construção de uma Teoria de Mudança – um processo participativo, reflexivo, aberto a críticas e processos de desconstrução e reconstrução – é tão importante quanto ter a ToC finalizada.

A legitimidade cognitiva é sinônimo do estreitamento de laços e a confirmação acerca daquilo que a organização está fazendo perante os beneficiários. Passar por um processo de desenho e construção de uma ToC ajuda a compreender, organizar e explicar a lógica de existência de uma instituição, além de melhorar os processos de tomada de decisão. Portanto, destaca-se a importância de escolher quais caminhos e estratégias são mais adequadas para cada problema a ser enfrentado.

Este artigo é fruto de pesquisas de Morgana Krieger e diálogos com Andressa Trivelli.

Morgana Krieger. Crédito: FGV

Morgana Krieger
Pesquisadora apaixonada. Doutora em Administração Pública e Governo pela FGV-EAESP, com sanduíche na LSE, mestre em Administração Pública pela UDESC. Áreas de atuação profissional e pesquisa: questões urbanas, democracia e conflitos, organização da sociedade civil e movimentos sociais.

Este texto é de responsabilidade das autoras e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa.

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Infográfico – Por que Gênero e Clima?

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O que é: Infográfico do Grupo de Trabalho em Gênero e Clima do Observatório do Clima se propõe a refletir em torno da pergunta “por que gênero e clima?” e organizar de forma objetiva as respostas encontradas.

Quem fez: Gênero e Clima, Observatório do Clima.

Ano: 2021.

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Periferias Insurgentes – Ações culturais de jovens nas periferias de São Paulo

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O que é: Durante quase um ano, pesquisadores se debruçaram sobre os projetos culturais financiados pelo Programa Valorização das Iniciativas Culturais (VAI) da Prefeitura Municipal de São Paulo. Esse programa fomenta iniciativas de ação cultural em bairros periféricos e existe há 17 anos.

Quem fez: Dennis de Oliveira, Juliana Salles de Souza, Maíra Carvalho de Moraes e Mariana de Sousa Caires. Editora: Instituto de Estudos Avançados.

Ano: 2021.

Clique aqui para acessar o livro.

Conheça cinco plataformas para monitorar a destruição na Amazônia

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Crédito: Equipe de arte Aupa

No mês em que se celebra o Dia da Amazônia (05/09), um estudo inédito publicado na revista Nature revelou que o processo de degradação ambiental na região, provocado pela ação humana, entre os anos de 2001 e 2019, já afetou mais de 95,5% das espécies de plantas e animais vertebrados conhecidas da Floresta Amazônica. 

O levantamento ainda aponta que as altas taxas de desmatamento e os quase 190 mil km² de floresta que queimaram durante o período analisado já alteraram, por exemplo, o habitat de 85,2% das espécies de plantas e animais ameaçadas de extinção na maior floresta tropical do mundo. 

Somado a isso, os povos tradicionais que habitam a região também estão sob ameaça. Em territórios indígenas com povos isolados, a derrubada de floresta cresceu 118% em julho deste ano, quando comparado ao mesmo período de 2020, segundo dados do Boletim Sirad Isolados

O momento crítico exige um monitoramento ativo das ameaças que cercam a Amazônia Legal. Por isso, conheça algumas plataformas que possibilitam mapear dados de desmatamento, queimadas, entre outras informações sobre o bioma.

 

TerraBrasilis
Desenvolvida pelo INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), a plataforma TerraBrasilis permite ordenamento, acesso e uso dos dados geográficos produzidos pelos programas de monitoramento ambiental da organização. 

Por meio do site, é possível acessar gráficos com dados de avisos de desmatamento de todos os meses desde 2016 – início da série histórica do DETER, que traz um levantamento de alertas de evidências de alteração da cobertura florestal na Amazônia. O usuário consegue visualizar os estados, municípios e áreas de proteção com maior número de alertas de desmatamento, bem como filtrar os dados pelo período desejado. Entre setembro de 2020 a agosto deste ano, mais de 8 mil km² tiveram avisos de desmatamento na Amazônia Legal.

PrevisIA
Utilizar a inteligência artificial para mapear as áreas sob maior risco de desmatamento na Amazônia brasileira é o princípio da plataforma PrevisIA. Criada em parceria pelo Imazon, Microsoft e Fundo Vale, a PrevisIA analisa um conjunto de variáveis para indicar um modelo de previsão de desmatamento nos territórios amazônicos baseado em estatística espacial. 

O padrão tecnológico combina informações sobre a localização da ocorrência da degradação no passado para gerar estimativas da probabilidade da destruição da floresta no próximo calendário de desmatamento, que vai de agosto até julho do ano seguinte. Portanto, é uma previsão de desmatamento de curto prazo (até 12 meses). De acordo com a plataforma, 9.635 km² estarão em risco alto/muito alto de desmatamento até julho de 2022. 

PlenaMata
Com base na média do desmatamento diário detectado pelo DETER, do INPE em 2021, o MapBiomas monitora em tempo real a estimativa de árvores derrubadas por minuto pelo desmatamento na Amazônia. Para ajudar o usuário a entender o tamanho da degradação, a plataforma traz mapas e gráficos da evolução do desmatamento.

Mas, além do monitoramento, o PlenaMata traz um conjunto de informações que vão desde reportagens, artigos e boas práticas sobre a Amazônia até um Glossário com termos técnicos, Políticas Públicas e iniciativas que envolvem a conservação da floresta. A plataforma é uma aliança entre a Natura, InfoAmazonia, MapBiomas, Hacklab e Natura &Co.

Amazônia Sufocada 
A Amazônia está na estação seca, período entre julho e outubro, quando as queimadas se intensificam. O mapa do fogo na Amazônia Legal produzido pelo InfoAmazonia atualiza a cada 24 horas os pontos de foco de calor identificados em unidades de conservação e terras indígenas da região.

As atualizações do fogo podem ser conferidas também pela conta do Twitter botqueimadas, que traz os detalhes sobre os locais mais atingidos. Em 15 de setembro, o robô detectou 117 terras indígenas e 79 unidades de conservação da Amazônia Legal com fogo ativo nas últimas 24 horas. A análise usa dados do satélite S-NPP, da NASA.

Global Fire Data
Este painel mapeia os incêndios individuais na região amazônica por tipo de queimada, que pode ser classificado como: incêndio de desmatamento, incêndio florestal de sub-bosque, pequena clareira e incêndio agrícola, ou incêndio na savana. 

Com atualização diária, os dados e números são provenientes de detecções de incêndio ativas combinadas de instrumentos VIIRS, nos satélites Suomi-NPP e NOAA-20. A plataforma foi criada pela NASA, Gordon and Betty Moore Foundation e The Netherlands Organisation for Scientific Research (NWO).

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