Pergunta de 1 milhão de dólares que todos querem ter a capacidade de responder:
quais os cenários futuros que o campo de negócios de impacto trilhará?
Ainda que ninguém tenha uma bola de cristal, há muito insumo que possibilita “chutes aproximados”, à luz da trajetória recente do tema.
Organizei essas apostas em cinco frentes, longe de esgotar inúmeras outras previsões e reflexões:
Mais diversidade
A agenda vem incorporando maior diversidade (viva!) em algumas frentes, por exemplo:
– tipos de investidores (fundos, anjos etc.);
– tipos de negócios de impacto (diferentes modelos jurídicos, apetites distintos, periferias, OSCs etc.);
– tipos de intermediários e de programas de aceleração;
– mais opções de instrumentos (novas formas de empréstimo, de equity, blended etc.);
– maior protagonismo de outras regiões do Brasil, além de São Paulo (há vida “inteligente” neste campo em diversas cidades do país).
Mais caroneiros
Sem dúvida, mais e mais atores surfarão essa “onda”.
Alguns “saindo do armário” e se convertendo à agenda (pra valer), outros para ganhar dinheiro na “onda” do momento
Na medida em que o campo vai saindo da sua bolha, é natural que outros atores até então distantes da agenda se conectem com ela.
Não era o que buscávamos desde o início? Sair da tribo e mobilizar o mainstream?
Especializações e “nichos” de resistência
A diversidade projetada no tópico 1 traz consigo um movimento de especialização de players que atuam nesse tema
– aceleradoras:
de ONGs (e daqui a pouco, de certo perfil de ONGs);
de negócios de impacto periférico (e daqui a pouco para certo perfil desse tipo de negócio);
de cooperativas (?).
Além da especialização, necessária com o crescimento e complexificação do setor, tendem a emergir também posicionamentos de “resistência” ao tema.
Métricas
Paradoxalmente, temos nessa frente um dos grandes gaps do setor e ele tem experimentado consideráveis avanços por aqui.
Não à toa, as “teorias de mudança” se tornaram “carne de vaca” como instrumento de ordenação dessa lógica, ainda que sua aplicação possa sofrer distorções.
Ainda assim – e é este o paradoxo –, percebo que há um ponto de ruptura nessa frente nos próximos anos.
De um lado, ela tende a ser relativizada com o crescimento de abordagens de impacto mais rasas e mais alinhadas a uma lógica puramente econômica (visando “engordar o gado para o abate) e, de outro, tende a se tornar algo mais automatizado no dia a dia dos negócios (robôs e IA serão aliados nesse sentido).
Transformação digital
Por fim, e talvez mais relevante, será a onda da transformação digital no campo.
Resta saber qual será o estrago que essa onda trará ao setor de “impacto”, pois ele já emerge nesse contexto e, supostamente, já se encontra mais bem preparado para essa realidade. Será?
A chance de acertarmos a quina nessa previsão é improvável.
Talvez nos contentemos mesmo com um terno, oxalá uma quadra.
Há espaço para todos na divisão do prêmio de “1 milhão de dólares”.
É certo que empreender é uma jornada plena de incertezas. Todo empreendedor sabe basicamente duas coisas quando está no começo, diante do vazio entre o hoje e o amanhã. A primeira é a sua visão de futuro, aquele ponto adiante que serve como um porto de destino a ser alcançado na jornada. A segunda são as suas condições atuais, ou seja, o porto de onde está zarpando. Entre esses dois saberes impera a incerteza sobre como será a jornada e se chegará no porto de destino como sonhou.
Lançar-se ao mar, e zarpar é uma atitude para marinheiros que topam encarar essa aventura.
A boa notícia é que alguns marinheiros que já navegaram em águas desconhecidas deixaram dicas importantes para os novatos ou menos experientes. Dicas que funcionam como as estrelas, que ajudam o navegador a manter a rota com consistência quando tudo está nebuloso. Assim como aquele marinheiro que desconhece os sinais dos céus corre o risco de ficar à deriva no oceano, o empreendedor que desconhece essas dicas pode perder-se e comprometer drasticamente o seu sonho.
Usei o e13, empreendendo exponencialmente, como uma brincadeira. Um jeito de memorizar rápido e facilmente as treze dicas que podem facilitar a jornada empreendedora. São treze “Ps”. Fica ainda mais fácil. Como toda dica, precisa ser interpretada, assimilada e utilizada ao sabor de cada um, respeitando a identidade de cada um e a sabedoria acumulada ao longo da vida. Mas é fato que conhecê-las pode encurtar o caminho e evitar parte das intempéries do alto-mar.
Treze Ps. Treze passos sequenciais que deixam a jornada mais consistente e, de preferência, menos incerta.
Pessoas e/ou Planeta – saber a quem você quer servir como empreendedor de impacto.
Propósito – transformar esse desejo de servir em um propósito que nutra uma visão poderosa.
Persona – conhecer as características das personas que são parte do ecossistema de atuação.
Problema – mapear o cenário de problematização da persona–alvo e como ela resolve essa dor hoje.
Pessoas – engajar o time certo para zarpar nessa aventura. Estar bem acompanhado faz a diferença.
Produto – desenhar a solução diferenciada, que é o coração da proposta de valor.
Pitch – construir o storytelling que tenha coerência com os primeiros cinco Ps.
PMV – prototipar, com um produto mínimo viável, testando no mercado a solução desenhada.
Pivot – este “P” existe dependendo do resultado do teste. Se for necessário, volte para o P6 e ajuste.
Produtividade – se passou no teste de mercado com o PMV, é hora de ganhar eficiência operacional.
Potência – após organizar e calibrar todos os aspectos do barco, é hora de acelerar e escalar.
ImPacto – ao escalar, seu impacto será cada vez mais significativo e é interessante aprender a medi-lo.
Profit – fruto do ótimo trabalho, o lucro será uma consequência natural, nutrindo novas aventuras.
Antes de zarpar, é importante destacar alguns pontos extras.
Lembre-se que nem sempre o céu está aberto, sem nuvens para atrapalhar a visão. Por isso, ter instrumentos que apoiem esses momentos nebulosos, facilitando a tomada de decisão, é essencial. Pensar em quais são os indicadores de cada um desses “Ps” e como mapeá-los é um segundo passo.
Tampouco é verdade que você estará sozinho em alto-mar. Outros marinheiros podem ter a mesma visão de futuro que você e, nesse caso, haverá competição no caminho. O que fará seu barco ser mais veloz e a sua jornada mais plena?
Como já tratei em outro artigo nesta coluna (leia aqui outros artigo do autor), a velocidade de aprendizado é essencial, pois o combustível (caixa) está sendo consumido. Se forem necessárias muitas idas e vindas entre o P6, P7, P8 e P9, você pode ficar à deriva.
Por fim, garantir que exista integridade, coerência e consistência entre todos os Ps é o que tornará a sua jornada singular.
A Enimpacto obteve importantes conquistas, tendo, inclusive, influenciado a criação de estratégias similares no âmbito dos estados.
A estratégia foi dividida em quatro eixos principais: 1) ampliação da oferta de capital; 2) aumento do número de negócios de impacto; 3) fortalecimento das organizações intermediárias; e 4) promoção de um normativo favorável aos investimentos e negócios de impacto.
Falarei um pouco dos avanços mais relevantes, mas os detalhes das entregas de cada eixo estratégico da Enimpacto em 2018 podem ser encontrados no Relatório Anual de Atividades.
Uma entrega importante foram os materiais produzidos pelos grupos de trabalho formados para implementar as ações priorizadas em 2018 com a finalidade de gerar conhecimento e ampliar o interesse pelo setor, como exemplo o e-bookNegócios de impacto – como incubadoras e aceleradoras podem contribuir para a criação e o fortalecimento de negócios que oferecem soluções para problemas sociais e ambientais.
De grande relevância foi a articulação entre BNDES, Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil e Sebrae, para estruturar um fundo contábil, no valor aproximado de R$ 30 milhões, para ser repassado a entidades sem fins lucrativos, que irão identificar, selecionar e financiar, por meio de dívidas simples, modelos de negócios de impacto. O fundo ainda não foi criado, mas as negociações estão avançadas.
Houve também o aperfeiçoado do Programa InovAtiva de Impacto, criado pelo Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (atualmente integrado ao Ministério da Economia) em parceria com o Sebrae e a Fundação Centros de Referência em Tecnologias Inovadoras (Certi), que tem o objetivo de oferecer capacitação, mentoria e conexão para negócios inovadores no Brasil, de modo que passou a buscar negócios de impacto e oferecer mentoria direcionada a eles, e a criação o Programa de Incubação e Aceleração de Impacto, em parceria entre a Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec), Instituto de Cidadania Empresarial (ICE) e Sebrae, de forma a mobilizar incubadoras e aceleradoras para atrair e acompanhar negócios de impacto.
Do ponto de vista jurídico, tivemos grandes avanços.
O primeiro deles foi a articulação de um anteprojeto de lei, que deve ser apresentado ao Congresso por iniciativa do Poder Executivo, o qual visa garantir maior segurança jurídica aos negócios de impacto, por meio da criação de uma qualificação jurídica para as “empresas de benefício”, que são as que atendem aos seguintes elementos: (i) objeto social vinculado ao propósito de gerar impacto socioambiental positivo; (ii) estrutura de governança com mecanismos voltados à tutela de interesses de todos os stakeholders; e (iii) obrigação de mensuração e publicação periódica de relatório de impacto.
O segundo foi a contribuição com o Projeto de Lei n. 338, que dispõe sobre o contrato de impacto social, uma modalidade nova de contratação com a administração pública, na qual o pagamento pelos serviços prestados fica condicionado ao alcance comprovado de um benefício socioambiental e a preparação de uma cartilha sobre os contratos de impacto social.
Em terceiro, foi elaborado um parecer a respeito da possibilidade jurídica de uma entidade sem fins lucrativos deter participação societária em negócios de impacto, sem que isso implique a perda de benefícios fiscais, com a finalidade de obter uma revisão da Solução de Consulta Cosit n. 524/2017, que adotou entendimento contrário.
Por fim, a Enimpacto serviu de inspiração para a criação de políticas estaduais, como a Lei n. 10.483 do Rio Grande do Norte, que institui a Política Estadual de Investimentos e Negócios de Impacto Social. Outros estados, como Rio de Janeiro e Ceará, estão trabalhando em iniciativas similares.
Para 2019 será dada continuidade às iniciativas que começaram em 2018 e definidas outras ações prioritárias.
A plataforma Aupa – jornalismo de impacto–, lança entre os dias 11 e 14 de julho seu novo selo sobre o setor de impacto dentro da Casa da Porta Amarela, no principal evento literário do país, a Flip em Paraty. Dentre as atividades, está prevista a realização de um debate sobre o tema, além do lançamento da revista Aupa e do primeiro título do selo Aupa | Books, “Impacto na Encruzilhada” do autor Fábio Deboni, colunista do portal.
O autor – e gerente executivo do instituto Sabin–, estará presente no dia 11/7 às 18h dentro das atividades da Casa da Porta Amarela participando do debate e lançando o seu 3º livro, uma coletânea de artigos e reflexões sobre o setor organizado em três eixos temáticos: inovação social, negócios de impacto e investimento social privado.
A Casa fica na rua da Cadeia, próximo ao centro histórico e o painel “Livros de Impacto”, ainda contará com as presenças de Edson Leitte da Gastronomia Periférica, Márcio Black, da Fundação Tite Setubal, Kátia Rocha da Rede Educare e Leonardo Letelier da SITAWI.
Para mais informações:
Acompanhe a programação completa da Casa da Porta Amarela
A venda do livro pode ser solicitada direto pelo site da editora mymag
Você sabe o que é investimento de impacto? Em 2008, quando a SITAWI foi fundada, quase ninguém sabia. Mas, hoje, o termo é mais buscado no Google do que “investimento responsável”, um conceito que nasceu há mais de 40 anos e movimenta cem vezes mais capital do que “investimento de impacto”.
Os investimentos de impacto, segundo o GIIN*, são comprometidos com intencionalidade de gerar impacto social e/ou ambiental positivo e vão gerar um retorno financeiro. A dimensão do retorno pode significar desde retorno do principal até rentabilidade de mercado. A “equação fecha” quando, para além do risco e retorno, os investidores adicionam uma terceira dimensão, o impacto.
Essa nova abordagem não condena o mundo da filantropia, na verdade, o complementa
Enquanto alguns tipos de intervenções ou causas, como advocacy para incidência em políticas públicas, vão necessitar de capital filantrópico (e tudo bem), outras, como energias renováveis, podem dar retornos de mercado. A ideia aqui é entender que diferentes problemas exigem diferentes soluções e que existem diferentes tipos de capital para atender a cada solução ou cada fase de desenvolvimento dessa solução. Ao representar essencialmente um capital retornável, sua aplicação pode ser feita por meio de diferentes instrumentos.
Os empréstimos socioambientais, instrumento no qual a SITAWI é pioneira no Brasil, são aplicáveis a organizações sociais, empresas tradicionais e, em alguns casos, até mesmo a empresas baseadas em tecnologia com alto potencial de crescimento (startups). Sua característica principal é o pagamento de parcelas em períodos predefinidos.
Já o investimento em equity visa atender, principalmente, as startups. Isso porque remunera o investidor num momento indefinido do futuro, tipicamente quando a empresa recebe nova rodada de investimento ou quando a empresa é vendida para outra organização. Essa menor liquidez e incerteza, ou risco, é recompensada por um rendimento mais alto (ao menos essa é a expectativa dos investidores quando fecham um negócio).
Atualmente, os investidores são, em sua maioria, pessoas de alto patrimônio ou grandes empresas e fundações, até porque os instrumentos para investir ainda não são acessíveis aos investidores tradicionais.
Dessa forma, a tecnologia tem um papel central na democratização do acesso aos investimentos de impacto. No Brasil, a Kria (antiga Broota) teve um papel pioneiro ao promover o conceito do equity crowdfunding. Em 2017, a SITAWI realizou o primeiro piloto de empréstimo coletivo para negócios de impacto nessa mesma plataforma. No ano passado, fomos parceiros e investidores âncora de 1ª rodada da Rede Dinheiro e Consciência, com apoio do Edital Impulse, realização da Aliança pelos Investimentos e Negócios de Impacto.
Com base nesse aprendizado, em parceria estratégica com o Instituto Sabin, lançamos uma plataforma de empréstimo coletivo de impacto, que possibilitará que negócios de impacto no seu sentido mais amplo (cooperativas, associações, negócios tradicionais e startups) de todo o Brasil captem investimentos diretamente de pessoas físicas que querem alinhar seus investimentos com aquilo em que acreditam. Nela, há investimentos disponíveis a partir de R$1 mil, acessíveis para investidores do “varejo”.
Esta inovação representa uma evolução de nossa atuação. De um lado, aumentamos a visibilidade e o volume de capital disponíveis para negócios que estão trabalhando para transformar a realidade em que vivemos – em áreas como saúde, educação, agricultura familiar, meio ambiente –e do outro, reduzimos barreiras para que mais investidores possam alinhar seus investimentos ao propósito. Estamos certos de que ainda temos um longo caminho a percorrer para tornar o modelo sustentável e ainda mais acessível, mas os primeiros passos foram dados.
Um sinal de que os tempos estavam e ainda estão mudando foi quando as propagandas na TV pararam de ser só de produtos e começaram a divulgar também as máquinas de pagamento de cartão. De todos os tamanhos, tipos e cores, elas oferecem para o então consumidor a possibilidade de produzir e comercializar e se tornar também uma pessoa de negócios.
A história dos bairros periféricos de São Paulo esteve sempre associada com a necessidade de mão de obra operária para a economia da cidade. Inicialmente, a expansão aconteceu devido ao forte processo de industrialização, trazendo muitos imigrantes para o país, em detrimento dos negros escravizados recentemente alforriados, que foram e continuam marginalizados desde então. Dessa forma, essa população precisou criar alternativas para suas subsistências e sobrevivências.
Em um segundo momento, principalmente a partir da década de 50 do século 20 , a ocupação aconteceu com a migração de retirantes nordestinos fugindo da miséria dos sertões para trabalhar nas fábricas paulistanas em um momento de expansão e crescimento da cidade. A época era promissora e conseguir um trabalho, com registro em carteira, não era tão difícil quanto hoje. Essa é a história da geração de muitos de nossos avós, pais, mães, tios, tias.
Com o avanço das tecnologias, os tipos de ocupações profissionais nas cidades também foram se adaptando e os postos de trabalho se voltaram mais para o setor de serviços. As formas de trabalho foram se modificando e, consequentemente, os tipos de contratações. A população se adaptou como era possível. Toda essa viagem histórica até chegar às maquininhas de débito e crédito para demonstrar que estamos diante de uma nova fase histórica de transformações econômicas que impactam o modo de vida das pessoas, dentro e fora da periferia.
Hoje, é muito frequente considerar o empreendedorismo das periferias como inovador e surpreendente, mas é preciso não esquecer que, muitas vezes, ele só acontece porque é a única alternativa que o povo preto e pobre tem para sua sobrevivência. Uma pesquisa recente da Fundação Perseu Abramo evidenciou a característica do empreendedorismo na periferia como necessidade devido ao desemprego. Muitas pessoas da época em que havia trabalhos estáveis nas indústrias tiveram se adaptar a fases com altos índices de desemprego, e as novas gerações já se viram diante de um contexto em que a mão de obra preta, pobre e periférica, ainda que qualificada, está cada dia mais precarizada.
É importante valorizar o nosso empreendedorismo periférico, porém, sem romantizar as condições desiguais que ainda vivenciamos. Esperamos que a criatividade e a inovação nos negócios aconteçam em situações menos dificultosa, como as que ainda enfrentamos diariamente e que, por exemplo, o acesso às maquininhas e meios e modo de produção não sejam só novas estratégias de “exploração”.
DE LONDRESNos últimos 20 anos, a Inglaterra tem assumido a liderança global na construção de um ecossistema robusto de investimentos de impacto. Hoje, o país registra mais de 100.000 negócios de impacto, que injetam £60 bilhões na economia e empregam mais de 2 milhões de pessoas, o equivalente a 5% da mão de obra britânica.[1] Em termos de capital, há pelo menos £150 bilhões comprometidos com impacto no país[2]. A ambição é atrair mais £3 trilhões para impacto na próxima década, dos quais £300 bilhões deverão ser direcionados para a resolução de desafios sociais e ambientais considerados críticos[3].
Já há sinais de que o tema tem ganhado destaque na agenda de governos, investidores e empreendedores. Não é de se admirar que dois terços dos governos locais reconheçam o valor das regulações que adicionaram critérios socioambientais às compras públicas. Além disso, pesquisas demonstram que 50 a 75% da população tem a expectativa de que seus investimentos gerem retorno financeiro e também contribuam positivamente para a sociedade. Soma-se a isso, o fato de que 50% dos empreendedores millenials já afirmam seu desejo em atrelar seu resultado financeiro à geração de impacto social e ambiental. [4]
No entanto, a jornada percorrida pelos britânicos, desde a adoção do tema por um pequeno grupo de pioneiros até a entrada de atores como grandes bancos, corporações e fundos de investimentos, não foi obra do acaso. Para conhecer de perto esta realidade e colher ideias inspiradoras para o Brasil, um grupo de organizações envolvidas na implementação da Estratégia Nacional de Investimentos e Negócios de Impacto (Enimpacto), visitou a Inglaterra entre os dias 13 e 18 de maio de 2019.
Criada em 2017, a partir de um decreto presidencial, a Enimpacto, tem sido conduzida por dezesseis órgãos governamentais e 41 organizações da sociedade civil sob liderança da Secretaria de Desenvolvimento da Indústria, Comércio, Serviços e Inovação, vinculada ao Ministério da Economia. A estratégia tem como objetivo aumentar o número de negócios de impacto, ampliar o volume de capital, fortalecer as organizações intermediárias e promover um ambiente regulatório favorável ao setor (leia aqui as últimas novidades sobre a Enimpacto em Brasília)
Da esquerda para direita: (abaixo) Lucas Maciel (Secretaria de Industria, Comercio, Serviços e Inovação/Min. da Economia) Rachel Karam (Sistema B), (acima) Sheila Pires (Anprotec), Beto Scretas (Aliança/ICE), Caio Megale (Secretário de Indústria, Comércio, Serviços e Inovação/Min. da Economia), Daniela Arantes (BNDES) e Andrea Monaco (Euro Social).
A missão brasileira no Reino Unido, foi organizada pela Secretaria de Desenvolvimento da Indústria, Comércio, Serviços e Inovação com o apoio da Euro Social, programa de cooperação entre a União Europeia e a América Latina para implementação de políticas públicas. Contou ainda com a coordenação da MAZE, organização que lidera o grupo de trabalho português para investimento social. O grupo incluiu representantes do Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES), Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (ANPROTEC), Aliança pelos Investimentos e Negócios de Impacto/Instituto de Cidadania Empresarial (ICE), Embaixada Brasileira no Reino Unido, Sistema B e Vox Capital.
O ecossistema britânico de Investimentos e Negócios de Impacto
O investimento de capital financeiro e humano para construção de um ecossistema de investimentos e negócios de impacto foi um dos destaques observados nas visitas feitas pelo grupo brasileiro. O governo britânico, para isso, assumiu a liderança em destravar recursos para o setor. Um dos exemplos, foi a instituição da lei de contas dormentes (Dormant Bank and Building Society Accounts Act) em 2008, que permitiu que recursos e rendimentos de contas não movimentadas a mais de 15 anos, pudessem ser direcionados para finalidade social. Este recurso foi investido na construção de um banco de atacado, o Big Society Capital (BSC), que tem como função atrair mais capital para coinvestir com impacto, entre os investidores consta fundos de fundos, fundo de pensão e bancos tradicionais. Tudo indica que a proposta está dando certo. Atualmente, dos £1,7 bilhões investidos pelo BSC, £524 milhões são oriundos de capital próprio enquanto £1,2 bilhão é resultado de coinvestimento[5]. Inspirados pela ideia, o Japão e outros países do mundo tem evoluído na mesma direção.
Atualmente, dos £1,7 bilhões investidos pelo BSC, £524 milhões são oriundos de capital próprio enquanto £1,2 bilhão é resultado de coinvestimento
Merece destaque, ainda, o fato de que a estratégia do governo britânico no fomento ao setor de impacto parece tem resistido às mudanças no cenário político, resguardadas as diferenças político-partidárias. Em 2000, foi o trabalhista Gordon Brown, como chanceler, que lançou a Força Tarefa Britânica de Finanças Sociais considerada um marco para criação do setor de impacto na Inglaterra. Foi em seu governo, iniciado após a renúncia do então primeiro ministro, Tony Blair, que organizações como BSC foram criadas. Já no governo do conservador James Cameron, em 2012, foi instituído a lei de valor social nos serviços públicos (Public Service – Social Value Act 2012) que estabeleceu parâmetros socioambientais para as compras públicas. Hoje, mais de 40% dos governos locais acreditam que a lei tem contribuído para reduzir as desigualdades sociais[6].
O ex primeiro-ministro inglês Gordon Brown no Fórum Economico Mundial em 2009, enquanto era chanceler. Brown foi quem alavancou políticas de negócios de impacto na Inglaterra (crédito: Wmorld Economic Forum)
Portanto, é inegável que o fomento ao setor conduzido por governos de diferentes espectros políticos tem sido fundamental para sua escalada. Seja por acreditar que os recursos públicos são insuficientes para resolver problemas sociais num cenário de austeridade econômica, seja pela pressão exercida pelas organizações da sociedade civil e negócios de impacto, ou ainda, pela força que os investidores de impacto tem assumido nos últimos anos, que governos tem apostado na estratégia de tornar a Inglaterra um mercado de impacto promissor. Mais do que isso, tem lançado as bases para uma mudança no paradigma de investimentos, para que além de risco e retorno, seja adicionado o impacto social e ambiental.
O desenvolvimento de um mercado para os títulos de impacto social (Social Impact Bonds) também é outro ponto que diferencia o ecossistema inglês. Os títulos de impacto social são mecanismos de contratação pública com pagamentos atrelados ao atingimento de metas sociais. Eles estimulam a inovação nos serviços públicos e parcerias entre investidores privados, fundações e governo na resolução de problemas sociais. O Reino Unido foi pioneiro em lançar o primeiro título de impacto social para reduzir a reincidência de presos no sistema prisional, em 2010. Apoiado por 17 fundações, o projeto teve um investimento de £5 milhões[7]. Atualmente, existem 68 títulos de impacto social em operação no Reino Unido, em áreas como saúde mental, geração de empregos para jovens, iniciativas com pessoas em situação de rua, entre outros. Entre 2010 e 2019 mais de £337 milhões foram alocados em títulos de impacto social no país.[8]
Dois outros pontos têm sido fundamental para o fortalecimento dos investimentos de Impacto no Reino Unido: o fortalecimento de organizações intermediárias e as regulações e incentivos fiscais para o setor. Entre os intermediários, constam aceleradoras e incubadoras, bem como, consultorias especializadas em investimento que fornecem uma ampla rede de conexões adequadas aos diferentes estágios do ciclo de vida do negócio. Do ponto de vista regulatório, o país tem, desde 2005, um formato legal para os negócios de impacto, tem desenvolvido incentivos fiscais para investidores individuais interessados em investir em impacto, facilitado o investimento de fundos de pensão e aperfeiçoado regulações para compras públicas de produtos e serviços.
Apesar dos esforços e das conquistas nos últimos anos, é unanime a afirmação que o setor ainda tem muito a crescer, se comparado com outros mercados como os de venture capital e private equity, focados em operações de compra e venda de participação em empresas tradicionais. Além disso, contrastando com os grandes volumes investidos em títulos de impacto social, os negócios de impacto em estágios iniciais reivindicam maior participação na alocação dos recursos. Há espaço ainda para aperfeiçoamento das regulações e a necessidade crescente de criar consensos sobre como medir e reportar impacto.
Reflexões para o Brasil
Para o grupo brasileiro empenhado na implementação da Enimpacto ficam grandes reflexões sobre como atrair volumes maiores de investimentos privados e filantrópicos de investidores com diferentes motivações e disposição para risco, quando não se tem um banco de atacado e o mesmo volume de recursos a ser destravado.
Em relação ao fortalecimento de intermediários, destaca-se uma miríade de oportunidades de como capacitar e dar aporte financeiro nos diferentes estágios do negócio, bem como, a importância de fomentar serviços como consultorias especializadas, think tanks, redes de suporte e advocacy para o setor.
É no campo de regulações e incentivos para investidores individuais, compras públicas, regulação de fundos de pensão e produtos financeiros que há um terreno fértil em que o Brasil pode se beneficiar do intercâmbio com o Reino Unido na construção e aperfeiçoamento de projetos de lei que atendam às necessidades próprias do contexto local.
Por fim, fica a expectativa que o fomento aos investimentos e negócios de impacto entre cada vez mais na agenda governamental como um projeto de país. Como tal, que possa valorizar o potencial de nossos empreendedores sociais, as riquezas da nossa socio-biodiversidade e o dinamismo do mercado, criando, assim, as pontes entre capital e propósito em beneficio das atuais e futuras gerações.
Não vamos nos iludir. Nem tudo o que se rotula como “negócio de impacto” carrega consigo o mesmo nível de comprometimento com essas duas variáveis – do “negócio” e do “impacto”.
Quanto mais empreendedores de negócios de impacto a gente conhece, mais vai ficando claro que, embora se vinculem de forma quase identitária a esse movimento, há diferentes centros de gravidade nessas iniciativas.
Ora mais no “business” – acesso a mercado, modelo de negócio e de receita etc. –, ora mais no “impacto” – base da pirâmide, métricas etc. –, a necessidade óbvia de cada “negócio de impacto” equilibrar essas duas dimensões não necessariamente resultará num mesmo peso delas ao longo da sua história.
Para ONGs que estão modelando soluções de mercado, a tendência é que pesem mais a mão na dose de “negócio”, pensando maneiras de incorporar a dimensão “econômica” e “de mercado” no viés de “impacto” que já tanto entregam. Mas, mesmo nessa última dimensão, sem dúvida há espaço para refinar aspectos de métricas/mensuração.
Para startups que estejam “saindo do armário”, (abordado em meu artigo anterior) será necessária uma boa energia em formas de tornar “impacto” parte do seu “core”, em vez de encará-lo como mera externalidade positiva.
Para os negócios de impacto que já nasceram com essa “veia”, ao longo das distintas fases de sua vida haverá diferentes ênfases em uma ou outra dimensão, com a sempre desejável boa calibragem entre ambas.
O papo está muito bom, mas como isso se dá no mundo real?
Vale resgatar três dados preocupantes trazidos pela segunda edição do Mapa da Pipe Social:
43% dos negócios de impacto declaram não possuir faturamento (“Onde está a dimensão de ‘negócio’?”);
42% dos negócios ainda não definiram indicadores de impacto e 38% definiram indicadores, mas ainda não medem (“Qual o extrato da dimensão de ‘impacto’?”).
Como podemos ver, no mundo real há um considerável distanciamento entre a intencionalidade de se manejar as duas dimensões – de negócio e de impacto – e o que ocorre no “chão da fábrica” do setor.
Sem dúvida, mais uma boa discussão para o campo.
Para os que buscam receita de bolo ou algo do tipo “seus problemas acabaram”, infelizmente a notícia não é boa. Transpiração faz parte do jogo.
“Revogaço”. Foi esse um dos principais pontos durante o evento do centésimo dia de governo de Jair Bolsonaro na presidência. Diante de quase todos os ministros que compõe seu governo, o presidente assinou dois decretos que teriam por objetivo “desburocratizar atos normativos da administração pública e reduzir gastos”. Entre eles, estava o ato normativo 9.759/19, que extingue, a partir de 28 de junho, os conselhos e colegiados subordinados à administração pública federal direta, autárquica e fundacional e com participação da sociedade civil.
Reunião do grupo gestor da Enimpacto realizada no último dia 19 de março: Casa Civil está analisando quais Conselhos e Comitês irá recriar
De acordo com suas disposições, não correm risco de extinção os colegiados previstos no regimento interno ou no estatuto de instituição federal de ensino, nem aqueles criados ou alterados por ato publicado a partir de 1 de janeiro de 2019, apenas aqueles instituídos via decreto, ato normativo inferior ao decreto e ato de outro colegiado. Incluso nessa categoria, encontra-se o comitê da Estratégia Nacional de Investimentos e Negócios de Impacto (Enimpacto), formado por 26 membros: 7 ministérios, 3 bancos públicos, 6 organizações públicas e 10 organizações da sociedade civil.
Jair Bolsonaro em cerimônia dos 100 dias de governo: decreto extinguiu conselhos e colegiados (Antonio Cruz/ AB)
Na prática, o governo quis revogar todos os conselhos e colegiados e depois sinalizou que está disposto a análise individual. No caso do comitê da Enimpacto, esse processo avançou e um documento de pedido de avaliação para sua permanência já foi protocolado na Secretaria de Desenvolvimento da Indústria, Comércio, Serviços e Inovação do Ministério da Economia e aguarda análise. “Já enviamos um parecer de mérito com todas as justificativas e todo o trabalho feito sobre a importância do comitê da Enimpacto. Foi preparado e já foi assinado pela equipe do secretário Caio Megale”, afirma Beto Scretas, consultor do ICE – Instituto de Cidadania Empresarial – e membro da Aliança pelos Investimentos e Negócios de impacto, grupo que compõe o comitê da Enimpacto.
A ENIMPACTO
Criado via Decreto nº 9.244 de 17 de dezembro de 2017, a Enimpacto tem como objetivo formar uma estratégia de Estado, não de governo, colocando esse tema na agenda pública, criando um compromisso institucional do país em habilitar um ambiente favorável para investimentos e negócios de impacto. Entre eles, ampliar oferta e direcionar fluxo de capital e criação de todo um ecossistema incluindo intermediários – como parques tecnológicos, incubadoras, aceleradoras.
“Esses são benefícios de mais longo prazo”, explica Marcel Fukayama, fundador e líder do Sistema B no Brasil. “De imediato, o principal benefício [em contar com o comitê] é a institucionalidade dessa agenda.”.
Em termos práticos e, no caso do comitê da Enimpacto não ser reestabelecido e o efeito do “revogaço” se manter, o que acontecerá é a perda de tal institucionalidade, engajamento dos ministérios e organizações da administração pública – como BNDES, Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, entre outros – e a desconexão da agenda da sociedade civil, que tem orientado e apoiado o governo nesse trabalho.
Demonstrando a forte capacidade de articulação desse fórum, Fukayama enumera os sucessos do comitê em seu curtíssimo tempo de vida, como a elaboração de um parecer para o Projeto de Lei (PL 338/2018) do Senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), para criar e disciplinar os Contratos de Impacto; um parecer para a Receita Federal que busca reverter a resolução da sua coordenadoria geral de tributos que incidem sobre fundações e institutos que realizam investimento de impacto em participação societária; e a mobilização que culminou com a sanção presidencial do próprio Bolsonaro da lei, ainda que com vetos, regula a criação de fundos patrimoniais com o objetivo de arrecadar, gerir e destinar doações de pessoas físicas e jurídicas privadas para programas, projetos e demais finalidades de interesse público. Fukayama completa:
“existe um trabalho que a Enimpacto contribuiu diretamente e que o comitê, esse fórum bem qualificado, foi determinante. No cenário do ‘Revogaço’, isso deixa de existir, mas o decreto que criou a Enimpacto segue firme e forte”
ECONOMIA E IDEOLOGIA
Alguns dias depois, em sua conta no Twitter, o presidente publicou: “Gigantesca economia, desburocratização e redução do poder de entidades aparelhadas politicamente usando nomes bonitos para impor suas vontades, ignorando a lei e atrapalhando propositalmente o desenvolvimento do Brasil, não se importando com as reais necessidades da população.”.
Era uma resposta a outro comentário em que se afirmava que o decreto acabaria com os “sovietes do PT”, uma vez que na esteira do “Revogaço”, anulava-se também o Decreto 8.234/2014, enunciado no segundo mandato da presidente Dilma Rousseff (PT), que instituiu a Política Nacional de Participação Social (PNPS) e o Sistema Nacional de Participação Social (SNPS), ambos com o objetivo de aumentar a participação social junto a administração pública. À época, Jair Bolsonaro, então deputado federal, foi um dos parlamentares que classificou o decreto como “bolivarianista”.
O deputado federal Ivan Valente do PSOL vê o decreto presidencial com preocupação e protocolou uma PDL – Projeto de Decreto Legislativo – requerendo a sustação do decreto presidencial.
“A manutenção do Decreto 9.759/19 causaria um prejuízo imenso à participação da sociedade na definição de políticas públicas, na qualificação da sociedade através da participação popular e na construção de um Estado minimamente democrático”
Frases de efeito e disputas ideológicas a parte, o que se tem de concreto é que o governo não consegue precisar qual é o tamanho da “gigantesca economia” anunciada pelo presidente. Procurada pela reportagem, a assessoria da Casa Civil também não soube confirmar, ou ao menos estimar, qual seria o valor dessa economia, justificando que ainda é cedo para dizer, pois de acordo com o artigo 9 do decreto, o governo tem até 1 de agosto de 2019 para anunciar quais colegiados, de fato, estarão extintos – incluindo o parecer técnico entregue que pede a volta da Enimpacto.
Por sua vez, Fukayama faz uma análise qualitativa sobre o custo-benefício do comitê da Enimpacto, em específico. “O custo de administração desse colegiado, pois não posso falar sobre os outros, é muito baixo para o governo e a administração pública, porque não há absolutamente nenhum custo envolvido na gestão, manutenção, acompanhamento, remuneração de membros, ou até mesmo custo logístico das reuniões. Todas as organizações da sociedade civil participam pro bono.”, afirma. “Basicamente, há o custo-hora dos servidores públicos envolvidos no colegiado, [que] comparado com o impacto positivo que esse colegiado e a própria Estratégia Nacional pode trazer, é muito maior, proporcionalmente falando, do que o custo estimado das horas dos poucos servidores do Ministério da Economia envolvidos na gestão do comitê.”.
Em texto publicado pelo JornalEstado de São Paulo, Flávia Regina de Souza Oliveira, Fernanda Basaglia Teodoro e Adriana Moura Mattos da Silva, respectivamente, sócia e advogadas do escritório Mattos Filho, escreveram que “ainda que a extinção das instâncias participativas seja defendida sob os argumentos de economia de gastos e desburocratização do Estado, seria possível argumentar que tais justificativas têm como pressuposto que a participação da sociedade civil prejudica o funcionamento da administração pública, ao invés de auxiliá-la – ideia esta contrária aos princípios e valores previstos no texto constitucional. Em virtude dessa aparente ilegalidade por violação ao princípio da motivação e aparente inconstitucionalidade por ferir o princípio geral da participação social na administração pública, as reações ao Decreto 9.759/19 ocorreram rapidamente tanto no âmbito legislativo quanto no judicial.”.
E assim tem acontecido. No Congresso Nacional, a reação também veio a decreto. Endossando o pedido da PDL assinada por Ivan Valente, em cinco dias, nada menos do que dez Propostas de Decreto Legislativo, que visam sustar o decreto presidencial, tal qual é sua prerrogativa. “Em relação à tramitação, o PDL é remetido para uma ou mais Comissões para discussão na Casa Iniciadora, e em seguida para o Plenário, devendo ser aprovado por maioria simples (50% + 1 dos presentes). A proposição segue o mesmo processo na Casa Revisora. O PDL não é submetido à sanção presidencial, sendo sua promulgação feita pelo presidente do Congresso Nacional, isto é, o Presidente do Senado Federal (SF)”, explica um relatório produzido pela consultoria Pulso Público.
STF irá analisar ação sobre sobre o decreto presidencial. Pressão também vem pelo Judiciário (foto: José Cruz/AB)
No Supremo Tribunal Federal (STF), o assunto será discutido e julgado em plenário no dia 12 de junho, graças a uma ação que o PT entrou, argumentando que o decreto de Bolsonaro ofende os princípios republicano, democrático e da participação popular, e afirmando ser necessário “considerar, de forma individualizada, a função destes colegiados e os impactos formais e materiais que a extinção, nos termos do Decreto ora impugnado, pode gerar.”.
PARECER FINAL EM 28 de JUNHO
Entre o vai e vem de decretos e a reação da Sociedade Civil, do Congresso e do STF, o processo para recriação da Enimpacto segue seu rito. Com a instabilidade que ronda as decisões de Brasília, a incerteza é grande, mas a expectativa dentro do próprio Ministério é a melhor possível: “A gente expôs os argumentos e estamos confiantes que o parecer será positivo”, afirma Lucas Ramalho Maciel, coordenador dentro do Ministério que trata da Enimpacto, em Brasília. Lucas e sua equipe prepararam três documentos: o parecer de mérito, uma exposição de motivos para o Presidente da República e uma minuta de decreto recriando o comitê. Os documentos estão na Casa Civil em análise.
Junto com o pedido para recriação da Enimpacto, outros pedidos estão aguardando análise. O mesmo Decreto 9.759/19 extinguiu e criou um rito para a recriação dos comitês e colegiados. A estimativa do governo é que passava de centenas e comitês e houve pedido para que alguns critérios fossem observados como uma quantidade menor de membros, além de otimização de recursos. “A Enimpacto não paga deslocamento nenhum e não há um desembolso por parte da administração pública. O custo de manutenção do comitê é muito baixo em relação a tudo que ele vem produzindo”, salienta Lucas. Questionado sobre os argumentos apresentados, Lucas finaliza, “Os argumentos estão muito fortes e muito contundentes. Estão muito bem escritas e elaboradas as peças. O corpo técnico fez um trabalho bem exaustivo e levantou uma pesquisa de custos para mostrar esses dados. Eu acho que vai chegar à Casa Civil e espero que o bom senso prevaleça e eles recriem”. Esperemos.
“O mundo é diferente da ponte pra cá”. Em 2002, o verso dos Racionais Mc’s evidenciava uma das faces cruéis de São Paulo: o isolamento das periferias. De lá para cá, a realidade não mudou muito. É o que mostrou o Mapa da Desigualdade 2018, organizado pela Rede Nossa São Paulo e publicado em novembro do ano passado. O estudo, que é feito há seis anos, mede 53 indicadores para avaliar quais são as diferenças cantadas por Mano Brown.
Vista aérea do Parque Guarani, em Itaquera, Zona Leste de São Paulo
Os dados comprovam o que a arte já ilustrava. A primeira divisão clara pode ser vista na cor da pele. Dos 96 distritos, 26 tem mais de 46% da população residente negra: todos se localizam no extremo leste, norte ou sul da cidade. É justamente lá onde o acesso à saúde, emprego, diversão e arte são extremamente menores do que nos bairros centrais.
Morar onde o Mapa da Exclusão e Inclusão Social de São Paulo chama de “território de exclusão”, realizado pela PUC São Paulo em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Especiais (INPE), afeta, claro a expectativa de vida. Um dado importante relatado pelo Mapa foi relativo à idade média da expectativa de vida dos indivíduos que moram tanto na região do Jardim Paulista quanto em Cidade Tiradentes. Se compararmos os dados, respectivamente, são 81 anos, na região nobre da cidade e 58 anos, em média, na zona leste.
A situação não é mais alentadora quando o assunto é emprego. O mapa organizado pela Nossa São Paulo mostrou que, enquanto na Barra Funda existem 59 postos de trabalho formal para cada 10 moradores, a proporção em Cidade Tiradentes é de 2 postos de trabalho formal a cada 100 habitantes. Ou seja, são 246 vezes de chance a menos de conseguir um emprego perto de casa.
Ajudando a pintar a cena da desigualdade, foi publicada em maio de 2019 a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), elaborada pelo IBGE. No Sudeste, 13,2 % da força de trabalho está desocupada. O índice nacional que, hoje, é 12%, atingiu seu menor nível no final de 2013, 6,2% e terminou 2018 em uma crescente, atingindo 11,6%. Uma das saídas óbvias para quem quer trabalhar, mas não consegue emprego é começar algo próprio. O empreendedorismo, que entrou para o hype nos últimos 10 anos, sempre foi uma realidade na quebrada, só que com menos glamour e muito empirismo.
Frederico Celentano é diretor-presidente da Agência São Paulo de Desenvolvimento (Ade Sampa), órgão vinculado à Secretaria Municipal do Trabalho e Empreendedorismo diz ter notado uma maior procura por ajuda pelos microempreendedores: “Existe esta procura maior de quem é empreendedor por necessidade do que por oportunidade. Mas muitos desses empreendedores desenvolvem um negócio e acabam descobrindo uma vocação ali.” Na região Sudeste, 23,5% das pessoas ocupadas trabalham por conta própria.
Um bom exemplo dessa verdade é a Ana Paula Nascimento que sentiu essa realidade na pele. Moradora da Cidade Tiradentes, trabalhou no mercado formal até ficar desempregada e teve a iniciativa de criar A Preta Produções, em 2017, que hoje realiza a Feira de Exposição EmpreendTiradentes. Ana faz outro recorte que os estudos também comprovam a da participação feminina diante desse quadro.
“Eu vejo que boa parte do ecossistema econômico é gerida por mulheres. Essas mulheres fazem o que elas conseguem e geram renda! E o que ninguém fala é que elas movimentam a economia de todo bairro.”.
Dados publicados, em fevereiro deste ano, pelo Seade mostram que 18,3% das mulheres da região metropolitana de São Paulo estão desempregadas. E mostra, ainda, como cresceu a proporção de mulheres chefes de família nos últimos 10 anos, de 27,5% para 33,1%.
O ponto de vista de Ana Paula com relação à potência econômica gerada pelas periferias corresponde, mais uma vez, a realidade vivida por este grupo. Em escala nacional, chega a R$ 68,6 bilhões por ano os recursos movimentados pelos habitantes das comunidades. São cerca de 12,3 milhões de habitantes que vivem em comunidades que ajudam a girar a economia do país. O levantamento, realizado em fevereiro, foi feito pelo Data Favela, com apoio do Data Popular e da Central Única das Favelas (Cufa).
Um idioma, duas linguagens
Em dois mundos distantes e diferentes, era de se esperar que a comunicação fosse um problema na hora de promover negócios de impacto nas margens da cidade. Isso acabou dificultando a interação entre o centro e a periferia, reforçando, assim, as particularidades de cada um dos lados. E ainda que as intenções sejam boas, conseguir se entender não será fácil para nenhuma das partes. A experiência do choque de realidades para Ana Paula aconteceu no início da sua jornada empreendedora: “Eu vi que precisava ir atrás de informações, que não dava para ir só pelo processo empírico. E o que me cansou foi ter ido a lugares renomados de empreendedorismo, onde você senta ali e se sente uma idiota, porque não fala nada de empreendedorismo pra você. Fala-se da realidade que não a minha ”. Ela ainda vai mais longe nesta questão:
“O nosso empreendedorismo é igual a de qualquer um, a questão é a dificuldade que a gente enfrenta para empreender. Você tem tantos atropelos na vida, que às vezes não consegue se aprofundar naquilo que você está a fim de saber.”
Hoje, já é possível encontrar vias e provas que os lados estão começando a trilhar para uma linguagem comum. Esta tendência já é tão palpável que pode, até mesmo, ser percebida por quem está do outro lado da ponte, perto do centro. Um bom exemplo disso é a Bemtevi, empresa que viabiliza empréstimos sociais em troca de juros de impacto positivo. A organização está instalada no Civi.co, coworking voltado para negócios de impacto.
Dependências do coworking CIVI-CO (foto: divulgacão)
Eduardo Pedote, sócio-diretor, da Bemtevi relata o mesmo tipo de problemática, mas de forma diferente: “É preciso que haja uma interação real, colocar as cartas na mesa. Às vezes, eu falo uma coisa achando que o sujeito está me entendendo, mas, na realidade, está entendendo outra completamente diferente. Ou seja, eu falo o que está na minha cabeça a partir do meu know-how ou da minha qualidade de especialista e o outro interpretará com a cabeça dele. Esse tipo de situação, na verdade, é um processo de amadurecimento de ambos os lados, onde é preciso fazer um exercício de empatia muito forte.”
Uma experiência bem-sucedida que demonstra bem essa interação entre esses dois mundos foi o empréstimo que a Bemtevi concedeu a um negócio periférico para a criação da Cozinha Criativa, projeto realizado pela Agência Solano Trindade. Tal projeto pretende levar alimentação de qualidade à comunidade do Campo Limpo além de apoiar mulheres cozinheiras da região.
Um investimento ou um empréstimo é, naturalmente, uma operação que envolve risco. Por isso, exige algumas métricas para evidenciar a evolução do negócio. E isso costuma ser um ponto crítico dos dois mundos.
“O empreendedor periférico tem que gerir seu negócio com uma mentalidade de negócio. Os processos são análogos a uma grande empresa”.
“É coxinha? Então, você tem que pensar na questão sanitária, no estoque, nos seus distribuidores, como vai ser seu modelo de vendas, como você vai distribuir, como você vai se apresentar, como é sua comunicação”, comenta Eduardo.
“O empreendedor de periferia tem grande dificuldade de ter uma boa gestão, de conseguir alcançar metas de vendas. Acho que são vários desafios e, na verdade, nossa proposta é conseguir oferecer infraestrutura e apoio técnico para que ele possa estar mais preparado para receber esse investimento”, conta Greta Salvi que é coordenadora de projetos da Fundação Tide Setubal e está à frente do Galpão ZL, um espaço da Fundação voltado para a promoção do empreendedorismo periférico e de negócios de impacto social no Jardim Lapenna, no distrito de São Miguel Paulista, na zona leste.
Roda de conversa promovida na reinauguração do Galpão ZL (foto: divulgacão Fundação Tide Setubal)
O Galpão ZL – antes era chamado de Galpão da Cultura e Cidadania – existe desde 2006 com um olhar de desenvolvimento territorial. Teve papel importante na articulação política para trazer equipamentos públicos para o bairro – que tem duas creches, uma UBS, duas escolas e uma estação de trem. Com a reinauguração no último mês de maio, ganha a função de coworking e sediará eventos sobre empreendedorismo com o objetivo de combater as desigualdades socioespaciais de periferias.
Já como parte das novas ações do espaço, foi realizada uma seleção de negócios de impacto das periferias, onde oito empreendimentos serão acolhidos no Galpão. O processo foi fruto de um edital promovido pela Inova ZL, realizado em parceria pela Fundação Tide Setubal, o Instituto Jatobás e a Rede Comunidade de Inovação Social. Apesar do ZL no nome, o edital recebeu 49 inscritos de toda Grande São Paulo. Os selecionados receberão apoio metodológico e recursos no valor de 8 mil reais para fazer a engrenagem girar, além do acesso a utilização de escritório no local.
“Finalmente, muitas organizações começam a olhar para periferia de outro jeito, não só como o beneficiário de determinada solução social, mas como lugar de protagonismo e um lugar de potência. Por mais que pareça clichê, acho que isso está começando a acontecer”
Greta ainda pontua: “Nosso grande objetivo é, de fato, fazer essa conexão. É muito difícil mesmo. São poucas organizações que têm esse olhar, é uma minoria. As aceleradoras não olham para isso, os investidores, muito menos. E a gente quer se aproveitar da influência da fundação para conectar esses mundos”, completa.
Diminuindo os ruídos
Outra iniciativa para melhorar a integração dos espaços foi a criação da Aceleradora de Negócios de Impacto da Periferia (Anip), em 2018, resultado de uma parceria da Artemisia, Centro de Empreendedorismo da FGV (FGVcenn) e da produtora A Banca.
Na Anip, quem lidera o elo de conexão entre o centro e a quebrada é Dj Bola, o nome por trás d´A Banca. Priscila Martins, gerente de relações institucionais da Artemisia comenta sobre a parceria: “Mantemos o papel de liderança e protagonismo do nosso programa com A Banca, porque entendemos que é preciso ter muita responsabilidade, respeitar as necessidades locais e construir soluções de apoio que, de fato, apoiem o crescimento dos negócios. Empoderando quem realmente tem propriedade e conhecimento para estar na ponta, que no caso é A Banca.”
No outro eixo de sustentação da Anip está Edgard Barki, coordenador do FGVCenn, que comenta sobre a importância de estar apto para ensinar e aprender:“A FGV pode levar muito conhecimento do centro para a periferia. Mas nunca é uma via de uma mão única. A periferia também traz conhecimento para a FGV, principalmente, no sentido de como se estrutura um negócio dentro de uma dificuldade extrema. A periferia tem uma visão de inovação social que é muito relevante para os negócios. Então, quando a gente consegue calibrar os dois lados, conseguimos uma potência muito maior”.
Na ponta, Dj Bola sabe que está fazendo mais do que acelerar negócios. “É uma luta de desconstruir os medos, os mitos e as barreiras sociais, que estão impregnados em diferentes realidades”
Dj Bola em evento que anunciou os 10 selecionado do programa de aceleração da ANIP (divulgação ANIP)
“Nosso papel dentro da sociedade é trazer a periferia para ser protagonista no desenvolvimento de soluções para problemas que a gente vive todo dia na base.”
A movimentação do setor público
Do lado do setor público, uma novidade que vem se desenvolvendo para promover negócios nas periferias dentro do município de São Paulo é o programa de coworking Teia, que faz parte das realizações da Ade Sampa. A unidade piloto foi lançada no dia 22 de maio de 2019 em Taipas, periferia da Zona Norte. Fazendo coro com a necessidade de atuar com agentes locais e outras entidades do território assim como dar o protagonismo à periferia, a agência abriu um edital público para organizações e líderes comunitários de base territorial para cuidar da execução do coworking. O aporte do governo do município para custear a gestão da organização contemplada será de aproximadamente 129 mil reais por unidade para um período de 12 meses.
Parte das funções do Teia é mostrar ao empreendedor onde estão as chances de fazer negócio. “Existe uma assimetria muito grande entre o centro e as periferias no que concerne ao acesso à informação e o acesso às oportunidades. Isso é crítico. A grana evidentemente é um problema, mas a capacitação, se não tão importante quanto, chega a ser mais importante, ainda.”, afirma Frederico Celentano, diretor-presidente da Ade Sampa. Também em 2019 está prevista a inauguração de outra unidade do Teia com foco na Zona Leste.
A articulação da Ade Sampa tem também outras frentes, oito ao todo. Uma das mais conhecidas é o programa VaiTec, que está na sua quarta edição e, desta vez, além da bolsa de 33 mil reais, oferecerá uma aceleração de seis meses para 24 negócios periféricos (os selecionados serão anunciados dia 10 de junho de 2019). Com finalidade de rodar o programa de aceleração foram contratadas, via licitação, empresas ligadas ao território periférico.
Além disso, há ainda a política de acesso a microcrédito que a Ade Sampa está desenvolvendo e provavelmente terá início no segundo semestre deste ano.