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As protagonistas de impacto no território

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fotos: Agência Ophelia

Não existe ninguém melhor para representar e falar sobre o poder das mulheres nas periferias do que elas próprias. Com cada vez mais visibilidade, é nos bairros onde o protagonismo de iniciativas lideradas por mulheres ganha maior relevância e impacto. É a partir da periferia que a cidade conhece a força das mulheres. Historicamente, sempre foi assim. Elas sempre impactaram, principalmente as mulheres negras, empreendedoras históricas, que se apoiaram entre si e continuam se fortalecendo a cada dia.

A Aupa foi escutar as histórias de diversas iniciativas que cresceram graças à força do empreendedorismo feminino e dá a voz para Alânia, Ednusa, Vilma, Ana, Ítala e tantas outras mulheres que causam impacto com seus negócios e iniciativas a partir das margens.

A força da cultura e da memória

Alânia Cerqueira é fundadora do Macambira Sociocultural (foto: divulgação)

Quando ainda nem existia o termo empreendedor social, Alânia Cerqueira, do extremo sul de São Paulo, já causava impacto no seu território. Há mais de vinte anos ela atua no bairro e ali fez nascer o seu negócio de impacto. É a fundadora da Macambira Sociocultural, um negócio que desde 2012 – em parceria com fundações e órgãos públicos – gera recursos para desenvolvimento local, conecta pessoas e dá apoio a artistas e empreendedores locais. Após articulação consolidada, o grupo também passou a investir em educação empreendedora, realizando, além das feiras, ações, encontros e formações.

 

Alânia explica que o primeiro trabalho de impacto parte da própria periferia, reconhecendo não só as necessidades, as ausências, mas também as riquezas, os recursos. É a partir dessa compreensão que nasce o negócio, que depois se fortalece em articulação de redes locais e na consciência de aspectos, como a ancestralidade africana. (Leia entrevista com Jessica Cerqueira sobre a força afro-brasileira no ecossistema de impacto.)

“A gente tem Jardim Ângela, Jardim Letícia, Jardim Lígia, Maria Helena, um monte de bairro com nome de mulheres. nomes simples, mulheres reais.”

Uma “gestão da sobrevivência”, que agora começa a dialogar dentro da narrativa de um ecossistema próprio e ainda em formação. Trata-se de um processo de aprendizagem, acesso e também de mudança e transformação que rompe questões de raça e gênero na sociedade. (Leia entrevista com Elena Martinis sobre como o empreendedorismo feminimo pode transgredir raça e gênero.) Alânia quer acreditar: “Se esse empreendedorismo social, de impacto, com sua consolidação, maturidade, não trouxer transformação nessas questões, isso pode continuar”.

Esse capital humano e cultural periférico, que desde o surgimento desses bairros impactou no território, tem memória marcada, conta Alânia. Vários nomes de bairros da zona sul, por exemplo, têm nomes de mulheres, por conta da mobilização e do reconhecimento que elas tiveram enquanto lideranças. “A gente tem Jardim Ângela, Jardim Letícia, Jardim Lígia, Maria Helena, um monte de bairro com nome de mulheres, nomes simples. ‘Quem é a liderança desse bairro? Ah, é a Alice. Ah, é a Ângela. São mulheres, mulheres reais.”

 

“Agir da ponte pra cá” a partir da própria periferia

Os eventos realizados pelas Meninas Mahin em praças públicas da zona leste já começaram grandes, com palco e financiamento. As mulheres do coletivo se conheceram em um projeto chamado Itaquera do Futuro e tinham em comum a produção de produtos ligados à ancestralidade. Descobriram que tinham potencial para virar um negócio e decidiram empreender a partir da periferia da capital paulistana. “Muita coisa aconteceu no centro. Agora os olhares estão voltando para zona leste”, comenta Ednusa Ribeiro, uma das fundadoras do coletivo que traz como slogan o dizer “Representatividade e beleza, além da estética”.

 

Ednusa, que também é gestora pública, encontrou dificuldades como mãe, mulher e empreendedora negra. Os entraves para gerir um negócio ficam maiores ainda para empreendedores negros, e o coletivo segue enfrentando estigmas para ser sustentável dentro de um contexto adverso. Cerca de 44,6% dos empresários negros que buscam crédito não são atendidos, enquanto apenas 29,4% dos brancos enfrentam esse problema ( veja pesquisa) Mesmo assim, Ednusa e Vilma seguem avançando, e desde 2016 empreendem fomentando o empreendedorismo da mulher preta por meio da Feira Afro Meninas Mahin. O evento acontece no segundo sábado de cada mês na Praça das Professoras – Cid. A. E. Carvalho e no último sábado do mês no Largo do Rosário-Penha, ambos na zona leste de São Paulo.

Este ano, com certificação do Cieds – ONG que apoia empreendedores sociais –, o objetivo da dupla é seguir consolidando o que já fazem, para além das quase cem feiras já realizadas. Estão programados eventos diferentes, entre eles no Parque do Carmo e na Flip – Festa Literária Internacional de Paraty. Os locais onde os eventos acontecem se tornam “a oficina da mulherada”, conta Vilma. E Ednusa complementa: “A gente consegue falar assuntos de autoestima, de representatividade, de negócio, de família, de erros e acertos”.

Como artesãs e com viés empreendedor, as Meninas Mahin recebem apoio e contam também com capacitação e mentoria especializada, como o Emperifa. A empresa promove e fortalece a cultura empreendedora, colaborando para o desenvolvimento dos territórios periféricos, com oficinas e consultoria para qualificar a crescente demanda da zona leste.

“falaMOS de autoestima, de representatividade, de negócio, de família, de erros e acertos”

Também contando com o apoio da Emperifa, Ana Paula Nascimento resolveu empreender onde mora, na Cidade Tiradentes, e nos bairros vizinhos – Guaianazes, São Mateus, São Miguel: “É insalubre sair da periferia, das pontas para servir o centro”. Desde 2017, Ana conta que a luta do zero capital de giro é empreendida todos os dias, seja sozinha ou “articulando-se” com parceiros. Significa “vender a janta para o café da manhã, vender o café da manhã para o almoço”, explica Ana, que ainda vê inadequação na proposta do MEI – microempreendedor individual. “A Globo, fala: ‘Olha, vai lá, faz o seu MEI’, mas a maioria não tem os R$ 54,00.” Em sua visão, falta leitura e sentido nesse convite.

Flyer de divulgação do EmpreendTiradentes

Ana Paula se baseou em muito conhecimento empírico para fundar A Preta Produções, produtora cultural, artística e empreendedora, especializada no público periférico. Seu negócio busca dar atenção à população que vive nesses bairros e abrange questões como transporte e circulação no território, bem como, claro, a questão do gênero: “Essa mulher não pode ter informação e apoio distantes”. A Primavera Empreendedora, um dos seus produtos, trabalha com o objetivo de unir empreendedores locais, levando apoio, formação e visibilidade. A última edição, em 2018, teve dez expositores, com público de 320 pessoas, além da presença de empresários locais.

 

Outras duas iniciativas da Preta Produções são o Festival Brechó Bom e a Feira Empreend Tiradentes, ambas voltadas para a exposição de produtos. A empreendedora quer, agora, investir em mais articulação e captação: “Quero diversificar e movimentar a economia, que já é pujante e ativa aqui na Cidade Tiradentes, mas que infelizmente é invisibilizada e não tem apoio financeiro”. Entre outras frentes, Ana também está procurando investimento para um espaço físico no bairro, que, segundo ela, seria uma solução que geraria impacto junto à população local: “É esse pessoal que faz a economia girar”.

 

Empreendedoras pioneiras

O caráter empreendedor das mulheres negras é um indicador histórico do pioneirismo dos negócios de impacto nas periferias. As ancestrais negras foram as principais responsáveis por empreender a liberdade de todas as pessoas escravizadas, financiando alforrias, revoltas e revoluções. Mulheres que passaram, de repente, a sustentar a si mesma e aos seus filhos depois de conquistada a abolição e que nas décadas seguintes empreenderam melhorias de vida em suas comunidades.

Ítala Herta do Vale do Dendê em Salvador: a holding já pré-acelerou 30 e acelerou 10 startups

se for pensar na periferia, a gente vai pensar, claro, na figura feminina

Um retrato muito representativo dessa história talvez seja o da cidade de Salvador: “A gente tem essa cidade fora do radar de investidores de porte, mesmo tendo grandes ativos culturais e sociais”, coloca Ítala Herta, do Vale do Dendê – o Vale do Silício brasileiro –, uma holding social que tem se expandido na cidade e que tem o destaque na diversidade como premissa básica, evidenciando cada vez mais os jovens e as mulheres. Nesse sentido, e organizando o ecossistema local, entendem que é a forma mais efetiva de fazer diferença no território, articulando local e globalmente suas ações.

“A gente sempre reforça, dentro dessa narrativa, o quanto a periferia é inovadora, o quanto a margem é potência. E, claro, se a gente for pensar na margem, se for pensar na periferia, a gente vai pensar, claro, na figura feminina. Como uma figura dentro de um contexto de manutenção, um grande pilar de sua família, para atender esse nível de vulnerabilidade e responsabilidade”, explica ela. A capital baiana sempre foi uma capital inovadora na economia criativa, naturalmente por ter um olhar para a identidade da região.

Patrocinada pela Fundação Itaú Social e pela Fundação Alphaville, a holding pré-acelerou 30 e acelerou 10 startups que atuam nos segmentos de moda, mobiliário urbano, turismo, tecnologia automotiva, games, design de joias, entre outros, todos os negócios desenvolvendo produtos e soluções tecnológicas de baixo custo e elevado impacto socioeconômico. Com essas experiências sistematizadas, prototiparam um modelo de escola, com cursos, ações, imersões, até chegar em um formato de “jornadas de conhecimento” que vai ser lançado em breve, em um espaço na Estação da Lapa.

 

Os territórios, seus espaços

Uma última volta por São Paulo, na zona leste, e visando apoiar negócios como o do coletivo Meninas Mahin e Primavera Empreendedora, surge um modelo de negócio similar ao de Salvador. A Fundação Tide Setúbal, ONG com forte atuação territorial em São Miguel Paulista, reformou seu antigo Galpão da Cultura e Cidadania­ no Jardim Lapenna – local criado há mais de dez anos para fomentar ações culturais e educativas – e inaugurou um novo polo de conexão empreendedora. O agora renomeado Galpão ZL foi inaugurado no último dia 17 e tem o objetivo de acolher negócios de impacto e iniciativas empreendedoras. Assim como na Lapa em Salvador, o espaço de coworking espera atender principalmente jovens e mulheres.

Neca Setubal discursa no dia do lançamento do Galpão ZL: a Fundação aposta no empreendedorismo de impacto (foto: Aupa)

O espaço renasce para apoiar com proximidade. Segundo Greta Gogiel Salvi, gestora do Fundo Zona Leste Sustentável, da própria Fundação, a organização atua há nove anos com empreendedores locais e identificou a “sevirologia” da periferia e a necessidade de gestão que qualquer empreendimento precisa. O trabalho sistematizado tem hoje o tripé: recurso financeiro, capacitações e acesso ao mercado. Mas talvez, acima de tudo, vem entendendo a necessidade de um acompanhamento personalizado, um apoio pessoal.

O Galpão ZL não vai perder o caráter “de porta aberta” que sempre teve, os serviços de assistência social e ponto de leitura. A programação está sendo construída junto com organizações parceiras, além dos próprios empreendimentos periféricos. Por postos de trabalho rotativo irão trabalhar três principais temas: culinária (foodlab), comunicação, inovação e tecnologia ­– desde tecnologias digitais a ferramentas de soluções de impacto para problemas sociais. Haverá programas de residência, trabalho, geração de renda, salas para eventos, criação de rede de negócios, entre outros.

O trabalho sistematizado tem hoje o tripé: recurso financeiro, capacitações e acesso ao mercado

Com saberes próprios e as tecnologias da comunidade, as mulheres – ainda sem recursos, apoio, espaço e tempo – seguem impactando cada vez mais. Essa radiografia de algo que está acontecendo agora faz alguns retratos. Uma troca dialógica entre periferia e centro, para que o ecossistema se expanda constantemente. Uma contínua abertura, sustentação e transformação desses espaços geográficos e simbólicos periféricos. Uma fértil relação entre empreendedor e território.

Modelos de negócio em organizações sem fins lucrativos: entre construir barreiras ou moinhos de vento

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Londres é uma referência mundial na produção de conhecimento e em iniciativas de negócios de impacto social (Pixabay)

LONDRES: A criação de iniciativas de mercado ou um negócio de impacto social por organização sem fins lucrativos ainda é um tema que provoca muitas controvérsias.

Há os que advogam que não deve ser incentivado porque nem todas as causas encontrarão um modelo de negócios que as tornem financeiramente sustentáveis. Há os que confundem a criação de um modelo de negócios (que pode ser uma iniciativa dentro da organização) com a mudança do formato jurídico, que nem sempre é necessária e recomendável. Há ainda quem teme que o desenvolvimento de uma iniciativa de mercado possa promover o desvio da missão da organização. Todas essas narrativas carregam suas verdades e seus equívocos. Contudo, elas nos alertam que temos muito a conversar sobre esse tema no Brasil.

Esse cenário vem mudando mundo afora em decorrência das transformações no papel do Estado e também nas formas de financiamento das organizações sem fins lucrativos. A Inglaterra, por exemplo, reconhecida por seu pioneirismo na área de empreendedorismo social, tem criado algumas iniciativas que podem servir de inspiração para organizações interessadas em inovar em seu modelo de geração de receitas.

O caso da Leyf

June O´Sullivan é um desses exemplos de empreendedores que de longe nos impressionam por sua capacidade para engajar plateias com falas simples e cheias de propósito. “Mudar o mundo, uma criança por vez”, é a frase que usa para explicar a missão da Leyf (London Early Years Foundation). Tudo começou quando ela assumiu a direção de uma organização centenária que mantinha pequenas creches em alguns bairros de Londres. Mantida por doações, sofria muita instabilidade financeira, o que inviabilizava o seu crescimento. Foi a constatação de que seu modelo de receita não daria conta do impacto que a organização poderia gerar na educação, que a fez transformá-la em um negócio de impacto social. Em 2009, mais de cem anos após a sua fundação foi renomeada como Leyf para sinalizar a nova fase.

A organização passou por um grande processo de mudança em sua cultura, no relacionamento com beneficiários, financiadores e colaboradores e adquiriu novos conhecimentos. Aos poucos, o receio de perder o foco em sua missão foi substituído pelo entendimento dos pontos positivos que o novo modelo poderia trazer: escala, impacto social e sustentabilidade financeira. Hoje, a LEYF, mantém 37 creches em vários bairros de Londres, sendo reconhecida por ser a maior rede de creches com propósito social da cidade.

“Mudar o mundo, uma criança por vez”

Em seu modelo de financiamento, famílias com mais recursos pagam um preço que financia a participação de crianças que não têm condições de pagar. Além disso, a organização mantém dois formatos jurídicos: um registro como organização sem fins lucrativos e outro, como empresa privada. Dessa maneira, a Leyf pode receber doações e também participar de licitações para prestação de serviços para o governo. Hoje, aproximadamente 50% de seu público tem acesso à educação de forma gratuita. Além disso, todo o superávit obtido em suas operações é reinvestido na própria organização.

O que podemos aprender a partir da experiência britânica?

É certo que o ambiente regulatório, cultural e econômico é muito diferente do brasileiro. Listamos aqui cinco pontos que podem nos inspirar:

  1. A importância de legislações que incentivem organizações da sociedade civil que operam negócios.

  • Na Inglaterra, não há restrições legais para organizações sem fins lucrativos venderem produtos ou serviços, desde que a atividade conste no estatuto social da organização. No entanto, se a atividade desenvolvida não está diretamente ligada ao propósito principal da organização, suas atividades podem ser sujeitas a tributação. Nesses casos, é comum a criação de empresas subsidiárias. A legislação britânica é acolhedora para organizações sem fins lucrativos proprietárias de uma empresa subsidiária. A empresa criada será tributada como uma entidade privada, no entanto tem uma redução significativa nos tributos a serem pagos sobre seu lucro ao investir o seu superávit na ação social de sua organização proprietária.
  1. Novos formatos legais para organizações sem fins lucrativos e negócios de impacto social garantem segurança jurídica e transparência na atuação social.

  • A Inglaterra foi pioneira na regulamentação jurídica dos negócios de impacto social. As CICs (Community Interest Companies), que significam, literalmente, empresas de interesse comunitário, são um formato jurídico para organizações com propósito socioambiental. Por meio dele, a empresa deixa pública a sua missão social e compromete-se a investir seu capital em objetivos sociais, limitando a distribuição de lucros para seus acionistas. Para as organizações sem fins lucrativos, o formato legal de CIO (Charitable Incorporated Organizations), criado em 2013, tem simplificado o registro junto aos órgãos responsáveis, protegido membros e conselheiros de responsabilidade civil e financeira sobre a organização e facilitado a condução de negócios.
  1. Compras governamentais têm um papel relevante para o crescimento do setor de impacto.

  • Em 2012, o governo britânico lançou a Lei de Serviços de Valor Social (Public Services Social Value – Act 2012). Por meio dela, órgãos governamentais foram incentivados a considerar os benefícios sociais de seus proponentes em decisões de compras de produtos e serviços. Ao fazer uma análise baseada em atributos que iam além do preço, o governo abriu portas para negócios de impacto social, bem como organizações sem fins lucrativos que estavam desenvolvendo iniciativas de mercado em áreas como saúde, educação, entre outros.
  1. Investimentos de governos locais e fundações podem fazer a diferença.

  • De olho no potencial que essas iniciativas de organizações sem fins lucrativos têm no cenário local e também a importância de sua sustentabilidade financeira, governos locais e fundações têm assumido seu papel. Foram criados diversos fundos para disponibilizar capital semente em forma de investimento não reembolsável ou empréstimos para organizações sem fins lucrativos que querem desenvolver novos modelos de negócio, mas não têm recursos livres para investimento inicial. A Good Finance, por exemplo, reuniu uma base de dados com mais de setenta investidores e instrumentos financeiros disponíveis para organizações sem fins lucrativos e negócios de impacto em diferentes estágios de desenvolvimento.
  1. Suporte técnico especializado é fundamental para quem quer iniciar um negócio.

  • Além de recursos financeiros é possível encontrar companhias especializadas em apoiar organizações sem fins lucrativos a desenvolverem em seus negócios. A Social Enterprise UK e a Pilotlight, por exemplo, oferecem programas e consultoria sob medida para organizações que querem criar novas iniciativas de mercado. Além disso, diversos editais de apoio consideram igualmente relevantes apoiar organizações que já se denominam negócios de impacto social e aquelas que estão iniciando a jornada empreendedora.

 

Por fim, não esgotamos aqui os exemplos inspiradores e nem todas as questões que envolvem a criação de iniciativas de mercado ou um negócio de impacto social por organização sem fins lucrativos.

O desenvolvimento do setor aponta que é a hora de investidores sociais, governo e atores do ecossistema de negócios de impacto assumirem com mais importância a coresponsabilidade pela sustentabilidade financeira das organizações sem fins lucrativos, dado o seu papel na construção histórica de melhores condições de vida. Isso só será possível por meio da cocriação de modelos inovadores de financiamento e capacitação para que essas organizações se tornem financeiramente sustentáveis no médio e no longo prazo.

Para as incubadoras e aceleradoras, talvez seja o momento de assumir que o desafio do pipeline do setor pode ser trabalhado a partir de tecnologias sociais já testadas pelas organizações sem fins lucrativos. Ainda são raros os exemplos de intermediários que apoiam esaas organizações a desenvolverem seus modelos de negócio. Seja qual for o motivo (técnico, financiamento, visão) parece contraproducente para um ecossistema em fase de desenvolvimento.

Para as organizações fica claro que os ventos de mudança já circundam o seu dia a dia com crises financeiras e dilemas que minam seu potencial de impactar mais pessoas. Retomando o título deste texto, talvez seja o momento de escolher se diante dos ventos construiremos barreiras ou moinhos de vento.

CORRESPONDENTE EM LONDRES Vivian está em Londres descobrindo as inovações do ecossistema britânico e irá trazer informações relevantes em seus artigos para AUPA

Um laboratório de inovação na periferia chamado Solano Trindade

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Andar pelas ruas do Campo Limpo é deixar de lado a imagem de violência dos noticiários e conhecer um reduto cultural dinâmico e um ambiente empreendedor bem articulado. Mas como isso funciona? Conhecer a Agência Popular Solano Trindade e a história do Banco Comunitário União Sampaio pode ser uma das respostas para entender o impacto local dessas iniciativas. A reportagem da Aupa foi conhecer de perto esse laboratório de inovação em negócios de impacto e conversou com um de seus principais articuladores.

Thiago Vinicius de Paula da Silva, de trinta anos, é empreendedor social, produtor cultural e criador da agência. Para entender a história de Thiago é preciso olhar a história das mulheres de sua família e da comunidade. “Venho de uma família onde a maioria das lideranças é de mulheres, uma história de trabalho e de luta”, comenta ele. “As mulheres atravessaram séculos buscando qualidade de vida, e tudo o que temos de bom hoje na comunidade, como escolas e unidades básicas de saúde, é graças ao movimento delas. É interessante notar que sempre que uma mulher consegue um direito, toda a sociedade é beneficiada”, diz Thiago enquanto segura no colo a filha de um ano, Maria Flor. Prova viva da presença feminina é a própria mãe de Thiago, tia Nice, ou dona Nice, que, no dia da reportagem, comandava a cozinha preparando feijoada tradicional e vegetariana para um encontro cultural naquele domingo de sol.

Tia Nice e sua neta Maria Flor: duas gerações de mulheres na vida do Thiago (crédito das fotos: divulgação Ag. popular Solano Trindade)

 

“É interessante notar que sempre que uma mulher consegue um direito, toda a sociedade é beneficiada”

O diálogo da agência com a comunidade é bem direto. “Nossa comunicação é do post ao poste. Quando há eventos, como o Festival Percurso, fazemos faixas, usamos carros de som. Afinal, nem todo mundo tem smartphone.” A agência está presente nos espaços e também oferece seu próprio espaço para articulação local. Quem quiser trabalhar ou fazer reuniões na agência é bem-vindo. A casa também oferece um espaço de coworking.

As ações da agência impactam milhares de pessoas por ano. “Temos o Festival Percurso e também uma rede de empreendimentos que a gente dedica à formação”, explica. Ele acredita que o verdadeiro impacto das iniciativas é “tirar a comunidade das páginas policiais para ocupar as páginas culturais”. Indagado sobre o modelo de negócio, Silva afirma que a palavra que o define é versatilidade. “Precisa ser um modelo bem dinâmico, porque a gente não tem uma coisa certa. Desde o evento que fazemos na agência até os empreendimentos-satélites, tudo faz com que a gente não dependa do governo”, elenca o empreendedor social.

Apresentação no Festival Percurso, em 2018

O INÍCIO

Tudo começou em 2009, quando Silva e seus amigos perceberam que havia muitas ONGs, porém nem sempre as atividades impactavam o local. “Era bastante assistencialismo e pouco desenvolvimento”, comenta ele, que fez parte do Projeto Arrastão, organização sem fins lucrativos que atua na região do Campo Limpo desde 1968, dando suporte às famílias que vivem em condição de pobreza, oferecendo programas relacionados às áreas de educação, cultura, geração de renda, habitação e qualidade de vida. Em 2004, quando tinha quinze anos, depois da participação no Arrastão, Silva fez parte da primeira turma da Artemisia e criou o projeto Reativar e Empreender, sobre educação ambiental e coleta seletiva. A família de Thiago morava em frente ao córrego Pirajuçara, onde há problema de acúmulo de lixo e enchentes. Com o apoio da Artemisia, ele ainda cursou dois anos de Administração de Empresas na Pontificia Universidade Católica de São Paulo (PUC).

“Era bastante assistencialismo e pouco desenvolvimento”

Foi partindo desses incômodos e provocações que, há dez anos, o grupo de Thiago começou a estudar um tema que, segundo ele, “é muito complicado na periferia: a questão do crédito e do microcrédito”. Foi nesse momento que o grupo se organizou e montou um banco comunitário, com o apoio da Incubadora Tecnológica de Cooperativas da Universidade de São Paulo (ITCP/USP), que tem a missão de promover a economia solidária.

E daí despertou a conscientização. “Começamos a causar uma grande reflexão na periferia, sobre o potencial econômico do território. As pessoas olhavam pra gente e perguntavam: ‘Nossa, mas vocês sabem o que são juros?’. É um racismo estrutural”, relata Silva. “Foi a primeira vez que os pobres se uniram para falar de dinheiro numa perspectiva de microcrédito, e não numa perspectiva de dívida. E aí fundamos o banco, que é aqui no Jardim Maria Sampaio”, completa ele, enquanto aponta para o bairro e mostra um enorme grafitti, feito pelo artista plástico Gamão Souza Dias, em homenagem a Marielle Franco.

Grafitti do artista Gamão Souza Dias no bairro

Mas o debate vai além da questão da moeda e chega também na produção e comercialização de itens culturais. O grupo participa da cena cultural local, em saraus e shows e perceberam a dificuldade que os artistas locais tinham para lançar livros e discos. Era necessário investir nesses talentos, e Thiago articulou esse movimento. “Fizemos nosso primeiro empréstimo cultural para o financiamento do livro Manda busca, do Luan Luando, em 2011. Com o financiamento do livro, vimos também o retorno da grana e, nesse momento, compreendemos o surgimento da Agência Popular Solano Trindade, com três eixos no ciclo produtivo: fomento, produção cultural e comercialização”, explica Silva. “É na parte da comercialização do produto que o artista dialoga com a comunidade. Então, durante muito tempo a gente ‘exportou’ a cultura da periferia para cidade, já que a distância é gigantesca”, recorda Thiago.

A atuação e o diálogo das iniciativas vão além das próprias relações comerciais e inserem-se também no campo artístico, com a participação da Agência Solano na 31ª Bienal Internacional de Arte de São Paulo, em 2014. “Levamos mais de vinte atrações da periferia lá”, comenta Silva.

Intervenção artística durante a 31º Bienal de São Paulo

FESTIVAL PERCURSO 

A Agência Popular Solano Trindade, em parceria com o grupo C de Cultura, organiza o Festival Percurso – de Jardim a Jardim, que promove música, poesia, dança, teatro, encontros e negócios entre as comunidades periféricas. A presença de povos de matriz africana e indígenas de Parelheiros reforça a identidade do evento. O festival acontece todos os anos na Praça do Campo Limpo e conta com a presença de nomes fortes da cena cultural local, como MV Bill, em 2018, e os membros dos Racionais MC’s – Mano Brown apresentou o show Boogie Naipe ao evento em 2017.

A cada edição, o festival tem um custo de R$ 300.000,00 e, para acontecer, conta com apoios como o do Sesc, Greenpeace, Poiesis, Fábrica de Cultura, entre outras empresas que contribuíram para a edição 2018. “Não cobramos porcentagem de nada: são famílias, mulheres que lideram suas famílias em uma ação empreendedora”, comenta Silva. Para a última edição, a agência conseguiu apoio do Programa de Ação Cultural (ProAC) e do Programa Municipal de Apoio a Projetos Culturais (Pro-Mac), com isenção estadual e municipal. O evento de 2018 homenageou Paul Singer, economista e docente da USP, que faleceu naquele ano e foi um dos grandes pensadores sobre economia solidária no país.

“Não cobramos porcentagem de nada: são famílias, mulheres que lideram suas famílias em uma ação empreendedora”

Durante o evento o agência promove a circulação da moeda social solano e sua cotação para o real é de um para um. Durante o Festival Percurso, cada convidado recebeu cinquenta solanos – ao todo, haviam 6 mil solanos em circulação no evento, que conta ainda com equipe de cerca de duzentas pessoas para se viabilizar.

Matizes africanas e ancestralidade fazem parte das iniciativas culturais da Agência Solano

Assim, o solano serve para mostrar a força de ações de economia solidária. O articulador cultural ressalta ainda a frase do poeta Solano Trindade: “Pesquisar, ir na fonte de origem e devolver ao povo em forma de arte”. A circulacão da moeda é uma maneira de fomentar, produzir e comercializar os produtos desenvolvidos na comunidade, de modo a gerar renda e sustentar a cadeia de trabalho comunitário a partir de trocas de serviços. “Uma andorinha só não faz verão, mas pode acordar o bando todo”, conclui o empreendedor social parafraseando o poeta Binho, em entrevista concedida para o Imagina Coletivo

 

COMIDA NA CABEÇA

É comum ver Silva dando entrevistas e palestras para falar sobre comida in natura e orgânica. A casa também vende orgânicos em sua sede às quintas-feiras, conta ainda com uma Kombi para o transporte e a venda itinerante, além de uma equipe de deliveries. Por mês, eles fazem cerca de quinhentas entregas para bairros como Butantã, Brooklin, Lapa e Centro – desse montante, cerca de cinquenta cestas são para atender pedidos feitos na própria periferia. “Temos uma história de busca por segurança alimentar há muitos anos. A região do Campo Limpo se organizou para lutar contra a carestia”, contextualiza o articulador sobre o movimento dos anos 1970, que lutava contra o encarecimento do custo de vida e, claro, do acesso à comida. “Há mulheres na comunidade que atuaram nesse movimento e seguem, hoje, conosco. O próprio bairro fala muito sobre isso: aqui antes eram grandes chácaras. Quando as pessoas passaram a chegar, vindas da Bahia e outras partes do Nordeste ou mesmo do Paraná, como é o caso da minha mãe, elas se deparavam com um lugar completamente detonado, com poucos terrenos – e, claro, sem ter onde plantar”, revela Thiago.

A gastronomia e a cultura da alimentação orgânica está presente na Solano: na foto comida é preparada no festival Percurso. Em breve, restaurante também será inaugurado no Campo Limpo.

A agência percebeu, então, um fenômeno: as camadas mais ricas passaram a ter acesso ao orgânico, e as mais pobres, à comida industrializada ou de baixa qualidade. E isso revela os quadros de desertos alimentares, ou seja, lugares de difícil acesso a alimentos nutritivos, gerando a diminuição de seu consumo. O problema, fruto da desigualdade social, é tão grave que há mapeamento dessas localidades, além de discussões entre governo, universidades e demais representações da sociedade civil em busca de soluções (ver o filme Fonte da juventude [2017], de Estevão Ciavatta, que traz essa questão e tem relatos de Silva sobre o assunto).

A cultura do alimento orgânico e das Pancs (plantas alimentícias não convencionais) sempre esteve na base das comunidades, mas hoje esses alimentos acabam sendo acessados pelas camadas mais abastadas da sociedade. Dentro dos córregos que cortam o Capão Redondo nasce uma planta chamada sabugueiro – hype em restaurantes de alta gastronomia em São Paulo –, e esses estabelecimentos vão até Campo Limpo buscá-la.

 

Só quando entendemos o mecanismo é que conseguimos abalá-lo com algumas conexões fortes

Otto Scharmer, professor do Massachussetts Institute of Technology (MIT) e cofundador do Presencing Institute, desenvolveu o laboratório de inovação e nutrição em alimentação no Campo Limpo. “Ele e sua equipe vieram até a quebrada compreender junto com a gente o sistema de alimentação. Desde 2014, eles me apoiam na compreensão do sistema – porque não adianta agir sem entender o funcionamento. Só quando entendemos o mecanismo é que conseguimos abalá-lo com algumas conexões fortes”, ensina Thiago. Está prevista para 2019, na sede da agência, a inauguração do restaurante da Solano Trindade. “A gente estima que serão servidas oitocentas refeições por mês, cerca de trinta por dia”, comenta o empreendedor.

As iniciativa são muitas, e Thiago traz consigo a inovação periférica realizada dentro do seu laboratório vivo no Campo Limpo. Seja qual for a ação e o impacto realizados pelo banco comunitário, pela agência ou pelo futuro restaurante, a missão é uma só: empreender em rede para articular a periferia.

Os desafios jurídicos dos negócios de impacto

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Na estreia da coluna, quero falar de maneira mais introdutória e ampla sobre os principais desafios jurídicos enfrentados atualmente pelo setor de negócios de impacto. No decorrer das próximas publicações, irei detalhar temas relevantes para o ecossistema.

Como primeiro ponto, é importante dizer que, além dos desafios jurídicos que todos os empreendedores enfrentam no Brasil – principalmente os pequenos –, os negócios de impacto têm de superar outras barreiras jurídicas, como a falta de parâmetros legais para sua definição e a insuficiência de regras e regulamentação para fomentar o setor.

Na ausência de um conceito jurídico, cada stakeholder, como aceleradoras, incubadoras, investidores e certificadores, adotam conceitos diferentes, alguns mais amplos e outros mais restritos.

Em dezembro de 2017, por exemplo, houve um avanço muito importante para o setor, em decorrência da edição do Decreto nº 9.244/2017, que criou a Estratégia Nacional de Investimentos e Negócios de Impacto – Enimpacto –, que definiu os negócios de impacto como sendo empreendimentos com o objetivo de gerar impacto socioambiental e resultado financeiro positivo de forma sustentável.

Apesar desse avanço, ainda há certa insegurança jurídica, pois o decreto é um ato normativo de competência do presidente da República, que não tem a mesma força de uma lei e que pode ser revogado a qualquer momento por outro decreto. Considerando o nosso momento político, eu diria que a insegurança jurídica é ainda maior.

Além do conceito de negócios de impacto, também é necessária uma regulamentação jurídica prevendo critérios confiáveis para a mensuração de impacto, parâmetros de governança corporativa, regras de transparência com os stakeholders e compromisso de atuar em benefício da causa social ou ambiental a que se propõe. O objetivo dessa regulamentação é evitar que haja uma banalização do setor ou greenwashing, dado que a demanda atual dos consumidores exige que os negócios sejam sustentáveis e responsáveis nos âmbitos social e ambiental.

A falta de definição legal e de regulamentação também dificulta a criação de políticas públicas para incentivar o setor. É desejável que haja inclusão de critérios que facilitem os os negócios de impacto nas compras públicas, bem como no acesso para investidores, além da criação de instrumentos financeiros para fomentar tais negócios.

Como demonstrado pelo 2º Mapa de Negócios de Impacto elaborado pela Pipe.Social, as compras públicas representam uma parte relevante do PIB (de 10% a 15%), e muitos dos negócios de impacto trazem soluções de interesse público, como educação, saúde, coleta de resíduos, preservação ambiental e mobilidade urbana.

É importante lembrar também que, como os negócios de impacto são, em sua maioria, pequenos e médios e muitos dependem de investimento em tecnologia, a captação de recursos é essencial para sua sobrevivência e expansão, motivo pelo qual o investimento direto, via instrumentos financeiros ou via dívida, é muito relevante para o setor.

A qualificação jurídica dos negócios de impacto facilitará, portanto, o acesso dos empreendedores às compras governamentais e aos investidores. Irá fomentar toda a cadeia de valor do setor.

Outra dificuldade diz respeito à insegurança jurídica nas relações dos negócios de impacto com as entidades do terceiro setor. A parceria entre esses dois setores é imprescindível para o desenvolvimento do ecossistema, tendo em vista que tais entidades têm experiência relevante dentro dos setores social e ambiental. No entanto, como as entidades do terceiro setor gozam de benefícios fiscais, existem alguns limites que devem ser observados de forma a não perder esses benefícios. A falta de parâmetros legais desses limites tem levado a interpretações equivocadas por parte Receita Federal, como a de que as entidades do terceiro setor não estariam aptas a investir em negócios de impacto.

Dessa forma, apesar dos avanços recentes, ainda são muitos os desafios jurídicos a ser enfrentados para que o setor de negócios de impacto tenha a visibilidade que merece e necessita para se desenvolver.

Gastronomia Periférica: tempero da quebrada, que traz cultura e renda por intermédio da comida

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O Jardim São Luís, na zona sul paulistana, reverbera cultura que conta sua história e identidade. Dois exemplos: ele já foi inspiração para a canção “Fim de semana no parque”, dos Racionais MCs, e é de suas vivências no bairro que o chef Edson Leitte reencontra-se para cozinhar no Gastronomia Periférica. Leitte vai além: seus pratos refletem as experiências dele no bairro natal e na experiência em restaurantes de alta gastronomia, no Brasil e no exterior.

O Gastronomia Periférica dialoga para além de divisões geográficas – a experiência gustativa de seu buffet revela um sabor de Brasil, com periferia e centro negociando suas posições. “Provocar transformações sociais através da gastronomia” é a missão da empresa, hoje formada por Edson Leitte, como chef e idealizador, Adélia Rodrigues, a coordenadora de projetos e manager, e Diana Gomes, à frente do administrativo. Além de o Gastronomia ser um negócio com propósito, sua assessoria de imprensa, a Pauta Social, também é um negócio de impacto social – evidenciando um fortalecimento entre empresas do ecossistema de impacto. “A Pauta esteve conosco em 2017 e foi importante, pois nos trouxe a visão de comunicação. Hoje somos nós que falamos diretamente sobre o que fazemos, não há intermediários. É a nossa verdade”, explica Rodrigues.

O nome Gastronomia Periférica faz parte de uma estratégia para “desgourmetizar” os processos que envolvem a circulação da comida e seu acesso. “A gente transita entre esses dois mundos e faz a ponte entre eles. Isso já é transformador”, comenta a gestora. Sobre transformação, em 2018, o negócio impactou cerca de 20 mil pessoas em seus eventos e formou quarenta em sua escola – para 2019, o objetivo é triplicar o número de alunos formados.

O INÍCIO

A história do Gastronomia Periférica está relacionada à trajetória e às experiências de Leitte na Europa. Ao lado de um amigo, ele desembarcou em Lisboa em 2006, aos 22 anos, com trezentos euros no bolso. Trabalhando como lavador de pratos no restaurante A Leiteria, presenciou a greve das cozinheiras do estabelecimento na época – e essa foi a chance da guinada. Mesmo sem nunca ter cozinhado na vida, convenceu o dono do estabelecimento de que seria capaz de assumir o comando da cozinha. Mas como ele se virou? A tecnologia deu uma mãozinha: com um fone de ouvido plugado ao celular, ele ouvia as orientações de como preparar os pratos pedidos naquele dia – cerca de setecentos. Foi com o trabalho de Leitte que o restaurante teve a indicação no guia Time Out Market Lisboa.

Apesar do ótimo desenvolvimento com a cozinha mediterrânea e de outras partes do mundo, o chef sentia que faltava brasilidade em seus pratos. Então, regressou ao país natal em 2009, aprendeu algumas receitas em grandes restaurantes, como moqueca e feijoada, e retornou a Portugal. Em 2016, de volta ao Brasil, iniciou a graduação em Serviço Social e se manteve trabalhando em restaurantes de alta gastronomia em São Paulo. E foi das reflexões provocadas pela faculdade que percebeu que era o momento de voltar para suas raízes – surgia daí o embrião do Gastronomia Periférica. O negócio começou com oficinas direcionadas às pessoas de baixa renda e, em seguida, passou a preparar encomendas para eventos.

Mas engana-se quem pensa que o Gastronomia Periférica é somente a biografia de Leitte – o negócio é formado pelas pitadas e pelos aromas que cada um de seus articuladores deixa no dia a dia de trabalho. “Acho que as narrativas de todos contribuem. O processo de viver na Europa e retornar à periferia faz as pessoas se interessarem bastante pela narrativa do Edson e se aproximarem do Gastronomia Periférica. Ele aprendeu a ver na Europa que o desperdício é algo que eles passaram e com o qual aprenderam a lidar, devido à guerra. Aqui a gente vive na ideia da falsa abundância, que gera desperdícios diários”, ensina Adélia Rodrigues, que agrega aos negócios seus conhecimentos enquanto sócia gestora, psicóloga e educadora emocional.

Como a maioria dos negócios, o investimento inicial para o Gastronomia Periférica partiu das economias de seus idealizadores, que saíram de empregos fixos e planejaram como manter o negócio e a vida pessoal. “Num segundo momento, tivemos empresas que nos aportaram diretamente. Passamos por duas acelerações: uma da Aceleradora de Negócios de Impacto Social (Anip) e outra do VAI TEC”, explica Rodrigues.

A fusão dos conhecimentos de Rodrigues e Leitte é bastante evidente ao ver o Gastronomia Periférica em ação: ele é quem comanda os fogões e orienta os jovens cozinheiros e atendentes. Ela é quem coordena as ações e fecha negócios, ao mesmo tempo que dialoga com parceiros. “Quando digo que a narrativa de ambos é importante é devido ao encontro dos dois. Ele com essa narrativa das experiências em restaurantes e eu com o trabalho dentro das periferias, no processo de desenvolvimento humano, questões políticas e sociológicas, que também compõem o Gastronomia”, revela ela. “Damos formações e sensibilizamos as pessoas com uma comida que traz a humanização dos envolvidos nesse fazer ou nesse consumo”, complementa.

“Mulheres precisam ver mulheres nesse papel. É preciso dar visibilidade a elas, contratar parcerias de mulheres. Eu me inspiro e tenho outras muitas como referência, como Ana Fontes e Eliane Dias”

O fato de Adélia Rodrigues estar à frente das negociações feitas pelo Gastronomia Periférica a coloca num seleto grupo dentro do ecossistema de impacto: a cada dez negócios, apenas dois são liderados por mulheres. “Mulheres precisam ver mulheres nesse papel. É preciso dar visibilidade a elas, contratar parcerias de mulheres. Eu me inspiro e tenho outras muitas como referência, como Ana Fontes e Eliane Dias”, destaca a gestora, que ainda participa do coletivo As Minas. “Aquelas mulheres que não conseguem achar uma na qual se inspirar ficam à margem, com a síndrome de impostora”, completa.

 

A VIRADA COM UM APP

Um grande momento do Gastronomia Periférica veio com a busca por um lanche vegetariano na quebrada e um toque na tela. Após queimar as pestanas à procura de uma lanchonete que atendesse uma amiga vegetariana no Jardim São Luís, Leitte percebeu que era preciso mapear os lugares para comer. Afinal, outras pessoas deviam passar pela mesma situação. E, assim, ele decidiu fazer um aplicativo que, afora mapear lugares gastronômicos na periferia, dá dicas aos usuários – além de ser uma ótima vitrine aos restaurantes e garantir circulação da grana na própria quebrada. No app com o mesmo nome do negócio e disponível para Android e iOS –, há categorias como lanchonetes e restaurantes, boteco, comida de rua, cursos e oficinas, festas e eventos.

“O app é um marco na história do Gastronomia. Ele marca a parceria entre o Edson e eu, pois foi nossa primeira criação juntos, e ela já trazia, em seu cerne, a questão primordial: precisamos fortalecer a economia local, colocar dinheiro na mão da periferia”, explica Rodrigues. “Para isso, as pessoas necessitavam mudar o olhar, descobrir que o restaurante da periferia é rico em sabores e experiências. O app colocou luz nesses empreendimentos, pois, a partir dele, criamos nossos pilares de atuação e entendemos que precisávamos nos munir de conhecimento sobre negócios também, que é de onde surge nossa participação na aceleração do VAI TEC”, completa ela. O VAI TEC (adesampa.com.br/vai-tec/) trata do Programa de Valorização de Iniciativas Tecnológicas, que tem caráter municipal e é gerido pela ADE SAMPA, a Agência São Paulo de Desenvolvimento, previsto na Lei nº 15.838/2013. Segundo o edital, o programa tem a finalidade de “estimular e apoiar financeiramente o desenvolvimento de empreendimentos inovadores que utilizem tecnologia como parte essencial de modelo de negócios, em especial aqueles ligados às tecnologias da informação e comunicação (TIC), desenvolvidas por jovens de baixa renda e de regiões menos privilegiadas da cidade de São Paulo”. A utilização da tecnologia para o apoio e soluções de impacto é um dos pontos principais ressaltados pelo Mapa de Impacto 2019 da Pipe.Social – empreendimentos que são tech-friendly costumam despertar mais interesse de investidores.

 

IDEOLOGIA: EU QUERO UMA PRA COMER

Ao empreender na periferia, hoje, é preciso estar atento para um duplo movimento. “Há o teor da militância, mas quem milita não pode passar fome devido à causa; é necessário a remuneração pelo trabalho. E há o movimento econômico sobre esses negócios – não por acaso, pessoas relacionadas a bancos estão agora investindo no social”, explica Rodrigues. O desafio da equação se dá justamente na busca pelo equilíbrio do propósito do negócio e como se manter vivo, ou seja, financeiramente viável, em meio ao ecossistema de impacto. “Dá pra ganhar dinheiro sem abandonar a sua militância – ela é a sua raiz, de onde você vem, e os grandes investidores estão interessados nisso. O que vende são as narrativas”, garante a gestora, que completa: “Todo mundo precisa viver, pagar as contas e fazer o negócio chegar a mais lugares”.

Ter um negócio social, sobretudo também na e para a periferia, é um ato político. O serviço de buffet do Gastronomia Periférica, a fim de manter a identidade do projeto em todos os locais onde circula, em ambos os lados da ponte, renomeou seu serviço de catering para rango. Além disso, o empreendimento traz em suas ações a preocupação com a reciclagem e a diminuição na produção de lixo. “Gerar pouco lixo não é o método mais barato, mas é algo em que a gente acredita”, comenta Rodrigues. No almoço do qual a reportagem participou, além de refeições que valorizavam a comida in natura, o prato no qual eram servidas as opções de macarrão era feito de folhas de bananeira. E vai além da ação consciente em relação ao planeta: o gesto agrega valor aos produtos e serviços da gastronomia periférica. Vale contextualizar: segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) no Brasil, anualmente, 1,3 bilhão de toneladas de comida são desperdiçadas ou se perdem ao longo das cadeias produtivas de alimento – volume equivalente a 30% de toda a comida produzida na Terra, anualmente. Tal dado evidencia a meta 12 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU) para 2013: “Assegurar padrões de produção e de consumo sustentáveis”.

Gerar o mínimo de lixo possível, ao lado do aproveitamento total e o combate ao desperdício é o tripé que embasa o serviço oferecido pelo Gastronomia. “Evitamos usar plástico ao máximo e escolhemos frutas para o cardápio nas quais podemos aproveitar tudo. Esses gestos fazem com que as pessoas entendam que não é só um serviço de alimentação, é um impacto na sociedade”, comenta ela. E tal métrica precisa estar evidente para quem os contratar.

“A gente destaca a importância de ser criativo no processo de empreendimento social. O centro costuma ter a grana, e a periferia tem a criatividade”

A valorização promovida por iniciativas como o Gastronomia Periférica vai além do hype que os empreendimentos relacionados à comida podem aparentar. O sucesso tem a ver também com o maior fluxo de informação sobre alimentos orgânicos e in natura, sobretudo em grandes metrópoles, onde é importante fortalecer pequenos produtores frente a um país marcado pela força do agrobusiness. “A gente destaca a importância de ser criativo no processo de empreendimento social. O centro costuma ter a grana, e a periferia tem a criatividade”, ensina Rodrigues. As Pancs utilizadas pelo negócio vêm de pequenos produtores, do mercado do Jardim São Luís, como forma de fortalecer a economia local – há também um fornecedor de São Lourenço da Serra, que é parceiro no empreendimento sobre cerveja de Panc. A comida é um jeito de conectar periferias e saberes ancestrais. “É um saber simples: vem das plantas, da forma de preparo, dos temperos, de comidas que eram tidas como sendo de pobres escravos, que contam história de povos!”, diz ela.

Para ela, o empoderamento é diário quando se trata do ecossistema de impacto – vem a cada ação e a cada novo negócio que surge. E o Gastronomia Periférica recebe pedidos de rango para diversos públicos. “Normalmente, atendemos empresas grandes, que estão preocupadas com uma narrativa diferente e mais sustentável. Mas fazemos de tudo, pois queremos atingir os dois públicos, tanto quem é pequeno e quer uma festa ou almoço em casa, quanto quem está propondo um grande evento”, garante a coordenadora.

 

AUPA – ANO 1: encontro terá lançamento de Webdocumentário e painel sobre o setor de negócios de impacto na periferia

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Onde a periferia e os negócios de impacto se encontram?

 

EVENTO: Em comemoracão pelo seu 1º ano, a AUPA lança no próximo dia 30/5, às 10h, no espaço CIVI-CO em São Paulo, o seu primeiro webdocumentário Perimpacto: onde a periferia e os negócios de impacto se encontram

Além da exibição do Webdoc, o encontro contará com um painel para debater os desafios do ecossistema na tentativa de conectar negócios de impacto e negócios das periferias, tema que vem gerando muito interesse de empreendedores, investidores, aceleradoras, academia e governo.

O painel traz 4 importantes atores do ecossistema: Ana Paula Nascimento, da Empreendtiradentes, Anna Souza Aranha da Quintessa, Frederico Celentano da AdeSampa e Mariana Fonseca da Pipe Social. A mediação será de Ivan Zumalde, publisher da Aupa.

O mini documentário, produzido no último mês de abril, traz depoimentos de especialistas do setor como Edgard Barki, Eduardo Pedote, Vivianne Naigeborin, Maure Pessanha, Marcelo Rocha, o Dj. Bola e Fabiana Ivo da ANIP.

O projeto também contempla a visão da periferia pelos seus próprios protagonistas, com entrevistas realizadas com empreendedores e apoiadores locais em Itaquera e Cidade Tiradentes, bairros nas margens da Zona Leste de São Paulo. O filme é dirigido pela Zine Filmes e tem o apoio do Instituto Sabin.

 

SERVIÇO:

Dia: 30/5 – 10h às 12h – GRATUITO
Onde: CIVI-CO, Rua Dr. Virgílio de Carvalho Pinto, nº 445, Pinheiros

 

Para participar do evento, faça sua inscrição aqui.

 

DOSSIÊ ÁGUA 2: entre o negócio de impacto e o direito à vida (parte 2)

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O CASO DA ÁGUA AMA

A água AMA, da Ambev, também é uma iniciativa inserida no debate e nas ações acerca do acesso à água potável. Segundo a empresa, o projeto trata da comercialização de água mineral natural engarrafada, cujo 100% do lucro obtido nas vendas é revertido para projetos de acesso à água potável para a população do Semiárido brasileiro. Na página oficial é possível acompanhar o lucrômetro em tempo real – a cifra registra lucros que ultrapassaram três milhões de reais [6/5/2019]. “Os projetos que investimos possuem diferentes formatos e adequam-se conforme a necessidade de cada comunidade. Para isso, contamos com a parceria da Fundação Avina, ONG que articula ações de desenvolvimento sustentável na América Latina”, comenta Filipe Barolo, gerente de sustentabilidade da Cervejaria Ambev. Segundo dados do Ministério das Cidades (2018), mais de 35 milhões de brasileiros não têm acesso à água potável e 100 milhões não têm saneamento básico.

nota: a reportagem não conseguiu informações sobre a porcentagem de garrafas que retornam para reclicagem (fotos: divulgação AMBEV)

Após a realização de diagnóstico das comunidades locais, com auxílio de parceiros destas localidades, avalia-se cada caso e escolha-se uma solução. Os projetos podem ser perfuração e poços profundos para captação de água, placas solares para baratear o custo de distribuição – e também garantir a sustentabilidade ambiental, revitalização de sistemas de distribuição inoperantes e/ou construção de cisternas em escolas, juntamente com sistemas de reuso de águas cinzas (água residual não industrial, proveniente de processos como lavar a roupa, a louça ou tomar banho). Por fim, as soluções podem ser também o manejo de hortas e capacitações em meio ambiente.

Lançada em 2017, Barolo explica que a AMA é um dos principais negócios com esse tipo de impacto social feito por uma grande empresa no Brasil. “A ideia surgiu em 2016, depois que participamos de um curso de negócios sociais do Yunus Social Business. O desejo era criar algo que fizesse parte do nosso portfólio e que causasse impacto positivo no mundo”, comenta ele – na ocasião, a Ambev ainda não tinha uma marca de água. Entre a ideia e o lançamento do projeto, a empresa levou quatro meses e, resultados de 2017, já indicaram que a empresa vendeu 3,1 milhões de garrafas de água de 500 ml. No ano de 2018, esse número saltou para 9,4 milhões. Sobre os resultados sociais e as pessoas impactadas pelo projeto, o gerente comenta que, “Hoje, já alcançamos todos os estados que compõem a região do Semiárido brasileiro, com 28 projetos em andamento e, entre abril e maio deste ano, vamos concluir outras iniciativas que vão elevar o número de beneficiados para 35 mil pessoas”.

As comunidades selecionadas para participarem do projeto e receberem os incentivos passam por treinamentos, conduzidos por parceiros locais, a fim de ajudar na gestão de sistema de água, bem como mantê-los em condições apropriadas para o uso – a mensuração dos resultados e do impacto, assim, é feito pelo acesso da população à água potável. “Dentro do modelo de gestão dos projetos, implementado nas comunidades, os próprios moradores elegem um responsável por gerenciar o sistema de água, que será remunerado mensalmente por seu trabalho, com recursos provenientes de pagamentos feitos pelas famílias que utilizam o recurso”, destaca Barolo. “Dessa forma, valoriza a água, para que seja utilizada de forma ainda mais sustentável. As comunidades ganham acesso à água e também independência”, comenta.

Placa solar instalada com o apoio do projeto no município de Aiuaba (CE), no sertão de Inhamuns, distante 435km da capital (fotos divulgação AMBEV)

Marcado pela escassez hídrica, o Ceará teve seis projetos financiados em áreas rurais, com instalação de poços profundos e painéis solares (microusinas de energia solar para barateamento do custo de distribuição da água). Os sistemas produzem de 10 a 15 mil litros de água potável por hora, abastecendo cada comunidade ininterruptamente. As iniciativas consistem em sistemas de água gerenciados por uma associação de comunidades, o SISAR (Sistema Integrado de Saneamento Rural. “O SISAR criou um modelo comunitário autossustentável para gestão de sistemas de bombeamento de água, reconhecido pelo Banco Mundial como um dos melhores sistemas de gestão de água rural do mundo”, afirma o gerente.

Nos primeiros estudos, feitos pela própria Ambev e relacionados aos impactos das ações do projeto AMA e ao IPS (Índice de Progresso Social, um indicador que combina uma série de validações sociais e ambientais), evidenciam melhoras relacionadas à água e saneamento, como saúde, mas também mede inclusão, principalmente, na vida das mulheres. “Elas conquistaram mais liberdade. Antes, eram as principais encarregadas de buscar água em locais distantes, perdendo até seis horas por dia com a tarefa. Agora, com mais tempo disponível em suas rotinas, elas podem dedicar-se a outras atividades, como capacitação e trabalho, para gerar mais renda às suas famílias”, conclui Barolo.

A ÁGUA E O ESTADO BRASILEIRO

No último dia 11 de abril, o Governo Federal lançou o Plano Nacional de Segurança Hídrica  (PNSH), um estudo sobre os principais problemas do país relacionados à água – faça o download do plano aqui. O plano traz projeções para 2035 e trata de segurança hídrica em quatro dimensões: econômica, humana, ecossistêmica e de resiliência. Um dos objetivos do PNSH é reduzir os impactos, via intervenções, de potenciais perdas associadas a atividades, como a indústria e a agropecuária. O documento foi produzido pela Agência Nacional de Águas (ANA) e pelo Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR).

Instalações do complexo administrativo da Agência Nacional de Águas (ANA) (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Pensar a água é também retratá-la enquanto um direito social e o PNSH pode ser um instrumento constitucional importante para assegurar a água como direito dos brasileiros. Vale ressaltar que o acesso à água potável é um direito humano fundamental, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). Em 2014, a Assembleia Geral votou a favor de resolução que confere o acesso à água limpa e segura e ao saneamento básico como direitos assegurados. O acesso à água potável e ao saneamento básico também está retratado nos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), também da ONU.

É em razão dessas garantias e da necessidade de água para o desenvolvimento das civilizações que, comumente, este recurso natural é pauta de interesse público, da iniciativa privada e, naturalmente, de incidência na esfera política. Em 2019, por exemplo, o debate sobre processos de dessalinização na região do Semiárido brasileiro voltou à tona na esfera federal, com aproximações diplomáticas e de negócios entre Brasil e Israel em relação à pesquisa e de tecnologias para dessalinização e irrigação da região.

O Programa Água Doce, do Ministério do Meio Ambiente, existente desde 2004, trata de uma iniciativa do governo federal em parceria com instituições estaduais, municipais e também da sociedade civil, e tem como objetivo estabelecer uma política pública permanente “De acesso à água de qualidade para o consumo humano, incorporando cuidados técnicos, ambientais e sociais na implantação, recuperação e gestão de sistemas de dessalinização de águas salobras e salinas”, segundo o site oficial do programa. O debate público sobre o tema é amplo e envolve vários atores. Estão no cenário os interesses geopolíticos por trás de uma potencial parceria estrangeira e como estas iniciativas afetariam a soberania nacional, incluindo os estudos/das pesquisas brasileiras. Há também a reflexão sobre de que maneira as iniciativas do Programa Água Doce e de negócios de impacto – como os exemplificados nessa série de reportagens–, podem contribuir para a solução dos problemas de acesso à água potável e ao saneamento básico. O debate deve seguir.

Nessas políticas, encontra-se também a transposição do Rio São Francisco, a partir do Projeto de Integração do Rio São Francisco com a Bacias do Nordeste Setentrional (PISF), cujo objetivo é garantir segurança hídrica a 12 milhões de brasileiros, distribuídos em 390 municípios, nos estados de Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte, onde a estiagem é frequente. Em 2017, as águas do rio São Francisco chegaram à Paraíba, trazendo garantia de acesso à água para cerca de um milhão de pessoas, segundo o Ministério de Desenvolvimento Regional. O projeto trata da maior obra de infraestrutura hídrica do país, dentro da Política Nacional de Recursos Hídricos. Ainda existem incertezas sobre as políticas do atual governo federal, mas o território permanece com a demanda. No Nordeste, concentram-se 28% dos brasileiros e 3% da disponibilidade de água em território nacional – o Velho Chico detém 70% de toda oferta de água da região, revelando-se, assim, uma alternativa viável para o projeto, segundo o Relatório de Impacto Ambiental (RIMA), tendo suas avaliações técnicas e de impacto ambiental e econômico a cargo do Plano Decenal da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco, concluído pela Agência Nacional de Águas (ANA).

Foto da 2ª Estação de Bombeamento do Eixo Norte do Projeto de Integração do Rio São Francisco em Cabrobó / PE (Beto Barata/PR)

Já na região da Grande São Paulo, a Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) e a BRK Ambiental (empresa privada de saneamento básico) fomentam o projeto Aquapolo. A iniciativa trata de um empreendimento para produção de água de reuso industrial, fornecendo 650 litros por segundo de água de reuso para o Polo Petroquímico da região do ABC Paulista. A região metropolitana paulista apresenta o chamado estresse hídrico, pois a Bacia do Alto Tietê precisa dar conta de 39 municípios – cerca de 20 milhões de habitantes. Isso significa sete vezes menos água por habitante do que a ONU recomenda como mínimo aceitável. Vale lembrar que a região é recentemente marcada por índices escassos no reservatório e São Paulo tem um rio morto que corta a cidade, o rio Tietê.

Os exemplos, experiências e iniciativas relatadas na série “Dossiê Água: entre o negócio de impacto e o direito à vida”, servem de base para gerar reflexões e abrir caminhos na complexa trilha entre o poder público e a iniciativas privada, mas evidenciam dois problemas estruturais: a desigualdade na distribuição e no acesso à água. E jogam a responsabilidade da solução no diálogo entre políticas públicas aliadas às organizações e iniciativas de cunho privado, onde estão inseridos os negócios de impacto. Ao final, o que todos desejam é obter água a partir de necessidades locais e gerida de forma sustentável. O papel dos negócios sociais e de impacto social diante deste contexto é fundamental e uma saída para este desafio demanda ações concretas locais e integradas entre todos os atores do ecossistema, principalmente com a comunidade. Cada um com seu papel para garantir o direito básico de acesso à recursos naturais, utilizando tecnologias sociais e mecanismos de impacto positivo sustentável para ultrapassar gerações e assegurar água para todos.

Para ler a primeira parte clique aqui

Empreendedorismo exige trabalho coletivo

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Diferentes trajetórias, mas reunidas por sermos “periféricas”. Éramos jovens jornalistas, cada uma moradora de um bairro diferente das regiões mais afastadas da cidade de São Paulo, quando criamos o coletivo “Nós, mulheres da periferia”.

Hoje, somos um projeto jornalístico independente, atuante em diferentes plataformas de comunicação. Nossa principal diretriz é disseminar conteúdos produzidos por mulheres e a partir da perspectiva delas, tendo como linha editorial a intersecção de gênero, raça, classe e território.

Juntas fazíamos parte do Blog Mural do jornal Folha de S. Paulo. O projeto cresceu e se tornou a Agência Mural de Jornalismo das Periferias, que mantém o blog e também produz conteúdo próprio e para outros canais de comunicação, mobilizando mais de 60 pessoas.

Em 2012, surgiu a oportunidade de preparar um conteúdo especial para a versão impressa do jornal sobre o Dia Internacional da Mulher. Em 7 de março, integrantes fundadoras do coletivo publicaram um artigo atentando para a invisibilidade e direitos não atendidos de uma parte das mulheres – as que moram em bairros periféricos de grandes metrópoles. O título escolhido foi: “Nós, mulheres da periferia”.

O texto teve grande repercussão e foi replicado em outros veículos de mídia, além de ter encontrado eco entre nossas iguais: mulheres moradoras da periferia que se sentiram representadas. O artigo foi amplamente compartilhado nas redes sociais e, além disso, leitoras do jornal se manifestaram por cartas e mensagens. Percebemos, naquele momento, a existência de um vazio de representatividade. A partir de então, iniciou-se o processo de pesquisa e consolidação do coletivo.

O website nasceu em 2014 com o intuito de contribuir para a construção de narrativas jornalísticas mais humanas e contextualizadas. Além do site, que mantemos permanentemente, realizamos em 2015 o projeto “Desconstruindo Estereótipos”, promovendo oficinas sobre mídia em diferentes bairros e organizações sociais, impactando cerca de 100 mulheres. Em consequência, nasceram a mostra artística “Quem somos [POR NÓS]” (2015) e o curta-metragem “Nós, Carolinas” (2017).

Construímos o coletivo de forma muito orgânica e espontânea. Primeiramente, ao nos assumirmos feministas. Antes, esta nunca tinha sido uma questão e, com a repercussão, tivemos que, nós mesmas, entendermos que fazíamos parte de uma causa, ainda que a partir de uma diversidade de ideias, crenças e opiniões.

Também refletimos sobre como gostaríamos de construir nosso trabalho, se dentro de uma perspectiva voluntária e militante ou se estávamos defendendo uma causa profissionalmente. Diante disso, em 2018 resolvemos conciliar as duas possibilidades e nos formalizamos com um CNPJ.

Nossas experiências a partir das nossas periferias sempre nos colocaram em ações coletivas, seja por necessidade ou por culturalmente vivermos em comunidades. Entendemos que empreendedorismo exige trabalho coletivo e que, ao que hoje se atribui à criatividade e inovação nos projetos e negócios, venha de nossas origens que, claro, conseguimos aperfeiçoar com acesso à educação.

Queremos compartilhar, então, nossas experiências, refletindo sobre quais são as práticas possíveis, viáveis, dignas para o empreender feminino (e feminista) nas periferias. Para isso, também pretendemos ouvir mulheres e apresentar outras histórias, pois, afinal, “Nós, mulheres da periferia” somos diversas e nos opomos aos perigos da história única.

EU ERREI: Dj Bola – Agora sim, tudo nos trinques

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“De fato tomei um chapéu de burocracia por não me atentar aos prazos. ”O depoimento de Marcelo Rocha, o DJ Bola, poderá não ser uma novidade para muitos empreendedores que já se enrolaram por alguma questão jurídica ou burocrática da empresa. Fundada por Bola, A Banca nasceu em 1999 como um movimento de música, cultura e educação popular no bairro do Jardim Ângela, zona sul de São Paulo. Com o tempo, o movimento se reconheceu enquanto negócio social e, atualmente, tem CNPJ de associação e título de Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip). Porém, mesmo depois de passar por tantas orientações, um dos deveres requeridos dessa razão social acabou passando batido, o que cobrou um custo alto. “Não podíamos sacar, receber, emitir nota ou fechar novos negócios.”

Veja a reportagem completa e o 10º episódio da série aqui

 

O empreendedor e a importância de ser agnóstico para o sucesso do seu modelo

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O tempo não para…

Como empreendedor, muitas vezes eu bem que gostaria que o tempo parasse. Perguntas sem respostas, recursos escassos, lacunas de informação e dados relevantes, dúvidas em relação ao que fazer ou como fazer e, claro, qual decisão tomar! Diversas são as questões que podem colocar o empreendedor contra a parede e testá-lo. Dependendo da natureza, preparo, capacidade, experiência e serenidade de cada um, o risco é paralisar ou retardar o desenvolvimento do negócio, comprometendo, inclusive, a sua existência ou, na melhor das hipóteses, a sua atratividade.

Na maioria das vezes, os empreendedores subestimam o tempo de desenvolvimento e maturação do modelo. Essa é uma evidência que colho da minha jornada empreendendo e apoiando empreendedores. Não importa se por otimismo em excesso ou por “atritos na pista” de diversas naturezas, o fato é que não é verdade que aprendemos a domesticar o tempo a nosso favor.

Qual a relevância disso para nossa chance de sucesso?

Aqueles que estão olhando para o saldo diário em conta-corrente sendo reduzido, sem o avanço desejado na trilha do negócio, podem responder com maestria.

Para startups em estágio inicial, essa é a principal questão para a sua sobrevivência e evolução. Como já escrevi em outro artigo aqui, o único indicador realmente relevante para esse estágio do negócio é o runway. Em outras palavras, o tempo de vida que a startup tem, calculado pela divisão entre o caixa total em conta-corrente e o valor mensal das saídas líquidas (ingressos menos saídas para pagar custos e despesas), também conhecido como cashburn.

A cultura do projetar versus a do experimentar

A forma mais adequada para lidar com essa armadilha do tempo é fortalecer uma cultura agnóstica, orientada para a experimentação e para o aprendizado veloz, baseado em fatos.

O que isso significa na prática do dia a dia?

Quando estamos na fase de buscar o modelo de negócios, só existem hipóteses. Adotamos premissas sobre diversas particularidades do cliente-alvo, do produto, do preço, dos canais de venda, da comunicação e afins. Ser agnóstico, nessa etapa, significa tratar uma hipótese como o que ela é. Ou seja, algo não comprovado, uma suposição. Hipóteses são o resultado de um exercício de laboratório que todo empreendedor faz quando se debruça sobre mesas de reuniões, post-its, canvas etc.

Como sabemos, não basta estruturar hipóteses robustas para obter êxito. Ter a honestidade e o desapego necessários para lidar com as evidências que emergem do campo de testes, onde a realidade acontece, é essencial para a evolução consistente da busca. Nessa trilha, a verdade não está no laboratório e nem existe a priori. A verdade é uma conquista obtida no campo de jogo, na interação com o possível cliente, com os parceiros e aliados do projeto que estamos construindo.

Quando projetamos o futuro desejado em fluxos de caixa e teimamos em tentar encaixar o pitch e a realidade nas planilhas, temos uma atitude oposta a essa cultura empírica. A cultura de projeções pode ser útil para empresas consolidadas e com elevada previsibilidade de modelo. Não serve para startups. Para elas, a planilha é apoio apenas, dinâmica, em constante evolução à medida que os fatos consolidam aprendizados, validando as hipóteses assumidas ou exigindo um movimento de pivot

O desafio das escolhas e renúncias

Diante desse contexto e nesse estágio inicial, a capacidade de aprender rápido é o maior ativo que o empreendedor pode ter. E arrisco afirmar e destacar que, para essa capacidade estar presente, dada a complexidade e a volatilidade da nossa realidade, a competência essencial que precisa existir no time estratégico é aprender a aprender.

Por isso, viabilizar o engajamento e o desenvolvimento de um time agnóstico, empírico, competente para aprender a aprender o que for necessário e de forma veloz é o foco número um do empreendedor que está na fase de busca de um modelo de negócios exitoso. Quanto mais fortalecida for essa competência no time, maior será a sua capacidade de fazer escolhas e renúncias assertivas, tomar decisões na velocidade adequada e, com isso, ampliar as chances de superação dessa etapa na jornada empreendedora.

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