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Quem empregará a juventude?

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créditos: katielwhite Pixabay

Você sabe o que é a relação ganha-ganha? É aquela onde todos ganham e ninguém perde. Ou seja, um cenário bastante desejado para todos os que trabalham empreendendo e investindo. E a chave para que essa relação possa ocorrer são as parcerias estabelecidas.

Com esta visão, chega a São Paulo o Global Opportunity Youth Network (GOYN). Trata-se de um programa global que envolve pessoas, empresas, fundações, institutos e organizações sociais para criar oportunidades de trabalhos decentes e que aumentem a renda de jovens em situação de vulnerabilidade social.

E o programa já traz um evento gratuito: no dia 6 de outubro ocorre a transmissão do diálogo “Inclusão produtiva de jovens nas empresas: uma relação ganha-ganha”, das 9h às 10h30. As inscrições podem ser feitas neste link. O público-alvo são gestores e o intuito é que estes líderes possam discutir sobre a inclusão produtiva de jovens em suas organizações e empresas.

Vale dizer que uma das consequências das mudanças causadas pela pandemia de Covid-19 é diminuição de oportunidades de trabalhos decentes e que ajudem a superar a exclusão social, sobretudo oportunidades voltadas aos jovens. São Paulo teve cerca de 35% de seus jovens afetados pelo desemprego e apenas 13% deles têm Ensino Superior completo.

Daniela Saraiva Santos, líder do GOYN SP, comenta sobre este contexto. “Só na capital paulista temos mais de 760 mil ‘jovens-potência’, que é como chamamos aqueles que têm entre 15 e 29 anos e que estão fora da escola, desempregados ou trabalhando em empregos informais”, explica Santos. “A pandemia agravou ainda mais a situação deles, por isso, mais do que nunca, o nosso desenvolvimento socioeconômico depende da inclusão produtiva desse público”, afirma.

Farão parte do debate alguns dos membros da rede do GOYN São Paulo, como: Vivianne Naigeborin, superintendente da Fundação Arymax, Leonardo Framil, presidente da Accenture América Latina, Florence Bauer, representante da Unicef Brasil, Juliana Azevedo, CEO da P&G, além de Ana Inez e Henrique Medeiros, dois jovens envolvidos no projeto.

O GOYN iniciou suas atividades em 2018 e é liderado pelo Instituto Aspen. Sua atuação acontece também nos seguintes territórios: Bogotá (Colômbia), Thekwini (África do Sul), Mombasa (Quênia), Pune e Ramgarh (Índia).

Não basta ser ético, tem que parecer ético

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Transparência e consistência na divulgação de dados de impacto social são tão importantes quanto as ações em si. crédito: Equipe de Arte Aupa

Já diz o provérbio que “À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”. A máxima também pode – e deve – ser aplicada a empresas socialmente responsáveis, negócios de impacto ou organizações da sociedade civil em geral na hora de divulgar ações e resultados.

Nos últimos meses, a ponteAponte realizou inúmeras pesquisas de dados secundários tanto para a produção de estudos amplamente divulgados, como os relatórios Os primeiros 60 dias de Covid-19 no Brasil em 60 fatos: reflexões e tendências em filantropia, investimento e o campo de impacto e Cenários e tendências sobre o campo de negócios de impacto e intermediários frente à Covid-19, como para um levantamento de benchmark para um cliente. Porém, frequentemente, houve grande dificuldade de encontrarmos dados consolidados e consistentes, seja de organizações menores e coletivos, seja de grandes empresas.

Em nosso mapeamento inicial, por exemplo, era muito comum encontrarmos campanhas de arrecadação de recursos que não indicavam o volume total já arrecadado ou a meta de arrecadação, para quem especificamente esses recursos seriam doados, como chegariam até quem mais necessitava, entre outras informações básicas.  Às vezes não havia sequer uma informação de contato ou de quem estava organizado a ação! Entendemos que, dada a urgência provocada pela pandemia, muitas ações foram idealizadas “da noite para o dia”. Ainda assim, cuidados básicos na comunicação são essenciais para garantir mais credibilidade e, consequentemente, nesses casos, mais arrecadação.

O problema é ainda maior quando falamos de grandes empresas, institutos e fundações, que muitas vezes também falham na comunicação de dados consolidados de suas ações de investimento social privado. Ao fazermos um benchmark de cerca de 15 empresas recentemente, encontramos inconsistência de dados entre documentos da própria empresa (como relatórios anuais de atividade ou de sustentabilidade), as informações do site ou de mídias sociais (como divergências no total de beneficiários, valores investidos, total de cidades, etc) e matérias veiculadas na imprensa (por exemplo, sobre o lucro ou prejuízo do ano anterior). Em que informação confiar quando há dois (ou mais) dados diferentes sobre o mesmo ponto sem nenhuma justificativa?

Pior, como confiar em qualquer informação que a organização publique quando encontramos erros ou inconsistências nos dados?

A divulgação correta, e facilmente acessível, de dados e informações sobre investimento social privado, ações filantrópicas ou iniciativas de impacto é tão importante quanto as ações em si. A falta de informação ou informações desencontradas podem gerar desconfiança e descrença, seja por parte de investidores, seja da mídia ou da própria sociedade. Embora as causas dessas inconsistências possam ser as mais variadas, da correria do dia a dia a um desalinhamento interno ou qualquer outro motivo, convidamos aqui todas as organizações a refletirem sobre como a comunicação pode entrar na pauta como um valor em si, garantindo o máximo de cuidado com a disseminação de dados e informações.

 

Este texto é de responsabilidade da autora e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa.

Enactus: quando as ações de impacto nascem na universidade

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Um sistema de captação de água da chuva, que garante água limpa para famílias em vulnerabilidade socioeconômica na Amazônia. Uma ótica com o objetivo de doar um milhão de óculos de grau até 2021. Uma plataforma de inclusão de refugiados e imigrantes no mercado de trabalho. Todas essas iniciativas têm duas coisas em comum: ganharam o mundo como negócios sociais e foram criadas por estudantes universitários voluntários da Enactus. A organização global, com sede no Brasil desde 1998, representa um movimento de fomento ao empreendedorismo social na prática que, mesmo heterogênero, tem transformado a experiência universitária de quem participa.

Como funciona?
A Enactus estimula a formação de “times Enactus” dentro das universidades, reunindo estudantes para desenvolver soluções sustentáveis para problemas locais, como a falta de água e a desigualdade de oportunidades. No Brasil, são 120 times distribuídos em 21 estados. No mundo, são 37 escritórios nacionais apoiando o desenvolvimento de times na América, Europa, Ásia, África e Oceania.

Com o tripé Enactus “social, econômico e ambiental” para a criação de projetos, estudantes compreendem as necessidades de comunidades locais e aplicam conhecimento técnico-científico em uma jornada de impacto fora dos muros da universidade. A experiência exige inovação, visão de negócios e capacidade de empreender – habilidades que lentamente começam a integrar grades curriculares e programas nas universidades do país. 

Crédito: Pixabay

“Ao longo das últimas décadas, universidades em todo o mundo têm realizado uma virada empreendedora, fomentando cada vez mais essa temática. O que não implica dizer, obviamente, que o caminho esteja sendo percorrido a contento em termos de velocidade e muito menos que ele seja homogêneo”, observa José Augusto Lacerda, embaixador da Rede de Professores Academia ICE e Coordenador de Empreendedorismo na Agência de Inovação Tecnológica da Universidade Federal do Pará. 

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Segundo o relatório feito pelo Sebrae e pela Endeavor, sobre o empreendedorismo nas universidades brasileiras, 54% da disciplinas de empreendedorismo ofertadas por instituições de Ensino Superior destacam o tema “inspiração para empreender”, mas não oferecem estrutura completa que apoie potenciais empreendedores, como conteúdos de gestão de negócios e inovação.

 A oferta de atividades extracurriculares, como feiras de empreendedorismo e hackathons, acontece em menos de 35% das IES. “Há um universo bastante assimétrico, que vai desde manjedouros de inovação, como é o caso de instituições como Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), fundamental para o sucesso do Porto Digital (em Recife), até aquelas que estão dando os primeiros passos nessa seara”, completa José Augusto.

José Augusto Lacerda é embaixador da Rede de Professores Academia ICE e coordenador de Empreendedorismo na Agência de Inovação Tecnológica da Universidade Federal do Pará. Crédito: Divulgação.
Crédito: Equipe de Arte Aupa

"É preciso encontrar novos mecanismos de ensino. É utópico querer jovens extremamente inovadores por meio de técnicas e procedimentos didáticos, muitas vezes, arcaicos",

salienta José Augusto.

Quem faz?
O programa da Enactus abrange o acompanhamento de times por coordenadores de programa do escritório nacional, mentoria de um professor conselheiro vinculado à universidade do time de origem e diversas oportunidades de desenvolvimento profissional e dos projetos. Além de oferecer treinamentos e eventos gratuitos, patrocinados por empresas parceiras, os times disputam em editais exclusivos para a rede Enactus e participam anualmente de uma competição nacional, onde o vencedor representa o Brasil na copa mundial de empreendedorismo social da Enactus.

Enactus World Cup. Créditos: Divulgação Time Enactus UFPA

São empresas como KPMG, Amanco Wavin e Fundação Cargill que realizam investimentos sociais para a manutenção de times e projetos, conectando jovens com suas marcas e amplificando o impacto social para ambos os lados. Segundo Joana Rudiger, presidente da Enactus no Brasil, a abrangência da organização torna-a um vetor de disseminação da cultura do empreendedorismo no país.

“Nos vemos como uma rede de alcance nacional e internacional que não encara as barreiras geográficas como determinantes para o desenvolvimento de impacto local. Por isso, contribuímos para o desenvolvimento dos jovens enquanto parte de suas comunidades locais para servirem no futuro como pontos de disseminação e pulverização do investimento de impacto”, explica Joana.

Joana Rudiger, presidente da Enactus no Brasil. Créditos: Enactus no Brasil
Crédito: Equipe de Arte Aupa

Assim como relatado no Guia 2.5 de mapeamento de iniciativas que investem em negócios de impacto no Brasil, feito pela Quintessa, as iniciativas de financiamento e aceleração de impacto concentram-se no Sudeste, 62,5% do total. No caso das empresas parceiras da Enactus não é diferente. Ainda que a localização do escritório nacional em São Paulo favoreça o estabelecimento de financiadores sociais, o crescimento dos times também depende do apoio regional. No Ceará, por exemplo, a concentração do número de times veio do interesse de um parceiro Enactus local, raridade fora do território paulista. Ainda assim, nos últimos anos os times de maior destaque nos campeonatos anuais da Enactus foram das regiões Norte e Nordeste, reforçando o potencial de desenvolvimento e impacto.

Créditos: Arquivo Enactus Brasil

A trajetória Enactus
Mais de 400.000 horas voluntárias trabalhadas, 200 projetos criados, mais de 3.000 estudantes e 215 professores envolvidos na transformação das vidas de 77.632 pessoas. Esse foi o impacto da Enactus no último ano, que mesmo em meio à pandemia da Covid-19 fortaleceu as atividades da rede para atender as necessidades urgentes de comunidades vulneráveis no país. 

“Os desafios se intensificaram no quesito de sustentabilidade financeira, uma vez que os investimentos em organizações sociais ganharam um novo foco durante a pandemia”, reflete Joana. Enquanto projetos com enfoque emergencial ganharam relevância, a Enactus combinou ações emergenciais com o desenvolvimento de soluções adaptadas à nova realidade, a exemplo do Enpathos. Criado pelo Time Enactus da Universidade Estadual de Santa Cruz, em Ilhéus (BA), consiste em uma plataforma gratuita para conectar apoiadores (empresas, mentores e voluntários) com empreendedores sociais locais afetados pela pandemia.

A presidente da Enactus Brasil reforça que o sucesso de grandes profissionais está diretamente relacionado à sua capacidade de descobrir oportunidades e de reagir rapidamente a mudanças. “Na Enactus, geralmente, é a primeira vez que os jovens ficam diante de problemas mais complexos, como as relações humanas dentro de seus times, os entraves burocráticos de gerir um negócio, o impacto de uma política pública mal implementada. Essas são as grandes questões que encontrarão para resolver, seja em empresas, seja como empreendedores ou agentes públicos”, relata. Não é à toa que alguns projetos Enactus ganham o potencial de se tornar, de fato, negócios sociais.

“A Enactus me ensinou muito a trabalhar em equipe, me posicionar mais sobre minhas ideias e valores, em ser mais proativa e desenvolver esse espírito empreendedor”, conta Isabel Cruz, sócia fundadora do Amana Katu e membro da equipe desde a fundação do projeto no Time Enactus UFPA.

A oportunidade de se conectar com executivos e empreendedores refletiu no título de embaixadora brasileira da Ford Foundation no Brasil para Isabel, além de dois títulos mundiais do World Water Race para o Amana Katu.A premiação global da Enactus para atingir o ODS 6 consagrou a iniciativa em 1º lugar em 2018 e 2º em 2019 em apresentações para líderes empresariais no Vale do Silício, Estados Unidos.

Isabel Cruz, sócia fundadora do Amana Katu e membro da equipe desde a fundação do projeto no Time Enactus UFPA. Crédito: Time Enactus
ODS 6. Crédito: Organização das Nações Unidas/Equipe de Arte Aupa.

Durante o desenvolvimento na Enactus, a equipe do projeto se conectou com empresas e aceleradoras nacionais e internacionais que apoiaram a transição do projeto para empresa social. Os negócios de impacto socioambiental da região Norte ainda representam a menor porcentagem do país – 7%, segundo mapeamento feito pela Pipe.Social

No entanto, as financiadoras e desenvolvedoras de impacto na região também têm a menor abrangência: somente três das 48 mapeadas pela Quintessa estão no Norte. Outra experiência aliada à Enactus foi a de Matheus Cardoso, fundador do Moradigna. O negócio de reforma de cômodos e residências insalubres nas periferias de São Paulo e Rio de Janeiro, que visa atender a população de baixa renda, foi desenvolvido enquanto Matheus participava do Time Enactus Mackenzie. 

“Eu cursava Engenharia Civil e não via nada sobre empreender, sobre gestão de projetos e de pessoas, análise de resultados. Na Enactus, pude aprender tudo isso na prática e simultaneamente aplicar no Moradigna”, revela. Nas universidades brasileiras, as disciplinas relacionadas ao empreendedorismo estão presentes em 74% dos cursos de Administração e Negócios, 56,1% nas Engenharias em menos da metade em cursos de outras áreas, segundo pesquisa do Endeavor e Sebrae.

Matheus Cardoso, fundador do Moradigna. Crédito: Divulgação
Créditos: Divulgação Moradigna

Futuro
Diferente de programas institucionais, os times Enactus se formam organicamente, por indicação ou interesse de grupos de estudantes. O reconhecimento da Enactus como atividade de extensão acadêmica e maior suporte local aos times são algumas das ações que poderiam garantir o peso da Enactus na transformação das estatísticas do empreendedorismo brasileiro. Outra oportunidade é pautar no ambiente acadêmico ações práticas e ordenadas do uso de recursos naturais, promoção de vida e trabalho digno a todas as pessoas e alinhamento aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas.

José Augusto reforça que somente com a união de esforços entre organizações e profissionais será possível alcançar um modelo de desenvolvimento mais inclusivo e harmônico. “Neste ponto, é lógico que as universidades, pela sua pujança na criação, difusão e aplicação do conhecimento, têm um papel fundamental nesse processo. Daí a necessidade de fortalecer o Ensino Superior, de valorizar professores, pesquisadores e estudantes que fazem a educação acontecer nesse país. É por meio deles que novos rumos se abrem, processos/produtos se criam e problemas viram soluções, explica. Nesse sentido, vale também reforçar a necessidade de fortalecer o diálogo entre universidades, agentes articuladores de impacto e órgãos governamentais.

Não restam dúvidas de que a Enactus marca a trajetória de quem passou pela experiência de trabalhar com impacto social. A rede de alumni da Enactus no Brasil envolve centenas de profissionais experientes que contribuem para a formação de novos líderes universitários e carregam consigo a consciência de um novo modelo de desenvolvimento. A fórmula da organização pode e deve ser replicada em programas institucionais.

O foco da Enactus daqui para frente é investir na internacionalização dos estudantes e na qualidade de times e projetos, apostando na maturidade e na possibilidade de tornar-se referência a nível global. A guinada das universidades para a inserção de experiências empreendedoras no currículo traz esperança: “Se hoje a Enactus ainda não é uma instituição tão conhecida das reitorias, em breve o será. E se hoje o relacionamento ainda é truncado com algumas instituições, em breve não será mais”, prevê Joana.

PIB cai e pobreza extrema cresce

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Queda do PIB. Crédito: Equipe de Arte Aupa

A pandemia causada pelo novo Coronavírus gerou impacto na economia do Brasil e do mundo. Na primeira semana de maio, a quantidade de pessoas desempregadas era de 9,8 milhões e, em três meses, esse número saltou para 12,9 milhões, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Diante de tais índices, vale ressaltar a importância de se tratar as propostas do ODS 8 – um dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU). Este objetivo, contextualizado na Agenda 2030 da ONU, incentiva a geração emprego decente, apoio ao empreendedorismo, e incentivos à formalização e ao crescimento das micro, pequenas e médias empresas, inclusive por meio do acesso a serviços financeiros para trazer melhorias nos empregos.

O Brasil deve terminar 2020 com 9,5% de pessoas na condição de pobreza extrema, de acordo com a avaliação da ONU. Vale lembrar que essa taxa foi de 5%, em 2019. A entidade estima que a queda do Produto Interno Bruto (PIB) regional de 2020 será de 9,1% – a maior em um século.

O número de pessoas extremamente pobres pode atingir a 83,4 milhões de pessoas na América Latina e Caribe em 2020, ainda segundo a ONU.

Fonte: IBGE, EBC, Banco Mundial, ONU e Pnad Covid-19. Crédito: Equipe de Arte Aupa

Maurício Almeida Prado, diretor executivo do Plano CDE, conta que o Auxílio Emergencial aplicado no Brasil durante a pandemia reduziu a pobreza extrema. “A nossa preocupação é com o que vai acontecer depois que o auxílio acabar. Mas, com certeza, esse benefício foi muito importante e serviu de colchão para os mais pobres durante a pandemia”, explica o diretor. “Muito beneficiários perderam o emprego ou tiveram o salário reduzido. Muitas famílias dependem de quem mora junto e tem uma renda fixa – para sustentar o restante que tem uma renda informal”, completa Prado.

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Com a pandemia, as classes mais pobres se depararam com a falta de renda ou a diminuição dela. Prado explica que há três grupos das classes C, D e E que estão passando por isso. “O primeiro grupo (classe E), representados pelos que ganhavam até R$ 2.000,00, perderam muita renda e passaram a ganhar os R$600,00 do Auxílio Emergencial (ao invés do R$ 200,00 do benefício do Bolsa Família). O segundo grupo (classe D), são aqueles que ganhavam entre R$ 2.000,00 a R$ 3.000,00. Estas pessoas não recebiam benefício do Bolsa Família e, com a pandemia, começaram a receber o Auxílio Emergencial”, explica ele, que completa: “Essas pessoas têm renda variável, trabalho por conta própria e informal. Porém, o auxílio é insuficiente, pois há pessoas nestes lares que dependem umas das outras”.

Sobre o terceiro grupo (classe C), Prado explica que este “Recebia entre R$ 3.500,00 e 6.000,00, não pode receber o Auxílio Emergencial e está endividado por causa do trabalho informal”. Diante deste panorama, o executivo enfatiza:As classes D e E têm risco de passar fome quando o Auxílio Emergencial acabar, ao passo que a classe C, devido ao risco de endividamento, pode chegar a passar fome também, explica Prado.

Maurício Almeida Prado, diretor executivo do Plano CDE - Crédito: Divulgação.

Desprotegido na pandemia
O Carlos Monteiro*, de 40 anos, é autônomo e faz parte do grupo de pessoas que perderam renda com a pandemia. Como ganha a vida vendendo água e chocolate na rua, Monteiro se sentiu desprotegido sem poder trabalhar. “Como não pude voltar a trabalhar, mesmo com o comércio aberto, minha renda caiu mais de 50%. Sou chefe de família, o que complicou ainda mais minha situação”, conta ele.  

Sentindo falta de benefícios e renda fixa, Monteiro conta que seu trabalho é perigoso, pois precisa fugir de policiais e guardas, que acabam tomando suas mercadorias. E essa vulnerabilidade também culmina na diminuição da renda mensal. Contando totalmente com o Auxílio Emergencial, ele está preocupado com a diminuição no valor do benefício. “Eu tenho tuberculose, faço parte do grupo de risco e por isso não voltei a trabalhar. Além do medo de contrair o Coronavírus, estou preocupado com a diminuição do Auxílio Emergencial, que já era pouco e agora vai me colocar em uma situação delicada. Não sei o que será de mim e da minha família até isso passar“, relata Carlos.

Crédito: Equipe de Arte Aupa
Bolsa Família. Crédito: Equipe de arte Aupa.
Auxílio Emergencial. Crédito: Equipe de Arte Aupa

Programa de renda básica
Um possível programa de renda básica circula no Congresso Nacional. O intuito é que o benefício atinja toda a população, independentemente da faixa salarial. A perspectiva de que um programa desse tipo possa ser implementado deu esperança a Eduardo Suplicy (PT), ex-senador e hoje vereador em São Paulo. Ele  já teve um projeto sobre o assunto aprovado no Parlamento e sancionado pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2004. Mas o texto da lei 10.835, que instituiu a renda básica da cidadania, nunca foi colocado em prática e agora voltou a ser discutido pelo Governo Federal. Você pode ler mais sobre o projeto aqui.

Haroldo Torres, economista e consultor associado à Berlim Consultoria, explica que esse programa de renda básica, que está em discussão, prevê uma versão de renda para todos os brasileiros. “O benefício deve funcionar de forma que os mais pobres tenham direito a uma renda e os ricos abatam um certo valor em impostos”, detalha.

Haroldo Torres, economista e consultor associado à Berlim Consultoria. Crédito: Divulgação.

Leia também: “Por que falar em políticas de renda mínima?”. Clique na imagem acima para ler o artigo completo. 

Emprego informal na pandemia
De acordo com o IBGE, a pandemia deixou três milhões de brasileiros desempregados – hoje, o desemprego atinge 12,9 milhões de pessoas. Segundo Torres, esse índice é de 13% ao ano, mas isso indica apenas a quantidade de pessoas que procuraram emprego na semana da pesquisa, ou seja, esse número é muito maior, pois não foram contabilizadas as pessoas que também estão desempregadas, mas não procuraram emprego na semana da pesquisa. “O maior grupo de pessoas desempregadas é composto por jovens de 20 anos, pessoas negras e periféricas. Os menos escolarizados têm menos chance de trabalhar, pois esse grupo mora longe dos bairros centrais e o empregador não quer atender o requisito de quem mora no subúrbio”, explica o economista.

Prado, por sua vez, explica que o desemprego é sempre maior na periferia e as mulheres são as mais afetadas. “Antes da pandemia, 62% dos homens das classes C, D e E trabalhavam. As mulheres da classe B atingiam a mesma porcentagem e na periferia apenas 42% das mulheres trabalhavam. Cerca de quatro a cada 10 jovens das classes C, D e E não estudam e não trabalham e isso acontece também por falta de oportunidades”, exemplifica o executivo.

Sophia Cordazzo, de 29 anos, trabalha como freelancer no setor Audiovisual há sete anos.  Atuando como produtora, maquiadora e assistente de direção, Cordazzo se viu desamparada em meio à pandemia e começou a estudar psicanálise para ter uma nova profissão. Mesmo já tendo trabalhado no regime CLT, a profissional explica que como freela consegue receber mais do que os profissionais que têm um emprego formal. Porém, ao mesmo tempo, não recebe benefícios e não tem direitos, como férias remunerada, seguro-desemprego, entre outros – o que, no fim, “Acaba dando na mesma”, segundo ela. “O meu ano é sempre oscilante. Em meses bons, eu faço 10 diárias e, em meses ruins, faço quatro. Desde que começou a pandemia, eu fiz zero trabalhos, ou seja, cinco meses sem emprego nenhum. Mas, mesmo assim, tive medo de pedir o auxílio emergencial e pegar o lugar de alguém que está em situação de vulnerabilidade”, avalia Cordazzo, que não faz parte do grupo identificado com as linhas de pobreza.

Vendedores ambulantes. Crédito: Taniadimas

Com medo que as produtoras que ela presta serviço fechem, Sophia diz que se preocupa como vai ser daqui para frente, quando tudo voltar ao normal – ou, ao menos, acontecer a retomada de trabalho de forma mais ampla. “Estou usando a minha poupança para pagar as contas, mas esse dinheiro eu estava guardando para outras coisas. Só recebi duas parcelas do Auxílio Emergencial. Demorou muito para eu ser aprovada, pois o aplicativo é bem lento e agora estou na espera da terceira parcela”, comenta ela. 

“O setor de freelancer no Audiovisual é precário, pois as empresas querem cada vez menos se responsabilizar com o profissional. Sinto falta de contratos alinhados com o sindicato dos radialistas para me sentir mais segura em relação a roubos de equipamentos, bem-estar da equipe e acidentes. Não recebemos horas extras quando passa do tempo combinado da diária e fica por isso mesmo”, descreve.

Sophia Cordazzo, de 29 anos, trabalha como freelancer. Crédito: Divulgação.

Torres explica que a informalidade acontece porque o país não gera emprego suficiente e as pessoas precisam se virar para sobreviver como autônomos. “O PJ [Pessoa Jurídica] é um sistema precário por não ter benefícios e a terceirização deve crescer no país. O custo para empregar deve diminuir e a economia do país precisa crescer para gerar mais empregos formais”, comenta.

*Atendendo o pedido da fonte, foi usado um pseudônimo. 

Hibridismo anárquico

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No artigo A urgência paciente, falei sobre o Manifesto Ágil da Gestão de Projetos e indaguei um pouco sobre por que a discussão sobre a gestão ágil e o pensamento enxuto ainda é tão reduzida no campo social. Honestamente, ainda não alcancei essa resposta – e nem sei se chegaremos a uma resposta definitiva. Porém, há boas experiências usando algumas práticas e exercitando os modelos mentais propostos por essas abordagens.

Recentemente, fui apresentada ao Manifesto Híbrido. Apesar de ainda ser pouco conhecido, ele me fez refletir: será que este não seria um caminho para comunicar o que tenho experimentado na gestão de projetos recentemente? Observar a necessidade de quem está recebendo as atividades de um projeto deve ser o principal objetivo do gestor de um projeto. E combiná-lo com diferentes metodologias, técnicas e ferramentas trará melhores resultados, inevitavelmente.

Há algumas semanas, passei pela experiência de ser contratada para realizar um projeto bem curto: total de sete semanas entre planejar, executar e fechar. As nossas primeiras atividades seriam algumas conversas individuais com mulheres que passariam, em seguida, por uma série de encontros on-line sobre gestão de projetos. Nestas conversas, surgiram novas informações e constatações, que não estavam destacados até então: algumas destas mulheres poderiam ter dificuldade de acesso – e este fato, consequentemente,  prejudicaria a participação destas, devido à falta de equipamento ou de banda de internet suficiente.

No período de menos de 24 horas úteis, entendendo a necessidade de algumas destas mulheres, as três equipes envolvidas neste projeto, por atuarem com premissas da mentalidade ágil, transformaram o encontro virtual em uma formação híbrida virtual e presencial. Assim, permitimos que quem não estivesse confortável com o acesso on-line, pudesse participar. O planejamento inicial do projeto foi realizado para que todos os encontros fossem virtuais, o cronograma e os recursos previam que assim fosse. No entanto, se assim mantivéssemos rigidamente, quem se beneficiaria?

Não vamos deixar de usar ferramentas tradicionais de gestão de projetos, como cronogramas organizados em diagramas de Gantt, orçamentos baseado em atividades ou EAPs, por exemplo. Mas, como a busca constante é de que o produto seja útil e benéfico para o usuário final (neste caso, as mulheres entrevistadas), não tivemos medo de mudar e transformar o planejamento – até mesmo em cima da hora –, porque tínhamos evidências baseadas em dados de que esta mudança era uma necessidade do usuário: para quem fazemos o projeto.

Certa vez, um gestor de um grande instituto me disse que tinha medo de abordar a temática de gestão ágil com a sua equipe, pois receava abrir uma brecha para uma “anarquia na gestão”: como garantir que a equipe entenderia como, quando e por que o planejamento poderia mudar várias vezes ao longo do ano? Também não tenho a resposta exata para essa pergunta.

Mas acredito que assegurar que a equipe entenda com profundidade quem é a população que vive o problema, que o projeto pretende resolver, e quais são suas principais necessidades, são bons primeiros passos para justificar mudanças ágeis no planejamento de projetos.

Desvendando ESG: o que significa e como se aproxima – ou não – da agenda de impacto

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ESG. Crédito: Equipe de Arte Aupa

A sigla ESG (em tradução livre, ASG: ambiental, social e governança) tem ganhado cada vez mais destaque no mercado de investimentos. Isso porque a forma com que as empresas direcionam esses tópicos são critérios cada vez mais considerados por investidores. 

Apesar de ter raízes no mundo financeiro, é importante entender o histórico de ESG e as relações com a agenda de impacto. A preocupação de mitigar impactos negativos norteiam empresas há muito tempo. Exemplos como o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) das empresas listadas na B3, que é feito desde 2005, e relatórios de sustentabilidade são práticas comuns entre companhias.

Segundo Gustavo Pimentel, diretor da SITAWI, anteriormente à sigla ESG, o SRI (socially responsible investment; na tradução livre, investimento socialmente responsável) era conhecido no mercado de investimento e tinha como norteador excluir empresas de setores considerados nocivos como fumo, armas, entre outros. 

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“Quando a sigla ESG surgiu, em 2006, havia uma abordagem de melhores empresas de cada setor sem excluir”, comenta Gustavo. Na SITAWI, o executivo lidera a maior prática de pesquisa e consultoria no tema Finanças Sustentáveis da América Latina.

Crédito: Pexels Joslyn Pickens.

Para especialistas, enquanto os negócios de impacto nascem com o objetivo de combater problemas da sociedade, empresas norteadas por ESG buscam reduzir os impactos negativos com um olhar mais para dentro dos critérios ambientais, sociais e de governança, que, inevitavelmente, impactarão o externo.

“É uma trajetória diferente de impacto, pois o impacto surge para contribuir com a mudança do mundo. O ESG é de dentro pra fora, onde investidores analisam como a empresa se relaciona com os funcionários, comunidade e entorno. O ideal é que as empresas incorporem ESG nos modelos de negócios”, avalia Marina Cançado, head de Sustainable Wealth na XP Private.

Créditos: Pixabay.

Neste sentido, é possível que um negócio de impacto não adote critérios ESG internamente e esse é um ponto importante de tensionar. “A minha crítica é de não olhar o interno. Na pandemia vimos isso, startups de impacto com posturas questionáveis frente aos stakeholders”, pontua Marina Cançado.

De acordo com Aron Belinky, líder da ABC Associados, a perspectiva ESG precisa discutir mais a interdependência entre os vários aspectos (ambiental, social e governança) com análises e ferramentas que integrem os conceitos.

“Desenvolvimento sustentável com base nos ODS da ONU, desempenho econômico e impacto estão na agenda das empresas, mas na perspectiva ESG a interligação entre esses itens não aparece como prioridade, apesar de olhar para esses fatores”, comenta Aron, que atua como parceiro técnico em projetos como o Guia Exame de Sustentabilidade e ISE B3. 

Esses conflitos existentes quando se fala em negócios de impacto e empresas guiadas por ESG mostram que os mercados estão em constante evolução e um não invalida o outro. “Podemos pressionar para uma determinada empresa ter mais padrões sustentáveis, mas isso não invalida que temos que apoiar quem deseja montar uma startup para melhorar o saneamento no Brasil ou a habitação”, exemplifica Beto Scretas, consultor do ICE. 

Outro ponto de discussão é como avaliar os critérios ESG e fazer um comparativo entre empresas. Não há um consenso, já que depende muito do que o investidor considera importante. A SITAWI, por exemplo, faz avaliação ASG de empresas e ativos. Eles possuem relatórios disponíveis de 150 empresas listadas em bolsas e debêntures.

Gustavo Pimentel, diretor da SITAWI. Crédito: Acervo SITAWI
Beto Scretas, consultor do ICE. Crédito: Divulgação

“Mas não existe um padrão global para análises ASG, existe uma guerra de padrões, o investidor é soberano”,

comenta Gustavo Pimentel.

Marina Cançado, head de Sustainable Wealth na XP Private. Crédito: Divulgação/XP
Aron Belinky, líder da ABC Associados. Crédito: Divulgação

Já os negócios de impacto tendem a ter mensurações mais rigorosas a medida que o modelo de negócio evolui.  A cada cinco anos, a Aliança pelos Investimentos e Negócios de Impacto faz uma escuta com diferentes atores do setor e, a partir disso, divulga recomendações para o avanço da agenda. Para o período de 2020-2025 o foco é contabilidade de impacto. 

O objetivo é ter  mais transparência para conseguirmos mais dinheiro disponível para o investimento de impacto”, ressalta Beto Scretas, que faz parte da diretoria-executiva da Aliança. 

Como uma tendência, alguns defendem que as empresas vão incorporar, cada vez mais, o impacto nos seus modelos de negócios. “Dá pra imaginar que as grandes empresas buscarão trazer para seu portfólio o impacto, pois esses negócios estão ligados à inovação, seja social ou tecnológica. A escala que isso acontecerá não sabemos”, pondera Aron Belinky. 

Investimentos ESG
No segundo trimestre de 2020, fundos que investem com base nos critérios ESG alcançaram, pela primeira vez, o valor de US$1 trilhão em patrimônio, de acordo com o levantamento da Morningstar, empresa de pesquisa sobre investimentos. 

A mesma pesquisa ainda apontou que a maioria desses investimentos (US$870 bilhões) está na Europa, que concentra 78,8% dos 3.432 fundos ESG. A outra fatia está nos Estados Unidos, que acumula US$158,9 bilhões investidos. 

Isso mostra o mercado aquecido mesmo em tempos de pandemia.

No Brasil, o mercado de fundos ESG ainda está em ascensão. Segundo dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), fundos com princípios socioambientais têm patrimônio líquido de R$543,1 milhões – o número cresceu 43% desde o fim de maio. A captação líquida no ano é de R$76,1 milhões.

A XP Investimentos anunciou, recentemente, a cobertura de fundos ESG e indicou 10 ações com base nos critérios de avaliação do MSCI ESG Ratings. “Vamos, cada vez mais, democratizar fundos na nossa plataforma para que os clientes possam, junto com os assessores, encontrar o que faz sentido para cada um”, disse Marina Cançado.

Outro anúncio que movimentou o mercado ESG foi o lançamento do índice S&P/B3 Brasil ESG. Esse indexador utilizará critérios baseados em práticas ambientais, sociais e de governança para selecionar empresas brasileiras à carteira. 

Segundo o comunicado da B3, “O índice utiliza o universo das empresas listadas na B3 e que compõem o S&P Brazil BMI (Broad Market Index), com exceção daquelas que não estão aderentes aos princípios do Pacto Global ou que fazem parte de setores específicos (tais como, armas, tabaco e carvão térmico)”.

Semana da educação humanizada

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Crédito: Foto de Julia M Cameron.

A Educação é uma pauta quente sempre. Afinal, ela é um investimento e também uma ferramenta de transformação e mobilização social. Diante dos obstáculos e dos problemas causados pela pandemia, dialogar sobre Educação torna-se dever cidadão, sobretudo em um ano com eleições.

Pensando nessa possibilidade de diálogos, o Movimento pela Educação Humanizadora (MOVEH) organiza a Semana da Educação Humanizada. O evento on-line acontece entre os dias 21 e 24 de setembro, das 16 às 17h30. A plataforma utilizada será o canal do MOVEH no YouTube e você pode fazer sua inscrição aqui.  

O MOVEH foi criado em 2019 por um grupo de organizações e voluntários atuantes no campo da Educação. Seu objetivo é debater, compartilhar experiências e propor práticas pedagógicas e políticas públicas que possam contribuir com o desenvolvimento da Educação brasileira.

Vale dizer que se trata de uma iniciativa suprapartidária e que recentemente lançou o Manifesto pela Educação Humanizadora, que pode ser acessado aqui. Estão sendo recolhidas assinaturas de pessoas e instituições, uma vez que o documento será apresentado aos candidatos às prefeituras e câmaras legislativas. O intuito é que os princípios da Educação Humanizadora possam dialogar diretamente com programas de governo e projetos legislativos.

A epidemia do impacto

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crédito: Mat Reding no Pexels

Meu quarto livro está saindo do forno,
sendo o segundo aqui com a Aupa.

Para quem não leu ainda,
o anterior, Impacto na Encruzilhada,
está disponível aqui

Nele, trago vários artigos sobre
inovação social, investimento social privado
e negócios de impacto.

Como gosto de dizer,
uma abordagem menos óbvia.

E o novo livro,
A Epidemia do Impacto,
saindo do forno agora,
traz o quê de diferente?

Pelo menos, três coisas:

  1. Foi escrito durante a pandemia e, portanto, reflete angústias, percepções e olhares demarcados neste contexto, com acertos e erros.
  2. Tem um formato mais enxuto – tipo um ensaio; ou, para os mais antigos, tipo um EP musical.
  3. É um texto único, do começo ao fim, e não um conjunto de artigos.

Nele, procuro refletir sobre os tais “novo normal” e
“nova economia”, que tanto ouvimos.

E, por vezes, repetimos entre “fazedores de impacto”.

Além de outras reflexões sobre 
ecossistemas, bolhas, narrativas
e tantos outros aspectos do campo de impacto.

Campo este que,
em geral,
evita endereçar questões estruturantes
de nossa sociedade.

Para quem busca um conteúdo,
na linha “Sessão da Tarde”,
lamento informar.

O novo livro está mais para
“Bacurau”, “Parasita” e “Dogville”.

Clique aqui para comprar o livro A Epidemia do Impacto.

 

 

Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa.

O momento das health techs

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A pandemia de Covid-19 causou uma grave crise econômica na grande maioria das empresas. Mas toda crise também gera oportunidades. E, neste caso, era esperado que negócios ligados à saúde tivessem algum benefício. Magnamed e TNH Health são exemplos de empresas que cresceram durante a pandemia. E ambas mostram o tamanho do impacto que a tecnologia causa na saúde atualmente. Afinal, até inteligência artificial está ganhando espaço nesse setor.

Mas não é um processo tão natural. A tecnologia sempre foi vista com desconfiança na área da saúde. Nem todos os pacientes se sentem protegidos à distância. E muitos médicos acreditam que podem perder espaço por causa de sistemas automáticos. “As pessoas falam que preferem o contato humano. Mas, muitas vezes, você terá que ficar em casa. E a tecnologia é criada por humanos, as pessoas estão vendo isso. A tecnologia salvou vidas sem necessariamente tirar o trabalho dos profissionais. Vimos maior liberação da telemedicina e da teleterapia”, destaca Michael Kapps, CEO da TNH Health.

Termos técnicos. Créditos: Equipe de Arte da Aupa.

“Robôs” em prol da saúde
A TNH Health é uma empresa que implanta um sistema de chatbots, mais conhecidos como “robôs”, para monitorar pacientes de risco. Atualmente, é possível encontrar essa tecnologia em diversos serviços de saúde, como em clínicas, hospitais e farmácias. E, durante a pandemia, com o aumento da demanda e a diminuição dos funcionários, isso se tornou ainda mais comum e necessário.

Apoie o jornalismo crítico no ecossistema.

Em março, assim que começaram os atendimentos por causa de Covid-19, a TNH Health recebeu muitos pedidos para ajudar na triagem de pacientes. Afinal, a sociedade tinha muitas dúvidas sobre a doença. E a principal recomendação era evitar a ida aos hospitais. Então, a empresa trabalhou, inclusive com o Ministério da Saúde, para facilitar o atendimento inicial aos possíveis infectados.

“Além do Ministério da Saúde, também trabalhamos com os governos do Amazonas, de Roraima e as Secretarias de Saúde de várias prefeituras. E os planos de saúde continuaram conosco. Cada um pediu um protocolo. Conseguimos fazer quase dois milhões de atendimentos. E, em muitos casos, prevenimos de alguém ir ao hospital sem motivo, o que é importante”, explica Michael.

Uma grande dificuldade para a TNH foi a mudança frequente de informações sobre Covid-19. Afinal, é uma doença nova, com informações reveladas a cada semana. “Cada vez surgia um protocolo diferente. Não sabíamos bem o que fazer, o que poderíamos usar ou não. Por isso, precisamos ficar sempre olhando e mudando o protocolo”, lembra Michael.

Apesar da dificuldade relatada, a TNH Health teve aumento no faturamento. Durante um mês de 2020, foi possível arrecadar valores obtidos em seis meses de 2019. A expectativa é que o lucro total do ano seja, pelo menos, o dobro do ano anterior. Por isso, a empresa já faz novos planos de investimento, para que o crescimento não seja pontual e se torne sustentável.

Wataru Ueda, CEO da Magnamed. Crédito: Arquivo pessoal.
Michael Kapps, CEO da TNH Health. Crédito: Arquivo pessoal.

Magnamed: o crescimento que surgiu de uma amizade
A Magnamed produz respiradores no Brasil desde 2005, mas nunca passou por nada parecido com a pandemia. Em pouco tempo, a empresa teve que produzir 10 vezes mais aparelhos do que o habitual. Era necessário conseguir investidores, pois o mundo inteiro estava atrás das mesmas peças. Era uma disputa internacional. A solução da Magnamed surgiu de uma amizade antiga.

“Houve uma consulta do Ministério da Saúde solicitando para ver se conseguiríamos fazer de 5 a 10 mil respiradores rapidamente. Eu tenho um grupo de WhatsApp com amigos do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), onde fui formado. Então, postei perguntando quem podia me ajudar. O Walter Schalka, presidente da Suzano Papel e Celulose, se prontificou no mesmo minuto. É uma amizade de 40 anos” conta Wataru Ueda, CEO da Magnamed.

Depois desse contato, surgiram outras parcerias da Magnamed com instituições privadas, como Positivo Tecnologia, Klabin, Flex, Embraer, Fiat e White Martins. Assim, aos poucos, a produção cresceu. E surgiram mais dificuldades, como a proteção dos funcionários, que passaram a fazer home office ou a usar novos equipamentos de proteção. Assim como no caso da TNH Health, os empresários também tiveram que passar madrugadas acordados, para negociar com chineses. E, novamente, o resultado disso será traduzido no faturamento.

Wataru Ueda estima que o ganho da empresa será de aproximadamente R$150 milhões.

Mas nem tudo são flores: a Magnamed esteve envolvida em problemas judiciais recentemente. A Prefeitura do Rio de Janeiro brigou pelo direito de receber 80 aparelhos, que tinham sido adquiridos em dezembro do ano passado. A Magnamed não entregou os respiradores, alegando que o prazo previsto no edital, de no máximo 60 dias, tinha sido ultrapassado. A empresa venceu a disputa na Justiça e acredita que não sofreu nenhum prejuízo. Os respiradores foram entregues ao Governo Federal.

O próximo impacto da tecnologia na saúde: inteligência artificial
Crescer durante a pandemia pode ser perigoso. Afinal, em algum momento, a crise vai passar. A demanda por chatbots deve diminuir. A necessidade de respiradores também cairá. Por isso, para manter o crescimento em um ritmo sustentável, TNH Health e Magnamed já estão desenvolvendo novos projetos, que têm algo em comum: o uso da inteligência artificial.

A TNH Health investirá na área de teleterapia. “Percebemos que grande parte do nosso trabalho, seja com gestantes ou com doentes crônicos, tinha um problema: a raiz da doença era mental. E precisamos ir, justamente, à raiz do problema. A falta de saúde mental leva as pessoas a não conseguirem controlar a saúde e terem diabetes, por exemplo. Então, vamos reforçar a importância da estratégia de saúde mental”, explica Michael.

Para conseguir isso, a empresa desenvolveu um novo tipo de “robô”: um sistema híbrido, com humanos e chatbots, que interage com pacientes para acompanhar possíveis problemas psicológicos. “Um psicólogo prescreve uma terapia para você fazer junto com o chatbot. Ele vai passando dicas e lembretes na semana. Assim, o psicólogo não gasta tanto tempo. Durante a pandemia, cerca de 200 mil usuários falaram com o chatbot sobre ansiedade, depressão e luto. Eles viram que o robô não julga e está on-line 24 horas por dia, sete dias por semana”, explica Michael, ressaltando que a inteligência artificial utiliza os dados coletados para ganhar mais eficiência nas terapias.

Focar na teleterapia também é uma estratégia financeira da TNH Health. Afinal, antes da pandemia, a empresa dependia de projetos sazonais, então a receita variava muito. Agora, por estar focada em um problema que existe o tempo todo, a falta de saúde mental, o orçamento passará a ser mais fixo. A empresa diz que a teleterapia será melhor e mais barata do que a terapia tradicional. E não perderá totalmente a participação de humanos, que é tão requisitada pelas pessoas.

A Magnamed não preparou uma mudança tão radical, mas também apostará nos avanços da tecnologia. “Vamos retomar nosso plano original. Temos investimentos contínuos nessa área de dispositivos médicos. E agora temos projetos interessantes usando inteligência artificial para facilitar o dia a dia de quem opera a máquina. E, com isso, vamos ter redução de permanência do paciente no ventilador pulmonar”, prometeu Wataru Ueda.

Telemedicina, “robôs” e inteligência artificial sempre foram vistos como parte importante do futuro da medicina. Mas, antes da pandemia causada pela Covid-19, a presença desses serviços era bem menos comum no Brasil. A pandemia deve acelerar o processo de aceitação da tecnologia na saúde. Chegou a hora das empresas provarem que isso realmente será benéfico à sociedade. 

Como desenvolver a capacidade de adaptação em um mundo marcado pela incerteza?

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Como desenvolver a capacidade de adaptação em um mundo marcado pela incerteza? Crédito: RF._.studio - Pexel

“A dúvida não é uma condição agradável, mas a certeza é absurda.” (Voltaire)

O pensamento do filósofo Voltaire pode ser entendido como uma provocação para todos, sejam empreendedores ou não. Como escrevo para pessoas que empreendem, é importante assumir nossa parte na história e no pensamento filosófico, afinal uma das características comportamentais dos empreendedores é assumir riscos. Empreender é arriscar.

Quem busca certeza para empreender, simplesmente não empreende. Fica planejando e esperando o momento certo, o país certo, a situação certa… e por aí vai. Quer dizer, não vai.

“Voltar não é opção”. Diante das incertezas presentes na vida de todo mundo, insistir em velhas ideias, em rotineiras propostas, em viciados olhares não é opção.

Nas pesquisas e trabalhos sobre gestão da criatividade, elaborei o acrônimo CRIATIVA, no qual a letra C corresponde à capacidade de adaptação em um mundo em rápida mudança, marcado por incerteza, competição crescente, além de turbulências. Faço, portanto, as seguintes provocações:

Como as pessoas que empreendem se adaptam?
O que é preciso fazer para se adaptar?

Aprendi sobre a necessidade de se ter uma cultura organizacional voltada à criatividade e, hoje, enquanto empreendedor, atuando com tantas pessoas que empreendem, trago a gestão da criatividade como fator fundamental para geração de resultados superiores e sustentáveis para os negócios, na criação de diferenciais e inovações para produtos e serviços, para entrega de valores significativos e percebidos por consumidores e clientes.

Um dos aspectos considerados para o estímulo da criatividade aplicada aos negócios é a existência de certo grau de tensão proporcionada por uma crise, ou pela escassez de recursos, ou pela acirrada competição entre as empresas, ou, ainda, pela necessidade da inovação de produtos e serviços.

A atual crise nos negócios, também uma conseqüência da pandemia causada pela Covid-19, provocou um rebuliço nas empresas, fazendo com que muitos empreendedores repensassem seus negócios, migrassem suas operações físicas para o on-line, definissem novos canais de relacionamentos e vendas aos clientes.

Certamente, o processo não foi simples. Diante das dores provocadas pela crise, houve a necessidade de buscar novos conhecimentos, além de formação de novas parcerias (ou redefinição das parcerias existentes) e adoção de ações estratégicas criativas.

Já que empreender é um processo de assumir riscos pensados em meio às incertezas, entender como os empreendedores se adaptam nesse mundo fluido se torna fundamental.

Identifiquei comportamentos de adaptação significativos, os quais todos podemos adotar:

(a)   Disposição para aprender: mergulhar nos aprendizados necessários, com a disposição de descobrir o que tem que ser feito, faz com que as pessoas que empreendem possam superar as dificuldades surgidas diante de situações difíceis. Com novos aprendizados, tenho visto empreendedores obtendo ideias muito criativas e conquistando resultados que, confesso, nem mesmo eles acreditavam.

(b)   Repensar e replanejar: não adianta insistir nos mesmos pensamentos e persistir nas ações que não estão dando resultado. Diante de fatos, situações novas, inusitadas e de crise é necessário ter a coragem de repensar princípios, valores e crenças. Por favor, não estou dizendo em agir com falta de ética. Todos temos uma vontade tão forte em buscar o porto seguro que insistimos nos velhos conceitos que foram muito importantes em outras eras.

(c)   Assumir riscos: pessoas que empreendem têm coragem de assumir riscos. Encaram os novos desafios de frente, pensam em novas possibilidades, observando os recursos que têm. Constroem novas parcerias, definem novas relações em busca de novos objetivos. Os empreendedores continuam correndo os seus riscos, aprendendo, repensando e replanejando. Utilizam da criatividade e ganham em escala, prospectam novos públicos, convertem novos clientes.

Nada é certo. Não existe verdade absoluta.

O mundo está cheio de possibilidades e novas oportunidades abrem caminho para quem se dispõe a aprender. Com novos aprendizados, valores adquiridos, combinações criativas, os empreendedores inovam no jeito de fazer e entregar produtos e serviços, assim como no conceito de negócio.

Tudo escorre pelas mãos. Portanto, é preciso assumir que somos especuladores da vida e na vida, que estamos em constante processo de aprendizado e experimentação.

Para melhorar a capacidade de adaptação, enquanto empreendedor(a), pense fortemente nos três comportamentos trazidos neste artigo. Mas vá também para a prática. Arrisque. Estabeleça novas relações com pessoas, parceiros, com a natureza, com todas as coisas. Pense e repense nos seus conceitos e, se for preciso, adote novos.

Importante destacar que a gestão da criatividade está fundamentada em princípios que contribuem muito com as pessoas que empreendem, para a superação de crises e o alcance de objetivos significativos para os negócios.  Entre os princípios, olhando aos comportamentos citados, estão: (a) a capacidade de adaptação em um mundo em rápida mudança marcado pela incerteza, competição crescente e turbulências; (b) a incorporação criativa de novos procedimentos, políticas e experiências; e (c) a valorização de ideias e ações criativas.

O Comitê de Negócios de Impacto da Zona Leste, em São Paulo, é um exemplo de aplicação dos fundamentos da gestão da criatividade. No período estabelecido do início da quarentena, 17 de março, micros e pequenas empresas declaravam não estarem preparadas para tal situação. Empreendedores diziam não ter planejamento do negócio, nem gestão financeira.  Com os negócios operando apenas fisicamente, desconheciam os processos de comercialização nos meios digitais.

Foi neste contexto que as organizações Back to Basics, Aupa – Jornalismo de Impacto,  Emperifa e o coletivo Meninas Mahin se reuniram para pensar em propostas de soluções. As ações foram voltadas à manutenção dos negócios, à oferta informações e aos apoios necessários para a migração dos negócios físicos para a internet. O trabalho conjunto pensou ainda em comunicação, planejamento e organização de conteúdo, formações e mentorias para micros e pequenos empreendedores, além de captação de recursos por meio de crowdfunding e capacitação das empreendedoras do coletivo para o e-commerce.

Por isso, não há dúvida de que a gestão da criatividade é fundamental às pessoas empreendedoras. Afinal, possibilita a aplicação da criatividade para atingir objetivos significativos aos negócios – para solucionar problemas inéditos, possibilitando a geração e a entrega de valores aos clientes, a partir, é claro, da adoção de comportamentos que favoreçam o processo criativo.

 

Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa.

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