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Ceará, Educação e investimento de impacto: negócio que dá certo

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CEI em Nova Caiçara, em Sobral / Crédito: Prefeitura de Sobral

Que os investimentos de impacto estão concentrados no eixo São Paulo-Rio, com ênfase na capital paulista, não é uma novidade. O próprio mapa da Pipe.Social revela essa desigualdade regional e estadual de aportes. Porém, num país de tamanho continental, como é o Brasil, potencialidades não faltam – e as peculiaridades dos territórios fazem toda a diferença, pois são sinônimos de oportunidades.

Ciente destas potencialidades impulsionadas pelos contextos territoriais do Nordeste, aliado à Economia Criativa e à força cultural, a in3citi, investidora social que fomenta inovação, compõe seu portfólio inspirado na máxima “O universal pelo regional”. Oriunda do Ceará, a in3citi explora seu entorno para a construção de suas propostas, embasadas em inquietações, como o fato de o estado ser um dos maiores do Nordeste, assim como é também mais árido. O Ceará é rico em capital humano, ao mesmo tempo em que é carente na retenção de talentos, apresenta forte presença em setores tradicionais da economia, porém afugenta inovação e inovadores. 

“O Ceará sempre foi um balaio de contrastes – um cenário de seca e de povoamentos dispersos e pobres, ao mesmo tempo apresenta um capital humano pujante”, destaca Haroldo Rodrigues de Albuquerque Junior, sócio fundador da in3citi. “Onde há capital humano diferenciado, há lastro e Economia Criativa”, diz.

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Segundo o fundador, o modelo de negócio da in3citi nasceu para reverter a lógica econômica vigente. “Captamos recursos financeiros para startups de soluções digitais do Ceará com o propósito de gerar transformações sociais, ambientais e econômicas. Mas com uma diferença elementar, que reflete a maneira como entendemos impacto: ao investidor devolvemos o capital alocado, quatro anos depois, pois esse é o tempo esperado para que os negócios ganhem fôlego, para se tornarem escaláveis”, explana Haroldo. “Lucros e dividendos devolvemos em indicadores socioeconômicos gerados pelas próprias soluções das startups”, completa. 

Impulsionamento
Com 8,8 milhões de habitantes, o Ceará ocupa a 6ª posição no ranking do Índice Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), de 2017. É também o estado com maior número de aprovados no vestibular do Instituto de Tecnologia de Aeronáutica (ITA), uma das provas mais concorridas do Brasil. Em 2018, das 110 vagas, 45 foram preenchidas por estudantes de Fortaleza, protagonismo que vem ocorrendo principalmente na última década.

Crédito: Equipe de Arte Aupa.

Em 2018, Fortaleza foi reconhecida como uma das 500 cidades mais inovadoras do mundo (posição 423ª), segundo pesquisa da 2thinknow, agência de inovação australiana. “O mérito se dá devido às ações de mobilidade urbana, que geraram saltos significativos, em relação ao trânsito e ao conforto da população, como o bilhete único para o transporte público e o compartilhamento de bikes e carros-elétricos. Ou seja, há um ecossistema intelectual vibrante tomando decisões”, salienta Haroldo. 

Uma curiosidade: apesar desses indicadores, o fundador da in3citi lembra que “O maior reconhecimento do Ceará para o grande público continua sendo o da qualidade indiscutível de seus sushimen – as estrelas anônimas por trás dos balcões dos melhores restaurantes japoneses do país”. Existe ainda uma questão de fundo preocupante nesta constatação: não são apenas sushimen que configuram a lista de exportação premium “Made in Ceará”.

“Vivemos uma fuga sistêmica de nossos melhores cérebros. Caso dos estudantes do ITA e também de centenas de jovens promissores e profissionais qualificados que partem para outros estados brasileiros e para o exterior, em busca de oportunidades ainda limitadas no Ceará. Perdemos, assim, o nosso maior ativo: o capital humano”, destaca Haroldo, que é categórico: “Há um desperdício do que existe de melhor no Ceará, sua gente. E todo desperdício é um erro de design. Isso acontece, em grande parte, devido ao descompasso entre o desenvolvimento da educação e o de uma economia produtiva pujante para absorvê-los”. A fuga de cérebros leva também o olhar do investidor, formando-se um ambiente com baixas chances de atração de aportes e investimentos. 

Além disso, a dinâmica de uma nova economia centrada no ganho da sociedade, e não no dinheiro, afugenta uma geração que só aprendeu a valorizar retornos financeiros. “Mas é preciso avançar na percepção de que fechar a conta social traz benefícios diretos para todos, incluindo o investidor. Não é só uma questão de ser afeito a causas – se muitos colapsam, uma sociedade inteira colapsa. E mudar esse paradigma é a missão da in3citi”, reforça o fundador. 

Em Brasília, no Banco CAF, entregando o modelo de economia circular do lixo da cidade de Sobral. Crédito: Divulgação In3Citi.

A experiência em Sobral
O Ceará é um notável exportador de cérebros, devido à cidade de Sobral, que apresenta o melhor desempenho na Educação Básica brasileira, segundo o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), de 2017. Sobral é uma das maiores economias do interior do estado, com considerável potencial de desenvolvimento: tem o 4º Produto Interno Bruto do Ceará (correspondendo a 3,01% de participação do PIB cearenses de 2017) e o segundo Índice de Desenvolvimento Humano por Município (0,714) no estado. Vale ressaltar, contudo, que a cidade é ainda bastante marcada pela desigualdade socioeconômica.

“Em Sobral, há uma geração de jovens já educados em um alto padrão de excelência – basta ver os indicadores nacionais da educação pública do Brasil. Porém, a economia do município permanece a mesma”, avalia Haroldo. Em 2017, a in3citi apresentou ao Poder Público Executivo de Sobral um projeto para implantar um plano integrando planejamento urbano de médio prazo, projetos de sustentabilidade ambiental e ações imediatas em mobilidade com potencial de consolidar a cidade como um polo de vanguarda e destino preferencial de investimentos. “O fluxo financeiro seria sustentando numa operação de crédito externa. O modelo de negócios do projeto teria alto potencial de replicabilidade em cidades de médio porte do Brasil”, explica. 

Fato é: em 2018, a Prefeitura de Sobral assinou um contrato de empréstimo internacional com o Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF), no valor de US$50 milhões. Assim, o Programa de Desenvolvimento Socioambiental de Sobral (PRODESOL) tem como objetivo principal melhorar a qualidade dos serviços públicos por meio de investimentos em saneamento básico e ambiental, gestão socioambiental e requalificação da infraestrutura urbana do município. No que diz respeito ao contrato com o CAF, a Prefeitura de Sobral pôde celebrar um convênio de cooperação técnica não reembolsável, focado na cadeia circular da economia do lixo e na mobilidade urbana sustentável.

“A in3citi foi contratada pelo banco CAF, em 2019, e ficou responsável em desenvolver e modelar uma nova economia circular dos resíduos sólidos (lixo), no município”, explana Haroldo. A ação abrangeu: (a) caracterização, diagnóstico e projeções sobre o potencial econômico de coleta seletiva e reciclagem dos resíduos sólidos da cidade de Sobral; (b) modelo de programa de coleta seletiva para a cidade de Sobral baseado em incentivos e bonificações; e (c) projeto conceitual de aplicativo móvel para promover a coleta seletiva de resíduos sólidos para a cidade de Sobral. 

“É nesse ambiente em implantação que Sobral induz Políticas Públicas inovadoras, sendo capaz de iniciar um círculo virtuoso de investimentos privados, para além da área de educação, fixando seus jovens talentos e ‘repatriando’ sua gente.” 

Crédito: Equipe de Arte Aupa

A chave estratégica: parcerias
A atuação da in3citi está ligada às trocas entre Fortaleza e São Paulo, sendo nesta última capital, mais precisamente, o bairro de Pinheiros, na Zona Oeste. Além de ter a Pipe.Social e o Quintessa como parceiros de “primeira hora”,  a in3citi compartilha o mesmo espaço de negócios de impacto no Civi-co. 

Enquanto investidora, a in3citi tem como necessidade um portfólio de negócios para investimentos. Até o momento, a empresa aportou em negócios early stage, cuja necessidade é aprofundar e validar os respectivos modelos de negócio, organizar e sistematizar a gestão, buscar o engajamento do time, além de identificar o perfil de seus líderes. E, para isso, ter uma aceleradora para apoiar as tomadas de decisão dos investimentos faz toda a diferença. “Esse foi o nosso encontro: uma catalisadora de investimentos e negócios de impacto do Ceará para o Ceará, e do Ceará para o Brasil e o mundo (lembre-se, do universal pelo regional!), com a maior vitrine de negócios de impacto do Brasil, a Pipe.Social, e uma das excelências em aceleração de impacto do país, o Quintessa”, pontua Haroldo.

Esta parceria deu fruto ao produto Territórios de Futuro, da in3citi, que roda desde 2018. Trata-se de uma chamada nacional de negócios de impacto, onde a plataforma da Pipe.Social faz a atração dos negócios que querem fazer sentido no Ceará. Após o pipeline, os negócios que potencialmente receberão investimentos  da in3citi (ou co-investimento) passam por uma aceleração com o time do Quintessa. “Entre 2018 e 2019, a plataforma Nina passou por essa trilha, por exemplo. Entre 2019 e 2020, estão passando a Eco PanPlas e HY sustentável”, exemplifica Haroldo. Mesmo com a crise atual, a in3citi não deve descontinuar estes investimentos – tanto que em setembro será lançada a chamada Territórios de Futuro 2020.

Em Fortaleza, no escritório da in3citi, reunião anual com os empreendedores e negócios investidos pela in3citi. Crédito: Divulgação In3Citi.
Em Fortaleza, no espaço Demócrito Rocha, no lançamento da chamada TERRITÓRIOS DE FUTURO, com a Mariana Fonseca - Pipe, e com a Anna Aranha, Quintessa. Crédito: Divulgação In3Citi.
Em São Paulo, no Barco galeria, reunião do time da NINA com a Yunus Social. Crédito: Divulgação In3Citi.

Investimento de impacto no Nordeste
Quem transita pelo ecossistema de impacto e acompanha os relatórios sabe da concentração dos investimentos de impacto no Sudeste, sobretudo em São Paulo. Este fato evidencia não só desigualdade nos aportes, mas também oportunidade perdidas de negócios, sobretudo se considerarmos as potencialidades dos territórios. Diante deste quadro, o fundador da in3citi explica: “Aqueles que proporcionam retorno financeiro aliado ao impacto social, podem ajudar a resolver os grandes desafios do nosso tempo. Estes investidores têm também relação direta com alguns dos pilares mais importantes da sociedade, como acesso à Educação, a inclusão social e as relações do homem com o meio ambiente, promovendo a tão falada economia do bem-estar”.

A fundação da in3citi trata também deste quadro desproporcional, já que uma das missões da empresa é justamente ser protagonista em negócios de impacto no Ceará e também no Nordeste. “Queremos que isso faça sentido dentro do estado do Ceará, valorizando negócios que gerem riqueza dentro do estado do Ceará”, enfatiza. “Há uma necessidade urgente de colocar os investimentos de impacto, de fato, no mapa do Brasil. É uma questão de equidade!”, comenta ele unindo as demandas regional e nacional.

Mas a pergunta que suscita é: os investidores estão preparados para essa ruptura? “Sou otimista. Estamos numa transição que tem sido acelerada também pela pandemia. Até então, havia certa curiosidade em alguns, com olhar para essa tendência de investimentos de impacto. E esse olhar ainda gerava muita desconfiança, pois, precisava de uma lupa mais apurada”, contemporiza Haroldo diante do obstáculo encontrado pela in3citi e outras empresas fora do eixo Sudeste-Sul. Em meio às movimentações de iniciativas com trabalhos isolados, há também uma discreta ressignificação de carteiras de investimento, processos, produtos, incorporação de novas tecnologias, bem como um novo propósito dentro dos próprios negócios. Outros apresentam-se mais resistentes, indagando até que ponto esse investimento vai gerar retorno para equilibrar o balanço. Por fim, os mais céticos, são focados em sua cartilha embasada no modelo tradicional. “Não se pode esperar a tempestade passar ou, como queira, a pandemia terminar. Todos os líderes de negócios vão ter que enfrentar de peito aberto essa tempestade. Ou enfrenta ou afundará”, avalia. “Aqueles em transição, devem acelerar. Já, daqueles que estão preparados para afundar, nascerão outros negócios completamente diferentes. Essa vai ser a grande transformação”, completa Haroldo.

“Há uma revolução em andamento, a humanização da tecnologia. A porta de entrada dessa mudança é o conhecimento. Somos responsáveis pela transformação da qualidade de vidas da nossa gente”.

E o contexto pós-pandemia?
Embora acredite que o tempo pode ser um ótimo mestre diante de bons alunos, Haroldo é pragmático quanto aos questionamentos sobre o futuro. “Não há respostas concretas e isso só aumenta a aflição”, destaca.  “As empresas tradicionais com estratégias enrijecidas, não atentas aos movimentos da sociedade e da pesquisa científica, sofrem”, observa ele.

Historicamente, crises tendem a acelerar processos de mudança. E com o ecossistema de investimentos e negócios de impacto isso não é diferente. Não há como saber se o futuro será melhor. Haroldo cita Amy Webb futurista fundadora e CEO do Future Today Institute: o momento atual não é de previsão, mas, sim, de preparação para o que vem a seguir.  “Precisamos de menos certezas e mais experimentação. É esse o recado aos investidores: que experimentem e diversifiquem seus ativos. Apostem em um capital mais paciente, pois, com certeza, terão grandes surpresas e muito mais do que somente retorno financeiro”, enfatiza o sócio da in3citi.

Se por um lado, o contexto de instabilidade pode pedir cautela, por outro, os desafios podem abrir caminho às possibilidade e experimentações diante de problemas ainda não completamente apresentados. “As tendências são pontos de referência para ajudar a antecipar estados futuros em um mundo onde a incerteza se aproxima. Assim, aproximam-se contextos disruptivos”, explica Haroldo. “Com ousadia, devo dizer que surgem mudanças radicais na sociedade. O segredo é inovar. Inovação não é acessório: é compreender os fundamentos do ecossistema e prover uma visão sistêmica, aproximar à Ciência”, completa ele. Para Haroldo, o momento é de investir pesadamente em negócios inovadores e geradores de impacto positivo nas pessoas e nos seus territórios. “Sem inovação não haverá futuro – e, aliás, essa é a melhor maneira de mudar”, finaliza.

Todas as imagens desta reportagem são do período anterior à pandemia causada pela Covid-19.

Política: por que e para quem?

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A política institucional brasileira, em seu formato contemporâneo, passou por inúmeros desgastes em sua jovem vida e foi mistificada segundo estratégias de dominação de grupos influentes. Tais estratégias representam quase um Véu de Maya das relações sociais, com o desenvolvimento de ilusões do funcionamento da ordem social e da negação do pertencimento de cidadãs e cidadãos enquanto integrantes de todos os processos políticos. É como se não enxergássemos que a política está em tudo e todos, dentro de nossas esferas individuais e coletivas.

Acho interessante começar com a desconstrução da naturalização do nosso fazer político. Mas o que isso significa? O nosso sistema político foi pensado, dentro de uma estrutura elaborada e histórica de produção cultural, ou seja, refletindo o momento de consciência de nossa população e, ainda, as próprias estruturas hierárquicas da sociedade. Com isso, é justo dizer que um grupo minoritário, mas com maior poder de influência na produção cultural, define como será a nossa organização enquanto sociedade. E, apesar de representarem uma parcela muito pequena da população, foram compreendidos como maioria, chamando os demais, dicotomicamente, de “minorias”.

A política reflete a cultura de uma sociedade. Podemos evidenciar isso dentro da socialização: desde pequenos, as instituições, inclusive as familiares, nos dizem quais são nossos papéis enquanto membros da comunidade que pertencemos, segundo nossas características identitárias. Isso tudo para manter uma ordem social instituída, que, mesmo com suas inconsistências, tendemos a acreditar se não estamos despertos politicamente.

Para dar alguns exemplos, podemos trazer dados do Tribunal Superior Eleitoral, de 2018. O levantamento aponta que 52% do eleitorado brasileiro é composto por mulheres, sendo que 72% destas mulheres demonstram algum tipo de interesse por agendas política e 76% acreditam no poder de seu voto. Complementando, 95% das mulheres acreditam que existe uma sub-representação de mulheres, segundo o IDEIA Big Data (2018) e, mesmo assim, nós elegemos a maioria absoluta de representantes políticos homens.

Podemos acordar que nem todos os grupos estão em condições de liderança e de real poder para fazer enfrentamentos justos às lógicas impostas pelos grupos dominantes. Mesmo com isso em mente, não acho adequado dizer que vivemos uma “crise de representação” e, sim, uma lógica de exclusão em sub-representações.

Mas por que não nos sentimos representados por aqueles que elegemos?

Ainda segundo o IDEIA Big Data (2018), 96% dos eleitores não se sentem representados pelos políticos eleitos; 94% dos entrevistados acreditam que políticos se guiam por agendas individuais; 89% crêem que seus representantes não se preocupam com seu desempenho de mandato e nem com a população durante seus processos de tomada de decisão.

Tudo se resume às más escolhas? Acredito que não: a política é mistificada, é pensada, em sua estrutura linguísta, seus ritos e processos para gerar distanciamentos das cidadãs e dos cidadãos, para que, com isso, a centralização da tomada de decisão se fortaleça, com menos insumos para que o controle social seja realizado. Esse distanciamento também é responsável por nos fazer acreditar que nesse espaço da política institucional cabem as mesmas pessoas que os ocupam desde que eles foram criados.

Participar da política efetivamente é um pouco mais desafiador mesmo. Primeiramente, precisamos ter algum pertencimento com os espaços, para que, então, possamos ocupá-los – daí a importância de ter todos os perfis identitários em todos os espaços de troca e poder. O segundo ponto é a compreensão dos assuntos complexos que são tratados, assim como suas formas e dizeres próprios. Daí a importância de formações cidadãs, da transparência e dados abertos, e de sua disseminação de forma clara em diferentes formatos. Finalmente, o terceiro fator é o logístico, que apresenta o desafio de tempo e recursos, que se somam ao ponto principal, a necessidade de organização coletiva para gerar força de pauta e engajamento.

Sobre a complexidade da desigualdade é importante dizer que alguns desafios serão mais dificultosos para grupos específicos. Por exemplo, mulheres tendem a trabalhar e estudar mais do que homens, para conseguir minimamente se provar em contextos de machismo estrutural e pela própria lógica de geração de renda, uma vez que tendemos a ganhar menos do que homens em atividades profissionais.

Mulheres são as primeiras responsabilizadas socialmente por atividades domésticas e de cuidado. Além disso, precisamos nos preparar muito mais do que homens, pois sempre tivemos o espaço público negado – uma questão de auto empoderamento. Exemplos disso são os dados IBGE de 2018. Homens dedicam, em média, 10,5 horas para afazeres domésticos semanalmente, enquanto que as mulheres, em torno de 18,1 horas. A diferença de renda mensal média de homens e mulheres é de R$ 542,00, sendo que homens têm a renda média de R$ 2.306,00 enquanto a de mulheres é de R$ 1.764,00.

E, apesar de todos esses desafios serem comuns entre mulheres, não os experimentamos da mesma forma. Ainda existem os efeitos do racismo estrutural, da homofobia em suas diversas formas, da desigualdade financeira com descrença no potencial de pessoas com menos recursos pela lógica perversa do merecimento, da crença da supremacia da educação formal, desacreditando pessoas que não tiveram essa oportunidade de acesso ou optaram por outros caminhos, entre outros fatores.

Tudo isso para dizer que: mulheres tendem a ter menos tempo disponível e condições efetivas para participar de atividades da vida pública, porque não existe, em níveis culturais, a divisão do trabalho doméstico.

Como se tudo o que falamos não fosse o suficiente, a participação pública é composta por diálogos cansativos, ambientes de disputa com jogo de influência e defesa de demandas, com problemas centrais relativamente comuns, apesar dos sistemas de desigualdades e exclusões, mas com propostas de soluções com vieses ideológicos diferentes.

Existem muitas formas de participar e se engajar politicamente. Para todas e todos que têm disponibilidade para fazer isso dentro de suas rotinas, um engajamento rotineiro é desejável, testando de que formas gostam de participar e quais são as causas prioritárias para cada uma e cada um de nós, sendo elas ideológicas ou identitárias. Ou seja, com base no que acreditamos e a partir da forma como nos enxergamos.

Entretanto, existem três atitudes simples que todas e todos podem realizar para participar da vida pública com mais qualidade. Em primeiro lugar, podemos votar em quem queremos ver no governo, não em quem sabemos que, tradicionalmente, habita esse espaço. Esse rompimento com “tradicional” está ligado a potencial perspectiva de renovação do cenário político. A segunda sugestão é estarmos todas e todos abertos, assim como dispostos a abrirmos espaço em locais os quais transitamos, para novas narrativas, de modo a valorizar a diversidade. Por fim, a sugestão de ouro é: escolha seus representantes por projetos e acompanhe suas atividades.

Escolher bem quem você quer ver na liderança de pautas tão importantes, assim como descobrir quais as ferramentas elas e eles usam para se comunicar com a população e prestar conta do que está sendo realizado em seu exercício, é responsabilidade de todos que apertaram “confirmar” em qualquer urna que seja. Sem esquecer que somos responsáveis também pelos votos que não damos enquanto enfrentamento e por nossas omissões fantasiadas de “branco” e “nulo”.

Todo voto, toda fala e toda participação é um ato político e ideológico.

Dica de leitura:
Fundo Cívico para a Renovação Política – Pesquisa RenovaBr 2018. São Paulo, 2018.

 

Este texto é de responsabilidade da autora e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa.

Atlas dos remanescentes florestais da Mata Atlântica

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O que é: “A Fundação Mata Atlântica e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) apresentam à sociedade a décima quinta edição do ‘Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica’. Esta edição inclui o mapeamento do território dos 17 Estados inseridos no Mapa da Área de Aplicação da Lei 11.428 de 2006, a Lei da Mata Atlântica. Este relatório técnico apresenta, sinteticamente, a metodologia atual, os mapas-síntese do bioma, dados por estado e as estatísticas globais também por estado. As demais informações, tais como os mapas, imagens, fotos de campo, arquivos em formato vetorial e dados dos remanescentes florestais e as áreas naturais, por município, por estado, por Unidade de Conservação, por Bacia Hidrográfica, por Corredor de Biodiversidade e por Área Prioritária para Conservação da Biodiversidade estão acessíveis nos portais www.sosma.org.br e www.inpe.br, ou diretamente no servidor de mapas http://mapas.sosma.org.br.

Quem fez: Fundação SOS Mata Atlântica e Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).

Autores: Fundação SOS Mata Atlântica e Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).

Ano: 2020.

Clique aqui para acessar a pesquisa.

Indígenas brasileiros: os contextos diante da pandemia e as ameaças visíveis

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Os povos originários brasileiros estão sofrendo duplamente, seja pela quarentena, seja pelos riscos de invasão territorial e pela falta de recursos para a sobrevivência. De acordo com dados da Funai (Fundação Nacional do Índio) e do censo do IBGE de 2010, existem no Brasil cerca de 800 mil indígenas que falam mais de 200 línguas. A riqueza cultural e econômica gerada por estes povos, além da preservação dos recursos ambientais realizada por eles ajuda a compreender a importância, cada dia mais latente, da proteção de cada um deles.

Até o fechamento desta reportagem, no dia 28 de junho de 2020, 236 indígenas morreram em decorrência da Covid-19. Mais dados: 93 povos foram atingidos e 2.390 pessoas foram contaminadas pelo Coronavírus, de acordo com dados de uma iniciativa realizada de forma colaborativa por organizações indígenas e indigenistas, que reúne informações da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil e Mobilização Nacional Indígena com apoio da Mídia Ninja, do Projeto Xingu, do Projeto Amazônia, da Abrasco e da SESAI (Secretaria Especial de Saúde Indígena) do Ministério da Saúde.

Aupa conversou com indígenas de diversas regiões do país, com o objetivo de tentar traçar um retrato sobre o dia a dia dessas populações durante a quarentena. Assim, buscou-se também mapear as ações que vêm sendo tomadas por organizações, como o Cimi (Conselho Indigenista Missionário) e a Comissão Pró-Índio de São Paulo, bem como por pessoas físicas e pelos próprios indígenas para reduzir os riscos de contágio e dar assistência aos indivíduos destas populações que estão privados de suas atividades econômicas – afinal, muitos sobrevivem da venda de artesanato ou de frutas e verduras. Mas, para além dos riscos trazidos pelo vírus, os indígenas vivem outras ameaças, como a fome, a retirada de territórios e o risco de privatização dos recursos naturais.

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Segundo Lindomar Padilha, membro do Observatório Pan Amazônico e do Comitê Brasileiro de Defensoras e Defensores de Direitos Humanos,

“Mesmo antes da pandemia, notávamos um abandono dos temas caros aos povos indígenas sob orientação de um governo marcado fortemente por agro, hidro e eco negócios”.

Ele ainda destaca em sua crítica que o País está sujeito a “um governo que tenta se sustentar, em relação aos povos indígenas e ao indigenismo, na desconstitucionalização, negando direitos consagrados na Carta Magna [um documento que limita os poderes de um rei ou governante] decorrendo daí a desterritoriarização, com movimentos no sentido de inviabilizar novas demarcações e mesmo rever as demarcações já realizadas”.

Para Lindomar, que atua junto aos povos indígenas da Amazônia brasileira desde 1991, essas ações recaem de forma brutal sobre as ações de saúde e, consequentemente, no enfraquecimento da SESAI, provocando desassistência às aldeias. “Não obstante ao descaso oficial, muitas ações têm sido realizadas nos diversos níveis, sempre nascidas da solidariedade e das iniciativas assistenciais. Assim, muitas ONGs, nas redes de articulação (até em nível internacional), vêm prestando apoio neste momento difícil”, ressalta. “Entretanto, essas iniciativas têm encontrado muita dificuldade para chegar lá na ponta e, muitas vezes, são dificuldades provocadas pela Funai e pela SESAI. Ou seja, a desassistência oficial. Desassistência, desinteresse e descaso”, continua Lindomar.

De Norte a Sul, fome e medo
A plataforma Covid-19 e os Povos Indígenas, idealizada pela articulação dos Povos Indígenas do Brasil e Mobilização Nacional Indígena, com apoio da Mídia Ninja, do Projeto Xingu, do Projeto Amazônia e da Abrasco, mantém dados atualizados sobre a situação de cada um dos povos indígenas, como os dez mais ameaçados pelo Coronavírus. E, entre eles, estão a Terra Indígena da Barragem, localizada na região de Embu Guaçu; a Terra Indígena Yanomami, no Amazonas; e a Terra Indígena do Jaraguá, localizada na cidade de São Paulo.

De acordo Lindomar Padilha, há risco de extinção para os indígenas em situação de isolamento devido às iminentes invasões por madeireiros, garimpeiros e caçadores, que acabam por potencializar a contaminação dos povos.

“Se o poder público tem se mostrado ineficiente na proteção desses territórios contra as invasões, seguramente o será frente a um vírus que tem ação ainda desconhecida”,

ressalta Lindomar.

Atividade indígena - Crédito: Arquivo pessoal

Roberto Liebgott, missionário e coordenador do Cimi na região Sul do Brasil, reforça que “Neste período, percebe-se um avanço dramático de invasores dentro dos territórios indígenas”. Mesmo em isolamento, as comunidades são, permanentemente, ameaçadas pelos órgãos do Poder Executivo, dos Ministérios do Meio Ambiente, da Agricultura, das Minas e Energia e, até mesmo da Funai e do Incra.

“Estes órgãos impulsionam grandes grupos a invadirem os territórios para explorar madeira, minério, a pesca predatória e outros recursos ambientais, além de lotear terras indígenas”, explica Roberto.

O missionário cita ainda casos dramáticos, como o do Povo Guarani, em São Paulo: “No Pico do Jaraguá, mais de 300 pessoas já foram afetadas, com dois óbitos. Medidas não vêm sendo adotadas por conta da política de incentivo às invasões territoriais e da negação da doença por parte do Poder Público”.

Atividade indígena - Crédito: Arquivo pessoal

Ele fala sobre sonegação de informações, o que impede a manutenção das equipes de saúde nas áreas indígenas, a falta de água potável, saneamento básico, alimentos e um atendimento cotidiano. “Há um contexto de sonegação das informações para se omitir de responsabilização. Há uma omissão criminosa por parte do governo brasileiro”, acusa Roberto.

Roberto afirmou ainda que, só depois que ações judiciais foram tomadas, o governo brasileiro, por meio da Funai, passou a distribuir, “de forma precária, algum tipo de alimento nas comunidades indígenas”.

O Cimi tem acompanhado a dramática realidade dos povos indígenas neste período de pandemia.“Percebe-se que não houve, por parte do Governo Federal, nenhum tipo de planejamento para promover ações preventivas e de proteção às comunidades indígenas. As equipes de saúde também são insuficientes, seja pela falta de equipamento, seja de servidores, ou seja, médicos, enfermeiros, sanitaristas”, afirma Roberto Liebgott.

Conheça agora relatos de realidades de indígenas que vivem em aldeias e em centros urbanos e como estas populações têm se mantido durante a pandemia.

Crédito: Equipe de Arte Aupa.

Povo Kanindé

Antônia da Silva Santos tem 21 anos e mora na Aldeia Fernandes, na zona rural do Município de Aratuba, no estado do Ceará.  Ela pertence ao Povo Kanindé e está cursando o 6° período do Bacharelado em Museologia da Universidade Federal do Recôncavo Baiano.

O estado do Ceará já contabiliza quatro óbitos ocasionados por Coronavírus entre as populações indígenas segundo a contagem registrada até o dia 29 de junho. Antonia informou que a Aldeia Fernandes possui cerca de cinco casos confirmados e sete suspeitos. Nenhum com sintomas graves. São 1.076 pessoas divididas em três aldeias, sendo elas: Aldeia Fernandes, Aldeia Balança, localizada no pé da Serra do Município de Aratuba, e Aldeia Gameleira, no município de Canindé.

A indígena explicou ainda que, se por um lado, eles estão acostumados a manter distância do convívio social com os brancos, por outro, o distanciamento social dentro da comunidade é uma realidade inédita.

“Sempre fomos cautelosos com esse contato e as formas como ele ocorre. Mas, até mesmo dentro da comunidade, as visitas a amigos e parentes foram proibidas, as aulas da escola indígena estão suspensas, não se vê mais as crianças brincando nos terreiros e os rituais, as festas e as celebrações não têm ocorrido. A aldeia já não é mais a mesma”,

afirma Antônia da Silva Santos.

Os Kanindé mantém sua subsistência basicamente com agricultura e caça. Antes da pandemia as roças já haviam sido plantadas e o cultivo familiar individual prosseguiu. “As famílias com maior redução da renda têm sido assistidas pela assistência social indígena do povo Kanindé e com apoio do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos da Arquidiocese de Fortaleza”, explica Antônia. “O sentimento de coletividade também caracteriza a aldeia e as famílias têm se ajudado”, comenta ela.

No território da Aldeia Fernandes, há um lixão a céu aberto que continua ativo – e neste local se descarta, inclusive, materiais clínicos e hospitalares. “Há indígenas que realizam a separação dos resíduos e este é um potencial lugar de contaminação dentro da própria aldeia”, lamenta Antônia.

Cauê Pataxó - Crédito: Arquivo pessoal

Povo Pataxó
Cauê Taiguara Pataxó França Silva (também conhecido como Cauê Taiguara Pataxó) pertence à população Pataxó e vive no centro urbano de São Paulo. Em casa, Cauê sente na pele as dificuldades, pois é artesão há mais de 20 anos. “Faço peças de arte em madeira e trabalho com um projeto social de cultura indígena nas escolas. Sem conseguirmos ir fisicamente aos lugares de exposição e contação de histórias, temos tentado manter as vendas e atividades de forma on-line”, explica.

Em contato com as comunidades do Povo Kaingang, Guarani e Xetá, além de várias Aldeias no Norte do Paraná, Cauê disse que não soube de nenhum caso da Covid-19 entre os indígenas, mas que eles, em geral, têm recebido apoio deficitário. “Poucos acessaram o auxílio emergencial ou outros benefícios sociais”, ressalta.

Tamikuã Pataxó é da Aldeia Mãe Barra Velha, em Porto Seguro, na Bahia. Há 24 mil Pataxós entre o Sul da Bahia, Minas Gerais e o Rio de Janeiro. “Meu povo está isolado para se proteger. Fechados com portões em todas as entradas da aldeia e, por isso, todos estão sendo prejudicados, afinal as principais fontes de renda são o turismo na Ilha de Caraíva e a venda do artesanato”, comenta Tamikuã.

Tamikuã Pataxó - Crédito: Arquivo pessoal

Sem nenhuma assistência, a aldeia tem se mantido por meio de doações de cestas básicas. “Nos sentimos muito ameaçados, sobretudo na minha aldeia, onde o fluxo de turismo é alto. Os indígenas vivem do seu próprio trabalho e, neste momento, não estão tendo nenhum auxílio do governo”, afirma.

Auritha Tabajara - Crédito: Arquivo pessoal

Povo Tabajara
Francisca Aurilene Gomes, também conhecida como a Auritha Tabajara, tem 40 anos e nasceu na Aldeia Umburana, no Ceará. Atualmente, mora em São Paulo, é autora e vive do seu trabalho como contadora de histórias, eventos e venda de livros. Ela está recebendo o Auxílio Emergencial do Governo Federal. “Estou em casa com minha filha de 14 anos e minha esposa, que está saindo para trabalhar. Fiquei tossindo por alguns dias, mas, graças aos grandes espíritos de cura, estou bem. Porém, uma parenta dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs) Ceará, agente indígena do povo Tabajara no município de Tamboril, veio a óbito”, diz.

Povo Puri
Aline Rochedo Pachamama é historiadora e militante das causas dos povos originários. Aline ressalta que seu povo ocupa a região da Serra da Mantiqueira e toda sua extensão é considerada um território indígena. “Existem vários pontos de presença do Povo Puri, inclusive sítios arqueológicos. Estamos entre os estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro”, explica Aline, que participa de um coletivo de mulheres que mantém uma editora protagonizada por mulheres originárias.

Aline Rochedo - Crédito: Arquivo pessoal

Povo Kadiwéu
Benilda Vergílio, cujo nome indígena é Examelexe, vive na Terra Indígena Kadiwéu, no Mato Grosso do Sul, mais especificamente na Aldeia Alves de Barros, onde habitam aproximadamente 1.600 pessoas. A indígena comentou que, por estarem distantes da cidade, se houvesse casos dentro da aldeia, a assistência médica seria muito difícil. “Estamos em isolamento social, conforme os decretos oficiais e também a ordem das lideranças que determinaram a quarentena para todos da aldeia”, explica ela.

“Fizemos um esquema de barreira, onde 120 homens estão cuidando da entrada da aldeia para que ninguém de fora entre”, detalha Benilda. “Além disso, estamos cuidando muito da higiene e usando máscaras. Nos organizamos de forma coletiva e até agora não tivemos nenhum infectado na aldeia”, conclui Examelexe.

“Temos feito um trabalho de organização das demandas e denúncias de vários povos. Não tenho registro dos meus parentes infectados pela Covid-19, mas me sinto muito afetada quando outros povos relatam o que está acontecendo nas comunidades”, diz Aline, que ressaltou que este continua sendo momento de invasão. “Meu grupo está numa região muito afastada, porque estão entre as montanhas. Certamente, o auxílio emergencial não chegou a eles, pois não têm acesso à internet”, comenta a historiadora. “Na região, por exemplo, há relatos de mineradoras que tiveram a legitimação de adentrar em territórios que são públicos e onde estamos localizados”, afirma.

Aline falou ainda sobre as esperanças egoístas da maioria das pessoas de que as coisas podem melhorar, mas sem refletir sobre aspectos, como o consumo desenfreado, a energia desenvolvida em questões singulares e não plurais e a falta de coletividade. “É um momento de reflexão não só para os humanos, mas para os não humanos, pois a natureza está gritando. Além disso, esse governo expressa todo seu ódio e sua violência em relação aos povos originários. Temos que entender que a luta dos povos originários são de toda a sociedade. Os recursos naturais que preservamos com a nossa presença são recursos que servem à sociedade, por um todo”, insiste Aline.

Você pode se aprofundar sobre o tema aqui.

Crédito: Equipe de Arte Aupa

Impacta Mais ON: confira os destaques do evento que reuniu o ecossistema de impacto

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Nos dias 30 de junho e 1º de julho, o ecossistema de impacto se reuniu para o evento “Impacta Mais ON – Construindo uma nova economia com impacto positivo”. A versão on-line foi um aquecimento para o Fórum de Investimentos e Negócios de Impacto, previsto para acontecer presencialmente em 10 e 11 de novembro. A realização do evento foi feita por ICE (Instituto de Cidadania Empresarial), Impact Hub e Vox Capital.

A abertura do fórum contou ainda com a apresentação do DJ Bola, membro da ANIP, da A Banca e do grupo Abôrigens. Na seleção sonora, Bola escolheu canções que dialogam com momento de apreensão mundial que estamos vivendo.

Durante os dois dias, a audiência de mais de 1.000 pessoas participou de diversas discussões sobre o papel do setor de impacto e seus diferentes atores, especialmente na recuperação do mundo pós-pandemia, com mais de 30 nomes entre painelistas e mediadores. Os vídeos do evento podem ser conferidos aqui.

Na abertura do evento do dia 30, Célia Cruz, diretora executiva do ICE, trouxe um cenário dos investimentos pré-Covid-19. Segundo dados preliminares da ANDE, entre 2019 e 2020, no Brasil, R$5 bilhões foram destinados a negócios de impacto. 

“Precisamos impulsionar negócios de impacto que têm demanda na crise, ao mesmo tempo que precisamos proteger os outros negócios de impacto para que sobrevivam e se reinventem”, comenta Célia Cruz.

Os impactos da pandemia também foram tema de reflexão dos participantes. O convidado internacional, Sir Ronald Cohen, chairman do Global Steering Group for Impact Investment (GSG) e conhecido como um importante investidor social, alertou para a importância do apoio aos mais vulneráveis, como moradores de rua e mães solteiras.

“Após a crise, temos que nos concentrar em três esforços principais: retreinar os desempregados, apoiar os informais e investir em educação para que as pessoas concluam os estudos”, reflete Sir Ronald Cohen.

 

Créditos da foto: Reprodução.

O painel de abertura do evento “Do Global ao local: Qual a contribuição dos investimentos e negócios de impacto para novos paradigmas econômicos?” teve como participantes: Adriana Barbosa (Feira Preta),  Neca Setubal (Fundação Tide Setubal), Denis Minev (Grupo Bemol) e a mediação de Daniel Izzo (Vox Capital). O impacto como centro da economia foi uma das linhas abordadas pelos palestrantes.

“Esse momento descortinou esse capitalismo em que as pessoas não eram o centro. Temos que pensar em uma economia com o desenvolvimento central das pessoas”, afirma Neca Setubal. 

A falta de investimentos para os empreendedorismos negro e indígena por conta de modelos mentais atrasados foram levantados pelos palestrantes Adriana Barbosa, da Feira Preta, e Denis Minev, do Grupo Bemol. 

“Tenho essa sensação de que o investimento negro é olhado como algo sem escala por muitos investidores. Os saberes ancestrais têm muita tecnologia e usar essa capacidade seria uma potência para o nosso país”, comenta Adriana Barbosa.

Para Denis Minev, do Grupo Bemol, é fundamental investir nas potencialidades indígenas para além do artesanato.

Créditos: Agência Ophélia.

“Eu acredito que, quando o Brasil olha para o Amazonas, tem uma obsessão ambiental. È o modelo mental que eu gostaria de quebrar, pois aqui há 25 milhões de brasileiros que também sonham prosperar”, conclui. 

Após o primeiro painel, o Impacta Mais On propôs um exercício aos participantes pela plataforma Zoom para uma construção de visões de futuro para a agenda de impacto no Brasil. Em paralelo às sessões, uma transmissão on-line pelo YouTube anunciou os vencedores das últimas edições dos Prêmios Academia ICE e Prêmio Jornalista de Impacto (realização ponteAponte) e uma conversa sobre a iniciativa IdeiaGOV hub de inovação do Governo do Estado de São Paulo em parceria com o Impact Hub São Paulo. 

A mensagem final do primeiro dia de evento veio do convidado internacional Otto Scharmer do Presencing Institute, que reforçou a necessidade de refletir sobre a realidade e agir frente às desigualdades.

“Hoje vemos outro tipo de muro caindo, não é um muro de sistemas, é um muro entre como eu me conecto ao sistema. Nosso engajamento com a realidade, nós estamos fazendo uma escolha. Estamos nos abrindo ou dando às costas?”, reflete Otto.

O segundo dia de evento, 1º de julho, trouxe como foco a jornada pessoal de empreender e investir com impacto. Para o debate sobre empreendedorismo, Alessandra França (Banco Pérola) e Carlos Humberto (Diaspora.Black) contaram suas experiências e desafios de ter um negócio de impacto, especialmente neste contexto de pandemia. 

“O nosso setor, que é o turismo, foi o mais afetado. Por outro lado, encontramos alternativas, começamos a vender experiências on-line. Cursos que trabalham a questão racial. Atividades de autoconhecimento, festivais de gastronomia. Alternativas para driblar esse desafio e afroempreendedores continuarem a ofertar os serviços deles”, comenta Carlos Humberto, dono da Diaspora.Black.

Na outra ponta estão os investidores de impacto, que têm a oportunidade de direcionar fundos para negócios que buscam reduzir desigualdades. Charly Kleissner, da Felicitas Foundation, investe neste setor desde 2001. Ele ressalta que os financiamentos coletivos dão a possibilidade de cada um fazer sua parte sem necessariamente ter um grande patrimônio.

Créditos: Reprodução.

“Quando você resolve se dedicar para o impacto, o retorno não é todo para você, senão você não teria feito essa decisão. Hoje, com 25 dólares é possível contribuir para uma iniciativa de impacto da mesma forma que pessoas muito ricas podem fazer”, diz Charly.

Para fechar a programação dos dois dias de evento, cinco sessões paralelas foram organizadas com painéis em diferentes frentes.

São elas: 1. Formação e aceleração de empreendedores para impacto; 2. Compromisso de investidores e negócios com impacto; 3. Reconhecimento do mercado e resultados de impacto; 4. Governos, tecnologia e periferias impulsionam impacto; e 5. Economia de impacto e um chamado para grandes empresas. Parte dos diálogos dos painéis usou como mote o exercício: como o setor se imagina dentro de cinco anos – uma projeção para 2025.

O Impacta Mais ON mobilizou e treinou mais de 100 voluntários para atuar na facilitação e apoio técnico em sessões paralelas e grupos de discussão. 

A seguir, confira algumas das canções que fizeram parte da trilha sonora do Impacta Mais On: 

Por que falar em políticas de renda mínima?

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Renda mínima.

O auxílio emergencial de 600 reais – criado para aliviar o impacto da pandemia nos trabalhadores informais – colocou de vez na mesa o debate sobre a renda mínima. Ao longo das últimas semanas, em diversos artigos de jornal e lives, escutamos versões distintas desse tipo de proposta, assim como manifestações críticas derivadas de preocupações com a situação fiscal do País.

O debate emergiu porque o Brasil “descobriu” com a pandemia que mais de 40% dos seus trabalhadores eram informais. E esse é um dado de janeiro de 2020, anterior ao início da crise. A discussão é oportuna, pois a informalidade gera enorme instabilidade econômica para comunidades inteiras. As receitas do trabalhador informal flutuam de modo substancial ao longo do ano – o que o torna particularmente vulnerável a situações de queda mais aguda do nível de atividade econômica, como a que vivemos agora.

Quando nos referimos à informalidade, estamos falando dos milhões de trabalhadores que não contam com a proteção proporcionada pela CLT: ambulantes, cabeleireiras e manicures, faxineiras, produtores culturais, pedreiros, doceiras, motoristas de aplicativo, feirantes, pescadores e centenas de outras ocupações mais ou menos conhecidas. Além da renda flutuante, esses trabalhadores não contam com os diversos benefícios que contribuem para a redução do estresse econômico dos empregados formais, como férias, 13º, vale-alimentação, seguro saúde, Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, indenização por rescisão contratual e aposentadoria. A verdade é que não é mole viver em contexto de permanente insegurança econômica.

O pior é que essa situação se perpetua ao longo do tempo e pode piorar no futuro. Por um lado, dos milhões de jovens desempregados neste momento, a maioria nunca vai conseguir uma posição estável no mercado de trabalho. E, em algumas periferias, já estamos observando taxas de desemprego próximas a 50% para jovens de 18 a 24 anos. O que o País tem a oferecer a essa geração?

Por outro lado, os rápidos avanços tecnológicos em curso – como robótica, inteligência artificial e internet das coisas – prometem eliminar milhões de empregos que hoje são ocupados por trabalhadores menos qualificados. Depois de instalar terminais de autoatendimento, algumas lojas já demandam menos vendedores. Os estoques de grandes organizações estão sendo automatizados, reduzindo substancialmente a demanda por estoquistas. Máquinas estão substituindo indivíduos na linha de montagem e na agricultura, e a inteligência artificial já diminuiu a necessidade de profissionais de telemarketing. Infelizmente, nesse tipo de contexto, em geral, os demitidos são os menos escolarizados – aqueles com mais dificuldade de se adaptar às novas tecnologias.

Em outras palavras, não apenas já temos milhões de trabalhadores informais e desempregados, mas o futuro aponta para um cenário em que o mercado de trabalho será ainda mais restritivo.  E, enquanto ignorarmos essa dura realidade, continuaremos a reviver sem trégua o ciclo de reprodução de periferias, gerando mais desigualdades, mais violência, mais condomínios fechados (na busca por segurança) e mais pressão sobre as políticas sociais.

Promover o empreendedorismo é importante, mas é ilusório imaginar que essa seja uma solução estrutural para resolver a situação econômica de 50% da população brasileira.

E, embora a renda mínima não vá acabar com nossos graves problemas sociais, ela pode funcionar como um importante colchão de amortecimento, inclusive para os milhões de microempreendedores que perdem tudo em situações de crise.

A exitosa experiência do Bolsa Família já oferece algumas lições relevantes. É essencial termos um olhar diferenciado para famílias com crianças e para mulheres chefes de família. Precisamos de cadastros de qualidade para reduzir fraudes e atuar com justiça. E o fortalecimento da rede socioassistencial criada pelos municípios permite ao Estado atuar de forma diferenciada nos locais com maior concentração de problemas.

Em um país desigual, como o Brasil, a única objeção séria a um programa desse tipo diz respeito à situação fiscal. Mas o País já escolheu formular políticas ousadas em situações fiscais extremas – caso da criação do SUS no início dos anos de 1990. Para financiar a política de renda mínima, será necessário rever isenções como as voltadas para gastos de saúde e educação no imposto de renda. Precisaremos eliminar o privilégio exorbitante dos mais ricos de não serem taxados quando da distribuição de dividendos. E podemos reduzir incentivos fiscais para setores que vão muito bem, como a agricultura. Tudo isso vai mexer no meu e no seu bolso.

Mas precisamos falar sério se quisermos um País de verdade, não é mesmo?

Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa.

Oportunidades para empreendedorismo 50+ e incubação para negócios de impacto

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Apesar da pandemia, os diálogos e as iniciativas no campo de impacto não param. Afinal, readaptar-se é preciso. E, assim, o calendário do ecossistema tem bombado com eventos on-line nesta metade de 2020.

MaturiFest
O MaturiFest, maior festival de trabalho e empreendedorismo 50+ do Brasil, acontecerá entre os dias 6 e 9 de julho, a partir de lives interativas. Trata-se de uma iniciativa da MaturiJobs. Os participantes poderão conferir as falas de 50 palestrantes e debatedores, além de terem direito ao acesso a mais de 12 salas virtuais para networking, com ênfase para a troca de ideias e experiências para enfrentar os desafios de hoje.

É a oportunidade de aprender ainda mais sobre o empreendedorismo voltado aos profissionais 50+ e isso aborda mudança de mindset para que novas oportunidades possam ser acessadas e encaradas. O MaturiFest teve sua primeira edição em 2018 e em seus dois primeiros anos foi reconhecido pelo Selo Municipal de Diversidade e Inclusão de São Paulo.

As palestras são gratuitas e é possível acessar a experiência completa por meio do ingresso solidário. Você pode fazer sua inscrição aqui.  Conheça a programação:

Incubadora para Negócios de Impacto
Além das trocas virtuais de experiências e cartões, é possível também receber orientações sobre incubação voltada a negócios de impacto, a fim de que alcancem a sustentabilidade financeira e possam oferecer soluções socioambientais.

Este é o trabalho que a Incubadora da FEA Social vem desenvolvendo desde 2016, sob a metodologia Startup Enxuta – para saber mais, acesse o Edital da Incubadora para Negócios de Impacto. O trabalho é alçado em cinco pilares: capacitação e treinamento, desenvolvimento de produto/serviço, desenvolvimento pessoal dos empreendedores, formatação de modelo de negócio e promoção de rede de contatos.

Se interessou? Para inscrever seu negócio de impacto para participar da seleção, basta preencher o formulário até dia 11 de julho. O processo possui ainda um envio opcional de carta ou vídeo de até dois minutos. Já a segunda fase ocorrerá em julho, por meio de entrevistas on-line. O programa contempla três vagas, tem duração de quatro meses e deve iniciar no meio de agosto.

Consultoria 2020 FEA Social.
Incubadora 2020 FEA Social.

A FEA Social oferece ainda serviços gratuitos de consultoria para ONGs e negócios de impacto que busquem aumentar a eficiência operacional das organizações do setor social. A consultoria é exclusiva para instituições já consolidadas e com CNPJ e tem como objetivo proporcionar uma visão externa às organizações, embasada nos conhecimentos oferecidos pelos cursos da própria FEA-USP.

As consultorias estão baseadas em quatro etapas: diagnóstico, planejamento, implementação e acompanhamento – para maiores detalhes, acesse o Edital de Consultoria de ONGs e Negócios de Impacto. A seleção ocorrerá em duas fases. Primeiramente, o preenchimento de um formulário, que exige alguns pré-requisitos por parte das organizações, até dia 18 de julho. Em seguida, ainda em julho, acontecerão entrevistas on-line. Seis projetos serão contemplados.

Cecília Zanotti: “Considerar mulheres negras nos processos é fundamental”

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Como é o cenário para empreendedoras no Brasil? Quais as dificuldades que organizações e empresas, dentro e fora do ecossistema de impacto, enfrentam quando lideradas por mulheres? Para jogar luz em caminhos possíveis para debater tais questões, a partir de dados, contextos e estudos de caso, a Aspen Network of Development Entrepreneurs (ANDE) lançou a pesquisa “Aplicando uma Lente de Gênero no Apoio ao Empreendedorismo: Insights do Brasil” (2020). O estudo foi feito pela ANDE, tendo como parceiros o Institute of Development Studies (IDS) e o programa Developing Inclusive and Creative Economies (DICE) do British Council.

Em entrevista exclusiva à Aupa, Cecília Zanotti, gerente do braço brasileiro da ANDE, comenta sobre as ações da organização, a importância de mais mulheres serem líderes no mundo dos negócios, investidoras e empreendedoras – considerando-se a realidade e as territorialidades de cada uma. Ela soma também à equipe a experiência como gestora de programas e Organizações da Sociedade Civil, desde 1998.

Sobre a quantidade de mulheres que trabalham na ANDE (Brasil), Cecília explica: “Sobre cargos de liderança, a gerente executiva é uma mulher e o cargo de diretor(a) executivo(a) está em processo de transição. No caso de uma contratação feminina, os dois maiores cargos da organização estarão ocupados por mulheres”.

A ANDE no Brasil prevê a contratação de mulheres negras em seu plano de expansão, já que, apesar da equipe no Brasil ser 100% feminina (formada por duas mulheres), nenhuma é negra. “A equipe mundial da ANDE, considerando a sede nos Estados Unidos e todas as equipes de todos os países, soma 43 pessoas: 32 são mulheres (74%) e 14 são negros (32%). Destes, 8 são mulheres (18% do total) e 6 homens”, explana a gerente.

Créditos: Equipe de Arte da Aupa.

AUPA – Sobre mulheres empreendedoras, ainda vemos uma série de obstáculos, como poucas mulheres em cargos de liderança nas empresas e organizações, além do fato de que poucas empreendedoras conseguem ter acesso ao capital e ao crédito. Colocando também um recorte de raça/etnia, este número é ainda menor. Quais ações da ANDE, feitas a partir do estudo, podem/poderão contribuir para a mudança deste cenário?
Cecília Zanotti – A ANDE está conduzindo em 2020 o projeto AGEI – Iniciativa de Equidade de Gênero (Ande Gender Equality Initiative), financiado pela Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento (USAID) e pela Visa Foundation. Esse projeto acontece ao mesmo tempo nas regiões dos seguintes países: Brasil, Colômbia, México, Nigéria, Quênia, África do Sul, Índia e Tailândia, países onde a ANDE tem escritório. O estudo “Aplicando uma Lente de Gênero no Apoio ao Empreendedorismo: Insights do Brasil” nos deu a clareza e alguns dados sobre os quatro principais desafios no apoio ao empreendedorismo quando consideramos a questão de gênero: compreender vieses inconscientes; reconhecer a interseccionalidade; conectar mulheres aos investidores e atrair e reter mulheres em programas de apoio ao empreendedorismo. A partir dos desafios identificados, começa a busca por construir soluções.
O objetivo do projeto AGEI é justamente reunir atores relevantes do setor para ajudar a superar essas barreiras institucionais de exclusão que você menciona, por meio da construção de soluções para mudanças sistêmicas.
Faremos um processo de entrevistas com atores relevantes em julho e realizaremos uma série de encontros virtuais com um grupo específico de organizações, com orientação do MIT D-Lab, para a elaboração de soluções para o ecossistema de empreendedorismo se tornar menos desigual.
Além disso, a ANDE fará um evento internacional, fruto da parceria entre os escritórios da ANDE no Brasil, Índia e África do Sul, no dia 19 agosto. Serão apresentados casos de apoio ao empreendedorismo de organizações que conseguiram aplicar lentes de gênero em suas estratégias internas e externas. O objetivo é compartilhar como essas organizações fizeram para construir melhorias no combate às desigualdades de gênero e provocar a reflexão nos participantes sobre em qual estágio suas organizações estão dentro da escala de gênero da Organização Mundial da Saúde e que passos podem dar.

AUPA – Dentro dos obstáculos no empreendedorismo, há ainda a questão socioeconômica. Como o ecossistema de impacto poderia contribuir melhor para que as mulheres empreendedoras da base da pirâmide socioeconômica possam ser protagonistas e agentes que promovam mudanças estruturais – e não sejam apenas beneficiárias? 
Cecília Zanotti – Uma forma de fazer isso é garantir espaços de participação. Considerar, nos processos de elaboração de programas, a escuta e a participação ativa de lideranças de mulheres com esse perfil. E, quando falamos de mulheres da base da pirâmide socioeconômica no Brasil, estamos necessariamente falando de raça. Portanto, considerar mulheres negras nos processos é fundamental. Sermos pró-ativos no processo de identificação e convite à participação, garantindo que possam estar presentes. Contratar consultoras mulheres e negras, assim como colaboradoras mulheres e negras.
O ambiente virtual pode inclusive facilitar essa participação, como ouvimos da Jiselle Steele, da Social Starters, palestrante do webinar da ANDE sobre o estudo. Ela relatou uma maior participação das mulheres periféricas no programa depois que mudaram para o ambiente virtual, já que não exigia mais transporte, alimentação e menos tempo de dedicação do que o formato presencial. 
Outra forma de fazer isso é estabelecer parcerias para o desenvolvimento de programas. Ou seja, as lideranças e organizações representativas desse perfil podem ser executoras de programas junto com outras organizações, e não apenas beneficiárias. Um exemplo bem-sucedido de uma parceria como essa é a criação da ANIP, Articuladora de Negócios de Impacto da Periferia, uma parceria entre Artemisia, A Banca e FGVcenn (Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios da FGV). As organizações que atuam nas periferias, fundadas ou geridas por lideranças das periferias, têm conhecimento e experiências muito grandes em articulação, mobilização, além de utilizarem canais e formas de comunicação que conectam com as empreendedoras e os empreendedores das periferias.

Nosso setor de impacto, que ainda é muito excludente, não faz na medida necessária. Precisamos fazer mais.

AUPA – Sobre as barreiras estruturais destacadas no estudo da ANDE: como os territórios podem contribuir e também dificultar ainda mais o desenvolvimento deste ecossistema empreendedor feminino, pensando no recorte brasileiro e suas muitas desigualdades?
Cecília Zanotti – O Brasil ocupa a sétima posição mundial no ranking de desigualdade de renda elaborado pelo PNUD (Relatório de Desenvolvimento Humano 2019 com dados de 2017). Essa é uma grande questão para ser levada em conta.
Empreender sendo mulher, negra e tendo nascido na periferia de uma grande cidade, sem dinheiro para transporte ou em um bairro de classe A ou B, podendo ter aprendido inglês em escola particular ou no intercâmbio, são realidades completamente diferentes.
Pensar o território é pensar em transporte, alimentação, apoio às mulheres que são responsáveis pelos cuidados dos filhos ou dos idosos da família, infraestrutura, acesso à internet e mais todas as questões sociais que influenciam a rotina das mulheres nessas localidades.

Pensar em soluções levando em conta o território diz respeito a formular programas de apoio ao empreendedorismo que possam ir até os bairros periféricos, além da construção de centros de empreendedorismo nessas localidades, do ensino de inglês gratuito ou a um custo acessível, já que o universo do empreendedorismo é cheio de termos nesta língua.

Pensando em quem nasceu e vive em um bairro de classe A ou B e quer apoiar o empreendedorismo, entendo que vale uma ação individual de apoiar e investir em iniciativas, empresas, organizações fundadas ou lideradas por mulheres. Para quem é branco, como eu, estudar e aprender como combater o machismo e o racismo. Há muitas fontes de recursos sobre isso disponíveis: livros, filmes, vídeos no YouTube. Seguir influenciadoras negras nas redes sociais. Aprender sobre a luta antirracista, a branquitude, o colorismo, a interseccionalidade, eleger mulheres brancas e negras que apoiam o empreendedorismo feminino, a igualdade de salários entre homens e mulheres.
No nível das empresas e organizações, fazer a avaliação dos perfis dos colaboradores e compará-los com os dados da nossa população. Se houver muita disparidade de representação, repensar processos internos, oferecer treinamentos sobre vieses inconscientes, garantir representatividade nos cargos de liderança e conselhos, aplicar as lentes de gênero ao planejar os programas e ao pensar a estratégia e as metas da organização.
No nível do ecossistema, apoiar organizações que estão pautando essas temáticas, participar de discussões e construções coletivas que visam transformar a situação atual, unindo os setores privado e público e a sociedade civil. Como a ANDE, a ONU Mulheres, o Movimento Mulher 360, Comitê de Igualdade Racial do Grupo Mulheres do Brasil e a Rede Mulher Empreendedora, por exemplo.

AUPA – No ecossistema de impacto, muitos acreditam que o futuro de seu desenvolvimento virá dos investimentos antes colocados no mercado de ações. Na pesquisa, vocês mencionam a importância de mais mulheres se tornarem investidoras. Como, então, atraí-las aos investimentos de impacto e aos negócios liderados por outras mulheres?
Cecília Zanotti – Criar programas pró-ativamente focados em atrair negócios de impacto liderados por mulheres e oferecer apoio financeiro e não-financeiro. O We Impact é um exemplo bacana.
Convidar mulheres investidoras ou grupos de mulheres investidoras a participarem do programa, assim como melhorar a comunicação sobre negócios de impacto liderados por mulheres, para que possam ser vistas e conhecidas pelas mulheres investidoras. Gerar mais conhecimento, como o estudo da ANDE, e programas para acabar com essa lacuna, como a ANDE está fazendo com o AWEF, Fundo Avançado para o Empoderamento das Mulheres (Advancing Women Empowerment Fund), que selecionou e está financiando oito propostas para resolver a falta de financiamento para as Pequenas Empresas em Crescimento lideradas por mulheres no Sul e Sudeste da Ásia. Serão até US$1,2 milhões em financiamento total ao longo de dois anos. Cada vencedor recebeu até US$150.000 em um ano para testar modelos que catalisam investimentos em Pequenas Empresas em Crescimento lideradas por mulheres por meio de abordagens inovadoras. Os vencedores podem ser encontrados aqui.
Além disso, é preciso continuar oferecendo treinamento sobre vieses inconscientes para investidores, incluindo mulheres. Um exemplo de presença de mulheres investidoras é a plataforma de empréstimo coletivo da Sitawi, onde cerca de 40% dos investidores são mulheres. [Saiba mais sobre a Plataforma de Empréstimos Coletivos da Sitawi aqui.]

AUPA – O estudo destaca o papel dos intermediários para as questões acerca de acesso ao crédito e aos investimentos. O quanto vocês entendem que os intermediários podem melhorar em suas ações para que esta ponte possa ser ainda mais efetiva?
Cecília Zanotti – O estudo cita que, de acordo com a IFC [International Finance Corporation], a diferença de financiamento para mulheres no setor de Pequenas Empresas em Crescimento nos países emergentes é estimada em US$320 bilhões. Há necessidade de diferentes produtos financeiros, especialmente focados em empresas que não sejam do perfil Vale do Silício ou Wall Street, com tamanhos mais adequados ou condições de pagamento mais flexíveis. Oferecer empréstimos entre US$5.000 e US$50.000 é particularmente importante, pois, muitos investidores tradicionais e de impacto consideram muito pequeno para garantir os custos de transação envolvidos ou deveras arriscado para os retornos. Criar soluções para esse desafio, usar alternativas de financiamento combinadas, soluções de blended finance, focadas no financiamento para mulheres empreendedoras, pode ser um caminho, pois os investidores tradicionais podem ser atraídos e a filantropia pode reduzir os riscos do investimento. 

Doações e mentiras sinceras interessam

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O ecossistema de impacto adotou Pinheiros. Por aqui estão coworkings, aceleradoras, gestores de fundos e negócios de impacto. Morar aqui é um privilégio, o qual eu também usufruo. Aqui, serviços públicos funcionam, há ciclovias e ruas são recapeadas com frequência, como a rua Artur de Azevedo, via que cruza o bairro e liga o nobre Jardins ao Largo da Batata, margeando colégios tradicionais, como a Escola Estadual Fernão Dias Paes, na avenida Pedroso de Moraes, entre outras ruas, como a Mourato Coelho.

A última parte é plana e ideal para caminhar, especialmente à noite, quando muitas ruas estão desertas. Vazias de moradores, mas não necessariamente de trabalhadores. Juntam-se aos que recapearam o asfalto na madrugada, uma legião de entregadores à espreita de pedidos de restaurantes. Em uma noite qualquer de caminhada, presenciei algo inusitado e pouco visível para quem mora ou trabalha no bairro.

Atravessei a avenida Rebouças e lá me deparei com uma grande quantidade de entregadores em frente a uma igreja. A movimentação me causou espanto, pois, não era um restaurante, mas, sim, a porta de um templo. Me aproximei e vi também  moradores em situação de rua, todos retirando seu prato de comida. Entregadores (e não eram poucos) retiravam também marmitas ao lado dos que vivem nas ruas e que recebem doações em tempos de pandemia.

Doar também fez parte da rotina de grandes empresas durante a quarentena. O vírus fez o nível de doações explodir e isso é ótimo. Difícil criticar quem doa, seja uma igreja, uma empresa ou um banco. Cerca de R$5,4 bilhões foram arrecadados por inúmeras frentes em combate à Covid-19 e seguramente devem ter financiando uma rede de solidariedade da periferia ou ainda suprimentos médicos para os hospitais.

Como mencionei, é impossível criticar doações, mas é fácil desnudar intenções.

Em edição recente, a revista Forbes publicou uma lista com as 100 maiores empresas doadoras na pandemia. Entre elas está a XP, do fundador Guilherme Benchimol, o mais novo integrante dos 20 brasileiros mais ricos do mundo. A XP criou seu próprio programa de doações para ajudar na pandemia, com aporte de R$25 milhões, além de lançar um fundo de sustentabilidade inédito no país. O fundador disse em coletiva que o “Pico da Covid-19 nas classes altas já passou” e tem cerca de US$3 bilhões na conta. Qual notícia ou cifra lhe interessa mais?

Na verdadeira Pinheiros que vivo, há entregadores de comida sem direitos e sem janta e trabalhadores recapeando ruas enquanto deveriam estar em casa se protegendo do vírus. É repleta de ruas com nomes homenageando assassinos de índios e negros e cheia de desigualdades que permeiam nossa cidade.

Está tudo aí para todos verem, mas poucos enxergam e preferem venerar quem tem mais para mostrar quem doa mais.

Nem esses recursos e nem a boa vontade irão tampar a falta de políticas públicas para benefício de todos. Espero que os que adotaram Pinheiros e querem de fato impactar se protejam contra a vacina de mentiras sinceras e não genuínas. De boas intenções o mundo está cheio, basta escolher com qual verdade queremos ficar. Eu fico com a dos padres.

Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa.

Conheça os projetos da Câmara Municipal de São Paulo que buscam fomentar negócios de impacto social

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Créditos: Deposiphotos.

A conexão com o Poder Público já é uma realidade para investidores sociais. Segundo o último Censo GIFE, de 2018, 45% de institutos, fundações e empresas afirmam trabalhar em parceria com a esfera municipal. Enquanto 29% atua junto ao Poder Público estadual e 23%, com o governo federal. 

A gente tem certa percepção de que o contato com Políticas Públicas podem alavancar e gerar mais legitimidade para entrar no território”, afirma Gustavo Bernardino, gerente de programas do GIFE. Segundo ele, metade dos associados GIFE também já trabalha em parceria com negócios de impacto.

De acordo com o segundo Mapa de Negócios de Impacto Social + Ambiental, realizado pela Pipe.Social, em 2019, há 1.002 empresas de impacto social, um aumento de 70% se comparado aos 579 negócios existentes em 2017. São Paulo concentra 38% de empreendimentos deste tipo.

Desse modo, a importância do setor para ajudar em soluções que reduzam desigualdades tem atraído o investimento do Poder Público.

Em âmbito nacional, a ENIMPACTO (Estratégia Nacional de Investimentos e Negócios de Impacto) estabelece algumas diretrizes para o desenvolvimento do setor desde 2017. Rio Grande do Norte, por exemplo, foi o primeiro estado a aprovar uma Política Estadual de Investimentos e Negócios de Impacto Social, em fevereiro de 2019.

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Atualmente, em São Paulo, há alguns projetos de lei e incentivos para o fomento de negócios sociais em tramitação na Câmara Municipal. Abaixo, listamos os principais:

1) PL 316/2020 do vereador Toninho Vespoli (PSOL): o projeto de lei prevê a criação do “Certificado de Impacto Social”, que será concedido para iniciativas de impacto social do município de São Paulo, além de criar um programa de fomento destinado ao fortalecimento de associações, cooperativas e microempreendedores que desenvolvam atividades de impacto social.

Um dos principais objetivos do projeto é reconhecer e valorizar o empreendedorismo social das periferias, logo, para participar do Programa de Fomento às Iniciativas de Impacto Social, o negócio deve ser feito por um empreendedor periférico e para benefício dessas localidades.

A ideia é contemplar nove negócios sociais com R$50 mil cada e também uma criação de conselho para gerir o programa. Para construir o projeto de lei, o mandato conversou com mais de 20 pessoas e organizações, como SEBRAE, EMPERIFA, jaUBRA, ANIP, Coletivo Meninas Mahin, entre outras. O texto levou cerca de quatro meses para ser elaborado. Agora, o projeto precisa passar por várias instâncias, incluindo comissões, antes de ir para votação na Câmara Municipal de São Paulo.

Todas as aprovações podem levar de um a dois anos, dependendo do projeto. Para o vereador Toninho Vespoli (PSOL), o projeto também vem para apoiar quem mais sofrerá o impacto pós-pandemia.

Toninho Vespoli. Créditos: Divulgação.

“O desemprego e a situação de vulnerabilidade social vão diminuir ainda mais as oportunidades de quem vive nas periferias e nosso projeto vem justamente para solucionar isso. Primeiro, porque exige que os selecionados tenham que viver ou atuar nas periferias e, segundo, porque determina que quanto maior a dificuldade financeira do empreendedor social, mais chance ele tem de ser contemplado com os recursos. O projeto de lei quer diminuir a desigualdade social dentro do campo de impacto social”, afirma o vereador do PSOL.

2) Consulta Pública para Projeto de Lei Política Municipal de Fomento a Investimentos e Negócios de Impacto Social – Daniel Annenberg (PSDB): ainda em fase de consulta pública, que terminou no último dia 15 de junho, o projeto do vereador também busca implementar uma Política Municipal de Fomento a Investimentos e Negócios de Impacto Social. Durante a fase da consulta, coletaram o máximo de opiniões e comentários sobre a minuta escrita para entender onde é possível aperfeiçoar e dialogar com as partes impactadas. A ideia do projeto também tem o viés de beneficiar empreendedores sociais de negócios mais periféricos, relacionados à redução de desigualdades.

Uma das premissas descritas na minuta é incentivar o acesso a ferramentas de fomento e de crédito para os negócios de impacto social, por meio da mobilização de recursos públicos e privados destinados ao investimento e ao financiamento das atividades.

Segundo o vereador Daniel Annenberg (PSDB), a conversa com o vereador Toninho Vespoli (PSOL) acontecerá, já que ambos estão articulando com políticas de incentivo ao setor e também com um olhar para as periferias.

“A participação periférica é essencial –afinal, ela sabe muito melhor do que qualquer servidor públicos os problemas diários. A periferia pode e deve ser protagonista na construção dos problemas que ela enfrenta”, comenta o vereador do PSDB.

Daniel também acredita na importância do Poder Público no que diz respeito ao apoio em diversas frentes, incluindo na regulamentação do setor

Daniel Annenberg. Créditos: Divulgação.

“A nível municipal, o foco está em contratar os serviços dessas micro e pequenas empresas e até firmar parcerias com o Terceiro Setor e, também, criar espaços e eventos de conexão para esses empreendedores”, explica ele.

3) Emenda Parlamentar – Janaina Lima (NOVO) – Prêmio Impacto Público: A vereadora Janaina Lima (NOVO) destinou uma emenda parlamentar para buscar e premiar projetos de impacto social para a cidade de São Paulo.

Neste contexto, a verba é direcionada para Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania da cidade. Com isso, a Secretaria contratou o parceiro técnico Quintessa, que apoia o crescimento, estrutura a gestão e capta investimento para negócios de impacto, para ajudar no desenvolvimento do Prêmio Impacto Público. Na iniciativa, cinco organizações receberão apoio técnico e R$70 mil para implementarem as soluções durante quatro meses.

O objetivo é captar organizações que tenham foco em soluções para melhorar a vida da população de São Paulo dentro de cinco eixos temáticos: Primeira Infância, Gestão Pública Eficiente e Transparente, Participação Cidadã, Empreendedorismo, Direitos Humanos e Cidadania.

As inscrições já foram encerradas e contaram com mais de 150 inscritos. O resultado com as cinco organizações ganhadoras deve ser anunciado em julho.

Anna Aranha. Créditos: Divulgação.

“Como é um projeto de implementar solução, buscamos iniciativas que já apresentam alguma eficácia e implementação, que estão em andamento. Tem muita gente atuando com soluções há muito tempo – e como é importante essa aproximação com o Poder Público”, comenta a diretora da Quintessa, Anna Souza Aranha.

Para ela, a destinação do recurso para a Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania é um ponto positivo, já que irá beneficiar pessoas mais vulneráveis. “A Secretaria trabalha com públicos de refugiados, mulheres, acesso para microcrédito para empreendedores negros. E os desafios priorizam o benefício para esses públicos”, diz Anna.

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