Na minha trajetória profissional no campo de impacto, aprendi cedo que a maior parte das empresas executa suas ações de responsabilidade social corporativa por meio de projetos. Nestes quase 20 anos, presenciei muitos questionamentos sobre a efetividade de um projeto na busca por impacto. O questionamento tem fundamento: empresas, governos e sociedade civil querem colaborar de maneira “controlada” com a geração de impacto social – na intenção de garantir que o tempo, os recursos e os esforços aportados estão sendo úteis.
Considero que “impacto social” pode ser o conjunto de efeitos de uma ação, que geram o desenvolvimento ou as melhorias sociais desejadas. Alterações em um ambiente natural, que têm consequências em áreas como saúde, segurança ou bem-estar de pessoas, podem ser qualificadas como impacto.
Por projeto, gosto da definição de que é um empenho de recursos em um determinado período, para alcançar um fim específico. Assim, pergunto: em um projeto que afeta vidas, onde, qual ou quando é o seu fim? Como sabemos, ao longo do percurso, se estamos caminhando para o “fim” esperado?
Ferramentas para medição de impacto foram criadas para “garantir” que um projeto não seja inócuo: técnicas foram ensinadas, discutidas e divulgadas. Mas este texto não pretende falar sobre nenhuma delas. Gostaria de apresentar meus aprendizados na criação de modelos de avaliação de impacto e os aprendizados obtidos escutando clientes, alunos e parceiros sobre seus desafios e suas dúvidas sobre esta árdua e, quase, ingrata tarefa.
Cada vez mais, tenho a convicção de que um projeto com impacto relevante é aquele cujos gestores e envolvidos foram capazes de perceber e gerir considerando o fato de que projetos sociais têm complexidades ímpares. Eles reconhecem que as intervenções do projeto tratam das vidas de populações e afetam as expectativas sobre as vidas destes grupos.
Hoje, aplaudo e gosto de trabalhar com gestores que reconhecem, durante um projeto, a força que suas ações têm junto àquela população, ou aquele bairro ou até mesmo determinado grupo – que, na maior parte das vezes, está em condição vulnerabilidade maior. Essas pessoas são cautelosas ao intervir na vida das comunidades. E ser cauteloso é como um impacto positivo verdadeiro, que será alcançado por meio das ações do projeto.
Eu não acredito haver (talvez, ainda) uma ferramenta de gestão capaz de considerar plenamente toda a impermanência, o dinamismo e a riqueza das relações humanas. É importante lembrar que uma ferramenta que traduza que “o impacto” almejado é apenas uma simplificação de um conjunto de fatores. E que este conjunto deve ser olhado de maneira integral e através do maior número possível de camadas que a razão e a capacidade crítica podem listar.
Tratar projetos de avaliação de impacto com a simplicidade de um projeto comercial, considerando apenas indicadores, OKRs ou índices como medição de impacto, é reduzir a complexidade humana a processos mapeáveis por organogramas e fluxogramas. A avaliação de impacto de projetos sociais ou ambientais não é cartesiana e tampouco óbvia. Enquanto ciência, é um campo do conhecimento novo e que se está desenvolvendo. As técnicas e metodologias: divergentes e convergentes entre si. Creio que independentemente do método que for usado, o melhor será aquele que olha de maneira legítima para as necessidades – verdadeiras – das pessoas que afetadas pelo projeto.
Seminário de Legislação de Impacto, no Ministério da Economia. O encontro aconteceu dia 28 de janeiro de 2020. Fonte: Impact Hub Brasília.
Mobilizar mais empreendedores que desconhecem o que são negócios de impacto. Que não sabem quais são todos os critérios necessários para se enquadrar nesse perfil. Esse é o principal objetivo para 2020 da Aliança pelos Investimentos e Negócios de Impacto, importante rede de produção de conteúdo e articulação com atores estratégicos no ecossistema. O movimento é liderado pelo Instituto de Cidadania Empresarial (ICE) e já lançou 20 publicações direcionadas a vários públicos, como empreendedores, investidores e bancos de desenvolvimento. A mais recente delas, “O que são Negócios de Impacto” (2019), traz quatro critérios para classificar um empreendimento como negócio de impacto:
Há compromisso com o monitoramento do impacto gerado.
Diogo Quitério, coordenador da Aliança e gestor de programas do ICE, ressalta que mesmo que um empreendimento tenha essas características, isso não significa que seja um bom negócio de impacto. Por isso, o estudo também apresenta alguns compromissos para alcançar resultados financeiros positivos e entregar mudanças socioambientais. “Um dos compromissos é que o empreendedor deveria efetivamente entender o problema no qual está atuando, suas causas, conhecer as políticas públicas existentes, mapear o que já foi testado, consultar o público a ser atendido. Esse é um exemplo que ajuda a superar a boa intenção e de fato discutir eficiência e resultados”, afirma o coordenador.
Muitos empreendedores têm dificuldade para identificar questões como essas. 15 anos após criar a Feira Preta, Adriana Barbosa passou por uma crise no negócio: tinha um investimento para mais de 10 mil pessoas, mas não levou nem 4 mil no evento, e o patrocinador deixou de aportar recursos.
Na série Eu Errei (2019), da Aupa, ela diz que a falha foi não se atentar aonovo contexto social e cultural. “Hoje essa geração quer se ver representada nessa perspectiva de ela já ser preta. Eu fui participar de um curso de remodelagem de negócio e fizeram uma pergunta muito certa: o que você tem para o novo momento? Essa pergunta foi muito importante para falar: sim, preciso remodelar”, admite Barbosa.
Para desenvolver a agenda dos investimentos e negócios de impacto no Brasil, a Aliança definiu 15 recomendações em 2015 com sugestões de metas para 2020. Agora o grupo avalia os avanços e gargalos que podem ser discutidos para os próximos anos. Entre as recomendações estão incentivos à formação de empreendedores, como fez o Sebrae, por exemplo, ao criar um curso voltado para negócios de impacto.
Investimentos e legislação para o setor 2.5
Os investimentos de impacto já chegaram a US$ 239 bilhões no mundo, segundo o relatório mais recente da Rede Global de Investimento de Impacto. Mas, antes de buscar aporte financeiro, os empreendedores precisam ter alguns pontos muito bem definidos. “Saber claramente para que eles querem o recurso, até onde esse recurso pode levar o negócio, qual a natureza de capital mais adequada. Ter os riscos mapeados, qual perfil de investidor é mais aderente para o negócio, a estrutura de governança que está disposto a implantar no day after da captação e o que não está disposto a ceder nas negociações”, explica Marco Gorini, investidor social e sócio fundador da Din4mo.
Os desafios para investimentos no ecossistema de impacto, segundo Marco Gorini. Arte feita no Canva por Mariana Ferrari.
Para fortalecer a economia mundial de impacto, o Global Steering Group for Impact Investment reúne membros de mais de 32 países, entre eles a Aliança, para trocar experiências, mobilizar lideranças e ajudar países a fomentar o ecossistema. Nessa rede, o Brasil é referência no avanço de uma legislação para negócios de impacto. A conexão do tema com o governo federal também é uma das áreas de atuação da Aliança, com uma articulação que já traz resultados importantes.
A Estratégia Nacional de Investimentos e Negócios de Impacto (ENIMPACTO) foi criada em dezembro de 2017. Desde então, representantes de ministérios, do setor privado e da sociedade civil participam de um comitê para debater ações que criem um ambiente favorável aos investimentos em negócios de impacto no Brasil.O objetivo é aumentar a quantidade de empreendimentos nesse perfil, a oferta de capital e fortalecer as organizações intermediárias.
No fim de janeiro, uma das pautas das reuniões da ENIMPACTO foi discutir a criação de uma qualificação de negócios de impacto para empresas B, atendendo a alguns critérios. São eles: (1) inserção da promoção do impacto social e ambiental positivo no objeto social da empresa; (2) estabelecimento de órgãos de governança vinculados e responsáveis pela realização do impacto positivo; e (3) relatório de impacto integrante de prestação e aprovação de contas anual.
“Isso é legal, mas não é uma legislação de negócios de impacto, é uma legislação de empresas B. É legal, porque vai criar um grau de consciência empresarial maior. Ajuda o setor de impacto como um todo. Mas a Aliança faz esse contraponto de que isso não é uma legislação de negócios de impacto”,
diz Beto Scretas, consultor do ICE e membro do Comitê de Investimentos e Negócios de Impacto, que participou do seminário sobre o setor e a ENIMPACTO, no Ministério da Economia, no dia 28 de janeiro.
“Entendemos que a proposta é benéfica para toda a nova economia na medida em que institucionaliza a mensuração, reporte e promoção de impacto positivo nos negócios, por meio do estabelecimento em lei dos elementos mínimos comuns às atividades de transformação da nossa economia em prol do desenvolvimento”, afirma Marcel Fukayama, fundador do Sistema B Brasil.
O projeto de lei, desenvolvido pelo Sistema B, já está no Ministério da Economia para análise e busca criar no Brasil uma figura equivalente às benefit corporations adotadas em 39 estados dos Estados Unidos. A proposta não traz nenhum tipo de agenda secundária, como benefícios fiscais por parte do governo federal, e prevê que a qualificação dos negócios seja autodeclarável. “O projeto é importante, porque está muito alinhado com o conceito de negócios de impacto definido pelo decreto que institui a ENIMPACTO. E vale ressaltar que a ENIMPACTO definiu os negócios de impacto como aqueles empreendimentos que possuem impacto socioambiental positivo e retorno financeiro de forma sustentável. E esses elementos estão previstos nessa legislação das sociedades de benefícios”, explica Lucas Ramalho Maciel, coordenador da ENIMPACTO.
Diogo Quitério
Coordenador da Aliança e gestor de programas do ICE.
Marco Gorini
Investidor social e sócio fundador da Din4mo.
Beto Scretas
Consultor do ICE e membro do Comitê de Investimentos e Negócios de Impacto.
Marcel Fukayama
Fundador do Sistema B Brasil.
Lucas Ramalho
Coordenador da Estratégia Nacional de Investimentos e Negócios de Impacto.
Graziella Comini
Economista com livre-docência em Administração pela FEA-USP e conselheira da Academia do ICE.
Anterior
Próximo
“Ter ido rumo à autodeclaração foi um caminho acertado. Seria um risco enorme você ter que creditar isso a alguém, porque hoje são são limitadas as opções de atores capacitados para fazer isso. O mercado tem que se autorregular daquele que se qualifica como tal”, diz Scretas.
O projeto de lei também inclui instrumentos de autocumprimento para mitigar riscos para o setor, como transparência na aprovação de relatórios de impacto com sócios e criação de comitês de impacto para qualificar decisões no curto e longo prazo. Mas Scretas ressalta que a proposta discutida na ENIMPACTO não é uma legislação de negócios de impacto.
“Esse projeto de lei tem como objeto o universo de todas as empresas. Qualquer empresa pode, desde que atenda aos critérios, se tornar uma sociedade de beneficio. O nosso universo de atuação é mais restrito. Nem toda empresa de sociedade de benefício será um negócio de impacto”, explica o consultor do ICE.
Diogo Quitério destaca que a Aliança tem participado de fóruns de discussão sobre uma possível certificação ou criação de uma personalidade jurídica para negócios de impacto. “É preciso, sobretudo, ter clareza sobre os ganhos e riscos de uma legislação, o processo de implementação desse processo, quem certificaria e como a existência ou não da lei poderia esvaziar o entendimento sobre impacto. Esse é um debate que está aceso e temos acompanhado”, explica ele.
Em 2020, o Comitê de Investimentos e Negócios de Impacto também deve discutir temas como fundos de impacto, contratação de consultores e valorização de práticas acadêmicas nessa área.
Negócios de impacto nas universidades
Os negócios de impacto têm ganhado cada vez mais espaço nas universidades. De Norte a Sul, nas cinco regiões brasileiras, cerca de 100 professores participam de uma rede de troca de conhecimentos sobre o tema.
No Programa Academia do ICE, são feitas reuniões para engajar docentes, além da criação de disciplinas voltadas ao ecossistema de impacto e a promoção do debate de questões que podem ser abordadas em sala de aula com os estudantes, Há ainda o compartilhamento e o estímulo ao desenvolvimento de pesquisas e artigos, muitos financiados pelo próprio programa. “A gente vê como os sistemas estão sendo apropriados, o que está sendo debatido, quais são as grandes preocupações em cada uma dessas regiões que também têm as suas diferenças locais. Se um professor quer criar um curso de empreendedorismo social, de negócios de impacto, isso ele consegue facilmente obter na plataforma e adaptar para o seu contexto”, explica Graziella Comini, economista com livre-docência em Administração pela FEA-USPe conselheira da Academia do ICE.
Iniciativas como essa só reforçam a importância de esclarecer o que são negócios de impacto. Para aumentar o interesse de estudantes nessa área. Para que empreendedores tenham mais sucesso no negócio e segurança na busca por aportes financeiros. Para que investidores possam acreditar mais no potencial desses empreendimentos. E para que governos se envolvam no desenvolvimento do setor.
“O principal desafio é superar uma cultura de décadas que educou a sociedade a olhar apenas para o lucro máximo como indicador de sucesso, independentemente do que se gera de impacto negativo. Ou seja, o maior desafio de todos é de consciência”,
Fotos do Laboratório de Inovação da Natura, em Cajamar, São Paulo. Créditos: divulgação.
A cooperação entre instituições pode ajudar na implementação e no fomento de pesquisas que, por sua vez, podem contribuir com soluções socioambientais. Tais parcerias, tão demandadas no ecossistema de impacto e na sociedade civil, por um todo, podem oferecer um ambiente propício à obtenção de dados para melhorar o debate diante dos muitos problemas estruturais existentes e, principalmente, para a implementação de ações que sanem tais questões. E a pauta ambiental continua em voga – também para a pesquisa.
Ao mesmo tempo, há movimentos onde nem sempre a sociedade civil participa do debate e das formulações de decisões. Um exemplo, é a exclusão de representantes da sociedade civil na nova disposição do Conselho Deliberativo do Fundo Nacional do Meio Ambiente (FNMA), publicado no Diário Oficial da União dia 6 de fevereiro de 2020. O FNMA foi criado em 1989, é administrado pelo Ministério do Meio Ambiente e cabe a ele financiar projetos, previamente selecionados pelo Conselho Deliberativo, que visam o uso racional de recursos naturais.
A pesquisa é o campo onde atores e instituições do setor 2.5, mais precisamente da área de Conhecimento, são protagonistas – tal área é, geralmente, associada ao trabalho de intermediários no ecossistema de impacto. Não à toa, no final do último ano, foi lançado edital 29/2019 – Programa Capes Entre Mares, para estudar e combater o derramamento de óleo nas praias brasileiras. No dia 30 de janeiro de 2020, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal Nível Superior (CAPES) tornou público, via Diário Oficial da União, os 15 projetos de estudo e combate ao óleo no litoral. Serão destinados R$1,3 milhão para projetos das sete áreas temáticas.
Agora a agência de fomento lança o Prêmio CAPES – Natura Campus de Excelência em Pesquisa, oficializado no edital 3/2020. Trata-se de um estímulo à produção de artigos com alto impacto para o desenvolvimento tecnológico e científico nas áreas de Sustentabilidade e Biodiversidade. Os trabalhos podem tratar das seguintes temáticas: (1) Ciências moleculares e bioinformática com aplicações em tecnologias cosméticas e (2) Amazônia: a ciência de dados contribuindo para conservação socioambiental e uso sustentável dos recursos naturais. São temas latentes e estratégicos à pauta econômica do país. Vale lembrar que a Natura é uma empresa que faz parte do Sistema B, movimento global que certifica empresas que têm braços que aliam lucro à preocupação socioambiental.
Leonardo Garnica, gerente de inovação da Natura, explica que a ciência traz soluções para inúmeras questões, com possibilidade de gerar impacto positivo nas frentes social, econômica e ambiental. “Quando aliamos este esforço, construído em rede, com respeito à natureza, temos a possibilidade de avançar em modelos de negócios diferenciados e engajadores”, comenta ele. Além de ser uma empresa B, a Natura, há mais de 20 anos, firma parcerias para o fomento da ciência e da tecnologia, voltadas sempre à inovação, como o Programa Amazônia, lançado em 2011.
“Vemos uma enorme convergência em estimular a ciência sobre os temas da biodiversidade, da inovação e da Amazônia crendo que podemos investir e empoderar redes e pessoas a encontrar soluções localmente pensando globalmente”,
afirma Leonardo Garnica, gerente de inovação da Natura.
Garnica ainda completa, considerando que “Com o Prêmio CAPES- Natura Campus identificamos e promovemos pesquisadores e temas de fronteira para um futuro mais sustentável”.
A premiação aos artigos escolhidos é de R$25.000,00. As inscrições podem ser feitas até as 18h do dia 28 de fevereiro de 2020. O Prêmio CAPES – Natura ocorre a cada dois anos (esta é sua terceira edição) e, no atual contexto, reforça a relevância e a necessidade de aliar desenvolvimento científico, Educação, soluções socioambientais e negócios.
É comum a associação do ecossistema de impacto ao Sudeste, sobretudo ao eixo Rio-São Paulo. Segundo o Mapa de Negócios de Impacto Social+Ambiental (2019)da Pipe. Social, dos 1002 empreendimentos participantes, 62% estão concentrados no Sudeste. Porém, engana-se quem pensa que o Nordeste, costumeiramente reduzido apenas às mazelas sociambientais, como a fome e a seca, não é um polo de inovação social. Prova disso são as muitas iniciativas relacionadas ao acesso e ao manejo sustentável da água, além de pesquisas e ações para combater impactos negativas à natureza, dentre outros temas que visam soluções para questões locais e regionais. Segundo ainda o levantamento da Pipe.Social, 11% dos negócios de impacto estão no Nordeste.
O Impacta Nordeste é um portal que se propõe a fazer a ponte para maior diálogo e protagonismo da região no ecossistema de impacto, por um todo. Seu objetivo é contribuir com o ecossistema de impacto, trazendo maior diversidade de atores e experiências ao setor, revelando possibilidades para trocas e referências a partir do trabalho de empreendedores sociais locais.
O portal faz parte do guarda-chuva da consultoria Visão Social – Soluções de Impacto que é um negócio de impacto social, cujas atividades iniciaram em 2014. Marcello Santo é o fundador da iniciativa, além de ser empreendedor social, gestor de projetos e consultor de responsabilidade social que, a partir da experiência com a Visão Social, iniciou o Impacta Nordeste. “Junto à ONG Recode fizemos a gestão operacional de um projeto itinerante voltado a pequenos empreendedores de diversas cidades brasileiras, muitas delas no Nordeste. Nesta experiência, que durou seis anos, morei por um mês em quase 50 municípios diferentes”, conta ele.
A jornada fez com que Santo “furasse algumas bolhas mentais” e decidisse sair de São Paulo para empreender no Nordeste, onde percebeu que há muitas iniciativas sendo feitas, porém poucas pessoas sabem disso. “Essa falta de informação acaba dificultando o crescimento do ecossistema. Então, decidi contar ao mundo o que está sendo feito na região”, enfatiza o empreendedor, que completa: “Esperamos, com o tempo e crescimento da plataforma, que ela se torne um negócio social independente, no sentido de gerar renda e reinvestir em ações que ajudem estimular o crescimento do ecossistema regional”.
E empreender, trabalhando com comunicação, também está relacionado à diminuição de desigualdades e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis da Organização das Nações Unidas (ODS/ONU). Segundo Santo, a estratégia do Impacta Nordeste é a seguinte: “A primeira etapa para vislumbrarmos êxito em atingir as metas dos ODSs é aumentar o conhecimento de todos os stakeholders(pessoas, empresas, governo) sobre os próprios objetivos, disseminar boas práticas, além de ajudar e apontar caminhos. Sem isso é impossível passar para a segunda etapa, que é efetivamente, mudar a mentalidade e adotar práticas mais sustentáveis em todos os aspectos”. Leia mais sobre o propósito do Impacta Nordeste na entrevista a seguir.
AUPA – A comunicação costuma ser uma dificuldade comum em muitas empresas e negócios de impacto social não fogem deste problema. Neste contexto, como você pensa o setor 2.5 e o trabalho da Impacta Nordeste?
MARCELLO SANTO – Quando pensamos em comunicação para o setor 2.5, é importante lembrarmos que este ainda é um conceito distante para a grande maioria da população, em todos os níveis socioeconômicos. O próprio Terceiro Setor ainda não é amplamente assimilado pela população, em geral. No entanto, há uma grande parcela sensível a temas sociais e interessada em construir e pensar caminhos alternativos, mesmo que de maneira difusa. Esse cenário é valido para todo o país, mas é ainda mais desafiador quando saímos do eixo Rio-São Paulo. Nesse sentido, o Impacta Nordeste busca dialogar com diferentes públicos. Primeiro, buscamos disseminar o conceito de iniciativas sociais e suas diferente vertentes: negócios de impacto (setor 2.5), projetos sociais (Terceiro Setor), responsabilidade social (Segundo Setor), além de Economia Criativa e Circular – para o público geral, visando aumentar o conhecimento sobre esses “mercados” e suas possibilidades. Para o público que já faz parte desse ecossistema, buscamos disseminar conteúdos mais aprofundados por meio de cases, conhecimento, oportunidades e estimular o debate, dando voz aos empreendedores da região. Por último, buscamos dar visibilidade as diversas iniciativas que já existem e estão surgindo no Nordeste e conectar o ecossistema regional ao nacional.
AUPA – Quais características próprias da territorialidade do Nordeste podem contribuir com o ecossistema de impacto e seu debate?
MARCELLO SANTO– Estamos presenciando um número cada vez maior de negócios de impacto social na região, em um movimento capitaneado por empreendedores sociais, organizações, incubadoras e o próprio ecossistema de startups. No entanto, a região ainda sofre com a falta de investimentos e recursos (públicos e, principalmente, privados) para estruturar o ecossistema regional. Temos boas exceções, como a atuação do Sebrae, no Rio Grande do Norte e em Alagoas, a InPacto, em Salvador, o Porto Social e Digital, em Pernambuco, a In3citi, em Fortaleza, as universidades (particulares e públicas), assim como as ações eventuais de outras organizações do ecossistema regional e nacional. A atuação desses atores tem sido fundamental para dar suporte aos empreendedores sociais, mas ainda não é suficiente. Além disso, falta capital que compreenda os desafios de se investir em negócios de impacto, disposto também a investir em empresas e soluções da região. Esse cenário, de certa forma, acaba moldando os novos negócios. No atual debate entre “unicórnios” e “zebras”, podemos dizer que a esmagadora maioria dos negócios de impacto da região são zebras. Como o nordestino foi forjado na dificuldade, esse é só mais um desafio a ser superado. Nesse contexto, sem querer cair no clichê do provérbio chinês, a construção do ecossistema de impacto do Nordeste representa um desafio e uma oportunidade. Oportunidade de criar e moldá-lo com o aprendizado prévio do setor como um todo.
Aqualuz é um dispositivo pensado para a purificar água por intermédio de radiação ultravioleta. Desenvolvida por Anna Luísa Beserra, essa tecnologia foi vencedora do prêmio Jovens Campeões da Terra, honraria concedida pela Organização das Nações Unidas (ONU) Meio Ambiente. Foi a primeira vez que uma brasileira venceu a premiação. Fonte: LinkedIn da Safe Drinking Water for All (SDW).
Pensando em características territoriais, cada estado da região possui suas particularidades, mas há alguns desafios similares. Muitas iniciativas buscam solucionar desafios socioambientais inerentes à região, como a seca. Um bom exemplo é a Aqualuz, solução premiada pela ONU para desinfecção de água de cisterna de captação de água de chuva de zonas rurais através da radiação solar Outras buscam soluções economicamente sustentáveis para aproximar produtores rurais do consumidor urbano. Grande parte da pobreza da região está concentrada no interior, então vemos muitas iniciativas que buscam criar valor na cadeia produtiva para gerar renda a esse público.
AUPA – Quantas pessoas o Impacta Nordeste atinge mensalmente? Como você mensura o impacto do portal?
MARCELLO SANTO– Apesar de ainda estarmos no início da operação (três meses no ar) e atuarmos em um nicho restrito, impactamos mensalmente duas mil pessoas, que têm acesso ao conteúdo do portal. E estamos começando a gerar oportunidades aos negócios e às iniciativas que damos visibilidade. Em um futuro próximo, esperamos mapear e mensurar as conexões que geramos, assim como aprofundar nossa atuação como intermediários, trazendo investimento e oportunidades para os negócios e organizações do ecossistema regional, gerando um efeito multiplicador possível de ser mensurado efetivamente. AUPA – Quais possibilidades você enxerga a partir do trabalho que o Impacta Nordeste tem feito?
MARCELLO SANTO– Nesta fase inicial do Impacta Nordeste, focamos muito na construção de uma rede de empreendedores, gestores, empresas e organizações da região que nos ajudam a mapear cases, novidades e oportunidades em cada estado. Estabelecemos parcerias com, pelo menos, uma empresa ou organização em cada estado do Nordeste. Também focamos muito em manter a constância e aprimorar o conteúdo e os serviços que oferecemos, entendendo a demanda de nosso público. Depois dessa fase inicial, estamos caminhando para consolidar o Impacta Nordeste como uma rede a serviço do ecossistema da região, no sentido de gerar oportunidades para os negócios e as organizações. Queremos unir quem faz e ajudar quem quer fazer. Pretendemos realizar estudos, eventos, premiações, viabilizar rodadas de investimento, sensibilizar as empresas da região a apoiarem o ecossistema. São muitas as possibilidades. Mas esse não é um processo fácil. Nosso maior desafio é “furar a bolha” do setor, ainda muito concentrado no Sudeste e fazer parcerias com instituições e organizações que podem ajudar a viabilizar todas essas oportunidades.
Para mim, um negócio de impacto é uma iniciativa que gera lucro e, ao mesmo tempo, resolve ou mitiga um problema social, seja ele de grande, média ou pequena escala. Digo isso, pois, todos buscam o sonho de ser o “unicórnio” dos negócios de impacto, o que é ótimo. Mas, pessoalmente, acredito muito no poder das soluções locais, pois nem sempre uma solução poderá ser extremamente lucrativa para atrair grandes investidores. Porém, muitas têm potencial de retorno financeiro para um pequeno ou médio empreendedor social, com grande impacto em sua comunidade.
Formação ministrada pela Emperifa. Arquivo pessoal de Márcio Santos.
Qual a relação entre empreender e ser criativo? Essa pergunta pode soar esquisita para quem pensa que o mundo dos negócios demanda apenas dinheiro para investir, produtos para elaborar e vender, além de termos específicos (muitas vezes, em inglês) para circular e entender o campo. Mas pensar as empresas ou organizações, sobretudo aquelas com propósito socioambiental, perpassa pelo gerenciamento da criatividade. Afinal, essa é uma caracteristica inerente ao empreendedorismo.
Este movimento remete à Indústria Criativa – ou às indústrias criativas. O termo surgiu no final dos anos 1990, no Reino Unido, e diz respeito ao conjunto de atividades econômicas relacionadas à geração de informação e também de conhecimento. Ou seja, a criatividade pode ser a ferramenta ou o mote para o desenvolvimento de determinadas atividades e serviços prestados, o que pode indicar oportunidades no mercado de trabalho e também na construção de soluções com impacto socioambiental positivo.
E este é o caminho também para a inovação, principalmente quando se trata de negócios periféricos. “A gestão está voltada à geração de resultados. De modo que, ao se falar em gestão da criatividade, entendemos que esta será aplicada para gerar resultados melhores”, explica Márcio Santos, socioadministrador da Emperifa, empresa especilizada em gestão da criatividade para negócios periféricos da Indústria Criativa. Também estão no quadro de sócios João Guedes e Fabio Borges. “É importante que os empreendedores periféricos atuem com criatividade propositada, gerando resultados superiores e sustentáveis”, completa.
Este enfoque na gerência, seja de negócios de vários portes ou mesmo na prestação de serviços, trata a criatividade como ferramenta para a solução de problemas e para a criação de diferenciais ou práticas inovadoras. E cabe ao líder estimular sua equipe para a troca de ideias e referências, de modo que os funcionários ou mesmo os parceiros sintam-se protagonistas também dentro do processo. “Estas trocas e também a participação na criação e na tomada de decisões geram uma cultura da criatividade na empresa”, explica Santos.
Estes são alguns dos temas que a Emperifa trará nos três encontros que ocorrerão na Casa Aupa, em fevereiro. Com foco no pequeno empreendedor e nos prestadores de serviços (autônomos ou não), os encontros se basearão na criatividade enquanto ferramenta e metodologia no mundo dos negócios. E isso diz respeito também às finanças.
“Neste enfoque, entendendo a gestão da criatividade em geração de resultados, uma das ações da auditoria é verificar quanto de resultados financeiros foram gerados pelas ações criativas. Por isso, é importante a criação de critérios de avaliação da gestão da criatividade”,
enfatiza Márcio Santos, um dos sócios da Emperifa.
Soluções inovadoras e de impacto positivo que demandam também o lúdico no processo empreendedor.
SERVIÇO
Temas que serão abordados nos três encontros de fevereiro:
03 – Comportamento criativo e liderança: desenvolvimento de comportamento criativo e exercício da liderança para o estímulo da criatividade;
10 – Marketing e vendas: conheça sobre a aplicação do composto de marketinge das técnicas de vendas para o seu negócio;
17 – Finanças e negócios sustentáveis: entenda os conceitos de finanças e a relação com a sustentabilidade econômica, social e ambiental para a sua empresa.
Amazônia. Foto de Andre Deak. Flcikr, CC BY 2.0. Link: https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=22460966 .
Cada vez mais, o meio ambiente é pauta latente também quando falamos sobre o futuro, as desigualdades e suas consequências – e o mundo dos negócios não fica de fora. Trata-se de velhos problemas e questões que o ecossistema de impacto e a sociedade civil, no geral, enfrentam diariamente. O desafio está em encontrar soluções socioambientais viáveis – nisso o setor 2.5 pode contribuir.
Não é à toa que a palavra (ou melhor, a expressão) de 2019, segundo o dicionário Oxford, foi emergência climática – e o mesmo vale para contexto brasileiro, onde a urgência ambiental tem sido cada vez mais pauta, devido às constantes violências. E se o ecossistema de impacto se propõe como um movimento para pensar o futuro, mensurar impactos positivos e negativos e buscar soluções socioambientais efetivas, nada mais esperado do que suas proposições e seus aportes em iniciativas inovadoras que contemplem a pauta verde.
A região Amazônica, com riquezas naturais e potencialidades socioeconômicas evidentes aos olhos de todo o mundo, é símbolo da constante luta em prol da preservação do bioma, por exemplo. Diante das consequências e dos fatos ocorridos em 2019, sobretudo, a SITAWI Finanças do Bem lança a segunda rodada da Plataforma de Empréstimo Coletivo, focada em negócios de impacto positivo na Amazônia. O lançamento está previsto para março. “Com a plataforma, contribuímos para dar visibilidade a esse movimento e permitimos que investidores de todo o Brasil possam participar ativamente dessa transformação”, explica Andrea Resende, gerente de Finanças Sociais da SITAWI.
Qualquer pessoa pode emprestar a partir de R$1.000 para negócios de impactos socioambientais da região, com retorno de 265% do CDI (ou 12% ao ano) por meio da plataforma peer-to-peer lending. Nesta modalidade, uma pessoa empresta dinheiro diretamente à outra pessoa ou mesmo à uma empresa, de forma digital. É possível investir em um ou mais negócios de impacto dentre as cinco organizações que participam da rodada. São elas: COEX Carajás, de Parauapebas (PA); Na Floresta – Alimentos Amazônicos, de Manaus (AM); OKA, de Ananindeua (PA); Prátika Engenharia, de Manaus (AM); e Tucum Brasil, com sede no Rio de Janeiro (RJ), mas que atende populações indígenas tradicionais do Brasil. Vale ressaltar que, na primeira rodada, que ocorreu em 2019, foram captados R$1.500.000,00 em 58 dias.
“Trata-se de uma alternativa a um número crescente de investidores de varejo que buscam, não apenas retornos financeiros atraentes, mas também opções de investimento alinhadas com seus valores”,
diz Leonardo Letelier, fundador e CEO da SITAWI.
“Depois de uma década desenvolvendo soluções financeiras para negócios de impacto, em 2019, nossa organização deu um passo significativo para tornar esse tipo de investimento mais acessível para pessoas físicas”, completa Letelier.
Esta plataforma de empréstimo coletivo é uma iniciativa da SITAWI e do Instituto Sabin. A rodada amazônica acontece no contexto da Plataforma Parceiros pela Amazônia (PPA) e conta também com parceiros estratégicos e financiadores, como a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), o Centro Internacional de Agricultura Tropical (CIAT), o Instituto Humanize e o Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam), sendo este último focado na execução. Estima-se que a rodada possa mobilizar R$3.200.000,00 e que 30% deste montante sejam captados de pessoas físicas. Junto destas, há ainda os investidores-âncora, que atuam para reduzir os riscos e atrair investidores de mercado. Estão nesta categoria, além da própria SITAWI, o Instituto Humanize, a USAID, o Fundo Vale, o Fundações e Institutos de Impacto (FIIMP) e o Grupo Rede Amazônica. Impacto positivo que vem do mercado financeiro e também do investidor comum.
O Brasil tem nove startups valendo mais de US$ 1 bilhão e todas remam em direção contrária aos negócios de impacto. Unicórnios sociais não existem; melhor não buscar o que não vai encontrar.
Negócios de impacto estão mais para coalas do que para unicórnios. Na fauna, os bichanos australianos existem e têm muito a ensinar sobre os efeitos da ação humana e seu impacto social. Já os unicórnios, nunca passaram de fábulas inventadas por alguém atrás de uma tela de planilhas de lucros da bolsa de Nova York. Eu nunca vi unicórnios ou investidores bilionários realmente comprometidos em diminuir a vergonhosa desigualdade social que só cresce no Brasil e no mundo. Pelo contrário, quanto mais unicórnios aparecem, mais estragos eles fazem.
Último relatório da OXFAM traz a assombrosa conta que os22 homens mais ricos do mundo têm mais riqueza do que todas as mulheres da África. Isso mesmo. É surreal, bizarro e inimaginável, assim como os unicórnios. Enquanto esses 22 homens buscam startups para investir e encher ainda mais o bolso, o mundo entra em colapso. Não há argumentação racional ou moral para justificar esse acúmulo. Quem busca impacto, busca equidade e igualdade de oportunidades. Em pleno século das fake news, quem acredita no conto de fadas do “estou gerando emprego” é, no mínimo, mal informado. Acreditar que ser grande é ser socialmente justo é tão real quanto os pôneis de um chifre colorido.
Apenas para ficar em um dos exemplos. O brasileiro iFood foi considerado unicórnio em 2018, com aporte de US$500 milhões. O estrago e o impacto negativo que essa empresa causa são enormes. “Ah, mas ela democratizou a entrega e dá empregos para quem não tem,” argumentam os que confundem tecnologia com exploração. Não. O iFood explora jovens que pedalam mais de 10 horas por dia, sem condições de segurança, para ganhar menos de R$ 1.000,00 por mês, sem nenhum direito trabalhista. A lista* das nove startups que geram apenas lucros (iFood incluso) é diversa: Wildlife, EBANX, Loggi, QuintoAndar, Gympass, 99, Nubank e Movile. Pesquise e tire suas conclusões.
Spoiler 1: nenhuma destas empresas resolve um problema social de impacto e não está nem aí para isso. Spoiler 2: todas são lideradas por homens brancos.
A lógica do mercado é essa. E a lógica do impacto é e deve ser diametralmente oposta a isso. A missão dos negócios de impacto é crescer e escalar para resolver melhor e mais rápido nossos problemas como sociedade, não crescer para virar bilionário. Arrisco a dizer que a diversidade de iniciativas comunitárias conjuntas somadas a força de um Poder Público catalizador e regulador gere mais impacto social do que um neoliberalismo desenfreado. E isso não tem a ver com Karl Marx ou Adam Smith. Isso tem a ver com empreender politicamente o futuro que queremos. Tem a ver com pensar no coletivo e não no próprio umbigo.
Por isso, antes de dizer que gostaria de ver unicórnios sociais nascerem, pensem nos coalas praticamente extintos da Austrália, que morrem por incêndios causados – entre outros motivos – pela mudança climática ocasionada pela ganância humana misturada com a vaidade em receber um Big Mac em casa às 2h da manhã. A esperança não está em encontrar um novo Google ou Facebook. A esperança está em encontrar um mundo melhor e mais justo. E os negócios de impacto podem e devem nos ajudar com esse desafio.
*Lista baseada na reportagem de capa “O ano dos unicórnios” da revista Exame, publicação da editora Abril. Edição 1199, de 12/12/2019.
O que você pensa quando o assunto são as Organizações Não Governamentais, as ONGs, e o ecossistema de impacto? Apesar de serem constantemente associadas a reduções preconceituosas, tais organizações exercem um trabalho estratégico na busca por soluções socioambientais – afinal, costumam atuar em territórios específicos e em questões complexas.
Segundo a pesquisa “As Fundações Privadas e as Associações Sem Fins Lucrativos no Brasil – FASFIL”, divulgada em 2019 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), houve registro de 236.950 fundações privadas e associações sem fins lucrativos. No gráfico abaixo, é possível conferir a distribuição por classificação das entidades sem fins lucrativos, número de unidades locais e pessoal ocupado assalariado em 31 de dezembro de 2016. Você pode interagir com a visualização e fazer diferentes agrupamentos com os dados disponíveis nas chaves.
Seja nos centros ou nas periferias, o trabalho das ONGs junto às comunidades locais trata do diálogo e da solução a partir das urgências do território, uma atuação que vai além da responsabilidade social. Não por acaso, tais organizações desempenham importante função politica em busca de transformações que atinjam, sobretudo, a base da pirâmide socioeconômica.
Para se ter ideia deste papel social, o Instituto Doar premiou as 100 Melhores ONGs em 2019, com destaque a representantes também por área de atuação — veja a lista completa das organizações premiadas neste link. Na ocasião, a Associação Peter Pan foi eleita a melhor ONG do ano, em virtude de seu trabalho em prol da cura e da melhora de qualidade de vida de crianças e adolescentes portadores de câncer e suas famílias.
Ao mesmo tempo, em constrangimento ocorrido em novembro, o governo federal acusou ONGs e seus ativistas de envolvimento com os incêndios ocorridos em Santarém, no Pará. Tal fato gerou desconforto e crítica da opinião pública, devido à ausência de provas.
Quebrar preconceitos e agir em rede
Algumas empresas, ao lado de institutos e fundações, ajudam a compor o conjunto dos atores chamados de facilitadores no ecossistema de impacto. São as organizações intermediárias, que conectam, facilitam e certificam Organizações da Sociedade Civil (OSCs) sem geração de renda, OSCs com geração de renda, negócios de impacto e empresas comerciais, que demandam de capital. Essa conexão é feita com aqueles que podem ofertar capital, como o governo, as pessoas jurídicas e físicas, as fundações e as associações, os organismos nacionais de fomento, as instituições de finanças comunitárias e as organizações multilaterais de crédito. Tudo isso feito a partir de mecanismos, ou seja, modalidades e fluxos de capital com ou sem fins de lucro.
10º Encontro da Rede Temática de Negócios de Impacto Social. O diálogo ocorreu em outubro de 2019. Crédito da foto: Ivan Zumalde.
O Mapa das Organizações da Sociedade Civil (OSCs) organizado e disponibilizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) é um raio-x que permite contextualizar tais organizações – e, consequentemente, as ONGs. E vale a ressalva feita pelo Sebrae a respeito das siglas do setor:
“Embora algumas ONGs possam ser qualificadas como Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip), pode-se dizer que toda Oscip é uma ONG, mas nem toda ONG é uma Oscip”.
O mapeamento feito pelo Ipea revela que das 781.921 OSCs existentes, 323.522 estão no Sudeste, ao passo que o Centro-Oeste conta com 63.154 OSCs. No Norte estão 55.870 OSCs, no Nordeste, 194.033, e no Sul, 145.315.
Intermediário especialista em ONGs: Phomenta
Dentro do ecossistema de impacto há empresas que apoiam líderes e empreendedores sociais à frente das ONGs. Um exemplo é a Phomenta, fundada em 2015, um negócio social especializado em ferramentas de inovação, empreendedorismo e gestão voltadas ao universo das ONGs. “A Phomenta enxerga essas organizações como empreendimentos sociais. Elas identificam um problema, o validam e trazem soluções por meio de serviços, a fim de resolverem alguma questão complexa e específica da sociedade”, explica Izadora Mattiello, cofundadora e presidente da empresa.
Segunda edição da Maratona de Aceleração Social, ação ocorrida na Semana do Carinho da Johnson&Johnson. A Phomenta acelerou 10 ONGs da área da saúde na ocasião. Fonte da imagem: Instagram Phomenta/@phomenta.
Contudo, o próprio termo intermediário traz suas fragilidades quando aplicado em um universo onde a todo momento tentam colar narrativas preconceituosas, como o das ONGs. “No Brasil, a palavra ‘intermediário’ não é muito acolhedora. Da mesma forma, o termo ‘ONG’ tem estigmas. As pessoas não sabem muito sobre o que é ser um intermediário, então é preciso educar futuros clientes e a sociedade por um todo”, diz Mattiello, sobre o entendimento da importância dessas instituições que fazem pontes também com os mundos corporativo, de inovação/startups e do Terceiro Setor.
E, definitivamente, a extinção das ONGs não é uma opção, por questões práticas e históricas na atuação social.
“Se as ONGs deixarem de existir, entraríamos em um caos, devido à sua importância na atuação e para a resolução de problemas sociais. Não importa se distribui lucros ou não: o mais importante é que estas organizações estão resolvendo um problema que já foi validado”, explana Mattiello.
Ela ainda complementa: “Não dá para falar de impacto social sem considerar o histórico e a experiência das ONGs. Afinal, elas são as verdadeiras especialistas em problemas socioambientais e sobre desigualdades”.
Desafios
E qual seria o desafio no que diz respeito à gestão de ONGs? A resposta talvez seja a mesma para qualquer empreendimento, sobretudo, o pequeno: priorização. “As pessoas têm dificuldade em saber o que priorizar. Ainda mais em ONGs, onde há uma causa muito forte e é difícil sair do técnico, que é apoiar, na ponta, o beneficiário. O desafio é ir mais para os bastidores, pensar estratégias e tomar decisões”, comenta Mattiello. Ainda dentro da estratégia de prioridade, destacam-se ações como saber falar “não”, hierarquizar as demandas, ser estratégico para atrair parceiros, pensar na parte financeira e ter visão de longo prazo.
Izadora Mattiello é cofundadora e presidente da Phomenta, negócio social especializado em ferramentas de inovação, empreendedorismo e gestão voltadas ao universo das ONGs. Fonte da foto: site da Phomenta.
Os saberes para atuar empreendendo, principalmente no setor de impacto socioambiental, vão além das formalidades acadêmicas – requerem também quilometragem, as vivências com erros e acertos.“Muitas ONGs vão pelo coração e pela causa técnica, social. Há ainda alguma falta de conhecimento e de ferramentas, que fomentam essa estrutura de não priorização na hora de estruturar”, explica Mattiello.
Não ser centralizador também é um dos desafios dentro da gestão das ONGs, afinal, é preciso que o empreendedor passe o conhecimento técnico a outras pessoas para que ele possa focar em pontos mais estratégicos para o negócio e que façam este ficar de pé. Neste aspecto, o papel da Phomenta é apresentar possibilidades de ferramentas aos empreendedores, promover consultorias individuais e ser a ponte que promoverá encontros presenciais entre as ONGs, para trocas de experiências. “A gente tenta facilitar a vida desse empreendedor para que, de certa forma, ele saiba priorizar, delegar e pensar de uma forma mais estratégica para que aquela ONG tenha um impacto social maior”, diz a presidente da Phomenta. Certamente, não há caminho solitário para quem está no ecossistema de impacto.
Créditos da imagem de capa: Felipe Monteiro Carvalho.
Mancha de óleo no Nordeste Brasileiro. Créditos da imagem: IBAMA.
270 mortos no rompimento da barragem da mineradora Vale, em Brumadinho (MG).
195.049 focos de queimadas no país, sendo quase metade na Amazônia.
4.700 toneladas de óleo espalhadas pelo litoral brasileiro.
Estes são alguns dados sobre crimes ambientais de grande repercussão que ocorreram no Brasil, em 2019, e que trazem consequências diretas a todos: seres humanos, animais, florestas, rios, mares e clima. E também aos negócios. Não à toa, a palavra do ano, escolhida pelo Dicionário Oxford, da Inglaterra, foi “emergência climática” . Segundo a publicação, é preciso agir com urgência para evitar danos ambientais possivelmente irreversíveis.
Urgência, aliás, é uma das premissas quando se pensa em soluções socioambientais. Um exemplo prático é a data do Dia da Sobrecarga na Terra em 2019: 29 de julho. Desde a entrada do planeta em déficit ecológico, nos anos 1970, o padrão de consumo de recursos naturais nunca foi tão alto, de acordo com a Global Footprint Network. Além disso, as consequências do aquecimento global e os inúmeros incidentes no céu, no mar e na terra ligam o alerta do ecossistema de impacto.
Afinal, trata-se do hoje e do amanhã de um planeta que entrou em contagem regressiva para o fim dos recursos naturais. Mas como negócios de impacto socioambientais podem contribuir?
O desafio do ecossistema está em equilibrar os objetivos das agendas ambiental e de negócios, sem desconsiderar a desigualdade como agravante. Ricardo Gravina, diretor da Climate Ventures, em entrevista ao ICE, destacou a crescente consciência social global sobre a emergência climática e a necessidade para que os atores do ecossistema de impacto ajam de forma orquestrada – bem como a importância do apoio governamental na regulação de temáticas, como a bioeconomia. A Climate Ventures é um importante ator no empreendedorismo climático, com chamadas que protagonizam negócios que efetivam ideias voltadas ao verde, em seu vasto leque de atuação. Um exemplo disso é a parceria com a ClimateLaunchpad para apoiar e mapear as ideias de negócios verdes no Brasil. Foram finalistas desta competição mundial empresas como Amana Katu, Green Mining, Global Forest Bond, Milênio Bus, Programa Mais, Conterra e Biohack.
A agenda de políticas, ações e negócios com impactos voltados ao meio ambiente foi a pauta da Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas, a COP 25, realizada em dezembro, em Madri. Com a participação de 200 países, foram definidos compromissos para a redução de gases poluentes emitidos. Contudo, a regulamentação do mercado de carbono ficou para ser decidida em 2020, o que frustrou representantes de governos, sociedade civil e empresas.
As políticas ambientais discutidas em âmbito global partem de experiências e dados de realidades locais, de bons exemplos para preservação e uso de recursos naturais, uma vez que desastres atingem ecossistemas e biomas. Para entender os contextos, como o brasileiro e os movimentos de seu ecossistema de impacto, é preciso considerar a mensuração de dados, assim como as ações de governos, sociedade civil, negócios, academia e demais centros de pesquisa. A seguir, conheça o panorama brasileiro de 2019 e as articulações em busca de soluções para os impactos negativos provocados pelo vazamento de óleo que cobre a costa do país do Nordeste ao Sudeste.
Contexto brasileiro
O mar de lama em Brumadinho atingiu o rio Paraopeba que abastece mais de dois milhões de pessoas e uma das últimas reservas de Mata Atlântica e de Cerrado na Serra do Espinhaço (MG), onde vivem animais ameaçados de extinção. Outro fator que coloca espécies em risco são as queimadas. No país, os focos aumentaram 50% no último ano em relação a 2018, de acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).
Nos oceanos, os corais são fundamentais para a vida marinha. Mas estão em risco com o derramamento de óleo. Uma pesquisa da Universidade Federal da Bahia (UFBA), que monitora corais em quatro praias do estado há mais de 20 anos, conseguiu identificar que, após a chegada do petróleo nessas regiões, houve redução de 47% na biodiversidade.
“Esses efeitos não se manifestam da noite para o dia. Existe uma fase aguda, mas existe uma fase crônica. Estamos falando de compostos altamente tóxicos e os animais sofrem muito com isso”, alertou o professor Francisco Kelmo, diretor do Instituto de Biologia durante um seminário com professores da UFBA que trabalham com o tema.
Florestas e corais, junto com outras vegetações marinhas, absorvem cerca de metade das emissões de carbono de atividades humanas, segundo relatório da União Europeia, “O papel da natureza nas alterações climáticas”. Portanto, são essenciais para controlar o aquecimento global, provocado pelo aumento dos gases de efeito estufa na atmosfera. Vale lembrar que o combate à poluição do ar é um dos 17 objetivos da Agenda 2030, acordo entre 193 países que prevê ações contra a mudança global do clima e para a proteção dos oceanos.
Óleo no litoral
Até o dia 17 de dezembro, o petróleo chegou a 966 locais, entre praias, rios e manguezais. As primeiras manchas apareceram na Paraíba em 30 de agosto. Porém, o Plano Nacional de Contingência para combater a poluição por óleo na água só foi acionado pelo governo 41 dias depois.
Até o dia 17 de dezembro, o petróleo chegou a 966 locais, entre praias, rios e manguezais brasileiros. Montagem feita no Google Earth Pro por Mariana Ferrari.
Voluntários se uniram às equipes locais e às Forças Armadas para reforçar a limpeza nas praias. Em Cabo de Santo Agostinho (PE), por exemplo, um biogel à base de compostos naturais foi usado para remover o óleo. “Testes em campo comprovaram que não há impactos negativos na utilização do composto nas áreas de limpeza”, destacou Leonie Sarubbo, pesquisadora do Instituto Avançado de Tecnologia e Inovação, que é financiado por empresas do setor energético.
Mas em outras praias muitas pessoas recolheram a substância sem proteção e tiveram sintomas como dor de cabeça, náuseas e dificuldades para respirar. O petróleo encontrado no litoral possui hidrocarbonetos policíclicos aromáticos, chamados HPAs, que estão associados a certos tipos de câncer, como pulmão, pele, bexiga e esôfago, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA).
Trabalho em equipe e limpeza nas praias: em Cabo de Santo Agostinho (PE), um biogel à base de compostos naturais foi usado para remover o óleo do litoral.
A pesca é um dos setores mais atingidos pelo crime ambiental, além do turismo. O Ministério da Agricultura afirma que não há risco para o consumo de pescado, porém, testes em laboratório feitos pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e pela UFBA já identificaram contaminação nos animais de áreas afetadas. Segundo o laudo mais recente, divulgado pelo governo de Pernambuco duas espécies de peixes, entre 55 amostras, apresentaram níveis altos de HPA. Nessas regiões, o governo federal suspendeu a pesca e trabalhadores artesanais começaram a receber o seguro-defeso no valor de um salário mínimo. Até janeiro, eles também terão direito a um auxílio emergencial de R$ 1.996,00.
Futuro nas áreas atingidas
Agora os esforços estão em pesquisas para tentar minimizar os impactos do óleo e propor soluções para o meio ambiente. A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), por exemplo, investirá R$ 1.360.000,00 em trabalhos nessa área que sejam desenvolvidos em até dois anos. Na maioria dos estados, o petróleo retirado das praias foi vendido para fábricas de cimento. Na Bahia, ele também é transformado em carvão, a partir de uma técnica adaptada de produção de fertilizante orgânico com restos de alimentos.
“Pode ser usado como insumo industrial, como carga na massa asfáltica e como combustível alternativo em produção de cimento. É uma solução limpa e eficiente, um processo rápido e de baixo custo”, explicou Zenis Novais, pesquisadora da UFBA.
Na mesma universidade, outro estudo utiliza plantas naturais e microorganismos para acelerar o processo de degradação do óleo em manguezais. A técnica foi originalmente desenvolvida para recuperar a vegetação atingida por um acidente com óleo na Baía de Todos os Santos, na década de 1990. Três meses depois de aplicar essa técnica, houve remoção natural de 87% de óleo nos sedimentos do manguezal. “Tivemos bons resultados de remoção de metais. Trabalhamos também com economia circular, que nada mais é do que agregar valor em cadeias locais e gerar biomassa de valor agregado, como biodiesel e biopolímeros”, disse Ícaro Moreira, professor da UFBA.
Outra preocupação de pesquisadores é preservar espécies de animais. Na Bahia e em Sergipe, o Projeto Tamar acompanha tartarugas marinhas que se reproduzem entre setembro e março. Nos locais de maior risco, os ninhos foram transferidos para outros pontos da praia ou levados para um cercado de incubação do Projeto. “Devido à presença significativa de óleo em áreas consideradas prioritárias para reprodução e conservação da tartaruga-oliva, da tartaruga-cabeçuda e da tartaruga-de-pente, as equipes aumentaram significativamente o esforço de monitoramento para garantir que os filhotes não ficassem presos nas manchas de óleos”, afirmou Luciana Medeiros, bióloga marinha e assessora científica da Coordenação Nacional de Pesquisa e Conservação do Projeto Tamar.
Manual desenvolvido pelo Projeto Cetáceos da Costa Branca.
No Rio Grande do Norte e Ceará, tartarugas, aves e golfinhos passam por descontaminação do óleo e reabilitação no Projeto Cetáceos da Costa Branca. Eles recebem soro, antibióticos, sondas e lavagens para retirar o excesso da substância no corpo. Depois são monitorados na sede do Projeto para saber se conseguem se alimentar e nadar. O processo tem duração de dois a quatro meses, no mínimo, e custa de R$5.000,00 a R$10.000,00 por mês por animal.
Segundo Flávio Lima, coordenador do Projeto Cetáceos, que tem apoio da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte, as equipes aceitam doações de materiais como luvas e botas, remédios e apoio de voluntários para ajudar também no trabalho de educação nas comunidades atingidas pelo óleo. “Nós temos um trabalho de informação, de conscientização e de comunicação com pescadores, marisqueiras e moradores das regiões de praia no sentido de eles serem parceiros dessa luta e contribuírem também no resgate dos animais”, afirmou Lima.
Diante deste panorama, é inevitável pensar em ações conjuntas entre a sociedade civil e suas organizações, empreendimentos voltados ao impacto positivo, centros de pesquisa e governos. O desafio em busca de soluções socioambientais é constante e os recursos naturais são escassos. Contudo, cabe ao setor 2.5 articular, dialogar e criar propostas conjuntas – afinal, um dos termos-chave deste milênio é urgência climática. Movimentos de negócios pensando a pauta ambiental já existem. O que, portanto, o setor pode fazer para aumentar esta escala?
Legenda: Antes e depois da chegada do óleo na Praia de Suape (PE). Imagens feitas por Camille Panzera e Salve Maracaípe. Montagem no Flourish Studio feita por Mariana Ferrari.
Empreendedores de negócios de impacto alimentam ‘sonhos de uma noite de verão’ com o dia em que conseguirem aquele investimento em troca de equity
Importa mesmo é engordar o gado para o abate e para a tão sonha ‘saída’?
Contabilidade criativa para inflar seu valuation
e narrativa matadora pra vender seu peixe a investidores mais parrudos?
Não importa se seu cliente está satisfeito com sua entrega
nem que sua estrutura de custos esteja OK
nem que sua gestão interna esteja redonda
O que interessa é seguir a onda de gigantes
e almejar um lugar ao sol
no seleto grupo de unicórnios
custe o que custar
Esse tem sido um dos dilemas por trás do debate da escala
no campo de negócios de impacto
Escalar o negócio de impacto pra quê
pra quem
e a qual custo?
E quem não quer escalar, será condenado em praça pública?
E quem ter críticas a este modelo, será relegado à geladeira?
Estamos ainda na antessala deste modelo de Venture Capital (VC)
na incorporação deste modelo na agenda de impacto social
e veremos ainda muito choro e ranger de dentes nesta frente
Este modelo tem serventia para nossa realidade?
Sim, mas ele passa longe de ser um único modelo a ser seguido
em termos de financiamento para iniciativas de impacto
racionalmente o setor parecer compreender bem isso
embora na prática muitos sigam fazendo suas apostas
para o puxador de fila de unicórnios de impacto em solo tupiniquim.