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Festival de Inovação Arena BlackRocks

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Nesta pandemia, as empresas, em seus diferentes portes, passaram por transformações e adequações. Porém, muitas vezes, sobretudo o pequeno empreendedor precisa de um primeiro passo – ou uma conversa com quem entende do assunto para realizar mudanças. Já falamos sobre a importância da comunicação nos negócios e agora é a vez da inovação tecnológica.  E é esta oportunidade que você poderá vivenciar no festival de Inovação Arena BlackRocks, que valoriza o conteúdo produzido por pessoas negras de diferentes regiões do país.   

O evento será gratuito, on-line e contará com mais de 50 palestras, cujos conteúdos serão ministrados por profissionais das áreas de inovação, tecnologia e negócios digitais. As palestras simultâneas do Arena BlackRocks [clique no hiperlink para se inscrever] acontecerão entre os dias 13 e 18 de Julho, sempre às 18h, 19h e 20h.

Os painéis e as palestras contarão com profissionais de diversas regiões brasileiras, tendo curadoria nacional nas seguintes cidades: São Luís (MA), Cuiabá (MT), Rio de Janeiro (RJ), Florianópolis (SC) e São Paulo (SP). O festival é uma iniciativa da BlackRocks Startups, aceleradora que incentiva a população negra brasileira a acessar o ecossistema de inovação, tecnologia e startup.

Maitê Lourenço, fundadora e CEO do BlackRocks Startups, destaca a relevância do evento neste contexto pandêmico. “Entendendo que a população negra é a mais prejudicada em nosso país, se faz urgente criar mecanismo para capacitá-la e promover a ampliação de nossas atividades. Estes já são nossos objetivos, como BlackRocks, e, agora, durante a pandemia de COVID-19 e diante das consequências econômicas, se faz mais do que necessário o processo educacional para o nosso povo”, enfatiza ela.

O evento é voltado a profissionais que desejam se aprimorar ou tenham interesse em ingressar em áreas como marketing, design, desenvolvimento, vendas, metodologias ágeis, entre outras. Relacionam-se ainda a este público-alvo empreendedoras e empreendedores que possuem o desafio de realizar a transformação digital em seus negócios, escalar ou criar uma startup.

Um chamado para ser ponte

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Inicio este texto saudando nossas forças. Salve, salve, nossas forças. Salve, leitora e leitor dos canais da Aupa. Precisamos, genuinamente, buscar meios para nos desafiar a pensar um futuro próximo em meio ao caos da pandemia. Tempos complexos e difíceis de compreender, mas de fundamental importância para buscarmos uma construção de rede próxima e aproximada das pessoas e/ou organização que potencializam as pontes de apoio. Apoio estes de diferentes frentes e possibilidades. Práticas cotidianas ancestrais de amparo, cuidado, afeto. Tempos que enxergamos o amor e o ódio no mesmo dia e em diferentes esferas, mas que precisamos do fundo do nosso coração pensar no futuro.

Na coluna do mês passado, citei Aílton Krenak, neste mês trarei um dialeto africano: “Nossa cabeça pensa conforme nossos pés pisam”. Não tem sido nada fácil para as empreendedoras e os empreendedores das periferias deste Brasil com as não possibilidades de eventos, vendas diretas e a rua como vitrine do nosso fazer. Estamos tendo as finanças totalmente alteradas ou, até mesmo, extintas. Neste momento, 37% dos moradores das periferias que pediram o auxílio emergencial ainda estão em análise ou foram negados ao acesso dos R$ 600,00 que daria um fôlego. Muitos desses moradores são e estão nas empreitadas do negócio próprio, das frentes empreendedoras, sejam de negócios de impacto da periferia, sejam de meios tradicionais do fazer da sua força de trabalho, do seu ganha-pão. 

Dentro desse percentual, dos que ainda aguardam ou buscam novamente o acesso ao auxílio, há um número expressivo que não tem outra possibilidade de finanças. O aluguel, as contas básicas e os alimentos começam a ficar sem possibilidade de custeio e muitas destas pessoas contam com apoio das organizações sociais ou de pessoas que estão organizando meios de compartilhar cestas básicas de alimentos. É difícil ver empreendedoras solicitarem as cestas básicas neste momento – há três meses, estas mesmas pequenas empresárias conduziam seus negócios, com sucesso, e hoje não têm o básico para a alimentação de suas famílias. Segundo ouvi de uma delas, “Quando chega a cesta, eu agradeço, porque agora meu filho pedirá e eu terei [alimento] para fazer”; é forte e desumano com todo o esforço empregado para realizar o sonho de ser dona do seu negócio. 

Mesmo com o número expressivo de aportes financeiros por meio do microcrédito oferecido pelas redes tradicionais bancárias, mulheres como esta acima mencionada e tantos outros empreendedores não conseguem acesso, ora pelo nome com restrição, ora por preconceito de CEP, ora pela impossibilidade de ter um fiador (pois este deve ter três vezes o valor do empréstimo como garantia de pagamento). O que se apresenta no mercado formal não atende às necessidades das empreendedoras das periferias. Desse modo, no momento em que o Covid-19 acomete o Brasil, algumas organizações e institutos criam meios próprios ou em parcerias para dar conta deste empréstimo, com a necessidade deste empreendedor olhada de forma próxima, como tem feito o Empreende Aí e a Firgun, o ÉdiTodos (composição de negócios de impacto das periferias), a ANIP e o Banco Pérola ou os matchfundings, como o da Fundação Tide Setubal. Dentro das formas possíveis, há os empréstimos com juros baixo, os sem juros (para aqueles já atendidos pelas aceleradoras) ou ainda as vaquinhas virtuais (podendo ter o valor triplicado pela organização e seus parceiros, como é o caso do matchfunding da Fundação Tide Setubal). Diante destas iniciativas, pode-se dizer que foram e vêm sendo meios para a sobrevivência de alguns negócios e/ou empreendedores.

Veja, estou dizendo que, neste momento, mais do que nunca, as desigualdades se mostram nas periferias e quebradas dos Brasil. Observar e ser parte deste lugar de fala tem nos ajudado a ter ações mais concretas e direcionadas à necessidade imediata do fazer empreendedor. É preciso também dar um passo adiante: compreender que os insumos básicos nas operações dos negócios/empreendimentos são amplos, vão desde o crédito até o Wi-Fi (ou seja, internet para as possibilidades de vendas on-line ou de participação em espaços que dê apoio formativo, dados de operadoras para as facilitações dos canais de comunicação, investimento em postagens nas redes sociais para ampliar sua possibilidade de vendas). 

“Como assim, Fabiana? O empreendedor precisa de tanto auxílio?” Sim, neste momento, as ações deixam de ser solitárias para ser solidárias, precisamos ouvir esse empreendedor e essa empreendedora na suas necessidades – premissa para que possam ter um bom desempenho e condições de passar por mais essa crise. Precisamos avançar nos aprendizados com as novas ferramentas. Os desafios com a internet, que chega nas pontas fragmentada, instável e com os equipamentos técnicos que nem todos antes da pandemia tinham já operacionalizado.

O ecossistema de negócios de impacto da periferia é amplo, pulsante, potente, mas passa por uma crise. E é preciso compreender que o networking neste momento, mais do que nunca, tem que ser rede: rede de apoio, rede de possibilidades, rede de redistribuição de recursos financeiros, rede de troca de conhecimento, rede de afeto. Comecei dizendo que “nossa cabeça pensa conforme nossos pés pisam” exatamente para chegar aqui. Você, que está na ponta, sabe onde seu sapato aperta. E, você, que está intermediando ou é a ponta da base da pirâmide, pode operacionalizar, levando em conta a escuta como premissa de todo o caminho a ser traçado junto e com os empreendedores da base da pirâmide e este, por sua vez, se permitir ser conhecido e conectado pelos seus iguais e por outros que possam contribuir na sua jornada. 

Nossa jornada precisa ser ampliada, por meio do fazer juntas e juntos, da interação, de compreender nossos privilégios e como eu posso aportar o que tenho em excesso ou como possibilidade de troca, meio de ser sujeito de mudança nas relações com o mundo. Que sejamos luz! Ponto de possibilidade! Roteiro da busca pela igualdade.

Aqui continuamos a caminhada acreditando que alguns seres humanos escolhem ser concreto através dos seus muros, nós, da ANIP, queremos ser ponte. Tudo isto vai passar!

Este texto é de responsabilidade da autora e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa.

Célia Cruz: “Uma coisa são os valores, outra é o propósito”

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À frente do Instituto de Cidadania Empresarial (ICE), Maria Célia Meirelles Toledo Cruz tem uma trajetória rica em experiências e ensinamentos para o setor. Economista de formação, ela se autodenomina como “exconomista,” e já foi diretora de ONGs no Brasil e pelo mundo. Nessa entrevista exclusiva para AUPA, feita antes da pandemia, ela fala sobre a importância da mulher no ecossistema de impacto, os filhos e um mundo que demanda inclusão e reconhecimento da diversidade, os preconceitos e o que a move hoje.

Atuação
– Diretora do Instituto de Cidadania Empresarial (ICE) desde 2012.
– Diretora da Ashoka Brasil, Paraguai e Canadá e Managing Director da Ashoka Global Fellowship (2002-2011).
– Trabalhou no Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS, 2000-2002) no tema fundações comunitárias.- Criou a Philantropics, empresa de consultoria em captação de recursos, em 1994.
– Trabalhou como Diretora de Desenvolvimento Institucional da EAESP/FGV (1994 a 2000).
– Graduada em Economia pela FEA/USP.
– Mestre pela EAESP/FGV, com intercâmbios na ESSEC, France e York University, Canadá.
– É coautora do livro “Captação de Diferentes Recursos para Organizações Sem Fins Lucrativos” (Global, 2000).

AUPA – Como é ser uma liderança feminina enquanto ainda há mais homens nos cargos de liderança? E como o ICE e a Aliança pelos Investimentos e Negócios de Impacto lidam com essa situação?
Célia Cruz – Dentro do campo das ONGs, onde também atuo, há presença muito forte das mulheres. Mas, para a minha surpresa, li recentemente uma pesquisa que indicava grande presença das mulheres, mas não nos cargos de liderança. E quando a gente vai para os conselhos, a situação também se repete. No caso do ICE, há várias associadas e, cada vez, mais estamos tentando trazer mulheres e jovens para a atuação, mas eu ainda não tenho um equilíbrio de gênero, mesmo implementando essa agenda. No conselho da Aliança é ainda menor. No do ICE são seis: Renata de Camargo Nascimento, Ana Helena de Moraes Vicintin, Luiza Nascimento, Karen Baumgart Srougi e Isabela Pascoal Becker, enquanto que na Aliança temos duas, Maria Alice Setubal e Alice Freitas, então temos muito a avançar.

AUPA – E no campo de negócios de impacto? Como vê o cenário para as mulheres?
Célia Cruz – A realidade é ainda de predominância de empreendedores homens dentro do campo. Quando decidimos investir em negócios (o ICE fez uma parceria com o BID para investirmos em 16 negócios, em duas chamadas 2017 e 2018), eu tive um empenho muito grande em trazer todas as mulheres que tinham começado um projeto para o campo. A ideia era a gente fazer uma ação para trazer mais empreendedoras para nosso portfólio, mas muitas não avançaram e não finalizaram suas inscrições. Então, é um desafio muito grande dentro do campo. Em um evento do Pacto Global, foi mostrado como ainda é muito baixo o número de mulheres no comando de empresas no Brasil, nossas ações também vão permear essa agenda. Como exemplo, temos uma meta de gênero no Fórum de Investimentos e Negócios de Impacto [o encontro é promovido por ICE, Impact Hub São Paulo e Vox Capital; sua versão on-line  ocorrerá entre os dias 31/6 e 1º/7 e, por enquanto, a presencial está remanejada para novembro]. Vou trazer uma lésbica que está olhando para as questões de impacto, além de uma trans para também trazer esse tema. O objetivo é saber o que elas estão sentindo do campo de negócios de impacto. Indagar por que os investidores ainda não têm esse olhar de gênero? Por que a gente ainda não vê tantas empreendedoras? Por que as mulheres, quando empreendem, acessam um capital menor e, quando elas começam a crescer, deixam de acessar um capital maior? Então, acho que tem uma série de temas, mas não só no mundo dos negócios: são questões também presentes no mundo das ONGs, por exemplo, e que precisamos trazer para pensar sobre a presença das mulheres nos cargos de liderança.

AUPA – Como é essa situação dentro da esfera familiar? Sendo mãe de dois homens, como é sua relação com eles para mostrar a importância de um mundo mais inclusivo?
Célia Cruz – Meus filhos são muito conectados à questão dos problemas socioambientais. Eles têm uma mãe ongueira, um pai ongueiro ambientalista e ainda pegaram uma geração em que essa discussão é muito forte, onde as meninas são muito do diálogo e conversam muito mais do que na minha geração. Mas a sociedade ainda é pouco inclusiva. Para a minha surpresa, quando um deles entrou em Ciências da Computação, em São Carlos, na sala com mais de 100 alunos, apenas quatro eram mulheres. Cadê as mulheres na tecnologia? Foi uma coisa que chamou a atenção deles. Eu até falei: “Vai conversar com essas mulheres, fortalecê-las para irem falar em outros lugares”. Se o mundo na minha geração não viu igualdade nas mulheres, pelo menos que os percentuais estejam muito melhores daqui para frente. Eu penso que a geração deles já é mais consciente nessa questão, mas, sempre que posso, trago temas do movimento de mulheres lésbicas, trans e toda a questão da agenda LGBTQI+ – e eles são super defensores.

AUPA – Dentro dos negócios de impacto é comum vermos muitas mulheres liderando os negócios, mas quase sempre são os homens os porta-vozes. O que acha disso?
Célia Cruz – Olha, isso é tão absurdo. Eu tenho mais concordâncias do que soluções. Por exemplo, a gente é investidor de um negócio formado por um casal (sócios), com habilidades muito complementares. Toda vez que a gente fala, fazendo perguntas específicas para a mulher, ela começa a falar e ele começa a falar em cima, a ponto de a gente chamar a atenção. É muito comum: quando uma mulher empreende um negócio, muitas vezes, é o marido que larga o emprego para ir trabalhar no negócio dela e acaba assumindo um lugar de empreendedor. Existe também o negócio que o marido montou e a mulher assumiu, mas, de fato, é mais comum o contrário. Então, é um tema importante para debater.

AUPA – No caso dessas mulheres que estão iniciando seus negócios: o que você poderia dizer a elas?
Célia Cruz – As mulheres precisam acreditar mais nelas. A gente vê, toda hora, histórias de mulheres que fazem o mesmo curso que os homens e, quando você pergunta “O que você aprendeu?”, ela responde “Aprendi 80%”, enquanto o homem diz “Aprendi 110%”. Então, é preciso fortalecer as mulheres, pela sua capacidade. É preciso empoderá-las. Além disso, há uma questão de arriscar mais também, pois acho que os homens acabam arriscando muito mais. Por exemplo, quando falamos de acesso ao capital, o Itaú  diz que as mulheres acessam recursos até R$20 mil, mas, quando você está indo para outro volume, elas já não acessam, elas têm medo.  E o banco diz: “Poxa, deve ser por causa do nosso gerente, vai ver que é porque a gente é meio machista na sala”. E o departamento de microcrédito do Itaú, que é liderado por uma mulher, até está tentando fazer uma série de ações para auxiliar as mulheres no seu portfólio, mas estão com dificuldades para ampliar.

As mulheres precisam acreditar mais nelas. A gente vê, toda hora, histórias de mulheres que fazem o mesmo curso que os homens e, quando você pergunta “O que você aprendeu?”, ela responde “Aprendi 80%”, enquanto o homem diz “Aprendi 110%”.

AUPA – Você trabalhou na Ashoka no Brasil e depois atuou fora do país. Quais as diferenças entre o cenário brasileiro e o de fora?
Célia Cruz – Sim, fiquei cinco anos como diretora na Ashoka no Brasil, daí eu fui para Washington (Estados Unidos) e, depois, para Ashoka global, onde essa agenda de mulheres também é muito presente. Eu estou lembrando de dados da África, que eram muito semelhantes ao que falamos há pouco.Trabalhamos a questão da agricultura e do microcrédito e era a mesma história sobre o acesso feito por homens aqui. A gente tinha um projeto muito grande que era para tentar mudar o percentual de mulheres empreendedoras na agricultura e tínhamos esse mesmo entrave. Quem acessava o dinheiro era o marido, quem tinha a conta bancária era o marido.

AUPA – E a experiência no Canadá? Como foi viver lá e o que podemos aprender ou ensinar entre os dois países?
Célia Cruz – Eu acho que o Canadá é um país com cuidado de narrativas. Não vou dizer que não existem problemas em relação às mulheres no Canadá, ainda mais em Toronto. O país também tem 55% da população imigrante, então é muito difícil eu dizer “a população canadense”, porque tem um monte de canadenses diferentes, de origem indiana, paquistanesa, chinesa, brasileira, tem de tudo e que trazem traços culturais diversos. Eu vi, por exemplo, uma morte, daquelas histórias, porque a filha teve um caso e daí matou todo mundo. Tirando esse lado, tem também o lado da gente pegar o empoderamento da fala. O primeiro ministro canadense (Justin Trudeau), em qualquer fala global, está trazendo o tema de respeito às mulheres, ele fala das filhas, é um cara brilhante. Assim que ele foi eleito, foi impressionante, porque era o mesmo mês que Michel Temer estava montando o seu ministério predominantemente com presença masculina e com pouquíssimas mulheres – e o de Trudeau tinha 50% de mulheres, tinha gays, tinha diversidade. O que é uma coisa óbvia para ele, uma pessoa que tem essa consciência de igualdade. Enquanto isso, no Brasil, estava lendo que mulheres deputadas ainda recebem abuso e muito mais violação.

AUPA – E como foi voltar ao Brasil e se deparar com outra narrativa?
Célia Cruz – Quando eu voltei do Canadá, me sentia tão incomodada com essas piadinhas no estilo “Perco o amigo, mas não perco a piada” e isso para a gente é uma coisa horrorosa. Como que não perde a piada? Tem que perder, sim, você não está no lugar do outro. O outro está sentindo a sua piada. Você está se fazendo essa pergunta? Então, eu conversava muito isso com meus filhos. De cuidar e de ter empatia com quem escuta a piada. Se para o outro pode ser de alguma maneira agressivo ou incômodo, não deveria nunca fazer uma piada, nem brincando. O brasileiro tem uma coisa até descuidada, acha que não perde a piada. Eu já tive discussões com sobrinhos e eu acredito que até hoje eles foram para outro lugar muito mais consciente. Uma sobrinha que está cursando Direito é super ativista para o direito das mulheres e ela não vai mais achar graça de uma narrativa que não cuida da fala em relação às mulheres. Eu acho que a gente mudou de lugar: é essa a sensação.

Como que não perde a piada? Tem que perder, sim, você não está no lugar do outro. O outro está sentindo a sua piada. Você está se fazendo essa pergunta?

AUPA – E qual a liderança feminina que lhe inspira?
Célia Cruz – Uma mulher que me inspira muito nesta agenda que estamos falando é a Amalia Fischer, coordenadora e co-fundadora do Fundo Elas. Ela viu a questão da ditadura em outros países. Veio da Nicarágua, depois foi para o México e agora está vendo isso aqui no Brasil. E vem dessa questão da violação das mulheres. No caso dela, é uma mulher lésbica que criou o fundo ELAS, para apoiar mulheres lésbicas, trans, de forma individual, coletiva, numa ONG. Ela me inspira muito. Eu a conheci, quando ela estava criando o fundo. Eu achei a visão dela muito inovadora. Eu estou falando de 20 anos atrás. E, hoje o fundo é grande, movimenta R$8 milhões por ano e está fortalecendo justamente essas organizações mais frágeis. Eu fico muito orgulhosa do trabalho que a Amalia está fazendo, de modo a reconhecer muitas mulheres.  

Aupa – E o que lhe move hoje?
Célia – Meu propósito hoje está nos negócios de impacto, mas já tive como propósito apoiar empreendedores sociais e a questão das ONGs e seu fortalecimento com captação de recurso. Outro dia, uma pessoa me falou que “Os valores da gente, a gente carrega para a vida”, mas uma coisa são os valores, outra é o propósito. Meu propósito nesse momento está nesse ecossistema de investimento, fortalecendo sempre a inovação social e as ideias inovadoras que possam ter cada vez mais impacto social.

Célia Cruz foi uma das protagonistas do especial #AupaMulheres. Na galeria abaixo, você pode conferir cada uma das lideranças femininas que participaram desta ação. As ilustrações foram criadas pela artista plástica Victoria Roman – conheça seu trabalho em @viccroman e linktr.ee/vilustra .

Célia Cruz
Fabiana Ivo
Thais Zschieschang
Izadora Mattiello
Adélia Rodriguez
Luciana Brasil
Ana Paula Nascimento
Silvia Caironi
Thais Piffer
Karen Polaz
Ednusa Ribeiro
Vivianne Naigeborin
Fernanda Rebelato
Anna Aranha
Andrelissa Ruiz
Jennifer Rodrigues
Maure Pessanha
Silvana Trucss
Manu Oliveira
Rachel Añón
Vanessa Prata
Dayse Rodrigues
Paola Prandini
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Os contrastes de uma pandemia

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Carlão do coletivo Cata Tudo. Créditos: Arquivo Pessoal.

No último mês, o Brasil chegou ao número histórico de R$5,5 bilhões doados para o combate à pandemia do Covid-19 no país, segundo monitoramento feito pela Associação Brasileira de Captadores de Recurso (ABCR). Deste total, R$4,5 bilhões saíram de empresas e, para se ter uma ideia do que esse número representa, é o equivalente ao montante aplicado em investimentos sociais nos anos de 2017 (2,4 bi) e 2018 (2,1 bi) somados – dados do relatório BISC 2019, com participação de mais de 250 empresas. Alavancadas pelo banco Itau (R$ 1,2 bilhões) e pela indústria de alimentos JBS (R$ 400 milhões), as doações tem como propósito financiar desde a infraestrutura de hospitais até a compra de respiradores, materiais de higiene, alimentos, confecção de máscaras e testes. Mas a complexidade do impacto da pandemia faz com que a mobilização vá além do aporte das empresas.

Diversas lives e centenas de campanhas de financiamento coletivo já movimentaram mais de R$400 milhões em doações para as mais variadas causas. O G10 Favelas, por exemplo, realiza simultaneamente mais de 20 campanhas de crowdfunding, para fomentar o empreendedorismo local e ajudar pessoas em situação de vulnerabilidade em várias favelas pelo Brasil. Destacam-se as campanhas da comunidade de Paraisópolis (Zona Sul de São Paulo): “Adote uma diarista durante o Coronavírus” e  “Ambulâncias, brigadas e socorristas”. Esta última visa a aparelhagem de bases de emergência de saúde na própria região devido à dificuldade alegada pelos moradores de serem atendidos pelo SAMU, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência.

Foi a partir da motivação em ajudar várias causas dentro desse contexto de enfrentamento que nasceu o “Fundo dos Amigos”, criado por Alex Fisberg, Mari Brunini, Mariana Resegue e Teresa Harari. Experientes na área de empreendedorismo social, cada um deles ajudou com um valor e foi atrás de amigos e pessoas próximas para captar doações. A decisão de limitar a divulgação do fundo entre amigos se explica pela confiança no grupo, para que pudessem agir como uma forma de curadoria, direcionando o dinheiro de quem queria doar mas se via paralisado por não saber que causa apoiar.

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Em duas rodadas de captação feitas ao longo de um mês, o grupo conseguiu R$82 mil, que foi destinado a 59 iniciativas de todo o país. “A gente queria uma diversidade grande, para estimular as pessoas que doaram a perceberem a amplitude das necessidades neste momento e o impacto que a gente poderia ter”, explica Fisberg. A escolha das organizações beneficiadas também passou por um minucioso trabalho de leitura de artigos e contatos com os organizadores das campanhas, além de levar em conta o impacto nas periferias e a temática social de cada uma delas (como ajuda a povos indígenas, população LGBT e movimentos negros).

A distribuição dos valores ficou entre R$1.000, como valor mínimo, e R$ 1.800, como valor máximo, a depender da necessidade que eles avaliavam de cada campanha (como a proximidade de bater uma meta, por exemplo). “Talvez num cenário diferente faria sentido apoiar apenas um grande intermediário que saberia distribuir bem os recursos, mas, no caso, a gente era o intermediário, então a ideia era fazer o dinheiro chegar na outra ponta”, conclui Fisberg.

A outra ponta
Carlos Antonio dos Reis, de 52 anos, o ‘Carlão Catador’, é coletor de material reciclável há duas décadas, e faz parte de um coletivo de 19 catadores do Jardim Itapema, bairro da Zona Leste de São Paulo. Com a determinação de isolamento social e por não ter o trabalho considerado como um serviço essencial, a solução encontrada para gerar uma renda para essas famílias foi a criação da campanha “Panela Velha”. A proposta é que as pessoas separem tudo o que pode ser reciclado, inclusive alumínio e papel, como panelas velhas e cadernos, e, então, todo o material é coletado na porta das casas. Em troca, os trabalhadores pedem uma ajuda de custo para pagar o deslocamento, combinado de acordo com a distância, e quem quiser contribuir com um valor extra para ajudar a campanha é muito bem-vindo. Ao saber dessa mobilização, Fisberg, que já conhecia o trabalho de Carlão, indicou a campanha para ser uma das beneficiadas pelo Fundo dos Amigos.

“Essas pessoas que apoiam campanhas pequenas, não sabem a diferença que estão fazendo. É uma diferença cultural – e também é diferença financeira. Estão tirando nós da mão dos atravessadores”, reflete Carlão. A última parte da frase se explica pelo preço que tem sido praticado na compra de materiais recicláveis, que caiu muito (o vidro, por exemplo, caiu de 14 para cinco centavos o quilo). Por conta disso, os catadores, que têm deixado todos os materiais coletados de quarentena antes de comercializá-los, estão guardando boa parte da coleta para não se sujeitar a esses preços. Além disso, parte do valor arrecadado volta a circular na comunidade, com a compra de máscaras feitas por costureiras que são do grupo de risco.

Diferentemente da maioria das iniciativas apoiadas pelo fundo, a “Panela Velha” não possuía uma campanha de arrecadação on-line, e por isso consta no relatório de transparência do grupo como “Cata Tudo e Recicla – Carlão”, que é como o catador divulga seu trabalho nas redes. Porém, a preferência por campanhas on-line se justificou para facilitar a parceria com o Instituto Sincronicidade, que cuidou da administração dos recursos (as doações eram direcionadas na conta do instituto), e também da parte jurídica e contábil. Além de dar esse apoio sem custos, o instituto também indicou algumas organizações a serem ajudadas e dobrou o valor do aporte direcionado a elas pelo fundo.

Conheça a equipe do “Cata Tudo e Recicla – Carlão”, na galeria a a seguir.

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Campanha Cata Tudo e Recicla – Carlão
O grupo de Carlão lançou a “Campanha da Panela Velha”, que funciona da seguinte forma:
Em sua residência, você separa panelas, cadernos, revistas antigas e livros. A equipe do Cata Tudo buscará o material e pedirá uma ajuda de custo, entre R$25 e R$30 – o valor fica a critério da pessoa.
A coleta de todo material separado em cada residência é feito uma vez por semana pela equipe do Cata Tudo.
O objetivo da campanha é que o grupo possa ter recursos para dar continuidade ao trabalho de reciclagem.
A iniciativa busca fortalecer a categoria dos catadores, de modo a dar visibilidade a um trabalho essencial na sociedade.
Para maiores informações, você pode ligar para (11) 98328-9457 ou (11) 98553-1851 – ou ainda acessar o Instagram @catatudorecicla05.

A doação e o brasileiro
A última edição divulgada da pesquisa “Brasil Giving Report” mostrou que 70% das pessoas responderam que doaram ao menos uma vez entre o período de agosto de 2017 e julho de 2018. O estudo, realizado pela CAF (Charities Aid Foundation) foi feito on-line e entrevistou mais de 1.000 pessoas para entender o comportamento do brasileiro quando o assunto é doação. Nesta pesquisa, o apoio a instituições médicas constou na resposta de apenas 8% dos doadores, enquanto 52% ajudou alguma instituição religiosa, seguido de ajuda a crianças carentes (38%) e ajuda aos pobres (31%).

Para a Rede Filantropia, existe no Brasil uma cultura de doação, que é “movida pelo coração”, ou seja, quando alguém se sensibiliza ao enxergar a dor do outro e age para aliviar a situação. Porém, a falta de ligação entre a doação e uma causa não formaria um doador constante.

Com o ineditismo de situações trazidas pela pandemia e outros tantos problemas já existentes que ganharam maior visibilidade neste período, fica a dúvida se o visível aumento no número de doações irá passar com a pandemia ou se irá firmar um novo hábito na cultura brasileira.

Para se proteger
O Ministério da Saúde recomenda o distanciamento mínimo de cerca de dois metros de qualquer pessoa, esteja ela espirrando ou tossindo e/ou assintomática. É necessário também evitar abraços, beijos e apertos de mãos – o comportamento amigável é bem-vindo, mas sem contato físico. Leia aqui sobre as medidas de prevenção ao Covid-19.

Fórum de Investimentos e Negócios de Impacto on-line

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O contexto da pandemia, que ocorre no mundo todo nos últimos meses, exige novas propostas e adequações. E o campo de impacto socioambiental não escapa desta lógica. Assim, o Fórum de Investimento e Negócios de Impacto, por ora adiado para novembro, ganha um novo braço: uma versão on-line para que diálogos e trocas continuem acontecendo – com cada participante devidamente isolado em sua casa, conforme pedem as medidas de segurança da OMS.

O Impacta ON ocorrerá nos dias 30 de junho e 1º de julho e traz como tema principal “Construindo uma nova economia com impacto positivo”. A iniciativa conta com a organização de ICE, Impact Hub São Paulo e Vox Capital para que o evento ocorra. Ainda: no encontro virtual serão feitas leituras sobre o setor dentro do atual contexto e o que se pode projetar para o futuro diante de tantas mudanças. Sobretudo, o diálogo propõe o questionamento acerca de qual é o papel do setor numa recuperação econômica com menos desigualdade e orientada para a regeneração do planeta.

O público-alvo são empreendedores, investidores, filantropos, institutos, fundações, organizações intermediárias, grandes empresas, governos e membros da academia. Para se inscrever gratuitamente, basta acessar este link.

Dentre os palestrantes confirmados, está Sir Ronald Cohen, atual presidente do Global Steering Group for Impact Investment (GSG) e The Portland Trust. Ele é ainda o co-fundador do Bridges Fund Management, um dos maiores fundos de investimento de impacto da Inglaterra, e do Big Society Capital, banco de atacado que foi pioneiro em alavancar grandes volumes de recursos para o ecossistema de impacto britânico. Um pequeno spoiler sobre linha do diálogo de Cohen, que pode ser notada neste trecho da obra “Sobre impacto – um guia para a revolução do impacto” (2018):

“Em que tipo de mundo queremos viver? Essa é a questão com a qual todos nós nos confrontamos hoje. Nosso mundo está em perigo. A incerteza e o desassossego nos deixaram paralisados e inertes. Mesmo assim, ainda existe uma solução poderosa ao nosso alcance: o impacto.”

Quem tiver disponibilidade, é possível colaborar no Impacta Mais On como voluntário, para apoiar na facilitação e no registro de algumas sessões on-line. Os voluntários passarão por um treinamento de até duas horas e receberão um certificado de participação, além de poderem participar do Fórum. As inscrições acontecem até 18 de junho e devem ser feitas com a organização.

Programação:

30 de junho | das 09h às 11h | Abertura
Do Global ao local
 – Qual a contribuição dos investimentos e negócios de impacto para novos paradigmas econômicos?

30 de junho | das 11h15 às 12h45 | Workshop
Cenários e caminhos para a transformação
(Vagas limitadas)

1º de julho |  das 9h às 11h |  Debate
O IM(PACTO) que queremos
– Cocriando uma visão para o ecossistema de investimentos e negócios de impacto.

Boas Práticas de Incubação e Aceleração de Impacto – 1ª edição

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Capa de "Boas Práticas de Incubação e Aceleração de Impacto – 1ª edição". Fonte: ICE.

O que é: “A publicação Boas Práticas de Incubação e Aceleração de Impacto – 1ª edição foi idealizada no contexto de remodelagem das ações e de estímulos a trocas de experiências. Ela materializa os esforços do ICE, bem como de seus parceiros, nessa agenda por meio da trajetória de seis organizações na incorporação de práticas de seleção e apoio a negócios de impacto.”

Quem fez: Instituto de Cidadania Empresarial – ICE.

Autoras: Fernanda Bombardi e Vivian Rubia.

Produção editorial: Aupa – Jornalismo de Impacto.

Ano: 2020.

Clique aqui para acessar a pesquisa.

Sobram recursos, falta sociedade civil

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Capa da coluna Fábio Deboni

Os recordes de doações
e de ações solidárias
parecem um tanto quanto desalinhados
com o quadro atual
da sociedade civil brasileira.

Há tempos, ela
respira por aparelhos.

OSCs (ONGs) já vinham mal das pernas
muito antes da pandemia.

E agora parecem agonizar
ainda mais.

Em especial, as pequenas e médias,
as longe dos holofotes,
ou seja,
a grande maioria que atua na raça
neste país.

Aliás,
o discurso empreender, de que
abrir um negócio é ato heroico
contra o Estado malvado,
poderia muito bem ser
utilizado pelo Terceiro Setor,
pois haja falta de apoio de um lado
e uma ‘clientela’ sem fim do outro.

E, de repente, passamos a ouvir
repetição de discursos de que ‘ia tudo bem’
no nosso país
e que se não fosse a pandemia
estaríamos voando alto.

Sério?

Talvez, para a mesma elite de sempre, sim,
faça chuva ou Sol,
estejamos em regimes democráticos
ou nem tanto
e
ela segue por cima da carne seca.

E parte da massa
compra facilmente esse discurso,
inclusive no campo do impacto.

Um passo pra trás pra
relembrar os cenários
do projeto sociedade civil 2023?
Em especial, o cenário ‘amarelinha’
não resume bem o trágico momento em que estamos?

Sim,
vivemos recordes de doações
de um lado
(viva!)

E de grave crise
para a sociedade civil
organizada
e desorganizada,
com e sem CNPJs,
com e sem padrinhos importantes,
com ou sem modelo de negócio.

Avanço do autoritarismo, 
preconceitos escancarados,
vulnerabilidades sociais explodindo,
desafios crônicos de sustentabilidade $
e falta de $ paciente para apoiar a bancar custos fixos
dos ‘fazedores de impacto’ que estão f#! neste momento.

Mas todos esses ingredientes
parecem não poder ser debatidos
entre os ‘fazedores de impacto’, 

Pois pode melindrar parceiros,
empresas,
investidores,
governos.

Enfim, 
o capital.

Afinal,
os mercados não podem ficar nervosos.

Então,
vamos celebrar os recordes de doação,
a qual não tem conseguido chegar
a essa maioria invisível do setor
e a topar financiar seus custos administrativos.

Mas sonha-se que, após a pandemia,
tudo isso vai mudar.

Feche os olhos e
imagine por um segundo
o caos ainda maior que seria
sem as Organizações da Sociedade Civil
(e negócios de impacto)
nesta pandemia.

Sem dúvida!

Difícil com elas,
um caos completo sem!

Agora imagine quando a pandemia passar (não, não será mês que vem).

Qual o tamanho da terra arrasada
em que o setor estará?

Será mesmo que as Organizações
da Sociedade Civil e os negócios de impacto
sairão fortalecidos após a pandemia?

Qual sociedade civil?
Qual democracia?
Qual retomada econômica?

Todo seviracionismo, 
por mais perspicaz que seja,
tem seus  limites.

Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa.

A atuação do GIFE no mundo corporativo e a articulação no contexto da pandemia

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Large group of people forming spiral symbol in business, social media, and community concept on white background. 3d sign of crowd illustration from above gathered together

A mudança no cenário da filantropia terá outros olhos após o Coronavírus. É que, com a pandemia, criou-se uma onda de solidariedade no Brasil que já resultou em mais de R$ 5 bilhões em doações contabilizados até maio. Os setores financeiros (34%) e de alimentos e bebidas (15%) respondem por quase metade dos recursos contabilizados. A maior parte (86%) é proveniente de empresas, sendo Itaú, Vale e JBS os principais doadores.

Nesse sentido, o GIFE (Grupo de Institutos Fundações e Empresas), que é uma associação dos investidores sociais do Brasil, tem um importante papel. A organização reúne hoje 160 institutos e fundações, de natureza familiar, independente com fundos patrimoniais, com doações de valores variados por uma determinada causa ou ainda de natureza empresarial, mantidos por empresas privadas.

A missão do GIFE é “Aperfeiçoar e difundir conceitos e práticas do uso de recursos privados para o desenvolvimento do bem comum”. E com esse olhar estratégico e crítico, contribui ativando e potencializando iniciativas de impacto social coletivo.

Em 2008, o GIFE foi certificado como  Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP), e, em 2020 completa 25 anos de atuação.  A seguir, alguns dos associados: Instituto Alana, Fundação Bradesco, Fundação Grupo Boticário, Banco J.P Morgan, Fundação Renova, Grupo Fleury, Itaú Social, dentre outras organizações de investimento social privado no país.

Nessa articulação em tempos de pandemia, o GIFE reforçou ainda mais o seu papel adjunto de rede. Com a diversidade de seus associados e parcerias, criou logo nas primeiras semanas de Coronavírus no Brasil a plataforma “Emergência Covid-19: coordenações de ações da filantropia e do investimento social em resposta à crise”. O objetivo é contribuir com  a articulação e a colaboração entre as organizações de filantropia no país.

Tal articulação aconteceu através de campanhas de arrecadação e de doação, reuniões virtuais entre a rede, mapeamentos e editais diversos de institutos e fundações que se dedicam a contribuir com os diversos desafios da agenda pública por meio de iniciativas de filantropia e investimento social privado. 

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José Marcelo Zacchi, secretário geral do GIFE. Créditos: Divulgação.

As dimensões de atuação do GIFE
Os 160 associados se reúnem nesta rede para atuar como articuladores no fortalecimento das práticas de filantropia de investimento social em três dimensões. José Marcelo Zacchi, secretário geral do GIFE, explicou tais camadas. A primeira é voltada ao fomento dessas práticas. Ou seja, é conseguir promover atividades que fomentam a cultura de doação na sociedade como um todo pelo país.

A segunda diz respeito à diversificação dessas práticas. “Significa que tenham bons modos de governança e gestão, planejamento de sua locação, de avaliação constante de resultados”, ressalta José Marcelo. Não é só garantir bons recursos, mas sim a destinação. O bom uso dos recursos e aprendizado no setor.

A terceiro dimensão visa garantir que essas ações não se esgotem, segundo afirma o secretário geral do GIFE. “Que essas ações se conectem da melhor maneira possível com o ganho da capacidade de ação coletiva do país, seja fortalecendo organizações na sociedade civil, nas universidades, nas comunidades, seja cooperando para o fortalecimento da gestão e das políticas públicas no âmbito governamental”, explica José Marcelo.

Para ele, não basta ter o recurso e usá-lo, assim como não basta também ter o bom projeto. “É preciso que essas práticas tenham capacidade multiplicadora: influenciar o aprendizado permanente na produção de respostas para desafios que a gente tem em nossa vida pública”, enfatiza o secretário geral do GIFE.

Equipe do GIFE na apresentação do Censo 2018. Créditos: Divulgação.

A importância do investimento social privado
Nos últimos anos, o papel das fundações privadas e seu apoio às atividades econômicas e sociais contribuíram para que mais pessoas colocassem em prática o hábito de doar. 

A filantropia e o investimento social privado podem se complementar e serem feitos pela mesma organização, de acordo com os contextos em que se inserem. Mas vale destacar as diferenças. O investimento social privado realizado pela empresa é sujeito do processo de transformação social do país. A filantropia é uma ajuda ao próximo sem que haja interesse em troca ou retribuição.

Mesmo em meio à pandemia, o cenário de doação tem se mostrado otimista. Mas ainda são muitos os desafios, segundo os apontamentos do secretário do GIFE. “No Brasil, a gente precisa recuperar a capacidade da ação coletiva, de reconhecer a diferença na pluralidade. A sociedade democrática é mais dinâmica, porque ela se nutre da soma cotidiana, de olhares e expertises, de engajamento dos mais variados”, avalia. José Marcelo também destaca a importância da cooperação com os governos. 

“As Organizações da Sociedade Civil (OSCs) não existem para substituir o Poder Público ou fazer aquilo que o Poder Público não é capaz de fazer. Elas garantem um tecido de malha solidário, que está na base de qualquer sociedade democrática e de qualquer Poder Público, informado por uma sociedade democrática”.

Mapeamento e atuação
De acordo com o Censo do GIFE de 2018, naquele ano foram investidos R$3,5 bilhões pelas OSCs. Desse modo, os investimentos sociais superaram o orçamento de alguns ministérios (2018), conforme consta no relatório do GIFE:
1,1 vezes o orçamento do Ministério do Meio Ambiente (2.9 bilhões);
1,5 vezes o orçamento do Ministério da Cultura (R$ 2,1 bilhões);
2,5 vezes o orçamento do Ministério do Esporte (R$ 1,3 bilhões).

O Censo ainda destaca que 86% das 133 organizações estão localizadas na região Sudeste, sendo São Paulo a cidade sede de 74% delas. O número é menor do que em 2016, quando 89% dos respondentes do Censo se localizavam nesta região. A maior parte das organizações investem até R$ 6 milhões – vale dizer que as iniciativas têm diferentes portes, sendo grandes e pequenas, em todos os tipos de investidores sociais. 

Destaca-se ainda que o valor repassado a terceiros em 2018 foi de R$ 1,14 bilhões, um aumento de 100% em relação a 2016, quando o valor total foi de R$ 573 milhões (valor atualizado pelo IPCA). Os investimentos em projetos de terceiros cresceram de 21% do volume de investimento total, em 2016, para 35%, em 2018, proporção mais alta da série histórica.

A importância das Organizações da Sociedade Civil
O fomento de doadores à sociedade civil tem dois componentes estratégicos distintos, porém relacionados: apoio na prestação de serviços que ajudam a atingir os objetivos dos doadores; e apoio ao surgimento de um ambiente permissivo para a ação sustentada da sociedade civil.

O que também é fundamental notar é que uma sociedade civil eficaz é fundamental para a capacidade de qualquer sociedade de suprir as necessidades de seus membros e atender às suas aspirações, orientar e manter seus líderes políticos e econômicos e poder.

Nesse contexto da pandemia destacamos o papel que as OSCs têm tido neste momento. Inclusive as fundações corporativas estão aproximando o relacionamento entre empresas e comunidades, construindo estratégias de colaboração com outras partes interessadas, a fim de desenvolver áreas geográficas e desenvolver capacidades locais.

Preto Zezé, presidente da CUFA. Créditos: Twitter.

Para Preto Zezé, presidente da CUFA (Central Única das Favelas), o investimento social privado “É importante principalmente neste momento em que a gente muda o paradigma de atuação da sociedade civil. Da atuação do empresariado, que faz necessário a perspicácia, a inteligência, a capilaridade e as tecnologias que esses órgãos põem”. O presidente da CUFA acredita que, após a pandemia, diversas lições podem ser tiradas de toda essa mobilização de ajuda e doação.

“É necessário que as pessoas reflitam neste momento, que é importante. Está na pauta do país uma agenda de desenvolvimento com enfrentamento de desigualdades, para refletirmos a mudança de paradigma. Não podemos voltar à normalidade do que era o Brasil”, explica Preto Zezé. 

Parcerias de instituições
O Instituto Alana é um dos parceiros do GIFE. A instituição familiar é uma organização da sociedade civil sem fins lucrativos como missão honrar a criança. O trabalho teve origem na década de 90 numa comunidade do Jardim Pantanal, em São Paulo.

O trabalho do Instituto Alana iniciou buscando entender a questão da publicidade voltada para criança e hoje estruturam programas, projetos e ações para debater pontos que consideram relevantes sobre defesa das crianças e seus direitos.

Carolina Pasquali, diretora-executiva do Instituto Alana, reforça a importância do investimento social privado para que não vivamos um quadro ainda mais desolador. “É gratificante ver a agilidade que o setor se mobilizou e como isso vem sendo importante. No Instituto Alana colocamos os esforços no auxílio emergencial da população que reside no Jardim Pantanal que é o nosso território de atuação. São cerca de 7 mil famílias”, comenta. O trabalho está articulado com outras ações via prefeitura ou cidade solidária de SP. Carolina também destaca a importância do GIFE, que vem “Atuando como um articulador fundamental”, segundo ela.

Carolina Pasquali, diretora-executiva do Instituto Alana. Créditos: Divulgação Alana.

“Desde o começo da pandemia, o GIFE rapidamente conseguiu colocar no ar uma plataforma sobre a emergência com as ações que não só são transparências e mostram a relevância do investimento social privado, mas também permitem articulações e permite uma união de quem está olhando para o mesmo lugar pra que essa ação seja ainda mais efetiva”, enfatiza Carolina.

Com a pandemia os esforços e a urgência aumentaram. Por isso, GIFE, instituições e organizações se reúnem virtualmente para articular ações e estratégias. “Com o GIFE a gente vem se reunindo virtualmente uma vez por semana em grupos temáticos e mergulhando mais nos desafios que se apresentam e claro, vão mudando se complexando semana a semana”, afirma a diretora-executiva do Instituto Alana.

E fica o desafio para o contexto além da pandemia: a criação de uma Política Pública atuando diretamente com sustentabilidade, responsabilidade, transparência, medição de impacto, gerenciamento de conhecimento e colaboração com os governos. Dessa maneira, será possível apontar e estimular que fundações e institutos possam estar conscientes da importância de influenciar Políticas Públicas e fortalecer parcerias público-privadas.

Investidores sociais, filantropos, executivos de empresas, líderes de OSCs, movimentos sociais e coletivos periféricos, bem como intermediários desenvolvedores do campo, entre outros, propõem soluções um pouco mais ruptivas. Como destacou Carolina Pasquali,

“É fundamental que o investimento social privado atue em diálogo com os governos e organismo multilaterais”.

A função do jornalismo independente e periférico para um futuro antirracista no Brasil

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Nos últimos dias, passamos a assistir a um levante nos Estados Unidos. Milhares de pessoas foram às ruas após o brutal assassinato de George Floyd, em Minneapolis, cidade mais populosa do estado norte-americano de Minnesota, localizada no Sul do país. O vídeo – violento e deplorável – chegou até o Brasil, mas ficou longe de ganhar destaque nas manchetes.

Com a onda de protestos que tomou conta da potência mundial, a imprensa brasileira passou a acompanhar os acontecimentos. A história estampou os portais de imprensa tradicional. Com abordagens muito focadas no conflito dos protestos e pouco contexto, o fato é que de alguma forma a morte atravessada pelo racismo estrutural e a supremacia branca daquele país ganhou destaque no Brasil.

A grande questão é: poucos dias antes, João Pedro Mattos, de 14 anos, foi assassinado pelas mãos da polícia carioca dentro de casa. Ele foi baleado nas costas, enquanto brincava com os primos; a residência foi atingida por, pelo menos, 70 tiros durante uma invasão policial. No dia em que o Brasil perdeu os sonhos de João Pedro, os principais veículos da imprensa tradicional se comportaram como de costume: o assassinato como um fato isolado.

Diariamente, o país vive incontáveis perdas que não chegam até nós. O contexto necessário sobre as raízes do racismo estrutural, que mantém o ciclo da violência no Brasil e prioriza pessoas negras como fontes, continua sendo um desafio no jornalismo brasileiro. A palavra racismo, por exemplo, quase nunca é utilizada.

Compreendendo a função do jornalismo para a construção da memória de uma sociedade, fica evidente que a nossa imprensa não tem contribuído para o avanço da discussão antirracista no Brasil. Pelo contrário. E essa também é uma realidade no jornalismo norte-americano.

O artigo “Ahmaud Arbery, Breonna Taylor, and covering Black deaths”, publicado na Columbia Journalism Review, antes mesmo do assassinato de George Floyd, analisou que a maioria das notícias sobre mortes de pessoas negras ganha mais espaço quando há uma foto ou um vídeo (ambos muito explícitos e violentos), como exatamente aconteceu.

Além disso, Alexandria Neason, que assina o texto, afirma que assassinatos de mulheres nas mesmas condições – pelas mãos do Estado – têm menos projeção. Esse foi o caso de Breonna Taylor, de 26 anos, que teve sua casa invadida por policiais e o corpo baleado, em Louisville, Kentucky, no dia 3 de março.

Apesar da movimentação, que os protestos dos Estados Unidos causaram no Brasil, principalmente na imprensa e nas redes sociais, é imprescindível reconhecer o quanto as consequências e as origens do racismo são assuntos escanteados em nosso cotidiano.

Em contrapartida, veículos independentes de comunicação têm cumprido um importante papel em priorizar o tema. Só assim será possível caminhar para uma maior compreensão dos impactos e ciclos violentos que o racismo ainda causa em nosso país. Entre eles, destacamos: Alma Preta, Periferia em Movimento, Favela em Pauta, Notícia Preta, Desenrola, Não me Enrola, dentre outras tantas iniciativas ao redor do Brasil.

Falar sobre o genocídio da população negra no Nós, Mulheres da Periferia nunca foi ocasional. Ser um veículo antirracista e antipatriarcal é um compromisso assumido desde o nosso nascimento como gestoras de um negócio de comunicação. Para tanto e, inevitavelmente, esse compromisso se reflete em nossos conteúdos e na forma como nos colocamos no mundo.

Mesmo com estruturas infinitamente menores do que os grandes veículos, é urgente observar o aumento de novos negócios em comunicação e a forma que cada um deles têm utilizado para continuarem de pé, mesmo diante de um cenário tão adverso. Portanto, apoiar a sustentabilidade desses novos veículos é, também, apoiar um futuro com narrativas mais plurais. E não apenas nos conteúdos, mas na estrutura, na gestão e na liderança de novos empreendimentos de comunicação.

Este texto é de responsabilidade das autoras e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa.

Estela Renner e Marcos Nisti: “As pessoas precisam saber o custo em vidas da extração ilegal do ouro na Amazônia, temos que nos importar com isso”

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“A sétima arte que gera impacto” seria um bom título para o trabalho da Maria Farinha Filmes, uma produtora e do núcleo de negócios do Alana, que usa a contação de histórias para propor ideias ou “lembretes” nas pessoas e também, no ecossistema. Um exemplo é a série Aruanas – co-produzida pela Globoplay e está em cartaz na TV aberta -, que mostra como funcionam e trabalham as ONGs em defesa do meio ambiente na Amazônia.

Ao longo dos dez episódios, a ficção – nas entrelinhas – mostra (e relembra) para o telespectador a importância da Floresta Amazônia, das reservas, dos índios e dos outros moradores que vivem lá. Na vida real, a mesma região sofre com altos índices de desmatamento, antes e durante a pandemia.

A Aupa conversou com Estela Renner e Marcos Nisti, criadores da série e sócio-fundadores na produtora, sobre a chegada de Aruanas ao público geral, a aceitação pelos atores do campo e da temática ambiental e os planos futuros para a série. Confira:

AUPA: Aruanas aborda várias feridas do Brasil, como o desmatamento. Chegando à TV aberta e ao público geral, o que o projeto acrescenta às discussões sobre o tema? Qual é a responsabilidade?
Estela e Marcos: Sempre sonhamos com esse momento. Escrevemos essa série para a TV aberta sonhando que o meio ambiente poderia ser assunto do dia a dia das famílias. Levar a todos os brasileiros a oportunidade de conhecer o dia a dia dos ativistas no Brasil. Suas vidas, suas dores, seus amores. Aruanas acrescenta pessoas ao tema, que é justamente o que a causa ambiental mais precisa.

AUPA: A série teve boa aceitação das organizações (nacionais e internacionais) que lutam pelo meio ambiente. Como vocês avaliam essa recepção? A intenção sempre foi ampliar as vozes desse movimento?
Estela e Marcos: Sim, essa sempre foi a intenção. Muita gente conhece o que faz um perito criminal por causa do CSI; outros, o dia a dia de uma Sala de Emergência de um hospital por causa do ER ou Grey’s Anatomy. Por que não mostrarmos o dia a dia de pessoas que dão suas vidas pela vida de todos e a rotina de ativistas e seus trabalhos em uma ONG? As organizações receberam a série no mundo inteiro de maneira muito carinhosa e a grande prova disso é como elas se manifestam nas redes durante a exibição dos episódios, interagindo com sua base sobre o que está acontecendo e fazendo um paralelo entre ficção e vida real.

AUPA: O que agregou ter filmagens na região amazônica? Reforçou o objetivo da série?
Estela e Marcos: Muito. Começar a filmar por lá, além de integrar o elenco de uma maneira única, levou toda a equipe para o coração das questões de que estávamos tratando. A convivência com os talentos locais também foi de extrema importância para a obra.

AUPA: Com a segunda temporada no forno, quais os próximos caminhos do projeto? Como estão os trabalhos durante a pandemia?
Estela e Marcos: Suspendemos as gravações no dia 13/5 e estávamos filmando há duas semanas. Na segunda temporada, abordaremos a poluição do ar, mais um tema super importante.

AUPA: Nos bastidores, 47% da produção foi feita por mulheres e são quatro mulheres protagonistas. Qual é o impacto de trazer essa diversidade?
Estela e Marcos: Essa é uma atitude extremamente desejada e lutamos por esses números. Na segunda temporada, já temos 53% de mulheres na equipe. Vamos sempre buscar números assim, é uma atitude política. A nossa Maria Farinha é a primeira produtora certificada pelo Sistema B na América Latina. A gente precisa mostrar que dá para fazer, criar esses cases, para as pessoas fazerem. Esse é um dos nossos papéis.

Na sequência da entrevista com a Estela Renner e o Marcos Nisti, a Aupa conversa sobre a trajetória da produtora, as inspirações e os próximos lançamentos. Confira abaixo:

AUPA: O que move os projetos da Maria Farinha? É com propósito trazer causas nas telas?
Estela e Marcos: Sim. Queremos produzir conteúdo de qualidade com informação também de qualidade para o maior número de pessoas. Sempre com assuntos que valorizem a vida e o ser humano. Já falamos de consumismo e obesidade infantil, meio ambiente, importância do brincar, do começo da vida, da criatividade, da empatia, enfim, documentários que ajudaram de alguma forma na evolução de agendas nessas causas e, agora, com o mundo da ficção.

AUPA: Como vocês acreditam que os trabalhos da produtora impactam positivamente a sociedade?
Estela e Marcos: A gente consegue materializar em imagens, palavras e sentimentos, assuntos que talvez ainda não tenham sido tratados dessa forma. É um jeito de democratizar a informação e dar condições para as pessoas pensarem de forma livre sobre os temas. Pessoas que fazem leis, administram empresas, julgam e, principalmente, consomem. As pessoas precisam saber o custo em vidas da extração ilegal do ouro na Amazônia. A gente tem que se importar com isso. São crimes cometidos diariamente e totalmente impunes – e tem morrido muitos ativistas que lutam contra eles.

AUPA: Depois de produções como Nunca me sonharam, o que podemos esperar da produtora? Existe algo não abordado que desejam retratar ainda?
Estela e Marcos: Muita coisa. Estamos lançando um filme, Um Crime Entre Nós, que trata de uma aberração com que a nossa sociedade convive e parece que não tem muito estômago para falar sobre ela, que é a exploração sexual na infância. Filmaço. Temos um outro documentário sendo finalizado que é a continuação de O Começo da Vida, agora com o foco na relação da criança com a natureza. E com vários outros temas em produção e desenvolvimento.

AUPA: Quais os principais obstáculos em trabalhar com produção audiovisual e ativismo?
Estela e Marcos: Trabalhar no audiovisual já é uma corrida de obstáculos e, juntando isso ao ativismo, criamos uma tempestade perfeita [risos]. Mas, ao mesmo tempo, é um lugar que, geralmente, envolve um grupo de pessoas muito especiais. As pessoas do audiovisual são ativistas por natureza. Trabalham por amor mais do que por qualquer outra coisa e é neste lugar, do amor, que as profissões, os desafios e as oportunidades podem se fundir.

AUPA: Quais são suas referências? Em quem vocês se inspiram para as produções? 
Estela e Marcos: Acreditamos que, na forma de estar do mundo, a Maria Farinha tem um posicionamento muito parecido com uma produtora americana, a Participant Media. Procuramos a mesma trajetória desde o começo, mesmo sem conhecer um ao outro. Hoje, eles são uma super referência para nós.

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