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O ecossistema de impacto durante (e pós) a Pandemia

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A Aupa, na missão de produzir jornalismo com profundidade e independência sobre o setor de impacto social no Brasil, realizou sua primeira live no dia 2 de abril. Os convidados Fábio Deboni (Instituto Sabin) e Haroldo Torres (Berlim Consultoria) dialogaram sobre os desafios do ecossistema de impacto no enfrentamento à pandemia do Coronavírus. Os temas abordados foram: as relações entre o Estado e o mercado, a fragilidade dos intermediários, o dilema da oferta de investimentos privados, as ferramentas de avaliação e, principalmente, os caminhos do setor para reagir à crise. A transmissão foi realizada pelos canais da Aupa. 

Iniciativas nas periferias buscam fortalecer combate ao Coronavírus

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Vagner de Alencar (diretor de jornalismo) à esquerda e Anderson Meneses (diretor de negócios) da Agência Mural_crédito_ Agência Mural

Nas periferias do país, os impactos do Coronavírus confrontam a tese de que “estamos todos no mesmo barco”, quando se fala no enfrentamento à pandemia. Moradias superlotadas, falta de saneamento básico e escassez no acesso ao sistema de saúde tornam a população desses locais mais vulneráveis ao vírus.

Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua, 2018), 11,5 milhões de brasileiros moram em casas cheias, ou seja, com mais de três pessoas por dormitório. Além disso, de acordo com o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS, 2017), 35 milhões de pessoas no país não possuem abastecimento de água tratada – que afeta diretamente a correta higienização para evitar a contaminação do vírus. 

A diminuição de renda em tempos de pandemia é outro fator de vulnerabilidade para quem vive nesses locais. De acordo com o levantamento “Coronavírus nas favelas” , feito pelo Data Favela em parceria com a Central Única das Favelas (CUFA) e o Instituto Locomotiva, a diminuição da renda é outro fator desigual para essas pessoas: 86% sentiram impacto onde trabalham em razão da Covid-19. A pesquisa entrevistou 1.142 pessoas em 262 favelas em todo o Brasil.

Abaixo, listamos iniciativas em diversas frentes para enfrentar os impactos do vírus para a população periférica:

Agência Mural de Jornalismo das Periferias
Com 80 correspondentes espalhados pela cidade de São Paulo e região metropolitana, a Agência Mural de Jornalismo das Periferias criou o podcast “Em Quarentena”, com assuntos específicos que impactam esses territórios durante a pandemia. A ideia é disseminar o conteúdo via Whatsapp, na contramão da propagação de notícias falsas que, infelizmente, ganham cada vez mais espaço na rede. “Estamos fazendo parcerias com rádios comunitárias das periferias para reproduzir o podcast na programação, e queremos fazer parcerias em rádios comerciais também, já que nosso objetivo é que essas histórias cheguem ao maior número de pessoas”, afirma Anderson Meneses, diretor de negócios da Agência Mural. Os interessados em receber o conteúdo podem adicionar o número da Agência Mural (11) 97591-5260 e solicitar o envio do material ou, ainda, acessar o podcast direto pelo Spotify.

Além da Agência Mural, diversos coletivos periféricos da Rede Jornalistas das Periferias estão focados em levar informação de qualidade para esses lugares. Confira os conteúdos nos perfis de cada um deles: @almapretajornalismo, @casanomeiodomundo, @desenrola_, @imargem, @historiorama, @periferiaemmovimento, @dicampanafotocoletivo, @nosmulheresdaperiferia e por meio da hashtag #CoronaVírusNasPeriferias.

Aventura de Construir 

O projeto Aventura de Construir é um dos exemplos de negócio social que fortaleceu a operação para aumentar o apoio aos pequenos negócios da Zona Oeste de São Paulo neste período. “Em nossa metodologia, acompanhamos os microempreendedores e geramos protagonismo, atuando em rede e criando ponte. Estamos fazendo assessorias por telefone. Eles precisam de apoio em um momento como esse, pois bate o desespero. Tem preocupação, mas também tem muita criatividade”, conta Silvia Caironi, coordenadora geral da organização.

Atualmente, o projeto atende 200 microempreendedores. Desde o início da pandemia, o Aventura de Construir já ligou para mais de 60 empreendedores para conscientizar sobre os impactos do Covid-19 e entender as necessidades desses trabalhadores. A partir deste levantamento, a ideia é propor soluções para que os negócios continuem operando e, em alguns casos, para que direcionem as atividades com o objetivo de atender as demandas dos próprios bairros. 

A organização também já fez parcerias com empresas para que os microempreendedores se apliquem às vagas, caso não possam manter a operação funcionando. Além disso, conteúdos específicos para esse público estão disponíveis neste blog.  Há também um fundo emergencial para microempreendedores com dificuldades em sustentar os negócios e, consequentemente, as famílias. Foi, então, criado este espaço de doação.

Silvia Caironi, coordenadora geral da Aventura de Construir.

Mapeamento de Urgências nas Periferias
Uma iniciativa de jovens negros publicitários das periferias busca identificar as necessidades das pessoas que vivem nesses territórios, com o objetivo de mobilizar marcas para atender a essas demandas. Nesta planilha é possível visualizar as mais de 300 respostas do questionário. Confira também as ações pelo Instagram “Me ajuda a ajudar?”. O mapeamento tem apoio do grupo Publicitários Negros.

Bora Lá
A agência Bora Lá, especializada em Comunicação e Marketing Popular, voltados a negócios sociais, de impacto e também pequenas empresas da periferia, lidera a rede de apoio com serviços de comunicação visual para a crise. As iniciativas são feitas com parceiros, que oferecem serviços gratuitos de design simples, além de serviços nesta linha também no esquema pague quanto e quando puder e a preços populares. Há também a cobertura de informações sobre o Covid-19 na quebrada, com compartilhamento de conteúdos de veículos de comunicação que estão abordando o Coronavírus na periferia. A agência disponibiliza ainda suas redes sociais gratuitamente, para que nano, micro e pequenos empreendedores divulguem seus serviços e produtos e também ações de solidariedade, sobretudo aqueles que residem na Zona Sul paulistana.  Se você é designer e quer contribuir voluntariamente para criar peças a serem oferecidas aos pequenos empreendedores que não têm como pagar neste momento, basta enviar uma mensagem no Facebook da Bora Lá ou no WhatsaApp: (11) 96311- 3744. Para ajudar esta rede de apoio e a agência a manter-se em pé, é possível também doar: basta acessar este link.

 

Legenda da foto de capa: membros da Agência Mural. Vagner de Alencar (diretor de jornalismo) à esquerda e Anderson Meneses (diretor de negócios). Créditos: Agência Mural.

Mapeamento Empreendedorismo Criativo e Social no Brasil

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Capa de "Mapeamento Empreendedorismo Criativo e Social no Brasil". Fonte: British Council.

O que é: “Mapeamento com empreendedores sociais e de Economia Criativa no Brasil, com objetivo de compreender melhor atuação, governança e dificuldades encontradas por esses empreendimentos no país. Ao todo, 666 empreendedores criativos de todo o país responderam ao questionário aberto, que ficou disponível ao público de junho a dezembro de 2019.”

Quem fez: British Council, Social Enterprise UK (SEUK) e Catavento Pesquisas.

Autores: British Council, Social Enterprise UK (SEUK) e Catavento Pesquisas.

Ano: 2020.

Clique aqui para acessar a pesquisa.

Uma delicada precisão

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No último artigo, falei um pouco sobre como a medição e a construção de indicadores de impacto são mais relevantes quando os gestores e os demais envolvidos são capazes de perceber e gerir, considerando o fato de que projetos sociais têm complexidades ímpares.

De maneira corriqueira, costumamos chamar de “impacto gerado” tudo que é fruto do nosso trabalho no campo social: seja um resultado entregue, um objetivo alcançado ou a realização de uma atividade. E não tem problema falarmos isso no dia a dia. Mas, para conseguirmos entender e determinar os indicadores sensíveis às necessidades das pessoas, é essencial distinguirmos, com clareza, o que são atividades, resultados, objetivos e o que seria o impacto, o qual queremos contribuir, exatamente.

Projetos que visam o aumento de geração de renda são um bom exemplo sobre essas diferenças. É comum dizermos que o impacto do projeto foi o aumento da geração de renda. Sem dúvida, aumentar este crescimento é relevante, além de ser algo que se deve almejar. Mas este não é o fim do projeto.

Quando nos referimos ao volume da renda gerada, tratamos do resultado de algumas atividades realizadas durante o projeto, como alteração nos produtos, na estratégia de vendas ou melhoria na produtividade das artesãs, por exemplo. O “impacto” gerado deve refletir aquilo que muda na vida dessas pessoas, porque elas passaram a ter mais recursos. Um indicador de impacto deve traduzir essa mudança.

Outro exemplo: a Rede Pública do Ensino Médio do Estado de São Paulo incentiva uma prática chamada “Acolhimento“. Em resumo, trata-se de um conjunto de atividades, as quais os atuais alunos de uma escola dão as boas-vindas aos novos, conduzindo atividades de integração e de reflexão pessoal logo nos primeiros dias de aula. O resultado esperado é gerar nos estudantes o sentimento de pertencimento. Espera-se que, com esse sentimento, os alunos permaneçam mais na escola, diminuindo a evasão escolar, aumentando a escolaridade geral da população paulista.

Não sei exatamente quais são as métricas de sucesso do “Acolhimento”. Mas, extrapolando conceitualmente, poderíamos dizer que, como impacto positivo esperado, um ganho no bem-estar destes alunos também na fase adulta. Afirmamos isso, pois há estudos que demonstram forte correlação entre tempo de escolaridade, empregabilidade e aumento de renda – e o consequente incremento do bem-estar individual.

Para além da técnica que vai embasar a escolha dos indicadores, fazer perguntas contextualizadas e direcionadas ao público-alvo é extremamente relevante neste processo. Certa vez, perguntei a um grupo produtivo de artesãs qual seria o sinônimo de que as coisas estavam indo bem. A resposta foi tão simples, que virou um indicador de resultados visível para todos na oficina e foi atualizado diariamente: o número de dias no mês quando a conta corrente apresenta quatro dígitos (ou mais). Um indicador simples e bem definido deve transparecer o valor do projeto para todas as partes interessadas e ajudar as equipes a focarem no que está dando certo e no que importa.

Planejamentos de projetos com indicadores muito robustos correm o risco de serem complexos demais em sua execução e não traduzirem o que é mais relevante para quem vive o projeto em si. Faço um convite a gestores e instituições financiadoras: vamos pensar em poucos indicadores, mas que, de verdade, possam ser medidos e avaliados e nos tragam sinais de que estamos caminhando para a mudança que os participantes dos projetos querem viver?

 

*Créditos da colagem: Murilo Mendes.

Uma proposta lúdica de impacto contra o Coronavírus

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Como brincar pode estar relacionado ao impacto social positivo? Mais ainda: e se no meio deste jogo você pudesse combater o Coronavírus? Pois saiba que é possível – e sem sair de casa. A LiveLab, organização sem fins lucrativos, criou o Jornada Operação Antivírus X, onde jovens de 12 a 25 anos podem contribuir, ludicamente, para diminuir o impacto da Covid-19 e desenvolver competências, ao mesmo tempo.

Jogos voltados à construção de impacto social positivo são uma tendência no mercado, indo além de uma promessa. E se trata de um mercado aquecido. Vale lembrar que o Brasil é o 13º maior mercado de games do mundo e o maior da América Latina. Para se ter uma ideia: este mercado movimentou US$1,5 bilhão no país, onde há cerca de 75,7 milhões de jogadores, segundo a pesquisa Global Games Market, divulgada pela consultoria especializada New Zoo, em 2018.

Dentre as possibilidades neste universo, há os jogos sociais, que estão muito ligados à ideia de redes e, consequentemente, de parcerias, uma estratégica de extrema importância no mundo dos negócios, sobretudo, no ecossistema de impacto social. Além disso, estes jogos reforçam a noção de comunidade e territorialidade – mesmo que virtual.

E essas parcerias funcionam também nos negócios que envolvem os jogos. Em dezembro de 2019, a Universidade de São Paulo lançou a Aceleradora Games for Change, que tem como objetivo acelerar e fomentar o desenvolvimento de jogos de alto impacto social. Trata-se de um braço da Games for Change (G4C), organização não governamental (ONG) internacional criada em 2004 por Suzanne Seggerman e sediada em Nova York. A G4C dedica-se à aplicação de jogos eletrônicos ao desenvolvimento social. Uma forma de unir inovação, educação e diversidade com temas ligados à saúde, ao meio ambiente, à infância e, sobretudo, aos Direitos Humanos.  

Operação Antivírus X

Desde o dia 24 de março, na Operação Antivírus X, jovens estão mobilizados a criar e aplicar soluções para várias frentes de impacto da pandemia, como ajudar grupos de risco, combater fake news, pensar em soluções para a economia, a falta de água e a saúde e emocional da população.  

A ideia de parceria é concreta também na organização do jogo social, enquanto business. As seguintes organizações colaboram com o desenvolvimento de Operação Antivírus X: Unicef Brasil, Ashoka, Fundação Getúlio Vargas, Imaginable Futures, PorVir, Periferia em Movimento, Festival Feira Preta, Instituto Inspirare, Engenheiros Sem Fronteiras, Viração e Colégio Sidarta. Além disso, a iniciativa conta ainda com um time de voluntários gamers, programadores, designers, roteiristas, educadores, administradores, médicos, arquitetos, engenheiros, estudantes secundaristas e universitários. Todos estes atores são desafiados a somar criatividade e talento para que a operação do jogo funcione. Edgard Gouveia Júnior, cofundador da LiveLab e idealizador do movimento, explica que o formato propõe uma gincana colaborativa, com segurança, rapidez e diversão. Vale dizer: o jogo é gratuito.

Edgard Gouveia Júnior, idealizador da Jornada Operação Antivírus X. Créditos: divulgação.

“As pessoas nunca foram tão conectadas e distante ao mesmo tempo. Essa geração vem sendo preparada para utilizar seus superpoderes neste momento decisivo. É chegada a hora dessa juventude, que já nasceu num mundo digital, a reunir seus amigos e sagacidade tecnológica para apresentar soluções criativas no combate a Covid-19”, diz Edgard.

O estímulo é também uma oportunidade do jovem desenvolver as 10 competências-chave da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). São elas: conhecimento, pensamento científico, crítico e criativo, senso estético e repertório cultural, comunicação, cultura digital, autogestão, argumentação, autoconhecimento e autocuidado, empatia e cooperação, e autonomia. Impacto social positivo para ser despertado na juventude, pela inovação e também pela ludicidade.

Lídia N. Teles: “Para lidar com a pandemia, é importante acionar uma rede de suporte afetivo e emocional”

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Saúde mental é um termo bastante recorrente em rodas de conversa, dentro e fora do mundo corporativo. Tornou-se comum, porém não menos preocupante, a constatação do burnout, o esgotamento físico e mental associado ao trabalho. Quem tem informação e acesso ao tratamento, costuma procurar ajuda. Já, para quem não tem, outros tantos problemas podem surgir.   

Não há ainda uma pesquisa ou um levantamento específico ao ecossistema de impacto no Brasil que traga dados quanti ou qualitativos sobre a saúde mental de empreendedores sociais ou de impacto socioambiental.  Contudo, pressões, frustrações, mudanças de rotas e problemas são também constantes no universo dos negócios que propõem impacto social positivo – sejam empreendimentos pequenos ou grandes, beneficiários, empresas, institutos, fundações, investidores ou intermediários. O malabarismo pode afetar a saúde mental e o bem-estar de líderes, segundo o artigo “These are the mental health struggles of a social entrepreneur” [“Essas são as lutas de saúde mental de um empreendedor social”], publicado pelo Fórum Econômico Mundial, em 2019.

Mas e quando na soma da imprevisibilidade acrescenta-se uma pandemia de nível global? O Coronavírus tem como uma das medidas de prevenção e para contenção da curva epidêmica o isolamento social. Idosos e portadores de asma, pressão alta e diabetes estão no grupo de risco desta doença que pode acometer qualquer um de nós – e que muda a dinâmica das nossas relações.

Aupa conversou com Lídia Nakamura Teles, psiquiatra e psicanalista, sobre as consequências deste contexto com Coronavírus. O mundo do trabalho, as ansiedades, a desinformação e as ações para o autocuidado são alguns dos temas do diálogo. “A pandemia traz uma série de imposições, restrições e consequências tanto no âmbito físico, quanto no financeiro. É uma mistura explosiva, pois são fatores de risco para a saúde mental”. Confira a entrevista:

AUPA – Com o isolamento social, devido às medidas de precaução ao Coronavírus, com o passar dos dias percebemos o despertar da ansiedade de algumas pessoas, de diferentes maneiras. O que fazer quando este tipo de angústia acontecer?

LÍDIA N. TELES – O cenário atual, ocasionado pelo Coronavírus, trouxe a necessidade de implementação de algumas medidas, como o isolamento de pacientes, a quarentena e o distanciamento social. Tais medidas repercutem de forma significativa na saúde mental das pessoas. Alguns estudos mostraram piora de comportamentos de inibição social, além de sintomas que se assemelham ao estresse pós-traumático e também raiva em situações de pandemia. Há ainda um risco maior de abuso de substâncias. O Coronavírus é uma doença de fácil propagação e de, ainda, poucas informações conhecidas, o que gera apreensão e insegurança. Diante disso, a angústia, o sofrimento, a preocupação, a raiva, o medo e a ansiedade são sentimentos que se manifestam. Reconhecê-los e admitir que fazem parte do contexto atual é um primeiro movimento para lidar melhor com isso. Limitar o exagero pela busca de informações e procurar fontes confiáveis, direcionar-se a uma atividade prazerosa, que consiga promover momentos de distração e técnicas de relaxamento e meditação também ajudam. E se a angústia estiver intensa e frequente, não deixe de buscar ajuda profissional. Lembrando que, quem já tem uma condição psiquiátrica de base, tem grande risco de descompensação deste quadro e precisa manter seu tratamento regular.

AUPA – Parte das preocupações está relacionada ao mundo do trabalho e as incertezas de emprego e renda que a medida de isolamento social projeta. Como isso pode afetar a saúde física e mental e quais procedimentos moradores tanto do centro quanto das periferias podem tomar?

LÍDIA N. TELES – A pandemia traz a preocupação com a repercussão econômica. Com a falta de trabalho, seja pelo acometimento da doença, seja pela quarentena ou pelo isolamento, pode haver um desequilíbrio financeiro súbito, que não fora planejado. Para lidar com isso, é importante acionar uma rede de suporte afetivo e emocional, que inclui família, amigos e comunidade. Engajar-se em grupos de apoio, manter os laços afetivos com amigos e familiares, mesmo que com recursos de comunicação à distância, são formas de lidar melhor com as aflições. Não podemos deixar que o isolamento físico impeça essa interação. Vemos um movimento interessante de incentivo a pequenas empresas, restaurantes locais e pequenos produtores.

AUPA – Pode-se esperar um maior número de pacientes com depressão a partir do contexto de hoje?

LÍDIA N. TELES – O confinamento traz limitação de espaço, há uma série de precauções de contato, mudança brusca de rotina. Sintomas depressivos e ansiosos são esperados nesse contexto, como uma forma natural de reação a incertezas e medos. Entretanto, precisamos nos atentar à evolução desse quadro. Às vezes, aquilo que estava dentro do esperado, exacerba-se e começa a trazer um impacto importante na vida do indivíduo, com grande sofrimento. É nessa hora que entra a patologia. Nota-se em algumas pessoas, uma certa distorção de percepção de risco, exacerbando o medo da contaminação. Um estudo feito em pessoas isoladas ou em quarentena em uma epidemia anterior, causada por outro tipo de Coronavírus no Oriente Médio, chamado MERS, encontrou taxas de mais de 40% de necessidade de intervenção psiquiátrica. Este número e bastante elevado quando se pensa em dados de prevalência da OMS do ano passado, em que uma em cada cinco pessoas que vivem em áreas de conflitos, tem algum distúrbio em saúde mental. A quarentena da SARS, no Canadá, em 2003, que durou cerca de 10 dias, trouxe um impacto de 29% dos indivíduos com sintomas de estresse pós-traumático e 31% com sintomas depressivos.

AUPA – Onde moradores das periferias ou mesmo aqueles da base da pirâmide socioeconômica podem encontrar ajuda psiquiátrica hoje via SUS? Quem não pode pagar uma consulta no psiquiatra ou nem mesmo comprar remédios, qual a alternativa?

LÍDIA N. TELES – O fluxo orientado pelo Ministério da Saúde para indivíduos que necessitam de atendimento em saúde mental visa identificação de necessidades assistenciais, alívio do sofrimento e planejamento de intervenções medicamentosas e terapêuticas, se e quando necessárias. O atendimento pode acontecer em qualquer serviço da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), formada por várias unidades com finalidades distintas, de forma integral e gratuita, pela rede pública de saúde. Integram a RAPS: os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e os Ambulatórios Multiprofissionais de Saúde Mental. Quanto à aquisição de medicações pelo SUS, algumas são disponibilizadas em UBS (Unidade Básica de Saúde), CAPS e farmácias de alto custo.

AUPA – No que diz respeito, à saúde mental, qual a responsabilidade de um governo sobre as pessoas quanto a informações especulativas ou mesmo a dos cidadãos espalhando fake news neste contexto?

LÍDIA N. TELES – Em tempos de informações disseminadas de forma quase instantânea, especulações e fake news se proliferam. Pensando em termos de saúde mental, o esclarecimento adequado sobre a pandemia tem grande impacto na saúde emocional das pessoas. Pensamentos antecipatórios e catastróficos no cenário atual podem ser intensificados por notícias falsas. É de extrema importância que os órgãos de saúde pública sejam transparentes com a população, ao fornecer dados sobre a doença e condutas a serem tomadas se a pessoa apresentar sintomas. Recomenda-se sempre buscar informações de fontes oficiais e nunca encaminhar uma mensagem de conteúdo suspeito ou duvidoso.

AUPA – Qual mensagem, enquanto médica psiquiátrica, você pode passar à sociedade neste contexto pandêmico?

LÍDIA N. TELES – O isolamento imposto pela pandemia é bastante sofrido, em vários aspectos. Precisamos de estratégias para lidar melhor com este período. Informar-se, mas sem excesso, restringindo a busca de informação para uma ou duas vezes ao dia, no máximo. Consuma notícias de fontes confiáveis, jamais repasse uma informação de fonte incerta. Redirecione a atenção para uma atividade prazerosa. Higienização constante, sempre que possível. Alimentação adequada, estabelecer uma rotina, cultivar um bom padrão de sono, praticar alguma atividade física, meditação, técnicas de relaxamento. Não deixar de reforçar laços afetivos. Não pode visitar a avó? Ligue para ela. O vizinho não está conseguindo comprar seu remédio? Ofereça ajuda. Em situações de estresse, exercer a empatia nos traz um sentimento de conforto, pensando que podemos ajudar outras pessoas a não se contaminarem, em especial àqueles mais vulneráveis. Essa ajuda vem não somente com o distanciamento social, mas também com gestos solidários aos vizinhos, amigos ou desconhecidos.

A gente não quer só comida, a gente quer estabilidade econômica para superar esta crise do Covid-19

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Diálogo com as nanos. Créditos: ASCOM FA.VELA.

Oi, tudo bem? Espero que este texto lhe encontre saudável físico e mentalmente, alimentado e hidratado.

Mas, olhe, precisamos falar sobre as emergências econômicas – sem falar sobre elas não tenho como lhe contar quem são os “nanos”!

Recolhimento, quarentena e estabilidade econômica são agora privilégios no Brasil; é assim em 2020, bem como foi em 2019 e nos anos antes deles… Existe, hoje, um grupo de pessoas em uma dimensão de vulnerabilidade neste país, muito além do básico. São os nanoempreendedores ou apenas “nanos”. Você, talvez, nunca os chamou por este nome, mas eles estão aí, fornecendo serviços e produtos, gerando empregos, impactando (e muito) a economia local e, como cidadãos, consomem e pagam impostos. Digo isso porque muitos desses nanoempreendedores figuram nos dados da informalidade das pesquisas, por isso não são contemplados em políticas de fomento – já era assim antes da crise, quem dirá agora…

Mas o que a economia da “formalidade” se esquece é que eles, antes de serem empreendedores, são cidadãos que pagam luz, água, telefone e internet. São também consumidores que compram produtos tributados, ou seja, a carga tributária deles, não contemplando em suas operações, é retribuída nos seus acessos a serviços e consumo diários. Outra coisa massa dos “nanos” é que eles não estão sozinhos: são também responsáveis pelo sustento de uma grande parcela de famílias da periferia, onde a maioria tem mulheres negras como mantenedoras.

Estou acompanhando, de forma coletiva, ao lado de outros atores e lideranças negras e periféricas do ecossistema de inovação e impacto social no país, os avanços da epidemia do COVID-19, e os impactos gerados agora e também a médio e longo prazos para este público dos nanoempreendedores. Acredito que nunca estivemos tão próximos da possibilidade de uma regressão agressiva do empoderamento econômico (ainda abaixo do que poderia ser) de grupos e territórios vulneráveis, em específico a população negra, parte da qual a maioria de nanos se autodeclara.

Mas você pode dizer:

“João, há diversas ações, campanhas e também mobilizações das esferas pública e privada, além da sociedade civil, com foco no emergencial – ‘colocar feijão na lata’ destas pessoas”.

Nenhuma crítica às mesmas. Elas têm seus méritos e suas urgências, mas o convite neste texto é para reflexão da perspectiva multidimensional de uma crise que afeta toda a sociedade, mas em especial a forma como reagimos a ela. É um momento ímpar e que testa a forma como praticamos a empatia. Nossos entendimentos sobre as reais necessidades de públicos em maior situação de vulnerabilidade devem ser ampliados e colocados à prova, frente às certezas que tínhamos há duas ou três semanas.

Apesar das cestas básicas, fica sempre a pergunta: e depois?!

Vamos fazer um pequeno exercício sobre um dos perfis dos nanos: imagine você, uma mulher negra, mãe solo de dois filhos, vivendo em uma favela das grandes metrópoles do Sudeste. Até semanas atrás, seu maior desafio era o equilíbrio das contas e da qualidade de vida, limitadas ao recebimento de um salário mínimo (talvez algo próximo de dois) oriundo de alguns serviços de faxina e/ou de um pequeno empreendimento na área de alimentação. Imagine ainda que para chegar ao ponto de equilíbrio do orçamento familiar, às vezes, ainda fosse exigida uma ginástica financeira para deitar a cabeça no travesseiro de forma tranquila. O orçamento desta nanoempreendedora era composto por despesas que não cabem em uma cesta básica de alimentos. Estamos falando aqui de necessidades de acesso a serviços como água, luz, internet, e (por que não?), lazer e entretenimento. Esta era a vida de sonho possível dos “nanos”!

Como diz a canção “Comida”, dos Titãs: “A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte…”.

O COVID-19 representa uma epidemia global, é preciso recolhimento e quarentena. Mas, falando a partir da perspectiva dos nanoempreendedores do Brasil, isto ainda é um privilégio. Ele representa também a regressão de uma mobilidade social, na perspectiva econômica, de uma parcela da população pertencente a uma força de trabalho empreendedora, que existe formal e informalmente, movimentando e fortalecendo a economia local, impactando diretamente a economia nacional. Seja por meio do consumo, seja por meio da oferta de produtos e serviços nas cadeias da Economia Criativa, como gastronomia, beleza e construção civil. E vale lembrar que, em sua maioria, são pessoas negras.

Gente, que fique claro: cestas básicas são importantes! Mas a manutenção do empoderamento econômico desta grande parcela da população também é. Reforço: não se trata de uma crítica às ações assistenciais de emergência, mas, sim, um convite a dividirmos esforços e recursos para atender outras demandas que as emergências econômicas trazem. Neste ponto, devemos nos unir na proposição e na execução de soluções.

A sugestão aqui é para refletir: qual o seu melhor lugar nesta crise? Se você tem capital social, financeiro e de rede, eles também devem estar empregados no atendimento a essas outras urgências. Se formos pensar economicamente no local, lembrem que quem monta cestas básicas hoje são empresas médias e grandes, e elas não estão dentro destes territórios vulneráveis – seja gerando emprego ou fomentando a economia local. Resumindo: a médio prazo (ou, talvez, curto), cestas básicas quebram mercadinhos da favela, é simples fazer a conta e a análise de cenário.

Sei que, às vezes, a distância destas realidades nos leva a escolher o mais simples, a solução mais óbvia. Não estou julgando e lhe aconselho também que não faça isso consigo ou com outros que seguem por esta linha de raciocínio.

“Beleza, João, lhe ouvi (li) aqui… Refleti… Mas, e aí, onde estão as soluções?”

A certa? Eu não sei, sinceramente. Mas as necessárias e urgentes temos muito o quê conversar. Principalmente, sobre a qualidade e a assertividade do investimento social e de impacto no Brasil.

Muito antes de Covid-19, vários atores do ecossistema de empreendedorismo negro e de impacto social se uniram para atuar de forma coletiva no território nacional. Assim, somamos forças para fundar a Coalizão ÉDITODOS, liderada pelas organizações: Afrobusiness, Agência Solano Trindade, Feira Preta, Vale do Dendê e nós, do FA.VELA. A Coalizão nasceu em 2017, devido a nossa participação na Força Tarefa de Finanças Sociais (atual Aliança pelos Investimentos e Negócios de Impacto), liderada pelo Instituto de Cidadania Empresarial (ICE). Uma iniciativa única dentro do ecossistema de impacto social no Brasil. Temos como agenda o enfrentamento ao racismo estrutural, que influencia, diretamente, a mobilidade social, o acesso a recursos e também a qualidade de vida da população negra e outros públicos vulnerabilizados. Atuamos com o fomento ao empreendedorismo, à inovação social e à  economia criativa, articulando parcerias entre os setores público, privado e social, para a construção de soluções e projetos de impacto efetivo, fortalecendo ainda o advocacy por políticas públicas para garantias de direitos destas populações.

Usando esta inteligência coletiva, lançamos nesta semana nossa estratégia de captação de recursos para um fundo emergencial de doações financeiras focado nos “nanos”. Vamos atuar fortemente no advocacy da transferência de renda para a ponta. Precisamos minimizar os impactos no empoderamento econômico desses núcleos familiares! A retomada econômica do país, não pode ser construída sem pensar nestes agentes econômicos.

Estamos abrindo diálogos com o setor privado, institutos e fundações, para os primeiros investimentos. Apesar de estarmos apenas no início dos desafios, com o avanço das medidas de isolamento social, a maioria das empreendedoras e dos empreendedores da base, com muitos negócios ainda analógicos, precisarão de apoio para se reinventar. Por isso, em paralelo às doações financeiras emergenciais a fundo perdido, estamos revendo nossas estratégias como fomentadores destes ecossistemas periféricos, ampliando as nossas ofertas formativas nos meios digitais e tornando-as cada vez mais acessíveis.

Investidores, doadores e conectores: continuem firmes nas ações emergenciais da assistência básica, mas se abram ao diálogo das emergências econômicas para além do entendido, comumente, como básico. E se precisar de ajuda para isso, nossa inteligência está a sua disposição. Venha falar com a gente!

Sigo daqui, na resistência, construindo pontes e comprometido com soluções coletivas.

ONGs e pandemia

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Tudo mudou com o alastramento global do Coronavírus (Covid-19). Tudo. Porém, as incertezas que cercam o mundo do trabalho e a própria vida social, além da prevista recessão econômica, com o mercado desacelerado, geram incertezas em organizações e indivíduos. E com as Organizações Não Governamentais (ONGs) não é diferente.

Como gerir uma ONG e atender seus beneficiários em meio à complexidade e às consequências da pandemia? A Phomenta, buscando atender tais organizações, lançou o Portal do Impacto – Coronavírus. Trata-se de uma plataforma gratuita de compartilhamento de informações sobre os impactos do Covid-19 no Terceiro Setor. A iniciativa é apoiada pelas seguintes organizações: Aupa – Jornalismo em Negócios de Impacto Social, Instituto Sabin, Grupo +Unidos, Arredondar, Instituto Bancorbrás, Mol Editora, Instituto BRB, Instituto Phi e Escritório de Advocacia AHO.

Um dos primeiros lançamentos da plataforma foi o webinar “Como o Coronavírus impacta as OSCs [Organizações da Sociedade Civil]?“. Participaram da conversa Izadora Mattiello, cofundadora e CEO da Phomenta, Marcus Moura, gerente de operações e finanças, Rodrigo Cavalcante, gerente de impacto e aceleração social e Luis Sousa, agente de aceleração social. O diálogo abordou os cenários no mundo, no Brasil e no Terceiro Setor, além das questões diretamente relacionadas à gestão e às particularidades das ONGs.

Fato é: as pequenas ONGs, que fazem parte dos pequenos negócios, são as que mais sofrem com os reflexos no mundo do trabalho a partir da medida de isolamento social – há uma diminuição tanto na oferta quanto na demanda por produtos e serviços, afetando a cadeia de compra de insumos dentro deste sistema globalizado. Ao mesmo tempo, vale o jeito startup de pensar – ter a ideia e testar rapidamente. “Porém, é imprescindível fazer boas perguntas, mapear o cenário e entender como a ONG pode se organizar para estar na linha de frente também”, ressalta Mattiello. Entender os beneficiários para adequar o atendimento, participar de coalizações de ONGs e que as necessidades são bastante diferentes entre elas no contexto pandêmico são alguns dos caminhos apontados.

“Qual é o problema social, portanto? Talvez a solução não seja o digital e a educação, mas, sim, a alimentação e a saúde”, levanta Moura, que complementa: “É preciso também saber como os beneficiários estarão depois da pandemia”. O fortalecimento de vínculos e parcerias são ideais para o enfrentamento dos efeitos sociais e de saúde ocasionados pelo isolamento e pelos novos desafios nas rotinas de trabalho e perda da demanda e da oferta. Engana-se quem pensa que, em situações como a que vivemos, o digital pode fomentar tudo – afinal, é preciso considerar as muitas desigualdades de acesso quanto ao digital também. São impactos de curto, médio e longo prazos. E são muitas questões para as ONGs considerarem – para atender seus beneficiários e também para manter seu negócio em pé.

Coronavírus vs acesso à alimentação: iniciativa contempla pequenos produtores e famílias em vulnerabilidade social

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Os impactos gerados pelo Coronavírus no mundo todo alteram os modos de vida de todos os povos. Com a medida de isolamento dos indivíduos em suas casas e o alastramento global do vírus vêm as consequências sociais, culturais, políticas e econômicas. E neste pacote uma equação que não fecha, dada a desigualdade que cada país vivencia: a relação entre recursos, comida e pobreza. Não à toa, temos índices para monitorar essa junção, como o Mapa da Fome (ONU), além de outros programas e iniciativas dos mais variados tipos, como os da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO/ONU).

O pequeno produtor costuma ter clientes pontuais e limitados. A base da pirâmide socioeconômica tem recursos escassos para ter acesso à alimentação – falar de alimentação orgânica, então, quase soa como luxo para aqueles mais vulneráveis, sobretudo, nos grandes centros. Com o isolamento e a mudança no ritmo de produção, serviços e consumo, a economia global é afetada. O preço dos alimentos também entra neste contexto – e comer está ligado à manutenção da saúde, ao suprimento de necessidades básicas do corpo e ao respeito à dignidade humana. 

Mas diante de um contexto de incertezas e que aponta desaceleração econômica com uma pandemia de escala global, como fica o pequeno produtor? Como a base da pirâmide poderá ter acesso a alimentos crus e saudáveis perante um cenário de encarecimento de produtos, ao mesmo tempo que o cuidado com a saúde, mais do que nunca, é vital?

Na primeira semana do isolamento social em vigência no Brasil, a Pertim foi criada por Flávia Altenfelder (da Fazenda Malabar), Mariana Castrillon e Rafael Duckur.  Trata-se de um grupo de agricultores de Morungaba (Região Metropolitana de Campinas/SP), que percebeu que muitas pessoas ficariam sem comida e muitas comidas ficariam sem pessoas para consumi-las. A iniciativa é apoiada pela Fazenda da Toca, Preto Império, Fazenda Malabar, Estúdio do Mário, Rebu Work, Fru.to e Café dos Contos.

O sistema funciona com três passos:

  1. Arrecadar fundos dos apoiadores.
  2. Comprar alimentos do pequeno produtor.
  3. Entregar os alimentos a pessoas da base da pirâmide socioeconômica.

“Nosso foco é ajudar nas duas pontas. Compramos produtos orgânicos de quem não tem onde vender e levamos às pessoas com alta vulnerabilidade e baixo suporte social”, explica Duckur na página oficial da iniciativa. As cestas de alimentos serão entregues gratuitamente, de modo a apoiar o trabalho pequeno produtor e também alimentos com potencial para contribuir com a imunidade humana. 

Você pode ajudar das seguintes maneiras: doando dinheiro, alimentos orgânicos e/ou ainda apoio logístico, emprestando equipamentos úteis ou ainda divulgando a iniciativa. É impacto social – a partir do alimento que brota do chão e sacia quem precisa.

Objetivos de Desenvolvimento Sustentável transversais à ação:

ODS 2. Acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e melhoria da nutrição e promover agricultura sustentável. 

ODS 12. Assegurar padrões de produção e de consumo sustentáveis

ODS 15. Proteger, recuperar e promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres, gerir de forma sustentável as florestas, combater a desertificação, deter e reverter a degradação da terra e deter a perda de biodiversidade

ODS 17. Fortalecer os meios de implementação e revitalizar a parceria global para o desenvolvimento sustentável.

 

Para ler também:

Documento da Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (Contag) e da Frente Parlamentar da Agricultura Familiar pede medidas urgentes em defesa da vida e dos povos do campo, da floresta e das águas

O Coronavírus e a quarentena das políticas públicas de impacto

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Prelúdio:
As políticas públicas para negócios de impacto nas periferias deveriam ser impulsionadas, aperfeiçoadas e não extintas. São ferramentas regionais dos governos municipais capazes de ativar e fomentar negócios periféricos a partir dos bairros e das cidades – um campo onde, muitas vezes, o setor privado não quer arriscar. Em São Paulo, a agência Adesampa tem essa função, com programas e projetos próprios e consolidados. Porém, pela insensibilidade do próprio governo poderá ser extinta. Entenda:

Atos:
No último dia 18 de março, ocorreu algo muito simbólico na Câmara Municipal de São Paulo. Em meio à pandemia do Coronavírus, com quarentenas e situação de calamidade pública decretadas, os vereadores da maior cidade do país se reuniram para votar um único Projeto de Lei, o 749/2019. A encenação pode ser contada em três atos.

Primeiro ato, a irresponsabilidade: não deveria haver sessão plenária naquela tarde em razão da aglomeração e do estímulo à contaminação dos próprios vereadores e funcionários da Casa – outras casas legislativas já haviam cancelado as plenárias presenciais.

Segundo ato, a ausência de democracia: em razão da pandemia, a Câmara Municipal estava fechada para os munícipes, o que impedia a presença e as manifestações da população e das entidades – ou seja, era uma sessão fechada, que não permitia a participação popular, algo por si só contraditório.

Terceiro ato, o equívoco do projeto de lei: votava-se o plano de estatização de 10 empresas públicas, que extinguia, entre outras, a Adesampa, a agência de desenvolvimento municipal realizadora de projetos como o Vai Tec e o Teia, programas de apoio e fomento aos empreendedores das periferias. Sua extinção não é bem vista por ninguém. Nem dentro da agência, nem por especialistas, nem pelo ecossistema de impacto e, muito menos, pelos empreendedores da base.

Juízo Final:
O fim da Adesampa, principalmente nesse momento de pandemia e retração econômica, pode ser catastrófico para negócios e empreendedores da periferia. Uma reforma administrativa não deveria estar em discussão nesse momento. Naturalmente, existem ajustes a serem feitos dentro da própria agência, mas sua intencionalidade como política pública sempre foi clara: oferecer estímulos ao desenvolvimento de atores das regiões periféricas e estimular a capacitação e a inovação a partir de pequenos negócios.

Em teoria, há rumores de que haveria um remanejamento feito pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Trabalho e em duas novas estruturas administrativas, mas faltam informações e restam incertezas sobre seu futuro. O Projeto de Lei sem diálogo entre o Executivo e as entidades do setor atestam o cenário incerto. Paira no ar a possibilidade de uma quarentena sem volta.

A periferia de São Paulo já tem negócios periféricos potentes. Já existem aceleradoras e visibilidade. O que falta é apoio, tempo, dinheiro e, claro, políticas públicas de longo prazo. No momento que vivemos, fica claro que apenas um Estado forte, presente e para todos é capaz de combater a ameaça de um vírus, a mesma lógica deveria servir para fortalecer os negócios de impacto. Ou fazemos junto com o Estado ou o impacto que queremos não virá. A lógica do mercado não é suficiente e os fundos de investimentos têm outras lógicas de resultados.

A falta de sensibilidade do Poder Público pode aprofundar o já difícil vale de morte de empreendedores sociais da periferia. É responsabilidade nossa garantir futuro para quem pode mudar o futuro. Basta vontade política. Basta enxergar o simples e abrir as portas para o que queremos.

 

Obs: O projeto 749/2019 não passou na segunda votação e está pendente. Não houve quórum e muitos vereadores da oposição obstruíram a votação. Até o dia 20/3, a Câmara não tinha data e provavelmente o projeto deve ser votado dentro de alguns meses. Por ironia ou acaso, ainda há tempo e esperança de que a quarentena do Coronavírus faça a Prefeitura pensar e voltar atrás para seguir adiante com a Adesampa.

 

*Créditos da colagem: Murilo Mendes.

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