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O Terceiro Setor por mais leitores no Brasil

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São hercúleos os esforços para transpor as dificuldades impostas pela pobreza e as próprias questões culturais que afastam pessoas de livros. Ainda mais desafiador no contexto da pandemia, que assola o planeta há mais de um ano. Com a necessidade de se manter o isolamento social, como fazer os livros chegarem às mãos das crianças? Como dar continuidade aos projetos de convivência entre pessoas e leitura? E, principalmente, como manter iniciativas que demandam logística, tecnologia e profissionais capacitados? 

Há muitas mentes, mas também muitos corações dedicados a radiografar nossas fragilidades do ponto de vista da leitura. A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (2020) traz dados importantes — alguns, preocupantes — como a queda dos índices de leitura em todos os níveis sociais. Entretanto, na divisão por idade, a única faixa etária com aumento de leitores é a de crianças entre os 5 a 10 anos, que passa de 67% para 71%. Todas, pistas fundamentais para a construção de estratégias de valorização e acesso à leitura.

Mal fechamos o primeiro trimestre e a pesquisa O Brasil que lê, que intenciona registrar projetos de promoção à leitura no Brasil, já contabiliza mais de duas centenas de propostas e tem como questão norteadora a pergunta: “Quem está construindo um Brasil leitor?”.

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“Essa pesquisa está sendo realizada durante a pandemia. E isso é uma boa notícia. O levantamento certamente contribuirá para que se possa responder sobre as dificuldades e os desafios que encontram os produtores dos projetos de fomento à leitura. Sem uma cartografia mínima, é como pontuar no escuro, ou elencando pontos possíveis, mas imprecisos”, afirma Marília Barcellos, professora associada e pesquisadora do Departamento de Ciências da Comunicação da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).  

Marília Barcellos, professora associada e pesquisadora do Departamento de Ciências da Comunicação da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Crédito: Divulgação

Para ela, felizmente nosso país conta com pessoas de alta competência, profissionais qualificados e que têm trabalhado para que práticas de leitura sejam ampliadas. 

“As tentativas de se conhecer o quadro, o qual a leitura se encontra e contextualizá-lo, existem e devem ser valorizadas. Por isso, não consideremos a pouca leitura um problema crônico, mas, sim, a ser compreendido e solucionado em médio e longo prazos. Toda tentativa é válida, todo comprometimento merece receber atenção e ser alvo de Políticas Públicas de fomento à leitura”, analisa a docente.  

O papel de fundações e institutos
Há quase três décadas, o Itaú Social acompanha o percurso de desenvolvimento do Investimento Social Privado no Brasil. Este ecossistema que reúne empresas, fundações e institutos familiares, empresariais e independentes é um importante agente propulsor de transformação na sociedade.

Dianne Melo, coordenadora de Engajamento Social e Leitura do Itaú Social, do Itaú Social. Crédito: Divulgação

“Orientado por Políticas Públicas, entendemos que o repasse voluntário de recursos, para gerar impacto, deve ser realizado de forma planejada, monitorada e sistemática por meio de programas, projetos e ações de benefício público. E no caso da promoção de acesso à leitura o mesmo conceito se aplica. Nós precisamos ter o olhar atento ao impacto de tais iniciativas para a transformação social”, avalia Dianne Melo, coordenadora de Engajamento Social e Leitura do Itaú Social, do Itaú Social.

Provocar a reflexão e o pensamento, assim como a formação de educadores também é uma questão importante para a Fundação Santillana, que tem atuado em, pelo menos, duas frentes: a publicação de livros para download gratuito, entre eles, os dedicados a temas da educação, desde orientações para o trabalho de alfabetização até o debate de Políticas Públicas, passando por questões específicas de cada nível de ensino.  E, na outra ponta, lives do ciclo de webinários Reflexões para um mundo pós-pandemia.

“A combinação de lives e acervo é uma estratégia bem sucedida para motivar a leitura, por parte de professores, professoras, pesquisadoras e pesquisadores, além de estudantes e familiares, de temas da atualidade”, explica André Lázaro, diretor de Políticas Públicas da Santillana. 

Alguns exemplos de boas ações de fomento à leitura vêm de iniciativas públicas, como a Minha Biblioteca, da prefeitura de São Paulo, que tem similares no governo federal com o PDE Literário, e no governo do Estado, com entrega de livros novos nas mãos dos alunos. 

“Ações desse tipo são vitais. Apesar de não alcançarem toda a população, podem ter grande impacto, com as crianças fazendo chegar esse efeito em seus pais e responsáveis”, resume Fábio Rogério Nepomuceno, diretor da EMEF Luiz David e membro da Associação Brasileira de Pesquisadores e Profissionais em Educomunicação (ABPEducom).

André Lázaro, diretor de Políticas Públicas da Santillana. Crédito: Divulgação
Fábio Rogério Nepomuceno, diretor da EMEF Luiz David e membro da Associação Brasileira de Pesquisadores e Profissionais em Educomunicação (ABPEducom). Crédito: Divulgação

Nepomuceno ressalva que as ações precisam, primeiramente, de um grande recurso financeiro; depois, de apoio essencial de professores e outros mediadores de leitura, tanto funcionários quanto voluntários. “O papel das organizações é o de mediar o acesso a esse recurso nos governos e na iniciativa privada para permitir chegar os materiais na ponta e orientar esses projetos com uma intenção clara”.

O desafio da Educação na pandemia
A Educação foi certamente uma das áreas mais impactadas pela pandemia. Hoje, a distância é o grande obstáculo. Segundo Nepomuceno, “Alguns alunos conseguiram ir à escola retirar livros didáticos, literários e apostilas impressas, mas outros não conseguiram ou ficaram com medo. Alguns alunos conseguiram acesso com PDFs nas plataformas on-line usadas pela prefeitura, mas outros simplesmente não têm equipamento e acesso facilitado à internet”. 

“Nesse cenário, é óbvio que teremos um atraso massivo no acesso à informação selecionada e práticas de leitura na parte mais importante da sociedade, que são os jovens e as crianças”,

avalia Fábio Rogério Nepomuceno, diretor da EMEF Luiz David e membro da ABPEducom.

Ainda segundo o diretor, essas ações — distribuição de livros e uso da internet — devem ser ampliadas no futuro para ajudar a compensar a defasagem de acesso que as crianças estão sofrendo no tempo atual. “Urge distribuir equipamentos e chips de internet grátis (ou sinal wifi 5G e redes mesh em comunidades) para realmente garantir acesso de todos e diminuir as desigualdades. Junto com alimento e saúde, isso deve ser tratado como direito essencial”. 

O desafio está posto para educadores e educadoras e para todos que atuam no campo da Educação: como tornar mais humana e próxima do cotidiano de nossos estudantes a educação em seus novos formatos? “A lição que fica é que precisamos fortalecer nossa capacidade de diálogo, ouvir com atenção, ponderar, argumentar e buscar modos construtivos de lidar com os conflitos inevitáveis da vida comum”, reflete Lázaro.

Ampliar a leitura no país é um processo bastante complexo, que passa pela formação dos profissionais da Educação, disponibilidade de acervos relevantes para os públicos, condições de vida que permitam tempo e espaço para a prática da leitura. 

“As condições atuais de pobreza e escassez, crise aprofundada pela pandemia, restringem as possibilidades para que as pessoas possam se dedicar à leitura”, analisa o diretor na Santillana. 

Por outro lado, Lázaro afirma que a escola tem papel fundamental ao estimular desde a infância o convívio com os livros, a prática da leitura e da conversa sobre o que se lê. 

Embora seja uma atitude solitária, a leitura cria comunidades pela troca de experiências e percepções sobre o que foi lido. Talvez, neste momento, esse seja um sentido especial da leitura: fortalecer vínculos entre as pessoas, criar ambientes de compartilhamento para que nos sintamos mais próximos uns dos outros. 

Com a pandemia ainda sem um final, há o esgotamento de recursos, mas também o acúmulo de experiência. Espera-se que possamos evoluir em descobertas de como lidar com isso. 

“Novos modelos de gestão são aconselháveis. Como foi dito, o investimento no digital é irreversível. O desafio é não retroceder no investimento à distância ao mesmo tempo em que manter o afeto e a descoberta do presencial’, acrescenta Marília.

Entre livros e florestas
Em seus esforços, organizações como a Vaga Lume, que há 20 anos atua com bibliotecas comunitárias na Amazônia transpõe rios, literalmente.

“Atuamos em uma região com baixas condições de desenvolvimento e restritas garantias de direitos aos seus habitantes. Há aproximadamente 24 milhões de pessoas habitando a região da Amazônia Legal Brasileira e que possuem acesso limitado aos equipamentos culturais. O Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas registra 6102 bibliotecas no país, ou seja, aproximadamente uma biblioteca para cada 32 mil pessoas. E apenas 503 delas estão localizadas na região Norte do país, onde o número de habitantes por biblioteca sobe para aproximadamente 47 mil, 45% a mais”, descreve Lia Jamra, gerente de projetos educacionais da Vaga Lume.

Lia Jamra, gerente de projetos educacionais da Vaga Lume. Crédito: Divulgação

As consequências desse cenário são claras. Dados da pesquisa IPS Amazônia/2014 apontam que o analfabetismo atinge 18,4% da população com mais de 15 anos na Amazônia, alcançando, por exemplo, 26% no Maranhão. 

Apesar de ter  sede em São Paulo, a força da ONG está na região amazônica, com  ampla rede de voluntários locais, que são comunitários totalmente engajados com o projeto. 

“A Vaga Lume sempre trabalhou muito localmente. O cenário pandêmico reforçou uma das fortalezas do projeto — a potência das comunidades e o vínculo que temos com elas, e por isso, puderam continuar desenvolvendo a leitura das suas casas”, diz Lia.

Dianne Melo: “A leitura e a escrita são competências fundamentais para que toda pessoa possa se desenvolver plenamente e buscar o conhecimento”

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Nossas entrelinhas mostram o brasileiro ainda distante do olhar crítico e autônomo que o leitor constrói, livro por livro, ao longo de sua vida. Há, porém, quem se debruce para mudar essa “realidade severina”. Uma preocupação que não vem de hoje e envolve muitos esforços. 

Há 27 anos, o  Itaú Social plantou suas primeiras sementes no solo da educação almejando despertar novos leitores. Na perspectiva do direito à leitura e ao letramento, ao uso social da leitura e da escrita, a organização vem promovendo diferentes iniciativas relacionadas à leitura.  

A principal delas é o Leia para uma Criança, que completou dez anos e recebeu o Prêmio Jabuti, em 2019. O programa permitiu levar a literatura infantil de qualidade para lares, escolas e bibliotecas de todo o país. Foram mais de 57 milhões de livros físicos distribuídos gratuitamente, desde 2010, e 26 títulos disseminados. 

À frente do Leia para uma Criança está Dianne Melo, que coordena a área de Engajamento Social e Leitura do Itaú Social e participa da elaboração, implementação, acompanhamento e avaliação de programas e projetos desenvolvidos na área da Leitura e da Escrita.

“Para contribuir na diminuição das desigualdades e buscar uma sociedade mais justa e igualitária, é fundamental trabalharmos para garantir a formação de leitores nesse país”,

resume Dianne Melo, coordenadora da área de Engajamento Social e Leitura do Itaú Social.

É sobre as questões e os desafios que cercam a leitura no Brasil que a coordenadora conversa com Aupa, a seguir.

AUPA – De que forma a falta de leitura reflete as desigualdades e as condições da sociedade?
Dianne Melo O Brasil é um país de dimensões continentais e os desafios sociais, educacionais e culturais são proporcionais. O acesso à leitura e à literatura, apesar de ser um direito, ainda é privilégio de uma parcela da sociedade. Os exemplos desse desequilíbrio são muitos e os resultados apontados por estudos recentes são alarmantes. 

Segundo o Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf 2018), apenas 12% da população brasileira são considerados plenamente capazes de entender e de se expressar por meio de letras e números. No Ensino Médio, apenas 4,52% dos estudantes apresentam aprendizagem adequada em Matemática e 1,62% em Língua Portuguesa, de acordo com o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb 2017). O mesmo indicador revela que menos da metade das crianças atingem níveis adequados de proficiência em Matemática e Leitura ao final do 3° ano do Ensino Fundamental.

Sobre leitura especificamente, 52% dos brasileiros possuem o hábito de leitura (ou 100,1 milhões de pessoas), segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (2020). O resultado é 4% menor do que o registrado em 2015, quando a porcentagem de leitores no país era de 56%. O índice é considerado baixo na comparação com outros países, reflexo da qualidade da formação escolar do país. Por outro lado, a mesma pesquisa mostra que para grande parte dos brasileiros, a leitura é vista como possibilidade de ampliar horizontes e, até mesmo, de melhoria das condições de vida.

Apesar de todas essas evidências, sabemos que a leitura propriamente dita também nos ajuda a ler o mundo. Como já dizia Paulo Freire, “A leitura de mundo, precede a leitura da palavra”, isto é, a percepção que temos da nossa realidade, da situação vivida por outros grupos sociais, da nossa constituição identitária, da nossa capacidade criativa e imaginativa, perpassa pela leitura, pelo acesso a todas as linguagens.

AUPA – Mais do que gostar ou não gostar de ler, há o valor da leitura para a vida, a cidadania, as escolhas. Como vocês trabalham essa conscientização no núcleo familiar?
Dianne Melo – É muito importante que as famílias incorporem o hábito de leitura desde o nascimento do bebê. Viver em um ambiente com livros e com adultos que estejam dispostos a ler para e com as crianças é fundamental para a formação de novos leitores. Dessa forma, separar um momento prazeroso, todos os dias, de afeto, de atenção para ler e estar com as crianças é uma prática essencial para o desenvolvimento integral da criança. As conversas que derivam após a leitura de um livro são riquíssimas e estabelecem uma relação de vínculo e confiança com os adultos da família. 

No entanto, sabemos que o acesso a livros ainda não é uma realidade de todas as famílias. Assim, não só na ausência de livros, mas, sobretudo, quando o livro não está presente, devemos valorizar as narrativas orais, as histórias e os saberes que pertencem à família e que são passados de geração em geração.

Mas o Itaú Social também atua na formação de mediadores de leitura. O “Polo” oferece o curso “Infâncias e Leituras”, com o objetivo de incentivar práticas de leituras do adulto para e com a criança como oportunidade de fortalecer vínculos e participar ativamente na sua educação, desde a primeira infância.

AUPA – Como os educadores, que estão na ponta, podem ser instrumentalizados para engajar as crianças à leitura? Nesse sentido, como vencer a barreira da crise da educação no país, que inclui a precarização dos professores?
Dianne Melo – É uma questão bastante complexa. Não se trata exatamente de precarização de professores, porque estes, muitas vezes, assim como muitos brasileiros, também não tiveram acesso à leitura e não se constituíram como leitores. 

A importância da leitura e também das práticas efetivas para inserir o professor na leitura não são bem trabalhadas na formação inicial. Consequentemente, professores, que deveriam formar leitores, também não conseguem trabalhar a leitura de maneira efetiva, como direito e fruição. 

A formação em serviço é fundamental para que professores ressignifiquem suas práticas e incluam livros de Literatura em suas aulas — não como instrumento didatizante ou conteúdos ditos paradidáticos, que cumprem uma função temática, de conteúdo, mas de ampliação de repertório, conhecimento de mundo, de outras realidades, de empatia. 

A escola não é o único lugar para se ter acesso à livros, mas é o lugar privilegiado que, muitas vezes, é a única opção para crianças e adolescentes terem contato com livros. 

Dessa forma, aumenta ainda mais a responsabilidade da escola na constituição de um acervo de qualidade, que considere uma diversidade de gêneros, autores brasileiros e estrangeiros, diversidade temática, literatura negra, indígena, além de garantir acessibilidade para crianças com deficiência. Junto a isso, soma-se a importância de formar bons mediadores de leitura, que possam fazer essa ponte entre crianças e livros.

Projeto de Leitura do Itaú Social. Crédito: Divulgação

AUPA – Quais as maiores dificuldades para levar os projetos adiante durante a pandemia? E o que fica como desafio para o futuro?
Dianne Melo – Esse período de pandemia nos mostrou o poder transformador do conhecimento nos mais diversos âmbitos. O grande desafio da população mundial foi se adequar às dificuldades trazidas pelo vírus: as mudanças nas rotinas, as adaptações no trabalho, na convivência e, sobretudo, a agilidade que a ciência precisou ter para desenvolver as vacinas que ajudarão na imunização de todos. E toda forma de conhecimento está diretamente relacionada à capacidade de leitura e aprendizado.

É claro que diante deste cenário inusitado, foram muitas as dificuldades. De articulação, de envolvimento das pessoas nas ações, na própria logística de distribuição de livros. O distanciamento social retirou as pessoas dos ambientes de leitura, como as escolas, as bibliotecas comunitárias, as livrarias e tantos outros locais.

AUPA – O Brasil já caminhou para mudar a estatística de um país não leitor? Há o risco de esse quadro se tornar um problema crônico? O que é urgente ser feito e por quem? 
Dianne MeloO acesso à leitura é um direito que precisa ser garantido por Políticas Públicas consistentes, bem construídas e realizadas. É essencial que haja um comprometimento dos governos com a implementação dessas políticas e sua continuidade. 

Todos nós sabemos da importância das Políticas Públicas de fomento à leitura para a cultura e para a educação. Uma sociedade leitora pode atingir ótimos índices de desenvolvimento em todos os aspectos da vida pessoal e coletiva. Porém, ainda é necessário que gestores públicos e a sociedade civil se organizem para instituírem os planos e desenvolverem suas ações.

Um exemplo é a Rede LEQT (Leitura e Escrita de Qualidade para Todos), que reúne mais de 80 organizações que atuam no campo da promoção da leitura, da educação e da cultura. A rede entende como fundamental que todos os municípios atuem em favor da realização dessa lei, num esforço que reúne forças vivas da sociedade civil e do Poder Público. 

Muitos municípios já construíram seu Plano Municipal de Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca, instrumento de governança importante para o alcance de objetivos, metas, investimentos e avaliações dos avanços locais, principalmente para as populações mais vulneráveis.

Clique na imagem para acessar o link.

Já a Lei 13.696/18, que institui a Política Nacional de Leitura e Escrita (PNLE), conhecida como Lei Castilho, estabelece quatro eixos estratégicos: (1) democratização do acesso; (2) fomento à leitura e à formação de mediadores; (3) valorização institucional da leitura e do seu valor simbólico e (4) fomento à cadeia criativa e à cadeia produtiva do livro. Pela lei, o Estado brasileiro se compromete, a cada dez anos, a criar um novo Plano traçando e estabelecendo metas e ações para o livro, leitura, literatura e bibliotecas no país.

É preciso monitorar e acompanhar essa política. Nos últimos anos, tivemos muitas interrupções e falta de incentivos. O Itaú Social participa na articulação das Políticas Públicas que garantam o direito ao livro e à leitura e em ações que ampliem as oportunidades de acesso.

Quando os cidadãos se apropriam das práticas literárias e da cultura escrita, eles se tornam também multiplicadores dessas práticas. Da mesma forma, escolas, bibliotecas públicas e comunitárias e organizações da sociedade civil podem se tornar espaços potenciais para compartilhamento de produções autorais, o que reforça identidades locais e garante a formação de leitores no país.

O poderoso mercado do veneno

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Embora o Brasil não esteja na liderança da corrida mundial pela compra e aplicação de vacinas contra a Covid-19, o país é campeão na compra de agrotóxicos. Em relação ao uso dessas substâncias, só perde para a China e os Estados Unidos, que atualmente utilizam mais que a nossa média nacional – um bilhão de litros de agrotóxicos por ano.

Os agrotóxicos, ao contrário das vacinas, são substâncias que servem para matar. São aplicados na agricultura para matar insetos, fungos, plantas, dentre outros organismos considerados pragas agrícolas. Usados principalmente no cultivo de monoculturas em larga escala, como soja, milho, algodão, cana-de-açúcar e pastagem.

Desde 2004, houve um crescimento exponencial de aproximadamente 700% no uso de agrotóxicos no Brasil. Assim como um aumento de impactos negativos sobre a saúde humana e ambiental, relacionados à contaminação gerada por esses produtos tóxicos, afirmam especialistas.

“A contaminação do ar, do solo, das águas superficiais e subterrâneas e de todos os organismos vivos – causada pelo uso indiscriminado de agrotóxicos – ocorre de maneira continuada, silenciosa e invisível”, explica Nelson Lorenz, técnico do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC), com atuação no monitoramento de resíduos de agrotóxicos em alimentos e na água.

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Impactos à saúde e violações de direitos
Denúncias sobre o efeito nefasto dos agrotóxicos à saúde têm sido feitas ao redor do mundo desde 1962, após a publicação do livro Primavera Silenciosa (Silent Sping, Houghton Mifflin, 1962) pela bióloga americana Rachel Carson. No Brasil, inúmeras organizações da sociedade civil vêm fazendo essas denúncias, incluindo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO), e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Capa de "Primavera Silenciosa" (1962), de Rachel Carson.

Segundo nota lançada pelo INCA, o uso intensivo de agrotóxicos “Contamina todas as fontes de recursos vitais, incluindo alimentos, solos, águas, leite materno e ar”, acarretando riscos a toda a população humana e animal. “Dentre os efeitos associados à exposição crônica [i.e. ao longo prazo] a ingredientes ativos de agrotóxicos, podem ser citados infertilidade, impotência, abortos, malformações, neurotoxicidade, desregulação hormonal, efeitos sobre o sistema imunológico e câncer”, destaca a organização.

O Observatório do Uso dos Agrotóxicos e Consequências para a Saúde Humana e Ambiental do Paraná faz um monitoramento constante desta problemática. É formado por um grupo de pesquisadores, incluindo docentes e discentes da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e de outras universidades, além de técnicos de saúde e de organizações civis envolvidas no assunto, conforme explica Guilherme Albuquerque, professor do Departamento de Saúde Coletiva da UFPR e coordenador do Observatório.

Guilherme Albuquerque, professor do Departamento de Saúde Coletiva da UFPR e coordenador do Observatório. Crédito: Divulgação

Albuquerque diz que problemas de saúde associados à exposição direta ou indireta aos agrotóxicos são “Evidenciados principalmente por alterações psiquiátricas, neurológicas, imunológicas, pulmonares, hepáticas, renais, e gastrointestinais”. Ele aponta também que “Outra característica gravíssima dos agrotóxicos é seu efeito carcinogênico”, podendo induzir o desenvolvimento de vários tipos de câncer, como de próstata, mama, pulmões, entre outros. Além de impactar a vida da fauna e flora, a ponto de gerar um desequilíbrio ecológico.

A Organização das Nações Unidas calcula que a intoxicação agravada pelo uso de agrotóxicos seja a causa de morte de aproximadamente 200 mil pessoas todos os anos, principalmente em países em desenvolvimento, como o Brasil. Trabalhadores agrícolas e residentes em áreas rurais são particularmente afetados.

Larissa Milkiewicz, advogada especialista em Direito Econômico e Sustentabilidade, afirma que o uso incorreto dos agrotóxicos pode acarretar danos ao meio ambiente e à saúde humana. “Entende-se como o uso incorreto, por exemplo, a aplicação sem equipamento de proteção individual; a aplicação exagerada sob justificativa de alcançar o resultado químico mais rapidamente; e/ou a falta de conhecimento técnico do usuário acerca das consequências nefastas do uso inadequado do produto”, destaca Milkiewicz.

Larissa Milkiewicz, advogada especialista em Direito Econômico e Sustentabilidade. Crédito: Divulgação

Entretanto, “O uso e o controle dos agrotóxicos, no Brasil, é extremamente irresponsável”, diz Albuquerque. Primeiro, porque os limites máximos de resíduos de agrotóxicos em alimentos e na água, definidos pelas agências reguladoras, desconsideram a ação cumulativa e sinérgica dos mesmos dentro do organismo vivo. Segundo, pois análises mostram com frequência a presença dessas substâncias em níveis acima do limite permitido ou proibidas para uso, explica o pesquisador.

No último Programa de Avaliação de Resíduos de Agrotóxicos, por exemplo, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) encontrou resíduos acima do limite permitido ou substâncias proibidas em 23% dos 4.616 alimentos analisados. Ainda, com base em dados do Ministério da Saúde, foram detectados 27 pesticidas na rede de abastecimento de água de uma em cada quatro cidades brasileiras entre 2014 e 2017. Dentre os pesticidas encontrados, 16 são classificados pela Anvisa como extremamente ou altamente tóxicos, e 21 estão proibidos na União Europeia devido aos riscos que oferecem à saúde e ao ambiente.

Pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Ciência Jurídica da Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI) argumentam que o elevado índice de contaminação das águas do estado de Santa Catarina com agrotóxicos configura uma violação de Direitos Humanos, em particular o direito à Saúde. E, caso providências não sejam tomadas pelas autoridades competentes, a situação pode evoluir para um ecocídio hídrico – ou seja, causar a destruição de ecossistemas de modo que vidas sejam gravemente impactadas, tornando-se um crime contra a humanidade. Para evitar que isso aconteça, é necessário o controle rigoroso do uso e fabricação dos ingredientes ativos e a transparência das informações sobre os riscos dos agrotóxicos para o meio ambiente e a saúde pública, explica Lorenz, mestrando em Ciência Jurídica pela UNIVALI e técnico do MPSC.

Abusos de poder
A falta de rigorosidade e transparência no controle de agrotóxicos no Brasil confere solo fértil para o desenvolvimento do lucrativo mercado do veneno. Pelo menos quatro grandes fabricantes desses produtos – a norte-americana FMC Corp, a dinamarquesa Cheminova A/S, a alemã Helm AG e a suíça Syngenta AG – vendem em solo brasileiro produtos banidos em seus próprios mercados internos, conforme revelou a Reuters. Além disso, aproximadamente um terço da receita, cerca de US$4,8 bilhões (aproximadamente R$25 bilhões), das maiores multinacionais agroquímicas vem de produtos classificados como “altamente perigosos”, que têm como destino principal o Brasil.

Os limites de resíduos de agrotóxicos em alimentos e na água permitidos pela lei brasileira, que são muito superiores do que em outros países, também favorecem as empresas desse setor. “O limite [de resíduos na água potável] estabelecido para o glifosato, agrotóxico mais utilizado no Brasil, é cinco mil vezes superior àquele estabelecido na União Europeia”, aponta Albuquerque. “O estabelecimento de tais limites sofre frequente influência dos representantes do interesse do mercado dos venenos”, diz o pesquisador.

O Geografia do uso de agrotóxicos no Brasil e conexões com a União Europeia (2019) também mostra que na soja brasileira há 200 vezes mais resíduos de glifosato do que o atualmente permitido na Europa. Aliás o glifosato, devido à existência de provas sobre o seu efeito cancerígeno, já foi banido em dezenas de países. No Brasil, de acordo com uma reavaliação feita pela Anvisa em 2019, que indicou que o glifosato não causa prejuízos à saúde, esse agrotóxico continua sendo amplamente usado.

Cleber Folgado, advogado e membro do Fórum Nacional de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos e Transgênicos. Crédito: Divulgação

Segundo Cleber Folgado, advogado e membro do Fórum Nacional de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos e Transgênicos, há uma flexibilização das normas de regulação dos agrotóxicos em processo no país. “O denominado ‘PL do Veneno’, referente ao Projeto de Lei n. 6.299/2002, que contém um conjunto de propostas que mudarão por completo o sistema normativo regulatório tal como o conhecemos, vem sendo posto em prática pelo atual governo”, diz Folgado.

Exemplo disso é o número recorde de liberação de agrotóxicos durante o governo de Jair Bolsonaro (sem partido). Só nos últimos dois anos, quase mil agrotóxicos foram aprovados para uso pelas agências reguladoras no país. Foram 493 produtos aprovados em 2020 – em média, quase 10 agrotóxicos liberados por semana, sendo que 90% das aprovações ocorreram após o início da pandemia – revelou uma investigação conjunta da Repórter Brasil com a Agência Pública.

Estas flexibilizações regulatórias favorecem não só as multinacionais do veneno, como também o agronegócio voltado à produção de commodities para exportação, que consome quase 90% dos agrotóxicos a nível nacional. Em suma, atende aos interesses econômicos e políticos da bancada ruralista.

Outro benefício extraordinário concedido ao setor são as isenções de impostos dadas pelo governo às empresas que produzem e vendem agrotóxicos no Brasil, que somam cerca de R$10 bilhões por ano. Esse valor, além de ser quase quatro vezes o orçamento total do Ministério do Meio Ambiente em 2020, possibilitaria a compra de vacinas contra a Covid-19 para cerca de 100 milhões de brasileiros, contribuindo para imunizar metade da população.

E daí?
O poderoso mercado do veneno precisa ser contestado e controlado. Caso contrário, cada vez mais resíduos de agrotóxicos altamente perigosos à saúde estarão presentes nos alimentos, na água, nos solos e no ar. E, possivelmente, até nas ruas das cidades brasileiras.

Organizações da sociedade civil estão ajudando a denunciar e mobilizar ações contra os riscos do uso excessivo e irregular de agrotóxicos. Em oposição ao PL do Veneno, por exemplo, está em processo o Projeto de Lei n.º 6670/2016, que propõe a criação de uma Política Nacional de Redução de Agrotóxicos. “Trata-se de um projeto de vida, que tem como horizonte o fortalecimento da agroecologia e a construção de mecanismos que possam restringir o uso de agrotóxicos” na agricultura, diz Folgado.

A agroecologia engloba um conjunto de técnicas agrícolas que fazem uso de pouco ou nenhum insumo agroquímico e o controle biológico de pragas. Embora representantes do mercado do veneno defendam que o uso de agrotóxicos é necessário para produzir alimentos em grande escala, há evidências que as práticas agroecológicas aumentam a produtividade agrícola no longo prazo.

“A proposta não envolve o retorno nostálgico a uma agricultura precária, pouco produtiva, não guiada pela ciência”, explica Albuquerque. “O financiamento, o amparo, o desenvolvimento e a disponibilização de tecnologia agrícola livre de agrotóxicos é fundamental e muito beneficiaria nossa produção agrícola, nossa alimentação e nossa saúde”.

Inverter os incentivos financeiros e legais – do uso de agrotóxicos para o não uso dessas substâncias químicas – na agricultura, é uma forma de estimular a adoção de práticas mais saudáveis e sustentáveis no setor. Na França, por exemplo, o governo pagará 2.500 (aproximadamente R$16.000) aos agricultores que abandonarem o uso do agrotóxico glifosato. Já no Brasil, provavelmente caberá à população reivindicar o direito à produção e ao acesso a alimentos com pouco ou nenhum resíduo de agrotóxicos.

“O direito à produção de alimentos saudáveis é um aspecto de outros direitos fundamentais existentes na Constituição Federal, tal qual o direito à Saúde, ao Meio Ambiente e à Alimentação”, diz Folgado. “De modo que, torna-se correto afirmar e reivindicar um direito à agroecologia, o que por sua vez impõe ao Estado a responsabilidade de auxiliar no processo de transição agroecológica, com recursos financeiros adaptados para essa realidade”.

Propósito: para além do discurso

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Milton Friedman, prêmio Nobel da Economia de 1976, tem uma frase conhecida que diz: “O negócio do negócio é o negócio”. O que ele queria dizer é que os negócios e seus executivos deveriam se concentrar no sucesso financeiro das empresas. Se fizessem isso, promoveriam o crescimento econômico do país e, com isso, estariam proporcionando um aumento do bem-estar da população.

Essa linha de raciocínio buscava combater a ideia da responsabilidade social das empresas. Segundo Friedman, se as empresas trabalhassem a questão da sustentabilidade socioambiental, elas tirariam o foco dos seus negócios e, consequentemente, gastariam recursos em atividades não essenciais e, com isso, seriam menos lucrativas, gerando menor eficiência de mercado.

Durante muito tempo, esse pensamento sobre os negócios prevaleceu. Até hoje, há ainda muitos entusiastas deste princípio. No entanto, na última década vem crescendo a consciência entre empresas, investidores e acionistas que, para se manterem lucrativas no longo prazo, as empresas precisam repensar seus impactos no planeta e na sociedade. Por exemplo, em sua carta aberta de 2020 Larry Fink, CEO da Black Rock, uma das maiores gestoras de investimentos do mundo, escreveu que o “Propósito é a engrenagem da lucratividade de longo prazo”.

Diversas ideias, movimentos, conceitos e teorias ganharam força com o fundamento de que os negócios deveriam assumir responsabilidades que vão além da maximização do retorno de seus acionistas. Valor Compartilhado, Capitalismo Consciente, Empresas B, Negócios de Impacto e, mais recentemente, ESG têm como pilar central a ideia de que as empresas devem buscar um equilíbrio entre todos os stakeholders, ou seja, entre todos os seus públicos de interesse e não apenas a centralidade no consumidor e no acionista. Em um mundo hiperconectado e com consumidores empoderados, usando as redes sociais como arena para manifestar seu ativismo, suas causas e insatisfações, as empresas são alvo de dúvidas, questionamentos e estão muito mais pressionadas pelos impactos que causam. 

Movimentos sociais como #metoo, #blacklivesmatter, #aquecimentoglobal e #covid19 passaram das ruas para as redes sociais e atingiram a discussão sobre o papel das empresas.

Com todos esses movimentos e tendências, as empresas passam a incluir em seus discursos essas preocupações. Várias estratégias e iniciativas começaram a ser implementadas para mostrar as ações das empresas na construção de um futuro melhor. O risco é cair em uma armadilha que se fixa apenas no discurso e não em ações efetivas de transformação do mindset e do negócio. Assim, o tão falado propósito aparece como um fim em si mesmo, sem se preocupar com perguntas básicas: por que estamos fazendo isso? Como vamos transformar essa realidade? Qual o papel de cada stakeholder, colaborador, líder e gestor neste processo?

Adotar o propósito por ser algo relevante e uma tendência de mercado não é suficiente. Se ele não vier estabelecido a partir de uma profunda reflexão dos princípios e valores da organização, sobre como ela opera com seus fornecedores, como compra, como vende, qual o impacto na cadeia completa até o descarte, corre o risco de mergulhar em um vazio de intenções sem constância nem coerência. Mais do que isso, podem se transformar em apenas ações sem impacto que reforçam a ideia de green washing ou social washing.

A questão que se coloca é: como dar, efetivamente, centralidade na transformação necessária para que possam ser feitas as mudanças sistêmicas que a sociedade precisa? Em 2018, John Elkington publicou seu recall do conceito de Triple Bottom Line, argumentando que as empresas adotaram o conceito de forma superficial sem buscar uma alteração mais profunda no sistema.

Não podemos mais tratar sustentabilidade, impacto e propósito como se fossem fins em si mesmos. São temas fundamentais para a construção de um futuro menos desigual e mais sustentável, que precisam ser abordados de uma forma mais profunda, entendendo qual seu real impacto. O objetivo desses conceitos e movimentos é causar uma transformação na forma de fazer negócios, liderar, produzir, distribuir e vender. O propósito não pode ser apenas um discurso vazio, mas uma alavanca para real transformação sistêmica.

Referência:
Elkington, J. (2018). 25 years ago I coined the phrase “triple bottom line”. Here’s why it’s time to rethink it. Harvard Business Review, 25. p. 2-5.

Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa.

#QuemCodaBR

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O que é: O principal objetivo desta investigação foi entender a relação percepção X realidade sobre diversidade nas equipes de trabalho em tecnologia do Brasil. Os dados foram coletados entre os meses de novembro de 2018 e março de 2019, somando um total de 693 respondentes válidos em 21 estados brasileiros.

Quem fez: PretaLab e ThoughtWorks.

Autores: PretaLab e ThoughtWorks.

Ano: 2019.

Clique aqui para acessar a pesquisa.

As Empreendedoras e seus Negócios 2020

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O que é: O estudo anual “As empreendedoras e seus Negócios” aborda como as mulheres gerenciaram seus negócios no cenário adverso trazido pela pandemia da Covid-19. 

Quem fez: Instituto RME com realização do Plano CDE, apoio da RME e ONU Mulheres.

Autores: Instituto RME e Plano CDE.

Ano: 2020.

Clique aqui para acessar a pesquisa.

PretaLab: por mais mulheres negras na tecnologia

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O ambiente de empreendedorismo de impacto é majoritariamente masculino, branco e está concentrado na região Sudeste brasileira. Esta é a análise do segundo Mapa de Negócios de Impacto Social+Ambiental da Pipe.Social publicado em 2019, com base em mais de 1000 negócios. 

O mesmo estudo revela que, dos negócios sociais espalhados pelo Brasil, apenas 34% têm mulheres como fundadoras. Ao aplicar a lente racial, 26% dos empreendimentos sociais são comandados por pessoas que se autodeclaram pretas e pardas.

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Este descompasso na liderança de negócios de impacto também é um padrão fora do ecossistema. Alguns setores do mercado de trabalho são conhecidos pela predominância do público masculino. É o caso da área de tecnologia.

A pesquisa Quem Coda Br, desenvolvida pela PretaLab e a ThoughtWorks em 2019, traz os dados sobre a diversidade deste mercado. Dos 693 respondentes que atuam no setor de tecnologia, 68,3% são do sexo masculino, 31,5% são do sexo feminino e 0,3% intersexo. 

Entre os brasileiros, a população negra representa 53,9%, mas isso não se reflete no mercado tecnológico. Ainda segundo o QuemCodaBr, apenas 36,9% dos respondentes se declararam como pretos e pardos. 

Apesar de a pesquisa não ter um recorte interseccional entre raça e gênero, as mulheres negras estão presentes nos piores indicadores sócio-econômicos do Brasil. Mesmo quando cursam o Ensino Superior em uma universidade pública, elas ganham R$2.903 – cerca de 159% menos do que um homem branco nas mesmas condições, segundo o levantamento “Diferenciais Salariais por Raça e Gênero para Formados em Escolas Públicas ou Privadas”

Deste cenário desigual, nascem iniciativas como a PretaLab, que é liderada por uma mulher negra e está dentro do guarda-chuva da organização social Olabi, dedicada a democratizar a tecnologia para a transformação da sociedade.

“Resolvemos criar esse projeto específico por entender que as mulheres negras, além de representar boa parte da população brasileira – cerca de 28%, são as que menos estão ocupando esses espaços de poder em empregos formais ou liderando em tecnologia”, afirma Silvana Bahia, coordenadora da PretaLab e codiretora executiva do Olabi.

Em 2017, quando a PretaLab foi criada, a discussão sobre mulheres negras dentro do mercado de tecnologia não era posta, segundo Silvana. 

Silvana Bahia, coordenadora do PretaLab e codiretora executiva do Olabi. Crédito: Divulgação

“Ouvimos críticas de que estávamos tentando fazer algo que é dentro do segmento do segmento, mas entendemos que não existe causa maior e mais urgente no Brasil do que a racial. E, quando se soma com a questão de gênero, ela vira o que chamamos de interseccionalidade de opressão”, completa a coordenadora da PretaLab.  

A PretaLab se posiciona como um projeto-causa, reunindo diversas ações para colaborar com o protagonismo das mulheres negras no setor de tecnologia. Após fazer um levantamento da área, em 2018, o programa começou a dialogar com empresas de tecnologia interessadas em ampliar a diversidade racial nas equipes. 

A iniciativa trabalha em um cenário adverso, em que apenas 0,4% das mulheres negras ocupam posições no quadro executivo das companhias, de acordo com pesquisa do Instituto Ethos. 

“As empresas entendem que o selo da diversidade agrega valor, mas o quanto elas investem isso? Diversidade não vem pronta. A diversidade precisa ser construída da porta pra dentro, não é uma consultoria pontual – afinal, quais cargos essas pessoas ocupam? E sabemos que é muito raro ver mulheres e, especialmente, mulheres negras”,

reflete Silvana Bahia, coordenadora da PretaLab e codiretora executiva do Olabi.

Para dar luz às profissionais negras no mercado, o projeto lançou a plataforma Perfis, que tem como objetivos permitir que as mulheres se conheçam, já que o projeto tem uma rede de 900 mulheres no Brasil, e colaborar para a divulgação dos trabalhos dessas mulheres.

“Também queremos dar uma resposta ao mercado que diz que não há mulheres qualificadas. Hoje, temos 410 perfis cadastrados. Fazemos campanhas para termos mais pessoas na rede”, explica Silvana. Outra atividade da PretaLab tem sido os ciclos formativos de três meses para profissionais que já estão inseridas na área. Na última edição, o ciclo contou com 132 inscrições de mulheres negras de todas as regiões do país.

“Temos planos de fazer formações mais densas para mulheres que querem iniciar neste universo. Escolhemos, neste primeiro momento, mulheres que já estão inseridas no mercado, porque existe falta de estímulo para continuar”, reflete a coordenadora.

Com a pandemia da Covid-19, o trabalho da organização mudou e as formações on-line foram implementadas. 

“Nosso trabalho acabou se expandindo e foi uma oportunidade de dialogar com as mulheres fora do eixo Rio-São Paulo, já que 50% das vagas foram para mulheres de fora do Sudeste. Entendemos como as mulheres chegavam às formações cansadas, então, aprendemos sobre acolhimento. Percebemos que a competência emocional é fundamental”, explica Silvana.

Apesar do cenário desigual ainda mais aprofundado pela pandemia, a coordenadora da PretaLab mantém o foco no objetivo principal de trabalhar o protagonismo das mulheres negras, especialmente no campo da educação para além da formação técnica. 

“Vemos o mercado de tecnologia crescendo, então acreditamos que a ponte entre vagas não preenchidas e mulheres negras que querem trabalhar nesse setor é muito possível. Sendo otimista, o cenário ideal é que elas sejam empregadas nesse mercado. O otimismo é uma ferramenta para enfrentar esses tempos tão nebulosos”, afirma Silvana.

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Jaqueline Goes de Jesus: “Não consigo ver um futuro melhor para o Brasil se o boicote à ciência continuar acontecendo, seja pelo descrédito, seja pelo negacionismo”

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Em 2020, aos 30 anos, a cientista Jaqueline Goes de Jesus ficou conhecida após ser a responsável por coordenar a equipe que sequenciou, em 48 horas, o genoma do SARS-CoV-2 no início da pandemia no Brasil.

Laureada com o Prêmio Capes de Teses (2020), Jaqueline mantém uma rotina intensa de trabalho na linha de frente para o enfrentamento da Covid-19. E, além disso, encontra tempo para ajudar a popularizar a pesquisa científica por meio de entrevistas e das suas redes sociais. Com mais de 160 mil seguidores no Instagram e outros 15 mil no TikTok, ela produz e publica vídeos educativos.

Soteropolitana de nascimento, Jaqueline graduou-se em Biomedicina pela Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, é mestre em Biotecnologia em Saúde e Medicina Investigativa pelo Instituto de Pesquisas Gonçalo Moniz – Fundação Oswaldo Cruz e doutora em Patologia Humana e Experimental pela Universidade Federal da Bahia.

Integrante do ZIBRA Consortium e do ZIBRA ProjectZika in Brazil Real Time Analisys, projeto itinerante de mapeamento genômico do vírus Zika no Brasil, ela realizou estágio de doutoramento sanduíche na Universidade de Birmingham (Inglaterra), desenvolvendo e aprimorando protocolos de sequenciamento de genomas completos pela tecnologia de nanoporos dos vírus Zika, HIV, além de protocolos para sequenciamento direto do RNA.

Como bolsista FAPESP, em nível de pós-doutorado, atua no Instituto de Medicina Tropical de São Paulo – Universidade de São Paulo, no âmbito do CADDE – Brazil-UK Centre for Arbovirus Discovery, Diagnosis, Genomics and Epidemiology

Em entrevista à Aupa, Jaqueline falou sobre sua trajetória pessoal e profissional e as dificuldades que os pesquisadores brasileiros têm encontrado, bem como o papel do Sistema Único de Saúde e o futuro do Brasil, diante de um cenário político, social e econômico tão desafiador.

AUPA – Quais incentivos você recebeu, durante sua trajetória, para dedicar-se à pesquisa científica?
Jaqueline Goes de Jesus – Recebi incentivos de várias fontes. Os meus pais foram minha fonte primária, desde a base do Ensino Fundamental até o Ensino Médio e posteriormente. Eles  me incentivaram a estudar em uma escola técnica, que, embora gratuita, exige recursos do aluno para acompanhar o curso; incentivaram que eu estudasse uma segunda língua e, quando eu entrei na Graduação, foi devido a recursos deles, que pagaram todas as mensalidades. Minha mãe sempre me disse para não desistir, mesmo diante das dificuldades na Faculdade e nos grupos de estudo. Durante o Mestrado, o Doutorado e também no Pós-Doutorado pude contar com uma série de incentivos, que foram importantes tanto financeiramente quanto emocional e moralmente. Tive apoio das agências de fomento, como a FAPESP e a CAPES, tanto no Mestrado como no Doutorado, inclusive para o estádio de Doutorado Sanduíche.

Destaco também duas pesquisadoras: Marilda Gonçalves (diretora da Fiocruz Bahia), que me acolheu num dos momentos mais difíceis  na realização  do projeto do Doutorado e, atualmente, contei com Valéria Borges (pesquisadora e docente da Universidade Federal da Bahia), que me incentivou a participar da concorrência das premiações. Sem ela eu nem teria concorrido.

AUPA – Comente sobre os cortes nas bolsas de fomento para pesquisa realizados, sobretudo, pelo Governo Federal, bem como as demais agências de incentivo à pesquisa no Brasil?
Jaqueline Goes de Jesus – Vejo o corte de bolsas do Governo Federal como um ataque à Ciência e à toda a produtividade que tem acontecido.  Esses cortes baseados em ideologias que não existem em relação às universidades federais, bem como declarações sobre balbúrdia ou de que os pesquisadores aproveitam-se indevidamente das bolsas, são absurdos. O que vivemos durante a pandemia é reflexo desses cortes, pois quando são cortadas as bolsas, retira-se o benefício recebido pelo trabalho dos estudantes e são eles que fazem as pesquisas acontecerem. São os estudantes de Iniciação Científica, Mestrandos e Doutorandos que fazem as pesquisas serem, de fato, efetivas no Brasil.

Corta-se não só o sustento do pesquisador, mas uma trajetória de conhecimento científico que ainda não está completa e que daria muitos frutos se o investimento fosse continuado.

AUPA – Como você vê a atuação de mulheres líderes na Ciência hoje?
Jaqueline Goes de Jesus – Vejo a atuação de mulheres na Ciência como um grande passo para que tenhamos cada vez mais ações voltadas ao público feminino nessa área. Ter mulheres em posições de decisão nos ajuda a pensar medidas, programas, incentivos voltados para mulheres, porque são realizados pela ótica feminina. Isso é importantíssimo para que a equidade de gênero seja estabelecida cada vez mais rápido e, mais do que isso, para que exista qualidade de vida e melhores condições de trabalho para todas as mulheres.

AUPA – O Instituto Butantan tem 71% de seu corpo científico formado por mulheres. Acredita que esse fato foi importante na corrida para a produção da vacina contra a Covid-19?
Jaqueline Goes de Jesus – Eu acredito que o papel da mulher na Ciência é muito importante, mas não colocaria o peso ou o mérito nas mulheres para que a vacina ficasse pronta. O Instituto Butantan tem uma história de louvor em relação à produção de vacinas, tem um know-how que talvez nenhum instituto brasileiro tenha. É um destaque na produção de vacinas e, apesar da presença de tantas mulheres na atuação direta – sem dúvida, isso é muito louvável e foi um diferencial para esse momento de pandemia – tem muita experiência e, acredito que teríamos uma produção de vacinas igualmente efetiva, mesmo sem esse percentual tão significativo.

AUPA – Na sociedade, de modo geral, atribui-se ao cientista o estereótipo do homem branco e bem-sucedido. Acredita que precisamos falar mais sobre representatividade?
Jaqueline Goes de Jesus – Sim, precisamos falar sobre representatividade. Esse estereótipo não acontece somente no Brasil, mas em todo o mundo. A imagem do cientista homem e bem-sucedido está nos livros e filmes e permeia nosso imaginário desde crianças. Precisamos, sim, falar sobre representatividade feminina negra, porque existem, ainda que poucas, muitas mulheres produzindo conteúdos importantíssimos para a Ciência e essas mulheres não têm os holofotes da mídia, como aconteceu comigo. Eu trabalho como pesquisadora há mais de 11 anos e só neste último ano tive o reconhecimento do meu trabalho. Há muitas mulheres trabalhando para trazer progresso para o Brasil que não são notadas, nem reconhecidas. A mídia exerce um papel importantíssimo para que as mulheres possam ser conhecidas, apoiadas e valorizadas pela sociedade.

AUPA – Quais as principais dificuldades de um cientista na linha de frente durante a pandemia provocada pela Covid-19?
Jaqueline Goes de Jesus – As principais dificuldades são a falta de estrutura laboratorial para trabalhar e a falta de investimentos na Ciência. Obviamente, há vários desdobramentos, sendo o principal deles a estrutura, ou seja, a questão logística de aprovisionamento de insumos para o trabalho em si. Durante a pandemia, tivemos muita dificuldade para obter alguns reagentes que são importantíssimos para a pesquisa, a realização dos experimentos e a produção científica. Não haver um fluxo de importação e liberação dos materiais e reagentes necessários para a realização dos testes e do sequenciamento tem atrapalhado bastante nossa rotina. Este cenário é vivido há muito tempo e se evidenciou ainda mais durante a pandemia. Além disso, é muito complicado trabalhar diariamente enfrentando comentários, medidas e eventos contrários à atuação do cientista.

O negacionismo é um desafio que se intensificou a partir de 2019, incentivado pelos nossos governantes. A população acaba influenciada por declarações, pelo comportamento dos líderes e isso tem atrapalhado nosso trabalho.

É importante lembrar que o comportamento da população em relação à Covid-19 impacta diretamente a quantidade de trabalho que desenvolvemos e impacta o esforço que é preciso para compreender e mitigar o que acontece em relação ao novo Coronavírus no Brasil e no mundo. O exemplo mais evidente disso são as novas variantes do vírus que estão se dispersando numa velocidade muito maior do que conseguimos rastrear e prevenir. O mesmo acontece em relação às vacinas, cuja velocidade de imunização das pessoas é muito aquém daquela com a qual o vírus se dispersa, sobretudo devido às novas variantes que surgiram a partir do comportamento populacional, da alta taxa de transmissão e, por consequência, do acúmulo de muitas mutações.

AUPA – Vimos que, para o desenvolvimento da vacina, as inovações sociais foram um diferencial. Como percebe a efetividade destes avanços?
Jaqueline Goes de JesusNão acho que chegamos a um nível de inovação social que  cause impacto na área da saúde. A inovação existe, sim, mas ainda está muito aquém do que deveria ser para trazer benefícios no desenvolvimento de medicamentos e da própria vacina, de modo geral. São avanços importantes, mas ainda precisamos de muito mais para que se atribua um diferencial significativo a longo prazo na formação de pesquisadores, da pesquisa e para a melhoria da qualidade de vida da população em geral.

AUPA –  Embora o objetivo seja o de que a vacina tenha ampla distribuição em toda a rede pública, os investimentos sociais privados foram muito importantes para levantamento de recursos. Acredita que a parceria entre os setores público e privado, no que se refere à pesquisa científica, tem tido resultados positivos?
Jaqueline Goes de Jesus – A parceria público-privada precisa se fortalecer muito mais no Brasil, pois impacta diretamente na produção da pesquisa científica brasileira. Esta parceria foi muito importante no momento da pandemia, mas ainda é incipiente, pois não existe uma conduta do setor privado em ter como prioridade o investimento em pesquisa científica. Eu acho que o Brasil só perde com isso, visto que grande parte dos países que avançam em produtividade contam com iniciativa privada e, quando isso não acontece, o Estado atua decididamente.

Quando se leva a sério a pesquisa científica, colhe-se os frutos a médio e longo prazos. Isso ficou muito evidente durante a pandemia.

AUPA – Por outro lado, a infraestrutura do SUS garante que a vacina chegue a todos os lugares, até os mais remotos. Concorda que o SUS é essencial para garantir a saúde como direito básico no Brasil?
Jaqueline Goes de Jesus – O SUS é um pilar fundamental para a saúde no Brasil. Falo isso de um lugar que não é meu lugar de fala, pois não sou usuária do SUS diretamente e sei que muitas pessoas de classe média, que tem planos de saúde também não são. Mas aprendi a ver o SUS muito além do atendimento primário, ou seja, o SUS não presta atendimento somente em postos de saúde e hospitais ou por meio dos médicos de família. Engloba a pesquisa, na qual estou inserida e a vigilância, para que possamos nos antecipar em relação a uma série de surtos que acometem o Brasil há bastante tempo e são mitigados devido à ação do SUS.

Por isso, é um dos pilares mais importantes do Brasil e o sucateamento do SUS, com a tentativa de destruí-lo, é realmente um tiro no pé. Se deixar de existir, grande parte da população vai ficar sem atendimento básico e vamos sofrer com muito mais frequência com epidemias e surtos que podem reaparecer.

AUPA – O impacto social vindo do desenvolvimento científico é evidente. Mas, quais serão os rumos do Brasil quando parece acontecer um boicote à Ciência?
Jaqueline Goes de Jesus – Se o Brasil continuar no caminho que observamos atualmente, a tendência é que o País volte a figurar o ranking dos países mais pobres, que não consegue ultrapassar a linha da miséria e da falta de Educação. Investir em Ciência não é somente investir em cientistas individualmente, mas nos benefícios que a Ciência traz para a sociedade, pois os cientistas compartilham conhecimentos que beneficiam a todos. Não consigo ver um futuro melhor para o Brasil se o boicote à Ciência continuar acontecendo, seja pelo descrédito, seja pelo negacionismo, seja pelos cortes de recursos que obviamente impactam diretamente no nosso trabalho.

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Senhoras dos tempos

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Obra da artista brasileira Maria Auxiliadora da Silva (1935-1974). A tela faz parte do núcleo temático "Rural". s/d.

Vou escrever do meu lugar de falar, uma mulher, negra e periférica, que nesse período de escritas aqui na Aupa vem tentando dialogar a partir do lugar que pisa. Digo ainda mais: do lugar que muitas das vezes é invisibilizada. É mês de março, “mês da mulher”, e ter um marco temporal, ainda no século XXI, se faz necessário. 

Já inicio essa troca questionando se estamos inseridas, de fato, no ecossistema de negócios de impacto? Qual é mesmo o nosso lugar dentro deste espaço? Quais possibilidades ocupamos, por onde temos que ser fé e fel para seguir, quais forças precisamos ter para nos fazer ouvir? 

Em 2020, escrevi um texto que falava que precisamos mergulhar de cabeça num ecossistema de NIPs que seja nosso, do nosso jeito brasileiro de ser, mas será que neste formato também teremos vez e voz? Difícil saber, os dias têm sido “atribulados”, como diria minha mãe, com vários negócios/empreendimentos sendo fechados, outros indo buscar apoio em diferentes frentes para se manterem pulsantes. E quem soma e quem some neste momento? Quantas manas conhecemos e que estão agora buscando manter o sonho ativo, mas com a geladeira cheia de água? Quantas? Quem somos neste tempo tão hostil?

Nesse mês de março, me perguntei, diversas vezes, sobre qual a cara do ecossistema de negócio de impacto feminino, quais os gêneros que temos, quais e quantas portas foram sendo abertas, quais institutos e fundações estão preparados para recebê-las, sem a falsa ideia de empatia, solidariedade e/ou mão estendida?

Queria trocar tantas ideias, mas preciso ser direta: neste momento, não estamos tendo tempo para ficar só nos questionamentos, afinal, a reflexão real dos tempos são as senhoras dos tempos, que são nossas mulheres que desde sempre estiveram e estão na linha da sobrevivência das suas famílias e das suas comunidades. Empreender e sobreviver nas gerações anteriores, ter um filho ou filha na faculdade (nos últimos 30 anos) também era uma premissa de sobreviver. Hoje, de modo especial 2020/21, parece que empreender é algo diferente pelo glamour e, principalmente, pelo sonho americano implantado em solo brasileiro (faça você mesmo). A linha é fina, porque entre fazer você mesma e explorar uma outra mão de obra é um passo. Vejo a romantização do empreendedorismo: senhoras e senhoras negras em meio ao caos buscando sobreviver, assim como lá no início nossas ancestrais africanas e afro-brasileiras criaram soluções genuínas, a partir de seus conhecimentos empíricos, para garantir o mínimo para sua sobrevivência e a compra de sua liberdade e da liberdade dos seus. Há séculos a narrativa não é contada por essas mulheres, afinal há sempre um homem, uma empresa ou uma organização que acha que as representa. 

Se fôssemos fazer um retrato do momento feminino do Brasil, considerando o machismo e  o sexismo que deixam morrer, qual seria esse registro? Já olhou o farol hoje? Já contabilizou quantas mulheres estão nestes locais vendendo água, chocolate, bala, ora sozinhas, ora com a família inteira? Já visualizou uma fila de espera pela cesta básica ou por um marmitex? Já olhou nos olhos destas pessoas, já encarou uma mãe que precisa levar algo para suas crias se alimentarem? Esse é o retrato do momento na maioria ou na totalidade das periferias do Brasil, dizer que mulheres nessa crise conseguiram criar oportunidades em cima das suas dores é uma falácia sem tamanho, é jogar com as nossas vidas, é criar um véu de fumaça que logo mostrará a cara. Dos milionários do Brasil que ganharam ainda mais com a crise sanitária que vivemos, quantas são mulheres? Me aponte uma, pois nem aqui somos representadas.

Entender a diferença entre representação e representatividade é o que nos difere nos dias atuais, entender a visão de público consumidor e potencialização de um público consumidor consciente é  o que difere se seu negócio visa apenas o lucro de uma forma florida de dizer ou se ele realmente utiliza as trocas comerciais para potencializar a cadeia produtiva onde está envolvido.

Da mesma maneira que uma baiana potencializava seus pares e clientes em alguma rua do bairro do Pelourinho e, além do lucro obtido, também tecia alianças e redes para o povo o qual ela era representante.  Esse é o X da questão entre o empreendedorismo social e a educação. O que une os dois é que são formas de investir capital financeiro e capital cultural para potencializar uma região ou população. No entanto, o que ainda percebo pelos lugares onde os meus pés pisam, muitas vezes, é que só estão diminuindo a pirâmide para que possam ficar no topo – e no topo teremos sempre os mesmos, as mesmas faces, os mesmos gestos e atitude, nada muda no jogo. 

Estou pessimista nesse momento, mas buscando ouvir o meu interno para compreender os passos de quem veio antes e tecer possibilidades de reflexão coletiva. Mas não está fácil sobreviver com os meus ideais militantes, com a minha visão humanizadora das relações, em meio ao caos, as suposições e certezas se distanciam e dão muita vazão às dúvidas.

Quais são as suas questões, senhoras dos tempos? 

Legenda da capa: obra da artista brasileira Maria Auxiliadora da Silva (1935-1974). A tela faz parte do núcleo temático “Rural”. s/d.

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Este texto é de responsabilidade da autora e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa.

Obesidade infantil: o que está no entorno da Política Pública sobre este tema?

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As autoridades internacionais de Saúde, incluindo a Organização Mundial da Saúde (OMS), concordam que a obesidade infantil é um dos problemas de saúde pública mais sérios do século XXI e afeta a maioria dos países desenvolvidos e em desenvolvimento. A prevalência da obesidade infantil está aumentando a uma taxa considerada alarmante. Os números afirmam essa constatação. No Brasil, dados do Ministério da Saúde apontam que 3 de cada 10 crianças de 5 a 9 anos atendidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) estão acima do peso, um total de 4,4 milhões. Do total de crianças, 16% (2,4 milhões) estão com sobrepeso, 8% (1,2 milhão) com obesidade e 5% (755 mil) com obesidade grave. Abaixo de 5 anos, são 15,9% com excesso de peso.

E a pandemia causada pelo novo coronavírus, a partir da recomendação de isolamento social, teve um efeito negativo na saúde, pois houve um aumento dos índices da obesidade infantil.  Foi o que apontou a Pesquisa da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), em artigo publicado no Jornal de Pediatria

Mas como a sociedade civil pode, em conjunto com Políticas Públicas, atuar nesse sentido? Quais as ações que estão sendo feitas? E como os pais e a sociedade podem cobrar uma agenda de prevenção da obesidade infantil no Brasil? Estas são algumas das perguntas que guiam esta reportagem.

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Prevenção da obesidade infantil e distribuição de renda
A obesidade é definida como excesso de gordura corporal e o melhor tratamento para a obesidade infantil é a prevenção. E isso significa atuar nos primeiros anos de vida, estabelecendo hábitos de vida saudáveis, alimentação balanceada e promoção da atividade física. Mas como fazer isso, quando os fatores sociais que contribuem para a obesidade infantil vão muito além do controle da criança?

O Instituto Wellesley, dos Estados Unidos, aponta que as pessoas que enfrentam a pobreza ou outras formas de desigualdade e exclusão social têm pior saúde. As pessoas mais vulneráveis têm maior probabilidade de não ter acesso a serviços e apoios que possibilitem uma boa saúde. Por exemplo, as taxas de obesidade são mais baixas em bairros com acesso a locais que vendem alimentos nutritivos. Ainda assim, as comunidades mais pobres tendem a ter mais restaurantes fast-food e menos opções de venda de alimentos naturais para serem comprados.

Segundo a pesquisa “Reducing Childhood Obesity in Ontario through a Health Equity Lens”, organizada pelo Instituto Wellesley, “Um dos maiores desafios para lidar com as iniquidades em saúde é que as crianças sofrem um impacto particularmente negativo”, de acordo com a avaliação de Steve Barnes, analista de políticas do Instituto. Vale ressaltar que a pesquisa tem como recorte o estado canadense de Ontário. Logo, crianças em famílias e bairros mais pobres têm maior probabilidade de ter problemas de saúde e os resultados negativos para a saúde continuam ao longo de suas vidas. A desigualdade social também colabora para a piora da saúde de crianças aqui no Brasil. É o que afirma o estudo “Crianças, alimentação e nutrição: crescendo saudável em um mundo em transformação” da Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância). As crianças pobres são cada vez mais afetadas devido à ingestão de “calorias baratas”, como a farinha e o açúcar.

Maiara Brusco, doutora em Nutrição e assistente de pesquisa do Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (ENANI). Crédito: Divulgação

Fato é: a obesidade infantil é um problema de saúde pública.  Assim, o trabalho em conjunto entre a população, os profissionais de saúde e os gestores públicos é muito importante para combater o seu aumento. É o que alerta Maiara Brusco, doutora em Nutrição e assistente de pesquisa do Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (ENANI), instituição que realiza pesquisas para analisar as práticas de aleitamento materno, consumo alimentar, além do estado nutricional de bebês e crianças.

“Isso vai muito além do consumo alimentar, tem relação com a renda, acesso ao saneamento básico, assim como acesso aos alimentos de qualidade e informação”, pontua.

Ou seja, os determinantes sociais da saúde, como desemprego, racismo e acesso inadequado aos serviços sociais, interagem e se reforçam no combate da obesidade infantil.

Ações em conjunto dos pais e sociedade civil
Acerca da obesidade infantil, há os seguintes fatores: o componente físico, uma vez que esta doença impede a criança de desenvolver atividades de forma normal com o restante dos amigos e colegas de escola; e risco de outros tipos de doenças derivadas da obesidade, como diabetes, hipertensão ou problemas coronários, entre outras.

Logo, os pais que têm um papel importante nessa atuação, também enfrentam dificuldade em montar um cardápio e oferecer algo mais saudável aos filhos, segundo as nutricionistas Debora Narana Chaves e Jaqueline Augustin Prates, da Alecrin Educação Nutricional. “A falta de tempo é sempre a maior desculpa dos pais sobre a alimentação dos seus filhos. A praticidade de alimentos industrializados ricos em gorduras e açúcar é algo diário na mesa das famílias brasileiras”, explicam.

Debora Narana Chaves e Jaqueline Augustin Prates, da Alecrin Educação Nutricional. Crédito: Divulgação

Vale dizer que o acesso ao fast-food contribui para esse cenário. Por isso, é importante essa observação dos pais e da rede de apoio, segundo a nutricionista Jaqueline Augustin Prates. “As crianças só vão conhecer esse tipo de alimento se um adulto lhe apresentar. É fundamental que os pais evitem que esse tipo de alimento seja substituído por uma refeição completa e equilibrada nutricionalmente”, ressalta.

A nutricionista explica ainda que os pais podem contribuir com o próprio ambiente escolar.  “É possível exigir que as escolas tenham um nutricionista que faça um cardápio equilibrado nutricionalmente e que realize supervisão semanal. É necessário também inserir atividades que envolvam as crianças com atividades e treinamento aos professores para que tenham esse incentivo diário dentro das escolas e nas suas casas”.

Monica Lopes, presidente da Associação Alagoana de Nutrição (Alnut), filiada à Associação Brasileira de Nutrição (ASBRAN) e professora na Universidade Federal de Alagoa. Crédito: Divulgação

Por isso, a importância de um trabalho em conjunto entre a sociedade civil e o Poder Público, como enfatiza a Monica Lopes, presidente da Associação Alagoana de Nutrição (Alnut), filiada à Associação Brasileira de Nutrição (ASBRAN) e professora na Universidade Federal de Alagoas: “Compete aos profissionais de saúde e ao Poder Público promover a importância dos bons hábitos alimentares, principalmente durante os primeiros mil dias de vida da criança  – período este que vai desde a gestação, passa pela lactação e continua até os dois anos”.

Políticas Públicas atuantes no combate à obesidade infantil
Nesse sentido, o redimensionamento de políticas de nutrição é de extrema importância no combate à obesidade infantil. Entre as ações de Políticas Públicas no Brasil que contemplam o enfrentamento está o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que é regulamentado pela Lei nº 11.947 de 16 de junho de 2009 e atende aos alunos matriculados na Educação Básica da rede pública de ensino.

Há também uma agenda de prevenção da obesidade infantil no Brasil. O Unicef trabalha com parceiros para desenvolver e implementar intervenções estratégicas com foco na saúde. Por sua vez, o Ministério da Saúde tem lançado campanhas e divulgado materiais com o objetivo de prevenir a obesidade infantil no Brasil. Entre elas está a campanha 1, 2, 3 e já! Vamos prevenir a obesidade infantil, que tem como objetivo incentivar as crianças a seguirem três passos simples para evitar o sobrepeso: a ingestão alimentação saudável, a prática de atividade física e as brincadeiras longe das telas e da TV, celular e jogos eletrônicos. Além disso, em muitas escolas do país há aulas de aprendizagem nutricional, onde os alunos aprendem a ler os rótulos dos alimentos.

A boa notícia é que trata-se de um problema que pode ser evitado. Sem dúvida, parte importante da tarefa recai sobre as famílias, a começar pela importância do aleitamento materno precoce e exclusivo durante pelo menos os primeiros seis meses de vida.

O que ainda pode ser feito? Os serviços de creches e a Educação Infantil podem incorporar a observância rigorosa das diretrizes de alimentação saudável aos padrões de qualidade dos atendimentos. E mais: intervenções para apoiar pais, mães e cuidadores familiares nas tarefas de cuidar dos filhos devem dar mais atenção à questão nutricional como uma chave essencial para um bom desenvolvimento.

Sugestão de leitura

Guia Alimentar para a população brasileira

Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE)

Agenda de prevenção da obesidade infantil no Brasil Unicef

Muito Além do Peso: O documentário Muito Além do Peso (Way Beyond Weight) aborda como a má alimentação está adoecendo crianças brasileiras, que cada vez mais cedo apresentam problemas cardíacos, de respiração e até mesmo diabetes.

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