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Para pensar (e agir) sobre Paraisópolis

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vista aérea de Paraisópolis

 

vista aérea de Paraisópolis

A violência ocorrida em Paraisópolis, com nove mortes, em 1º de dezembro, no baile funk da DZ7, expõe a brutalidade e as desigualdades (no plural) que caracterizam o cotidiano de quem vive em periferias urbanas. Naquela mesma noite, também houve ação truculenta em Heliópolis, mais um bairro favelizado na capital paulistana, onde ocorreu uma morte também em baile funk.

O episódio choca, assim como tantos outros, que também são “midiatizados” ou não. Uma realidade que revela a exposição de moradores desses territórios às consequências das disparidades sociais, do racismo e das demais violências estruturais no Brasil, que perpassam questões socioeconômicas, culturais, de raça/etnia, entre outras.

Mas, diante desta conjuntura, como o ecossistema de impacto pode atuar?

Em sua coluna publicada no UOL, o jornalista e empreendedor social Tony Marlon fez esse questionamento para o campo. A pergunta é complexa e demanda olhares sob diferentes ângulos para o início de ações – por isso, cabe ao setor 2.5, por um todo, voltar-se ao quadro, para reconhecer seu papel social e propor potenciais soluções. Para tentar responder essa pergunta, a reportagem da Aupa procurou fundações, universidades, empreendedores do setor, entre outras lideranças do campo de impacto social.

A Banca, produtora cultural social de impacto positivo, por exemplo, utiliza a música, a cultura Hip-Hop, bem como a educação popular e a tecnologia para promover a inclusão, o fortalecimento identitário e o empreendedorismo juvenil na periferia. “Já pensou em qual ecossistema de negócios de impacto quer operar? O que propõe que a quebrada seja beneficiária ou o que dialoga para esta ser parte integral ou parcial das suas soluções?”, indaga Fabiana Ivo, coordenadora pedagógica da A Banca e da ANIP (Aceleradora de Negócios de Impacto da Periferia). Aos negócios, fundações, institutos e demais investidores, vale lembrar a importância do dinheiro aportado para que novas oportunidades surjam da periferia para ela mesma, bem como a importância do diálogo entre os dois lados da ponte. A mudança na vida de cidadãos localizados nas periferias urbanas é uma das principais demandas do ecossistema em sua consolidação e desafios constantes.

A educação é certamente um dos elementos democráticos que podem ajudar na busca por soluções socioambientais diante das violências estruturais, sobretudo aquela cujo processo se dá junto da população periférica, considerando suas particularidades e urgências. “É dever do Estado proporcionar as condições para que esses espaços possam efetivamente serem locais onde os jovens que residem nas periferias tenham acesso à cultura, não somente como espectadores, mas, sim, como produtores de conteúdo. O poder público deve costurar, junto à comunidade, políticas que atendam a necessidade e o interesse desses jovens, que querem fazer parte de algo, querem ocupar seu tempo com algo que seja interessante”, explica Cícero Gomes, professor de História e presidente da Unegro unidade Mogi das Cruzes.

Rene Silva. Crédito: Rafael Moura.
Rene Silva. Crédito: Rafael Moura.

Veículos de comunicação especializados nestes territórios também são ferramentas importantes para o impacto positivo, como o Voz da Comunidade, no Rio de Janeiro, idealizado e administrado por Renê Silva.

A Fundação Tide Setubal é uma das organizações que atua com ações voltadas à educação e transformação social das periferias paulistanas – não à toa, gerencia o Galpão ZL, no Jardim Lapena, e firmou cooperação com a Unifesp para estudos sobre periferia urbana

 

Economia, cultura e violência        

Algumas precauções devem ser tomadas ao se fazer leituras históricas para se entender o presente, sua estrutura e suas violências. Apoiar-se na história e na formação das cidades não significa aceitação, mas, sim, a oportunidade de problematização para um possível entendimento dos desafios do hoje. E é neste gancho que o ecossistema de impacto pode atuar e que protagonistas, vindos destes territórios marcados por desigualdade, violência e resultados do processo de gentrificação nos grandes centros, podem expor necessidades locais. Ressalta-se também que a violência não pode ser encarada como um mecanismo humano “natural”: a opressão não pode ser recolocada e enfatizada como um protagonista para o uso da violência para a resolução de conflitos sociais.

E vale o alerta: “A violência é, inclusive, uma das formas pelas quais as desigualdades se acentuam em nossa sociedade. É inegável que a população pobre, negra e que habita nas periferias são mais suscetíveis a serem alvo de ações violentas por parte das polícias, por exemplo”, explica Gustavo Higa, sociólogo e pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV/USP).

Vanessa Gatti, socióloga e pesquisadora especializada em música, afirma que a violência sofrida pela população periférica em festas, bailes, shows ou eventos, por parte do Estado, é resultado da criminalização de todo o modo de vida da referida população, e, portanto, uma violência arbitrária, por motivação classista e racista. “A atuação policial truculenta em bailes funks e shows de rap, principalmente, está muito distante do modo de atuação da polícia em festas, eventos e shows frequentados por pessoas de classes sociais mais elevadas, por exemplo, em  raves, cujos frequentadores, em sua maioria, são pertencentes a uma classe média e alta. O uso e tráfico de drogas também é frequente nesses eventos, como é sabido”, contextualiza Gatti. “A questão não foi o baile em si, mas o ‘onde e ‘quem’ foram os facilitadores para a ação policial. As desigualdades também se refletem nas formas como a violência policial opera no corpo e na alma nas pessoas”, explica Higa.

O caso de Paraisópolis é emblemático do processo de marginalização e estigmatização sofrido pela população periférica no seu tempo de lazer e em suas expressões culturais”, explica a pesquisadora. Assim, cabe a aproximação entre o episódio em Paraisópolis e a prisão do DJ Rennan da Penha, no Rio de Janeiro, de modo a ficar patente a estigmatização, com graves consequências.

A tríade violência, Estado e populações periféricas é tema de debates há tempos, sobretudo acerca da garantia dos Direitos Humanos e da recorrência de ações truculentas por parte da Política Militar. A Declaração Universal dos Direitos Humanos, por sua vez, completou 71 anos no último 10 de dezembro e tem ligação com o massacre de Paraisópolis.

Um dos desafios dá-se justamente na forma como a sociedade civil e suas organizações podem contribuir para a quebra desta naturalização da violência trazendo à tona questões e consequências como o racismo e as desigualdades enfrentadas, sobretudo, pela base da pirâmide socioeconômica. Higa indica um caminho: a democracia. “Apesar de não existir uma receita para lidar com esse problema, podemos analisar, com espírito democrático, o que não está funcionando e decidir novos rumos, partindo de experiências como em Paraisópolis, além da tortura no Supermercado Ricoy, as mortes da menina Ágatha Félix e da vereadora Marielle Franco, os incontáveis massacres nas prisões, entre outros”. Gatti completa: “Quebrar com o processo de  marginalização exige a formação de movimentos e organizações, atuando em diversas frentes, como as políticas públicas, os currículos educacionais e meios de comunicação”.

Ações e campanhas, como a Jovem Negro Vivo, lançada pela Anistia Internacional são alguns dos movimentos propositivos para reflexões e mudanças que possam garantir direitos básicos à população mais vulnerável. Segundo a Anistia, das 56 mil pessoas assassinadas no Brasil em 2012, 30 mil eram jovens entre 15 e 29 anos e, deste número, 77% eram negros.

A junção entre Estado, sociedade civil e empreendimentos voltados a soluções de impacto com representação da periferia faz parte do contexto orgânico e mutante que o ecossistema, dia a dia, aprende a construir junto.

E, talvez, a urgência derivada das desigualdades diante de contextos tão complexos seja o desafio ao ecossistema de negócios de impacto social. Como agir?

 


 

Vozes da periferia

 

No diálogo para a montagem desta reportagem, Aupa fez a seguinte pergunta para diversos atores do campo: como esta violência em Paraisópolis implica no ecossistema de negócios de impacto e sua atuação diante das desigualdades – se por um lado, há a morte de jovens negros residentes em periferias urbanas, por outro, dentro do ecossistema, as lideranças dos negócios de impacto costumam ser homens brancos e de classes mais altas. Como o setor de impacto pensa essa contradição?

Abaixo, a reprodução da resposta de Fabiana Ivo, coordenadora pedagógica da A BANCA/ANIP.

“A cena já é conhecida na periferia: ela é vivenciada desde meados dos anos 1980, nunca foi fácil ser periférico em uma cidade que invisibiliza suas contradições sociais. O ocorrido no Paraisópolis, com a morte dos nove jovens, é a ponta de um iceberg que vem de longe mostrando sua pior face – o racismo institucional. Falamos sobre racismo institucional, porque quem mais morre por arma de fogo e pela mão do Estado fardado é preto, pobre e periférico; tem cor e CEP.

Somos uma produtora que vem, ao longo de sua trajetória, discutindo o lugar que a periferia ocupa, seja nas áreas culturais, educacionais ou no ecossistema de negócios de impacto, sendo este último, por sua vez, pensado para criar soluções para comunidades e pessoas de baixa renda. Neste contexto do ecossistema tradicional, sempre lutamos para que a periferia fosse reconhecida como protagonista, como pessoas que têm em seu fazer cotidiano soluções, por vezes, até complexas e elaboradas frente à realidade que vivem. Lutamos para que mais mulheres e homens pretos fossem visibilizados em suas ações e “escrevivências”.

Precisamos fazer com que situações de caos, como esta estejam em nossos discursos, não as deixando irem para o esquecimento. Ou, ainda, impedindo que sejam vistas como casos isolados. Precisamos compreender que os negócios de impactos sociais devem olhar para diversas áreas e dialogar com os envolvidos no contexto, não para desenvolverem suas pesquisas e hipóteses, mas, sim, para cocriarem juntos soluções. Compreendemos também que criminalizar uma juventude pelo seu fazer cultural é tática de um Estado que não consegue trabalhar com a mobilidade intelectual e de direito que vem sendo construindo.

O ecossistema tradicional de negócios de impacto não pode, de forma alguma, compreender que o ato realizado é por conta dos jovens que nem estudam ou trabalham ou porque ‘coitadinhos’ (sic) não tem onde se divertir. Somos o sétimo país mais desigual do mundo e esta informação deve ser a força motriz do nosso querer fazer. Precisamos considerar esta informação e entender que os passos que nos distanciam de diminuir essa desigualdade, muitas vezes, estão atrelados ao assistencialismo ou ao salvacionismo que alguns negócios propõem.

Compreender a quebrada como parte central da cidade, o seu fazer, o seu pulsar de dentro para fora, suas soluções e intervenções amparadas por espaços que, ao invés de pesquisas, cursos sem contextos, benefícios sem diálogos, possam apoiar a construção de conhecimento e de articulação com o ecossistema financeiro para combater parte da desigualdade.

O que matou os nove jovens foi a desigualdade de direitos, o racismo institucional, a forma de compreender que os CEPs são inimigos diretos por não serem parte do que o sistema racista considera como sociedade. Já pensou que poderia ser você? Ou seu filho? Já pensou que isto pode ser um rastro que poderá acontecer em outras quebradas? Já pensou se você vai seguir calado? Já pensou em qual ecossistema de negócios de impacto quer operar? O que propõe que a quebrada seja beneficiária ou o que dialoga para esta ser parte integral ou parcial das suas soluções? Reflita e pense. Sua ação pode evitar que outras ações de homicídio aconteçam. Somos a pedra no sapato que seguirá mostrando a conexão da liberdade com a igualdade. Somos a pedra que irá demonstrar em todas as suas ações o quão o preto e o pobre podem ser protagonistas das soluções para suas vidas e para a sua comunidade. Que possamos SER!”.

Os nomes dos jovens mortos em Paraisópolis são: Denys Henrique Quirino da Silva, 16; Gustavo Cruz Xavier, 14; Gabriel Rogério de Moraes, 20; Mateus dos Santos Costa, 23; Bruno Gabriel dos Santos, 22; Dennys Guilherme, 16; Marcos Paulo, 16; Luara Victoria de Oliveira, 18 e Eduardo Silva, 21.

 

A relevância do tema e a importância de um debate mais profundo dentro do campo de impacto, torna esse conteúdo aberto a posicionamentos de outros atores. A Aupa reassume seu compromisso jornalístico de dar voz a todos que atuam para a construção do setor.

Por que precisamos de uma legislação que qualifique os negócios de impacto no Brasil?

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A única menção na legislação federal está no Decreto nº 9.977/2019, que dispõe sobre a Estratégia Nacional dos Investimentos e Negócios de Impacto (ENIMPACTO), segundo o qual, negócios de impacto são “empreendimentos com o objetivo de gerar impacto socioambiental e resultado financeiro positivo de forma sustentável”.

No Reino Unido, foi criada a “Community Interest Company – CICs” (empresas de interesse comunitário), as quais, basicamente, devem prever no contrato social o propósito de gerar impacto social, podem ou não ter finalidade lucrativa, mas ao menos 65% do seu lucro deve ser reinvestido, devem indicar um diretor responsável pela manutenção do impacto social e elaborar relatório anual.

Nos Estados Unidos foi criada a “Benefit Corporation” (empresas de benefício), que são companhias com finalidade lucrativa, que assumem obrigações não somente perante os acionistas, mas também perante os demais stakeholders (empregados, comunidade e meio ambiente), sendo concedido aos diretores uma proteção para que tomem decisões de negócios baseadas não somente na obtenção de lucros aos acionistas, mas também na busca de impacto socioambiental positivo e observam altos padrões de transparência e governança corporativa.

Porto Rico e Itália também aprovaram leis criando “Corporaciones de Beneficio Social” e “Societá Benefit”, respectivamente, e Austrália, Argentina, Chile, Colômbia e Canadá possuem projetos de lei em tramitação avançada na mesma linha.

No Brasil uma iniciativa legislativa promovida pelo Sistema B e o Grupo Jurídico B propõe uma qualificação para as empresas de benefício, já com um anteprojeto de lei que tramita no Poder Executivo, originado como uma das ações da ENIMPACTO.

O anteprojeto de lei prevê como elementos básicos para a qualificação de uma empresa de benefício: i) propósito de impacto socioambiental positivo definido no objeto social; ii) decisões da administração vinculada ao propósito de impacto positivo; iii) estrutura de governança corporativa que atenda ao propósito de gerar impacto positivo; e iv) elaboração, votação e publicação periódicas do relatório de impacto. Nesse modelo, a sociedade é necessariamente lucrativa e a geração de impacto socioambiental positivo é parte integrante do melhor interesse da empresa, de forma que a racionalidade da empresa em face do impacto deixa de ser o de minimizar danos, e passa a ser o de promover benefícios.

Mesmo que a discussão sobre a necessidade de uma legislação que qualifique os negócios de impacto no Brasil ainda esteja em andamento e deverá ser aprofundada nos próximos meses, como advogada, a minha opinião é que a regulamentação jurídica é essencial, pois delimitará as características mínimas essenciais dos negócios de impacto, para garantir maior segurança jurídica para os atores que atuam no setor, como acionistas, investidores, consumidores dos bens e serviços e o poder público.

Ademais, havendo um ambiente regulado, podem ser adotadas políticas públicas para fomentar o setor e, consequentemente, existirá um incentivo maior para que empreendedores e investidores se interessem pelos negócios de impacto.

Por outro lado, é necessário compreender que os negócios de impacto criados nos últimos anos se utilizam do arcabouço societário tal como está e há organizações receosas de que uma legislação específica poderia restringir o conceito e reduzir a amplitude dos negócios de impacto.

Isto porque a legislação societária no Brasil permite que os gestores tomem decisões baseados nos interesses dos stakeholders, pois determina que a companhia deve cumprir sua função social e tem deveres e responsabilidades com os acionistas, os trabalhadores e com a comunidade em que atua.

Outro ponto importante que está sendo discutido no ecossistema é o próprio conceito de negócios de impacto e quais seriam as suas delimitações.

Todas essas questões são sintomáticas do crescimento do campo e o aprofundamento da discussão, a partir do entendimento de que é necessária uma regulamentação mínima, para garantir maior segurança jurídica aos stakeholders e diferenciá-la das demais, e isso pode ser materializado pela criação das empresas de benefício, o que não implicaria em restrição a outros tipos de negócios de impacto.

Uma possível história dos negócios de impacto

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História negócios de impacto.

 

Texto: Fernanda Patrocínio  Vídeo: Fábio Ranzani   Motions: Back2basics   Ilustração: Murilo Mendes

A história dos negócios de impacto é também a história das consequências positivas e negativas da humanidade e da globalização. São as narrativas e os fatos sobre a busca de soluções para problemas que nos afetam sócio, econômico e ambientalmente – escassez e concentração numa equação que não fecha, nem ao curto e nem ao longo prazos. A Aupa, em parceria com o Instituto Sabin, apresenta uma história possível, dentre tantas maneiras de relatar esta movimentação global, de como o ecossistema de impacto se constitui no Brasil, a partir do resgate histórico de seus agentes e conceitos, que atuam em constante transformação e de sua formação atual, assim como o mundo no qual estamos inseridos. Existem questões e problemas antigos e novos, que impactam a humanidade há tempos; porém, agora eles passam a serem enfrentados com novas ferramentas, advindas do mercado. Tal instrumental traz possíveis soluções e, ao mesmo tempo, questionamentos, como: seriam estas “novas” ferramentas adequadas para reverter os problemas de impacto socioambiental? O uso do termo ecossistema não é por acaso, numa história que pode ser entendida a partir do incômodo gerado em consequência da excludente predação e da esperança em soluções que só podem vir de associações coletivas e simbioses. O conteúdo a seguir está inserido dentro dessa constante construção, e segue aberto as profundas transformações que nossa sociedade vive. 

 


PARTE 1

A HISTÓRIA E O NOVO: CONTEXTOS E PRÁTICAS

O mundo pós-Grandes Guerras viveu saltos no que diz respeito a escassez e utilização de recursos naturais, taxas de natalidade, crescimento populacional, desenvolvimento científico e concentração de pessoas nos grandes centros. Para se ter uma ideia da diferença: a Organização das Nações Unidas (ONU) foi criada em 1945 e, segundo sua própria estimativa, em 1950 a população mundial era de 2,6 bilhões de pessoas; em 2019, este número é de 7,56 bilhões de pessoas. Ou seja, a população praticamente triplicou em 70 anos e uma série de mudanças sociais, econômicas, geopolíticas e culturais aconteceu também. Dos baby boomers, passando pela Guerra Fria, além de hippies e movimentos de contracultura pelo mundo, aumento de consumo, êxodo rural, industrialização, globalização e capitalismo. E o que isso tudo tem a ver com o ecossistema de impacto e sua história? – Tudo!

Esse contexto de grandes mudanças carrega também novos comportamentos, aumento de consumo e de desigualdades, além de exclusões. É difícil cunhar o momento exato em que os negócios de impacto surgiram, pois, a prática de ter um movimento, uma solução ou um serviço visando o bem comum é atemporal. Porém, com a nova organização e a maturação do capitalismo global, algumas movimentações nos permitem apontar marcos importantes. Se o Ocidente vivia as resistências políticas contra ditaduras e sua censura (como foi o caso da América Latina a partir da década de 1960) e a favor do reconhecimento de Direitos Civis (como ocorreu nos Estados Unidos com o movimento pelos Direitos Civis dos negros, na década de 1960), a Ásia também dava sua resposta à pobreza extrema enfrentada pelo país. Em 1976, o bengalês Muhammad Yunus desenvolveu o modelo de microcrédito para atender às famílias de pequenos produtores rurais em Bangladesh, sobretudo às populações miseráveis, sem acesso a qualquer tipo de crédito em bancos convencionais. Vale dizer que, em 1990, apenas 30% da população deste país sul-asiático marcado pela pobreza extrema era alfabetizada. Este modelo focava o empréstimo à mãe das famílias – modelo este que, ao longo das décadas seguintes, foi replicado por outros países para políticas sociais, como o próprio Bolsa Família, no Brasil. Yunus é também quem cunhou o termo negócios sociais, que derivou, posteriormente, às noções de negócios de impacto e negócios de impacto social, que se diferenciaram quanto aos lucros e à sua distribuição.

Entenda aqui a diferença entre os termos

A filantropia também faz parte do vocabulário para entender o percurso histórico dos negócios de impacto. Antes mesmo do surgimento do termo negócios de impacto, a filantropia já acontecia no Brasil, afinal, ela data desde o Brasil Colônia e está ligada às organizações, sobretudo com enfoque social e voluntário, encabeçadas pela Igreja Católica. A prática, no Brasil, apresentou desenvolvimento extraordinário desde o fim da ditadura militar, em 1985, segundo levantamento “O futuro da filantropia no Brasil”, feito pelo Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (GIFE). A partir dos anos 1990, a filantropia consolida-se e novos atores surgem a partir desta agenda, embora com pautas que possam surgir de diferentes aspectos dos dilemas socioambientais. Ou seja, enquanto há iniciativas que virão de mobilizações do mercado para doações, há outras que surgem em comunidades, coletivos e organizações da sociedade civil (OSCs). Embora possa haver tensão quanto à relação entre negócios de impacto social, sobretudo o investimento social privado, e a própria efetividade da filantropia, a relação entre estes dois lados é mútua. Aliás, vale ressaltar que, a formação e a consolidação da agenda de investimento social dialogam diretamente com a filantropia. Por isso a importância de agentes como fundações, institutos e mobilizações de indivíduos (sozinhos e organizados) para esta ponte e negociação dentro do setor de impacto. Auxilia no entendimento, assim, do setor de impacto ser reconhecido como setor 2.5, pois ele está entre o setor 2, ligado ao mercado e às organizações privadas, e o setor 3, que versará sobre uma participação não governamental e voluntária de um conjunto de agentes e entidades com o objetivo de obter soluções de âmbito público e não lucrativo.

A economia solidária faz parte também deste contexto de mudanças que visa alcançar soluções para problemas socioambientais, a partir da geração de renda e do trabalho. Ela pode ainda ser entendida como uma alternativa à economia capitalista, mesclando-se ao cooperativismo e à autogestão. A economia solidária traz como premissas: distribuição dos resultados no empreendimento, gestão democrática e participativa e controle coletivo dos meios de produção, distribuição, comercialização e crédito. O economista Paul Singer (1932-2018) foi uma das referências nos estudos e desenvolvimento de políticas voltados à esta economia, tanto no Brasil quanto no exterior. Em 1998, Singer ajudou a criar a Incubadora Tecnológica de cooperativas Populares da Universidade de São Paulo. Ele atuou ainda como titular Secretaria de Economia Solidária (SENAES) do Ministério do Trabalho e Emprego, em 2003. Assim, introduziu o projeto acerca de bancos comunitários para erradicar a pobreza.

As primeiras movimentações em relação a uma proposta semelhante à economia solidária começaram nos anos 1970, com a Crise do Petróleo e suas consequências com endividamento das nações, como o Brasil. Soma-se ainda o momento que o país vivia, caminhando-se para a reabertura política que aconteceria em 1985, com manifestações populares, desemprego e a atuação dos sindicatos. A economia solidária surge justamente para combater a miséria e o conceito como o conhecemos hoje foi cunhado nos anos 1990, mas sua atuação surge das urgências aqui elencadas.

Apesar das mudanças históricas dos termos econômicos, também partindo do entendimento dos negócios com propósito positivo coletivo e de mudanças e contextos para ações de mercado não só predatórias, como a economia solidária e os novos sentidos para negócios sociais e de impacto, a caixinha das nomenclaturas importa menos do que a efetividade positiva das soluções apresentadas à base da pirâmide social. Luciano Gurgel, gestor da área de investimentos da Yunus Negócios Sociais Brasil, empresa que chegou ao país em 2013, acredita que ainda hoje o termo negócios sociais não está superado.

“O norte usado por aqui e por toda a indústria de investimento de impacto é a questão dos negócios como uma ferramenta para solução de problemas sociais. E, neste sentido, eu acho que é um termo mais atual do que nunca”,

Luciano acredita também no crescimento do número de negócios que se propõem a promover a solução de problemas sociais e ambientais. Enquanto o ecossistema cresce, os conceitos vão se aprimorando e os termos se moldando. Vale ressaltar porém que o debate sobre os formatos jurídicos permanece. Parte do ecossistema tende a abordar os negócios de impacto social como empresas alinhadas a lógica de mercado e com preocupações sociais; outra parte prefere abordar as iniciativas alinhadas a modelos como cooperativas ou OCSs. As ideias seguem em debate no setor.

Outro ponto relevante para entendermos o contexto deste movimento global que potencializa o ecossistema de impacto é a criação dos BRICS, em 2006, que trata da coordenação e cooperação entre os emergentes Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. No Brasil, destaca-se ainda o uso exacerbado de recursos naturais numa tentativa de crescimento do país nos últimos 150 anos, a desigualdade como herança social somadas às políticas sociais implementadas após a reabertura política e a implementação da Constituição, em 1988. Desde a queda do Muro de Berlim, em 1989, problemas relacionados ao meio ambiente, sobretudo, sua devastação, têm sido confrontados, de modo a questionar as consequências do capitalismo e dos mecanismos para geração de lucro. A Floresta Amazônica passou a ter atenção global (não só para sua preservação, mas também pelo potencial de seus recursos que podem ser explorados). No Brasil, neste fim de década de 1980, criou-se o Programa Nossa Natureza, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), dentre outras estruturas para monitoramento das matas e demais recursos naturais. Em virtude também da atuação da Frente Verde, houve a inclusão do Capítulo do Meio Ambiente à Constituição Federal de 1988, referente ao Art. 225. Nele, declara-se o direito ao cidadão ao “meio ambiente ecologicamente equilibrado”. Não por acaso a Confederações das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (Eco-92) ocorreu no Rio de Janeiro, em 1992.

Vista aérea do rio Amazonas (foto 2019) crédito: wikimedia

Os negócios e o dinheiro perpassam por todos os problemas e consequências socioambientais apresentados até aqui. O próprio termo sustentabilidade envolve-se cada vez mais com o universo de business. E neste crescimento outras palavras ganham força nos negócios, como bancos comunitários (como o Banco Palmas, em Fortaleza, inaugurado em 1998; o primeiro dos mais de 100 bancos comunitários no Brasil), economia solidária (e demais estudos do economista Paul Singer), moeda social, economia criativa, economia circular, fintechs, internet e redes sociais, empresas unicórnios, Big Data, startups até chegarmos à gig economy. Em 2015, a ONU lançou a agenda 2030, que traz 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) para transformar o mundo – pauta bastante norteadora para o desenvolvimento do ecossistema de impacto hoje.

Em 2002, os professores Coimbatore Prahalad e Stuart Hart, por sua vez, trazem à tona o termo negócios com a base da pirâmide, ou seja, com a população de baixa renda. O conceito de negócios inclusivos surge como uma resposta à essa perspectiva. “A ideia era separar o que efetivamente significava acesso a serviços que gerariam melhoria de qualidade de vida das populações do que era exploração de um mercado de baixo valor agregado e que operava em grandes volumes. Rapidamente ficou muito claro que não seria possível existir negócios inclusivos em mercados que não operassem na mesma lógica”, explica Paulo Rocha, ex-gerente de programas sustentáveis e negócios inclusivos na Fundação Avina (2005); hoje, Rocha é líder de Programas Socioeconômicos da Fundação Renova, entidade responsável pela mobilização para reparação dos danos causados pelo rompimento da barragem do Fundão, em Mariana (MG), em 2015.

No mesmo período, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) entrou no circuito com o conceito de mercados inclusivos. Já na América Latina, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) também comprou essa proposta. “Durante um certo tempo, os principais atores envolvidos se dedicaram a construir esses mercados, o que, hoje, poderia se assemelhar ao conceito de ecossistemas de impacto. Até que, nos Estados Unidos, surgiu o movimento de Investimento de Impacto, capitaneado por várias instituições, entre elas a Rockfeller Foundation”, pontua Rocha. A partir de moldes dos fundos de venture capital e se apropriando de metodologias e terminologias do setor de inovação tecnológica, os fundos começaram a surgir na América Latina.

“O México foi o primeiro epicentro de impacto na América Latina. Porém, naquele momento havia chegado dinheiro e investidores, mas não havia muitos negócios”, relata Rocha.

 


PARTE 2

CONSOLIDAÇÃO E ECOSSISTEMA BRASILEIRO

A consolidação do ecossistema de impacto no Brasil pode ser entendido com o aparecimento de agentes que foram surgindo, sobretudo na década de 1990. É a partir desse movimento que bases conceituais são construídas e organizações de referência são criadas.  Entre o final do século XX e início da década de 2000 que se inicia a trajetória do ecossistema de negócios de impacto.

A criação da Fundação Avina, em 1994, pelo empresário Stephan Schmidheiny, é um destes marcos de empresas que trazem propósito de produzir transformações por intermédio do processo de colaboração. “Começamos na Avina com a agenda de negócios inclusivos nos idos de 2005. Fomos muito criticados pela heresia de misturar a palavra sagrada ‘inclusão’ com a palavra demoníaca ‘negócios’, explica Rocha. “Por mais que a Natura já fosse uma referência de responsabilidade social empresarial, a ideia de se ganhar dinheiro prestando um serviço social ainda era tabu”, completa. Assim, o primeiro passo foi mapear os negócios inclusivos. “Os resultados foram basicamente projetos de geração de renda implementados por OSC [Organização da Sociedade Civil]”, afirma.

Maure Pessanha da Artemisia: liderança feminina foi fundamental para consolidar o pioneirismo da organização

Em 2004, a Potencia Ventures, fundo de investimento de impacto, diante do potencial e do momento político-econômico propício no Brasil para desenvolvimento de negócios, fundou a Artemisia, organização sem fins lucrativos que fomenta negócios de impacto social. A organização nasceu do sonho da norteamericana Kelly Michel, então com 23 anos, que acreditava ser possível integrar negócios e impacto social. Kelly queria apoiar a criação e implementação de negócios que ajudassem a dar mais acesso à saúde, educação, moradia, serviços financeiros para pessoas de baixa renda. Queria estimular o surgimento de empresas que oferecem, de forma intencional, soluções escaláveis para problemas sociais da população de baixa renda. Kelly fundou a Artemisia e logo chamou sua companheira Maure Pessanha que ajudou a fortalecer e sedimentar a trajetória da aceleradora de negócios de impacto social pioneira no Brasil. Com Maure, a organização cresceu e se tornou referência para todo ecossistema.

“Quando começamos essa história de investimento de impacto ainda era muito incipiente. a nossa inspiração, claramente, foi a Artemisia, a primeira a falar em negócios sociais e negócios de impacto social no Brasil”

A frase é de Daniel Izzo, CEO e cofundador da Vox Capital, empresa criada em 2009, a qual o capital empreendedor investe em negócios inovadores e de alto impacto à população de baixa renda. A Vox Capital é a primeira gestora de impacto no Brasil. Izzo destaca ainda o papel do Impact Hub, que atua no Brasil há 10 anos, organização ligada a uma rede global de empreendedores voltados à transformação social. “Com atuações similares, há ainda o fundo indiano Aavishkaar [Venture Capital] e a organização norte-americana Acumen, também um fundo de investimento de impacto”, cita o CEO da Vox Capital. A Ashoka, organização global sem fins lucrativos, cujo trabalho foca o empreendedorismo social, por sua vez, não se vê como um agente protagonista do ecossistema de impacto. “O papel da Ashoka foi o de criar e fortalecer o campo do empreendedorismo social, que pode acabar incluindo negócios sociais como um dos desdobramentos da expansão do campo”, afirma Rafael Murta, coordenador da rede de empreendedores sociais da Ashoka Brasil. A organização chegou ao país em 1986 e não leva em consideração o modelo de negócios, mas, sim, a capacidade do impacto gerado, segundo Murta. Dentre outros players globais, destaca-se também a Grameen Foundation, entidade norte-americana que trabalha junto ao Grameen Bank, o primeiro banco de microcrédito do mundo, fundado por Yunus.

Os agentes em rede também são de suma importância para a dinâmica e as aproximações dentro do ecossistema de impacto. Alguns exemplos são instituições como Sistema B, Aspen Network of Development Entrepreneurs (ANDE) e Global Steering Group for Impact Investing (GSG) e Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP). “Não à toa a Vox trouxe a ANDE ao Brasil. Criamos um grupo de trabalho de investimento de impacto, que é a ABVCAP. É fundamental termos outros players e muito mais gente para atingirmos o objetivo de que os negócios trabalhem como força de transformação social positiva”, explica Izzo.

A Artemisia tem seu trabalho destacado também por Rocha, por ter adotado um “Modelo de fomento a negócios inovadores copiado do setor de tecnologia americano e que hoje prevalece com excelentes resultados”. Há ainda a SITAWI, uma organização social de interesse público (OSCIP), e a Rede Asta, que é um negócio social. “Não podemos deixar de citar a criação do Hub da rede ANDE Brasil, da NESTs, da Tecnoserve, do fundo Vox Capital, dentre outras instituições que surgiram para apoiar os empreendimentos”, coloca Rocha. Em relação aos investidores, vale ressaltar também que o caminho, conforme apresentado, vai além da filantropia, abrindo caminhos para Family offices.

O Instituto de Cidadania Empresarial (ICE) também destaca-se por impulsionar a agenda dos negócios de impacto. A OSC atua há 20 anos e mudou sua estratégia há 7: o tema antes chamado de “’finanças sociais” hoje é “investimentos e negócios de impacto”. Uma adequação atendendo à característica orgânica de constituição do ecossistema. Beto Scretas, consultor do ICE, afirma que há desafios para os diferentes segmentos a serem articulados. “Para fundações e institutos, há ainda uma questão regulatória de uma zona cinzenta sobre a atividade destas fundações e destes institutos, se eles podem ou não livremente investir em produtos financeiros de impacto. Para os investidores ainda há falta de produtos financeiros de impacto. Já para os empreendedores realmente é aquela dificuldade de fazer negócio, de ser uma startup, de fazer e montar um negócio no Brasil, que é inerente a qualquer negócio. A dificuldade adicional do setor está ainda na necessidade de mensurar o seu impacto social e ambiental”, explica ele. O movimento para conectar organizações e temas estratégicos está na Aliança pelos Investimentos e Negócios de Impacto (antiga Força Tarefa de Finanças Sociais), lançada em 2015.

“Precisa de um caldo de cultura [regulatório, cultural e legal] favorável, as pessoas mudando a chavinha para pensar também no impacto que o seu dinheiro causa, não só no risco e no retorno que está ocorrendo”,

Segundo o “Mapeamento dos negócios com impacto social no Brasil”, desenvolvido por Luciana Aguiar e Vivianne Naigeborin, feito a partir de 50 negócios investigados em profundidade, há grande diversidade de negócios de impacto social e sua concentração está no Sudeste, com 50%. Já a partir da amostra de 40 desenvolvedores, ou seja, o grupo de incubadoras, aceleradoras e OSCs, nota-se que o maior surgimento deu-se após a implantação do Plano Real. Enquanto a região Sudeste concentra 35% das incubadoras e 79% das aceleradoras, o Norte apresenta baixa presença de desenvolvedores, embora seja a região onde estão concentradas as classes D e E. Apesar das discrepâncias nos dados, há iniciativas que revelam diálogos entre diferentes atores do ecossistema. Um exemplo deste dado é ANIP (Aceleradora de Negócios de Impacto da Periferia), uma parceria entre a produtora cultural social A Banca, a Artemisia e a Escola de Administração de Empresas de São da Fundação Getúlio Vargas (EAESP/FGV), aproximando periferia e empreendimentos da base da pirâmide, uma organização especializada em fomento em negócios de impacto e academia. Além da FGV, destacam-se ainda os trabalhos práticos da FEA Social USP, Habits Incubadora-Escola Usp leste e Incubadora Social da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) sobre inovação social e impacto em empreendedores de baixa renda.

Dj Bola em evento que anunciou os 10 selecionados do programa de aceleração da ANIP em 2019

Uma das redes mais importantes do ecossistema de impacto é o Sistema B, movimento global que fortalece as articulações entre empresas, pensando em lucros aliados a benefícios socioambientais, mobilizando também massa crítica aos negócios de impacto aliados à responsabilidade social. No Brasil, 160 empresas são certificadas B. “A rede acaba criando uma identidade, fortalecendo conceito e uma cultura. Esta última seria um jeito de pensar e de fazer negócios, causando impacto positivo”, conta Marcel Fukayama, fundador do Sistema B Brasil, que chegou ao país em 2014; o movimento originário nos Estados Unidos surgiu em 2006.

A posição do Sistema B acaba sendo estratégica dentro da formação do ecossistema. “Primeiro, porque constitui uma rede de empreendedores e empresários comprometidos com uma nova forma de fazer negócio e gerar impacto positivo. Segundo, porque a gente cria infraestrutura para uma mudança de cultura empresarial acontecer”, comenta Fukayama. Tal infraestrutura passa também por gestão de impacto e governança de impacto. “O Sistema B acaba criando uma infraestrutura, seja ela jurídica, seja ela empresarial e de mercado, para que empresários e investidores possam atuar juntos na construção dessa Nova Economia”, destaca o fundador do Sistema B.

Diálogos com o governo, em suas diferentes esferas, não ficam de fora da movimentação do ecossistema. A Estratégia Nacional de Investimento e Negócios de Impacto, o ENIMPACTO, trata de uma “Articulação de órgãos e entidades da administração pública federal, do setor privado e da sociedade civil com o objetivo de promover um ambiente favorável ao desenvolvimento de investimentos e negócios de impacto”, segundo a explicação oficial da página do Ministério da Economia, que atende também o antigo ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços. Criada em dezembro de 2017, a política, a partir dos diálogos de seu Comitê (formado por 25 membros/representantes), tem dez anos para implementar ações para articulações entre órgãos do governo e sociedade civil para a promoção do tema no Brasil. Trata da eliminação da zona cinzenta regulatória, como enfatizou Scretas.

As negociações entre os setores público e privado nem sempre são fáceis, contudo. “Em geral, o setor público é muito avesso à inovação, o que é agravado pelas regras de compras de bens e serviços, que travam os processos de aquisição e levam ao gestor, por conservadorismo, a adotar soluções consagradas, mas não necessariamente inovadoras”, explica Haroldo Torres, cofundador da Din4mo, empresa especializada em negócios de impacto social. Os trabalhos da Din4mo atingem empreendedores e investidores de impacto, através do desenvolvimento de instrumentos inovadores para o campo, a partir do equity crowdfunding ou de recursos às debentures de impacto.

Segundo Torres, os modelos público-privados costumam ser pensando para o setor de infraestrutura, como as estradas, raramente são construídas soluções para a área social.

“Este é um campo onde os negócios de impacto tem ainda muito a evoluir, mas depende de regulamentação inovadora e de uma nova compreensão por parte do setor público a respeito das possibilidades existente no campo de negócios de impacto”

Ainda para compor o ecossistema, há a cobertura midiática e suas premiações. Nomes como Folha de S.Paulo (FSP), Época Negócios, Projeto Draft, Notícias de Impacto, Aupa e coletivos de comunicação que integram a rede de jornalistas da periferia participam desta circulação, de modo que as coberturas potencializam resultados e discussões que ocorrem no ecossistema. O início da ponteAponte, que integra e promove alianças entre organizações da sociedade civil e negócios sociais, está bastante ligado ao Prêmio Empreendedor Social, da FSP – pois dois de seus sócios-fundadores trabalharam no jornal e na editoria do prêmio. “Toda iniciativa séria, sejam prêmios, desafios ou editais, que visa reconhecer o trabalho de impacto, não apenas de empreendedores sociais, mas de organizações da sociedade civil, ou mesmo de coletivos, movimentos ou pessoas físicas, tem um papel importante no ecossistema, atenta Vanessa Prata, sócia-fundadora da ponteAponte. A organização lançou em 2018 o Prêmio Jornalista de Impacto, que visa reconhecer o trabalho de jornalistas, de mídias tradicionais e alternativas, que disseminem temas ligados aos investimentos e negócios de impacto, bem como inovação e transformação social.

Todas organizações e movimentos referenciados fazem parte de um processo orgânico e heterogêneo para a formação constante do ecossistema de impacto; trata-se da ilustração de uma série de movimentos que dizem respeito ao início dos negócios de impacto social no Brasil. Desse modo, observa-se a efervescência na criação de empresas e instituições norteadoras no setor, assim como as bases conceituais e sua legislação.

É preciso lembrar, contudo, que tais ações fazem sentido à medida que a base da pirâmide social ganha espaço para agir, opinar, errar, empreender e transformar, assim como pretendem os demais agentes do ecossistema.


PARTE 3

A HISTÓRIA ACONTECENDO: MOVIMENTAÇÃO CONSTANTE

Dados alertam para a importância da constante movimentação e inovação dentro do ecossistema de impacto no Brasil, considerando os problemas socioeconômicos que o país enfrenta. Muitos desses problemas, como a fome, são considerados crônicos e, à medida que as desigualdades aumentam, os problemas nas camadas mais pobres da base da pirâmide social se agravam. Segundo o relatório do Índice de Pobreza Multidimensional Global 2019 (IPM), feito pelo PNUD e pela Oxford Poverty and Human Development Initiative (OPHI), cerca de 7,7 milhões de brasileiros (3,8% da população) encontram-se em condições de pobreza multidimensional. Esta é definida por medidas unidimensionais, que engloba várias privações vivenciadas cotidianamente por pessoas em situações de pobreza. Algumas dessas dimensões são: saúde, trabalho e educação precários, falta de empoderamento, ameaça de violência, más condições de habitação, de acesso a água e eletricidade. Ainda de acordo com o relatório e com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD), a saúde é a dimensão que mais contribui com a pobreza, com 49,8% do IPM – privações em saneamento básico (11,9%), escolaridade (19,8%) e elevada mortalidade infantil (49,8%).

Dado tal cenário somado ao próprio ecossistema de impacto, que busca, cada vez mais, expandir e consolidar negócios e propósitos positivos, o PNUD Brasil, em parceria com o setor privado, desenvolveu a Iniciativa Incluir. Trata-se da promoção de soluções empresariais que incluam pessoas de menor renda no seu modelo de negócio, de modo a reduzir a pobreza e apoiar o desenvolvimento mais inclusivo. Dos objetivos alcançados, a Iniciativa Incluir trouxe 54 soluções tecnológicas desenvolvidas de maneira comercialmente viável, alinhadas aos ODSs.

 

Segundo pesquisa da Global Entrepreneurship Monitor (GEM), o Brasil tem 52 milhões de donos de negócio próprio, tendo a maior taxa de empreendedorismo total entre os BRICs – 38%. De acordo com o último Mapa da Pipe.Social, hoje há 1002 negócios que, além do lucro, buscam também atender ao menos um dos ODSs. O Sebrae afirma que, dos brasileiros entre 18 e 64 anos, 36 a cada 100 tem negócio próprio, exerce atividade empresarial ou está no caminho desta atividade. Vale lembrar que, no segundo trimestre de 2019, o índice de desemprego registrado foi de 11,8%, em média, ou seja, cerca de 12,5 milhões de brasileiros, segundo o IBGE. Sem emprego formal e com barreiras econômicas, legais e burocráticas, empreender traz também reflexos dos nossos tempos. Afinal, é dono do próprio negócio o empresário que cujo negócio está com o capital aberto na bolsa e também donos de pequenos comércios e prestadores de serviços, como microempreendedores individuais (MEI) – e todos estes casos fazem parte do ecossistema empreendedor no Brasil e parte entra na história dos negócios de impacto, a partir das transformações locais, sobretudo socioambientais, e positivas. Por isso é importante também a leitura histórica de conceitos e práticas – a nomenclatura bate com a ação e vice-versa?

Frente as consequências das diferentes ondas políticas econômicas que ocorrem no Brasil e no mundo, ao longo das décadas, Fukayama explica que a Nova Economia é mais inclusiva e mais sustentável. “Ela é, sem dúvida, fundamental para posicionar os negócios e as empresas do setor privado como protagonistas na criação de soluções de mercado que resolvem problemas ambientais e sociais complexos”. O fundador do Sistema B enfatiza ainda que, de acordo com a ONU, a implementação dos ODSs tem uma projeção de custos de US$ 4 trilhões por ano. “É irreal pensar que somente o governo ou somente a sociedade civil, através da filantropia, serão suficientes para implementar essa agenda. Por isso a mobilização de capital privado e de soluções de mercado são fundamentais. Então, a gente está vendo uma nova onda, uma nova geração de negócios, de economia regenerativa, de economia circular, de economia colaborativa e de economia criativa, que estão criando soluções que resolvem e endereçam problemas sociais e ambientais complexos”.

Contudo, vale o questionamento se o domínio das pautas sobre o ecossistema de impacto não seria uma manutenção do status quo da elite econômica – advinda, sobretudo, do setor privado, obviamente. O escritor Anand Giridharadas, no best seller Winners take all – the elite charade of changing the world (Editora Allen Lane, 2019), contrapõe o discurso de que seria o setor privado quem resolverá os problemas socioambientais. Diante desta dúvida, ele traz à tona a importância do fortalecimento da esfera pública. Pensando no futuro do ecossistema: seriam, portanto, as ferramentas, as práticas e as visões que auxiliariam nas soluções de problemas como a desigualdade, as degradações e as migrações? Faz-se necessário um avanço mais complexo do que a doação abundante – e é essa também uma das provocações de Giridharadas: há de fato uma transformação partindo do topo da pirâmide social ou seria uma falsa filantropia moderna?

Ainda sobre o contexto atual que o ecossistema de impacto enfrenta, há o preocupante dado sobre os recursos naturais disponíveis para o ano. Segundo cálculo da pesquisa Global Footprint Network, no último 29 de julho foi registrado o Dia da Sobrecarga da Terra – o mais adiantado de todos desde que o registro passou a ser feito. Trata-se do esgotamento cada vez mais precoce dos recursos naturais disponíveis na Terra. Tal gasto desenfreado do capital natural está na pauta da ONU, por meio do programa de ações para o meio ambiente, como os ODSs e o Acordo de Paris, que visa reduzir o avanço do aquecimento global. E este cenário está ligado também ao modo como ocorre o crescimento econômico no mundo.

Sendo assim, é inevitável pensar como os setores nos quais os negócios sociais se distribuem afetam diretamente a vida das gerações futuras, tendo um impacto além do presente. Além do meio ambiente, áreas como educação, saúde, moradia, tecnologia, agricultura e pautas identitárias, como o respeito aos povos indígenas e à afrobrasilidade também transversalizam as principais propostas que envolvem negócios de impacto. Segundo o Mapa da Pipe.Social, negócios que envolvem tecnologia costumam ser mais escaláveis e acabam tendo preferência aos olhos dos investidores. Novos tempos.

Para projetar um cenário futuro, é inevitável que o ecossistema saiba lidar com contradições que marcam o processo de cada empresa e a busca por soluções socioambientais. Faz-se preciso também potencializar as diversas formas de ser um negócio de impacto ou mesmo uma organização intermediária. Acerca desta última, destaca-se, sobretudo, o crescimento dos negócios de impacto da periferia, as aceleradoras de ONGs, além da regionalização da pauta de impacto no Brasil, os olhares críticos e analíticos vindos da academia e também a cobertura feita por veículos independentes. Para esta avaliação, nada melhor que as palavras de Vivianne Naigeborin, superintendente da Fundação Arymax, com atuação de 12 anos como conselheira na Artemisia, que vivenciou de perto todas as transformações do setor de impacto social no Brasil desde o início dos anos 2000. Considerando presente e futuro, ela atenta que: “A busca por combinar impacto social e geração de receita, conceito que originou esse campo no Brasil, tinha e ainda tem, como visão de futuro, inspirar a criação de soluções genuinamente comprometidas com a criação de uma sociedade mais justa, inclusiva e sustentável”.

A curiosidade, portanto, é uma aliada. “Para chegarmos lá, temos que seguir questionando as premissas que regem os atuais modelos de negócio que conhecemos e propor inovações e melhorias contínuas até conquistarmos o impacto social que buscamos”, ressalta Naigeborin, que é realista reconhecendo que o caminho é longo, embora avanços significativos já tenham se revelado. “É igualmente importante criar os meios necessários para ampliar o espaço de participação de empreendedores da periferia como protagonistas de suas próprias soluções e seguir fortalecendo a atuação das organizações da sociedade civil, especialmente as que atuam nos territórios”, destaca.

“É na somatória de esforços destes atores que eu espero que se construam as bases do que está por vir”, conclui ela. Essa conta só pode fechar se a perspectiva considerar pluralidade, diversidade e riqueza também nos modos de fazer impacto, indo além daquilo que o “mercado de impacto” quer nos fazer acreditar.


* André Luís Patrício é ator, recentemente participou da Série da Rede Globo “Segunda Chamada” e atuou nos filmes, O dia de Jerusa, Ninjas, Os Doze Trabalhos e na minisérie Amor em 4 atos, entre outros.

Soluções e parcerias que vêm da territorialidade da ZO

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Atividade realizada durante o evento #ProtagonizAI

Fazer negócios na periferia é uma realidade latente e que vem da necessidade local. E na Zona Oeste paulistana não é diferente. São pequenos empreendimentos que aprenderam que na parceria é possível impactar positivamente o território. Partindo de alguns princípios notados na Economia Solidária, como a cooperação, a inclusão social, o comércio justo e o consumo solidário, microempreendedores da região têm gerado desenvolvimento, emprego e, sobretudo, mais qualidade de vida às suas famílias.

O caminho para conseguir as transformações socioambientais está baseado, principalmente, na vivência. Ninguém melhor do que o morador local para estabelecer parcerias, sustentabilidade e inovação social focando em problemas cotidianos que afetam a comunidade e o desenvolvimento do bairro. E, mais do que isso, o protagonismo e a criatividade estão justamente nos empreendedores que atuam e vivem nas periferias urbanas. Contudo, é preciso diálogo e atualização (educação) constantes para manter-se em pé – ou seja, para inovar e angariar recursos para que o negócio caminhe e tenha forças em suas pernas e possa, num futuro, até mesmo ser escalável. Veja mais sobre dores do crescimento nessa matéria.

Partindo deste contexto, destaca-se a Aventura de Construir, que é a única organização atuante na ZO com o objetivo de assessorar microempreendedores locais. Mas como isso ocorre? E por que investir na região?

Painel conta com Paulo Ribeiro (AdeSampa), Fabio Deboni (Instiuto Sabin), Silvia Caironi (Aventura de Construir), Aline Silva e Alvimar Silva (JaUbra)

SER PROTAGONISTA NO TERRITÓRIO

A Aventura de Construir é uma Organização da Sociedade Civil (OSC) voltada ao desenvolvimento territorial inclusivo e foi fundada em 2011, a partir do apoio da Fondazione Umano Progresso (FUP). Ancorada em pesquisa, a fundação detectou que havia uma concentração do dobro de microempreendimentos da Zona Oeste de São Paulo em relação à média brasileira. E, partir destes dados, notou-se um potencial para o desenvolvimento de negócios locais, devido aos novos bairros que surgiam. Este movimento está ligado também à atuação da Associação dos Trabalhadores Sem Terra de São Paulo (ATST/SP). Hoje, a Aventura de Construir funciona a partir de parcerias.

Se, a priori, o acesso ao microcrédito parecia a solução, logo a organização percebeu que era preciso um trabalho de capacitação e assessoria locais. “Ninguém fazia este trabalho na ZO. Nossa metodologia surgiu a partir da realidade local, a partir das necessidades do território”, explica Silvia Caironi, fundadora e presidente da Aventura de Construir. Em média, a organização assessora diretamente 40 microempreendedores por mês. Desde a fundação, foram realizadas 1685 assessorias e 253 capacitações, tendo 6.400 impactados diretamente e 32.000, indiretamente. Sua área de atuação está nos bairros de Perus, Pirituba, Jardim Canaã (Anhanguera), Sol Nascente (Anhanguera), Turística (Jaraguá) e Vila Aurora (Jaraguá), além da cidade de Cajamar. Você pode ver a localização geográfica desta região no Mapa Digital da Cidade de São Paulo.

Dentre as maiores dificuldades que os empreendedores assessorados pela Aventura de Construir enfrentam estão aquelas relacionadas com a divisão de finanças pessoais e dos negócios, a visão de futuro, o planejamento, a autoestima e a própria afirmação destes sujeitos enquanto empreendedores. “É perceptível a dificuldade em identificar-se como protagonistas de seu próprio negócio e também enquanto liderança local”, comenta Mayara Cabeleira, consultora de sustentabilidade institucional da OSC. Diante deste cenário, a organização realizou a expografia Identificam-se Protagonistas, em parceria com o fotógrafo Diego de Jesus, que pode ser conferida nas Estação do Metrô de SP (exposição itinerante – verificar roteiro nas estações).

A Aventura de Construir é a articuladora do #ProtagonizaAí, oportunidade onde empresários que atuam nas periferias da Zona Oeste paulistana, principalmente, são incentivados a desenvolverem seus trabalhos e o protagonismo em seus territórios. “Se tornando protagonista do empreendimento, a pessoa se torna também protagonista da própria vida”, afirma a fundadora da OSC, que ainda lança a indagação: “Como há recursos parados para negócios de impacto ao mesmo tempo que há necessidade, sobretudo, na periferia?”. Nem todos os empreendimentos assessorados pela organização são negócios de impacto formalmente definidos, porém muitos já buscam soluções socioambientais que beneficiem seu entorno. A criatividade a partir do encontro entre a periferia e os negócios de impacto, aliás, foi tema do webdocumentátio Perimpacto, exibido na ocasião.

Desde como fazer um pitch, a montagem de portfólio até a inscrição em editais e a termologia características do universo de impacto, repleta de termos do mundo da economia e anglo-saxônicos, o evento serviu como uma oportunidade aos 30 empreendedores para alavancarem seus negócios a partir de novas ideias e operações.

“Se eu gero emprego, eu já gero impacto positivo. Além disso, testar e validar ideias também são importantes”,

aconselha Cabeleira. Houve muita troca de cartões (o famoso networking) entre os empresários locais para parcerias, enquanto degustavam o buffet dos Mensageiros da Esperança (OSC parceira da Aventura de Construir) ou enquanto participavam das mesas de debate no formato World Café. Os temas eram planejamento futuro, parcerias e vendas, tendo como facilitadoras Caironi, Taynara Alves (consultora da área técnica de Desenvolvimento Econômico e Social, responsável pelas assessorias) e Raquel Santos (coordenadora da área técnica de Desenvolvimento Econômico e Social, responsável pelas capacitações), respectivamente.

O evento contou ainda com o diálogo de diferentes frentes para a articulação de empreendimentos, sobretudo, que se proponham ao impacto positivo socioambientalmente. Neste painel, Fábio Deboni, (Instituto Sabin), Paulo Roberto Ribeiro (AdeSampa) e Alvimar e Aline Silva (Jaubra). Deboni, em sua explanação, destacou que há diferentes tipos de negócios de impacto, a importância de sair da informalidade e também que é possível lucrar e ter impacto socioambiental. “O desafio é gerar impacto positivo e também fazer o empreendimento se manter em pé”, comentou o diretor executivo do Instituto Sabin que ainda ressaltou a importância de mensurar esse impacto e a busca por programas de aceleração para que os empreendedores possam aprimorar a gestão e ter acesso a investimentos.

Enquanto representante do Poder Público, pois a Agência São Paulo de Desenvolvimento (AdeSampa) foi criada por lei em 2013 e é um serviço social autônomo, Ribeiro destacou a importância da transparência e na criação de redes. “Sendo transparente, mais pessoas investirão na sua empresa”, comentou ele acerca da lógica da ADE SAMPA. A agência também dá um empurrãozinho com o VaiTec, que é um programa que ajuda pequenos negócios, a partir de um investimento semente. Para 2020, segundo a Prefeitura de São Paulo, a ADE SAMPA e a São Paulo Paulo Negócios (SP Negócios) serão extintas e integrarão a Agência Paulistana de Desenvolvimento e Investimentos, a SP Investe. Esta será vinculada à Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e Trabalho (SMDET).

O depoimento da família Silva, proprietária do Jaubra, aplicativo de mobilidade urbana, destacou a importância em alinhar a vivência e o conhecimento sobre o cotidiano na periferia, tecnologia e o direito à mobilidade. “A ideia para o aplicativo surgiu da necessidade de táxis dentro da Brasilândia – os aplicativos tradicionais não atendiam a região. Hoje, além de suprir a deficiência em mobilidade urbana, o Jaubra fomenta e faz o dinheiro circular na região, além de gerar empregos”, comenta Aline Silva. O Jaubra hoje conta com 400 motoristas, cerca de 20 mil clientes cadastrados e atende a outros bairros da periferia das zonas Oeste e Norte. Lemuel Simis Pilnik, cofundador da Firgun, também marcou presença apresentando a plataforma que permite o empréstimo entre pessoas físicas, aliando microcrédito e investimento social acessível.

 

O IMPACTO DO MINI MERCADO CARVALHO

O mini mercado Carvalho é um exemplo de empreendedorismo em periferias urbanas, com iniciativas que impactam positivamente seu território. O estabelecimento está localizado no Parque das Nações Unidas, no Jaraguá, no térreo da construção onde, no segundo pavimento, reside a família dona do mercado.

“A ideia do mercado surgiu quando nos mudamos para o bairro. Eu e meu marido trabalhávamos em empregos formais e percebemos que aos finais de semana não havia um comércio para vender refrigerante, água ou cervejas para os pedreiros ou donos de terrenos na região”,

explica Sabrina dos Santos Carvalho. Ao lado do marido, Maciel Manoel da Silva, que trabalha como promotor de vendas, ela começou a vender tais produtos e o negócio foi crescendo. O negócio não possui funcionários, sendo a equipe formada pelo casal e seu filho, o adolescente Isaac Carvalho da Silva, de 16 anos. O jovem auxilia a mãe depois que chega da escola. A partir do meio da tarde quem assume o comércio é o pai, após chegar de seu emprego formal. Antes de trabalhar à frente do mercado, Carvalho era professora de Ensino Fundamental I. O empreendimento conta com a assessoria da Aventura de Construir que, segundo Carvalho, os ajudou a organizar o caixa e deu ideias de equipamentos para adquirir. “O nosso negócio traz a comodidade de um comércio familiar onde tratamos os clientes pelo nome, com proximidade, pois conhecemos suas histórias. As famílias se reúnem para bater um papo ou mesmo comprar pão – antes isso só era possível depois de uma caminhada de 15 minutos”, explica a empreendedora sobre ganho de qualidade de vida para seus clientes.

 

Sabrina dos Santos Carvalho do Mini Mercado Carvalho

Um dos diferenciais do mini mercado Carvalho são as atitudes ecologicamente corretas que eles adotaram – que geram impacto socioambiental no próprio bairro. Por exemplo, eles juntaram a reciclagem com o impulsionamento de vendas de latas de cerveja e garrafas. Cada vez que os clientes devolvem este material, eles ganham um desconto. As latinhas para reciclagem são vendidas e as garrafas são negociadas com os fornecedores, que cedem descontos na compra de novos engradados. Ou seja, uma relação clara de ganha-ganha, afinal, todo mundo economiza, o dinheiro dos moradores é incentivado a circular no território, além de trazer benefícios aos serviços do próprio bairro.

E a formação de Carvalho contribuiu para que houvesse essa iniciativa para mudar o modo de pensar e as atitudes (o mindset) da comunidade. “Até por ser professora, eu sempre reciclei meu lixo. Então, por que não repassar isso à minha comunidade?”, explica ela. “Não o fiz pensando no lucro, mas, sim, no meio ambiente, embora a iniciativa tenha retornos lucrativos também”. E as atitudes vão além dos negócios: como a empreendedora é reconhecida em seu território pela preocupação com a reciclagem, a vizinhança, voluntariamente passou a levar outros materiais a ela, mesmo aqueles não relacionados com alguma promoção no mini mercado. Vale ressaltar que o caso do empreendimento da família Carvalho e Silva atende 3 dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável propostos pela Organização das Nações Unidas (ODS/ONU) para a agenda 2030.

 

 

 

ODS vinculadas ao projeto apoiado pela “Aventura de Construir” que  também participa do Pacto Global e também está alinhada à Agenda 2030

ODS 5. Alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas.

ODS 8. Promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, emprego pleno e produtivo e trabalho decente para todas e todos.

ODS 12. Assegurar padrões de produção e de consumo sustentáveis.


 

Veja aqui o Relatório Final sobre o evento #ProtagonizAí”

 

 

Cacique Raoni Metuktire: entre a política, a representação e os impactos

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Plenário da Câmara dos Deputados durante sessão solene em homenagem ao Dia do Índio, comemorado em 19 de Abril. Desde terça-feira (14), quando deram início ao Acampamento Terra Livre, as lideranças indígenas cumprem agenda no Parlamento onde apresentam suas reivindicações...Cacique Raoni Metuktire...Foto: Geraldo Magela/Agência Senado.
Plenário da Câmara dos Deputados durante sessão solene em homenagem ao povo indígena (Foto: Geraldo Magela/Agência Senado)

O cacique Raoni Metuktire – líder Caiapó e ativista ambiental – é um dos rostos que se destacam quando o assunto são as políticas e as ações acerca da proteção dos povos indígenas e da preservação da Amazônia. Não é por acaso: Metuktire é conhecido por tais pautas desde a década de 1960, dialoga com líderes políticos, ativistas e figuras da cultura pop globais, além de ser uma figura emblemática em busca da proteção das matas brasileiras nas últimas décadas.

Mas você pode se perguntar: por que Metuktire e sua articulação são importantes ao ecossistema de impacto? E a resposta talvez venha de provocações e defesas do objetivo maior do setor 2.5: soluções socioambientais. A constante busca por tais saídas converge diferentes atores, instituições e territorialidades rumo ao impacto que diz respeito às gerações atuais e futuras, bem como dilemas e tensões acerca do desenvolvimento e do lucro. Da demarcação do território indígena aos constrangimentos políticos e também advindos da devastação de biomas e matas, como recentemente as queimadas na Amazônia, são temas transversais ao setor 2.5.

A representatividade de Metuktire dá peso em sua fala – e nela estão intrínsecas suas origens e sua circulação social, que vai além de posições e articulações políticas em órgãos como a FUNAI ou mesmo com políticos brasileiros. E a vestimenta também entra no jogo político: seja com trajes tradicionais, informais ou de terno, Raoni sempre usa cocar e botoque. Este adereço é um adorno de madeira usado no lábio inferior, foi adotado por ele aos 15 anos e até hoje é uma das marcas registradas de sua figura política, pois revela traços de sua identidade. O líder Caiapó hoje tem, aproximadamente, 90 anos – não há dados precisos sobre sua data de nascimento.

O primeiro contato de Metuktire com homens brancos foi em 1954, ao se deparar com a expedição dos irmãos Villas-Boas. Na década de 1970, o cacique conheceu o cineasta belga Jean-Pierre Dutilleux, que produziria Raoni (1978), ao lado de Luiz Carlos Saldanha. O líder indígena foi protagonista neste documentário, com abordagens sobre a proteção das florestas e da cultura dos povos originários. A projeção global do cacique veio também a partir desta película, de modo a fazê-lo um símbolo da questão indígena e da preservação ambiental no Brasil.

 

O XINGU PELO O MUNDO

Em 1987, conheceu Sting, cantor e baixista britânico do grupo The Police, na visita do músico ao Xingu. Em 1989, fizeram juntos uma turnê por 17 países para levar questões como a demarcação de terras indígenas para além do Brasil. O Parque Indígena do Xingu (PIX), também conhecido por Território Indígena do Xingu (TIX), virou pauta global neste momento. Este território fica na região de transição entre Cerrado e Amazônia, tem cerca de 2,8 milhões de hectares. Hoje, segundo o Instituto Socioambiental [socioambiental.org/pt-br] (ISA), o Xingu vive com alguns desafios advindos da perda de 66% das florestas nos arredores, devido à monocultura e ao desmatamento. Este dado diz respeito aos últimos 30 anos e afeta diretamente a vida dos indígenas, sobretudo a disponibilidade de recursos naturais com o uso de agrotóxicos, o fogo, as pragas e a seca, além da construção de ferrovias e estradas. Com esta temática, acerca da Floresta Amazônia e do Xingu, Raoni publicou artigo no The Guardian, com a seguinte indagação:

“Você diz que é para desenvolvimento – mas que tipo de desenvolvimento tira a riqueza da floresta e a substitui por apenas um tipo de planta ou um tipo de animal? Onde os espíritos nos deram tudo o que precisávamos para uma vida feliz – toda a nossa comida, nossas casas, nossos remédios – agora só há soja ou gado. Para quem é esse desenvolvimento?”

O próprio contexto brasileiro permitia esta maior circulação do líder indígena e de pautas como a demarcação de territórios e a preservação do meio ambiente. O Estatuto do Índio, Lei 6.001, de 1973, diz respeito à proteção de indígenas, silvícolas e suas culturas. Após a reabertura política, foi feita a Constituição de 1988, considerada um marco na garantia de direitos pelos indígenas no país. Apesar da regulamentação e da proteção legal, não necessariamente todas as garantias ocorrem na prática. O que demandou, posteriormente, debates e implementações de políticas públicas.

Na Constituição, os direitos dos indígenas estão especificados no Art. 232, Título VIII da Ordem Social, Capítulo VIII dos Índios, que diz: “Os índios, suas comunidades e organizações são partes legítimas para ingressar em juízo em defesa de seus direitos e interesses, intervindo o Ministério Público em todos os atos do processo”. Na década seguinte, o Brasil foi ainda sede da Conferência Nacional das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e o Desenvolvimento, a ECO-92.

 

A CIRCULAÇÃO EM 2019

Dado tal contexto e circulação política, Raoni é considerado o embaixador internacional da luta pela preservação das florestas e dos povos amazônicos. Ainda hoje sua atuação política percorre o mundo. Só em 2019, ele se encontrou com o Papa Francisco e com Emmanuel Macron, presidente francês – ambos os encontros levaram como pauta a defesa da Amazônia. E a escolha de tais líderes não foi gratuita. Em outubro, a Igreja Católica realiza o Sínodo da Amazônia, que debate o desmatamento e a situação da população indígena. Em 2020, a França planeja sediar uma cúpula internacional de povos indígenas.

O cacique costuma enfrentar os políticos vigentes brasileiros. No encontro na Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que “Alguns países, chefes de Estado, pegaram Raoni, cooptaram Raoni”, indicando que o indígena seria uma peça de manobras políticas. Metuktire também teve inflexões com os governos Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, devido à construção da hidrelétrica de Belo Monte – localizada na bacia do Xingu.

O ativismo do cacique é atemporal e seu discurso ecoa além dos limites geográficos das sociedades não-indígenas. Resta saber o quanto os debates globais e os marcos regulatórios podem ir além de documentos e apertos de mão e podem ser ação efetivas que beneficiam a sociedade e, sobretudo, os povos originários e a biodiversidade.

 

Negócios, política e indígenas: qual o papel do setor 2.5?

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Mural do artista brasileiro Kobra em Portugal (wikimedia)

 

Aldeia isolada de índigenas na região do Acre (wikimedia)

Na fórmula do ecossistema de impacto, que equaciona lucros, propósitos e soluções socioambientais, quais são os espaços e estruturas que permitem o protagonismo indígena? A provocação demanda uma reflexão crítica acerca do olhar para o futuro na relação entre o ecossistema e a questão indígena, que diz respeito ao conjunto de direitos que as etnias têm. Nesta questão, estão implícitas as ações concretas que dizem respeito à preservação ambiental, à identidade, à cultura das diversas tribos e etnias e que também passa por educação escolar indígena e saúde. O cacique Raoni Metuktire, por exemplo, destaca-se quando o assunto é a circulação política de temas, como preservação de matas e demarcação de territórios indígenas. Ele é uma das principais vozes quando tais assuntos são manchetes no mundo – e, não à toa, houve quem acreditasse que ele seria laureado com o Nobel da Paz em 2019.

Mural do artista brasileiro Kobra em Portugal (wikimedia)

Há constantes negociações entre indígenas e não indígenas na disputa por espaços e poder – dos massacres desde a colonização até os atuais embates pela demarcação de territórios indígenas, pelo cuidado com as florestas e as tensões ao redor das pautas da Fundação Nacional do Índio (FUNAI). Tais disputas dizem respeito também às adaptações, às lógicas que controlam este poder, como o mercado e a cultura – lógicas também transversais quando tratamos de negócios com propósitos socioambientais. Desse modo, é possível que haja também valorações e impactos a favor das questões indígenas dentro de uma lógica dominada pelo mercado. O que culminaria, portanto, em impacto positivo ao indígena e sua comunidade – processo que diz respeito a questões como identidade, renda, resistência da ancestralidade indígena e proteção às florestas.

Nestas negociações, há, como exemplo, o caso de cinco indígenas Guaranis de São Paulo, que adquiriram ações da Rumo Logística (Rail3), para participarem do debate acerca das consequências da construção e da expansão da ferrovia Itirapina-Cubatão. A aquisição ocorreu em 2019. Em abril, o quinteto formado, por quatro homens e uma mulher, participou da Assembleia Geral Ordinária da Rumo S.A. Ser acionista de uma empresa garante o direito a participar de reuniões e assembleias específicas, uma vez que você se torna “sócio” dela, ao lado de outras milhares de pessoas e grupos. Desse modo, a aquisição das seis ações a R$17,00 cada é um gesto simbólico, cujo objetivo é conquistar espaço, sobretudo, de fala e negociação, dentro da lógica monetária da sociedade não-indígena, além de expor aos demais acionistas e denunciar os constrangimentos advindos do descumprimento de medidas ambientais e de respeito ao território indígena.

 

E O ECOSSISTEMA DE IMPACTO?

Segundo o 2º Mapa de Negócios de Impacto da Pipe.Social de 2019, apenas 1% dos fundadores de negócios de impacto são indígenas. Tal dado indica problemas tanto de representação quanto de práticas voltadas à busca de soluções socioambientais acerca da questão indígena.

Mesmo diante desta constatação, iniciativas que dialogam com a questão indígena existem. O Projeto Saúde e Alegria, que atua na região de Santarém, no Pará, é uma delas. A Fundação Amazônia Sustentável (FAS) é mais um exemplo. A FAZ é uma organização brasileira não governamental, sem fins lucrativos, criada pelo banco Bradesco em parceria com o Governo do Estado do Amazonas, em 2008. Posteriormente, contou com o apoio da Coca-Cola Brasil, do Fundo Amazônia e da Samsung, além de outros parceiros.

A iniciativa, aliás, é uma das três vencedoras do Prêmio UNESCO-Japão em Educação para o Desenvolvimento Sustentável (ESD) de 2019. O reconhecimento veio a partir das ações do projeto “Educação Relevante para o Desenvolvimento Sustentável em Comunidades Remotas da Amazônia”, no qual trouxe como resultados conservação ambiental, geração de renda a partir de florestas e qualidade de vida. A iniciativa da FAS é implementada em 581 comunidades, por intermédio de capacitação e empoderamento destas.

Houve ainda neste ano o Prêmio Soluções Inovadoras da Plataforma de Soluções da Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (SDSN-Amazônia). O reconhecimento, que destaca os países amazônicos, é dado às iniciativas que convergem os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU). Você pode localizar todas as soluções inovadoras, em mapa, aqui.

No levantamento da Pipe.Social, há ainda dados sobre negócios que utilizam tecnologias verdes, cuja concentração está em 58% no Sudeste, 14% no Sul, 12% no Norte, 10% no Nordeste e 6% no Centro Oeste. Este grupo diz respeito a todos os tipos de negócios que têm impacto ambiental, como resíduos, energia, água, poluição e reciclagem, conforme consta no mapa. Ou seja, projetos com soluções para preservação de flora e fauna, impactos em agricultura, análises de atmosfera e biotecnologia. Ainda: 45% das empresas relacionadas neste grupo não tem faturamento e 32% faturam até R$100.000,00 – 5% obtém um faturamento superior a R$2.100.000,00. Sobre a formação de time, 56% detém entre 2 e 5 pessoas na equipe e, em 76% dos negócios, há a utilização de freelancer como equipe.

Segundo o Censo Demográfico de 2010, há no Brasil cerca de 896.917 pessoas indígenas, sendo que 517.383 (57,68%) vivem em Terras Indígenas, enquanto 379.534 (42,13%) vivem fora destas terras. Acerca da condição indígena, dentro das Terras Indígenas, 438.429 se autodeclaram indígenas, ao passo que 78.954 não se declararam indígenas, mas se consideravam enquanto tal. O estado com maior concentração de indígenas é o Amazonas, com 183.514, já o menor é o Amapá, com 7.411. No Distrito Federal vivem 6.128 indígenas. Vale lembrar que a próxima edição do Censo Demográfico sai em 2020.

E fica a reflexão para pensarmos o futuro do ecossistema e da própria sociedade:

quais soluções socioambientais efetivas contemplam as comunidades indígenas, de fato?

 

Acesse os dados utilizados nesta reportagem:
2º Mapa de Negócios de Impacto da Pipe.Social: pipe.social/mapa2019
Estatuto do Índio – Lei Nº6.001, de 19 de dezembro de 1973: planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L6001.htm
Mapa Terras Indígenas do Brasil disponibilizado pela Funai: mapas2.funai.gov.br/portal_mapas/pdf/terra_indigena.pdf
Tabela 2.1 – Pessoas Indígenas, por sexo e localização de domicílio, segundo as Grandes Regiões e as Unidades da Federação – 2010. ibge.gov.br/estatísticas/sociais/educacao/9662-censo-demografico-2010.html?edicao=9677&t=resultados

Contradições do impacto

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Para alguns, negócios de impacto se resumem a empresas (CNPJ c/ fins lucrativos) com potencial de escala (e, claro, ‘impacto’).

Para outros, OSCs e cooperativas também deveriam estar neste rol desde que consigam parar de pé $ (minimizar doações recebidas).

Num passe de mágica esses 2 blocos são acelerados e acessam o maravilhoso mundo dos investidores.

Que lindo!

As narrativas se esquecem de incluir na história o trabalho ‘sujo’ dos intermediários em sua grande maioria OSCs que não param de pé $.

No mundo desenvolvido essa turma conta com suporte de governos, org. multilaterais e fundações (via fundos patrimoniais polpudos).

Por aqui as próprias fundações disputam $ com OSCs, lutam por seus orçamentos anuais, executam seus próprios projetos e sonham ser investidoras.

Na hora do convescote de ‘impacto’ as fundações são vistas como ‘a velha filantropia que não resolveu os problemas sociais’.

Na hora que o bicho pega elas são vistas como quem ajuda a pagar a conta (que o mercado não quer pagar) enquanto isso OSCs seguem mal das pernas e sendo detonadas pela atual caça às ONGs que ‘só atrapalham’.

Talvez isso explique o anseio de muitas delas em ‘resolver’ sua vida tornando-se um negócio de impacto.

Dúvida cruel identitária…

Viagem de impacto: uma semana de Alter do Chão a Porto Alegre

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Bem, não é exatamente do Oiapoque ao Chuí, mas ainda assim são mais de 3.000km em linha reta entre uma cidade, no interior do Pará, e outra, capital do Rio Grande do Sul. Numa mesma semana, visitei esses “extremos” do país com a mesma missão, mas em atividades diferentes.

Quando fundei a SITAWI Finanças do Bem, organização que mobiliza capital para impacto social e ambiental positivo, meu tempo era dividido entre captar recursos para emprestar para organização sociais e negócios de impacto e captar organizações sociais e negócios de impacto para emprestar recursos. Pois é, não tínhamos nenhum desses dois ativos-chave para efetivar nossa proposta, mas tínhamos uma ideia.

Naquela época, me diziam que para isso dar certo, dependia mais de milagre do que de método.

Passa o vídeo 11 anos para frente e, hoje, meu dia a dia tem mais a ver com governança, imaginar novos produtos/atuações e tentar tangibilizar os valores que nos movem. Isso só é possível porque temos um número crescente de parceiros e apoiadores e uma equipe que evolui e amadurece constantemente. Ainda sou necessário para fechar algumas transações (o que me faz sentir útil) e no direcionamento geral da organização, mas estou constantemente procurando o espaço onde “sirvo” melhor à missão. 

Essa semana de caixeiro viajante aproximou dois pontos do arco da história da SITAWI: numa sexta-feira ajudava empreendedores da Amazônia a entender e (re)pensar seus demonstrativos financeiros e suas necessidades de capital; na outra, me reunia com fintech e banco parceiros para fortalecer nossa nova forma de mobilizar recursos para cooperativas, organizações e negócios de impacto socioambiental. Obviamente, em ambos os casos, contava com gente super competente da SITAWI para fazer acontecer.

Algumas coisas que todos sabemos ficaram mais evidentes nessa semana: (a) o Brasil é grande para chuchu; (b) sem equipe a coisa não anda; (c) há um delicado balanço ao exercer a liderança entre resolver os problemas e dar (ou tomar) espaço aos (ou dos) demais e (d) isso tudo vale ainda mais a pena porque há um propósito maior ao final do processo – como uma senhora no sertão da Bahia que vai fazer geleias de frutas locais de agricultura familiar, uma comunidade de extrativistas de borracha na Amazônia ou um empreendedor que ensina “robótica-com-cidadania” para crianças.

Semanas como essa trazem um misto de magia e humildade: por um lado, me conecto com pessoas fantásticas, me maravilhando com seus saberes e fazeres; por outro, acordo feliz para o trabalho na segunda de manhã – mesmo que o “conteúdo” do trabalho tenha mudado nesse período. 

Trabalho para fazer jus aos apoios que recebo, à confiança que me depositam e aos privilégios que acumulo.

Edital colaborativo nasce a partir das periferias

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Vista aérea do Parque Guarani, em Itaquera, periferia da Zona Leste de São Paulo

 

Vista aérea do Parque Guarani, em Itaquera, periferia da Zona Leste de São Paulo

O que é periferia para você? A indagação vai além da territorialidade do termo e da própria noção geográfica que possa ter. Não necessariamente as periferias estão nas bordas de uma cidade, elas podem também conviver com o centro. Segundo pesquisa DataFolha de 2016, mais da metade dos paulistanos afirmam morar na periferia, por exemplo.

Segundo o relatório “Investindo no Desenvolvimento: um plano prático para alcançar os objetivos de desenvolvimento do milênio”, divulgado pela Organização das Nações Unidas em 2005, o Brasil tem cerca de 600 municípios nos chamados bolsões da miséria. Nos 13 bolsões brasileiros localizados no estudo, cerca de 26 milhões de brasileiros estariam em condições de extrema miséria, de acordo com o IDH – Índice de Desenvolvimento Humano

Partindo desse leque de leituras, pensar a cidade é também pensar o desenvolvimento do mundo, além de ser uma responsabilidade da sociedade por um todo. As periferias urbanas fazem parte desse espaço e cada vez mais têm se tornado protagonistas no ecossistema de impacto. A criatividade do empreendedor periférico é aliada na busca pela resolução e superação de problemas de seu cotidiano e do território. Um conhecimento prático que implica também em sobreviver.

“A periferia é um problema de todos e pensar as cidades, seja no curto ou no médio e longo prazos, trata-se da grande questão do século 21”,

 

Maria Alice Setubal, Presidente do Conselho da Fundação Tide Setubal.

 

Com olhos para estes empreendimentos de forte potencial de impacto socioambiental em territórios periféricos, a Fundação Tide Setubal lança em outubro o matchfunding Enfrente, a partir da plataforma da Benfeitoria. Na iniciativa, a cada R$1,00 que a sociedade civil colaborar, a fundação investirá R$2,00 – ou seja, o valor triplica. As inscrições dos projetos começam a partir do dia 17 de outubro. Os contemplados receberão consultoria especial da Benfeitoria e mais R$2.000,00 para “Preparar uma campanha de arrecadação para mobilizar ao menos R$10.000,00 do coletivo”, segundo o site.

No modelo matchfunding, o edital é colaborativo, o curador final é o público, além de legitimar a causa e dar valor. “O foco sai da carência e vai para a potência”, explica Tatiana Leite, fundadora da Benfeitoria.

Iniciativas assim são ideias para quem tem um projeto promissor e precisa de um primeiro empurrão para desenvolver sua atividade e, quem sabe, até pensar em escalar o negócio. Oportunidades para gerar impacto socioambiental e, sobretudo, melhorar a qualidade de vida da população periférica.

 

Por uma antropofagia dos negócios de impacto no Brasil

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(reprodução)

 

A obra Abaporu de Tarsila do Amaral foi referência no movimento tropicalista brasileiro e fez parte do manifesto antropofágico liderado pelos modernistas.

“Seja marginal, seja herói.” Esta foi a inscrição de uma das obras que fez Hélio Oiticica (1937-80) ficar conhecido no mundo. Junto com ele, o Tropicalismo, movimento de vanguarda expresso na música, nas artes plásticas, no cinema e no teatro no fim da década de 1960. O Tropicalismo misturou manifestações tradicionais da cultura brasileira com inovações trazidas por correntes artísticas internacionais. Foi com certo orgulho que visitei, recentemente, a instalação Tropicalismo, no Tate Modern, aqui em Londres. E me vi perguntando: “O que mais precisamos tropicalizar no Brasil? E no campo dos negócios de impacto social?”.

Tropicalizar significava, no ideário dos vanguardistas, apropriar-se da cultura das grandes potências mundiais (Europa e Estados Unidos) e recriá-la a partir das referências da cultura brasileira. O Tropicalismo foi, antes de tudo, um movimento de reafirmação da nossa identidade cultural: diversa, inovadora e marginal. Tropicalizar o campo dos negócios de impacto social representaria, portanto, o mesmo movimento.

Inspirar-se no conhecimento aportado por ecossistemas que são referências no mundo para construir nossa própria identidade empreendedora.

É certo que os empreendedores sociais brasileiros têm se destacado no mundo. Poderia citar aqui uma dezena deles, como o Programa Vivenda, voltado para habitação, cujo modelo de investimento baseado na primeira debênture brasileira de impacto social foi premiado pela ONU-Habitat no ano passado. Ou ainda o Programa Origens Brasil®, criado pelo Imaflora e Instituto Socioambiental (ISA), que tem estimulado negócios mais éticos e transparentes com produtos da sociobiodiversidade, que, há poucas semanas, recebeu o Prêmio Internacional de Inovação para a Alimentação e Agricultura Sustentáveis da ONU.

Celebremos os bons exemplos que nos colocam na dianteira do mundo. No entanto, ainda é válida uma atenção especial a outras nuances trazidas no conceito de tropicalizar.

O Tropicalismo foi um movimento que trouxe um olhar para “dentro” da cultura brasileira e uma projeção “para fora”, na tentativa de ressignificar nossas trocas com o mundo. Aqui vale um olhar atento na forma como nos relacionamos com o que vem de fora. Inevitável não pensar em nosso vocabulário impregnado de termos importados do Vale do Silício, nas metodologias usadas para acelerar negócios e na maneira com que temos estimulado investidores.

Não estamos negando ou desvalorizando as boas referências mundiais. Talvez Oswald de Andrade (1890-1954) tenha algo a nos dizer com a célebre frase com a qual inaugurou o Manifesto Antropofágico (1928): “Só a antropofagia nos une”. Sua proposta era “ingerir” a cultura estrangeira para recriar uma arte tipicamente brasileira. Os tropicalistas foram além e incorporam tendências da cultura pop, referências clássicas e populares estrangeiras, num caldo cultural que representou um dos mais reconhecidos movimentos artísticos brasileiros.

Nesse sentido, tropicalizar é também descolonizar. Redesenhar a relação colonizadores X colonizados com as quais, muitas vezes, lidamos com o que vem de fora (conceitos, investimentos, inovações). Pode representar ainda uma mudança na forma como colocamos nossas ideias no mundo. Aqui vale uma menção sobre a ainda incipiente participação brasileira nas publicações acadêmicas internacionais sobre empreendedorismo social, especialmente na Europa.

Tropicalizar refere-se ainda à valorização da nossa diversidade. Reconhecer a emergência de novos atores e novas vozes.

Estamos falando do empreendedorismo praticado pelas comunidades extrativistas na Amazônia, dos empreendimentos da economia solidária que marcam considerável presença no Nordeste, dos negócios de impacto que emergem nas periferias, do afroempreendedorismo de impacto social. Falamos ainda de outros territórios, ou seja, da inventividade empreendedora que supera os limites do eixo Rio-São Paulo, centro e periferia.

É sobretudo no jeito de fazer onde temos o potencial de promover uma profunda transformação. Isso nos remete à esperança de que o campo dos negócios de impacto social, inspirado na inovação proposta pelo tropicalismo, busque novos jeitos de resolver nossos desafios sociais. Muitos de nossos problemas não têm sequer precedentes em nenhum país do mundo, como, por exemplo, o desafio de desenvolver uma economia da floresta em pé com as dimensões amazônicas, ou questões fundiárias urbanas e rurais relacionadas ao nosso passado colonial e escravocrata.

Para finalizar, resgato uma passagem do filósofo francês Edgar Morin que diz: “Toda evolução é fruto de um desvio bem-sucedido cujo desenvolvimento transforma o sistema onde nasceu”. Que sejamos desviantes e inovadores à altura de nossos desafios. Marginais e heróis, com lugar cativo no Tate Modern ou em qualquer outro grande centro de empreendedorismo social do mundo.

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