O que é: O informe aborda como a extrema desigualdade na América Latina e no Caribe tem sido um dos principais obstáculos ao avanço de um sistema democrático capaz de garantir direitos a toda população. A riqueza acumulada em alguns grupos minoritários tem dado muito poder para influenciar a formulação de políticas públicas em seu próprio benefício. A política tributária é um claro exemplo deste fenômeno.
O que é: Análise sobre as medidas socioeconômicas utilizadas em vários países da América Latina e Caribe como resposta à pandemia de Covid-19.
Quem fez: RJFALyC (Red de Justicia Fiscal de América Latina y el Caribe), Latindadd (Red Latinoamericana por Justicia Económica y Social) , CESR (Center for Economic and Social Rights) y PDHPF (Principios de Derechos Humanos en la Política Fiscal)
Desde 2013, a Retalhar diminui o impacto negativo criado pelo descarte de tecido na natureza. Hoje, a empresa quer ir além: pretende aumentar o impacto positivo. A diferença parece pequena, apenas um jogo de palavras, mas não é. Jonas Lessa, CEO da Retalhar, é filho de jornalista e psicóloga, então aprendeu a sempre escolher muito bem as palavras. Fala com tranquilidade e explica o que pretende: “Antes a Retalhar ‘só’ aproveitava restos de tecidos para criar produtos limitados. Agora, a empresa tem uma nova missão: contribuir com a economia circular, repensando a forma de criar produtos desde o início, para que eles sejam bem recuperados e voltem a ser matéria-prima durável”.
A inovação sempre esteve presente na Retalhar, pois foi a primeira empresa a virar referência no reaproveitamento de tecidos. E isso aconteceu porque houve a fusão de dois conhecimentos fundamentais para o negócio: Jonas tinha formação em gestão ambiental, enquanto o amigo, Lucas Corvacho, tinha conhecimentos na área têxtil, herdado da família que já possuía uma confecção de uniformes profissionais.
Os dois começaram a trabalhar juntos na confecção. Mas grandes oportunidades começaram a surgir. Diversas empresas passaram a procurá-los para definir o que fazer com o pós-consumo de tecidos. “Primeiro, transformamos os retalhos dos uniformes em brindes corporativos. Depois, veio uma demanda da TAM e atendemos, mas era uma demanda 10 vezes maior do que estávamos habituados. Como acontece na história de todo empreendedor, passamos a madrugada acordados para atender”, lembra Jonas.
No final dessa força-tarefa, surgiu a certeza que Jonas e Lucas precisavam virar sócios de uma nova empresa. “Decidimos dar vida própria ao projeto, porque as oportunidades estavam caindo no colo. Estava chovendo na nossa horta. Não era só o cliente da confecção que estava nos procurando”, conta Jonas.
Jonas e Lucas criadores da Retalhar. Crédito: Retalhar
O passo seguinte
Depois de criar a Retalhar, fazer prospecção ativa e começar a atender diversas empresas, Jonas e Lucas perceberam que era necessário fazer uma alteração no negócio. Não bastava apenas transformar os retalhos em brindes cooperativos. “O Lucas tem uma frase boa. Ele diz que a gente estava vendendo a cereja do bolo como se fosse o bolo”, conta Jonas. O problema é que, em muitos casos, os clientes não tinham como escoar tantos produtos.
Surgiram, então, novas soluções para a gestão de resíduos. A Retalhar passou a desenvolver diferentes produtos. Os uniformes profissionais, que seriam descartados em aterros sanitários, foram transformados em, por exemplo, mochilas para crianças ou cobertores para moradores de rua. Viraram materiais úteis e também uma ferramenta para que diversas empresas demonstrassem engajamento em temas sociais. E a Retalhar só cresceu, reduzindo de forma real o impacto negativo no meio ambiente.
Variedade de clientes e ações
A Fedex foi uma das primeiras empresas a fazer parceria com a Retalhar. E até hoje a contribuição é significativa, pois a empresa já forneceu material para produção de sete mil cobertores só neste ano.
A Retalhar também faz parcerias pontuais, como uma ação com o Palmeiras, time de futebol paulista. O clube doou uniformes usados para que fossem transformados em cobertores. De acordo com Jonas, existe a possibilidade de ampliar esse tipo de ação para outros clubes, até com mais frequência, mas há dificuldade para atender tanta demanda.
Vídeo da ação do Palmeiras
A busca por variedade na produção é muito perceptível na parceria entre Retalhar e iFood. Afinal, o material coletado já é diferente de qualquer outro – são as mochilas térmicas, também chamadas de bags, que entregadores já utilizaram, mas não estão em condições ideais.
André Borges, head de Sustentabilidade, Saúde & Bem Estar e Benefícios no iFood. Crédito: Divulgação
A parceria, que gerou o projeto “Já Fui Bag”, surgiu por iniciativa do iFood, que até 2019 despejava as mochilas em aterros sanitários. Depois de reuniões entre as duas empresas, foi decidido que as bags podiam virar sacolas e pochetes personalizadas, que são utilizadas pela empresa e por clientes. André Borges, head de Sustentabilidade, Saúde & Bem Estar e Benefícios no iFood, comemora a parceria. “Conseguimos ressignificar a função das mochilas térmicas, fazendo com que elas se tornem novos produtos a partir da reutilização dos materiais têxteis.
Além disso, conseguimos gerar renda para as cooperativas de costura parceiras da Retalhar e evitamos o acúmulo de mais resíduos no planeta”, revela André.
Vídeo sobre costureiras do projeto
A parceria prepara uma novidade criativa. “Vamos distribuir kits de primeiros socorros feitos com as bags para o projeto Anjos de Capacete, que visa conscientizar os entregadores para um trânsito mais seguro”, destaca André. Tudo isso faz parte de uma meta ambiciosa do iFood: “Este ano assumimos nosso compromisso ambiental para 2025, o qual tem dois grandes objetivos: zerar a poluição plástica no delivery e tornar o iFood neutro na emissão de CO2”, completa.
Jonas aponta que outro ponto a ser melhorado na parceria é conseguir um aproveitamento melhor do material entregue pelo iFood. Atualmente, a Retalhar precisa que a bag esteja em boas condições. Mas o CEO acredita que é possível fazer mudanças para obter mais matéria-prima.
Segundo ele, o iFood se identifica com os propósitos da Retalhar e tem mostrado disposição para melhorias. “O valor da sustentabilidade toma forma cada vez mais, com o iFood lançando inclusive compromissos públicos. Vemos cada vez mais receptividade, até porque gera retorno para eles em relação à reputação. Teve até um projeto no BBB (o reality show Big Brother Brasil), da Rede Globo, com o ‘Já Fui Bag’”, lembra Jonas, citando as ações de marketing em que os “brothers” apareceram usando as sacolas produzidas pela Retalhar.
Pochete do projeto “Já fui Bag”. Crédito: Retalhar
Economia circular
Nas discussões sobre meio ambiente, um novo termo tem aparecido com frequência: economia circular. Cuidadoso com as palavras, Jonas se preocupa com essa “banalização”, algo que já aconteceu com a palavra sustentabilidade, segundo ele. “Tem tanta gente colocando tanta coisa como sustentável, que ninguém mais acredita nessa palavra”.
Mas, por enquanto, Jonas ainda acredita no termo economia circular e explica que um dos objetivos da Retalhar é buscar essa prática. Segundo ele, atualmente, a empresa realiza “lógica reversa”, que é coletar resíduos, separar e encaminhar para o setor industrial. “Mas, para ser economia circular, é preciso pegar uma calça jeans pós-consumo, tirar tudo que tem que ser removido, triturar, desfibrar, fazer fio, fazer tecido e fazer calça novamente. É o que eu gostaria de ver acontecer. A poluição causada pela produção têxtil só reduzirá quando tiver esses ciclos fechados. Transformar algo em cobertor tem valor, mas não é ideal para nós. O ideal é que as empresas comprem uniformes sabendo que eles serão processados e vão virar novos uniformes”.
Mochila desenvolvida com materiais reutilizados. Crédito: Retalhar
Para que isso aconteça, a Retalhar pretende estar dentro das empresas, atuando praticamente como consultora, para que os uniformes sejam produzidos desde o início com cuidados ambientais.
Pandemia e consultoria
Quando a pandemia causada pela Covid-19 chegou ao Brasil, a Retalhar imaginou que poderia ter um grande prejuízo. De fato, surgiram problemas iniciais, inclusive com a “parte humana”, como define Jonas. “As questões políticas, com todo mundo fragilizado pelo risco de doença e perdas, gerou um ambiente de medo”.
Aos poucos isso foi superado. E o prejuízo econômico durou pouco tempo na Retalhar. De acordo com Jonas, atualmente, a demanda já aumentou 50% em comparação com o período pré-pandemia. Esse impulso motivou a Retalhar a focar no objetivo de virar uma consultoria para empresas que desenvolvem uniformes. Com isso o melhor aproveitamento de tecidos aconteceria desde a elaboração das vestimentas.
“Deixamos de ser gestor de resíduo e passamos a ser ponto de apoio para tomada de decisões envolvendo uniformes dentro da empresa, desde a concepção. Conseguimos ser mais influentes nas empresas. Com isso, saímos do cenário de reduzir impacto ambiental negativo para gerar impacto ambiental positivo”, explica Jonas, mostrando a diferença entre “reduzir o negativo” e “criar o positivo”.
De acordo com o CEO, a Retalhar sempre quis fazer esse serviço, mas a pandemia acelerou o projeto. “Antes, achávamos que podíamos entrar pela chaminé das empresas, de onde sai o resíduo, e sairíamos de lá para poder influenciar. Mas vimos que chegávamos sujos e éramos vistos como os caras que cuidam do lixo. É muito desvalorizado. Não deram ouvidos quando quisemos aconselhar. Agora, em vez de entrar sujo, já chegamos vistos como consultores, entramos na sala da diretoria e não precisamos passar por um monte de aprovações”.
A mensagem germinou
A Retalhar se preocupa em entregar mais do que produtos. A empresa quer distribuir conscientização. Por isso, cada peça produzida acompanha sempre um material de comunicação para levar a mensagem de cuidados ambientais adiante. Quando são produzidas mochilas, por exemplo, as crianças aprendem a importância de reaproveitar materiais.
Para Jonas esse processo tem um significado especial, pois o pai dele, Sávio de Tarso, era um jornalista ambientalista. Ele participou da criação da Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental e influenciou no caminho que o filho tomou. “Eu costumo dizer que sou ambientalista de criação e gestor de formação. A Retalhar materializa o valor que meu pai germinou em mim e dá frutos até hoje”.
A influência de Sávio não acabou em Jonas. Uma vez, enquanto fazia uma distribuição de cobertores, o CEO da Retalhar ouviu que o mundo seria melhor se existissem mais Jonas no mundo. Ele ficou lisonjeado, mas fez questão de destacar que não fez nada sozinho. “Se dependesse só de mim, a Retalhar teria acabado quando meu pai morreu, porque eu não saía da cama”.
Mas a Retalhar continuou, porque outros Jonas germinaram no mundo, através das reflexões que a empresa gera. “Cada contato com o cliente é uma forma de mudar o que ele pensa. Talvez na prática não implique em um novo negócio, mas um diretor de multinacional vai pensar no que está fazendo com o mundo. ‘Quantos outros problemas estou negligenciando? Quantas oportunidades eu tenho para melhorar o mundo?’. Essa questão de inspiração da Retalhar é o mais importante para mim”, conclui Jonas.
Este é o último episódio da série “O que não te contaram sobre impacto?”, do AupaCast. Fábio Deboni, colunista e apresentador, conversa com Carol Pimenta, sócia e co-fundadora da ManejeBem.
Engenheira agrônoma formada na Universidade Federal de Santa Catarina, Carol compartilha que tem uma essência bem forte na pesquisa: “Passei muito tempo na academia. Sou essencialmente uma pesquisadora, apesar de não estar dentro de um laboratório no momento”. Em sua trajetória, o impacto social sempre esteve presente, inclusive através de seu negócio, que proporciona um grande laboratório, “as fazendas”, como ela brinca.
O negócio O negócio de impacto socioambiental ManejeBem leva desenvolvimento rural aos pequenos produtores, oferecendo inteligência e soluções em assistência agrícola. “É um processo extremamente importante para a agricultura, onde o agrônomo, o técnico ou o veterinário auxiliam no manejo e na administração da produção – por exemplo, como melhorá-la. Ele ajuda o produtor”, explica Carol. O negócio conecta o agricultor ao técnico por meio da tecnologia, a partir do ManejeChat, um aplicativo que auxilia no planejamento rural. “Através de uma conversa bem simples de chat com o agricultor, temos como saber as problemáticas que ele tem no campo, quais são os tipos de potencialidade daquele produtor e como eu posso ajuda-lo”, acrescenta. Ao trazer novas ferramentas, a ManejeBem impacta na melhoria da renda, despertando o interesse de novos mercados e indústrias.
O perfil atendido pelo negócio são agricultores familiares, que contam com a mão de obra da família, sem funcionários. Normalmente, possuem quatro módulos fiscais de terreno, 46 hectares de terra, valores em Santa Catarina. No Brasil, o valor do módulo fiscal varia por estado (de 5 a 110 hectares). “A grande maioria com quem trabalhamos não chega a ter mais de 4 hectares (40.000 m²), menos que um módulo fiscal”, comenta. Também é comum existir policultivo, criação de várias espécies de alimentos, alguns chegam até 20 produções diferentes no mesmo espaço.
Os clientes são indústrias, empresas ou cooperativas que buscam desenvolver projetos de responsabilidade socioambiental. No caso da Ambev, empresa brasileira de produção de bebidas, o negócio desenvolve cadeia de fornecedores, ou seja, a indústria consome a matéria prima do produtor. Podem existir outros focos, como o trabalho com as mineradoras, que têm como objetivo o uso futuro das minas de extração. “A atividade gera impacto em gerações de famílias, quando se encerra uma operação, (a empresa) precisa disponibilizar uma alternativa econômica para aquele território”, detalha.
O desafio e as soluções Ao lidar com áreas majoritariamente masculinas, o agronegócio e a tecnologia, Carol e a equipe da ManejeBem, formada a maioria por mulheres, relatam que os episódios de machismo são enfrentados diariamente. “Não por parte dos produtores, não existe uma resistência à nossa presença dentro das comunidades rurais. Aqui em Santa Catarina é muito forte o papel das mulheres na agricultura, elas vão junto com o agricultor para o campo”, conta. Segundo ela, ao dialogarem com técnicos e agrônomos, geralmente homens, encontram uma resistência muito forte. “Em uma feira agrícola, um grupo de técnicos chegou a duvidar da minha capacidade de ser a responsável pelo negócio e agrônoma”, relembra Carol.
Ser uma empresa fora do eixo Sudeste, polo do ecossistema de impacto, não trouxe muitos desafios ao negócio, segundo revela Carol: “Nunca foi uma barreira, claro que as oportunidades são mais evidentes lá (no Sudeste). Todos os negócios que fechamos até hoje foram acordados em São Paulo. Estamos presentes lá, hoje temos uma representante na cidade”. Para ela, a cidade de Florianópolis, capital do estado de Santa Catarina, foi essencial para o avanço do negócio, pois a região alimenta vários pólos de inovação social, como o Impact Hub Floripa, que trouxeram conexões importantes para a ManejeBem.
Serviço Nome do empreendedor: Carol Pimenta. Negócio: ManejeBem. O que (o negócio) faz: Oferece inteligência e soluções para o desenvolvimento da agricultura familiar. De onde é: Florianópolis (SC). Quando começou: 2016. Principal tema da conversa: Como ajudar no desenvolvimento do pequeno produtor? Soluções buscadas: Coletar e mensurar as informações para desenvolver um planejamento visando as potencialidades que o negócio possui.
Em meio a todas as crises atuais, uma vem preocupando cada vez mais brasileiros: a falta de água. Recentemente, Bento Albuquerque, ministro de Minas e Energia, anunciou que o país está passando pelamaior crise hídrica já registrada no país.
De acordo com dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), os rios brasileiros estão com omenor volume médio de água dos últimos 91 anos. Ainda, a ONS projeta que ao menos oito reservatórios de água das principais hidrelétricas do país, podem ficarquase vazios no segundo semestre deste ano. Aliás, medidas deracionamento de água já estão sendo adotadas em cidades nas regiões Sul e Sudeste.
Angelo Lima, secretário-executivo do Observatório da Governança das Águas (OGA). Crédito: Linkedin.
“Não existe somente uma causa, há uma diversidade de motivos para a crise hídrica atual”, afirma Angelo Lima, secretário-executivo do Observatório da Governança das Águas (OGA). Uma das causas da escassez de água é relativa ao elevado consumo e ao desperdício desse recurso em algumas atividades econômicas, segundo ele.
Mas, além de buscar entender as causas da nova crise hídrica, é importante conhecermos possíveis soluções de médio e longo prazos para esse problema que, frequentemente, vem prejudicando tanto a população quanto às empresas e instituições públicas.
No Brasil, especialmente na última década, algumas organizações começaram a oferecer serviços e conhecimento voltados ao uso sustentável da água e a conservação de recursos hídricos. Nesta reportagem, conheça iniciativas sobre estratégias, impactos e desafios na implantação de soluções para a água no país – alinhadas com oObjetivo de Desenvolvimento Sustentável 6.
Plantar água O setor agrícola é o que mais consome e desperdiça água potável. Segundo estimativas da Agência Nacional de Águas e da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, aagropecuária usa 70% da água tratada no país, porém, quase metade desse volume é desperdiçado – sobretudo, devido às irrigações ineficientes ou mal executadas.
Entretanto, há um paradoxo nesse setor. As culturas que mais consomem água são destinadas majoritariamente à exportação, como asoja e carne, que é uma atividade desenvolvida por grandes produtores rurais. Por outro lado, muitos dos pequenos produtores não têmacesso à rede pública de abastecimento de água etratamento de esgoto.
O projeto Plantando Águas, da ONG Iniciativa Verde, busca tornar práticas de uso da água na agricultura mais sustentáveis, além de aumentar a segurança hídrica de pequenos agricultores na zona rural da cidade de São Paulo. A organização fomenta a implantação de tecnologias de armazenamento da água de chuva, tratamento e reaproveitamento de efluentes domésticos, entre outras iniciativas.
Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela ECA/USP e porta-voz da ONG Iniciativa Verde. Crédito: Iniciativa Verde
Marina Souza, porta-voz da ONG, explica que uma das tecnologias usadas no projeto, como a fossa séptica biodigestora, foi desenvolvida pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Essa fossa realiza otratamento eficiente do esgoto doméstico, possibilitando o aproveitamento da água residual tratada para a rega, por exemplo. Além de ser uma alternativa de saneamento de baixo custo, que contribui para “Evitar a poluição dos corpos d’água e solo”, já que o esgoto normalmente não é tratado na zona rural, segundo Marina.
Ainda de acordo com a porta-voz da Iniciativa Verde, as tecnologias propostas pelo projeto ajudam a “Assegurar que o agricultor possa continuar produzindo comida” em épocas secas. Este é um ponto fundamental, pois, períodos prolongados de falta de chuva e temperaturas extremas estão cada vez mais frequentes – umdesequilíbrio climático que deixa a produção agrícola vulnerável, colocando em risco, principalmente, agricultores de baixa renda.
“Então, ter um sistema próprio de captação e armazenamento de água é muito valioso e impacta diretamente na atividade do pequeno produtor”, destaca Marina, tendo em vista que a segurança hídrica resulta em segurança alimentar e econômica. Mais de 430 famílias paulistas já forambeneficiadas pelo projeto, residentes em assentamentos rurais, unidades de conservação e pequenas propriedades agrícolas.
Outros fatores que reduzem a qualidade e quantidade de recursos hídricos são a degradação do solo e a falta de cobertura vegetal, incluindo oritmo acelerado de desmatamento. Por isso, a Iniciativa Verde também promove a capacitação dos agricultores sobre técnicas de cultivo agroflorestal, que aliam produção de alimentos com restauração de florestas.
De acordo comestudos da Embrapa, os sistemas agroflorestais aumentam a disponibilidade de águas superficiais e subterrâneas.Pesquisas também indicam que há uma relação direta entre preservação de florestas e produção de chuva.
Dessa forma, as técnicas propostas pelo Plantando Águas podem contribuir tanto para o uso sustentável da água e a conservação de recursos hídricos, quanto para a mitigação de impactos das mudanças climáticas na agricultura e sociedade.
Cultivar mudanças O setor industrial é o segundo maior consumidor de água potável, correspondendo acerca de 45% da demanda em algumas regiões do país. Outro problema grave é que muitas indústrias não tratam seu esgoto e o despejam diretamente em mananciais hídricos.
Entretanto, a implantação de tecnologias de tratamento e reúso dos efluentes em indústrias ou grandes empreendimentos pode reduzir significativamente o consumo e a poluição de águas. Segundo Fernando Pereira, CEO da General Water (GW), o reúso de água proveniente do esgoto tratado é uma forma de evitar o uso de água potável, que já se encontra escassa para consumo humano, em atividades industriais que não necessitam do recurso nessa qualidade – tal como em vasos sanitários, sistemas de refrigeração, limpeza de áreas ou máquinas. “Um consumidor típico nosso consegue substituir entre 40% a 70% do consumo de água potável”, devido ao aproveitamento da água de reúso, destacaFernando.
Fernando Pereira, CEO da General Water (GW). Crédito: Linkedin
Outro fator de estresse hídrico é o desperdício gerado em redes públicas de abastecimento de água.Cerca de 40% da água tratadaé perdida durante a distribuição devido a vazamentos, erros ou fraude nas redes. Portanto, a instalação de sistemas de abastecimento no local do empreendimento é “muito mais eficiente”, segundo Fernando.
Além de gerar benefícios ambientais, esse conjunto de estratégias ajuda a diminuir a competição por água entre os grandes empreendimentos e a comunidade local, além da possibilidade de gerar benefícios financeiros às empresas. “Na região metropolitana de São Paulo, por exemplo, temos tido crises hídricas cíclicas – que vão ficar cada vez mais exacerbadas por conta das mudanças climáticas – e nossos clientes já estão preocupados” em relação aos impactos socioambientais da falta de água, explica o CEO.
Essa preocupação parece estar se espalhando pelo setor industrial, de modo a gerar vontade de mudança. O projeto Aquapolo Ambiental, por exemplo, é uma iniciativa de indústrias da Grande São Paulo com a concessionária Sabesp, que destina efluentes tratados da Estação de Tratamento ABC para reúso no Polo Petroquímico de Capuava.
Marcio José, CEO do Aquapolo. Crédito: Linkedin
A iniciativa contribui para a segurança hídrica das indústrias, já que o fornecimento é assegurado mesmo durante períodos de estiagem, além de aumentar a disponibilidade de água potável na região urbana e diminuir o volume de retirada dos mananciais hídricos, segundo Marcio José, CEO do Aquapolo.
Atualmente, esse é o maior projeto de reúso de água no Brasil – reaproveitando um volume equivalente ao consumo de cerca de 500 mil habitantes. “Há alguns estudos em andamento e acreditamos que novos projetos semelhantes serão implantados futuramente”, aponta Marcio.
Colher sustentabilidade Vale dizer que a Organização das Nações Unidas alertou recentemente que aseca pode ser a próxima pandemia – podendo afetar diretamente a saúde de pessoas ao redor do mundo, ou indiretamente, através da insegurança alimentar e do aumento nos preços de alimentos.
No Brasil, o baixo volume de água nos reservatórios de hidrelétricas também está gerando umacrise energética, tendo em vista que essa é a principal fonte de energia no país. A conta de luz jáficou mais cara e medidas de racionamento de energia estão sendo avaliadas pelas autoridades competentes. Vale dizer: manter ohorário de verão não evitaria esses impactos.
Assim, a implementação de soluções hídricas de médio e longo prazos é crucial. Mas, alguns desafios ainda precisam ser superados para que tais soluções ganhem escala em território nacional.
“A crise hídrica atual, no fundo, é uma crise de governança”, ressalta Angelo Lima, do OGA. Desde 1997, o Brasil tem uma Política Nacional de Recursos Hídricos avançada, porém, seus instrumentos de gestão não estão sendo igualmente executados nos Estados da Federação. Isso impede a integração de Políticas Públicas com uma visão sistêmica dos problemas e dificulta a previsão de possíveis conflitos pelo uso da água, ele explica.
Marina Souza, afirma que, a partir da experiência da Iniciativa Verde, faltam incentivos financeiros e validação técnica pelos órgãos gestores para facilitar a implantação de tecnologias alternativas de saneamento. A fossa biodigestora da Embrapa, por exemplo, é uma alternativa sustentável de saneamento com mais de 15 anos de comprovação científica, embora ainda não tenha investimento e regulamentação pelo poder público.
Fernando Pereira, da GW, ainda destaca quehouve um avanço na regularização do reúso de efluentes tratados recentemente – o qual poderá incentivar mais esse ramo de negócios.Porém, falta uma fiscalização maior pelos órgãos competentes sobre atividades que geram desperdício e poluição de água.
“A água precisa se tornar uma agenda estratégica para a sociedade brasileira e para os tomadores de decisão – afinal, é fator de desenvolvimento social, ambiental e econômico”,
destaca Angelo Lima, secretário-executivo do Observatório da Governança das Águas (OGA).
Três em cada quatro brasileiros acessam a internet, o que equivale a 134 milhões de pessoas. Os dados são da pesquisa TIC Domicílios (2019), divulgada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), por meio do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br) do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br). Porém, apesar de a quantidade de usuários e de serviços on-line utilizados ter aumentado, ainda persistem diferenças de renda, gênero, raça e regiões. As diferenças de acesso são acentuadas também por classes sociais, segundo dados do TIC Domicílios, de modo que o acesso se dá da seguinte forma: 95% na classe A; 93% na classe B; 78% na classe C; e 57% nas classes D e E.
Vale destacar também que: falar sobre tecnologia é necessariamente trazer as pessoas para o centro da discussão. A partir deste contexto, Silvana Bahia, coordenadora de comunicação do Olabi, organização que trabalha pela democratização da tecnologia, comenta nesta entrevista como a tecnologia pode contribuir na mobilização de organizações sociais, grupos e coletivos em favelas e periferias. Ainda: ela explica que o preconceito étnico-racial está, muitas vezes, introduzido em softwares de reconhecimento facial e inteligências artificiais. Por este motivo, o foco de seus estudos são as relações entre redes, diversidade e inclusão digital. “Devemos olhar para o acesso à internet como um direito que faz parte da cidadania”, destaca.
Confira a entrevista a seguir.
AUPA – Você já trabalhou noObservatório de Favelas e foi a partir desta experiência que percebeu, sobretudo, a falta de mulheres negras no espaço de tecnologia, que é majoritariamente ocupado por brancos e homens, segundo a pesquisa #QuemCodaBr, feita pela PretaLab. Poderia falar mais a respeito, por favor? Silvana Bahia – Quando eu trabalhava no Observatório da Favela, notava essa ausência. Fazia pesquisas ligadas à Comunicação e percebi o quanto a tecnologia estava presente em nossas vidas. Logo, fiquei interessada em saber quem produz as ferramentas, porque percebia o aumento de conteúdo vindo dessas parcelas vulnerabilizadas da sociedade. Constatei que aqueles que produzem a tecnologia são pouco diversos. Homem, branco, heterossexual, jovem e de classe socioeconômica média e alta. Assim, a tecnologia é uma ferramenta que pode aumentar a desigualdade. Segundo pesquisa desenvolvida por Luiz Valério Trindade [University of Southampton (UK)],81% dos discursos de ódio na internet são direcionados a mulheres negras. Isso revela a vulnerabilidade offline e online. Logo, um caminho para que a tecnologia seja mais diversa é mais mulheres negras produzindo tecnologia.
AUPA – Segundo oIBGE, 46 milhões de pessoas não têm acesso àinternet no Brasil. O que acredita ser necessário para democratizar a internet no país? Silvana Bahia – Há muito a ser feito. Primeiro, entender que por trás do acesso à internet há uma estrutura, onde deve-se considerar também como se dá o acesso. Acredito nas tecnologias vistas como um direito humano. Vivemos em um período pandêmico e vimos o quanto esse mito de que estamos conectados é uma falácia. Porque não estamos todos conectados. Quando olhamos para esse acesso, vemos que ele difere de outras classes – afinal, classe social tem gênero e cor. É preciso trabalhar para a internet ser, de fato, democratizada, não só do ponto de vista de consumo, mas da produção.
AUPA – O que é o racismo algorítmico e quais são os impactos da discriminação racial na tecnologia? Silvana Bahia – É basicamente o que fazemos no offline sendo reproduzido pelas ferramentas digitais. Percebemos nos filtros no Instagram que clareiam as peles, por exemplo, e os impactos podem ser variados. Usamos a inteligência artificial para validar quem tem acesso a crédito e quem é o potencial criminoso. Nesses dois aspectos, quando trabalhamos cominteligência artificial, trabalhamos essencialmente com dados. E dados têm cultura usamos dados do passado para prever o futuro.
AUPA – É possível entender a internet como um benefício na luta contra o racismo? E como a falta de acesso interfere na nossa relação com a inovação? Silvana Bahia – Sim, ela trouxe benefícios. Podemos conectar e acessar outros repertórios. É uma camada positiva tanto da internet, quanto de outros aparatos tecnológicos. A falta de acesso acaba impossibilitando que se amplie a nossa visão sobre o mundo e as possibilidades de criação. Contudo, a inovação não necessariamente depende da internet – embora seja um meio relevante. Afinal, a inovação vem antes das tecnologias digitais. A falta de acesso acaba reforçando que há desigualdades, inclusive para inovar.
Pedro Misnerovicz, gerente financeiro e comercial do Armazém do Campo São Paulo, é o convidado do nono episódio da série “O que não te contaram sobre impacto?”, do AupaCast.
Militante e filho de assentados do MST, sigla para Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, organização fundada em 1984 que luta pela reforma agrária no Brasil, Pedro tem formação em Técnico em Cooperativismo pela escola do próprio movimento. Através do curso, no final de 2016, foi estagiário da experimentação que originou o Armazém do Campo anos depois. “Foi meu primeiro estágio e também fui o primeiro estagiário da experiência. Hoje, existem vários outros (Armazém do Campo) que, em conjunto com o movimento, formam novos militantes e técnicos no país”, explica.
O negócio Fundado em 2016 e atualmente presente em 13 estados do Brasil, o Armazém do Campo tem como objetivo principal comercializar e divulgar os produtos da Reforma Agrária, boa parte produzida nos assentamentos do movimento. Para apresentar uma variedade de mercadorias aos clientes, as lojas agregam também produtos vindos da agricultura familiar e de marcas famosas no segmento de orgânicos.
Além das lojas físicas, o Armazém inaugurou, em julho de 2020, sua versão digital. “Desde o início da loja, em 2016, queríamos abrir um e-commerce. Criar um canal de escoamento on-line para os nossos produtos, o que demandaria muita força de trabalho e um número de clientes que não tínhamos na época”, relembra. Com a chegada da pandemia e as restrições de isolamento social, Pedro e sua equipe novamente viram uma oportunidade para apostar no digital. “Uma grande onda de e-commerce surgiu na pandemia, entendemos que era o momento certo para apostar. Consolidamos o modelo, enfrentamos algumas dificuldades, mas, com a dedicação de toda equipe, inauguramos nossa loja virtual”, comenta.
Pedro analisa o perfil dos clientes do negócio: “entre 60% e 70% dos clientes adquirem os produtos como forma de ajudar o movimento. A outra parte são clientes acostumados a comprar produtos orgânicos, principalmente em São Paulo, onde cresceu bastante esse nicho”. Segundo ele, o aumento do preço do arroz, em 2020, não trouxe impactos negativos nas vendas, como em outros lojistas. “Foi o mês que tivemos mais saídas (vendas). Para nós, a razão seria a visão (que os clientes têm) que somos uma resistência ao modelo do agronegócio e aos modelos capitalistas”, acrescenta.
O desafio e as soluções A falta de Políticas Públicas e investimentos do Governo na agricultura familiar traz alguns desafios indiretos ao negócio. “O Estado hoje destina 80% do seu orçamento para o financiamento do agronegócio, o que dificulta a produção de orgânicos ganhar uma escala e impacta diretamente no preço final, mais caro do que os produtos do agronegócio”, contextualiza. Outro obstáculo destacado por Pedro é a logística, o caminho dos produtos feitos nos assentamentos até chegarem às lojas espalhadas pelo território brasileiro. “Na pandemia, criamos uma estratégia bem definida para atender as demandas (dos Armazéns). Ela tem mostrado resultados positivos, porém ainda há muito a melhorar. Nossa meta é abastecer 100% das nossas lojas com as produções dos assentamentos, assim não precisaríamos recorrer às outras marcas (de orgânicos) que possuem uma logística mais consolidada”, revela.
Apesar dos efeitos econômicos negativos da pandemia em alguns setores, o Armazém do Campo viu seu crescimento ganhar força no último ano. “Tivemos uma alta bem acentuada nas demandas, o fator do e-commerce e o cuidado com os alimentos, sem veneno, influenciou bastante”, observa. O negócio também tornou-se uma plataforma para as ações do MST, gerando visibilidade às causas da organização, cujas ações foram paralisadas em 2020.
Serviço Nome do empreendedor: Pedro Misnerovicz. Negócio: Armazém do Campo São Paulo. O que (o negócio) faz: comercializa produtos da Reforma Agrária. De onde é: possui 34 pontos de comercialização espalhados por 13 estados brasileiros. Quando começou: 2016. Principal tema da conversa: como ampliar a agenda da agricultura familiar. Soluções buscadas: incentivos em Políticas Públicas e investimentos, por parte do Governo, na agricultura familiar.
Os estereótipos atribuídos à Amazônia, como quaisquer outros, são prejudiciais ao seu povo. A autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie escreve sobre o perigo de uma história única e de relações de poder que possibilitem a criação de estereótipos. É inegável que há uma imagem comum no imaginário brasileiro e estrangeiro a respeito da Amazônia, uma história única, que invisibiliza muitas vivências amazônicas, valorizando apenas a floresta e os recursos naturais, que sempre foram indiscriminadamente explorados. Por isso, iniciativas capitaneadas por pessoas que vivenciam essa terra são tão importantes: um povo que conta e constrói a própria história tem ao menos a perspectiva de tomar para si o poder de narrar suas próprias experiências.
Qualquer empreendimento que se aproprie desses recursos, mas não valorize as populações locais, não merece os holofotes que estão secularmente voltados para a região. Há consenso quanto à função substancial da Amazônia a nível global enquanto mantenedora de serviços ecológicos para todas as formas de vida, em todos os continentes. A floresta leva umidade e influencia o regime de chuvas em todos os países da América do Sul, contribuindo com o equilíbrio climático do planeta. A Amazônia abriga ainda 15% de toda a biodiversidade da Terra. Vivem na floresta mais de 60 mil espécies de plantas, animais e microorganismos. Unir tantas potências é fundamental.
Novelos de fios emborrachados e já coloridos, usados pela grife para confeccionar seus produtos. Crédito: Luiza Chedieck
Desde 2009, a grife paraense Da Tribu une as potências da Amazônia através da moda. Com o propósito de criar produtos a partir de conceitos sustentáveis e em respeito aos saberes tradicionais dos povos amazônidas, a marca agrega valor à matéria-prima local, incentiva pequenos e médios produtores da floresta e movimenta a economia da região. Pelas mãos da artesã Kátia Fagundes, a Da Tribu usa nas suas produções fios de algodão ecológico banhados em látex, o “ouro branco da Amazônia”, atribuindo uma nova utilidade à borracha. A criação foi desenvolvida em parceria com a Universidade de Brasília (UnB) e, quando aplicada aos produtos da grife, garante renda aos seringueiros da comunidade Pedra Branca, na Ilha de Cotijuba, em Belém, colaborando com a sociobiodiversidade local. Atualmente, a Da Tribu mantém cinco famílias da comunidade e impacta diretamente 30 pessoas, além de gerar emprego e renda para cooperativas de costureiras e de artesãos.
A extração do látex já chega à terceira geração de seringueiros nas regiões insulares de Belém. Crédito: João Urubu
Os produtores de matéria-prima compõem o segmento mais importante da cadeia produtiva da Da Tribu. Numa Área de Proteção Ambiental (APA) em meio à Amazônia urbana, a atuação da grife junto à comunidade, além de assegurar qualidade de vida e renda às pessoas, estimula a conservação de processos naturais e da biodiversidade local, através da adequação das atividades humanas às características ambientais do espaço, marcado por árvores centenárias e chuvas bem distribuídas ao longo do ano. “Na Amazônia, a gente tem um ditado: ‘Ou chove todo dia, ou chove toda hora’. A nossa produção também respeita o tempo da natureza, porque a Amazônia já foi muito roubada e enganada”, pontua Tainah Fagundes, publicitária nascida em Belém, filha de Kátia e sócia da grife. Ela conta ainda que um dos pilares da Da Tribu está na economia circular aplicada ao processo produtivo da marca. “Isso nos enche de certeza de que estamos no caminho certo, pensando em como fazer nossos produtos voltarem para nós, ao final do seu ciclo, para serem reaproveitados”, explica.
Da esquerda para a direita, Tainah e Kátia Fagundes, filha e mãe, que juntas lideram a Da Tribu. Crédito: Débora Flor
De acordo com a Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES) e o Instituto Internacional para Sustentabilidade (IIS), no relatório “Restauração de paisagens e ecossistemas”, elaborado por 45 pesquisadores de 25 instituições, a preservação e a recuperação da vegetação nativa podem estimular oportunidades econômicas, de inclusão social e de redução das desigualdades. Além de reverter parte dos 70 milhões de hectares de cobertura vegetal nativa perdidos pelo Brasil nos últimos 30 anos, devolvendo a funcionalidade dos ecossistemas do país, estima-se a criação de 200 empregos diretos a cada 1.000 hectares em restauração com intervenção humana. Caso a meta nacional de restauração de vegetação nativa seja atingida, projeta-se que até 191 mil empregos sejam gerados até 2030.
Mapa aérea da comunidade Pedra Branca, na Ilha de Cotijuba, região beneficiada pela Da Tribu. Crédito: Google Mapas
José Augusto Lacerda é embaixador da Rede de Professores Academia ICE e professor-conselheiro do Time Enactus UFPA. Crédito: Divulgação.
Para o professor José Augusto Lacerda, doutor em desenvolvimento sustentável pelo Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA) da Universidade Federal do Pará (UFPA), empreendimentos que combinem ganhos econômicos com aspectos socioambientais em seus modelos de negócios são cada vez mais importantes no mundo de hoje. “Não somente para manter a floresta em pé e promover a justiça social, mas também pelos seus efeitos pedagógicos enquanto negócios híbridos. Ao demonstrar que esses objetivos não são excludentes, eles despertam a sociedade para uma nova — e poderosa — economia, permeada por negócios regenerativos, inclusivos e sustentáveis”, completa.
Ao assumir a vocação de preservar o meio ambiente e de garantir condições dignas de trabalho para as pessoas envolvidas na cadeia de produção da marca, a Da Tribu se compromete com cinco dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), plano de ação assinado pelos 193 países-membros da ONU para erradicar a pobreza e promover vida digna para todos. “Podemos juntos construir elos de confiança e vencer os desafios sempre alinhados aos mesmos propósitos: floresta em pé, preço justo, empoderamento da comunidade e construção de uma moda sustentável, limpa e amazônica”, resume a artesã e fundadora da Da Tribu, Kátia Fagundes.
Esta é uma reportagem de Juliana Amaral e Orlando Haber.
Juliana Amaral. Crédito: Divulgação
Estudante de Jornalismo da Universidade Federal do Pará, aluna pesquisadora pelo grupo Comunicação, Política e Amazônia (Compoa), atuando no projeto “Mídia, debate público e negociação de sentidos sobre o trabalho doméstico.”
Orlando Haber. Crédito: Divulgação
Brasileiro da Amazônia, Orlando Haber nasceu em Belém e cursa Jornalismo na Universidade Federal do Pará. Ex-presidente da Enactus UFPA, dedica-se ao empreendedorismo social e vê a ação empreendedora como potencial ferramenta de impacto positivo em comunidades vulneráveis. Desde 2019, é bolsista da Agência de Inovação Tecnológica da UFPA.
O último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças do Clima (IPCC), divulgado no início de agosto, acendeu o alerta: se o mundo não reduzir as emissões de gases de efeito estufa para a atmosfera, é provável que o aquecimento global ultrapasse a marca de 2ºC até o final deste século, com grandes chances de alcançar 1,5°C já nos próximos 20 anos.
O importante papel das florestas para a regulação do clima é tema recorrente no debate público. Mas esse equilíbrio está em constante ameaça com o avanço do desmatamento, especialmente na Amazônia.
“O desmatamento das florestas libera uma quantidade absurda de gases de efeito estufa – fora a própria poluição que vem das queimadas, entre várias outras consequências, que não são boas”, afirma Natalie Unterstell, presidente da Talanoa, think tank dedicado à política climática.
O desmatamento é um dos vários problemas que a Amazônia tem enfrentado. Seja pelas mudanças nos órgãos responsáveis por manter a floresta em pé ou pelos projetos de lei que tramitam no Congresso Nacional, a agenda política ambiental do país tem colocado em risco a conservação desse bioma e dos povos que ali habitam. Confira nesta entrevista, as reflexões de Natalie Unterstell sobre o atual momento e as perspectivas de mudanças deste cenário.
AUPA – Vivemos uma onda negacionista, em que chefes de Estado questionam a importância do combate ao aquecimento global e até negam a existência da mudança climática. Quais os impactos dessas posturas para democratizar o discurso sobre os efeitos desses fenômenos para a população? Natalie Unterstell – Os mercadores de dúvidas existem há muitas décadas. Eles utilizam uma técnica de plantar dúvidas sobre o que estamos vivendo. Essa técnica se mostrou muito efetiva, pois eles conseguiram atrasar uma regulação em diversas frentes. No caso da indústria do tabaco, por exemplo, quantas pessoas não devem ter morrido por doenças associadas ao fumo porque acreditavam que fumar fazia bem à saúde? É o mesmo para a questão climática. Por anos a indústria de combustíveis fósseis vendeu a ideia de que precisávamos do carvão – porque as pessoas pobres só teriam energia pelo carvão, que era abundante e barato. Mas, sabemos hoje, que a eólica é mais barata que o carvão e nunca tivemos essa dependência. Entretanto, eles – a indústria – foram muito efetivos, tiveram recursos e foram capazes de fazer esse jogo de influência no alto nível. Isso aconteceu globalmente, não apenas no Brasil ou nos Estados Unidos.
O cientista Michael E. Mann, autor do livro “The New Climate War”, costuma dizer que são os “inativistas”. Esse termo pode ser aplicado à indústria do petróleo e do gás, que afirma que o problema é muito difícil de resolver e usa o discurso de que não há o que possa ser feito. O impacto disso hoje é muito ruim, principalmente no Brasil, pois, durante muito tempo, tivemos uma matriz de energia relativamente limpa, temos muitas hidrelétricas e tínhamos muita utilização de biocombustíveis nos transportes, por exemplo. Mas isso está mudando, pois os “inativistas” estão fazendo com que as pessoas aceitem que passemos para uma energia mais suja na matriz brasileira. Outro ponto é que os lobbies desses segmentos são muito poderosos e capitalizados. Há um jogo muito pesado de interesses que fez com que, durante muito tempo, lideranças políticas, até progressistas, não se posicionassem contra.
Em contrapartida, as tecnologias limpas – eólica e solar – estão crescendo exponencialmente, e os investidores já estão percebendo que conseguem se beneficiar desses novos mercados. E o mercado sente quando uma tecnologia se torna obsoleta e, com isso, começa uma dinâmica de olhar para essas oportunidades e defender políticas domésticas mais agressivas. E, como consequência, as energias consideradas mais sujas estão perdendo mercado e suporte regulatório. Essa onda negacionista está desesperada para segurar isso, mas, na prática (no mercado) já viramos a página e é muito evidente que, quem ficar no petróleo e no carvão, ficará para trás.
AUPA – O Governo Federal retirou do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) a atribuição de divulgar os dados sobre alertas de incêndios e queimadas em todo o país. Agora, essa função foi direcionada ao Instituto Nacional de Meteorologia, o Inmet, vinculado ao Ministério da Agricultura. Como essa decisão afeta os dados que serão captados e divulgados? Natalie Unterstell – O grande problema dessa mudança é que ela está associada a um conjunto muito amplo de alterações que estão sendo feitas desde janeiro de 2019, o que causa muita instabilidade, não necessariamente no monitoramento, mas no uso dessas informações para cumprimento das leis ambientais.
O que me preocupa é a instabilidade e certa desmoralização do INPE. Tivemos um caso no ano retrasado do presidente da instituição que foi tirado da posição por discordâncias (Ricardo Galvão foi demitido em agosto de 2019). Estamos em uma crescente de desmoralização e isso é muito ruim a longo prazo, pois a instituição vai perdendo força. E, por outro lado, no curto prazo, não sabemos se estes dados estão sendo úteis para, de fato, coibir crimes e prevenir queimadas – que é o objetivo principal.
Embora tenham características diferentes, ambas as instituições (Inpe e Inmet) têm mandado para fazer monitoramento, mas é um pouco estranho fazermos essa mudança no meio da estação de seca e de queimadas. Então, os questionamentos são: “qual foi o planejamento? De onde isso está vindo? Por que isso agora?”. É muito instável. Na prática, a questão dos dados não é simplesmente ir lá e “passar o pen drive”, tem uma construção que está obscura sobre como acontecerá.
AUPA – Com a saída de Ricardo Salles do comando do Ministério do Meio Ambiente e a entrada de Joaquim Leite (antigo titular da Secretaria da Amazônia e Serviços Ambientais), o que muda na política ambiental do país? Natalie Unterstell – Foi positivo que o Salles tenha se desvinculado da posição. Ele realmente não estava à altura do cargo. Acho que foi tardia essa saída, pois foram causados muitos danos nesses dois anos e meio. Por outro lado, isso não corrige a política bolsonarista ambiental e de mudança do clima. E tampouco acho que há interesse do Governo de corrigir os sinais que estão sendo dados.
Já faz mais de dois meses que o Ricardo Salles saiu e não tivemos alteração de curso. Não houve nenhum pronunciamento do novo ministro em relação a quais serão suas prioridades. Sabemos de bastidores que ele continua interessado nas mesmas agendas e abordagens, por exemplo, de manter o Fundo Amazônia paralisado. Então, não tenho expectativa de mudança no curso das políticas ambientais. O que podemos esperar de diferente é que o Joaquim Leite parece ser uma figura menos confrontativa e explosiva do que o Ricardo Salles, mas as ideias são as mesmas. Não devemos considerar que algo de novo vá acontecer por vontade ou virtude deste Governo.
AUPA – Na Cúpula do Clima, em abril deste ano, o presidente Jair Bolsonaro fez promessas para alcançar a meta de neutralidade de carbono em 2050. Ao mesmo tempo, o Brasil está longe de cumprir as metas firmadas no Acordo de Paris. Como é possível pressionar para que essas metas se tornem realidade? Natalie Unterstell – Essas metas não são deste Governo ou de Governo, mas sim, da sociedade brasileira. Então, qual o objetivo que nós, brasileiros, queremos fixar para a descarbonização do nosso país nesta década? Acho que esta é a principal pergunta. Temos uma profusão de metas de empresas, Governos estaduais, Prefeituras, vários atores estão se posicionando imbuídos em implementar a descarbonização total até 2050.
É muito importante que os diferentes atores passem a pensar juntos nessa visão de mudança do clima e desenvolvimento para o Brasil nesta década.
O que queremos implementar? Se chegarmos às visões será mais fácil cobrarmos quem tem autoridade.
Sobre as responsabilizações, caso essas metas não sejam cumpridas, vale lembrar que nós estamos em uma democracia. Há diversas ações judiciais no âmbito do Supremo Tribunal Federal (STF) cobrando a omissão e as falhas na implementação desses compromissos. Então, hoje, está nas mãos dos juízes essa responsabilização. Ainda: o Brasil é signatário da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Climada Organização das Nações Unidas e, inclusive, houve uma carta das organizações da sociedade civil brasileiras denunciando a falta de cumprimento das regras do Acordo de Paris.
Não está faltando denúncia, mas acredito que precisamos, para além desse Governo, saber o que queremos fazer.
AUPA – Ainda sobre eventos, temos a COP 26 (Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática de Glasgow) em novembro. Todd Chapman, embaixador dos Estados Unidos no Brasil, afirmou que o Governo brasileiro deve ir para um evento com um pacote pronto sobre como alcançar as metas que já assumiu. Com o cenário atual, o que você espera acerca da participação do Brasil? Natalie Unterstell – Só haverá acordo na COP se todos os países alcançarem consenso. Por isso tantos parceiros internacionais estão vindo ao Brasil tentando mobilizar o Governo Bolsonaro para chegar com propostas razoáveis à COP 26. O mundo precisa do Brasil, portanto, o país precisará se posicionar.
Hoje, o que sabemos que é prioridade do atual Governo – mas, talvez, isso mude até lá: o Brasil quer acordo sobre o art. 6 do Acordo de Paris, referente ao mercado de carbono; e há ainda uma cobrança sobre a questão do financiamento climático. Então, essas são as duas principais linhas que o Brasil tem trabalhado. Acredito que, junto com os seus principais aliados (China, Índia e África do Sul), o país também irá cutucar os países ricos e tentar se defender.
Infelizmente, esse jogo de empurra é ainda muito presente neste Governo. É um jogo amplo e os países ricos têm muito a fazer, obviamente. Nós não somos os únicos que não fizeram a lição de casa. As posições são históricas e vemos uma resistência em criar, inovar e apresentar propostas mais ambiciosas. O que me preocupa, e me envergonha, é que o Brasil vai chegar com péssimos resultados.
AUPA – Há um avanço do desmatamento e das queimadas no país, enquanto o Ibama possui hoje apenas 26,6% do número de analistas necessários para ações de fiscalização. Como esses desmontes impactam o processo de mudança climática?
Natalie Unterstell – Florestas, no geral, são tanto um problema quanto uma solução para a questão da mudança do clima. O desmatamento delas é o problema, pois libera uma quantidade absurda de gases de efeito estufa – além da própria poluição que vem das queimadas, entre várias outras consequências, que não são boas. E as florestas são uma solução se reduzirmos o desmatamento, sendo capaz até de reverter e reflorestar estas áreas. Isso não resolve a crise climática, mas é um elemento importante. O que é muito crítico na situação que estamos vivendo: o desmatamento está acelerando. Até 2012, tivemos uma redução, depois houve uma subida e agora está em aceleração. Todo ano colocamos um bilhão de gases de efeito estufa na atmosfera por conta do desmatamento no Brasil. Apenas China, Estados Unidos, União Europeia, Índia e Rússia emitem mais do que isso. Tal fato ajuda a mudança climática a se propagar. No Brasil, temos o desmatamento, principalmente, por ilegalidade. É a falta de fiscalização que está por trás disso. Quando tínhamos minimamente recursos, um quadro orçamentário, nós conseguimos fazer a lição de casa. Depois entrou o Governo Bolsonaro com o discurso explícito de acabar com a fiscalização. Hoje, 94% do desmatamento da Amazônia e no Cerrado é ilegal. Não há como contribuir para a mudança do clima sem que as organizações de fiscalização estejam funcionando e fortalecidas.
E depende do Estado para ser coibido, não podemos contratar instituição privada para cuidar de floresta pública.
Outro ponto crítico é o desmatamento acumulado. São décadas de desmatamento. Até os anos 1970, havia 1% da floresta desmatada na Amazônia, hoje são 20%. Se passarmos de 25%, a floresta entrará em colapso. Uma pesquisa divulgada em julho deste ano pelo INPE e outros pesquisadores revela que já temos áreas da floresta amazônica, no Sudeste dela, que estão nesse processo – que pode ser irreversível. Nesse ponto, não sei em qual Brasil vamos viver. A Amazônia segura nossa agricultura e exerce todo um papel de regulação climática para o mundo. Imagina essa floresta entrar em colapso? E isso está diretamente ligado à falta de fiscalização, ao cumprimento das leis. É estratégico que a nossa fiscalização ambiental funcione e seja respeitada.
Zerando o desmatamento e as queimadas, além de reduzirmos as emissões de CO2, também aumentaria a capacidade da floresta Amazônica de absorver carbono. Crédito: Pexel.
AUPA – O Projeto de Lei (PL) 2.633/2020, conhecido como “PL da Grilagem” foi aprovado na Câmara dos Deputados e está em curso no Senado Federal. Se aprovado, quais retrocessos ele traz para a política ambiental do país? Natalie Unterstell – A principal ameaça deste projeto de lei é dar incentivos para a invasão de terras, retirar madeira e depois vender essa terra como se fosse privada, é um processo muito ligado ao desmatamento e está sendo estimulado. Gera expectativa de que quem grila terá a terra regularizada. É como dizer: “Grile o quanto antes, pois você terá uma bênção do Estado depois”.
É ruim, pois temos vários sinais de que está acontecendo essa corrida às terras públicas. Esse projeto de lei, se aprovado, irá consolidar a noção de que também não há só um incentivo agora, mas que as pessoas que grilam e desmatam podem ficar tranquilas, afinal elas serão perdoadas.
O Presidente Jair Bolsonaro afirmou que iria acabar com a indústria da multa, mas o que ele está fazendo é criar a indústria do perdão, tanto no caso da grilagem como no desmatamento.
AUPA – O termo “passar a boiada” foi utilizado por Ricardo Salles (ex-ministro do Meio Ambiente), durante reunião ministerial, para afrouxar regras ambientais durante a pandemia. Você acredita que esse objetivo foi alcançado? Em um Brasil pós-pandemia, quais são as perspectivas de impacto dessas ações? Natalie Unterstell – Não tenho dúvida de que o Governo Bolsonaro tentou passar muitas boiadas, mas tenho visto uma reação espetacular da sociedade civil, das empresas, dos investidores, dos Governos Estaduais. Graças a isso, muitas boiadas que chegaram na porteira tiveram que voltar. Uma das boiadas que o Salles tentou passar no CONAMA foi barrada no Supremo Tribunal Federal. Outra que ele propôs sobre praticamente desautorizar a Lei da Mata Atlântica (nº 11.428/2006) também foi barrada nos estados com o Ministério Público.
Mas, agora, estamos com a iminência de que as piores boiadas aconteçam. O Governo Bolsonaro tem um fortíssimo aliado no Congresso Nacional, que é o Centrão, e as propostas legislativas, que eles não conseguiram passar em dois anos e meio, estão pautadas para regime de urgência nesse próximo semestre.
É um momento muito perigoso. Talvez mais perigoso do que esses últimos dois anos e meio. É preciso fortalecer a pressão principalmente no Legislativo.
A área sob alerta de desmatamento na Amazônia Legal durante o primeiro semestre de 2021 é a maior em seis anos. Crédito: Pexel.
AUPA – Você faz parte do projeto Política por Inteiro, que monitora a agenda ambiental de Políticas Públicas no país. Em um momento em que as fake news estão tão presentes, qual a importância de ferramentas de monitoramento como essas? Natalie Unterstell – Tentamos separar o que é ruído e o que é sinal. Nosso trabalho principal não é necessariamente checar fatos. Fazemos um acompanhamento, em tempo real, dos sinais que o Governo está dando, observando medidas e decretos. Estamos analisando se é algo para se preocupar ou não. Vale dizer que todo mundo já fazia um pouco de monitoramento, mas isso teve que ganhar uma nova dimensão, uma escala muito mais ampla, no Governo Bolsonaro – que, por sua vez, trabalha com sobrecarga sistêmica, então é muito ruído. Foi necessário criar essas ferramentas para entendermos o que está acontecendo. É muito importante ter várias pessoas atuando nesses campos, apoiando o jornalismo e o ativismo. Nosso papel é só ajudá-los a falar com mais propriedade sobre o que precisa ser falado.
Adélia Rodrigues, fundadora e sócia do Gastronomia Periférica, é a convidada do oitavo episódio da série “O que não te contaram sobre impacto?” do AupaCast.
Nordestina, nascida no Maranhão e periférica, Adélia brinca que sua história é um “Fruto de várias andanças”. A razão de tantas andanças era o trabalho de sua mãe em uma ONG (Organização Não Governamental) – vale dizer que a matriarca e a família materna de Adélia eram de Brasília. Por fim, desembarcou em São Paulo – mais precisamente, no bairro Jardim Boa Vista, na Zona Oeste paulista. “Quando cheguei em São Paulo, tinha muito sotaque, porém isso me incomodava. Também tinha o bullying (prática repetitiva de atos de violência física e psicológica) de crianças e não era fácil de lidar. Fui uma criança mais calada e, como consequência, me dediquei às leituras e aos estudos. Queria me colocar de outra forma”, relata. A paixão pelos livros a levou à Psicologia, onde tem Graduação, depois começou a atuar em projetos sociais.
Por oito anos, trabalhou na Fundação Julita, organização social que atua no Jardim São Luís, na Zona Sul de São Paulo, há mais de 60 anos. “Eu tenho a Zona Sul em meu coração, eu amo. Trabalhava com juventude, a faixa etária que gostava (de trabalhar) e dizia que ‘ninguém queria, eu queria!’. Eles têm um perfil que demanda o diálogo e o debate, você precisa trazer pontos verdadeiros. Você não consegue ludibriar um jovem, precisa estar junto e vivenciar o processo. Foi importante participar desse trabalho”, acrescenta. Foi na mesma ONG que conheceu o chef Edson Leite, um dos educadores no programa de juventude que Adélia coordenava. “Nossos pensamentos em relação à alimentação se cruzavam. A Psicologia diz que o afeto vem do alimento, por outro lado acredito que tudo é político. O que é plantado e o que não é, o que é valorizado e o que não é, enquanto que a comida tem a ver com noções políticas, inclusive, de colonização”, explica.
O negócio A Gastronomia Periférica é uma empresa-escola de gastronomia para moradores da periferia da cidade de São Paulo. Fundado em 2018, o negócio de impacto oferece também serviços de consultoria, refeições coletivas e um aplicativo de delivery homônimo para restaurantes locais. “Como nascemos com pouca grana, já tínhamos desde o início a ideia de oferecer serviços para custear a nossa escola e oferecê-la de maneira gratuita para quem é periférico”, ressalta. Segundo Adélia, a sevirologia da iniciativa foi a solução para um modelo de negócio mais amplo, fugindo do modelo tradicional de organização social, onde teria limitações financeiras e de execução, como ter uma sede física, por exemplo.
A noção de ser um negócio de impacto socioambiental veio através da conexão com A Banca, organização do Jardim Ângela, também da Zona Sul, que promove a agenda dos negócios de impacto periféricos (NIPs). “Eles foram muito importantes nesse processo de consciência. Começamos a nos identificar (com as características) e dar um checklist em tudo. Nos inscrevemos na primeira turma da ANIP (Articuladora de Negócios de Impacto da Periferia, braço da A Banca), porém não passamos e a resposta foi muito boa. Entendemos que precisávamos organizar melhor alguns aspectos (do negócio), antes de ‘jogar para o mundo’. Quando voltamos, no segundo ano, conseguimos entrar e, a partir dali, entendemos o tamanho do nosso trabalho”, enfatiza.
O desafio e as soluções Os serviços de catering prestados em eventos custeavam o negócio e suas aulas no início. Com a chegada das restrições impostas pela pandemia da Covid-19, o investimento de empresas no projeto se tornou a principal fonte de recursos. “As marcas entenderam o quanto é importante (o apoio). Não só as áreas sociais, mas a área de marketing inclusive, o quanto é uma relação ganha-ganha. Eu invisto neste negócio e, ao mesmo tempo, tenho visibilidade e oportunidade de contratar estudantes formados por eles”, comenta. Atualmente, quatros organizações apoiam as iniciativas do negócio, entre elas, a Fundação Tide Setubal.
Sobre o tabu das relações positivas e negativas de se relacionar com marcas, Adélia ressalta que os processos de reflexão e ponderação são importantes e praticados entre os sócios nas decisões. “Sempre haverá prós e contras ao se associar a uma marca, ninguém é 100% só um lado. Pelo nosso discurso – sobre ter potência e ser visível na prática -, temos a liberdade de dizer exatamente o que pensamos sobre aquela proposta de parceria e propor soluções nos contrapontos”, afirma.
Na relação com o território, Adélia rebate alguns comentários negativos que escuta, indiretamente, afirmando que “se venderam” para as empresas: “Entendo que é uma falha social nossa (como sociedade), criticar ao invés de discutir quais foram os pontos que levaram até ali”, considera. “Costumo explicar assim: essa marca (empresa) pode não ser 100% adequada para todo mundo, porém, o que estamos fazendo, lhe garanto que é adequado. Estamos formando pessoas que não teriam oportunidades, melhor usar esse recurso (dinheiro) e fazer uma potência periférica do que deixar para ser investido em outra coisa. Sofremos pressões dos dois lados, mas já sabemos lidar com elas”, finaliza.
Serviço Nome do empreendedor: Adélia Rodrigues. Negócio: Gastronomia Periférica. O que (o negócio) faz: oferece aulas de culinária gratuitas para moradores da periferia da cidade de São Paulo. De onde é: não possui sede física, os sócios-fundadores são da cidade de São Paulo (SP). Quando começou: 2018. Principal tema da conversa: como criar boas conexões com as empresas. Soluções buscadas: através dos recursos investidos, ampliar a potência periférica e o impacto social.