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Mudanças climáticas na atmosfera de Biden e a COP 26 – mas e o Brasil?

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Com o início da era Joe Biden e Kamala Harris, as mudanças climáticas voltaram a ser foco na agenda de relações internas e externas dos Estados Unidos. Na lista de tarefas do primeiro dia de governo, o novo presidente estadunidense assinou ordem executiva para que o país voltasse ao Acordo de Paris, sinalizando o desejo de participar ativamente na implementação de políticas verdes e de mudar a perspectiva mundial em relação ao país norte-americano. Biden está correndo em busca do tempo perdido pelo ex-presidente Donald Trump, que nos quatro anos anteriores promoveu um período de retrocesso e negacionismo em relação às mudanças climáticas. Além da reaproximação diplomática que o Acordo de Paris confere, Biden baniu o oleoduto Keystone XL de levar o petróleo de exportação canadense aos portos americanos. 

À esquerda, o Presidente dos Estados Unidos, Joe Biden; à direita, a Vice-Presidente Kamala Harris. Crédito: Twitter
O ODS 13 trata da ação climática. Este é um dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, da Organização das Nações Unidas. Crédito: ODS.

Tais medidas têm sido vistas como positivas por especialistas e pela comunidade internacional, embora haja certa cautela. A percepção é de que a necessidade de um protagonismo por parte dos Estados Unidos em desacelerar o aquecimento do planeta não deva apenas ser relacionado à abertura do caminho para a implementação de políticas ambientais, mas também a provocar avanços comportamentais reduzindo a carbono-dependência de sua população em caráter de urgência. 

Os Estados Unidos são o segundo maior emissor do mundo de um dos principais causadores do efeito estufa, o gás carbônico; atrás apenas da China, de acordo com o mais recente ranking, correspondente ao ano de 2019, do Global Carbon Atlas. Em campanha, para implementar seu Plano de Mudanças Climáticas e Justiça Ambiental, a chapa Biden-Harris prometeu dedicar U$1,7 trilhões na próxima década. O plano prevê que o dinheiro saia das pastas de clima, transporte e energia, principalmente. Esse movimento gera boa perspectivas para o fortalecimento do mercado de carbono e para o aumento do uso de energias e combustíveis mais limpos, como o etanol, por exemplo.

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COP26 e um novo mercado de carbono
Entre 1° e 12 de novembro de 2021 está prevista a Conferência Climática da ONU (COP26) em Glasgow, na Escócia – salvo alterações de agenda que a pandemia de Covid-19 pode provocar. Após o primeiro período de cinco anos da assinatura do Acordo de Paris, a grande expectativa para a COP26 diz respeito a como implementar as medidas previstas pelo documento à vida prática. O Artigo 6 do tratado, que prevê que países desenvolvidos e em desenvolvimento cooperem para a mitigação de emissão de gases de efeito estufa com a criação de mecanismos de precificação de carbono, será o foco principal.

Clique na imagem para ampliá-la. Crédito: Equipe de Arte Aupa

Dentro das propostas previstas pelo artigo, os países participantes poderiam usar de uma diplomacia climática para equalizar a conta das emissões dos gases do efeito estufa. “Esses instrumentos vão apoiar as nações a complementarem as fontes de financiamento para atingir e superar suas NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas) e permitir ao mercado alocar de maneira custo-eficiente as medidas para a redução das emissões”, reflete Rebeca Lima, gerente sênior do Carbon Disclosure Project (CDP) Latin America, organização internacional sem fins lucrativos que mensura o impacto ambiental de empresas e cidades. Ou seja, uma nação que ultrapassou a emissão do dióxido de carbono, por exemplo, poderia comprar créditos de países que não ultrapassaram o teto estabelecido para sua nação, criando um novo mercado de compra e venda de créditos de carbono, que, teoricamente, poderia ser regulado pelas Nações Unidas.

Alguns países da América Latina, como Argentina e Colômbia, já possuem modelos de sistemas de precificação de carbono, por regulação de mercado ou taxação. O Brasil também vem avançando nessa rota por meio, principalmente, do modelo de mercado de carbono proposto pelo PMR Brasil (Partnership for Market Readiness), uma parceria entre o Ministério da Fazenda e o Banco Mundial, que objetiva discutir a conveniência e a oportunidade da inclusão da precificação de emissões.

Rebeca Lima, gerente sênior do Carbon Disclosure Project (CDP) Latin America. Crédito: LinkedIn

O Brasil possui grandes chances de se beneficiar com a regulamentação do Artigo 6 do Acordo de Paris, caso “Sejam adotadas políticas climáticas efetivas e robustas com esse intuito”, sugere a especialista do CDP Latin America, comentando que a COP26 poderá impulsionar o Brasil a efetivamente implementar um sistema regulado de precificação do carbono.

Mas será que estamos lá?
Com a chegada de um novo presidente à Casa Branca, preocupado em promover políticas ambientais, o cenário verde e amarelo se mostra desafiador, embora positivo. Em 2020, o Brasil deu passos para trás ampliando em três vezes a taxa de desmatamento proposta pelo país à Conferência do Clima de 2009 (COP15), em Copenhague, na Dinamarca. O dado foi divulgado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A Presidência da República, nos últimos dois anos, vem seguindo o modelo de Trump, no que tange ao negacionismo em relação às mudanças do clima, abalando o status de pária internacional em ações favoráveis à redução dos GEE que o Brasil havia alcançado.

Luiz Marques, sociólogo e professor do Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Crédito: Arquivo Pessoal

“A tendência é que o Brasil promova mudanças por pressão internacional em vez de articular movimentos políticos internos”, reflete Luiz Marques, sociólogo e professor do Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Com a saída de Trump, há chances que o negacionismo perca força. Durante sua candidatura à Presidência dos Estados Unidos, Biden mencionou a situação da Amazônia Legal Brasileira, propondo uma organização de caráter mundial para mobilizar U$20 bilhões para o “Brasil não queimar mais a Amazônia”, ameaçando consequências econômicas importantes.

À esquerda, o então Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e à direita, o Vice-Presidente, Mike Pence, em evento em Washington D.C.. Crédito: History in HD.

O desmatamento da Amazônia é comumente relacionado à plantação de soja e ao cultivo de gado para exportação.

O que aconteceu em janeiro com a França, que ameaçou não comprar mais soja do Brasil pela commodity estar relacionada diretamente ao desmatamento da Amazônia, pode se transformar em uma tendência que outros países da União Europeia e, agora, os Estados Unidos poderão seguir, usando argumentos semelhantes para retaliar produtos brasileiros associados ao aquecimento global direta e indiretamente”, problematiza André Felipe Simões, doutor em Planejamento Ambiental e Energético e professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo – EACH/USP. 

André Felipe Simões, doutor em Planejamento Ambiental e Energético e professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo - EACH/USP. Crédito: Arquivo Pessoal

O impacto para o Brasil seria significativo uma vez que o país lidera o ranking de exportação de soja e carne, segundo dados da Embrapa e do IBGE. Os setor de produção de etanol que seria beneficiado.

Mudanças políticas, sim. E mudanças comportamentais, em primeiro lugar

John Kerry Enviado Presidencial Especial para o Clima dos Estados Unidos. Crédito: Twitter

Uma crítica ao Acordo de Paris é a falta de capacidade de promover as mudanças necessárias para reverter o aquecimento global em tempo. Quem endossa essa visão é John Kerry, enviado presidencial especial para o clima, nomeado por Biden. Kerry, que em dezembro de 2019 lançou uma coalizão chamada World War Zero para promover a meta de reduzir a zero a emissão de gases do efeito estufa com campanhas voltadas às massas. Kerry afirmou à CNN que as medidas do acordo são “inadequadas” para reduzir a temperatura da Terra. 

“Transições políticas baseadas em mercado são consideradas lentas. Há grupos que ainda querem valorizar seus ativos, taxas de lucro, sua posição consolidada no sistema”,

comenta Luiz Marques, sociólogo e docente da Unicamp.

Portanto, embora positivo, o Acordo de Paris tem caráter simbólico. “Nos Estados Unidos, por exemplo, há uma dependência do habitante em relação a gasolina, diesel e energia produzida por termelétricas a carvão mineral. A produção de energia demanda muito dinheiro. Os projetos deste setor já estão contratados pelos próximos anos. A verdadeira necessidade é de enfrentar uma mudança comportamental para promover a redução na geração dos gases efeito estufa”, alerta o cientista da USP. Sociedade civil e indústria devem seguir as metas estabelecidas pelo Acordo de Paris e ir além.

“Valorizar Direitos Humanos significa enfrentar mudança climática, justiça indígena, ambiental e climática”, 

afirma André Felipe Simões, doutor em Planejamento Ambiental e Energético e professor da Universidade de São Paulo.

Pandemia e acessibilidade

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CREDITO: Pexel

A pandemia causada pelo novo Coronavírus se espalhou pelo mundo de forma rápida e impactante, fazendo com que muitas pessoas se isolassem. Antes de tudo isso, quem é cego, surdo, cadeirante ou tem algum tipo de deficiência física ou intelectual já enfrentava vários desafios e, com a pandemia, novas barreiras surgiram para a acessibilidade. 

Agora, um deficiente visual, que precisa tocar em superfícies ou ter o apoio de outras pessoas, está mais vulnerável do que nunca. Tocando em diferentes superfícies ou falando com pessoas que ele não sabe se estão usando máscara, como evitar a contaminação pela Covid-19? Quais são os impactos da pandemia na acessibilidade e no direito de ir e vir?

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Thays Martinez, advogada, responsável pela Lei estadual n° 10.784 (atualizada pela Lei nº 12.907, de 15 de abril de 2008), que garante que cães guia possam entrar em transporte público, compartilha sua experiência. Ela explica que as pessoas que têm deficiência visual estão mais vulneráveis à Covid-19, devido à necessidade de contato com pessoas e, sobretudo, superfícies.“Com a pandemia, as compras on-line aumentaram,  mas muitos aplicativos e sites tornam inviável o uso por pessoas deficientes visuais”, relata. Segundo a 42ª edição da Webshoppers (2020), estudo organizado por Ebit e Nielsen, o faturamento com e-commerce apresentou um aumento de 47% no primeiro semestre.

Thays Martinez, advogada, responsável pela Lei estadual n° 10.784. Crédito: Arquivo Pessoal

Mudar essa situação pode estar relacionado às diretrizes do ODS 9 da agenda da Organização das Nações Unidas, que, até 2030, pretende aumentar significativamente o acesso às tecnologias de informação e comunicação para todos e se empenhar para oferecer acesso universal e preços acessíveis à internet nos países menos desenvolvidos.

Com a visão comprometida, o tato é um dos principais sentidos utilizados por pessoas com deficiência visual. O contato físico se faz necessário sempre e é justamente isto que os deixa mais expostos à Covid-19. De acordo com dados do IBGE no Censo 2010, 1.203.353 pessoas têm deficiência visual no estado de São Paulo. O que equivale a 40% do total de moradores com algum tipo de deficiência.

Credito: Equipe de Arte Aupa

Rotina sem toque
Martinez conta ainda que se sentiu desamparada no que diz respeito ao acesso à informação na pandemia. “Muitos meios de comunicação, até mesmo do Governo, não se preocuparam em serem acessíveis aos deficientes visuais ou auditivos em relação a como se proteger do vírus. A campanha do Governo Federal sobre como lavar as mãos não foi acessível aos deficientes visuais, por exemplo. Afinal, não teve uma explicação em áudio”, explica.

Clarissa de Freitas Pires, supervisora do atendimento da Fundação Dorina Norwill para Cegos. Créditos: arquivo pessoal.

A Fundação Dorina Nowill para Cegos oferece serviços gratuitos e especializados de habilitação e reabilitação, como orientação e mobilidade e clínica de visão subnormal, além de programas de inclusão educacional e profissional. Segundo Clarissa de Freitas Pires, supervisora do atendimento da Fundação, uma das maiores dificuldades para os cegos na pandemia é teclar suas senhas nas maquininhas de pagamento digital.

Alguns estabelecimentos estão colocando protetores nas máquinas, o que atrapalha a sensibilidade tátil no relevo do número 5, que é a tecla central e funciona como referência para que as pessoas com deficiência visual possam localizar os demais números. “Alguns atendidos relataram que muitas pessoas estavam com medo de ajudá-los a atravessar a rua, devido a necessidade de segurar no braço dos videntes”, exemplifica Pires.

Imagem de um protetor de teclado aplicado em elevador.

Sobre as vulnerabilidades que pessoas deficientes enfrentam, Martinez ressalta a importância da consciência de quem oferece um produto ou serviço – uma reflexão que demanda revisão.  “As empresas precisam pensar na inclusão e deixar que seus serviços sejam acessíveis para todos. A consciência sobre isso precisa ser desenvolvida e a pandemia nos mostrou isso”, comenta.

Ainda segundo a advogada, quando o assunto é acessibilidade, as pessoas lembram de rampas e piso pododáctilo, mas o tema é muito mais amplo. “Nós temos diferentes necessidades para cada tipo de deficiência. Por exemplo, em São Paulo, há poucos semáforos sonoros. Então, a forma como é tratada a questão da inclusão no município onde cada um mora, dirá também sobre como se dá o desenvolvimento da acessibilidade naquele local”, destaca Marinez. 

Acessibilidade digital
Segundo 3º Estudo de acessibilidade nos sites brasileiros, organizado pelo Movimento Web para Todos, em parceria com a Big DataCorp, mostrou que dos 14 milhões de sites ativos no Brasil, 99% não estão acessíveis para pessoas com deficiência. Isso revela que os conteúdos não chegam ou chegam de forma ineficiente para um público de 46 milhões de pessoas com deficiência (PCD).

A advogada Thais Martinez considera que o Brasil já tem bastante leis sobre inclusão e acessibilidade, porém é necessário mais especificidade nesses documentos. “A maioria das leis é bem ampla, então, precisamos de leis detalhadas dizendo que os sites e aplicativos devem contemplar as necessidades das pessoas com deficiência. Precisamos criar uma cultura de inclusão na sociedade”.

 Ou seja: como um surdo obtém notícias sobre a pandemia, uma vez que a maioria depende da língua de sinais em sua comunicação? Ou como uma pessoa cega pode realizar compras on-line em um site que não possui uma navegação adequada?

Clique na imagem para ser direcionado aos dados do IBGE. Crédito: Equipe de Arte Aupa

Apoio em tempos de pandemia
Ações pontuais foram realizadas para beneficiar pessoas atendidas na Fundação Dorina Nowill para Cegos, como a parceria com a Google e a operadora Claro. Na oportunidade, a instituição conseguiu oferecer aparelhos de celular com acesso à internet para que os clientes pudessem receber atendimentos à distância. Recriamos nossos atendimentos e serviços prestados,  a partir da criação de uma plataforma EAD de cursos à distância, do trabalho em home office, dos eventos realizados on-line, e  das lives para mantermos as conversas com nosso público”, descreve Pires.

Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD) também teve dificuldades durante a pandemia. Algumas saídas encontradas foram os atendimentos por meio da telemedicina e a disponibilização de orientações em suas redes sociais. Segundo Lina Borges, coordenadora da Terapia Ocupacional da AACD, a associação iniciou entregas e reparos de produtos ortopédicos nas residências dos pacientes. “A pandemia mostrou que devemos investir na acessibilidade digital para que pessoas com deficiência possam ser assistidas virtualmente, conseguindo, assim, atender de forma rotineira suas necessidades”, explica.

Lina Borges, coordenadora da Terapia Ocupacional da AACD. Crédito: Arquivo Pessoal

Para a coordenadora da AACD, os desafios das pessoas deficientes são os mesmos de todas as pessoas. Uma orientação que possa diferir de outras pessoas sem deficiência é apenas relativo ao uso de seus aditamentos de transporte, como cadeira de rodas, andadores e muletas. “Esses equipamentos precisam ser higienizados com uma frequência maior que a habitual. Talvez, o desafio mais significativo que estamos vivendo é o nosso olhar voltado às condições coletivas e não somente individualizadas”, observa Borges.

Em relação a locomoção, orientação e mobilidade, devido ao isolamento social, Pires, da Fundação Dorina Nowill, percebeu que as pessoas cegas ou com baixa visão restringiram as saídas de suas residências. Já no âmbito psicológico, muitos pacientes verbalizaram sentimentos negativos em relação à pandemia, como crises de ansiedade, medos, fobias e sentimento de isolamento, além de desencadear doenças psíquicas, que precisaram de uma intervenção psiquiátrica. “Alguns pacientes relataram dificuldades em acessar esse serviço de maneira rápida”, explica ela.



Tem que ser explícito!

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O ciclo de vida de um projeto apresenta uma etapa chamada Configuração e Aprovação. Contudo, frequentemente, ela é negligenciada. E é nela onde está localizada a maior parte das formalidades e burocracias. Neste artigo, apresento uma reflexão sobre sua relevância: como as cerimônias de configuração e aprovação poderiam transformar a vida de um gestor de projetos durante as outras etapas, de modo a beneficiar o relacionamento com os stakeholders?

A princípio, essa etapa entrega quatro resultados principais: o termo de aprovação de projetos, o registro dos riscos, a estratégia de envolvimento das partes interessadas e o lançamento em si do projeto. No geral, esses elementos têm um tempo de duração curto e cabe a nós, gestores e demais envolvidos nos projetos, partirmos do pressuposto de que alguns termos e compreensões são conhecidos por todos. 

Por exemplo, no campo de impacto socioambiental, termos como “desenvolvimento local”, “autonomia”, “empoderamento” e o próprio conceito de “impacto social” parecem ser compreendidos por todos. Mas, no decorrer do projeto, um pequeno acontecimento pode deflagrar um desentendimento enorme, pois algum desses conceitos pode não ser unânime. 

Outra prática comum é imaginar que todos entendem – mesmo sem ter sido explicitada – qual é a estrutura de governança e como serão tomadas as decisões durante o projeto. Ou seja, quais serão os limites do projeto.

Quem nunca iniciou um projeto antes da assinatura do contrato que lance a primeira pedra!

 O projeto começou com alguns acordos básicos registrados por e-mail ou em reuniões, e, “lá na frente”, o contrato chegou. O contrato foi elaborado pela parte mais forte ou mais “rica” do acordo.

Há uma cláusula comum de se encontrar em alguns contratos que ilustra bem o dilema sobre limites que deveriam ser definidos antes do projeto começar. Ela se refere à produção intelectual e é mais ou menos assim: “A contratada cede com exclusividade à contratante, de maneira definitiva, irrevogável e irretratável a totalidade dos direitos autorais patrimoniais de todas as obras intelectuais produzidas ao longo do projeto”. Se não houver concordância entre as partes sobre esta cláusula e as atividades já tiverem iniciado, o que acontece com o projeto e os envolvidos? 

A etapa de Configuração e Aprovação tem uma duração curta e, por isso, “tocamos o barco”: seguimos e pensamos que “Lá na frente, resolveremos esses detalhes”, “Besteiras burocráticas”. Parece que só as empresas grandes realmente se importam com tais tipos de processos e só elas são “chatas” o suficiente para cobrar. 

É nesta fase de um projeto que temos a chance de nos organizar e deixar evidente como queremos que nossos limites de trabalho sejam respeitados. Fazendo isso, podemos também investigar quais são os limites das outras partes do projeto e, assim, evitar conflitos, economizar tempo e estresse emocional da equipe durante a implementação dos projetos, focando no que importa: a solução de problemas socioambientais e na geração do impacto desejado.

Este texto é de responsabilidade da autora e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa.

Para(doxos) do sucesso

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Crédito: Equipe de Arte Aupa

Nunca se falou tanto de
sustentabilidade, impacto, ESG.
Porém,
nunca se viu tamanho
estrago socioambiental no Brasil e no mundo.

Nunca se falou tanto de cooperação
e trabalho em rede.
Porém, 
vivemos tempos de ondas de
xenofobias, nacionalismos e um
“cada um por si” na atualidade.

Nunca se falou tanto em doação
e solidariedade,
mas seguimos produzindo desigualdades em escala.

É nesta salada de contradições
que nos encontramos.

Embora
muitos também flertem com a negação
deste quadro.

É nesta encruzilhada de opções
que nos encontramos e
de onde seguimos apostando
em “soluções” superficiais de prateleira.

No final do dia,
aumenta a sensação
de que cada um segue, a seu modo,
rumo ao próprio sucesso.

Embora
sigamos todos atolados
no mesmo pântano
dos nossos fracassos.

O sucesso de uns poucos
segue se sustentando
sobre o fracasso da grande maioria.

É este o nosso projeto de impacto?

Se não for,

O que temos feito para reconstruir
suas bases e pilares?

Mais uma campanha de doação
vai, sim, aliviar a dor de muitas pessoas.

Mas,

Não vai atacar os aspectos estruturantes
desta mesma sociedade,
que seguirá produzindo novos incêndios,
que, por sua vez, serão amenizados com novas doações.

Bombeiros do impacto?

Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa.

Lixo é energia – um luxo pouco aproveitado no Brasil

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A transformação de Lixo em energia: Crédito: Equipe de Arte Aupa

Lixo normalmente é sinônimo de algo que se joga fora, algo desprezível. Mas como “jogar fora” um material que pesa cerca de 80 milhões de toneladas e se renova ano após ano? Como desprezar que a produção de lixo no Brasil deverá crescer 16% ou mais na próxima década e que, se o cenário atual for mantido, grande parte desse lixo terá uma destinação ambientalmente inadequada?

Felizmente, cada vez mais brasileiros estão vendo valor no lixo, incluindo oportunidades de negócios. Um mercado que vem crescendo no país, assim como no mundo todo, é voltado à transformação de lixo em energia – elétrica, térmica ou em combustível de veículos.

Conhecido internacionalmente pelo nome “Waste to energy” (“Do lixo à energia”, em tradução adaptada em português) ou pela sigla WTE, esse mercado engloba modelos de negócio que usam tecnologia para transformar resíduos, principalmente os não-recicláveis e orgânicos, em fontes de energia renováveis. A Noruega e Suécia, por exemplo, conseguem eliminar todo o lixo gerado em seus territórios e ainda compram resíduos de outros países europeus para produzir energia através de suas usinas WTE. E o Japão, outro país exemplar na gestão sustentável de lixo e um dos líderes neste mercado, faz a recuperação energética de mais de 70% dos seus resíduos sólidos através de tecnologia WTE.

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Yuri Tisi, presidente-executivo da Associação Brasileira de Recuperação Energética de Resíduos (ABREN). Crédito: Linkedin

Segundo Yuri Tisi, presidente-executivo da Associação Brasileira de Recuperação Energética de Resíduos (ABREN), ainda há poucos projetos WTE no Brasil. Mas é um sistema que pode vir a gerar grandes benefícios ambientais, sociais e econômicos ao país – contribuindo, assim, com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas (ODS/ONU).

Saneamento sustentável
O destino do lixo no Brasil é majoritariamente os aterros sanitários. Ainda, cerca de 40% do lixo é depositado em lixões a céu aberto ou aterros inadequados – contaminando o solo, as fontes de água e o ar. Essa situação impacta a saúde de mais de 70 milhões de brasileiros e gera custos de bilhões de reais por ano ao setor público, de acordo com dados recentes da Associação Brasileira das Empresas de Limpeza Pública. Segundo o relatório “Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2020” da ABRELPE, a destinação inadequada do lixo gera “Um custo ambiental e para tratamento de saúde de cerca de USD 1 bilhão por ano” – ou seja, na conversão em reais,  este valor é superior a R$ 5 bilhões. 

Tisi, da ABREN, afirma que o sistema WTE é uma forma “Muito mais sustentável” para tratar o lixo do que enterrá-lo em aterros, pois previne danos ambientais e gastos públicos, além do risco de contaminação e de possibilitar o aproveitamento do potencial energético dos resíduos. “Por isso, muitos países da Europa e Japão não utilizam mais aterro sanitário,” diz Tisi.

Victor Motta, engenheiro da Biogrid, uma empresa que oferece soluções biológicas para o tratamento de resíduos e efluentes, aponta que destinar resíduos para lixões e aterros causa muitos problemas socioambientais. Pois essas unidades “Requerem grande área, são finitos, atraem vetores, são insalubres,” além de gerarem altas emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE), que potencializam as mudanças climáticas.

Victor Motta, engenheiro da Biogrid. Crédito: Linkedin

A Biogrid trabalha com um sistema de transformação de lixo em energia através de biodigestão anaeróbia, que não só evita o envio de lixo a aterros ou lixões, como permite que o “Gerador trate seu resíduo na fonte, zerando custos com armazenamento, transporte e destinação de seus resíduos orgânicos”, segundo explica Motta. Os biodigestores desenvolvidos pela empresa também possibilitam o aproveitamento do biogás, uma energia renovável. O biogás pode ser utilizado para geração de eletricidade, de uso doméstico ou industrial, podendo ainda ser convertido em gás de cozinha e biocombustível para automóveis ou máquinas – como o biometano.

Energia limpa e acessível
A recuperação energética de resíduos pode ser feita através de diferentes métodos, tal como por meio de tratamento biológico, ou biodigestão anaeróbia, que trata a matéria orgânica, devidamente separada do lixo comum. Como também por meio de tratamento térmico, utilizando tecnologias de incineração, que processa resíduos sólidos misturados. Ambos os métodos resultam em uma fonte de energia renovável e limpa – podendo substituir o uso de combustíveis fósseis, que tem uma pegada ecológica muito maior.

A queima do lixo geralmente não é vista como uma prática limpa, pois libera gases poluentes durante a operação. Entretanto, as unidades de WTE que utilizam métodos de incineração, possuem filtros especializados para controlar a saída de gases. “As usinas WTE geram energia limpa, sendo a termoelétrica mais limpa hoje existente em razão dos sofisticados sistemas de controle de emissões atmosféricas,” diz Tisi.

De acordo com estudos do IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change – ou, na tradução livre em português, Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), o sistema WTE emite baixas quantidades de GEE, como gás carbônico e metano. Sendo, assim, um dos sistemas de tratamento de lixo mais ambientalmente sustentáveis.

Aproveitar o potencial energético do lixo, também é uma forma de tornar o acesso à energia e ao saneamento básico mais abrangentes. Motta, da Biogrid, afirma que o sistema de biodigestão anaeróbia – para transformar resíduos orgânicos em biogás – é de “Baixo custo operacional e de manutenção” e pode ser adaptado a diferentes contextos locais. Dessa forma, é uma “Alternativa para comunidades isoladas e/ou de baixa renda,” que não contam com rede de fornecimento de energia ou serviço de gestão de resíduos não-recicláveis.

Felipe Marques, diretor de desenvolvimento tecnológico do Centro Internacional de Energias Renováveis - CIBiogás. Crédito: Linkedin

Esta tecnologia não é aplicada apenas em usinas ou grandes empreendimentos. Felipe Marques, diretor de desenvolvimento tecnológico do Centro Internacional de Energias Renováveis – CIBiogás, afirma que houve um aumento grande na comercialização de pequenos biodigestores nos três últimos anos. Essas pequenas unidades de produção de biogás são normalmente usadas em residências, hotéis, restaurantes e chácaras. 

E são voltadas tanto ao consumo de energia local, quanto ao tratamento de resíduos orgânicos, principalmente restos de comida e dejetos animais. O relatório “Panorama do Biogás no Brasil em 2019”, do CIBiogas, aponta que 78% do total das plantas de biogás em operação no país são de pequeno porte.

A produção descentralizada de energia por meio do biogás, “Conectada com estratégias de microgrids e smart grids, possui valor estratégico muito relevante para o desenvolvimento regional,” destaca Marques.

Microgrids e smart grids são soluções tecnológicas para problemas relacionados ao fornecimento e ao consumo de energia elétrica. As microgrids são pequenas redes de distribuição de energia, independentes de uma central geradora, que atendem demandas locais e de áreas remotas. Já as smart grids, também conhecidas como redes inteligentes de energia, englobam tecnologias que aumentam a eficiência e qualidade dos sistemas de geração de eletricidade.

Inovação e infraestrutura
Segundo Marques, o investimento em infraestruturas de aproveitamento do biogás e seus derivados contribui também para a “Diversificação da matriz energética brasileira”. Assim, permite aumentar a segurança energética no país e evitar apagões de energia – como aconteceu no Amapá meses atrás, devido a problemas na rede elétrica, gerando caos por todo o Estado.

Embora o biogás ainda represente menos que 1% da matriz energética do país, é um mercado que vem crescendo em média 30% ao ano, aponta Marques. O Biogasmap, uma plataforma digital criada pelo CIBiogás para disponibilizar dados atualizados sobre esse mercado e sua evolução em solo brasileiro, mostra que há mais de 500 unidades de produção de biogás em operação.

Processo de produção do biogás. Crédito: Betaeq.

De acordo com análises da ABREN, mais de 7% da demanda de eletricidade do Brasil poderá ser suprida por usinas de biogás em conjunto com usinas WTE, de tratamento térmico de resíduos. Além de ser um mercado que poderá gerar investimentos de aproximadamente R$200 bilhões no país – se as medidas legais forem favoráveis para esse cenário. Tisi afirma que o novo Marco Legal do Saneamento Básico, aprovado ano passado, é um passo nessa direção: incentiva a recuperação energética de resíduos, incluindo o encerramento de lixões.

Já Marques afirma que outro fator-chave para alavancar esse mercado, é reduzir a “Assimetria de informação” que existe nele. Afinal, negócios voltados à transformação de lixo em energia podem ser modelados de diversas formas, sendo que uns são mais eficientes e sustentáveis do que outros.

Os produtos da Biogrid, por exemplo, além de armazenarem o biogás gerado no processo de biodigestão de resíduos, permitem o aproveitamento da matéria orgânica decomposta, que resulta em um biofertilizante. É um “Fertilizante orgânico que pode ser utilizado em áreas verdes e para recuperação de áreas degradadas”, explica Motta. E aproveitá-lo, também, é uma forma de apostar na “Valoração integral dos resíduos.”

“Os empreendedores, muitas vezes por desconhecimento, buscam soluções que não valoram integralmente os resíduos,” destaca Motta. “Desta forma, deve-se aumentar a difusão das alternativas tecnológicas [de tratamento do lixo].”

Pacto Global ONU: se não avançar, Brasil deve completar apenas o ODS 7 até 2030

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Crédito: Equipe de Arte Aupa

Incentivar as empresas no desenvolvimento da sustentabilidade nas operações tem sido um dos principais objetivos do Pacto Global da ONU, criado há 20 anos pelo diplomata ganês Kofi Annan (1938-2018).

A rede está presente em 160 países e possui mais de 16 mil empresas signatárias. No Brasil, foi fundada em 2003 e atualmente é a terceira maior do mundo, com mais de 1,1 mil signatários.

A grandeza do Pacto também vem acompanhada de desafios. Segundo Carlo Pereira, diretor-executivo da Rede Brasil do Pacto Global, os principais são o alcance dos ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) e o respeito aos Dez Princípios, que abrangem as frentes Direitos Humanos, Trabalho, Meio Ambiente e Anticorrupção.

Carlo Pereira, diretor-executivo da Rede Brasil do Pacto Global. Crédito: Divulgação

“Temos visto este aumento crescente do interesse das empresas pela sustentabilidade. Agora, precisamos ver mais ação para que mudanças profundas e importantes ocorram na sociedade, urgentemente. Em alguns temas estamos perdendo o timing, como a mudança do clima”, alerta o diretor-executivo.

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O Pacto não é um selo ou um certificado de boas práticas das empresas signatárias. Na verdade, ele é um compromisso voluntário feito pela principal liderança da companhia para seguir os Dez Princípios. Em 2015, a rede também incluiu a responsabilidade de as organizações signatárias contribuírem para o alcance dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Os ODS estão alinhados com a Agenda 2030, e isso quer dizer que restam 10 anos para o cumprimento dos objetivos. Parece muito tempo, mas é pouco frente à realidade brasileira. 

“Precisamos reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Isso é urgente. Precisamos reduzir as desigualdades sociais, ampliadas pelo racismo, pelo preconceito. Diversidade é outro tema essencial. Se tudo continuar como está, apenas o ODS 7 será alcançado no Brasil. E não queremos e não podemos deixar que as coisas sigam nesta direção”, alerta Carlo. 

Sair da esfera teórica e trazer os objetivos para a prática é outra tarefa desafiadora. Por isso, neste ano, o programa lançou o Ambição pelos ODS. A ideia é buscar o engajamento das empresas em diversas metas relacionadas aos ODS por meio de treinamento, assessoria individual, atividades práticas e conexões globais e locais.

A estrutura do Ambição pelos ODS será definida no próximo semestre de 2021. Apesar de possuir 1 mil signatários, apenas 24 empresas irão participar deste projeto, número pouco expressivo perto do universo de companhias participantes do Pacto. 

Segundo Carlo Pereira, "Até o momento, mais de 22 empresas assumiram o compromisso. Pouco ainda, considerando o tamanho da rede, mas iremos trabalhar para ampliar esse número". Crédito: Equipe de Arte Aupa.

Outra ação para apoiar o cumprimento das metas é incentivar o engajamento das empresas para além do departamento de sustentabilidade. 

“Para interagir diretamente com a alta liderança das empresas, especialmente com os CEOs, criamos o Liderança com ImPacto, formado hoje por 12 CEOs, que atuam como porta-vozes dos ODS, mobilizando funcionários, cadeia de valor e setor empresarial, e como implementadores da Agenda 2030 dentro de suas próprias empresas”, explica Carlo, diretor-executivo da Rede Brasil. 

O Liderança com ImPacto também reflete as desigualdades que o país carrega. Dos 12 CEOs participantes, apenas três são mulheres e não há representação da população negra entre eles.

CEOs do Liderança com Impacto no Prêmio ODS 2019. Crédito: Divulgação.

O combate ao racismo e ao machismo estão na pauta do Pacto. Já que o programa reconhece que não há como cumprir os ODS com essas desigualdades tão latentes na sociedade. 

Em 2020, o programa Equidade é Prioridade foi lançado com a premissa de obter compromissos públicos das empresas para que tenham, até 2025, 30% de mulheres em posições de alta liderança, e/ou 50% até 2030. 

“Até o momento, mais de 22 empresas assumiram o compromisso. Pouco ainda, considerando o tamanho da rede, mas iremos trabalhar para ampliar esse número”, pontua Carlo. 

Para 2021, o objetivo é lançar uma outra frente do programa com uma meta de posições de liderança ocupadas por negros, que, apesar de ser a maioria da população brasileira, está apenas em 4,7% dos cargos executivos das empresas – segundo dados de 2016 do Instituto Ethos.

Contrastes
Contar com um universo grande de empresas integrantes também tem seus desafios. Entre seus membros, o Pacto Global tem a participação do Carrefour. A rede de hipermercados está envolvida em casos de violação de Direitos Humanos, como a recente morte de João Alberto, que foi espancado por dois seguranças da loja de Porto Alegre (RS). A violência se configura como racismo estrutural, que está inserido na sociedade e se reflete dentro das empresas. 

Por se enquadrar como um compromisso voluntário, a supervisão das empresas e  emissão de certificados de integridade não são de responsabilidade do Pacto, afirma o porta-voz.

O que fazemos é pedir que anualmente ou a cada dois anos, no caso das organizações, digam o que vêm fazendo em relação aos 10 Princípios e aos ODS. Além disso, nossa equipe acompanha o que vem sendo publicado pela mídia e situações que indicam violação dos 10 Princípios são tratadas localmente e globalmente”, comenta Carlo. 

Em relação ao caso do Carrefour, o Pacto se posicionou globalmente, em comunicado da diretora-executiva, Sanda Ojiambo.

“Como o Carrefour é signatário do Pacto Global da ONU, entramos em contato com a empresa, solicitando mais informações. Esperamos que todas as organizações participantes defendam nossos 10 Princípios e implementem os Princípios Orientadores para Empresas e Direitos Humanos. Estamos monitorando de perto a situação e aguardaremos o resultado da investigação oficial”, afirma a executiva no comunicado publicado no dia 25 de novembro de 2020.

Sanda Ojiambo, diretora-executiva do Pacto Nacional das Nações Unidas. Créditos: Divulgação.

A reportagem também entrou em contato com a assessoria do Carrefour. Em nota, a empresa afirma que estabeleceu um plano de curto, médio e longo prazo para aprimorar práticas antirracistas e promover a inclusão social de negros e negras. 

A companhia também prevê a revisão da política de  Valorização da Diversidade, até o final de janeiro de 2021, para que “Ela enfatize o tratamento rigoroso dos casos de discriminação e racismo por parte de seus colaboradores, clientes e fornecedores, com a produção de um hotsite para que todas as ações sejam acompanhadas de forma transparente pela sociedade”.

No comunicado, o Carrefour descreve que pretende contratar, anualmente, cerca de  20 mil colaboradores(as) negros, em parceria com associações e profissionais de RH, além de criar um Programa de Inclusão de empreendedores em sua cadeia de valor, com apoio de entidades e organizações intermediárias focadas na população negra.

Outra ação divulgada pela empresa é a internalização de 100% da equipe de segurança que atua dentro das lojas, com o objetivo de implementar a mudança até o fim de outubro de 2021. 

ESG: Encantador de Serpente Gigante

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Créditos: Equipe de Arte Aupa

O ESG vai bem, obrigado. A sopa de letrinhas apadrinhada pelos fundos de investimento foi a paleta mexicana do verão passado e tudo indica que continuará sendo nos próximos verões. Pandemia à parte, a crise aqui significa oportunidade. O movimento do mercado financeiro é rápido e principalmente certeiro: atender uma demanda crescente por novos picolés coloridos – mesmo que eles nem existam.

A sigla, a intenção e o movimento são legítimos, embora nada inovador. As iniciais E (Environmental), S (Social), G (Corporate Governance) são o novo dogma do capitalismo financeiro, ou melhor, do capitalismo consciente ou ainda, do capitalismo de stakeholders. Ou seja, do capitalismo. Traduzindo, o clube ESG criou uma “marca-manifesto” para dizer que, a partir de agora, todas as empresas e os investidores precisam cuidar do meio ambiente, se importar com as pessoas e contratar sem preconceitos seus funcionários. De fato, isso nunca foi e nem deveria ser novidade, nem hoje, nem nunca. 

A ideia é tão básica quanto sedutora, mas segue o padrão ético do mercado. Isso não é exatamente um problema. O problema em si está nas reais intenções e no quão verdadeira a sigla e o movimento perante a sociedade. E, principalmente, para onde isso nos levará. Resumindo, ESG é um movimento puxado sobretudo pela maior gestora de fundos do planeta, a Black Rock, com um único objetivo: se antecipar ao futuro e fazer o mercado financeiro inovar e manter sua hegemonia. Salvar o planeta e ajudar os outros é um detalhe. Ops, o objetivo. Afinal, o Sr. Larry Fink (que administra 5 vezes mais recursos do que o PIB do Brasil) não pode arriscar sua pele e sua reputação. Ops, o mundo.

Por agora, o ESG continua sendo o que sempre foi, uma carta de intenções, nada mais. Dúvidas sobre sua eficiência e veracidade estão aí. Qual é, de fato, o critério, o lastro? A transparência dos dados é real? E quais organismos, auditores – além do próprio mercado – que mensuram as práticas e podem garantir resultados socioambientais? O G da governança passou longe e esqueceram de ouvir e chamar para assinar a “marca-manifesto” a sociedade civil e o Estado. Sim, eles existem, mas o clube de Davos prefere não chamar. Preferem seguir como movimento – de vanguarda, diga-se de passagem – do mercado dizendo para o mercado. Mas, quando só uma parte fala, a democracia falha e a narrativa pode ser, no mínimo, equivocada, para não dizer arrogante.  

Fatos não faltam para dizer o quanto o ESG funciona apenas como um alter ego e não para o resto da bolha que habita o mundo. Em sua última carta (sim, repito, é apenas uma carta mesmo), o mito Larry Flink é categórico em seu recado: pede, exige, incita, exorta e até ameaça quem não entrar na linha. Diz que acredita que estamos à beira de uma mudança estrutural nas finanças e fala que haverá uma realocação significativa de capital. Adverte para as empresas correrem com seus relatórios, antes que as “agências regulatórias exijam”, e finaliza: “Estou muito otimista sobre o futuro do capitalismo e da saúde futura da economia”. Leia a carta e tire suas próprias conclusões.

A sigla ESG virou mainstream para o universo dos farialimers e segue como fraco balizador de práticas, como a que ocorreu no Carrefour de Porto Alegre. O clube até se apressou e excluiu a marca francesa da “lista do bem” da bolsa de valores brasileira (a B3), logo após o assassinato de Beto Freitas em 20 de novembro.

Mas fica a dúvida: o fato de o supermercado “ser ou não ser” ESG mudou algo? Outras marcas vão entrar e outras vão sair e o compromisso estará tão fiel quanto o fechamento do pregão diário. 

Claro que nem tudo são trevas e, sim, há empresários, movimentos e investidores éticos no Brasil e no mundo, mas isso é outra história. Os comprometidos com os Direitos Humanos e com a crise climática estão em outras salas. Longe  da corretora brasileira que usa sigla sem vogal no nome e que está aliviada, pois a pandemia já passou dessa classe social. É muita cifra e muito alarde para pouco. O clube do ESG peca pelo isolamento. A democracia desses lobos é muito diferente da dos mortais.   

Tomara que sejam apenas siglas e cartas. De intenções, o mercado e o inferno estão cheios. Espero que sigam lá, que a bolha deles continue com eles e que não estoure para o resto pagar a conta no final, mas não sou tão otimista quanto o Sr. Flink. 

Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa.

Chiara Gadaleta: “A moda que nos representa precisa nos vestir de consciência limpa”

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Crédito: Instagram

Chiara Gadaleta atua na indústria da moda há mais de 25 anos. Nos anos 1990, como modelo, desfilou para grifes como Chanel e Versace. Apaixonada pela moda, em 2008 criou a Ecoera, plataforma que encontra soluções de sustentabilidade para o mercado fashion e outras empresas.

A consultora de sustentabilidade é natural da cidade de Nápoles, na Itália, e veio para o Brasil ainda na infância. Depois que atuou como modelo sentiu uma necessidade de aproximar a moda e a beleza das reais necessidades das pessoas e do planeta. Ela já apresentou o programa “Menos é demais”, do canal à cabo Discovery Home & Health, programa que trabalha a temática consumo consciente e sustentabilidade na moda e vem sendo apontada como um dos nomes brasileiros ligados à sustentabilidade da moda.

Cada vez mais cidadãos estão se conscientizando da necessidade de adquirir hábitos que, multiplicados por meio de redes sustentáveis, têm um efeito positivo direto na estabilidade do planeta. Por isso, para ela, alguns passos simples podem melhorar a nossa relação com as roupas. Por exemplo, observar a etiqueta da roupa, descobrir quem a produziu, como aconteceu a produção e quais materiais foram utilizados.

Nesta entrevista, Chiara fala mais sobre moda sustentável, cadeia de produção e a nossa relação com a roupa, que pode influenciar positivamente – ou não. “Hoje acreditamos que a moda que nos representa precisa nos vestir de consciência limpa e que as roupas que usamos precisam espalhar boas notícias sobre o planeta e as pessoas”, afirma Chiara. Confira o diálogo completo: 

AUPA – O que podemos entender como moda sustentável? 
Chiara Gadaleta – Trata-se da moda com atributos sustentáveis e que tem um olhar responsável em toda a sua cadeia de valor, desde o plantio ou a produção da matéria-prima até o descarte.

Clique para ampliar a imagem. Crédito: Equipe de Arte Aupa.

AUPA – Como aquilo que vestimos pode estar relacionado com impacto socioambiental? 
Chiara Gadaleta – A produção de qualquer bem de consumo tem impacto no meio ambiente e na sociedade. No caso da moda, estamos falando de uma indústria que emprega milhões de pessoas, que utiliza água e energia, além de produzir descarte têxtil. Esses desafios precisam ser olhados como ferramentas de medição, em busca da redução com metas de melhor gestão de recurso hídrico ou compensação e neutralização de emissão de gases que provocam efeito estufa. Nesse processo de análise de cadeia de valor, podemos implementar boas práticas e melhorar a performance das empresas de moda, no que diz respeito ao ESG (environmental, social and corporate governance – na tradução livre em português, ambiental, social e governança corporativa).

Faz-se necessário um olhar apurado e detalhado para a cadeia de produção, além de saber identificar melhorias e implementar projetos de impacto positivo.

AUPA – O ambiente da moda é retratado, muitas vezes, como tóxico, em termos de saúde mental. Como pensar em inovação neste ambiente, partindo das relações pessoais?
Chiara Gadaleta – É necessário promover a diversidade na contratação e na representatividade grupos minorizados. Isso é fundamental para que a moda possa fazer parte das mudanças que o mundo pede hoje. 

AUPA – Como a moda pode estar alinhada aos investimentos sustentáveis e também aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 da ONU?
Chiara Gadaleta – A moda alinhada aos ODS pode fazer parte das discussões sobre clima, água, igualdade de gênero, dentre todos os temas da proposta da ONU. Um exemplo é a iniciativa A moda pela água.  

Marina Harkot, presente!

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A morte de Marina Harkot não foi apenas um acidente de trânsito. Também não foi um simples homicídio. Foi algo mais simbólico. Foi um ataque forte contra o cicloativismo brasileiro. A arma utilizada para esse ataque foi um carro, dirigido por um motorista que possivelmente estava embriagado. E a vítima desse ataque não foi só a Marina. Foi também cada ciclista que perdeu forças para lutar por mais segurança no trânsito. As vítimas fomos todos nós que esperamos ver uma cidade de São Paulo mais gentil e humana.

Leticia Lindenberg Lemos é mestre em Planejamento Urbano pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP). Crédito: Arquivo pessoal.

Era exatamente isso que Marina queria, segundo Leticia Lindenberg Lemos, amiga, companheira de pesquisa e Mestre em Planejamento Urbano pela Faculdade de Arquitetura e Urbansmo da Universidade de São Paulo (FAU/USP). “Marina tinha o desejo de viver em um mundo mais gentil, em vários sentidos. Um mundo onde as mulheres pudessem viver e circular em paz, sem ter os corpos sob julgamento ou ameaça. Ela queria poder circular livremente para que o mundo se tornasse mais gentil”, comenta Leticia.

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Para buscar isso, Marina pedalou e agiu. Era cientista social, cicloativista e pesquisadora. Fez parte da Ciclocidade (Associação dos ciclistas urbanos de São Paulo) e criou um grupo de trabalho para tratar da questão do gênero no ciclismo, o GT Gênero. Também concluiu um mestrado pela FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP), com a dissertação “A bicicleta e as mulheres: mobilidade ativa, gênero e desigualdades socioterritoriais em São Paulo”. Tudo isso com apenas 28 anos. Pedalou até morrer atingida por um carro na Zona Oeste de São Paulo. Mas não foi uma morte em vão. A tragédia reacendeu os debates sobre ciclismo na cidade.

Problemas e soluções
Depois do caso de Marina, o principal debate que surgiu foi sobre a impunidade para quem atinge ciclistas. No caso dela, o motorista foi identificado e indiciado por homicídio culposo inicialmente, quando não há intenção de matar. Mas depois esse entendimento foi mudado. José Maria da Costa Júnior, de 34 anos, foi denunciado por homicídio doloso, porque a investigação inicial apontou que ele dirigia sob efeito de bebida alcoólica e em alta velocidade. Dessa forma, José pode até ser levado a júri popular. Por enquanto, o caso parece ser um fio de esperança na busca por Justiça, já que normalmente esses atropelamentos ficam sem punições para os responsáveis.

Leticia explica bem como é importante ter tolerância zero contra a morte de ciclistas. Ela morou na Holanda e diz que isso é fundamental para ter tantos ciclistas:

Clique na imagem para ampliá-la.

A Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria de Mobilidade e Transportes, afirma que está colocando em prática um plano que segue esse tom. É o “Vida Segura”, baseado no conceito internacional de Visão Zero, que impõe que nenhuma morte no trânsito é aceitável. E que todos, inclusive o Poder Público, devem assumir responsabilidade para a redução dos acidentes. A Prefeitura promete fazer isso com melhoria na qualidade da infraestrutura, oferta de cursos educativos e aperfeiçoamento dos mecanismos de fiscalização.

Portanto só punir não basta. É preciso educar para prevenir. “Você precisa tratar das pessoas que dirigem hoje, de quem está tirando carta e de quem um dia pode ser um motorista. Tem que acessar isso em vários momentos da vida”, explica Leticia.

Para quem já dirige, o mais importante seria ter mais campanhas de Educação. Afinal, é evidente que muitos motoristas sequer sabem algumas regras básicas. Por exemplo: de acordo com o Código Brasileiro de Trânsito, os ciclistas têm prioridade sobre os carros. E os motoristas devem guardar uma distância de 1,5m ao fazer a ultrapassagem.

Para educar quem está tirando a CNH, o mais importante seria fazer mudanças nos testes. “Sabemos que há poucas perguntas sobre o respeito ao ciclista na prova de tirar carteira. Na volta que se dá (para avaliação), tem pouca instrução disso”, exemplifica Leticia.

Por fim, é preciso fazer um trabalho de longo prazo: educar as crianças. Levar campanhas de trânsito para as escolas. E, assim, desenvolver o respeito aos ciclistas do futuro. Atualmente, em São Paulo, isso é feito pelo Centro de Treinamento e Educação de Trânsito (CETET), que tem parceria com a rede de ensino, com cursos presenciais e à distância. É possível se inscrever pela internet para ter acesso gratuito ao curso.

A Educação também precisa ser feita no dia a dia. Diego Salgado, jornalista e ciclista há 20 anos, sabe disso. Perguntado sobre qual é a maior dificuldade no trânsito atualmente, ele afirmou que é a relação com os ônibus. Mas mudou a forma de lidar com isso: “Sempre acontece de o ônibus passar muito perto. É um perigo constante. Mas tenho mudado minha postura, para tentar abrir olhos com mais bate-papo e menos xingamento. Antes, eu passava e jogava o braço ou falava alguma coisa ríspida. Mas mudei.

Diego Salgado é jornalista e ciclista há 20 anos. Crédito: Arquivo pessoal.

Outro dia mesmo, cheguei no semáforo e troquei ideia. Falei ‘imagina se você tivesse na minha situação’. Tento explicar que é só esperar. E na conversa surte mais efeito. Ele entende minha situação. No trânsito é importante essa harmonia. Tem que ter harmonia com os motoristas, não adianta ficar xingando”.

Atualmente, poucos ciclistas andam tanto em São Paulo quanto Diego. Ele pedala para entregar tortas feitas pelo pai dele, Antônio Sérgio Carvalho, em diversas regiões. O projeto começou de forma despretensiosa, porque Antônio estava sem emprego na pandemia, e cresceu exponencialmente. Nem eles esperavam: “Não imaginava que fosse chegar onde está. Meu pai está se dedicando totalmente à torta. Ele abandonou a função de motorista de aplicativo por causa da pandemia. E imaginávamos que fosse durar um mês. Agora já são oito meses de trabalho e muito provavelmente vai virar um negócio”, revela ele, que não abre mão de distribuir todas tortas andando de bicicleta. E admite que uma parte do sucesso do projeto tem relação com isso também: “É um modo de mostrar que é possível fazer tudo de bicicleta. É legal mostrar que dá pra fazer”. 

Antônio Sérgio Carvalho e o filho Diego Salgado. Crédito: Arquivo pessoal

Para Diego, os problemas para os ciclistas vão além da relação com os motoristas.  “Vejo ciclovias onde falta um pouco de projeto, com bueiro no meio do caminho, que foram feitas na pressa pra se cumprir um cronograma. A iluminação é precária e precisa ser revista. Tem algumas ciclovias, como na Avenida Sumaré, que tem trechos bem escuros. Tenho notado semáforos apagados. O ciclista acha que está aberto, mas está fechado. Na Avenida Brigadeiro Faria Lima eu já presenciei um ciclista passar no semáforo e houve uma colisão. Foi fraco, mas houve”.

O trajeto diário de um ciclista em uma das maiores cidades do mundo por muitas vezes é um trajeto de extrema dificuldade. Crédito: Arquivo pessoal

Ciclovias e ciclofaixas: problemas ou soluções?
Ciclovias costumam ser vistas como a principal solução para todos problemas. Mas Marina sempre alertou para a importância de olhar além e enxergar as dificuldades que as minorias da sociedade enfrentam nas ciclovias, por exemplo. E Leticia reforça a importância dessa reflexão.

“Uma ciclovia isolada protege do carro, mas não protege contra assaltos, estupros e espancamentos. Você tem uma diversidade de violências contra uma diversidade de pessoas. A principal proteção é a própria na cidade, é a vida na cidade. Quando você oferece uma ciclovia segregada, como a da Marginal (Pinheiros), que é entre um trem e um rio, o que acontece é um índice absurdo de assaltos. O que precisamos fazer é uma ciclovia inserida na cidade”.

Questionada sobre isso, a Prefeitura de São Paulo se defende com números: “Relatórios de acidentes da CET comprovam que, quanto mais estruturas exclusivas para bicicletas, menor é o número de mortes de ciclistas. Por exemplo, entre 2011 e 2018, período em que a malha cicloviária passou de 74 quilômetros para 503,6 quilômetros de extensão, o número de mortes de ciclistas caiu na proporção em que a malha crescia: redução de 61% nas mortes na comparação entre o primeiro e o último ano”.

Outro dilema de São Paulo é a ciclofaixa de lazer aos domingos e feriados. É algo consolidado e bastante utilizado. Mas gera debates. Por um lado há quem não veja problema, porque a única finalidade é o lazer. E eventualmente pode contribuir para que mais pessoas se tornem ciclistas. 

Mas Leticia alerta para os problemas desse projeto, já que tem um custo alto (pago pela iniciativa privada), não faz diferença para a mobilidade e não estimula o compartilhamento de espaço – existem cones que separam as bicicletas dos carros em todas ruas.

“Você pode incluir o uso da bicicleta como lazer. Por que não? Mas o problema é quando você faz só isso. São rios de dinheiro para montar essa operação. Mas esse dinheiro poderia ser melhor utilizado para coisas permanentes. E essa história de fazer no canteiro central é uma loucura brasileira, para não atrapalhar o carro. Todas as pessoas que não são brasileiras e veem isso, acham uma loucura. Porque é a via de maior velocidade. Se alguma coisa acontece, se tem um desvio, é morte”.

Quando as ciclofaixas foram criadas, o Bradesco patrocinou a ação. Atualmente, é a Uber quem investe. Procurada para comentar sobre esse dilema e sobre a segurança dos ciclistas, a empresa não se manifestou e informou que só realiza as medidas orientadas pela CET (Companhia de Engenharia de Trânsito) na concessão.

Quem pode resolver
O ciclismo de São Paulo passou por dois extremos na prefeitura recentemente. Com Fernando Haddad (PT) como prefeito, de 2012 a 2016, houve um grande estímulo para o uso da bicicleta, com mais de 400 quilômetros de ciclovias construídas. A pressa para atingir essa meta gerou críticas e polêmicas. No último ano de gestão, ele ainda reduziu a velocidade máxima em todas vias de São Paulo, para diminuir a gravidade dos acidentes, mas grande parte da população não gostou da ideia. Haddad tentou a reeleição, mas perdeu no 1º turno.

João Dória (PSDB) foi eleito com propostas diferentes, mais voltadas aos carros. O slogan da campanha era “Acelera São Paulo”. Assim que assumiu, aumentou novamente a velocidade de algumas vias e, em 2018, saiu do comando para disputar e vencer a eleição para governador do estado. Bruno Covas (PSDB) ficou na gestão por dois anos e, em novembro, foi eleito para comandar a cidade por mais quatro anos.

Em geral, ciclistas entendem que as bicicletas não são prioridade para a prefeitura, atualmente. “É uma gestão voltada ao motoristas de carro, de aumentar velocidades. Acho que não há muito sendo feito. É a sociedade civil que tem que pressionar, junto com outros órgãos de controle, para mostrar que isso é contra a vida, afirma Leticia. “Vejo pouca preocupação por parte da Prefeitura. Vejo falta de manutenção e falta de atenção. A cidade tem que passar por uma Educação e está longe disso, observa Diego.

A Prefeitura de São Paulo se defende afirmando que lançou o Plano Cicloviário, com consulta pública, que prevê a ampliação da malha cicloviária paulistana. Mas há atrasos nas metas. O Plano previa, para o biênio 2019/2020, a construção de 173,5 quilômetros de ciclofaixa e reforma de 310 quilômetros de estruturas existentes. Até o final do ano passado, foram entregues 73 quilômetros novos e 193 quilômetros reformados. Ainda de acordo com a prefeitura, existem 103 quilômetros de novas ciclovias em obras ou em fase de sinalização. E das reformas que faltam, 110 quilômetros estão em obras.

Além do Poder Público, empresas privadas também estão envolvidas no ciclismo em São Paulo. Além da já citada Uber, uma marca muito presente é a do Banco Itaú, que patrocina o projeto Bike Sampa. Trata-se de um sistema de compartilhamento de bicicletas, que ficam em estações fixas e podem ser desbloqueadas para uso do público mediante pagamento, a partir de R$ 4,30.

A Tembici, empresa que opera o sistema da BikeSampa, informou que recentemente criou um curso para educação de cicloentregadores, o “Pedal Responsa”. Afinal, durante a pandemia, muitos ciclistas passaram a trabalhar no sistema de delivery, entregando produtos e alimentos. O projeto da Tembici foi feito em parceria com o iFood e o Aro, com o objetivo de abordar cuidados e responsabilidades dos entregadores, além de trazer outros temas, como saúde, prevenção ao coronavírus e comunicação com o cliente.

Tembici, empresa que opera o sistema da BikeSampa. Crédito: Tembici.

O legado da Marina
Enquanto esteve viva, Marina viu ativamente São Paulo passar por evoluções na segurança para o ciclista. Além da criação de ciclovias, houve um importante debate social, como destaca Leticia: “Ter esse período de implantação de infraestrutura colocou o debate sobre ciclismo no centro. Sempre estávamos debatendo. E aflorar essa questão com o debate público é relevante. Se você não é notado, não existe, não tem como se colocar. Se há pessoas questionando, se tem mídia falando mal, tem espaço pra você falar ‘mas não é mal, é bom’. Hoje, quando a gestão ‘Acelera, São Paulo’ vem apagando ciclofaixas, e a sociedade pinta, ela está questionando, está ocupando a cidade de forma articulada, como não era antes. Isso foi importante para dar voz e reconhecer que ciclistas existem, estão na cidade e são reconhecidos pela política pública”

Auditório do Sindicato dos Arquitetos do Estado de São Paulo (da esquerda para a direita: Priscila Costa, Leticia Lindenberg e Marina Harkot). Apresentação dos resultados da pesquisa sobre os desafios que mulheres encontram para andar de bicicleta - trabalho coordenado pelas três pesquisadoras. Crédito: Arquivo pessoal.

Ao morrer, Marina Harkot impactou até quem não a conhecia. “Me tocou porque é muito perto da minha realidade. Eu passo perto do local do acidente quase todos dias. vemos que o perigo está próximo. Podia ter acontecido comigo. Foi como se fosse com uma pessoa da família. Fiquei sentido com isso e nem a conhecia. Foi muito difícil ter que reunir forças para encarar e voltar. Comecei a sentir receio. Depois me acostumei, mas naquela semana foi complicado”, relata Diego.

Agora, depois da morte, a luta de Marina deve ser dividida em duas. Uma parte vai acontecer na busca por justiça, no processo contra José Maria da Costa Júnior. A outra parte será voltada para manter vivo o legado de Marina: “Um legado importante é no sentido de que não podemos ter um mundo voltado para o ser humano padrão. É olhar para o mundo e perceber a diversidade. Existe um padrão de normalidade, que envolve sexo, gênero, cor, classe social e modo de deslocamento. A cidade é feita para essa pessoa neutra, como se não tivesse diversidade. E quando as pessoas trazem suas especificidades, ela não se encaixa. Isso gera conflitos e opressões, que as pessoas sentem. Olhar para o mundo e compreendê-lo como múltiplo é o legado que a Marina deixa, conclui Leticia. O ataque contra o cicloativismo foi forte, mas não foi fatal. Marina morreu. Mas as ideias dela estão mais vivas do que nunca.

Christovam Barcellos: “Ainda não superamos a primeira onda de Covid-19: o Brasil teve tempo para se preparar, mas falhou”

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Christovam Barcellos: “Ainda não superamos a primeira onda de Covid-19: o Brasil teve tempo para se preparar, mas falhou”. Crédito: Fiocruz

Depois de uma queda significativa no número de casos e óbitos por Covid-19, a Europa vive uma segunda onda da doença que, novamente, se espalha rapidamente. Países já retomaram medidas de controle para conter algo que já era previsto por autoridades de saúde. As festas de fim de ano, que normalmente envolvem muitas pessoas, colocaram autoridades de saúde em alerta para um segundo pico. 

Vale o questionamento: será que o Brasil finalizou a primeira onda? Sobre este tema, conversamos com Christovam Barcellos, sanitarista e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Ele explica quais devem ser as principais causas desta segunda onda do vírus e como as medidas de intervenção diminuem o alastramento e o agravamento da doença, além da importância de investimentos na ciência e como a corrida internacional pela descoberta da vacina pode ser prejudicial.

Mapa de notificação de casos de Covid-19. Clique na imagem para ir para o site. Crédito: Ministério da Saúde e DataSUS.

Aupa – É possível afirmar que o Brasil emendou as ondas da Covid-19? Houve algum momento de superação da primeira onda?
Christovam Barcellos – Ainda não podemos considerar que o Brasil está vivendo uma segunda onda, pois não superamos a primeira. Os países que estão vivendo a segunda onda fazem parte da Europa, principalmente. Houve um aumento grande de casos e óbitos e, depois, uma queda acentuada. Entre junho e julho, os casos estavam diminuindo, por exemplo. Já, em setembro, voltou um número grande de casos e óbitos. Além disso, é importante lembrarmos que uma segunda onda não é caracterizada só pelo número de casos, mas, sim, por um conjunto de sinais, segundo temos acompanhado aqui na Fiocruz, por exemplo, sobrecarga nos hospitais, procura por leitos de UTI, mortalidade, proporção de exames de Covid-19 que estão dando positivo. Na Europa apareceram todos esses sinais, apontando para uma segunda onda que parece que já está sendo revertida. No Brasil, vimos um aumento mais lento, em comparação aos países do Oriente e da Europa e também uma queda lenta, formando aquele patamar que vinha até outubro. Em outubro houve uma pequena reversão desse processo. Se isso vai caracterizar uma segunda onda, que pode vir no verão, depende das medidas de controle que podem ser tomadas. É necessário retomar algumas políticas de isolamento, reforçar o uso de máscaras, evitar aglomerações, incentivar a higiene pessoal e cuidar das pessoas mais vulneráveis.

Quantidade diária de novos casos de Covid-19 confirmados por milhão de pessoas. Fonte: Our World Data.

Aupa – A doença chegou ao Brasil cerca de dois meses após o primeiro caso no mundo (registrado em novembro de 2019). Acerca de Políticas Públicas voltadas à Saúde e à cooperação entre as pessoas, o que faltou ao Brasil?
Christovam BarcellosO Brasil teve tempo. Em dezembro de 2019, houve o primeiro comunicado oficial de que estava acontecendo o início da transmissão dessa virose respiratória na China. Logo depois, em janeiro de 2020, aconteceu na Europa. Então, o Brasil teve algum tempo para se preparar. Não podemos dizer que foi um completo fracasso, pois se notou hospitais de campanha, importaram testes, entre outras medidas. Ao mesmo tempo, vimos uma política negacionista muito forte vindo de formadores de opinião, inclusive do próprio governo federal. Pessoas afirmando que era apenas uma “gripezinha”, que nada precisava ser feito. E, pior: falaram que, se tivesse que morrer gente, que morresse mesmo. Então, muitas declarações confundiram a população.

Uma das características marcantes de países da Europa e do Oriente é que houve uma mensagem uníssona que foi passada para a população, como: é preciso usar máscara e evitar aglomerações. A falha na comunicação no Brasil foi terrível. Talvez, tenha causado mais impacto do que algumas medidas de controle.

Aupa – O que pode ser feito para melhorar o quadro, mesmo diante das dificuldades no cenário econômico e dos hábitos comuns do verão (como ir à praia)?
Christovam Barcellos – A crise está dentro do hospital e fora também. Ela acontece no que chamamos de “Atenção Primária em Saúde”, que é a clínica de Saúde da Família, os agentes de saúde visitando as famílias, tanto para acompanhamento quanto para saber se essas pessoas estão cumprindo as medidas – e também para alertar as pessoas que vivem em situações de vulnerabilidade sobre como se prevenir quanto ao vírus.

É importante falar sobre a vacina, pois existe uma corrida internacional para o desenvolvimento da mesma. Algumas empresas estão utilizando tecnologia inovadora, onde esperamos a eficácia. Vale destacar que o Brasil está bem situado nesse ponto. O Brasil tem uma tradição de pesquisa em saúde muito importante, mas infelizmente está abalada pela crise econômica e a dificuldade de financiamento de pesquisa no Brasil.

Aupa O mundo todo tem assistido ao trabalho intenso de centros de pesquisa em busca da vacina, além do desenvolvimento tecnológico para tratar os doentes. E, para alcançar estes resultados, é necessário alto investimento financeiro e humano. Como você avalia este quadro no Brasil?
Christovam Barcellos – Existe uma certa liberdade nas instituições, como o Fiocruz e o Instituto Butantan, para fazer cooperações com outros países, em prol do desenvolvimento da vacina, como a China e a Rússia. Isso só não pode se transformar em uma competição entre os estados e o governo federal, afinal, essa politização da corrida pela vacina é altamente prejudicial. As instituições precisam discutir as vantagens e desvantagens de cada vacina e como serão distribuídas.  Por exemplo, no Brasil, a vacina precisa ser distribuída via Sistema Único de Saúde [SUS]. Assim, o SUS terá uma função importantíssima nessa campanha de vacinação em relação à logística, além de disponibilizar profissionais capacitados para aplicar a vacina e fazer a manutenção dela. Importante: o SUS tem essa capacidade, porém precisa de organização.

Políticas de vacinação contra Covid-19. Fonte: Our World Data.

Doses diárias de vacinas contra Covid-19 administradas. Fonte: Our World Data.

Aupa – Como você vê o financiamento voltado às pesquisas no Brasil? Você acha que falta maior proximidade ou entendimento da população acerca da cadeia científica necessária para o desenvolvimento de uma vacina, por exemplo?
Christovam BarcellosO SUS é muito descentralizado. As ações dos SUS são executadas pelos municípios, mas é necessário uma coordenação nacional que venha do Ministério da Saúde. Algumas pessoas negligenciaram certas medidas do governo e saíram às ruas, começaram a se aglomerar e isto está acontecendo também em outros países da Europa – mas não no Oriente, que nunca cometeria esse tipo de irresponsabilidade. Outro ponto é que o SUS não é só hospital: ele é também uma articulação com hospitais privados e cabe a ele executar determinadas ações, que, no geral, não se faz no setor público de saúde, como a atenção primária em Saúde, o desenvolvimento tecnológico de vacinas, os equipamentos hospitalares de proteção e o próprio teste. Isso tudo cabe ao governo federal, porém, infelizmente, muitas dessas medidas não foram tomadas.

Aupa – Como você vê o papel da Educação no cenário científico, diante da pandemia?
Christovam Barcellos A Educação e a pesquisa andam juntas. Hoje, temos uma dificuldade enorme de formação de quadros voltados para o combate da Covid-19, mas, no fundo, esses profissionais, tanto de Saúde quanto de outros setores, são formados com a prática dentro e fora da sala de aula. A Educação não pode parar. E, mesmo que haja uma determinação de um novo decreto, a Educação não para. Ela acontece dentro das casas, nas vizinhanças e nas comunidades e isso é um aspecto positivo que temos que aproveitar. A Educação não acontece apenas em escolas. As universidades têm um papel muito importante nisso e elas estão se esforçando para fazer essa ponte entre o desenvolvimento científico e a pesquisa prática para o controle da pandemia, como também para o ensino – como ensinar as pessoas, o tempo todo, sobre comportamento, solidariedade, fundamentos básicos de biologia, microbiologia, virologia e medicina. As pessoas estão atentas a isso e muito curiosas e são não apenas os estudantes, como toda a população.

Aupa – É correto afirmar que atribuir a maior frequência de Covid-19 aos grupos em situação de maior vulnerabilidade social é um preconceito – dado que é a população que não necessariamente tem acesso ao saneamento básico ou à possibilidade de fazer a quarentena, devido à necessidade de trabalho?
Christovam Barcellos Quase metade da população ativa do Brasil é formada por trabalhadores formais, com carteira assinada e horários regulamentados pela legislação. A outra metade é formada por trabalhadores informais, que prestam serviços e, sem dúvida nenhuma, são essas pessoas que sofrem mais com a pandemia. De um lado, com a perda de renda, pois a economia já vinha mal e entrou em uma grande crise, quase uma recessão durante a pandemia, não só no Brasil como em outros países. As pessoas perderam poder aquisitivo e pararam de comprar por falta de renda ou por medo de sair na rua. Isso prejudicou a economia, principalmente o poder de compra dessa população informal. Não foram as indústrias ou as grandes empresas que foram as mais afetadas, mas, sim, a população em situação de vulnerabilidade, que, devido a um contexto bastante brasileiro, também vive nas periferias e é obrigada a usar o transporte público lotado, viver em habitações precárias, casas mal ventiladas, com pouca iluminação e isso jogou um peso maior da doença para essas pessoas.

Aupa – Quais mudanças você consegue perceber na relação entre a comunidade científica e a sociedade civil?
Christovam Barcellos Vemos algumas opiniões negacionistas. A chamada anticiência tem predominado no mundo. Nas redes sociais, muitas vezes, se propaga o que não é verdade. Como a possibilidade da Terra ser plana ou que as vacinas introduzem um chip que controla o pensamento, entre muitos outros exemplos. 

A pandemia obrigou as pessoas a prestarem atenção na comunidade científica, no que está sendo produzido cientificamente. 

Talvez isso signifique um movimento pró-ciência, pró-desenvolvimento científico, e pró-soberania dos países. Vemos muita competição entre os países nos setores comerciais, mas, ao mesmo tempo, na academia há uma cooperação muito grande entre países. É provável que essas cooperações científicas voltem a ganhar força e isso seja um novo clico.

Esta entrevista foi realizada em dezembro de 2020.

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