Home Blog Página 16

O que não te contaram sobre impacto?

0

Esse é o tema-título da nova série de podcast da Aupa,
o Aupacast,
que estreou em junho.

A ideia é simples, mas potente:
entrevistar/dialogar/ouvir 10 empreendedores(as)
de negócios de impacto e afins,
que estejam mais distantes dos holofotes ecossistêmicos
e que dividam conosco babados, perrengues e bastidores
das suas trajetórias pra lá de desafiadoras.

Já há boa disponibilidade de podcasts no setor de impacto e afins,
mas poucos buscam explorar as entranhas dos negócios,
a falar sobre a pia cheia de louça suja de suas cozinhas, 
a pedir para que dividam seus dilemas, 
enfim, enfatizar o lado humano e um pouco de vida real que
estes empreendedores(as) trazem consigo em suas jornadas.

Propus esse projeto à Aupa,
que, prontamente, topou a parada.

Trabalho voluntário,
custos enxutos,
algo caseiro e na raça

uma agradável surpresa!

Tantos empreendedores(as) abertos ao diálogo,
abertos a mostrar as cozinhas de suas organizações,
a dividir suas histórias de dificuldades.

Não se trata de um podcast de choros e lágrimas,
afinal, de baixo astral, já estamos todos imersos,
muito pelo contrário.

Papo leve, conversa fluida,
trazendo temas importantes,
que, infelizmente, não costumam ser abordados aqui e acolá
em nosso ecossistema de impacto.

Outras vozes, outros sotaques,
outros pitches,
outras narrativas.

Mas, em comum,
todos compartilhando do mesmo vínculo visceral
com esse tal de impacto.

Ao propor essa ideia de projeto à Aupa,
entendemos que esse tipo de conteúdo
tem muito a ver com a proposta da Aupa,
Jornalismo independente de e sobre impacto,
explorando outras plataformas e formatos.

E, pra concluir,
convém lembrar que
parcerias para viabilizar projetos como este
são sempre bem-vindas.

Sua empresa, sua fundação, sua marca quer apoiar e assinar este projeto?

Chega mais,
será bem-vindo(a).

Afinal,
o que não te contaram sobre impacto?

Tanta coisa. Que bom!

Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa.

Camila Aloi: “A construção de ações de tecido social são necessárias para que se acabe com o grande problema que é a desigualdade social”

0

A pandemia deixou ainda mais visível quem já estava vulnerável. Entre eles, a população negra, as mulheres e os jovens das periferias. Mas a crise advinda do novo Coronavírus também mostrou que a mobilização do brasileiro chegou ao seu ápice no que se refere às doações. Inclusive, o movimento de doações para o combate à pandemia acaba de alcançar a marca dos R$ 7 bilhões arrecadados no Brasil, de acordo com a Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR). Ainda, segundo a edição 2020 do relatório “Brasil Giving Report: Um Retrato da Doação no Brasil“, oito em cada dez brasileiros (82%) acreditam que as organizações da sociedade civil (OSCs) apresentaram um impacto positivo no país no último ano. 

Para entender sobre o contexto das doações e dos investimentos de impacto no país, Aupa conversou com Camila Aloi, gerente de relacionamento institucional no GIFE, rede sem fins lucrativos que investe em projetos com finalidade pública. 

Camila explica sobre o caminho das doações e como o fortalecimento das relações entre o setor privado, as organizações da sociedade civil e o Poder Público são um tripé fundamental para o combate às desigualdades. Leia a entrevista completa.

AUPA – As doações são feitas para resolverem urgências, como a fome. O investimento de impacto é de médio e longo prazo e serve para resolver problemas socioambientais de determinado território ou comunidade. Comente sobre essas diferenças e sua importância na sociedade, por favor.
Camila Aloi – Para essa questão, começo trazendo um histórico desta ação no Brasil. Na década de 1980, quando saímos de um período de ditadura (1964-1985) e começamos um espaço democrático no país, este momento foi de revigoração dos espaços sociais e da ação social brasileira.

Com a fundação do GIFE em 1995, foi cunhado o termo “investimento social privado” para pontuar o repasse de recursos privados e voluntários, com a finalidade de bem público em ações planejadas, de longo prazo e com critérios de avaliação de seus resultados. Naquele momento queríamos nos diferenciar da filantropia, que era vista no Brasil como algo assistencialista, pontual e de pouca estratégia e dimensão. 

O conceito de investimento social privado é um repasse de recursos privados com finalidade de bens públicos, porém com critérios de indicadores de avaliação e de métrica. Ou seja, é um dinheiro de longo prazo e que possibilita o início daquilo que chamamos de filantropia estratégica. Saímos do lugar de apenas uma doação pontual e imediatista para um pensamento mais estrutural. 

A construção de ações de tecido social são necessárias para que se acabe com o grande problema que é a desigualdade social no país. Ela é estrutural e precisamos olhar para isso. 

Sobre os investimentos de impacto, é importante entender o momento atual e a evolução de todos esses processos. É como se tivéssemos uma régua da filantropia até ao investimento, de fato. Onde eu quero chegar com este dinheiro da filantropia? Ele é repassado e não há nenhuma expectativa de retorno. O dinheiro da filantropia é muito importante. Por exemplo, a agenda de Direitos Humanos é uma daquelas de pouco interesse para alguns investidores.

Quando você pensa em investimento social privado, ele também não tem retorno, mas apresenta outros critérios, como o de fomento da comunidade local. Se começa a pensar em processos de troca de aprendizado, mentoria e capacitação. Ou seja, são processos de doação não só de tempo, mas de toda uma estrutura de atores e de redes de conteúdos que beneficiam esse projeto na ponta.

Seguindo a contextualização, depois temos o começo de investimento social privado. Para que o projeto tenha autonomia, e para que esse projeto também empreenda, se faz acordos de doação com este dinheiro. Mas o investimento social privado começou a ganhar mais destaque há cerca de 10 anos, para arranjos financeiros onde o receptor desse dinheiro também passou a ter um papel fundamental. Ou seja, um papel de autoria, empreendedorismo e responsabilidade.

Neste momento se começou a pensar em relações que não sejam de dependência, mas, sim, frutíferas, onde se entende que o beneficiário deste recurso é também uma potência produtora. Não estamos mais considerando o beneficiário desse produto como alguém que terá que passar o resto da vida apenas tendo este determinado recurso.

Porém, há recursos que são fundamentais para que sejam apenas de filantropia – e que não se transformarão em negócio de impacto. Logo, o dinheiro da filantropia é muito importante, afinal um país se faz com esse dinheiro da filantropia. E essa é uma responsabilidade do cidadão – vale destacar que nós, no Brasil, não temos uma cultura de doação.

O intuito é também fortalecer essa cultura cidadã. Por exemplo, nos Estados Unidos, as crianças desde o ensino fundamental costumam ser incentivadas a pensar em ações de doação. Outro ponto é que o brasileiro tem vergonha de falar que doou. É necessário mudar este conceito.  Doar é uma responsabilidade como cidadão que você tem. Se você doou, conte que você doou. Ao contar, você influencia outras pessoas a doarem e mudamos um pouco essa relação.

Finalmente, destacamos o blended finance, que se traduz como finanças misturadas, que é um arranjo financeiro onde o dinheiro é arrecadado de diversos atores da sociedade. Ele é uma combinação e pode fomentar que se alavanque mais dinheiro a partir desses capitais.

Ou seja, existem diversas formas de se fazer arranjos de capital, onde além de pensar na sustentabilidade econômica a longo prazo, há o empoderamento dos atores da cadeia. Assim, também se dialoga com a gestão pública. 

É importante destacar que existem temas na sociedade que a filantropia e o investimento social privado podem vir a dar conta. Mas há outros temas que apenas com a escala do Poder Público é possível transformar a situação do território.

Essa parceria público, privada e sociedade civil é um tecido fundamental para que se possa exercer a democracia e para que se consiga construir estratégias mais sólidas de um sistema  que passa pela proteção social para um sistema mais robusto e que nos permite sair da desigualdade estrutural.

AUPA – Negros, mulheres e jovens trabalhadores com baixa escolaridade foram os mais afetados pela pandemia. Como a atuação de organizações podem contribuir para amenizar esse cenário?
Camila Aloi – Eles foram os mais afetados pela pandemia – e, na verdade, só escancarou as nossas desigualdades sociais.  Além disso, há uma questão de gênero e raça profundamente conectada com as desigualdades, onde ela é muito mais cruel com a mulher negra.

Por exemplo, sobre a questão de saúde, a população negra é a que menos tem atendimento. Ou seja, essa população negra tem menos acesso a recursos de saúde do que os brancos.

Já partimos de um nível muito desigual. E, por isso, não existe meritocracia, afinal as pessoas não começam do mesmo lugar e não partem do mesmo ponto em suas trajetórias.

Durante a pandemia, sobre colaboração e investimento social privado, foi possível observar os atores começarem a se reunir semanalmente para que possamos, de uma forma estratégica, entender o mapeamento de população mais vulnerável.

A atuação das grandes associações da sociedade civil nos ajuda a entender quem são as pessoas mais vulneráveis. Por este motivo é preciso valorizar o papel das organizações da sociedade civil que atuam no território e que tem suas lideranças, pois só através dessas lideranças o investimento social privado conseguiu dialogar com as comunidades.

AUPA – A pandemia aprofundou ainda mais a desigualdade no Brasil. Aliado a isso, há um desmonte de Políticas Públicas e programas de transferência de renda. As iniciativas empresariais são bem-vindas para expandir as oportunidades, mas são fundamentais aquelas no foco da equidade racial. Poderia falar mais a respeito?
Camila Aloi – Precisamos colocar no centro da conversa o racismo existente no país. No Brasil, a forma como se concebe tudo é a partir do olhar do branco e não a partir do olhar da diversidade

A filantropia e o investimento social privado vão atingir muito mais os seus objetivos, se nos eixos do centro dessa interseccionalidade de tema de projetos, a questão da equidade racial estiver presente. 

Não é possível falar em mudança, emprego e renda, se não se considerar como olhar a partir dessa lente racial e qual população precisa ser capacitada e atendida, para que, assim, se possa transformar algumas discussões, como Saúde e Educação. Não é possível filantropia sem amplitude de governança com esse olhar, de espaços que trazem esse tema, com a mescla desses atores nos locais de tomada de decisão.

Aupa – Conforme o relatório do GIFE, os jovens foram os mais afetados pela pandemia no mercado de trabalho. Como sugeriram no infográfico, é preciso aumentar a oferta de captação. O que ainda é preciso fazer e como as políticas públicas podem contribuir?
Camila Aloi É muito importante o mapeamento para que se saiba onde as pessoas mais vulneráveis estão.

Temos uma situação muito preocupante com o jovem hoje no país. Porque o jovem nem estuda e nem trabalha. Não existe um fortalecimento de toda uma estrutura para que esse jovem frequente a escola e permaneça nela.  Esse público está saindo cedo da escola, e não tem essa capacitação para o mercado de trabalho, além disso, ele não consegue um emprego. Essa é a população que mais preocupa.

Precisamos pensar em um plano estratégico de longuíssimo prazo que abarque a questão da capacitação da escola para inserção no mercado de trabalho. Só que essa capacitação vem por uma mudança muito estratégica do olhar na educação. Eu preciso desde cedo, para uma população jovem, falar de empreendedorismo, de autonomia, e exemplificar as possibilidades no mercado de trabalho inovador.

Segundo projeções, em 2050 o emprego clássico, como conhecemos, será muito reduzido. A pergunta que fica é:

quais serão as novas formas e os padrões educacionais de capacitação oferecidos para esse jovem, para que ele tenha alternativas ao sistema laboral vigente hoje no país?

Por uma comunicação de impacto

0

No dia 9 de junho, a ponteAponte e a Aliança pelos Investimentos e Negócios de Impacto lançamos a terceira edição do Prêmio Jornalista de Impacto, que tem como objetivo reconhecer o trabalho de profissionais e veículos de mídia que disseminem o tema de Investimentos e Negócios de Impacto no Brasil, visando ampliar a qualidade e a repercussão da cobertura da imprensa em relação ao tema.

Mas, afinal, o que é um jornalismo de impacto? Embora a temática do Prêmio represente um nicho bem específico, um dos vencedores da primeira edição mencionou que “todo Jornalismo deveria ser de impacto”. Também acredito nisso, no sentido de que entre as várias funções sociais do jornalismo estão não só informar, mas também lutar pela garantia de direitos dos cidadãos, investigar eventuais desvios na administração pública ou mesmo na iniciativa privada que impactem a sociedade, promover reflexões, divulgar serviços para a população ou, ao menos, oferecer informação aprofundada e confiável e algumas boas notícias de alento de vez em quando.

No caso do Prêmio, especificamente, buscamos reportagens que abordem investimentos e negócios de impacto, podendo dialogar com temas afins (como empreendimentos comunitários, inovação social, Economia Criativa, etc.), de uma forma inovadora, didática, instigante, para que o tema “saia da bolha” e chegue a um público mais amplo e/ou mais qualificado. Por inovação, queremos dizer não apenas novos recursos textuais e visuais, que facilitem a leitura e o entendimento do tema, mas inovação nos exemplos, nas fontes de informação consultadas, nos personagens, na apresentação de novas soluções de impacto, ao invés de ficarmos repetindo à exaustão os casos já famosos de sucesso. Inovar é também buscar a diversidade regional nas pautas, descobrindo e valorizando iniciativas fora do eixo Rio-São Paulo.

Para além do Prêmio e do próprio Jornalismo, acreditamos, na ponteAponte, que a comunicação em si, em sentido amplo, pode ser transformadora e de impacto. A começar pela comunicação interna, nas empresas e organizações sociais, que deve promover um ambiente de acolhimento, escuta empática, debate saudável de ideias, trocas de experiências e pluralidade de vozes. Em resumo, uma comunicação que ponha em prática os valores que defenda e estabeleça novos modos de fazer consoantes com essas práticas. Quando falamos da comunicação externa, isso se traduz, por exemplo, em algo que já compartilhei aqui em outro artigo, onde proponho que os relatórios de atividades poderiam ser revistos para que sejam mais úteis, gerem mais reflexão e sejam menos “produtos de prateleira”. Também já abordei em outra reflexão a importância da transparência, facilidade de acesso e exatidão dos dados publicados, sobre investimento social privado, ações filantrópicas ou outras iniciativas de impacto.

Quando falamos ainda da comunicação com o “público-alvo” ou “beneficiário, por mais que não gostemos dessas expressões, uma vez que acreditamos que o impacto deve ser promovido com o público e não somente para o público, também é fundamental que a comunicação parta da escuta ativa e da análise de necessidades da região, e não seja somente para transmitir informações, numa visão colonizadora e assistencialista.

A comunicação pode e deve ser não somente um meio, mas um fim em si, podendo promover impacto pelo simples fato de darmos voz a quem não costuma ser escutado.

Falamos, então, de uma comunicação transformadora em si mesma, com potencial de mudar realidades por ser autêntica e fiel aos valores que representa e estratégica, porque é parte integrante da mudança social que almejamos.

Este texto é de responsabilidade da autora e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa.

Ednusa Ribeiro: “A mulher preta e da periferia empreende desde cedo, mesmo trabalhando. A maioria empreende na dor, não porque quer, mas para completar a renda”

2
ednusameninas

Muitas vezes, o empreendedorismo é apontado como solução para os desempregados do Brasil. Há quem acredite na tese de que basta abrir um negócio, ter força de vontade e se beneficiar de diversas vantagens. 

Vale dizer: mulheres empreendedoras tiveram mais dificuldades do que os homens na pandemia. Segundo a pesquisa “Empreendedoras e seus Negócios 2020”, estudo realizado pelo Instituto Rede Mulher Empreendedora, apesar dos efeitos nos comércios serem comuns para ambos os gêneros, a gestão do tempo criou uma dificuldade extra para as mulheres. Cerca de 20% das empreendedoras relataram que tiveram mais dificuldades para organizar as tarefas e conciliar com os cuidados da família. Enquanto esse problema apareceu para aproximadamente 10% dos homens. Uma das conclusões da pesquisa é que, psicologicamente, as empreendedoras foram mais afetadas do que seus pares do sexo masculino. Isso acontece porque, geralmente, a mulher é a principal responsável pela casa e, portanto, precisa cuidar das tarefas do lar e do próprio negócio. 

Ednusa Ribeiro, cofundadora do Meninas Mahin, coletivo que busca fomentar o empreendedorismo das mulheres negras, conhece bem essas dificuldades. Na periferia, especialmente para mulheres negras, empreender significa fazer sacrifícios. E a pandemia só agravou essa situação.

O Coletivo Meninas Mahin, que existe desde 2016 e já organizou 155 eventos para ajudá-las, teve que se adaptar ao cenário pandêmico, mas continuou fornecendo apoio. Transmissões ao vivo foram organizadas para troca de informações. E diversas ações foram realizadas para atender às necessidades mais básicas.

A situação fica mais difícil com o passar do tempo. Ednusa entende que a periferia está “no limite do fio”, porque as dificuldades se agravaram ainda mais com a segunda onda da Covid-19. Contudo, ela enxerga um futuro promissor para o setor de eventos, porque entende que as pessoas vão querer sair mais do que nunca quando a pandemia estiver mais controlada. E assim o setor de eventos vai se recuperar da crise.

Entretanto, a empreendedora sabe que não basta apenas apostar na expectativa das pessoas. Ednusa acredita que o setor público deva criar soluções a curto prazo, como parcerias com quem já conhece as periferias, além de organizar eventos que integrem diversos setores da sociedade.

Entenda estas questões, a partir das experiências e vivências do coletivo Meninas Mahin, nesta entrevista concedida à Aupa.

AUPA – Quais foram os principais efeitos da pandemia da Covid-19 para o coletivo?
Ednusa Ribeiro – Fizemos várias ações na pandemia, mas inicialmente surtamos. Depois, com parceiros, tivemos ajuda para manter o coletivo. Desenvolvemos crowdfunding, lives do Comitê de Impacto da Periferia, doações de máscaras e insumos. Mas o coletivo se recolheu para entender o que estava fazendo. Voltamos aos editais. Não fomos contempladas em vários. Mas conseguimos passar por acelerações e mentorias. E fomos nos entendendo como um negócio de impacto global, de economia colaborativa, que tem que buscar recursos. É aquela premissa: eu quero subir, mas quero mais pessoas subindo junto comigo.

AUPA – As empreendedoras que chegam ao coletivo para pedir ajuda são pessoas que não tiveram acesso ao mercado de trabalho?
Ednusa Ribeiro – Há esta situação, sim. Nosso coletivo tem recorte de gênero e raça. Quando começou, em 2016, tinha recorte de território também. Só atuava na Zona Leste paulistana, mas a dinâmica cresceu. Acolhemos e hoje temos mulheres de várias regiões da cidade. Contudo, vale dizer, a mulher preta e da periferia empreende desde cedo, mesmo trabalhando. A maioria empreende na dor, não porque quer, mas para completar renda. Mesmo trabalhando, empreende por necessidade. Temos que falar sempre: empreender não é romântico. Não tem essa história de empreender e ganhar rios de dinheiro. Vai fazer seu horário? Vai. Das 7 da manhã à meia noite. Ainda, sobre escala de trabalho, a mulher tem que empreender e chefiar a casa. Então, pesa mais, porque há contas para pagar e, ao mesmo tempo, precisa empreender. Trabalhamos com recortes de micro e nano negócios, onde, não-raro, a mulher não se vê como empreendedora e gestora de seu próprio negócio.

AUPA Quais são as principais dificuldades para fazer com que essas mulheres se tornem gestoras de um negócio?
Ednusa Ribeiro – Podemos dividir em dois momentos: antes e depois da pandemia. Antes da pandemia, havia um cenário onde as mulheres chegavam no Coletivo porque não tinham espaço adequado e seguro para vender produtos. E elas também tinham dificuldade de entender conceitos comuns do vocabulário do empreendedorismo em oficinas. No cenário pós-pandemia, você mantém esses cenários e acrescenta o mundo digital. Acessar o mundo digital não é só acessar a internet. Muitas mulheres tinham as ferramentas e mal sabiam utilizar WhatsApp. Agora tem que fazer negócios por WhatsApp. Quando falo isso para uma adolescente, tudo bem, ela entende. Mas quando falo para uma mulher de 50 anos, ela questiona: “é necessário isso?”. E, sim, é necessário, porque essa é a linguagem de hoje. Tem Reels, Tik Tok e remix. Mas a informação não chega, porque, às vezes, nãohá internet. O problema está na raiz. Está muito mais embaixo. Estamos tirando sangue de pedra. Outra dificuldade é que todo mundo entrou em pânico e precisava pensar no modelo de entrega. E os serviços dos Correios tiveram excesso de pedidos, não estavam esperando a demanda. Além disso, é preciso pensar como será a taxa cobrada, pensar se o produto está preparado para custar três vezes mais, devido ao valor do frete.

AUPA – Por outro lado, você acha que as empreendedoras podem fazer o movimento contrário e, assim, desistirem dos negócios próprios, já que terão mais acesso ao mercado de trabalho?
Ednusa Ribeiro – Às vezes, sou mais otimista; outras vezes, não tanto. Temos que deixar explicado que empreender não é fácil. A pessoa tem que gostar e querer muito. Tem que estar bem explícito que ela não pode parar de estudar. Não digo com meio acadêmico, mas com oficinas e todos meios de comunicação. E quando falo do cenário governamental, cada vez mais teremos menos acesso à CLT (Consolidação das Leis de Trabalho) e a contratação será como PJ (Pessoa Jurídica). Quando falo de contratação PJ, é MEI (Microempreendedor Individual). A pessoa precisa ter educação para pagar impostos e fazer plano de saúde pelo MEI. Ela terá que fazer isso. Eu não gosto. É minha opinião. E a pandemia não pode durar muito. Estamos no limite do fio. Se o acesso à vacina continuar demorando, ficará difícil para o nosso coletivo, por exemplo. Quem está na periferia continuará com subempregos por um tempo.

AUPA – Diante dessa realidade, o que você enxerga como possíveis soluções a curto prazo?
Ednusa Ribeiro – Temos parcerias público-privadas no Governo. Mas é necessário começar a pensar em parceria público-públicas. Ou público-coletivos. Ou público-territórios. Temos praças subutilizadas e galpões. Quem está nesse território são os pequenos coletivos fazendo coisas grandes (oficinas, feiras, consultorias, mentorias e palestras, por exemplo) Por que não fazer parceria pública com esses coletivos? Como contrapartida, eles precisam cuidar do espaço e entregar ações determinadas. E o coletivo, além de usar bem o espaço, traria valorização à pessoa. Quando você vê uma praça bem utilizada, não irá destruir. A sensação de segurança muda, porque tem movimento. Existem locais para ginástica e lazer, espaços para feiras. O resultado desse tipo de ação é moroso, mas acontece se for recorrente. Podemos chamar outras secretarias, não apenas a Secretaria da Cultura. Por exemplo, pode-se chamar a Secretaria da Educação para fazer uma aula temática ou a Secretaria da Saúde para um evento de higiene bucal. Em uma praça com quadra, posso trazer a Secretaria de Esporte para fazer uma competição ali. Veja quantas questões resolvemos em um espaço só, em uma comunidade que possui as mesmas necessidades. 

AUPA – O formato atual do coletivo, com lives, é o ideal na pandemia. Mas futuramente isso deve ser mantido?
Ednusa Ribeiro: O coletivo é híbrido. É físico e digital. Vamos continuar com ações digitais, mas explico às empreendedoras que estamos nos preparando para o mundo físico. O cenário de feiras e eventos, quando abrir a porteira, será o mais promissor. As pessoas vão querer sair. Se eu fizer feira de segunda a domingo, terão pessoas. Quero estar organizada física, psicologicamente e mentalmente para aguentar esse novo normal. Haverá ainda muita imersão no mundo digital, mas o ser humano precisa de contato e viver em sociedade.

Márcio Teixeira: “Os ricos ficaram mais ricos na pandemia. É necessário um olhar mais responsável para isso”

0

Márcio Teixeira convive com a realidade da periferia há muito tempo. Ele é sócio-fundador da A Banca, que atua no ecossistema de negócios de impacto periféricos desde 2008. E, apesar de já ter visto muitas dificuldades durante esse período, está impressionado com a situação do desemprego nas regiões mais pobres da cidade de São Paulo. Segundo ele, as desigualdades já estavam aumentando antes da pandemia, pioraram no ano passado e se agravaram com a segunda onda de Covid-19. 

Márcio destaca que, quando a pandemia começou, houve uma mobilização maior para apoiar a periferia – contudo, na leitura dele, na segunda onda esse apoio foi menor. Ou seja, justamente quando os números da pandemia pioraram, e a economia voltou a parar, os investimentos se tornaram ainda mais insuficientes.

Segundo dados do Monitor das Doações da ABCR (Associação Brasileira de Captadores de Recursos), não houve redução nas doações. Porém, os números ficaram praticamente estáveis, com cerca de R$6 milhões doados por mês.

O resultado disso é óbvio: pessoas sem lar e sem comida na mesa. A fome chegou a 19 milhões de brasileiros, pior número desde 2004, segundo a pesquisa Olhe para Fome. Ainda: mais de nove mil famílias brasileiras foram despejadas durante a pandemia, de acordo com a Campanha Despejo Zero

Em entrevista à Aupa, o sócio-fundador da A Banca acredita na importância de discutir soluções e no poder da mobilização. “Não é preciso inventar a roda. É preciso ouvir quem já está fazendo a roda girar”, diz ele.

Confira a conversa na íntegra.

AUPA – O desemprego aumentou a informalidade e também forçou muitas pessoas a partirem para empreendimentos de emergência. Mas, para empreender, é preciso conhecimento específico. Como lidar com essa dificuldade?
Márcio Teixeira – Vejo muitas pessoas empreendendo, sim, mas na escassez. É um empreendedorismo à força. É vendendo objetos na rua e no farol. É difícil ver essa pessoa montando um negócio, porque não tem grana. Ela empreenderá na necessidade e na escassez. Ela foi obrigada a fazer e vai tentando do jeito que dá. Agora, abrimos inscrição para o Lab Nip (laboratório para Negócios de Impacto da Periferia) e foram mais de 300 inscritos. Tem o lado de pessoas que estavam mais envolvidas com a área social e agora estão enxergando possibilidade de empreender nesse setor. Tem que buscar maneiras de gerar renda. É buscando informações. E há profissionais que  se mantêm e  encontram um caminho.

AUPA – Como esses empreendedores de última hora são ajudados, atualmente, pelo Governo e por instituições? O que poderia melhorar?
Márcio Teixeira – Há ajuda, como a própria Anip (Articuladora de Negócios de Periferia). Mas ainda falta muito. Quando começou a pandemia, houve mais mobilização para investimentos e  fundos foram criados. Tivemos investimentos, recursos e até mais sensibilização para doação. Agora deu  uma parada. Até tem, mas é insuficiente. E não é só o Governo, afinal institutos e fundações também precisam olhar para isso. Grandes empresas precisam ter um olhar mais apurado. Falta ainda, porque, ao mesmo tempo que  muitos negócios fecharam, tem muita empresa grande faturando mais. Os ricos ficaram mais ricos na pandemia. É necessário  um olhar mais responsável para isso.

AUPA – O que podemos apontar como soluções, para o Governo, para as instituições ou para os empreendedores das periferias?
Márcio Teixeira – O que não aconteceu no nosso país, quando veio a pandemia, foi uma mobilização geral.  É necessário criar um comitê extraordinário para pensar as ações. O que vejo é muita gente separada. Há uma briga por eleição. E, pensando nos empreendedores, precisamos de uma assistência emergencial, ao mesmo passo que é preciso investir no conhecimento e na informação, porque para inovar é necessário conhecer. Entramos em uma situação onde a internet virou a principal via de comunicação. E não há acesso à boa conexão de internet nas quebradas. Então, falta investimento de todos os lados para a pessoa periférica conseguir pensar, estudar e inovar. Ficamos nesse jeito meio maluco, no desespero e chutando. O Governo precisa  olhar para quem já está fazendo as articulações. Não adianta querer inventar a roda se a roda já foi criada. É se aproximar de quem está fazendo e abordando esses assuntos e de quem está discutindo esse assunto de empreendedorismo nas quebradas. Esse é um caminho.

AUPA – A Anip é justamente uma empresa que está por dentro deste assunto. Quais foram as principais ações tomadas durante a pandemia?
Márcio Teixeira – Inicialmente, criamos o fundo Volta por Cima, como primeira ação emergencial. Foi uma parceria com a Artemisia, a FGV (Fundação Getúlio Vargas) e o Banco Pérola. Trata-se da primeira ação voltada a conceder créditos aos negócios que passaram pela Anip e pela Artemisia para acessar recursos sem juros. Outro ponto é manter uma relação mais próxima para entender processos e o que cada um está precisando. Nos reunimos mensalmente para trocarmos informações e encontrarmos soluções. O principal problema é financeiro, afinal as pessoas pararam de consumir. Há negócios que não conseguiram migrar para o digital. Alguns outros empreendimentos estão focados em atender a quebrada e o entorno deles, para conseguir cestas básicas, por exemplo.

AUPA – Como era sua percepção sobre o mercado de trabalho na periferia, comparando o antes e depois da pandemia?
Márcio Teixeira – É perceptível o grande número de pessoas desempregadas, processo que já vinha acontecendo desde antes da pandemia. A chegada da Covid-19, e suas consequências sociais, deu uma acelerada no processo. Contudo, o desemprego já estava crescendo. Hoje, vemos o aumento do número de pessoas pedindo dinheiro e comida na rua. Há muito tempo não víamos pessoas pedindo comida de porta em porta. Isso é algo que tem aumentado com frequência.

AUPA – Então, você percebe que muitas pessoas tiveram queda de 100% da renda mesmo?
Márcio Teixeira – Sim. Eu estive na Praça do Sé, no centro de São Paulo, há alguns meses atrás. Fiquei impressionado com a quantidade de pessoas que agora moram lá. Vi várias famílias com barraquinha e crianças brincando como se estivessem no quintal de casa. 

Financiamento para ação climática e uma economia verde

0

O debate público sobre a mudança climática evoluiu nos últimos tempos: não está mais centrado em se é real – o que já está bem evidente – mas, sim, em como combater as causas desse fenômeno. O consenso global sobre a importância de resolver a crise climática tem levado cidadãos no Brasil e em outros países a processarem governos por irresponsabilidade. E até influenciou a criação de uma nova versão do famoso jogo Banco Imobiliário.

A importância de um modelo de desenvolvimento econômico sustentável ou verde, que preserve o meio ambiente e a qualidade de vida no presente e futuro, também tem sido enfatizada por diversas instituições, especialmente a Organização das Nações Unidas (ONU). Uma proposta de destaque é o uso de instrumentos financeiros para incentivar ações de combate à crise climática e de transição para uma economia verde.

O mercado de carbono vem sendo trabalhado em vários países, inclusive no Brasil, mas com regras distintas. A teoria é que um crédito de carbono, uma “moeda verde” com valores negociáveis, que pode ser pago a indivíduos ou instituições por atividades que evitem a liberação de, no mínimo, uma tonelada de gases de efeito estufa (GEE).

Apoie o jornalismo crítico no ecossistema.

O gás carbônico é um dos principais GEE que – por estarem sendo liberados na atmosfera em quantidades excessivas – poluem o ar e desequilibram o clima e os ecossistemas. Os setores da economia brasileira que mais causam emissões de GEE são a agropecuária e o setor florestal, principalmente devido aos do desmatamento.

Assim, programas de créditos de carbono voltados ao setor agroflorestal têm um grande potencial em ajudar a combater a crise climática, além de outros problemas ambientais e socioeconômicos no Brasil. Mas será que essa teoria e também a boa intenção funcionam na prática?

Oportunidades
O mercado de carbono incorpora métodos de valoração ambiental, ou seja, de precificar bens e serviços ecológicos. A empresa ECCON Soluções Ambientais, por exemplo, criou um banco de áreas verdes que serve para valorar e, portanto, incentivar a preservação de remanescentes florestais. A preservação de florestas nativas é uma das principais formas de sequestrar carbono e mitigar impactos climáticos, além de contribuir para a proteção do patrimônio natural e cultural.

“O Banco de Áreas Verdes ECCON, atualmente chamado ECCON Data, consiste em uma plataforma de intermediação voltada aos negócios ambientais em florestas privadas, fazendas produtivas e outros tipos de propriedades rurais”, explica Yuri Rugai Marinho, CEO da empresa.O sistema digital criado pela ECCON permite “automatizar e baratear as transações que envolvem ativos ambientais,” facilitando negócios tanto de regularização e compensação ambiental, quanto de neutralização de carbono entre indivíduos e instituições nacionais ou multinacionais, segundo Marinho.

Yuri Rugai Marinho, CEO da ECCON. Crédito: Divulgação

Além disso, a iniciativa remunera proprietários de áreas verdes pela conservação da natureza – promovendo ganhos ambientais, sociais e econômicos. Já estão cadastradas na plataforma mais de 180 propriedades, equivalente a 800 mil hectares em todo o território nacional.

Outra estratégia importante para combater a crise climática e gerar créditos de carbono é reflorestar e restaurar áreas degradadas. Esse é o nicho de mercado que atua Carlos Alberto Tavares Ferreira, diretor-presidente da Carbono Zero, empresa paranaense que desenvolve projetos de compensação de emissões de carbono para organizações, eventos e famílias.

Há 20 anos, Ferreira reflorestou uma área equivalente a 84 campos de futebol em Campo Largo, a 30 quilômetros de Curitiba, com árvores nativas da Mata Atlântica – sobretudo, Araucárias, espécie raramente encontrada no país, tendo em vista que 88% da vegetação do bioma já foi dizimada. Hoje, ele possui um banco genético em sua reserva ambiental, que fornece sementes e mudas de plantas a vários viveiros e programas de conservação no Estado do Paraná.

“Desde 2004, temos catalogadas mais de 3.600 matrizes do bioma Mata Atlântica”, conta Ferreira. “Nós estamos mostrando que não existe só o bioma Amazônia – temos outro bioma muito rico, mas que é esquecido. Queremos precificar os ativos [ambientais] da Mata Atlântica, para que ela seja tão preservada e financiada assim como está sendo a Amazônia”.

Atualmente, mais de 90% dos remanescentes de Floresta Atlântica se encontram em propriedades privadas. Tal fato revela que o setor privado e os instrumentos financeiros têm um papel-chave na conservação ambiental e da biodiversidade no Brasil. Ainda: estudos apontam que a concessão de crédito financeiro baseada em requisitos de sustentabilidade, tende a melhorar o desempenho socioambiental de produtores rurais.

Ferreira também fornece consultoria técnica ao programa Corredores de Água Boa, desenvolvido através de parcerias entre os setores público e privado. O programa fornece incentivos financeiros a proprietários de áreas rurais ou urbanas que exerçam atividades de restauração de nascentes de água e matas ciliares no entorno de rios – como forma de recompensá-los pela “produção de água” e a manutenção de microbacias que regulam microclimas, segundo Ferreira. Essa iniciativa, além de contribuir para a segurança hídrica municipal, poderá gerar créditos de carbono ou um aumento no recebimento do ICMS ecológico dos municípios abrangidos, devido à restauração de áreas verdes e à criação de corredores ecológicos.

Corredores ecológicos são porções ecossistêmicas instaladas para mitigar os impactos das atividades antrópicas. Crédito: Alexandre Marchetti/Itaipu Binacional

Outras iniciativas multissetoriais se destacam no cenário da economia verde no país. A Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura – um movimento iniciado em 2015 e que conta com a adesão de quase 300 empresas e organizações da sociedade civil – lançou recentemente o Observatório da Restauração e Reflorestamento. A plataforma on-line revelou que o país apresenta cerca de 79 mil hectares de áreas com projetos de recuperação da vegetação nativa, 10 milhões de hectares de áreas que se regeneraram naturalmente e 9 milhões de hectares de reflorestamento, principalmente para produção de madeira, papel ou celulose.

Com a plataforma, será possível acompanhar a evolução de projetos de restauração e reflorestamento que estão sendo desenvolvidos em todos os biomas do país e conhecer quem está fazendo isto. “No entanto, não é possível afirmar se essas florestas regeneradas serão mantidas, pois os dados de satélite não permitem identificar se houve a intenção de deixar essas áreas regenerarem ou se foram áreas abandonadas que seguem ameaçadas por novos desmatamentos”, segundo informações da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura.

Desafios
Um dos principais desafios para o desenvolvimento do mercado de carbono brasileiro é:

Carlos Alberto Tavares Ferreira, da Carbono Zero. Crédito: Divulgação

“No Brasil, não existe ainda legislação para créditos de carbono,”

diz Carlos Alberto Tavares Ferreira, da Carbono Zero.

Desse modo, programas de compensação de emissões, principalmente os que não têm nenhum tipo de certificação ou verificação externa, correm o risco de apresentarem irregularidades e não serem completamente eficientes na geração de impactos socioambientais positivos.

A ONG Carbon Market Watch (Observatório do Mercado de Carbono, em tradução livre), sediada na Bélgica, aponta alguns problemas que podem advir dos mercados não regulamentados. “Muitos princípios precisam ser assegurados para garantir a integridade dos mercados de carbono”, afirma Gilles Dufrasne, analista de políticas na Carbon Market Watch.

Gilles Dufrasne, analista de políticas na Carbon Market Watch. Crédito: Divulgação

Por exemplo: “Os formuladores de políticas e as partes interessadas precisam garantir que as reduções de emissões sejam reais – que essas reduções não aconteceriam sem o financiamento recebido com a venda [dos créditos de carbono] e que estes sejam mensurados corretamente”. O analista ainda sugere o analista que é preciso assegurar que os programas de compensação de carbono “não afetem negativamente pessoas ou o ambiente”, especialmente os povos e os territórios indígenas.

O relatório Voluntary Carbon Markets and land credits” aponta que a compra de créditos de carbono em programas para preservação ou restauração de florestas é uma forma válida de compensar as emissões de empresas que praticam desmatamento legal, mas não deve ser permitida para compensar as emissões vindas de empresas de combustíveis fósseis, por exemplo. Afinal, poderá desviar a responsabilidade de empresas de energia em reduzir as emissões da sua própria atividade, o que é problemático, uma vez que o setor energético é o maior emissor de GEE no mundo.

Essa contradição também pode ocorrer com empresas de outros setores muito poluentes. A Bayer, por exemplo, gigante do agronegócio e de origem alemã, vai iniciar um programa de inserção de agricultores brasileiros no mercado de carbono através de orientação sobre práticas produtivas sustentáveis. Resta saber se a empresa pretende deixar de vender agrotóxicos altamente poluentes para o Brasil – muitos dos quais já foram proibidos na Europa e em outros países –, entre outras iniciativas para reduzir a sua própria pegada de carbono.

12 dos ingredientes vendidos no Brasil pela Bayer e Basf são classificados como altamente perigosos. Crédito: Pexels

A regulamentação de um mercado compulsório de carbono pelo Governo brasileiro poderia diminuir o risco de irregularidades, além de criar incentivos para ações de preservação ambiental. Segundo Marinho, da ECCON, “a instituição de normas que proporcionem segurança jurídica – tal como a recente Lei n° 14.119/ 2021, que fixa a Política Nacional de Pagamento por Serviços Ambientais – pode encorajar a adesão e o incremento de operações que rentabilizem a preservação”.

Com a ratificação do Acordo de Paris, o pacto global de combate à crise climática, um número cada vez maior de países está se comprometendo a alcançar a neutralidade em carbono até 2050. E isso demandará compromissos sérios de governos, afinal, para combater as principais causas da mudança climática, como o desmatamento ilegal, é preciso vontade políticanão apenas financiamento.

Apesar da falta de ambição do Poder Público, todos os brasileiros e as instituições no país têm uma parcela de responsabilidade em adotar práticas socioambientais positivas. Assim como sugere Ferreira, se você quer proteger o clima e a biodiversidade, “faça você mesmo”.

Vale do Jequitinhonha: as sementes da Inemontes

0

Minas Gerais encanta. Tem riqueza cultural e natureza únicas. Mas o estado é grande e, olhando de perto, há diferenças gritantes entre as regiões. Enquanto cidades como Nova Lima, Lavras e Itajubá, por exemplo, têm um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) alto, localidades no Vale do Jequitinhonha, ao Noroeste, e outras ao Norte de Minas, sofrem com os baixos indicadores sociais como Educação, Saúde e mortalidade.

É para esse chão, que sofre com questões socioeconômicas geográficas, clima semiárido e baixo desenvolvimento que, desde 2019, a Inemontes, incubadora da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes),olha com atenção.

Apoie o jornalismo crítico no ecossistema.

A Inemontes passou os primeiros dez anos de sua história prestando suporte a empreendedores docentes e discentes, além de suas empresas de base tecnológica. Em 2019, começou a atender a comunidade, incluindo pessoas que não têm vínculo com a universidade.

“A inserção do tema ‘negócios de impacto’ na Inemontes é bem recente. Em 2017, fomos selecionados para fazer um curso de Negócios de Impacto em Brasília, oferecido pelo Sebrae [Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas], pela ANPROTEC [Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores] e pelo ICE [Instituto de Cidadania Empresarial]. Foi a primeira vez que nós, da incubadora, ouvimos falar nesse tema. A partir daí, decidimos inserir também os negócios de impacto em nosso radar”, conta Sara Antunes, coordenadora da Inemontes e docente da Unimontes. 

Sara Antunes, coordenadora da Inemontes e docente da Unimontes.

Preparando o solo no entorno
Mais do que os negócios, a incubadora passou a divulgar o conceito negócios de impacto na região, com ajuda da participação no ecossistema Norte Valley — que agrega Instituições Científicas e Tecnológicas (ICTs), empresas e outras instituições do Norte de Minas Gerais.

“Percebemos que esse assunto não era estudado ou discutido. Além de cuidar dos incubados, hoje nosso trabalho também é dedicado a disseminar e impulsionar o empreendedorismo na região Norte de Minas Gerais, a partir da oferta de cursos, eventos e atividades que possam despertar o interesse de alunos, docentes e da comunidade em geral”, afirma Sara.

Por meio do projeto Vivência Universitária em Empreendedorismo e Inovação (VUEI), da Secretaria de Desenvolvimento de Minas Gerais (SEDE), para o qual foi selecionada, a Inemontes vem recebendo capacitação. “Com isso, desenvolvemos um plano de ação que tem nos ajudado imensamente a manter ações em prol do nosso objetivo enquanto incubadora, durante a pandemia”, explica a docente.

Observatório em territórios deprimidos
O olhar da Inemontes para as questões socioambientais da região Norte do estado rendeu frutos. Com a proposta “Ativação do Ecossistema em torno do tema Negócios de Impacto”, a incubadora desenvolveu a Caravana Cerrado Empreendedor (CCE) e, em 2020, foi premiada pela parceria entre ICE,  ANPROTEC e British Council. 

“Recebemos R$1.000, uma viagem para visitar ambientes de inovação e empreendedorismo na Inglaterra e a publicação de artigo sobre o nosso trabalho no livro do ICE”, conta a coordenadora. Acesse a publicação Boas Práticas de Incubação e Aceleração de Impacto – 1ª edição aqui.

Atuando como um observatório de negócios de impacto em territórios deprimidos — marcados por pobreza e baixo desenvolvimento socioeconômico —, voltado às comunidades vulneráveis que estão na área de abrangência da Unimontes, a Caravana desenvolve iniciativas para conscientizar e estimular as pessoas quanto à sua potência para empreender e, principalmente, criar soluções que impactem positivamente, transformando a realidade da sua comunidade e do entorno.

Parcerias de ouro
Muitos dos empreendedores locais não viam seu trabalho como negócio de impacto. As parcerias da incubadora com os cursos de pós-graduação e graduação da Unimontes, com o Sebrae e a Fundação de Desenvolvimento Científico, Tecnológico e Inovação do Norte Minas (Fundetec), foram fundamentais para divulgar, capacitar e despertar interesse, ou seja, criar um canal de comunicação com os atores internos e externos à universidade.

Por terem qualificação para auxiliar no desenvolvimento de diversas atividades e demandas dos negócios de impacto, os programas de pós-graduação representaram um impulso para a incubadora ir além-muros, possibilitando a participação e o acesso às comunidades.

Na sua atuação inicial, a Caravana Cerrado Empreendedor mapeou todos os negócios que tivessem impacto socioambiental na região. “Utilizamos os estudos e os trabalhos dos alunos de pós-graduação para apoiar comunidades ou entidades que atuam com negócios de impacto”, detalha Sara.

A incubadora deu suporte à Cooperativa de Apicultores e Agricultores Familiares do Norte de Minas (Coopemapi), com sede em Bocaiúva, que possui mais de 360 associados, em 22 cidades norte mineiras e mais duas situadas na região do Vale do Jequitinhonha: apoio na elaboração de manuais sobre exportação de regulamentações específicas relacionadas aos produtos; cursos sobre boas práticas de comercialização para os cooperados; estudo sobre qualidade de produtos, bem como sobre a cadeia do mel no mercado; elaboração e depósito da indicação geográfica do mel de aroeira e levantamento sobre a cooperativa e os cooperados (perfil e demandas).

Cooperativa de Apicultores e Agricultores Familiares do Norte de Minas (Coopemapi) e a produção de mel. Crédito: Divulgação/Emater

Para a Associação de Artesãos Sempre Viva, do distrito de Galheiros, em Diamantina, a Inemontes desenvolveu os procedimentos para Indicação Geográfica, cujo registro reconhece reputação, qualidades e características que estão vinculadas ao local. Também deu suporte para criação de uma logomarca como forma de contribuir para ampliar o acesso dos produtos ao mercado. “Os próximos passos estão voltados ao depósito da indicação geográfica, à gestão e outras demandas, como precificação e melhorias no processo produtivo”, acrescenta.

O dia da incubadora
Para a realização do trabalho, não há aporte financeiro, a não ser da Universidade e editais da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig). “Nossa atuação com parceiros é crucial. Sebrae, Fundetec e outras instituições do Norte Valley, além da Secretaria de Desenvolvimento do Estado de MG [SEDE], especialmente com o projeto VUEI, estão conosco”, explica Sara.

Ao todo, foram atendidos 18 empreendimentos, com três graduados, em várias áreas — Biotecnologia, Tecnologia da Informação (TI), Educação, Alimentos/Nutrição e Negócios de Impacto socioambiental. Atualmente, a Inemontes tem quatro incubados, sendo três de impacto socioambiental. A seguir, conheça dois deles.

Caminhos para a mudança social

0

É possível ser ativista e empreendedor ao mesmo tempo? O conceito de ativismo é bastante antigo. Basicamente, é a busca por uma mudança social e/ou ambiental. O ativista social tem algumas características parecidas com as do empreendedor social, como inspiração, criatividade, coragem e força moral*.

Em geral, a diferença entre um ativista social e um empreendedor social é a forma de atuação. O ativista social almeja as transformações por meio de mudanças em Políticas Públicas, no comportamento das pessoas ou nas estratégias empresariais. Já o empreendedor social busca as melhorias sociais a partir da criação de novos negócios.

Vejo, no entanto, muitos ativistas tentando montar negócios como forma de sobrevivência e muitos empreendedores que queriam ser mais ativistas. E a pergunta que fica é se é possível ser ativista e empreendedor ao mesmo tempo.

Em uma resposta simples, podemos dizer que, ao promover mudanças sociais, os empreendedores não deixam de ser ativistas. No entanto, essa lógica nem sempre é tão simples. Muitas vezes, os empreendedores têm que fazer concessões para manterem seus negócios financeiramente sustentáveis. O caminho não é linear. Ao tentar vender seus produtos e serviços, nem sempre são os mais vulneráveis que são atendidos ou a escala não é a desejada ou o serviço deve ser adaptado para oferecer uma proposta de valor mais apropriada.

Vejo que, durante a jornada empreendedora, nos momentos mais iniciais dos negócios, a discussão está muito mais voltada ao impacto social gerado e à mudança que se pretende provocar. Ao longo do tempo, a discussão se envereda para o modelo de negócio e como se manter sustentável. Isso não quer dizer que o impacto foi esquecido ou negligenciado, mas a sustentabilidade do negócio suga muita energia dos empreendedores. A questão é como não ter um “mission drift” (uma derivação da missão) para uma visão muito mais financeira do que social.

Por outro lado, os ativistas sociais, muitas vezes, também sofrem com o esforço de se manterem financeiramente com dificuldade de captação de recursos. A busca pela manutenção de suas atividades não é uma jornada simples. Por isso, começar a vender alguns produtos e/ou serviços torna-se uma alternativa que, depois de algum tempo, pode se transformar em um negócio. Isso não quer dizer que todo ativista social deve se tornar um negócio social. Muito pelo contrário. A questão é como manter a veia ativista sem ser dominado pelos mecanismos de mercado.

Como manter sua independência em uma sociedade com alto grau de concentração de renda e de poder?

Tanto ativistas como empreendedores sofrem sérios dilemas em suas atuações. Não há um formato melhor do que o outro. Há uma necessidade de não perder de vista os objetivos individuais, sem comprometer seus próprios valores. Coletivos, associações, OSCIPs, negócios de impacto – cada um tem sua forma de impactar e promover mudanças sociais. Os empreendedores podem ser ativistas e os ativistas podem se transformar em empreendedores. Mas é importante entender os limites de cada opção e que a pluralidade de possibilidades é positiva para a sociedade.

Referência: 
* Fonte: Martin, R. L., & Osberg, S. (2007). Social entrepreneurship: The case for definition. Stanford Social Innovation Review.

Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa.

Vivianne Naigeborin: “É fundamental reconhecer as questões históricas que fomentam a exclusão no país, presentes muito antes do advento da pandemia”

0

Nos próximos anos, sempre que falarmos sobre desemprego no Brasil, escutaremos que a causa também é a pandemia da Covid-19. Mas desde já é preciso fazer um alerta: antes disso a situação já era preocupante, com 12,2% da população desempregada, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas). 

Existem diversos fatores históricos que dificultam o acesso ao mercado de trabalho. Eles são analisados por Vivianne Naigeborin, Superintendente da Fundação Arymax, que apoia iniciativas de inclusão produtiva. “O cenário anterior à pandemia já era de estagnação econômica e altas taxas de desemprego”, observa ela. 

Vivianne aponta quais são os problemas estruturais para combater o desemprego no Brasil, especialmente para quem mais sofre com isso: negros, mulheres, jovens e trabalhadores com baixa escolaridade.

Uma das maiores dificuldades, antes e depois da pandemia, é lidar com a informalidade no país. A Fundação Arymax fez um estudo sobre inclusão produtiva (“O Futuro da Inclusão Produtiva”) e recomendou simplificar e diminuir exigências para formalização. Outro estímulo importante é olhar para os jovens e investir na participação deste público em posições de entrada.

Para quem não consegue acesso ao mercado de trabalho, uma solução tem sido o empreendedorismo improvisado, “à força”. Segundo Vivianne, isso pode ser um problema, pois muitos negócios são frágeis e não conseguem sucesso. “Por isso é importante fortalecer esse empreendedor no âmbito pessoal e também nos temas relacionados ao negócio”, recomenda Viviane.

Confira a entrevista completa com a executiva da Fundação Arymax.

AUPA – A taxa média anual de desemprego no Brasil foi de 13,5% em 2020, a maior já registrada desde o início da série histórica em 2012. Além da pandemia, quais são os principais desafios para a inclusão produtiva dessas pessoas?
Vivianne Naigeborin – O cenário anterior à pandemia já era de estagnação econômica e altas taxas de desemprego. Portanto, para entender os desafios, temos que considerar um campo de problemas estruturais tanto do lado de quem se oferece para trabalhar, como a falta de competências socioemocionais e técnicas adequadas, quanto de quem busca empregar, como os altos custos de contratação e a falta de acesso a pessoas de menor renda para a oferta de vagas, entre outros.

Igualmente importante é entender as transformações que estão em curso no mundo e como elas afetam a inclusão produtiva: (1) os avanços tecnológicos que trarão melhorias na produtividade, mas também enormes desafios para a geração de empregos; (2) o envelhecimento da população que exigirá a busca por alternativas para manter as pessoas economicamente ativas por um tempo mais longo e a (3) a degradação ambiental que ameaça os serviços ecossistêmicos e os empregos que dependem deles.

Finalmente, há fatores históricos que fomentaram a exclusão no país e que ainda desfavorecem de forma estrutural grupos majoritários, como negros e mulheres. Em ambos os casos, a realidade ainda aponta para discriminação social, salários inferiores e acesso limitado a posições de chefia.

AUPA – Em uma pesquisa divulgada pela Fundação Arymax, foi apontado que trabalhadores informais foram os mais afetados pela pandemia. Eles representam 37,6% da força de trabalho brasileira. Como fazer com que tais trabalhadores ocupem vagas formais em meio a essa onda de informalidade e afrouxamento dos direitos trabalhistas?
Vivianne Naigeborin – Os trabalhadores informais foram especialmente impactados nesta pandemia, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, que apresentam o maior grau de informalidade no país.

No caso de micro e pequenos empreendedores informais, uma das recomendações do estudo é simplificar e diminuir ainda mais as exigências impostas para que eles possam se formalizar e, dessa forma, poderão se beneficiar dos serviços de crédito e outros apoios oferecidos pelo governo. No Chile, por exemplo, com base na Lei de Microempresa Familiar, governos locais contam com programas de formalização simplificada, onde os negócios se tornam parcialmente formais e podem acessar benefícios públicos.

Em relação ao aumento das vagas formais de emprego, é importante coordenar esforços em diversas direções. Do lado de quem busca trabalho, temos que requalificar e realocar a força de trabalho existente, e ainda redesenhar programas de capacitação para que estas pessoas estejam mais conectadas com as oportunidades existentes em setores promissores, como tecnologia, saúde e cuidados. É muito importante também  introduzir conceitos do mundo do trabalho já no currículo escolar, aumentando as chances dos jovens conseguirem trabalho mais qualificado no final do Ensino Médio.

Quando se fala em ambiente regulatório, o estudo apontou para a necessidade de redesenhar a Lei de Aprendizagem, a fim de que ela seja mais efetiva. Também é necessário  pensar em incentivos para facilitar a inclusão de pessoas, especialmente de jovens, em posições de entrada. Entre eles, reduzir os custos de contratação, que dificultam a oferta de vagas formais, principalmente por pequenas e médias empresas.

AUPA – Além dos trabalhadores informais, negros, mulheres, jovens e indivíduos com baixa escolaridade foram os mais afetados pela pandemia, segundo dados do Dieese. Por que esses grupos são os mais vulneráveis e quais ações seriam importantes para mudar esse cenário?
Vivianne Naigeborin – É fundamental reconhecer as questões históricas que fomentam a exclusão no país, presentes muito antes do advento da pandemia. O regime escravocrata trouxe consequências econômicas e de discriminação social que se impõem aos afrodescendentes até os dias de hoje. A abolição não foi acompanhada de iniciativas de integração da população negra ao regime de trabalho assalariado ou de qualquer outro tipo de compensação social.

Essa ausência de políticas e programas se reflete nos dias de hoje, quando 4 entre 5 trabalhadores informais são negros, ou seja, sem acesso a nenhum sistema de proteção social. Na pandemia, os mais impactados foram os que tinham vínculos empregatícios mais frágeis, em sua maioria, trabalhadoras e trabalhadores negros. 

No caso das mulheres, elas ainda estão segregadas de alguns setores, dominados por homens. Além disso, são as mulheres que ainda assumem sozinhas, em grande parte dos lares, o cuidado com a casa e com a família, o que termina por comprometer muitas vezes sua trajetória profissional. Na pandemia, as mulheres também se tornaram parte do grupo mais vulnerável por estarem vinculadas aos setores mais afetados pela crise, como manufatureiro, hotelaria, comércio e alimentação, e também pelo fato de, durante o fechamento prolongado das escolas, terem acumulado o cuidado com os filhos, o que comprometeu seu desempenho laboral.

Em relação aos jovens, as consequências dos impactos da pandemia são enormes e podem se perpetuar em suas vidas profissionais, configurando as características de uma “geração lockdown”. Eles estão concentrados em três eixos principais: na interrupção da educação e no treinamento e na aprendizagem para o trabalho; 2) na maior dificuldade de entrada no mercado de trabalho, devido à redução de postos e à competição com profissionais mais experientes que perderam o emprego; e 3) na perda do emprego e da renda na crise, juntamente à deterioração da qualidade do emprego.

AUPA – As soluções apontadas para os jovens normalmente são de longo prazo. Como fazer essa educação a curto prazo em um momento de crise?
Vivianne Naigeborin – Não há bala de prata e é importante que as soluções sejam pensadas localmente. Mas, o cerne de qualquer medida empreendida para promover a inclusão produtiva da juventude brasileira deve incluir o jovem no centro do debate. Ele precisa ser escutado. O que já se sabe é que é importante oferecer formações para o mundo do trabalho, com formato e linguagem mais atraentes ao universo jovem, que desenvolvam competências socioemocionais e não só técnicas e que os estimulem a “aprender a aprender”. 

Governos, setor educacional, sociedade civil e setor privado precisam unir esforços para compreender onde estão as maiores dificuldades e onde há oportunidades concretas de empregabilidade no curto e médio prazos, e construírem, em conjunto, programas educacionais com conteúdos relevantes e atuais, bem como políticas de conexão com oportunidades de trabalho em consonância com as oportunidades locais.

AUPA – Empreendedores e grandes investidores estão cumprindo o papel adequado para realizarmos a inclusão produtiva?
Vivianne Naigeborin – Temos observado um interesse crescente de grandes empresas, fundações e institutos e várias delas já adotam a causa da inclusão produtiva como seu eixo principal de atuação.

Cresce a compreensão de que o desafio da inclusão produtiva é um desafio de país. Que somente um país próspero e menos desigual pode avançar e se desenvolver.

E que a promoção de oportunidades de geração de trabalho e renda é o melhor caminho para destravar o enorme potencial produtivo de que dispomos. Além disso, muitas empresas já perceberam que os avanços tecnológicos que estão em curso no mundo só serão realidade aqui, se tivermos talentos capacitados para ocupar esses novos postos de trabalho. E que isso só acontecerá se houver investimentos em educação e formação profissional, além de políticas efetivas de inserção laboral.

AUPA – O empreendedorismo “à força”, pela necessidade, tem crescido durante a pandemia. É cada vez mais comum as pessoas abrirem os próprios negócios, porque não conseguem outra solução. Quais são as vantagens e desvantagens desse processo?
Vivianne Naigeborin – Realmente, houve um aumento expressivo do número de Microempreendedores Individuais (MEI) durante a pandemia (foram mais de 2,6 milhões MEIs criados em 2020, com total de 11,3 milhões ativos em todo o Brasil), acompanhado por uma queda na sua renda média (de 20,1%, de acordo com pesquisa da FGV, realizada em outubro do ano passado), sugerindo o crescimento do empreendedorismo por necessidade. Foi a saída que muitos encontraram para lidar com os momentos de crise e ter alguma fonte de renda. A maioria destes empreendimentos, no entanto, são especialmente frágeis e, muitas vezes, carecem de habilidades de negócio necessárias para serem bem-sucedidos.

Por isso, é importante fortalecer esse empreendedor no âmbito pessoal e também nos temas relacionados ao negócio, especialmente aqueles mais críticos, como educação financeira, gestão, letramento e inclusão digital, acesso a novos mercados, entre outros.

Investimentos de impacto federal: a aproximação do BNDES

0

Imagine um ecossistema onde o Governo é central para o desenvolvimento de negócios que beneficiam pessoas e meio ambiente, fomentando e financiando empresas que resolvem problemas latentes. Ainda distante da realidade brasileira, esse é o contexto de lugares como o Reino Unido: em 2019, o país registrava mais de 100.000 negócios de impacto, que injetam £60 bilhões na economia e empregam mais de dois milhões de pessoas, o equivalente a 5% da mão de obra britânica. Será que uma realidade como essa seria possível no Brasil?

Entre os cases brasileiros de fomento ao ecossistema de impacto, um gigante federal tem dado grandes passos: o BNDES, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. Em 2016, o banco fez a primeira liberação de recursos do Subcrédito Social para projetos de impacto social. Entre 2018 e 2019, iniciou o programa de aceleração BNDES Garagem, com mais de cinco mil startups inscritas. Em 2021,  em chamada pública, foi aprovado o consórcio que une Artemisia, Wayra Brasil e Liga Ventures para a nova edição do programa. O grupo realiza, em conjunto com o BNDES, o apoio e aceleração de startups de impacto de todo o Brasil. O BNDES e o consórcio estão em fase de diligência.

Apoie o jornalismo crítico no ecossistema.

Clique na imagem para acessar o link.
Clique na imagem para acessar o link.
Clique na imagem para acessar o link.

A nova edição do programa terá como o foco a criação e a tração de negócios inovadores que gerem impacto socioambiental. O primeiro ciclo de aceleração, que terá duração de três a quatro meses, tem foco em soluções para saúde, educação, sustentabilidade, govtech e cidades sustentáveis. Mais dois ciclos devem acontecer nos próximos meses, totalizando 135 startups aceleradas. Em 2019, passaram pelo BNDES Garagem negócios como a Benfeitoria, Tamboro e Wecancer.

A escolha das temáticas, segundo William Saab, economista integrante da equipe do BNDES Garagem e servidor do banco há 28 anos, está alinhada com o propósito do banco de transformar a vida de brasileiros promovendo o desenvolvimento sustentável. “Levamos em consideração os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU e a participação do BNDES desde a origem na Estratégia Nacional de Investimentos e Negócios de Impacto (ENIMPACTO), que tem a finalidade de articular órgãos e entidades da administração pública federal, do setor privado e da sociedade civil para a promoção de um ambiente favorável ao desenvolvimento de investimentos e negócios de impacto”, observa.

Lucas Maciel, coordenador da ENIMPACTO. Crédito: Divulgação
William Saab, economista integrante da equipe do BNDES Garagem. Créditos: Divulgação

A entrada do banco na temática é estratégica, de acordo com Lucas Maciel, coordenador da ENIMPACTO. “O BNDES é um player que muda o jogo. Ele consegue abrir mercados e orientar investimentos públicos, por exemplo. Uma vez que entra, acende uma luz que chama a atenção inclusive do mercado privado para o impact investing”. 

Na primeira edição do BNDES Garagem, 57 do total de 74 startups de impacto aceleradas eram originárias de cidades como Rio de Janeiro e São Paulo. Desta vez, o edital de Chamada Pública do BNDES prevê que o consórcio de aceleradoras leve em consideração alguns critérios de diversidade na seleção, como a localização geográfica, com empreendimentos oriundos da periferia ou de regiões e territórios com baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) ou alto Índice de Vulnerabilidade Social (IVS). Também entram como decisivos os critérios de gênero (empreendimentos liderados por mulheres) e diversidade de etnia/raça (empreendimentos liderados por negros – autodeclarados pretos ou pardos -, ou indígenas). A contrapartida dos participantes será somente o desenvolvimento de suas soluções para apresentação a potenciais investidores e públicos de interesse no Demo Day, evento especial em que os empreendedores têm a oportunidade de falar sobre seus negócios.

 O caso brasileiro
O apoio federal ao ecossistema é tímido, mas tem crescido. Exemplo disso é o InovAtiva Brasil, criado em 2013 pelo Ministério da Economia. A ferramenta de gestão pública foi desenvolvida  para fortalecer o ecossistema de startups por meio de mentorias, aceleração e conexão. Hoje, co-realizado pelo SEBRAE, foi eleito a iniciativa que mais gera negócios para startups pelo 100 Open Startups, segundo a revista Exame.

Entre as iniciativas de investimento de impacto federal do BNDES também figura o Fundo Criatec, de investimentos de capital semente destinados à aplicação em empresas inovadoras emergentes. Tem como objetivo obter ganho de capital por meio de investimento de longo prazo em empresas em estágio inicial (inclusive estágio zero), com perfil inovador e que projetam um elevado retorno nos setores Tecnologia de Informação e Comunicação (TIC), Agronegócios, Nanotecnologia, Biotecnologia e Novos Materiais.

A NeuroUP, startup que desenvolve tecnologia de treinamento neuromuscular para o controle avançado dos músculos, foi uma das beneficiadas pelo fundo. O investimento, segundo o fundador Ubirakitan Maciel, foi essencial para a ampliação do negócio. “Nosso contato com o fundo se deu ainda na fase de análise da empresa.

Ubirakitan Maciel, co-fundador NeuroUP. Crédito: divulgação

Em conjunto com a equipe da gestora, desenhamos um planejamento financeiro para posicionar a empresa para as rodadas de investimento. A empresa encontrava-se em um momento de crescimento da base de clientes e diversificação de mercados em potencial, mas ainda não possuía uma estrutura comercial e de suporte adequada para o crescimento”, conta. Depois do investimento, a NeuroUP fortaleceu também a governança.

O papel do governo
“Quando olhamos o setor de impacto no mundo, o papel do Estado, via de regra, é muito importante. Seja ele atuando como regulador, comprador ou fomentador, o Governo entra dando subsídio e outras formas de incentivo”, relembra Lucas. Enquanto as recessões fiscais brasileiras e a não regulamentação de compras públicas travam o apoio federal ao ecossistema, no Reino Unido há anos se fortalecem regulações e incentivos a investidores individuais, Social Impact Bonds (Fundos de Impacto Social) e outros produtos financeiros. O coordenador da ENIMPACTO aponta a frequente troca de chefias do banco federal como outro dificultador da criação de uma base robusta para as estratégias de investimento de impacto.

“A normatização de compras públicas é outro grande desafio que merece ser atacado. Essa é uma das principais formas do governo atuar no setor de investimento de impacto, criando um arcabouço institucional que possibilite a compra preferencial de negócios de impacto, com um tratamento diferenciado na lei de compras, beneficiando empreendimentos que geram impacto positivo social, ambiental e econômico”, observa. Enquanto isso, fica a expectativa para que mais Fundos Criatec e BNDES Garagem sejam criados.

Destaques do Portal

Aupa cria identidade para o Guia do Voto 2024

Projeto editorial contemplou produção de textos e design, além de edição impressa e criação de peças de divulgação e versão inglês.