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Não há impacto social sem equidade racial

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No dia 20 de abril, a Revista Brasileira de Avaliação (RBAVAL) realizou um painel de lançamento de sua 10ª edição, marcando o retorno da publicação após cinco anos sem novas edições – a última foi em 2015. O título do painel apresenta o que move o encontro: “Por um campo mais diverso, por avaliações mais plurais”. Na ocasião, fui convidada para falar sobre marcadores raciais e avaliações culturalmente responsivas, buscando reforçar a importância de conduzirmos processos avaliativos que considerem a raça como categoria analítica, a fim de produzir entendimentos sobre a capacidade das iniciativas implementadas pelas organizações, nos mais diversos territórios, em responder às necessidades e realidades experienciadas por mulheres e homens negros.

A necessidade, que parece óbvia se considerarmos a realidade brasileira que é intensamente informada pela racialidade, ainda é um tabu no campo avaliativo – mais precisamente, no ecossistema de impacto social. Se, por um lado, o termo antirracismo tem ganhado projeção na mesma proporção em que a violência contra corpos e mentes negras cresce – ou, melhor dizendo, é mais percebida -, por outro, temos ainda um longo caminho para efetivar uma prática antirracista.

Não há antirracismo sem práxis.

No campo da avaliação, que é minha expertise, os desafios se exprimem em muitas dimensões e destaco aqui três delas: metodológica, analítica e humana. Traço breves leituras sobre as duas últimas – pois, a primeira é mais exigente de caracteres.

Considerando a dimensão analítica, podemos afirmar que há ainda avaliações conduzidas sem considerar a raça como categoria de análise e este foi,justamente, o ponto por mim abordado no painel acima citado. Infelizmente, não temos estudos sobre este tema, posto que as avaliações conduzidas no campo do impacto social ainda são pouco divulgadas; portanto, lanço mão aqui de minha própria experiência e conhecimento como fonte. Analisando a dimensão humana, percebemos que ela se expressa pela ausência de pessoas negras atuando como avaliadoras. Vale destacar que esta é uma problemática que atinge quase a totalidade de profissões e, no campo do impacto social não seria diferente. Ainda que, mais recentemente, as organizações tenham buscado ampliar seus quadros, a partir da adoção de processos seletivos via ações afirmativas, o desafio ainda é imenso.

Destaco que esta realidade pouco equitativa, por assim dizer, do campo avaliativo não é uma particularidade brasileira. Um estudo de 2017, conduzido pela ¡Milwaukee Evaluation!  (organização afiliada à American Evaluation Association – AEA), a respeito da utilização da abordagem de avaliadoras/es que se declaravam filiados à proposta de Avaliação Culturalmente Responsiva (CRE)[1] na região, apontou algumas descobertas, das quais destaco duas:

  1. As avaliações são conduzidas com pouca contribuição, participação e liderança das pessoas mais impactadas pelos programas e/ou políticas. Destacando que grande parte do time de avaliação é composta por pessoas brancas, o que revela a existência de vieses de contratação pelas organizações que conduzem estes processos.
  2. Financiadores dos processos avaliativos foram identificados como parte da resistência para a adoção de metodologias avaliativas que visem a justiça social, dentre elas a avaliação culturalmente responsiva, a feminista, a indígena, dentre outras.

Os achados da pesquisa de Wisconsin trazem à tona descobertas que revelam certa proximidade com a realidade brasileira na medida em que pontuam pouca diversidade metodológica e de pessoas no campo avaliativo. A despeito de termos ou não uma pesquisa próxima a essa no Brasil, fica o convite para que alguém traga uma realidade diferente da apontada no estudo norte-americano.

Estes pontos nos colocam em urgência para revermos os parâmetros de atuação do campo e, em resposta a essa problemática, há um movimento recente, criado por pesquisadoras(es) negras(os) que atuam em interface com o campo da avaliação, no qual me incluo, que tem como intenção provocar o cenário neste sentido, o Lente Preta: Avaliação e Equidade Racial.

Fecho esta breve reflexão com algumas perguntas em um convite para aprofundarmos este debate:

  1. Quem está autorizado a formular as perguntas que nortearão os processos avaliativos? 
  2. Onde grupos empenhados em construir soluções sociais podem chegar entre iguais?

E, por fim, uma pergunta que precisa ser gasta, feita e refeita tanto pelas equipes das organizações quanto pelos times de avaliação:

Podemos falar em impacto social quando não consideramos as desigualdades estruturais e, em especial, a desigualdade racial?

[1]A avaliação culturalmente responsiva centra nos valores e crenças culturais para conduzir avaliações de programas e/ou políticas. Ela apresenta um foco particular em grupos que foram historicamente marginalizados, perguntando como o poder é distribuído, quais relações são valorizadas e quais são privilegiadas em uma avaliação (Hood, Hopson, &Kirkhart, 2015). Tradução da autora que assina esta coluna.

Este artigo é uma reflexão de Walquíria Tiburcio .

Walquíria Tiburcio. Move Social. Créditos: Divulgação.

Walquíria Tiburcio iniciou sua trajetória na Move Social em 2014 e sua experiência profissional foi construída em torno de trabalhos envolvendo educação e questões de equidade racial e de gênero. Atua em avaliação de projetos e planejamento estratégico e lidera a imersão da empresa em estudos sobre equidade racial. Na área social, colaborou com diversas organizações, incluindo o Instituto Saci, do qual foi presidente de 2012 a 2016. É bacharel em Gestão de Políticas Públicas e especialista em Estudos Brasileiros pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. É mãe de Dandara e pagodeira de carteirinha. Entre seus desafios pessoais está a formação de avaliadoras(es) antirracistas. É fundadora do movimento Lente Preta – Avaliação e Equidade Racial.

Este texto é de responsabilidade da autora e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa.

Silvia Caironi: “A maior preocupação não é a formalização, mas ter o mínimo para chegar ao fim do mês”

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Com trajetória de 10 anos, a Aventura de Construir é um negócio social que capacita e acompanha o trabalho de microempreendedores das periferias de São Paulo. Até 2019, a organização já havia impactado indiretamente mais de 32.500 pessoas, segundo dados do relatório de atividades 2019. Mas como estão estes empreendimentos um ano após a pandemia? Como apoiá-los? 

Vale dizer que o Brasil atingiu a marca de 14,4 milhões de desempregados no primeiro trimestre de 2021, de acordo com pesquisa do IBGE. Neste cenário, muitos buscam pelo empreendedorismo. Foram 2,6 milhões de microempreendedores individuais (MEI) abertos em 2020 – um aumento de 8,4% em relação a 2019, segundo dados do Mapa de Empresas. Durante a crise advinda pelo novo coronavírus, 58,9% empreendedores interromperam o funcionamento temporariamente, afirma pesquisa realizada pelo Sebrae no início da pandemia. 

Todo este cenário fez com que a Aventura de Construir mudasse a forma de operação. Em 2020, o negócio social passou do presencial para o on-line. Antes eles trabalhavam, sobretudo, na periferia da Zona Oeste de São Paulo, e agora estão trabalhando em todo o Brasil. 

Para saber mais sobre a  atuação da organização em meio à pandemia e tendo as mudanças diante do trabalho como tema principal, a Aupa entrevista Silvia Caironi, coordenadora geral da Aventura de Construir, e Raquel Santos, responsável pela área técnica de desenvolvimento Econômico e Social da ONG, sobre os desafios de quem mora na periferia, o empreendedorismo como fonte de renda, o aumento da informalidade e a queda de renda do trabalhador.

AUPA – O empreendedorismo nasce com a falta de trabalho. Mas qual é o maior desafio desses trabalhadores? 
Silvia Caironi – A perda de trabalho tem várias declinações. Por exemplo, mulheres com filhos pequenos foram as mais afetadas pela pandemia. Nesse sentido, podem ser grandes empresas que fecham e não se preocupam com a recolocação dos próprios. Por exemplo, o banco Bradesco demitiu mais de sete mil pessoas em 2020. Porém, há várias empresas nessa mesma situação. Aliado a isso, há um embate político, como o caso das montadoras de carros. Muitas montadoras estão saindo do Brasil. Não há uma política de incentivos.  

Com isso, vemos que há aspectos que são da pandemia e a tecnologia está entrando com força. Mas há também uma miopia política. É isso que eu enxergo a respeito das causas da perda de trabalho. E quais são as pessoas desempregadas? São indivíduos de qualquer categoria. Pessoas que têm alto e  baixo nível educacional. Então, os desafios desses trabalhadores dependem também dos níveis educacionais que detém. 

Na Aventura de Construir, trabalhamos com pessoas de baixa renda e baixo nível educacional. Percebemos que o maior desafio é a sustentabilidade desses microempreendedores.  Eles podem ser empoderados e precisam de formação, mas não podem parar, pois precisam gerar renda para as próprias famílias.

Raquel Santos – Além da perda de trabalho, é necessário observar como isso afeta a família. Por exemplo, uma pessoa casada perde o emprego. O cônjuge também começa a se movimentar. Pode ser que, até então, o parceiro ou, sobretudo, a parceira trabalhava com os afazeres de casa, o que já é árduo. Mas este cônjuge começa a querer ser um pequeno empreendedor para gerar renda.

Nós trabalhamos também com a autoestima e com a valorização de pequenos passos. Obviamente, não há como dizer que está tudo bem para o empreendedor que está começando o negócio, senão quebramos a sustentabilidade financeira dos empreendimentos. Mas é preciso valorizar.

Geralmente, quando começo uma capacitação, coloco o significado das palavras empreender e empreendedorismo. E um desses significados aparece no dicionário como travessia arriscada. Comento que empreender tem desafios e riscos. E é um desafio muito grande as pessoas se enxergarem como empreendedoras e recuperarem a autoestima – sobretudo quem está desempregado. Há ainda a infraestrutura. Muitos comentam que todo mundo pode virar empreendedor. E você vai perguntar para as pessoas como se faz isso e as pessoas não sabem. Estamos em um projeto que se chama Lamberti Transforma – financiado pela Lamberti, empresa do setor químico, de Nova Odessa (SP). O projeto é voltado àquela região, com foco nas mulheres. Você pergunta ao empreendedor “quantos clientes você tem?”, e a pessoa não sabe responder. E para nós, que estamos de fora e temos um olhar mais geral, se você disser que a pessoa está fazendo errado, você a destrói.

O nosso método de construir é despertar o interesse da pessoa. Ou seja, despertar o interesse para que ela identifique quais são as necessidades. Não adianta eu dizer para o empreendedor que ele precisa ter um cadastro de cliente, se isso não faz sentido pra ele.  Esse é um desafio do nosso trabalho. 

A pessoa já tem uma dificuldade de fazer um orçamento doméstico, então é claro que terá dificuldade de fazer um fluxo de caixa de um empreendimento.

Costumamos pensar em degraus. Por exemplo, há um empreendedor, que é informal e ainda não é MEI. Eu vejo isso na primeira assessoria que fazemos na Aventura de Construir. Tenho que pensar se vale a pena sugerir que a pessoa ‘vire MEI’. Preciso pensar no planejamento dele e quais são as suas prioridades. Por isso, em toda a assessoria, passamos algumas pequenas metas e que sejam possíveis de serem realizadas.

AUPA – Temos um alto número de informalidade, são 34 milhões de trabalhadores nessa situação – de acordo com o IBGE. O que isso representa para o universo do empreendedorismo e como afeta os projetos que a Aventura Construir desenvolve?
Raquel Santos – O número de informais aumentou com a pandemia. Mas, dentro do nosso universo, já trabalhávamos com várias pessoas que eram informais. O objetivo do nosso trabalho não é falar mecanicamente que essas pessoas precisam se formalizar.

Contudo, todos os cursos e as assessorias que fazemos envolvem uma capacitação sobre os direitos e deveres do MEI. E, nesse movimento, mostramos o que faz sentido e que essa pessoa pode dar um passo para a formalização. Expomos quais são as ferramentas usadas e que poderiam despertar o interesse para fazer com que a pessoa veja que o MEI é uma necessidade concreta. Ao aderir à formalização, você terá direitos e deveres, além de  pagar imposto.  Colocamos isso de uma forma que faça sentido para essas pessoas – e este movimento está ligado à valorização. Ainda: há também alguns empreendedores que estão começando e não é possível saber se o negócio vingará. Portanto, é necessário um olhar crítico. 

Silvia Caironi – Um fator que levamos em conta no nosso processo de formação é o apoio à formalização. Em 2020, tínhamos desenhado um projeto que apostava na formalização. Mas decidimos, junto com o financiador, mudar e focar no tema da sustentabilidade. Em um momento como o que vivemos, com a pandemia, acredito que seja quase estrutural o aumento da informalidade. A preocupação maior não é a formalização, mas ter o mínimo de dinheiro para chegar ao fim do mês.

Muda muito se o olhar é voltado ao micro ou ao macro. Quando a ênfase é no micro, há incentivos. Mas ao considerar também o macro, é preciso entender que no momento que vivemos há ainda outras prioridades.

AUPA – Com a taxa média anual de desemprego no Brasil  de 13,5% em 2020, a maior já registrada desde o início da série histórica em 2012, como a Aventura de Construir vê as perspectivas para os empreendedores nas periferias nos próximos anos?
Silvia Caironi – Estou preocupada, pois o microempreendedorismo de periferia pode seguir existindo se houver um mínimo de poder aquisitivo no território. Contudo, o poder aquisitivo no território diminuiu muito. Já há pesquisas que comprovam que a classe média brasileira encolheu ao menor patamar em mais de 10 anos, em relação ao total da população. A classe média no Brasil também vive nas periferias. Então, se o poder aquisitivo diminui é complicado, porque o microempreendedor também não consegue gerar economia de escala – o que se consegue gerar em um grande mercado, por exemplo.

Então, há um problema de economia de escala, pois é um desafio de poder aquisitivo no território. Por que coloquei os dois temas juntos? Porque se o poder aquisitivo diminuir, deveria haver esforços para que os preços não subam muito. E este é o tema da economia de escala. Vale dizer, o microempreendedor de periferia não é economia de escala.

Se diminuir o poder aquisitivo, um consumidor comprará muitas vezes no grande mercado – e na quantidade que pode comprar.  Ao mesmo tempo, enxergamos que não há muita possibilidade de desenvolver os territórios periféricos, senão tentando fortalecer aqueles que são os microempreendedores. Não há fórmula. E o que nós tentamos fazer? Pensar junto com eles negócios novos e criativos – ou seja, trabalhar juntos. 

Nesse sentido, fazemos um trabalho muito profundo de fortalecimento da rede de microempreendedores. É uma rede que não é necessariamente física, é também virtual, com  diferentes lugares do Brasil se apoiando.

Raquel Santos – É fundamental o fortalecimento do comércio local. Muitos empreendedores periféricos relatam situações como: “Meu vizinho compra um produto no centro e não aqui [na periferia], pois não confia na qualidade do meu trabalho”. Toda vez que os empreendedores relatam algo assim, eu pergunto para eles: “E vocês compram onde?”. Então, mais uma vez trabalhando com esse exercício de devolver a pergunta. Porque sem esse fortalecimento de rede não é possível fortalecer a economia do seu bairro e nem difundir a qualidade do seu trabalho. Então, prestigie o comércio local, compre dos pequenos.

AUPA – Gostariam de acrescentar mais algum comentário?
Silvia Caironi – Eu entendo que o momento é de muitos desafios, para trabalhadores formais e informais. Ao mesmo tempo, exige que as instituições cresçam, mas não em quantidade. Só que crescer não é só no sentido de ter mais benefícios e mais projetos. É, principalmente, não perder a origem e a missão pela qual se luta.

E, dentro desse contexto, é importante também entender como a experiência do Terceiro Setor pode ajudar as empresas, a partir da articulação e da coordenação, que, muitas vezes, as empresas não têm. 

Maria Fernanda Thomé: “Costumo dizer que a pandemia é uma só, mas o sofrimento é individualizado”

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Desde março de 2020, incorporamos em nossa rotina medidas securitárias contra o Coronavírus, como higienização constante das mãos, uso de máscaras, distanciamentos e isolamento social (estes dois últimos, sobretudo, os que o trabalho permite). Mesmo assim, vivemos o agravamento da pandemia e seu estado mais crítico no Brasil até, onde temos mais de 400 mil vítimas letais, mesmo com recomendações de especialistas e órgãos de Saúde. E, neste contexto, estamos também imersos em outra crise latente, derivada dos impactos da pandemia na saúde mental.

Tais consequências parecem nos atingir como um efeito dominó: cada habitante do planeta sente essa crise de uma forma única, atravessados por recortes socioeconômicos. Vale dizer: embora existam as recomendações de instituições, como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e os diversos centros de pesquisa espalhados pelo globo, com trabalho voltado ao estudo e ao combate da Covid-19, os países têm autonomia sobre a condução da crise – considerando estruturas políticas, econômicas, culturais e de Saúde. E, nesta relação, a saúde mental não pode ser ignorada.

Para abordar este tema, a psicóloga Maria Fernanda Thomé compartilha sua experiência no atendimento de pacientes durante a pandemia e como, a partir de sua atuação, enxerga um potencial futuro.  

AUPA – Após um ano de isolamento social, quais são os impactos da pandemia na saúde mental?
Maria Fernanda Thomé – De forma geral, o aumento do número de pessoas com ansiedade foi o fator mais evidente. Pessoas que já sofriam com o transtorno, tiveram os sintomas agravados e outras desenvolveram durante esse período. A depressão também apareceu junto à impossibilidade de encontrar familiares e de se sentir seguro, ou seja, trouxe uma sensação de impotência em relação ao que se espera no presente e futuro. Individualmente, apareceram questões diversas, pois, os relacionamentos foram severamente afetados, pais e mães foram sobrecarregados para conciliar a rotina de trabalho, casa e filhos, por exemplo. Outros, que moram sozinhos sentiram falta do contato com outros familiares e amigos e também a preocupação com pais idosos. Isso reflete em forma de exaustão, insônia, fadiga, aumento do apetite ou a falta dele e maior tensão muscular. Ou seja, o famoso estresse, que já conhecemos no dia a dia.

AUPA – Quais são as principais questões que afetam a saúde mental? E quais são as dicas para o equilíbrio?
Maria Fernanda Thomé – O medo do futuro, o medo de contrair a doença e a preocupação com familiares são os principais pontos que afetam a população geralmente. A dica é cuidar do corpo e da mente. Do corpo, cabem exercícios físicos adaptados para a realidade de cada um, mas com constância. Para a mente, é importante escolher momentos para se informar e evitar ler conteúdos sensacionalistas. É preciso se informar, mas perceber que, antes de dormir, vale mais algo que relaxe e desconecte do resto do mundo, como filmes, séries, boas músicas e leituras leves. Entender as emoções e conversar com pessoas de sua confiança. Manter a rede social, mesmo que à distância. Dar boas risadas, sentir que há com quem contar. É importante buscar alternativas aos problemas que estão sendo enfrentados e flexibilizar, entender que é preciso trazer algumas soluções que atendam em curto prazo e que podem ser revistas de tempos em tempos.

AUPA – Como você vê os efeitos da pandemia aos que enfrentam situações como o desemprego e o luto, além de obstáculos na Saúde e na Educação?
Maria Fernanda Thomé – Costumo dizer que a pandemia é uma só, mas o sofrimento é individualizado. Cada família, cada casa e cada um está enfrentando de uma maneira. Para alguns, o desemprego bateu logo nos primeiros momentos, fruto do corte nas empresas. Buscar emprego requer estratégia, organização e acionar a rede de contatos. Em tempos de crise, é preciso se adaptar e rever qual será o caminho, por exemplo, alguns só precisam de uma nova oportunidade, enquanto outros devem melhorar sua qualificação e se atualizar. É preciso pensar caso a caso, se existe tempo, se o financeiro aguenta por um tempo, ou se o caminho é buscar algo temporário até encontrar a vaga dos sonhos novamente.

O luto pode afetar cada indivíduo de formas variadas. Afinal, qual era o meu vínculo com essa pessoa? O quanto estava preparada para essa despedida? Pude me despedir e me preparar? Sinto-me em paz com essa história ou deixamos muitas questões para serem resolvidas? Luto e culpa, juntos, são fatores nocivos e precisam de atenção e ajuda. A depender de quem partiu, é preciso readequar toda a estrutura de uma família, lidar com o vazio. O luto tem fases e precisa de tempo. É importante apoiar aqueles que precisam, seja com uma mensagem, um telefonema ou, até mesmo, cuidando de uma necessidade concreta que a pessoa esteja precisando.

Já na Educação, mesmo para quem está em casa com notebook, acesso à boa conexão de internet e com um dos responsáveis por perto, já há algumas perdas, como: diminuição de concentração, perda de conteúdo, competição das atividades de lazer com o que é obrigatório. Existe um lado positivo, que diz respeito a desenvolver autonomia, aprender a lidar com recursos tecnológicos e usar outras ferramentas. Podemos, assim, considerar um lado positivo para desenvolver crianças mais autônomas em relação à construção de seu conhecimento. Que seja curiosa, que faça pesquisas (por isso é preciso orientar, acompanhar e limitar o conteúdo a ser alcançado). Contudo, nas escolas públicas, a realidade é outra, na maior parte delas, e podemos esperar um aumento na evasão escolar, por exemplo.

AUPA – O que dizer para quem reluta em procurar ajuda profissional?
Maria Fernanda Thomé – O psicólogo é o profissional mais indicado para identificar de que forma tudo o que estamos vivendo está lhe afetando, particularmente. O processo funciona com sessões semanais, que agora estão acontecendo on-line em sua maioria. A dica mais importante: seja proativo. Não espere até os sintomas se intensificarem.

Projetos como campo para inovação

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Crédito: Alena-pexel

Já discuti anteriormente sobre inovação e o hype no entorno da expressão. Mas, desta vez, quero dialogar sobre como a gestão por projeto pode ser uma aliada à inovação, enquanto promotora e também um campo de teste de processos, produtos e soluções para problemas importantes.

É importante pensar que uma definição possível para inovação é a resolução de problemas reais em contextos com altos níveis de incerteza. Considerando que projetos surgem para gerar valor, por meio de empreendimentos com começo, meio e fim, que entregam um resultado inédito, fica evidente a correlação possível entre inovação e gestão de projetos.

Seguindo as referências do que é hype, gostaria de usar dois conceitos para explicitar ainda mais a correlação entre gestão de projetos de impacto e inovação: “startups” e “modelo de negócio”. Considerando “startup” como um estado temporário pelo qual uma organização, seja ela social ou do mercado tradicional, busca um modelo de negócio viável e “modelo de negócio” como o modo que a organização cria, entrega e captura valor, podemos entender que uma organização que tenta solucionar um problema, passa a ter uma mini startup dentro de si.

Essa mini startup é justamente um projeto. Trata-se de uma “célula” protegida do restante da organização, na qual é possível, com alguma segurança, criar, testar e conduzir experimentos apartados da organização. E, ao final dos testes, se bem sucedido, pensar sobre como incorporar à organização.

Um exemplo sobre um projeto foi (e está) sendo usado como teste acontece na Climate Ventures, com as iniciativas para solucionar o desafio de logística e comercialização dos produtos de sociobiodiversidade da Amazônia. O desafio do Lab Amazônia diz respeito a encontrar soluções para estruturar a cadeia que possibilita que os produtos que usam ativos da floresta como insumos acessem o mercado consumidor dos grandes centros consumidores (São Paulo e Rio de Janeiro, essencialmente).

A expectativa desde o início era trazer soluções inovadoras e de baixo custo para empreendedores amazônicos venderem seus produtos no Sudeste do país. A intenção era ter um armazém geral compartilhado, onde as marcas teriam espaço para estocar produtos e fosse possível ter contêineres de navios semanais da Amazônia para São Paulo com estes produtos. Como isso não existia e por ser uma estrutura pesada, cara e de difícil implementação, se ninguém nunca tinha feito, era de se imaginar as muitas dificuldades para realizar a tarefa.

Assim, foram criados protótipos apartados das estruturas já existentes nas organizações parceiras para testar o funcionamento e a viabilidade. Estes protótipos são geridos como projetos.

A estrutura de projetos ajuda a construir o raciocínio por etapas de desenvolvimento desta ideia. É necessário,  inicialmente, validar hipóteses sobre o problema que está sendo resolvido e acerca de como vai funcionar esta potencial solução. Depois, testar a solução e, então, uma vez que foi minimamente validado, o terceiro passo é entender se aquilo é um produto real, se a solução tem mercado e se captura valor de alguma maneira.

Separar por etapas facilita a compreensão dos desafios e das necessidades sobre as entregas relacionadas a cada momento. O Lab Amazônia passou por isso – e segue neste processo. A cada etapa validada e aprendizados consolidados, novos pequenos desafios são determinados na direção de consolidar o mega protótipo. Inovar não tem caminho fácil, não tem trilha ideal. Mas há maneiras menos doloridas e danosas para as estruturas que já funcionam. Fica o convite para refletirmos sobre os projetos da sua organização como um ninho propulsor de inovações.

Este texto é de responsabilidade da autora e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa.

Mapa de Impacto Ambiental

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O que é: No terceiro levantamento do Mapa de Negócios de Impacto Social+Ambiental, a Pipe.Social faz uma análise inédita de soluções e negócios alinhados à agenda ambiental com atuação nos setores da agropecuária, florestas e uso do solo, indústria, logística e mobilidade, energia e biocombustíveis, água e saneamento e gestão de resíduos.

Quem fez: Pipe.Social e Pipe.Labo.

Ano: 2021.

Clique aqui para acessar a pesquisa.

Sejamos menos produtivos

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Um artigo do início de abril, publicado no The New York Times, discute a sensação de “burnout” que a maioria de nós vem sofrendo após um ano de pandemia – e sem expectativas concretas de melhoria, ao menos no Brasil. De uma forma mais irônica e ácida, um vídeo recente do grupo de comediantes Porta dos Fundos também aborda o tema. Na esquete Doente de Brasil, o personagem de um médico informa ao paciente que vem sofrendo dores de cabeça, enjoos, taquicardia e insônia que ele contraiu o “Brasil de 2021 – uma variante um pouco pior do Brasil de 2020”.

Brincadeira do grupo à parte, o fato é que estamos todos mais cansados, mais preocupados, mais entediados e menos produtivos. E nos sentimos culpados por isso. O texto do The New York Times inicia a abordagem justamente sobre a falta de concentração que estamos enfrentando e como estamos produzindo menos, apesar de trabalharmos mais. Eu, por exemplo, estou mais de um mês atrasada para enviar este texto de colaboração ao portal Aupa, e agradeço por não terem me cobrado, mas me sinto culpada pela demora.

Nos tempos pré-pandemia não emendávamos uma reunião na outra, havia, ao menos, o tempo de deslocamento de um lugar para o outro, do qual, muitas vezes, reclamávamos e hoje sentimos falta. Não passávamos 10, 12 horas ou mais na frente do computador sem, ao menos, o momento de descontração do cafezinho ou do almoço com os colegas. Não tínhamos a preocupação de compartilhar a intimidade de nossas salas (e vidas) com estranhos, sem saber se o cachorro vai latir, o filho vai chorar ou o vizinho vai quebrar a parede na hora da reunião virtual. E, claro, não recebíamos diariamente a notícia de que milhares de pessoas morreram no país – algumas você pode até mesmo conhecer.

Com tudo isso acontecendo, não é de se estranhar que estejamos menos concentrados e produtivos. Ainda assim, nos cobramos para sermos mais produtivos, até mais do que na pré-pandemia, talvez porque não tenhamos que “perder” tempo nos deslocando, talvez para compensar os milhões de desempregados e “justificar” que ainda tenhamos nossos empregos, talvez porque haja tanta coisa a ser feita para melhorar, ao menos um pouquinho, a sociedade – especialmente, no nosso caso, que trabalhamos com impacto social -, talvez porque trabalhando mais pensamos menos nos problemas externos.

Neste exato momento, tenho que parar de escrever para entrar em uma reunião virtual e, após uma hora, tentarei retomar a linha de raciocínio, que inevitavelmente já se quebrou.

Voltando ao texto 57 minutos depois. Deixa eu reler desde o começo de novo.

Enfim, proponho aqui que nos cobremos menos, um pacto não de mediocridade, mas de sanidade mental.

Estamos demorando mais para fazer as mesmas coisas, estamos sem a mesma energia para trabalhar, estamos com mais preocupações e menos diversões, vamos, ao menos ser mais tolerantes com alguns prazos e pequenos erros. Na ponteAponte, por exemplo, decidimos atualizar o Mapeamento de campanhas e outras iniciativas contra a Covid-19, que lançamos em abril do ano passado, bem como elaborar um novo relatório a partir dele e de consultas com atores do campo, como fizemos, também no ano passado, com o relatório Os primeiros 60 dias de Covid-19 no Brasil – tendências em filantropia, investimento social e o campo de impacto social. Porém, esses produtos serão lançados “assim que possível”, pois não temos como nos comprometer hoje com a mesma data em que lançamos em 2020. Outra ação que faremos em breve é uma roda de conversa com toda a equipe sobre saúde mental, com apoio de consultoria externa. Falar sobre como estamos nos sentindo nesse momento é tão ou mais importante do que discutir o que temos de entregar na semana.

E agora preciso fazer algo de almoço, pois daqui a pouco tenho outra reunião. 

Este texto é de responsabilidade da autora e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa.

Inteligência artificial e ecossistema de impacto: conheça alguns negócios

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A Inteligência Artificial (IA) tem se mostrado fundamental para as estratégias de geração de novos modelos de negócios e sua presença tem aumentado nos últimos anos – este crescimento saltou de 32%, em 2018, para 48%, em 2020, na América Latina, segundo dados são do Índice de Nível de Inovação e Crescimento (Inicia). 

Essa tecnologia está presente em diversas áreas do cotidiano, como o setor industrial (protótipos de máquinas autônomas), o doméstico (robôs de limpeza), o de entretenimento (Netflix), de educação (realidade virtual), em projetos aeroespaciais e até na Medicina (chatbot). Inclusive, em aplicativos presentes no dia a dia. O Spotify usa IA para entender as preferências dos usuários e recomendar músicas, por exemplo.

Na pandemia, a aplicação da Inteligência Artificial também foi acelerada. Uma das áreas que se beneficiou com seu uso foi a Saúde. Dados de uma pesquisa sobre a familiaridade com a inteligência artificial na saúde divulgados recentemente pela Capterra, plataforma de busca e comparação de softwares, mostrou que quatro em cada dez pacientes já interagiram com um chatbot de inteligência artificial ou um assistente virtual pelo site de um médico, plano de saúde ou centro. No caso, esse chatbot ajuda no atendimento básico ao paciente, para tirar dúvidas, por exemplo. 

Mas, partindo da área da Saúde para o ecossistema de impacto, em geral: como o uso de tecnologias, como a inteligência artificial, pode contribuir? Nesta reportagem, conheça negócios que atestam esta importância e apontam soluções na modelagem de cenários complexos para Políticas Públicas efetivas.

Apoie o jornalismo crítico no ecossistema.

Pesquisa
O potencial da inteligência artificial aumentou e muitas empresas vêm investindo pesquisas nesta área. Um exemplo é a Kunumi, organização que integra conhecimento tecnológico ao conhecimento acadêmico e científico para trazer soluções para questões relacionadas a clima, saúde, desigualdade e sustentabilidade.

Gabriella Seiler, executiva da Kunumi, afirma que a organização é: “Um time interdisciplinar que hoje utiliza Inteligência Artificial para desbloquear novos pontos de vista e descobertas”. Para a executiva: “Ao mesmo tempo que a IA nos ensina sobre padrões atuais e passados, pode ser treinada para reproduzir comportamentos ou para nos apoiar na construção de um outro futuro”.

Gabriella Seiler, executiva da Kunumi. Crédito: Divulgação

A importância da Kunumi no ecossistema ocorre pois a organização desenvolve modelos para criação de novas empresas de base tecnológica, tendo o conceito de impacto como tese central, segundo Gabriella. Outro ponto destacado pela executiva é que: “A Kunumi quer inovar e desenvolver novas soluções que representem o público consumidor e nossos parceiros em sua diversidade”.

Ainda de acordo com Gabriella, é necessário estabelecer o Brasil como criador de tecnologias, e não apenas consumidor. E, isso, está relacionado à falta de um ecossistema eficiente de incentivo à inovação. “Exemplos de sucesso no mundo todo mostram que a inovação começa muito antes da criação de uma startup e seus produtos. Por isso, é fundamental ter investimentos não só em pesquisa, mas também em mecanismos que aproximem o ambiente acadêmico do mercado”, explica.

Na prática, muitas empresas que estão implementado a Inteligência Artificial notam um crescimento em algumas áreas. Por exemplo, a startup Vision Space,  voltada à IA, registrou um crescimento de 500% no seu faturamento usando a tecnologia em 2020. Com a pandemia, um dos serviços mais requisitados foi a utilização de câmeras de segurança para fazer contagem de fluxo na reabertura dos parques. Já, para 2021, haverá o lançamento de novos produtos, como o sensor de temperatura Wi-Fi.

Neste sentido, se vislumbra que a Inteligência Artificial não é apenas mais uma atividade que afeta somente o campo acadêmico e científico. Trata-se de uma tecnologia crítica para a transformação, de modo que sua disponibilidade ou falta afeta o bem-estar e a prosperidade da sociedade.

Inteligência artificial para um jornalismo eficiente e transparente

Bárbara Libório, gerente de projetos e jornalismo da Revista AzMina. Crédito: Divulgação

A IA também vem sendo aplicada no jornalismo. Bárbara Libório, gerente de projetos e jornalismo da Revista AzMina, destaca que “O uso dessa tecnologia pode ajudar no ecossistema de impacto, principalmente porque ajuda a maximizar tal impacto”.

Bárbara atua no Elas no Congresso, um projeto de monitoramento legislativo do direito das mulheres, na Câmara dos Deputados e no Senado Federal. Este monitora a tramitação de projetos de leis que falam sobre gênero. A plataforma foi criada pela Revista AzMina.

Dado a relevância de fazer jornalismo com informações precisas, Bárbara destaca que “A rotina jornalística é feita de vários processos. E, se eu conseguir acelerar alguns desses processos, eu consigo focar o meu tempo em melhor apuração, redação, contextualização e até mesmo comunicação de dados, por exemplo”. Ou seja, de certo modo, permite melhorar o trabalho jornalístico, pois possibilita tarefas automatizadas, de modo a focar em outras questões que são mais importantes.

A gerente de projeto ainda comenta que o monitoramento de Políticas Públicas também pode ganhar com o uso da IA, como as diretrizes orçamentárias e a execução desses projetos. “Quando conseguimos monitorar isso de maneira automatizada, monitorando a transparência, conseguimos inclusive serviços mais eficientes”, destaca.

Em relação à atuação das mulheres na bancada parlamentar, Bárbara explica que “As mulheres parlamentares são as que mais propõem projetos de lei que têm a ver com o tema de Direito das Mulheres”. Ela também afirma que, para que esses temas sejam levados ao Congresso, e de maneira favorável, mais mulheres devem chegar a esses espaços políticos.

A plataforma Elas no Congresso apresenta propostas e votações das senadora(e)s e deputada(o)s em uma lista estilo ranking. Por exemplo, no ranking das propostas das deputadas, Rejane Dias (deputada do Partido dos Trabalhadores) encontra-se em primeiro lugar. É autora de 29 projetos, dos 649 voltados para as mulheres. Além disso, o site ainda analisa as propostas, destacando a avaliação e a relevância da pauta. Já no ranking das propostas do senado, Rose de Freitas (senadora do PODE) conta com 21 projetos de autorias sobre o tema.  

No entanto, mesmo com a atuação das parlamentares propondo mais projetos para o direitos das mulheres,  uma análise do Elas no Congresso mostrou que projetos de lei que tratam de temas como aborto ou violência sexual cresceu 77% e 56%, entre 2019 e 2020, mas maioria dos PLs é desfavorável. Isso acende a discussão sobre a importância de monitorar os direitos das mulheres no legislativo e a sua atuação.

Outro caso é o InfoAmazonia, veículo independente que utiliza dados, mapas e reportagens geolocalizadas para contar histórias sobre a maior floresta tropical contínua do planeta. O site cobre o universo da Amazônia e tem dois projetos que podem ser destacados pela utilização da IA para o bem público: Amazônia Sufocada e Amazônia Minada. O primeiro monitora os focos de calor na Amazônia. Já o segundo mapeia os requerimentos minerários em unidades de conservação e terras indígenas. Além dos robôs no Twitter, é possível acompanhar os dados pelos mapas no site.

Juliana Mori, diretora editorial do InfoAmazonia, conta que a atividade é realizada a partir do jornalismo de dados – dados públicos e abertos. Ela destaca a relevância do trabalho em equipe: “No caso desses projetos, do monitoramento constante, eles ajudam as pessoas a entenderem o que acontece diariamente, e assim, se conscientizarem sobre o assunto”.

Juliana Mori, diretora editorial do InfoAmazonia. Crédito: Divulgação

Ainda sobre a importância da Amazônia no cenário global, é comum o debate e as críticas sobre o crescimento das queimadas e o afrouxamento das políticas ambientais do Governo Federal, que impulsionam a destruição da floresta. É possível dimensionar esses números através de bots. Por exemplo, o bot da Amazônia Minada aponta que há atualmente 2.539 requerimentos minerários em terras indígenas e 1.186 em unidades de conservação de proteção integral ativos na Amazônia. Já no caso do bot da Amazônia Sufocada, os dados revelam que nos últimos sete dias de março, 23% das queimadas aconteceram dentro de terras indígenas e 2% aconteceram em unidades de conservação. Ao acessar esses bots, o cidadão consegue visualizar dados oficiais do crescimento do desmatamento e das queimadas. E, em relação ao afrouxamento das políticas ambientais, Juliana salienta que “Não é só uma questão de lei. No Governo, há afrouxamento com Ministro que trabalha mais contra, do que há favor”.

Juliana também pontua que para esse cenário, o que agrava ainda é um afrouxamento da fiscalização, ou seja, um conjunto de ações: “Em 2020 a quantidade de multas foi muito baixa. Se por um lado existe um decreto que proíbe queimadas, por outro lado, um grupo que estimula recursos de forma criminosa, uma não fiscalização”, explica.

Na prática, mesmo com o avanço de IA, ainda são necessários longos passos. Um desafio final diz respeito à maioria das implementações desta tecnologia altamente especializada, o que, de certo modo, exige investimento em profissionais qualificados. É o que também revela um estudo da Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom), que aponta a grande quantidade de vagas disponíveis, mas falta mão de obra qualificada para essa área.

Mesmo que esse investimento ajude a reduzir custos, melhorar a eficiência e resolver novos problemas, há ainda um caminho a ser percorrido. E, certamente, exige um esforço contínuo de todos os setores do ecossistema de impacto.

As entrelinhas do impacto

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Comecei recentemente uma nova temporada de podcasts
em meu canal
(e em breve, teremos novidades aqui na Aupa, oba!)
com o nome de Impacto na Segundona.

Gravo e edito de forma caseira
e na raça.

A provocação-brincadeira do nome
passa por um sentimento duplo,
que trago cá com meus botões há tempos: 

– de um lado
a sensação de jogar na 2ª divisão deste ecossistema,
ouvindo com frequência perguntas do tipo: quem? De onde? 

pra quem não sabe, moro em Brasília há tempos e fui me inserindo nesta agenda
com muita persistência, comendo pelas beiradas e com certa cara de pau.

– de outro
de seguir me esforçando em remar contra a corrente
das narrativas e abordagens mais óbvias que predominam no setor,
trazendo alguns Lados Bs sobre o assunto

Quem quiser acompanhar o podcast
fica o convite

Tá bom,
mas por que tratar deste tema por aqui? 

Por alguns motivos:
1. Por considerar que a agenda de impacto está em alta, seguirá crescendo e receberá cada vez mais pessoas, profissionais e entusiastas, todos em busca de uma melhor compreensão do tema.
2. Essa compreensão requer tempo (horas de voo) e a oferta atual disponível (de conteúdos, cursos) traz pouco esses aspectos ‘Lado B’ (nuances, entrelinhas, limites, contradições).
3. E por que o Lado B é importante? Para alguns pode soar como uma crítica desnecessária ou como quem “joga o bebê junto com a água do banho”.
4. O lado B é necessário, porque assume que, como qualquer agenda, há entrelinhas e contradições. Conhecendo também esses aspectos fica mais fácil, pra quem está chegando, alinhar expectativas e ficar mais antenado sobre o que ocorre neste ecossistema.

Algumas “faixas de sucesso” que tocam nas paradas Lado B:
– popularização da agenda do impacto:

Queremos popularizar o tema, mas e aquele seu parente/vizinho negacionista? Terraplanista?

Colocando mais pimenta, lembremos que há investidores tradicionais que apoiaram projetos autoritários e que agora começam a embarcar no tema do ESG e do impacto. E aí? Devemos celebrar ou ficar putos?

Temos sido competentes na adoção de estratégias e ferramentas adequadas para tornar o tema mais acessível a todos? Ou, no máximo, ampliamos um pouco a nossa própria bolha?

– o conceito de investimento de impacto e de negócios de impacto traz consigo alguns problemas. Isso é discutido? Quais são esses “problemas”?

Para citar um:

“As ferramentas de mercado vieram resolver os problemas que nem governo nem filantropia conseguiram resolver” – é uma fala recorrente no setor. Vamos brincar de jogo de 7 erros sobre esta fala?

Vou trazer apenas 2 para ilustrar:

  1. O mercado é só um solucionador/salvador? Ele também não é um agente promotor de degradação socioambiental? Ele também não é partícipe do caos onde nos encontramos?
  2. O mercado vai matar a bola no peito e resolver tudo sozinho? Ou, nos tempos atuais, vale justamente a atuação coletiva entre os vários setores e atores? Não seria melhor ajustar a narrativa para contemplar a relevância de todos os setores?

Paro por aqui, pois o papo é longo e já estourei o limite de caracteres deste artigo.

A vantagem de ser Lado B é que as faixas podem ir além dos 4 minutos de duração para tocar nas rádios e no Faustão. Que bom!

Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa.

Ciência e tecnologia: novas ferramentas de prevenção aos danos socioambientais

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O campo de ciência e tecnologia no Brasil obteve um marco histórico recentemente, com o lançamento do primeiro satélite 100% brasileiro ao espaço. O satélite, batizado de Amazonia 1, foi desenvolvido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e tem como objetivo melhorar o monitoramento do desmatamento, entre outras condições ambientais em todo o território nacional. Conforme nota explicativa do INPE, as imagens e os dados gerados pelo satélite poderão ser utilizados pela comunidade científica, órgãos governamentais e qualquer pessoa interessada em obter “Uma melhor compreensão do ambiente terrestre.”

Ciência e tecnologia estão cada vez mais sendo aplicadas em serviços ambientais mundo afora. Segundo Irina Bokova, ex-diretora da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), a ciência e a tecnologia têm um papel-chave nos esforços de gestão dos recursos naturais, combate às mudanças climáticas e promoção do desenvolvimento sustentável.

No Brasil, projetos científico-tecnológicos vêm emergindo nesse ecossistema apelidado de “Greentech”, ou Tecnologias Verdes, voltado à conservação da natureza. Mas essas inovações ajudarão a combater danos socioambientais persistentes no país?

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Robô de detecção de poluição no mar
Um sistema robótico capaz de detectar vazamentos de óleo no mar, com precisão e rapidez, está sendo desenvolvido no Brasil. Batizado de Ariel, acrônimo para Autonomous Robot for Identification of Emulsified Liquids, ou Robô Autônomo para Identificação de Líquidos Emulsificados, em tradução literal, esse projeto é resultado de uma parceria entre quatro instituições: o Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e as empresas TideWise (formada por ex-alunos da Coppe/UFRJ), Farol Serviços e Repsol Sinopec Brasil.

Alessandro Jacoud, professor de Engenharia Elétrica e coordenador do projeto Ariel na Coppe/UFRJ. Crédito: Divulgação

O sistema Ariel consiste na “Junção de dois robôs, um robô que é um barco autônomo [não tripulado] junto com um drone autônomo,” diz Alessandro Jacoud, professor de Engenharia Elétrica e coordenador do projeto Ariel na Coppe/UFRJ. Embora ainda esteja sendo testado, o sistema funcionará da seguinte forma: enquanto o barco autônomo navega pelo mar, o drone vai decolar e fazer um monitoramento aéreo para avistar manchas de óleo, utilizando câmeras visual e térmica.

Se uma mancha for detectada pelo drone, o barco vai automaticamente se dirigir até o local para verificar a presença de óleo com seus sensores – o que poderá minimizar o risco de falsos positivos ou falsos negativos, explica o professor.

Outra vantagem do sistema Ariel é a rapidez na identificação e na comunicação do problema. “Quando a embarcação sinalizar a detecção de vazamento [de óleo], a parte operacional – as autoridades e empresas de resposta de emergência – é acionada,” diz Jacoud. Essa função pode ajudar a prevenir um desastre ecológico no mar, além de danos sociais e econômicos graves.

Em 2019, por exemplo, um vazamento de óleo de origem desconhecida impactou mais de mil praias em 11 estados do Nordeste e Sudeste da costa brasileira. Esse acidente, sobretudo devido à imprevisibilidade e à demora na resposta de emergência, resultou no maior desastre ambiental em extensão no país e prejudicou a saúde e o sustento de centenas de milhares de pescadores e comunidades tradicionais litorâneas.

Segundo Jacoud, a tecnologia do sistema Ariel pode ser adaptada para outras funções, como fazer inspeções em plataformas de petróleo. Isso também ajudaria a prevenir danos associados com o derramamento de óleo. A Petrobras, por exemplo, registrou o vazamento de 415 mil litros de óleo e derivados de suas plataformas no mar, apenas no ano de 2019.

Jacoud explica que os algoritmos de detecção do sistema Ariel, podem ainda ser treinados para detectar outros impactos no mar, como a concentração de lixo ou outros poluentes. “Com pequenos ajustes e  modificações [nos algoritmos], conseguiríamos resolver outros problemas,” destaca. Essa inovação ajudaria nos esforços de proteção da vida marinha, tendo em vista que mais de 800 espécies de animais marinhos são feridos ou mortos pela presença de lixo no mar, o que também impacta a cadeia alimentar humana.

Os testes realizados pela equipe da Coppe/UFRJ já demonstraram que a parte robótica do sistema Ariel é funcional. Entretanto, o aprimoramento da tecnologia dependerá de mais pesquisas científicas e recursos humanos. “Estamos imersos em um ambiente universitário de pesquisa, então a ideia é, cada vez mais, formar pessoas e aprimorar o sistema para abarcar outras vertentes”, diz Jacoud. “Na universidade, tentamos fomentar que os alunos construam startups, para desenvolver e colocar produtos [de base científica e tecnológica] no mercado,” acrescenta.

Plataforma digital de dados sobre o Cerrado
Uma plataforma on-line e gratuita que reúne informação sobre o bioma Cerrado, foi lançada no final do ano passado pelo Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento (LAPIG), da Universidade Federal de Goiás (UFG). A Plataforma de Conhecimento do Cerrado, disponibiliza diversos dados – sobre biodiversidade, uso do solo, desmatamento, socioeconomia, entre outros temas – na forma de imagens aéreas, mapas, gráficos e materiais literários. O projeto foi financiado pelo Fundo de Parceria para Ecossistemas Críticos (CEPF, na sigla original em Inglês), tendo em vista que o Cerrado é um hotspot de biodiversidade ameaçado.

“A plataforma foi pensada para que todas as pessoas que produzem dados sobre o Cerrado, em diversos aspectos e metodologias, possam colocar o seu dado nesse repositório”, explica Elaine Barbosa da Silva, professora e coordenadora do LAPIG/UFG. Segundo ela, o projeto é colaborativo e reúne dados de instituições acadêmicas, públicas, privadas e da sociedade civil. O objetivo central da plataforma é permitir que “As pessoas utilizem esses dados para conhecer melhor o Cerrado e, assim, possam ajudar na gestão e na fiscalização [do território]”, destaca a professora.

Elaine Barbosa da Silva, professora e coordenadora do LAPIG/UFG. Crédito: ASCOM UFG

O Cerrado é o segundo maior bioma do Brasil e, embora seja a savana mais biodiversa do planeta, cerca de 55% de sua vegetação nativa já foi desmatada. Além disso, o Cerrado tem sido desmatado cinco vezes mais rápido do que a Floresta Amazônica. Também há indícios de que a crise hídrica, que vem afetando estados brasileiros nos últimos anos, está ligada a destruição ambiental do Cerrado – o berço das três maiores bacias hidrográficas do país. Fatos que mostram a importância de aumentar os esforços de monitoramento e preservação do bioma.

Segundo Silva, os dados disponibilizados na Plataforma de Conhecimento do Cerrado podem contribuir para uma gestão mais efetiva do bioma pelos órgãos governamentais.“O Ministério Público de Goiás e a Secretaria Estadual de Meio Ambiente de Goiás já têm utilizado os nossos relatórios de desmatamento – pois são laudos confiáveis – para fiscalização”, diz Silva. A ferramenta pode também reduzir os custos com ações de monitoramento pelas instituições ambientais, o que é relevante principalmente agora que o orçamento do Ministério do Meio Ambiente e órgãos vinculados é o mais baixo dos últimos 21 anos.

Outro potencial benefício, do conhecimento sistematizado pela plataforma, é apoiar políticas públicas mais inclusivas e sustentáveis para a região. Silva comentou que na plataforma há dados gerados por comunidades tradicionais do Cerrado, tais como povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos, cadastrados através do aplicativo Tô no Mapa. O aplicativo – desenvolvido pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia em parceria com o Instituto Sociedade, População e Natureza – permite que povos tradicionais, localizados em áreas remotas, registrem alertas e locais de queimadas, conflitos, mudanças no uso do solo, entre outras informações.

Entretanto, a disseminação de conhecimento é apenas um passo. Silva observa que, para combater os danos socioambientais no Cerrado, é preciso ainda que “Sociedade exerça maior pressão sobre o Poder Público” no sentido de “Intensificar as fiscalizações e as punições” por crimes ambientais e humanitários.

A equipe do LAPIG/UFG tem promovido cursos de capacitação para pessoas que queiram aprender como usar a plataforma para fins específicos, incluindo como extrair e analisar dados do repositório. “Já capacitamos, em mais de oito ações – desde do dia 16 de novembro, quando foi lançado [o projeto] –, aproximadamente mil pessoas através dos nossos cursos”, destaca Silva. A professora deixa um apelo à sociedade para que conheçam e contribuam com a plataforma, compartilhando os dados que tiverem sobre o Cerrado.

Mapeamento de tecnologias verdes no setor energético
Uma das atuações da Wylinka, uma organização sem fins lucrativos criada em 2013, é mapear inovações científicas e tecnológicas, verificar o potencial dessas propostas para resolver problemas de setores da economia e conectá-las ao mercado.

Ana Carolina Calçado, diretora-presidente da Wylinka. Crédito: Divulgação

“Há conhecimentos científicos e tecnológicos sendo desenvolvidos no Brasil, que podem ser definitivos para fazer mudanças setoriais muito importantes”, salienta Ana Carolina Calçado, diretora-presidente da Wylinka. Tais conhecimentos podem contribuir, por exemplo, para solucionar problemas decorrentes das alterações climáticas, além de contribuir para uma economia verde e sustentável. Aliás, a crise climática é hoje considerada uma das principais ameaças à humanidade.

O DeepTech Clima é um projeto desenvolvido pela Wylinka, em parceria com o Instituto Clima e Sociedade, com foco no setor energético. O projeto mapeou 94 inovações científico-tecnológicas brasileiras que têm como objetivo prover alternativas ao uso dos combustíveis fósseis – de forma a prevenir os impactos negativos dessa fonte de energia para o clima e a saúde humana, já que libera muitos gases poluentes na atmosfera.

Dentre as inovações mapeadas, foram selecionadas 11 com maior potencial de impacto positivo. Uma delas, por exemplo, é um ônibus híbrido movido a energia elétrica e hidrogênio, com emissão zero de poluentes. Essa tecnologia foi desenvolvida pelo Laboratório de Hidrogênio da Universidade Federal do Rio de Janeiro, LabH2-Coppe/UFRJ, e é um dos poucos ônibus a hidrogênio – como alternativa aos ônibus convencionais a diesel – em operação no mundo.

Uma das conclusões do projeto DeepTech Clima é que há soluções tecnológicas verdes sendo trabalhadas em todas as regiões do Brasil. Entretanto, “No Sul e no Sudeste, essas soluções estão mais avançadas; já no Norte e no Nordeste, estão em estágio mais inicial de desenvolvimento”, destaca Calçado. Essa discrepância também é apontada em um estudo do IBGE, o qual mostra que Norte e Nordeste são as regiões do país com maior percentual de pessoas sem acesso à internet, por analfabetismo digital ou por motivo financeiro.

Um dos desafios do ecossistema de inovação tecnológica é o acesso a recursos financeiros para o desenvolvimento de pesquisas. Porém, os recursos públicos para ciência e tecnologia vêm diminuindo no país, observa Calçado. Tanto as universidades federais quanto o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações vêm sofrendo cortes de verba significativos nos últimos dois anos.

Apesar dos obstáculos, a ciência e a tecnologia – que advém principalmente das universidades – é uma ferramenta crucial para resolver grandes problemas ambientais, sociais e econômicos que persistem no Brasil. “Nós acreditamos nesse potencial, não só da tecnologia em si, mas no conhecimento científico e tecnológico para trazer novas formas de olhar para problemas e pensar soluções”, destaca a diretora da Wylinka.

Juliana Rodrigues: “A agenda de impacto não é unânime e não apresenta os mesmos conceitos em todos os lugares”

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O ambiente acadêmico tem cada vez mais conversado com a agenda de impacto, para além das disciplinas de Administração e Negócios. Esta é a percepção de Juliana Rodrigues, mestre em Ciências da Administração e líder de projetos e consultora do Programa Academia ICE. Juliana é docente na disciplina de Empreendedorismo Socioambiental nos cursos de MBA do Lassu-USP e na disciplina de Inovação Social na FIA.

O Programa Academia ICE tem como objetivo engajar professores e fortalecer a atuação das Instituições de Ensino Superior (IES) brasileiras nas temáticas de Finanças Sociais e Negócios de Impacto. A rede do Programa conta com 51% de mulheres. São 132 professores de 70 IES em 21 estados, abrangendo todas as regiões do Brasil.

“Há cada vez mais uma discussão sobre a academia engajada, ao invés de usar a voz, fazer pesquisa com pessoas, ser um lugar também de dar a voz para todas essas pessoas que estão ou não na academia”,

reflete a docente Juliana Rodrigues.

Em um momento em que as IES têm passado por diversas mudanças advindas da pandemia, as universidades ressaltam o papel de espaço que fomenta o ecossistema de impacto. Uma pesquisa da Academia ICE, em parceria com a Ashoka Commons, com 115 professores no Brasil e na América Latina, ressalta esse fato. Entre as principais iniciativas desenvolvidas pelas instituições neste período pandêmico, os docentes destacaram: pesquisa e desenvolvimento de equipamentos e outros itens de prevenção (67%), produção e doação de máscaras e visores de proteção (63%) e doação de alimentos para comunidades e organizações sociais (55%).

Em entrevista, a docente Juliana Rodrigues reflete sobre esses múltiplos papéis da universidade, da desigualdade de gênero e também da expansão da agenda de impacto para outras disciplinas no ambiente acadêmico.

AUPA – Como você vê a temática de impacto social dentro do ambiente acadêmico?
Juliana Rodrigues – A discussão sobre impacto social está crescendo bastante, no geral.  Inclusive, na academia, há uma aplicação do termo impacto social, que é um pouco diferente do que é usado para negócios de impacto, pois a própria universidade tem discutido qual é o impacto social da sua atuação. É um aspecto que, cada vez mais, é exigido e perguntado em pesquisas, em extensão, nos próprios cursos e para a própria universidade: qual é o impacto social daquele projeto? Quando olhamos para os negócios de impacto, o que vemos também é um crescimento dessa agenda, tanto no Brasil quanto no mundo. Não se trata de uma agenda unânime, não tem o mesmo formato e os mesmos conceitos em todos os lugares. Outra questão é que a agenda foi, durante muito tempo, mais forte – e ainda é – nas escolas de Administração e Negócios, porém o que vemos é a tendência de outros cursos discutindo isso. A própria questão da inovação, que tenha um benefício para o bem-estar social, para o bem comum ou para questões ambientais, está se aproximando dessa agenda muito mais tecnológica e de outras ciências, não só das [Ciências] Sociais Aplicadas. 

AUPA – Os homens são maioria no comando dos negócios sociais. Como você vê a participação das mulheres neste ambiente acadêmico para o mercado de negócios sociais
Juliana Rodrigues – Quando se fala sobre tais formas de empreendedorismo e  de negócios, há uma discussão sobre qual  é também a contribuição desses negócios para a agenda de gênero, especialmente em duas vertentes: tanto sobre mulheres empreendedoras e mulheres empreendedoras com impacto social, quanto qual é o valor desses negócios para esses temas. 

acadêmicas e intelectuais que são mulheres negras periféricas  – que são incríveis e não precisam estar na academia também. Nós temos essa troca, mas eu não diria que é maioria. Ainda vivemos em um sistema que privilegia o homem branco heterossexual. Eu, enquanto uma mulher branca, também tenho que reconhecer, na minha interseccionalidade, que falo de um lugar diferente. Eu nunca saberei dizer como é a experiência de uma acadêmica negra ou periférica, por exemplo, mas há espaço e movimento para isso acontecer. Não dá para tapar o Sol com a peneira e dizer que está bom, porque não resolvemos esse problema, mas podemos impulsionar os movimentos que já estão acontecendo. Outro ponto é trazer todas as pluralidades de vozes sempre que possível e isso está acontecendo também. Há cada vez mais movimentos de pesquisa participativas e engajadas que buscam fazer isso.

AUPA – Na sua opinião, qual é o principal papel das instituições de ensino na agenda do ecossistema de impacto?
Juliana Rodrigues – Acredito que a academia tem dois papéis. O primeiro é apoiar e estimular o campo a existir e lidar com seus desafios. É necessário apoiar o desenvolvimento de mecanismos de avaliação de impacto, de modelagem de negócios, além de ferramentas, metodologias e conhecimentos que ajudem a criarmos uma iniciativa de mercado que tenha uma missão social, pois não há modelos e estruturas de funcionamento e de gestão voltados a isso. O outro papel diz respeito à produção de conhecimento, à interação com a comunidade e o campo, também à formação de novos profissionais. Além disso, a  academia ainda fomenta o pensamento crítico em relação ao setor, que, muitas vezes, é também averiguar onde estão os pontos cegos, as incoerências e como isso pode impactar uma discussão maior sobre quais sistemas e qual sociedade queremos viver. O papel primário do educador não é ensinar, mas é facilitar para que cada um se torne um aprendiz crítico, que faça perguntas para não aceitarmos o status quo.

AUPA – Como a Academia ICE tem atuado nesse cenário de pandemia, que atingiu completamente as instituições de ensino? Como o Programa tem procurado contribuir, no que diz respeito à relevância da inovação social?
Juliana Rodrigues –  A pandemia alterou muito o universo da Educação. Algumas universidades deram uma semana para os professores se adaptarem, outras foram de um dia para o outro, algumas cancelaram as aulas. Foi muito pesado para os professores – e consequentemente para os alunos. Então, não é possível afirmar que houve uma resposta unânime das universidades. As realidades entre cidades são muito discrepantes também no que diz respeito ao acesso. O Programa Academia ICE, logo no começo, fez uma comunidade prática, onde os próprios professores se ajudaram. Foram cinco encontros semanais compartilhando melhores práticas sobre o que fazer neste período. Fizemos uma pesquisa para entender os impactos e tivemos, dentro da nossa rede, uma resposta de que a universidade se engajou bastante nesse processo, sobretudo as áreas que eram muito voltadas à Saúde, como desenvolvimento de vacinas e de exames. Há também muitos professores que trabalham com incubadoras e que fizeram outras ações, como acolhimento de pessoas que não conseguiam ter algum tipo de cuidado, distribuição de face shield e produção de máscaras. As universidades também se mostraram como mais um ator de articulação e de resposta nestes cenários. Além disso, houve grande impacto na pesquisa e na extensão.

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