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Lilian Wutzke: “A mudança está acontecendo e cada passo importa”

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Quando a empreendedora social Lilian Wutzke participava das ações de entrega de cestas básicas, na comunidade Parque das Flores, percebia um padrão entre o público-alvo: mulher, mãe solo e chefe de família em vulnerabilidade.

E esse modelo é uma realidade na Região Metropolitana de São Paulo, onde 39% das famílias são chefiadas por mulheres, segundo dados da Fundação Seade.  O mesmo estudo revela que mais da metade (57%) das mulheres nessa condição não estão ocupadas – no caso de homens chefes de família, 28% enfrentam o desemprego.

Essa disparidade motivou  Lilian a criar a ONG Protagonistas. A organização se divide em projetos que apoiam o desenvolvimento das mulheres com sessões de autoconhecimento, acompanhamento jurídico e psicológico; e as participantes do primeiro projeto recebem cestas básicas.

Confira a jornada da empreendedora social na entrevista. 

AUPA – Como surgiu a ideia para iniciar a ONG Protagonistas? Como o programa atua?
Lilian Wutzke Tudo começou com um projeto de entrega de cestas básicas em parceria com amigos que já atuavam na comunidade. Após um tempo, percebemos um padrão ali: mulher, mãe de muitos filhos, educação básica, mãe solo, chefe de família, relacionamentos abusivos e desemprego. Esse padrão foi o gatilho para percebermos que devíamos ampliar o nosso trabalho. 

Com uma visão melhor sobre a raiz do problema, começamos a trabalhar com essas mulheres. Hoje, temos dois programas na ONG: o De Cesta em Cesta, que atua com cestas básicas para 50 mulheres e suas famílias, e o Grupo de Apoio Novo Ciclo, que trabalha para quebrar o ciclo de violência e miséria das mulheres em vulnerabilidade social, de modo a torná-las protagonistas das suas próprias histórias, com foco em desenvolvimento pessoal, autoconhecimento, atendimento psicológico e legal, educação, cursos profissionalizantes e inserção no mercado de trabalho.

“Pra mim duas palavras definem momentos importantes dessa minha trajetória: paixão e maturidade. Quando penso em paixão, o início de tudo em 2017, onde meu coração ficou no Parque das Flores e meu sonho era realizar um trabalho na comunidade. Quando penso em maturidade, nossa aceleração na Glocal, que foi fundamental para o projeto pivotar e focar no trabalho com mulheres em vulnerabilidade social”

AUPA – Como você vê a participação atual das mulheres em cargos de liderança no Brasil?
Lilian Wutzke Há avanços no meio social e da Economia Criativa, ao mesmo tempo que há também muitas mulheres liderando projetos e negócios – porém, vale ressaltar que é um meio muito específico.

Já em áreas como tecnologia não há tanta representatividade. Já estive em muitas reuniões de trabalho onde eu era a única mulher entre homens brancos e héteros (em sua maioria). Apesar destas vivências, acredito que lideranças femininas trazem mais humanidade, paixão, foco e fluidez às empresas.

AUPA – Quais são os desafios enquanto líder na ONG Protagonistas?
Lilian Wutzke Atualmente, os maiores desafios são financeiros, devido aos gastos com as doações de cestas básicas e à expansão dos demais projetos para mais mulheres. Precisamos de mais profissionais dedicadas ao projeto, ter espaços físicos permanentes e também equipamentos. Além do enorme desafio que é a jornada ao lado de mulheres que estão na descoberta de seu protagonismo.

AUPA – Quais desafios surgiram para a ONG Protagonistas durante a pandemia de Covid-19? Quais foram as adaptações necessárias?
Lilian Wutzke O primeiro desafio foi ver o aumento imediato de famílias sem emprego e, consequentemente, sem comida. Logo nos unimos a parceiros de outros projetos para levantarmos maiores doações de cestas básicas para a comunidade toda. 

Depois, o desafio foram os encontros que precisaram ser pausados. Adaptamos nosso cuidado às mulheres, utilizamos o WhatsApp ao nosso favor para manter contato e conhecer as necessidades individuais de cada uma em meio à pandemia. 

Iniciamos alguns atendimentos com profissionais de psicologia via vídeo com algumas mulheres, continuamos as entregas das cestas básicas, mas adaptamos para cestas básicas prontas, ao invés de comprarmos os alimentos e montarmos manualmente as cestas, como fazíamos. No momento, estamos estudando a melhor forma de realizar encontros reduzidos, com distanciamento social, porque não podemos mais ficar paradas. Enquanto o vírus avança, nossas mulheres regridem em diversos aspectos. 

AUPA – O que você acha que devemos refletir neste mês de março?
Lilian Wutzke – Sem dúvida o episódio do incêndio, que é o mais conhecido ligado ao 8 de março, marcou a trajetória das lutas feministas. Mas é importante lembrar que a luta por direitos iguais, direito ao voto e melhores condições de trabalho já havia começado muito antes. É importante que a data não seja apenas comercial, mas que faça-nos lembrar daquelas que lutaram e abriram um caminho, que continuemos a abrir outros caminhos, ao lado de todas as mulheres. A luta é constante, a mudança está acontecendo e cada passo importa. 

Clique na imagem para acessar o especial Aupa Mulheres 2021 no Instagram.

Ao longo desse mês, a Aupa promove – no site e nas redes sociais – o especial #AupaMulheres. Serão conteúdos com diversas vozes de protagonistas do ecossistema propondo reflexões sobre a atuação e os obstáculos no setor.

No IGTV, o #SigaEssasMulheres traz cinco líderes, nos mais variados pontos de vista do campo, em um debate sobre um mundo mais igualitário.

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Opinião de impacto

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Não concordo com institutos e fundações captando recursos. 

Acho sacanagem 
Acho desvio de finalidade
Acho desleal com as OSCs.

Não são, afinal, investidores sociais?
Então, que invistam no fortalecimento da sociedade civil,
Ao invés de disputar recursos com ela.

Mas dificilmente você lerá ou ouvirá
Este tipo de opinião
Fora da rádio corredor.

Não acho que impacto tem que 
Compor com o mainstream.

Ou melhor,
Uma certa concepção de impacto,
que seja comprometida com
uma certa transformação socioambiental mais raiz, digamos. 

Pedir a benção ao mainstream
não seria um contrassenso?

Embora isso seja apenas a minha opinião 
Eu sigo tentando atuar com um hacker neste grande sistema. 
Em prol dos fazedores de impacto mais raiz,
os que costumam chamar de patinhos feios,
os que seguem com os pés no barro,
os periféricos, os fora do eixo, os de fora da panela.

Entrei nesse barco e sigo nele.
Não por causa das grandes empresas,
Dos grandes bancos e grandes investidores. 

Mas, sim, 
pelos seus “Toninhos”, pescadores da vida;
seus Chicos, pequenos agricultores; 
pelas Donas Marias, das comunidades;
por tantos microempreendedores das quebradas,
periferias e rincões do Brasil; 
pelas ONGs que “atrapalham”, o país. 

Não concordo com uma certa onda solidária 
que repercute recordes de doação,
mas que segue meio neutra
à atuação mais crítica e política 
e
descolada dos aspectos estruturantes
do nosso sistema,
que segue produzindo desigualdades.

Doação pela doação
não muda o mundo.  

Sim, ameniza parte
dos seus sintomas, 
mas também não seria uma cortina de fumaça
sobre nossa percepção mais profunda dos problemas?

Não concordo com
o exagero nas porcas e nos parafusos
de um mundo do impacto acadêmico demais, 
com tanto rococó intelectual e fetiche por termos em inglês. 

E, ainda assim,
seguimos sonhando
com a popularização da agenda. 

Desse jeito
fica meio difícil, né?

Não acredito que siglas, modismos 
e velhos conceitos em novas embalagens
vão mesmo gerar um ciclo virtuoso de impacto positivo. 

Não gosto de colegas que poderiam
se posicionar mais, usar seus chapéus institucionais
para colocar mais pimenta nos debates e análises,
mas seguem o jogo da brodagem de conveniência,
frente a tantas distorções e contradições 
em nosso ecossistema de impacto. 

Não faço parte da panela
que tenta não se parecer uma 
e insiste em nos vender a ideia 
de que somos todos amigos 
e entusiastas com a chegada de novos entrantes e novas ideias. 

Há mesmo espaço para novos entrantes
no tal ecossistema de impacto? Quem? Quais? De onde? 

Me incomoda ver tanto conflito de interesse
travestido de suposta colaboração e parceria, 
até que a chance de um novo contrato ($) 
jogue esse papo furado por terra.

Sim, eu sei,
todos temos boletos pra pagar.

Mas, então, 
porque não somos mais coerentes
em nossos discursos supostamente
em prol do ecossistema?

Me irrita a inacessibilidade
de tantas cabeças do ecossistema, 
que se dizem sempre abertos a um café,
mas nunca respondem mensagens

reserva de mercado?
ou
sistema pay-per-view?

(a depender do chapéu institucional, claro)

É assim que vamos abrir a roda
e ampliar o ecossistema?

Faça seu teste,
caro(a) leitor(a),
e tire suas próprias conclusões. 

Sigo tentando colocar em prática
tudo isso que critiquei neste texto

Tarefa nada fácil, 
convém lembrar.

Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa.

A luta só acaba quando termina

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Um dos sentimentos mais angustiantes da pandemia é não saber quando ela irá acabar. As previsões viram conjecturas, já que muitas forças contrárias se impõem às ações de combate à doença e potencializam a letalidade do vírus. Falta vacina, faltam leitos, faltam decisões acertadas e o reflexo dessa precariedade é um tapa na cara do país — 278.327 mortos por Covid-19, até o fechamento desta reportagem. Uma tragédia anunciada, tão triste quanto vergonhosa.

Desafiando todas as dificuldades, as organizações e suas redes de lideranças deram às pessoas desassistidas apoio para sobreviverem à maior crise sanitária dos nossos tempos.

Projetos como o Mães da Favela, da Central Única das Favelas ( CUFA),  e o Corona no Paredão, da Gerando Falcões, levantaram recursos, conseguiram alimentos, itens de primeira necessidade e internet gratuita para famílias em milhares de favelas pelo Brasil. Usaram reconhecimento facial, distribuíram chips e cestas digitais para conectar às mães aos serviços essenciais e seus filhos à possibilidade de assistir aulas a distância.

As ONGs deram uma demonstração de criatividade e, sobretudo, competência. Elas têm voz de longo alcance, são organizadas e trabalham em rede e ,assim, garantem capilaridade. Para firmar parcerias, negociaram com empresários, instituições, Terceiro Setor e profissionais de diversas áreas.

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Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva. Crédito: Divulgação

Mostraram do que são capazes e a nobreza de suas ações acabaram por denunciar a omissão de governos.

“A pandemia escancarou a obscena desigualdade brasileira. Logo de cara, caiu por terra a fake news de que o Coronavírus era democrático, que infecta igualmente ricos e pobres. Os anticorpos sociais das favelas e das periferias são infinitamente menos poderosos do que os da classe média e dos ricos”, afirma Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva.

De fato, uma coisa é fazer distanciamento social em 100 metros quadrados, com a geladeira cheia, reserva no banco e condição de trabalhar de forma remota. Mas, questiona Meirelles: como ficam as famílias inteiras que dividem espaços minúsculos?

“Só não houve convulsão social nos primeiros meses de pandemia por duas razões: o arraigado senso de solidariedade que existe nas favelas – ‘se eu tenho comida, meus vizinhos não passam fome’; e porque, de maneira nunca vista, a iniciativa privada se uniu às ONGs que atuam nesses territórios, e ambos trabalharam para fazer chegar rapidamente doações à população”.

A realidade do prato vazio
Sem dúvida, a solidariedade despertada inicialmente foi o efeito colateral bom da pandemia.  Mas, os brasileiros continuam sentindo na pele as perdas irreparáveis desse momento — sejam de entes queridos ou de trabalho. Sendo a pele preta, a mais impactada.

Mesmo com toda a mobilização das organizações, a pesquisa “A favela e a fome” ainda revela falta de comida no prato.

Realizada pelo Instituto Locomotiva, em parceria com o Data Favela e a CUFA, ela confirma a importância que as doações representaram durante o primeiro ano da crise sanitária. No levantamento, oito em cada dez entrevistados afirmaram que não teriam condições de se alimentar, comprar produtos de higiene e limpeza ou pagar contas mais básicas, caso não tivessem recebido a doação.

Para agravar o problema, passado um ano com uma força-tarefa 24 horas por dia, sete dias por semana, aconteceu o que era previsto: o fôlego caiu e a onda de sensibilização perdeu a força. Mas as necessidades continuam.

Como lidar com o sofrimento provocado pelo avanço da Covid-19, somado à marca dos mais de 13 milhões de desempregados? 

Paulo Rogério Nunes, cofundador e CEO da aceleradora Vale do Dendê, de Salvador (BA). Crédito: Divulgação
Geovana Borges, presidente estadual da CUFA. Crédito: Divulgação

“Nunca paramos, ainda estamos aqui lutando. As doações vão diminuindo, porque as pessoas precisam retomar suas vidas, entender o que está acontecendo e saber o que podem doar e o que não podem. Por isso, estamos lançando o Mães da Favela 2 [sequência do projeto de doação de cestas básicas físicas e digitais] para dizer, nas entrelinhas, que continuamos e que precisamos das pessoas, já que a pandemia não acabou”, conta Geovana Borges, presidente estadual da CUFA (SP).

Paulo Rogério Nunes, cofundador e CEO da aceleradora Vale do Dendê, de Salvador (BA), também observa que a forte onda de apoio às organizações sociais, que ocorreu no início da pandemia, caiu.

“Infelizmente, nesse momento, os apoios estão se enfraquecendo, e isso é muito grave. Há uma falta de compreensão do mercado e também do setor público de que as lideranças sociais fazem um trabalho importante e único, no sentido de mediar situações sociais e estar conectado com a ponta”, afirma.

Além da cesta básica
A informação é um alimento precário na favela. Nas palavras de Geovana, a Covid-19 é um vírus da classe média. 

“A classe média sabia que o novo coronavírus estava chegando; a favela, não. Na favela, era um boato, talvez uma fake news. A verdade é que, na grande maioria das casas, existe um déficit de eletrônicos. Até televisão. Durante a pandemia, conversei com uma menina que não tem geladeira em casa. Então, há esse déficit. E estudar é uma forma de evitar um pouco da desinformação que ainda existe com força”, conta a presidente estadual da CUFA (SP).

Renato Meirelles afirma que o legado da pandemia será trágico para jovens das populações mais vulneráveis, pois boa parte deles está fora da escola desde o início da crise. “Ensino remoto depende de conexão de qualidade, assim como de computador e smartphone com pacote de dados, tudo o que eles não têm. O saldo dessa lacuna educacional será mais desigualdade”.

As ONGs sabem disso. O projeto da CUFA foi feito considerando os alunos e as mães que já tiveram seus chips entregues no território, e que precisam que seus filhos estudem.

Em parceria com empresas de telefonia, a CUFA fez a entrega dos chips em diversas partes do Brasil, o que aumentou a acessibilidade dessas famílias. Crédito: CUFA

Para atravessar a barreira da exclusão digital evidenciada na pandemia, a Gerando Falcões foi atrás de internet patrocinada e doação de celulares. Nina Rentel, diretora operacional da Gerando Falcões, conta: “Começamos a olhar mais para essa questão da inclusão digital durante a pandemia. Criamos o aplicativo Gerando Educação e disponibilizamos oficinas, matérias e vídeos. O aluno navega nesse app sem gastar internet. Queremos que essa interação continue mesmo após a volta às aulas”.

Repensar as Políticas Públicas
Cedo ou tarde, a pandemia vai acabar e a pergunta é: como ajudar as pessoas que ocupam mais de 5,1 milhões de domicílios   em favelas no Brasil e vivem em situação de pobreza, além das comunidades em situação de vulnerabilidade, quando uma nova realidade surgir?

“Antes mesmo da pandemia, a favela já vivia em isolamento social. Poucas pessoas conhecem a realidade de uma favela. Por isso é tão importante fazer uma reversão, quando se fala de Políticas Públicas. Quer dizer, pegar o território, avaliar e entender a sua necessidade. Depois, buscar quem conseguirá levar para aquele território a importância que ele pede. Nós, como uma organização, precisamos de uma visão do morador da favela. Cada favela tem sua particularidade e precisamos olhar para isso. É o que acreditamos e queremos seguir”,

explica Geovana Borges, presidente estadual da CUFA.

Foi esse pensamento que inspirou a CUFA a criar o Mães da Favela On, que entregou chips para essas mulheres por um período de seis meses. “Com a conectividade, a própria mãe vai decidir  o que vai ser melhor naquele momento: abastecer o celular com 10 reais ou comprar um pacote de arroz, pão e leite”.

Vale lembrar que trata-se de uma pandemia que exige uso de álcool gel e máscara, mas existem favelas que não têm água. Sem conhecer essa realidade, os moradores recebem doação de máscaras e álcool, mas não têm como lavar as mãos. Este exemplo aconteceu em uma favela no bairro da Brasilândia, na Zona Oeste de São Paulo, segundo Geovana Borges.

Em outras palavras, saber o que está faltando em um território é o ponto inicial, da mesma forma que parar de ver as Políticas Públicas como um favor. Todos pagam impostos, cumprem com seus deveres e querem seus direitos.

 O futuro é em rede
Se a percepção quanto às necessidades e potencialidades das favelas mudará depois do tsunami de Covid-19, o tempo dirá. O que tem pra agora é a sensação de que os parceiros estão mais abertos. Nina, da Gerando Falcões, observa um movimento dentro das empresas de querer fazer parte de uma causa.

“Temos visto mais empresas querendo realmente entender a causa e trabalhar de forma mais integral na solução. Alguns parceiros que estão conosco em projetos maiores, querem atuar com diversidade dentro da empresa, com empregabilidade e outros. Esse tem sido um movimento muito legal, por possibilitar que possamos fazer uma solução em conjunto, que faça sentido dentro dos dois universos”, descreve.

Nina Rentel, diretora operacional da Gerando Falcões. Crédito: Divulgação

Essa busca para entender melhor como é a vida nas favelas, feita pela iniciativa privada, também é identificada pela CUFA.

“Por exemplo, em São Paulo, as pessoas conheciam as favelas de Paraisópolis, Heliópolis e Brasilândia. É como se não houvesse outra favela. Mas, principalmente no setor privado, as pessoas estão mais abertas a entender mais e isso gerará mais oportunidades para a favela. Na contrapartida, temos a sensibilidade de entender o que a empresa quer e tem para oferecer e como podemos encaixar isso dentro do território ”, avalia Geovana.

A liderança se faz na favela
Na rede de solidariedade contra a Covid-19, não houve ator mais importante do que o líder dentro de seu território. A operação da CUFA para garantir que as quase 20 milhões de toneladas de alimentos chegassem à ponta só deu certo por causa da presença das lideranças.

“Quando recebemos os donativos dos parceiros, fazemos a divisão entre as favelas. O líder separa tudo o que precisa e leva para o território dele, faz a entrega, a mobilização e a prestação de contas. A última etapa é o alinhamento feito conosco. Este líder presta contas nas redes sociais. Os parceiros seguem e vêem que é da CUFA X, da CUFA Y”, explica Geovana.

Há 20 anos a CUFA opera como mecanismo de suporte parar pessoas em zonas de vulnerabilidade. Crédito: CUFA

Muitas das pessoas que eram assistidas pela CUFA se tornaram grandes líderes. Na pandemia, pessoas que perderam o emprego, agora estão voltadas a entenderem o que está acontecendo no território. “Quando me perguntam se é difícil formar líderes, respondo que eles já estão lá. Todo líder se transforma conforme o tempo. Vai se descobrindo, aumentando as conexões e fazendo mais por sua favela”, comenta a presidente estadual da CUFA (SP).

Samela Sateré Mawé: “Há uma falsa sensação de que os indígenas vão se vacinar primeiro”

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Foi na Associação de Mulheres Indígenas Sateré Mawé (AMISM), na Zona Oeste de Manaus, que Samela Sateré Mawé cresceu participando de reuniões, atos e manifestações protagonizadas por líderes indígenas. O ativismo vem de berço: a avó Zenilda Sateré Mawé fundou a AMISM e, junto com a filha Sônia Sateré Mawé – mãe de Samela -, coordenou grandes movimentos, como a luta por reserva de vagas para indígenas na universidade, institucionalizada em 2004 no Amazonas com base na lei estadual nº 2894. Hoje, Samela contempla uma das vagas reservadas como estudante de Biologia na Universidade Estadual do Amazonas (UEA). 

Sua trajetória perpassa o ativismo digital e a participação em movimentos globais, como o Fridays For Future, fundado por Greta Thunberg. Como colabora na AMISM, Samela participa da produção e da comercialização de máscaras customizadas com grafismos indígenas que têm garantido a subsistência do grupo e a assistência às comunidades indígenas na pandemia. Nas redes sociais, faz questão de abordar os desafios vividos por indígenas brasileiros e repercutir informações sobre o impacto da Covid-19 na Amazônia. Atualmente, há cerca de 50 mil casos confirmados entre indígenas, segundo a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), e a demarcação de terras indígenas passa por um momento crítico dada a priorização de políticas e normativas que favorecem grandes produtores e agricultores não indígenas.

Leia a seguir a entrevista com Samela Sateré Mawé sobre sua trajetória como ativista, os desafios da pandemia para populações indígenas e os impactos da omissão de governos, empresas e sociedade civil nos cuidados com o meio ambiente e o apoio às comunidades tradicionais brasileiras.

AUPA – Qual é a importância de reservas de vagas para populações tradicionais nas universidades? E, como estudante, que saldos você visualiza ao unir o conhecimento acadêmico e o saber tradicional?
Samela Sateré Mawé – Eu ingressei na Universidade do Estado do Amazonas em 2015, a partir da política de cotas, fruto de um movimento no qual minha avó e minha mãe participaram  e que possibilitou que eu e meu irmão fôssemos os primeiros da família a ingressar na universidade. A reserva de vagas para acadêmicos indígenas é um processo histórico, uma dívida histórica, porque se formos comparar a educação em escolas públicas e em escolas indígenas e ribeirinhas, não estamos preparados para competir com alunos que vêm de escolas particulares. 

Além de priorizar o acesso de povos tradicionais à universidade, é preciso pensar em políticas de permanência desses jovens, já que muitos saem de suas aldeias e comunidades para estudar nas cidades e acabam sofrendo muitas violações. Por questões socioeconômicas e culturais, por dificuldades da língua, acabam desistindo.

Nós [jovens indígenas] estamos ingressando no Ensino Superior e fazendo cursos diversos, criando oportunidades para unir o conhecimento tradicional ao conhecimento científico. Nós, das comunidades tradicionais, tratamos diversos casos da Covid-19 com a nossa medicina. E a medicina tradicional tem muito a contribuir com o conhecimento científico, até porque a ciência e todos os tipos de medicina vêm do tradicional. Tudo é extraído da natureza.

AUPA – No Amazonas, a primeira pessoa vacinada no estado foi Vanda Witoto, uma mulher indígena. Que análise você faz do uso político da imagem do indígena neste momento de pandemia?
Samela Sateré Mawé – A Vanda foi vacinada por ser técnica de enfermagem e indígena, não só por ser indígena. O movimento fez parecer que o governo prioriza a vacinação de indígenas quando isso não é verdade. A vacinação está sendo feita apenas em territórios indígenas e nas aldeias. Nós, que vivemos em Manaus e nas zonas urbanas, não recebemos vacinas e não estamos no Plano Nacional de Vacinação. Esse discurso político de vacinar indígenas repercutiu não só no Amazonas, mas em vários estados do Brasil. Há uma falsa sensação de que os indígenas vão se vacinar primeiro.

Clique na imagem para acessar o site oficial e a nota do CIMI.

Há um impacto positivo por conta da visibilidade que os povos indígenas estão ganhando, mas sob um pretexto errado. Essas questões até aumentaram discursos e questionamentos sobre estereótipos. Agora estamos tentando desmistificar um pouco da imagem errada que as pessoas têm sobre os indígenas e sobre a vacinação.

AUPA – Por que ainda é tão difícil desconstruir estereótipos sobre povos indígenas, mesmo em um país tão diverso como o Brasil?
Samela Sateré Mawé – Isso é muito difícil, porque perpassa gerações. O processo colonizador foi tão forte e tão marcante que as pessoas ainda não querem nem procurar saber sobre sua cultura, porque ainda tem isso [os estereótipos] enraizado em suas vivências. Desde criança foram ensinados que o “índio”, como eles falam, é um ser preguiçoso, sem alma. Dizem: “Nunca vi índio usando isso ou aquilo…”. A verdade é que nunca nos viram tal qual somos, como queremos ser vistos.

Estudantes da Educação Infantil, dos Ensinos Fundamental, Médio e Superior permanecem sem saber sobre a História dos povos indígenas, sobre a História do nosso país. O processo colonizador ainda é romantizado, narrado como a “descoberta do Brasil”. A verdade é que terras indígenas foram invadidas, populações foram dizimadas, mulheres foram estupradas e houve um processo de miscigenação bruto. Precisamos reformular o Plano Nacional de Educação principalmente nas áreas onde se discute a História do Brasil.

AUPA – Muito se fala em Economia Verde e investimentos voltados à Amazônia e, ao mesmo tempo, percebe-se a propaganda destas ações, não necessariamente efetivas. Como você vê esta relação considerando a responsabilidade social necessária que o Poder Público, a sociedade civil organizada e os investidores devem ter?
Samela Sateré Mawé – Todos (Governo, sociedade civil e investidores) precisam ter responsabilidade com o nosso bem material e imaterial, que é a floresta amazônica. Em todo o planeta, muitas florestas já foram dizimadas. O Brasil possui uma das maiores áreas de floresta do mundo, com grande contribuição para a regulação do clima global. O impacto em mudanças climáticas é um dos fatores que reforça a necessidade do compromisso de todos.

A Floresta Amazônica é vista como tesouro da humanidade devido à riqueza do ecossistema. Crédito: CAF.

AUPA – Enquanto a agenda de governo brasileira desfavorece populações indígenas, movimentos como o Fridays for Future ganham espaço em fóruns globais. Como você observa essas contradições no contexto da luta por direitos indígenas?
Samela Sateré Mawé – As organizações governamentais não se preocupam com a cultura e com a diversidade, não respeitam o Artigo 231 sobre povos indígenas, que garante o nosso direito à demarcação da terra, à nossa organização social, assim como nossa língua, cultura e tradições. Ainda somos vistos como um “empecilho ao avanço”, graças à visão ainda eurocêntrica sobre o que é cultura e desenvolvimento, não levando em consideração o que é prioridade para nós: a floresta, a cultura, a língua e nossas particularidades. Vale destacar que os movimentos de jovens ativistas, como o Fridays For Future, conseguem ter mais voz e  força. Por isso que a Greta [Thunberg] diz: “Ninguém é pequeno demais para fazer a diferença”. E, se o governo não faz, a sociedade civil vai lá e tenta fazer.

Fridays for Future é um movimento global grevista iniciado em 2018 por Greta Thunberg. O debate central é a cobrança de ações contra as mudanças climáticas.. Crédito: Alliance/DPA.

Aupa: Estamos no meio de uma crise humanitária global, agravada também pela pandemia – embora existam diversas outras doenças crônicas em livre disseminação, pautadas há décadas pelo movimento indígena, como desmatamento, crise climática e esgotamento de recursos naturais. Qual é o papel do Governo, das empresas e da sociedade civil nesse contexto?
Samela Sateré Mawé – O governo tem total responsabilidade de tentar conter essas doenças e manter a biodiversidade do país e a cultura dos povos indígenas, só que não o fazem, principalmente o atual Governo, que tem essa política genocida. Nós, povos indígenas, estamos sendo invisibilizados há muitos anos e, neste ano, estamos exigindo e lutando pelos nossos direitos, porque tudo o que é nosso está sendo tomado de nossas mãos.

As empresas devem investir em mais ações que não agridam o meio ambiente, preocuparem-se com a floresta, os rios e com a redução de emissão de dióxido de carbono (CO²), além de levarem em consideração a fauna, a flora e outras riquezas que são deixadas de lado no momento da compra e exploração de grandes lotes de terra.

A sociedade civil tem o papel de cobrar a transparência e efetividade de leis de combate a crimes ambientais. E todos devem pensar em contrapartidas para povos indígenas, ações que busquem amenizar todos os impactos causados às populações tradicionais que dependem diretamente da floresta e do meio ambiente.

Clique na imagem para acessar o especial Aupa Mulheres 2021 no Instagram.

Ao longo deste mês, a Aupa promove – no site e nas redes sociais – o especial #AupaMulheres. Serão conteúdos com diversas vozes de protagonistas do ecossistema propondo reflexões sobre a atuação e os obstáculos no setor.

No IGTV, o #SigaEssasMulheres traz cinco líderes, nos mais variados pontos de vista do campo, em um debate sobre um mundo mais igualitário.

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ODS: quem todos quer todos perde

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Em 2020, o Pacto Global da ONU, maior iniciativa de sustentabilidade corporativa do mundo, teve recorde de inscrições de empresas brasileiras, com alta de 25%. Foram mais de 250 novas signatárias – a ponteAponte entre elas – do Pacto, que conta agora com mais de 1.100 empresas brasileiras.

Lançado em 2000 pelo então secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, o Pacto Global é uma chamada para as empresas alinharem, voluntariamente, suas estratégias e operações a 10 princípios universais nas áreas de Direitos Humanos, Trabalho, Meio Ambiente e Anticorrupção e contribuírem para o alcance dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, os ODS. 

Na teoria, tudo lindo, afinal quanto mais empresas assumirem publicamente esses compromissos melhor. Já na prática… O que cada empresa ou organização está de fato fazendo para alcançarmos os ODS? Em que medida essas ações estão sendo efetivas? Aparentemente, muito pouco. Em reportagem recente publicada aqui no portal Aupa, o diretor-executivo da Rede Brasil do Pacto Global, Carlo Pereira, afirmou que “Se tudo continuar como está, apenas o ODS 7 será alcançado no Brasil. E não queremos e não podemos deixar que as coisas sigam nesta direção”.

E por que está sendo tão difícil avançarmos na Agenda 2030?

Uma dificuldade inicial para termos ações mais efetivas pode ser o conhecimento superficial que algumas empresas parecem ter dos ODS, mesmo que estes tenham sido lançados em 2015. Muitas publicizam em seus sites ou relatórios para quais ODS estão contribuindo (ou acreditam estar), mas nem sempre vemos a indicação de para que metas especificamente (entre as 169 metas dos ODS). Só que: se não atingirmos as metas, não atingiremos o objetivo global.

Outro problema pode ser uma tentativa de “querer abraçar o mundo”, escolhendo tantos ODS para atuar que, ao final, a contribuição efetiva não se dará para nenhum deles. Empresas mais sérias, com áreas de sustentabilidade estabelecidas, em geral partem de uma análise de materialidade, isto é, de quais os temas prioritários para a empresa e seus stakeholders para definirem sua estratégia de atuação em prol dos ODS. E aqui fazemos um mea-culpa, como acabamos de entrar no Pacto, a ponteAponte ainda não definiu sua estratégia de atuação com os ODS e suas metas, mas já estamos nos debruçando sobre isso.

Em outros casos, pode ser “preguiça” mesmo. Em artigo recente no Linkedin, a consultora de sustentabilidade Priscilla Navarrette comentou que “Não há sustentabilidade sem esforço e, aqui no meu microcosmo de atuação, percebo que há alguns querendo apenas flertar, em vez de namorar, noivar e casar com o tal ESG.”

Existe ainda, infelizmente, o social washing, em que empresas publicizam estarem colaborando para o alcance dos ODS, porém apresentam casos de corrupção, discriminação, racismo, entre inúmeros outros problemas que vão na contramão de um mundo mais justo e sustentável. No podcast #12Como as empresas podem doar, lançado esta semana, do Instituto Mol, meu sócio Cássio Aoqui fala um pouco mais sobre social washing durante a pandemia de Covid-19.

E o que você e sua organização estão fazendo para contribuir, de fato, para atingirmos os ODS em 2030? Vale lembrar que não se muda o mundo copiando uns selinhos coloridos e colando no site e nos relatórios.

Este texto é de responsabilidade da autora e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa.

Mulheres de impacto: como o ecossistema tem atuado, sob a perspectiva de gênero

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As mulheres representam mais de 50% da população brasileira, de acordo com dados do IBGE. Infelizmente, a expressividade numérica não acompanha a garantia de direitos igualitários.   

Apesar de serem a maioria da população com idade para trabalhar, as mulheres representam 43% das pessoas ocupadas no país, enquanto os homens são 57% dos empregados, segundo informações do 3º trimestre de 2020 da Pnad. Esse dado reforça, ainda, como elas foram as mais afetadas pelos reflexos da pandemia. 

E a balança desigual não para por aí: mulheres ganham, em média, 30% menos do que homens no mesmo cargo. Se expandirmos a lente para outras áreas, o sexo feminino é o mais afetado pela violência de gênero: a cada 6h23 uma mulher é morta dentro de casa.  

As estatísticas desfavoráveis fazem com que o ecossistema de impacto se movimente. Seja no empreendedorismo, seja no ambiente corporativo por meio do investimento social privado, mulheres estão buscando impactar as vidas de outras mulheres, transformando as desigualdades e combatendo as violências.

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Empreendedorismo feminino
Quando Ana Fontes, fundadora da Rede Mulher Empreendedora (RME), iniciou o trabalho na rede, em 2010, pouco se falava sobre empreendedorismo feminino ou diversidade. 

Após a experiência que Ana teve no programa 10 mil mulheres – parceria da FGV com a empresa Goldman Sachs para capacitar mulheres em gestão de negócios – a Rede Mulher Empreendedora nasceu para apoiar empreendedoras do Brasil em diferentes frentes.

“No começo, nós – mulheres empreendedoras – éramos cerca de 30%, hoje somos quase metade dos pequenos empreendedores. Mas isso não necessariamente é algo bom, pois as mulheres são empurradas do mundo corporativo. É um ambiente hostil, muitas mulheres caminham para o empreendedorismo para conseguir flexibilidade, especialmente as mães”,

reflete Ana Fontes, fundadora da RME. 

Insatisfeita com o cenário desigual vivido pelas mulheres, em 2017, Ana fundou o Instituto Rede Mulher Empreendedora, considerado o braço social da RME, que busca ajudar mulheres em situação de vulnerabilidade com treinamentos e mentorias. 

Após 11 anos de atuação, a fundadora da RME vê mudanças no mercado do empreendedorismo feminino. “Vimos uma transformação de consciência. Todo mundo entendeu a questão da importância das mulheres na geração de renda e de oportunidades igualitárias. Temos desafios em relação à ação. Muitas organizações estão apegadas a ideias antigas, de querer aparecer como marca”, afirma Ana.

Ana Fontes, fundadora da Rede Mulher Empreendedora. Crédito: Divulgação

É por isso que uma das ações da organização é fazer consultorias para empresas interessadas em apoiar o empreendedorismo feminino. O escopo de atividades da RME é grande: eventos para ampliar o networking das empreendedoras, mentorias, programa de aceleração, cursos intensivos para quem deseja empreender, o RME Conecta – focado em fazer a ponte entre negócios de mulheres com grandes empresas para fornecimento B2B. Além disso, há um marketplace com diversas organizações lideradas por mulheres cadastradas.

Com a pandemia, a RME, assim como todos os negócios, foi impactada e teve que mudar o modo de atuação em pouco tempo: eventos presenciais migraram para o ambiente on-line. E, para entender como os negócios femininos foram afetados por essa nova realidade, a instituição desenvolveu pesquisas

Apesar de homens e mulheres terem feito ações parecidas para manter seus negócios frente ao cenário pandêmico, Ana destaca alguns pontos de diferença entre os gêneros. 

“As empreendedoras buscaram mais capacitação e pequenas inovações. Ouvimos histórias de cabeleireiras que fizeram kit de coloração e mandaram para as casas das clientes, ensinando como fazer e cobrando um preço. Parecem inovações ‘bobas’, mas significaram a sobrevivência dos negócios. Mas é importante não romantizarmos a situação ruim”,

comenta a fundadora da RME.

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Além disso, a empreendedora destaca como a pandemia tem afetado a saúde mental das mulheres. “Elas foram as mais demitidas, especialmente as mães. Tiveram uma piora na divisão do trabalho doméstico, para quem tem filho dentro de casa, com educação on-line, essas mulheres entraram em pânico”, comenta.

Por isso, no início deste período, a rede focou no apoio psicológico. “Fizemos parcerias com psicólogos e falamos sobre elas não precisarem resolver as coisas sozinhas, tirar essa ideia da mulher maravilha, multitarefa, e colocar na cabeça que não precisa dar conta de tudo. É importante pedir ajuda”, disse Ana. 

Um ano se passou desde o início da Covid-19 se espalhando pelo país. Ainda não há previsão de quando retomaremos a vida “normal”, já que o Brasil amarga mais de 260 mil mortes pelo novo coronavírus e as vacinas seguem em ritmo lento frente às disputas políticas e desinformação. 

Alguns caminhos não têm mais volta. Para Ana, não há como retroceder que todas as instituições têm responsabilidade na transformação da sociedade, especialmente no protagonismo das mulheres.

“Tinha muito ‘isso é o Governo que tem que fazer’. Hoje, essas linhas não estão tão delimitadas. O ESG está aí para mostrar, as pessoas entenderam as responsabilidades. Não tem como voltar atrás disso”, afirma. 

Hoje, a RME tem 27 colaboradores e já impactou mais de 750 mil pessoas. Apesar do cenário incerto, a empreendedora é enfática: “Não sabemos o que vai acontecer, mas temos que continuar ajudando as mulheres”, conclui.

Combate à violência contra a mulher
Encarar a violência contra a mulher como um problema sistemático é o que direciona o trabalho do Instituto Avon, que em 2003 começou a atuação com foco no combate ao câncer de mama e, cinco anos depois, abrangeu o enfrentamento da violência contra a mulher.

Daniela Grelin, diretora executiva do Instituto Avon. Crédito: Divulgação

“Precisamos pensar no modelo de iceberg: cada caso que ganha o debate público, tem milhares que estão abaixo do iceberg. Para atuar, precisamos compreender esse problema, temos que ir além dos casos midiáticos e entender como o fenômeno se comporta ao longo do tempo”, afirma Daniela Grelin, diretora executiva do Instituto Avon.

 Os dados são mais do que suficientes para mostrar a urgência do combate à violência de gênero. Uma pesquisa, feita pelo Instituto Patrícia Galvão e pelo Instituto Locomotiva, apontou que 90% dos entrevistados acreditam que a violência contra a mulher tem aumentado muito no país nos últimos cinco anos.

O contexto de pandemia agravou ainda mais a problemática que sempre existiu. O mesmo estudo afirma que quase 3 em cada 10 dos entrevistados conhece uma mulher que foi vítima de violência doméstica durante este período.

Isso fez com que o Instituto mobilizasse ações, inicialmente, de dentro para fora, focando nas revendedoras Avon – que compõem um universo de mais de um milhão de mulheres. De imediato, uma central de apoio com serviços de saúde e atendimento especializado, que poderia ser acionado por telefone ou WhatsApp, foram implementados para essas mulheres.

“No isolamento aquela mulher, muitas vezes, está confinada com o próprio  agressor e ela não tem privacidade, então disponibilizamos uma forma de atendimento mais discreta pelo WhatsApp, que inclusive, depois, foi implementado pelo 180”, conta a diretora do Instituto. O Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos divulgou que, em 2020, mais de 105 mil denúncias de violência contra a mulher foram registradas nos canais Ligue 180 e Disque 100.

A plataforma “Você Não Está Sozinha”, voltada às revendedoras, se desdobrou externamente para o #IsoladasSimSozinhasNão, que reuniu instituições privadas, sociedade civil e setor público no combate à violência de gênero neste cenário. Nesta modalidade, uma assistente virtual, apelidada de Angela, identifica a situação de vulnerabilidade da mulher e oferece caminhos para aquela necessidade. A robô pode ser acionada pelo WhatsApp (11) 94494-2415.

Empresas se uniram ao Instituto para apoiar com serviços, de acordo com a expertise de atuação da companhia. A Uber, por exemplo, facilitou o acesso aos serviços mais próximos dessa mulher que, em casos de violência, tinha à disposição duas corridas a qualquer hora do dia ou da noite.   

Além do apoio psicológico e jurídico, uma campanha de mobilização para as pessoas exercerem uma vizinha solidária foi feita, com o objetivo de mostrar como estar atento e buscar ajuda para mulheres em situação de violência.

“O problema da violência contra a mulher é de todos nós. Se você não faz nada, você está se omitindo. Não existe neutralidade”,

afirma Daniela Grelin, diretora executiva do Instituto Avon.

Com uma carreira no mundo corporativo e passagem por empresas como Embraer e Dow, Daniela Grelin chegou ao Instituto Avon em 2016. Ela reconhece que o trabalho de combate à violência contra a mulher é contínuo. “Para trabalhar no Instituto você precisa ter um chamado, o Instituto materializa o propósito da marca Avon. É importante essa clareza de propósito. É a indignação transformada em ação”, afirma.

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Soraya Smaili: “Temos que priorizar a vacina universal, o Sistema Único de Saúde é para todos”

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A pandemia do novo Coronavírus deixou evidente algo já sabido: a ciência e a vacina salvam vidas. E, nesta corrida do combate ao vírus, universidades, instituições, Governo e indústria farmacêutica exercem papel fundamental. 

A Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), por exemplo, liderou a fase 3 dos testes da vacina Oxford/AstraZeneca, que é produzida pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e já está sendo aplicada no país em caráter emergencial.

Soraya Smaili, a reitora da universidade, foi voluntária nos testes. Ela é doutora em Farmacologia e compartilha, em entrevista, a experiência dela e da instituição com os testes, além da importância da colaboração de organizações da sociedade civil e do setor produtivo para conter o avanço da pandemia.

“É muito importante essa parceria com as instituições do Terceiro Setor, pois podemos desenvolver um projeto de pesquisa, produzir conhecimento e estas instituições têm mais capilaridade na sociedade. Então, elas podem acabar levando o conhecimento que é produzido na universidade de uma maneira mais rápida”,

explica Soraya Smaili, reitora da Unifesp.

AUPA – A Unifesp liderou os testes da fase 3 da vacina de Oxford no Brasil. Poderia comentar brevemente quantas pessoas participaram e como funcionou essa fase de teste, por favor?
Soraya Smaili – No Brasil, foram 10 mil participantes. O estudo foi coordenado pela Unifesp, mas cada região teve centros próprios. Eu participei como voluntária, achei que era algo bem importante a se fazer, pois eu tinha que dar o exemplo também. Adotei uma frase que o pessoal usou bastante depois: “Eu tenho medo da Covid, não tenho medo da vacina”. Então, eu já sabia dos estudos anteriores feitos em seres humanos, que ela tinha passado no teste da segurança. Me candidatei e entrei no estudo. Apesar do licenciamento, o estudo continua, porque os participantes vão continuar sendo acompanhados. Essa pós-fase 3, que é uma espécie de fase 4, é para monitorar as pessoas depois da vacinação, durante todo o período. 

Para as pessoas que participam do estudo, há uma dedicação de duas a três horas no Centro de Referência Imunobiológicos Especiais, o CRIE, na Unifesp. Teve a primeira visita e, depois de 28 dias, a segunda – após dois meses, houve a terceira, depois de mais três meses teve a quarta e, agora, a próxima será daqui seis meses.

Certamente, para a nossa universidade foi muito importante, nos sentimos privilegiados. O nosso Centro de Referência Imunobiológicos Especiais, liderado pela doutora Lily, tem sólida experiência na área e trabalhou muito, com uma equipe que nem é tão grande, e nem teve tantos recursos para isso. Nós fizemos um trabalho considerado excelente.

AUPA – Poderia dizer brevemente algumas das diferenças entre a vacina de Oxford e a da CoronaVac?
Soraya Smaili – Primeiramente, são metodologias diferentes. A da CoronaVac utiliza o próprio vírus inativado, que é uma tecnologia já conhecida. Já a de Oxford/AstraZeneca  é uma tecnologia de construção de biologia molecular, que é um vetor viral não replicante, utilizando “vírus vivo”, como um adenovírus. Esse vetor levará o pedaço do vírus para dentro do organismo e estimulará a produção de anticorpos – e essa fatia do vírus engana o sistema imunológico.  Então, parte do vírus que não produz a doença e, no outro caso, é o próprio vírus, só que sem a capacidade de produzir, de infectar, que é o vírus inativado, então são metodologias diferentes. Colocando todos os custos no papel, a vacina da parceria Oxford/AstraZeneca tem o valor de cerca de US$3 e a da Coronavac, US$10. No caso da vacina de Oxford é um valor calculado pelo número de doses de acordo com o montante que será fabricado pela Fiocruz. Então, pela tecnologia que está sendo transferida e que possibilitará a produção no futuro de um número bastante grande – acredito que mais de 100 milhões de doses -,  o custo realmente compensou para o Brasil.

AUPA – A Fiocruz divulgou um comunicado sobre a eficácia da vacina nos idosos, em contrapartida, a Anvisa solicitou mais testes para comprovar eficácia da vacina nessa faixa-etária. Isso é um dado preocupante, uma vez que os idosos são os que mais têm sofrido com o vírus?
Soraya Smaili – Em São Paulo, a doutora Lily incluiu um grupo de pessoas acima de 70 anos – meu marido foi voluntário, inclusive. É um grupo menor – ainda não temos resultado de um grupo maior. Tudo indica que ela protege. O que sabemos até aqui é que tem uma eficácia semelhante (porém, não a mesma), pois, em pessoas acima de 70 anos o sistema imunológico muda. Então, ela pode responder um pouco menos, mas o que sabemos até o presente momento é que tem uma boa resposta.

AUPA – Temos uma dependência de importação de insumo, conhecido como IFA. Como o Brasil poderia superar isso? Temos capacidade para produzir 100% localmente? Você acha que o investimento social privado poderia também exercer um papel de incentivar essas iniciativas?
Soraya Smaili No momento, não temos capacidade de produzir localmente. O que precisamos pensar é por que isso acontece? O Brasil teve um desinvestimento em ciência. Isso é uma cadeia, conforme você tem um investimento na ciência, você possibilita novas tecnologias, que podem ser transferidas para um setor produtivo, que, por sua vez, produzirá algo que beneficiará a população, isso em todos os setores, não só nessa área da vacina. E, na indústria farmacêutica, o Brasil já teve, sim, dez vezes mais capacidade de produzir os seus insumos do que tem hoje. Atualmente, o Brasil depende cerca de 40% dos insumos farmacêuticos da China, não só da vacina. Então, precisamos trabalhar muito, é necessário ter muito investimento, voltar a ter tecnologias novas. Isso gerará mais empregos, mais desenvolvimento e teremos um país mais autônomo, mais soberano.

A nossa luta agora, enquanto comunidade científica, é pela liberação do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), que é um fundo que já existe desde 1969. Tudo o que pedimos é que ele seja aplicado na própria ciência e na tecnologia, não precisa de nada de novo. Hoje, 90% do fundo fica contingenciado, fica preso no Tesouro Nacional.

AUPA – A Unifesp tem uma parceria com a Fundação Tide Setubal. Inclusive, divulgaram uma seleção de proposta para desenvolver pesquisa sobre a Covid-19. Como essas parcerias com fundações/institutos e o Setor de Investimento Social privado podem ajudar a impactar mais pessoas nesse contexto de pandemia?
Soraya Smaili – É preciso realmente uma união em torno desse enfrentamento que precisamos fazer frente à pandemia. É muito importante essa parceria com as instituições do Terceiro Setor, pois podemos desenvolver um projeto de pesquisa, produzir  conhecimento e estas instituições do Terceiro Setor têm mais capilaridade na sociedade. Então, elas podem acabar levando o conhecimento que é produzido na universidade de uma maneira mais rápida. Por exemplo, recentemente, a nossa universidade foi solicitada por algumas instituições da sociedade civil, organizações e coletivos para produzir uma cartilha sobre a vacina. Aceitamos o desafio e estamos fazendo isso juntos, com uma cientista que tem prática em fazer divulgação científica. Estamos produzindo um material que será utilizado por diversas ONGs, que vão levar isso para as pessoas que fazem parte daquela entidade ou instituição ou que dependem dela. Com a Fundação Tide Setubal, foi uma parceria, com cerca de 100 bolsistas, para desenvolver o mapeamento do impacto social da Covid-19. Estudamos 16 regiões de São Paulo e da Grande São Paulo para saber quais são os grupos sociais mais atingidos pelo novo Coronavírus; o estudo está em fase de revisão. Fechamos também uma parceria com o Fleury, para estudar a dinâmica da carga viral nos pacientes de Covid-19. Então, o paciente que é mais leve, quanto de vírus que ele carrega? O paciente que é mais grave, quanto de vírus tem nele? Uma parceria público e privada ajuda a produzir um resultado que pode auxiliar a resolver o problema relacionado à Covid-19.

AUPA – O Brasil é um dos piores países nos índices da pandemia. Algumas matérias divulgaram que, no ritmo atual, o Brasil levaria quatro anos para vacinar toda a população. Como você vê isso? Quais fatores influenciam esse prazo tão longo?
Soraya Smaili – A notícia tem a ver principalmente com o ritmo que está agora. Mas eu acredito que isso não vai ser assim, acredito mesmo que nós vamos conseguir mais imunizantes e, este ano, tudo indica que vamos conseguir vencer, pelo menos, esta parte dessa batalha. Tem outras possibilidades, a ciência não está parada, tem muitas outras vacinas em estudo e acho que as coisas vão caminhar. Lógico que há entraves e barreiras, mas temos que trabalhar para superá-las, tanto da parte da ciência, quanto da tecnologia, dos insumos e da política também, que é bastante determinante.

AUPA – Além da pandemia, a ciência tem que lidar com diversas fake news que são disseminadas. Na sua visão, o que precisa ser mudado para combater essa onda de desinformação neste momento tão delicado? Qual o papel das instituições de ensino?
Soraya Smaili – É um papel importante, porque tem muita desinformação e as informações de confiança hoje são dadas por algumas instituições. Então, as nossas instituições de ensino, principalmente as universidades públicas – que fazem muita pesquisa – e os institutos de pesquisa, não nasceram hoje. Há uma história, uma construção, investimentos grandes por parte dos diferentes governos. Portanto, são instituições que são do Estado brasileiro, não deste ou daquele governo. Essas instituições têm a credibilidade adquirida ao longo de muitos anos de estudo, de pesquisa, de profissionais que foram formados com muita dedicação. Temos cientistas reconhecidos no mundo.

Temos que fortalecer quem tem conhecimento para dizer, trabalhar a comunicação de uma forma fácil para as pessoas também entenderem. A ciência, às vezes, é um pouco difícil de entender para quem não é da área, então temos que combater isso com informação de boa qualidade.

AUPA – Há uma corrida mundial pela aquisição e pela produção das vacinas. A saúde pública e gratuita para viabilizar a imunização tem papel fundamental nisso. Você acha preocupante se o setor privado começar a vender vacinas nesse cenário?
Soraya Smaili – Realmente, não há condições de fazer um atendimento privado, antes de ter o atendimento pelo SUS. Temos que priorizar a vacina universal, o Sistema Único de Saúde é para todos. O rico, o pobre, todos vão vacinar pelo SUS – e, se focarmos nisso, todos receberão a vacina mais rapidamente. Então, o mais importante agora é ter um plano para os mais vulneráveis, depois, para ter uma fila. E essa fila não é quem chega primeiro, é a sequência por ordem de prioridade e de maneira disseminada e transparente. Então, tem que ter transparência também: quem é que recebe e porque recebe.

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Ao longo desse mês, a Aupa promove – no site e nas redes sociais – o especial #AupaMulheres. Serão conteúdos com diversas vozes de protagonistas do ecossistema propondo reflexões sobre a atuação e os obstáculos no setor.

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O papel da academia nos negócios de impacto

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Em tempos de terraplanismo e negação da ciência é importante reforçarmos o papel da academia na sociedade e, no caso específico deste artigo, para o ecossistema de negócios de impacto. Podemos refletir a relevância da academia em pelo menos três frentes.

A primeira e mais óbvia está na formação de jovens que pensem uma sociedade mais inclusiva. Essa reflexão pode ser feita em qualquer área de conhecimento e por meio do ensino de ferramentas que auxiliem os jovens a pensar sobre como podem desenvolver ideias, produtos e modelos que possam criar mais possibilidades de inclusão. Mas, principalmente, a academia deve promover o senso crítico das alunas e dos alunos para que elas e eles possam não apenas compreender com profundidade os problemas sociais e ambientais da humanidade, mas que, acima de tudo, tenham um senso de urgência e da necessidade de mudanças. Os jovens devem perceber como podem ser agentes de mudança. Para isso é importante não apenas chegar à cabeça dos jovens, mas também, ao coração de alunas e alunos. Modelos de ensino inovadores com empatia e imersão em campo podem ser um caminho para a sensibilização desses jovens.

A segunda vertente é a pesquisa. O avanço do conhecimento ocorre por meio de pesquisas que são importantes ferramentas para aprimoramento da gestão das empresas. Ainda temos muito para caminhar nesse sentido, principalmente no que concerne à realização de pesquisas que sejam efetivamente úteis e pautadas por perguntas relevantes. A academia pode ser um importante aliado do ecossistema para apontar fragilidades e possibilidades para que as empreendedoras e os empreendedores possam fazer mais e melhor.

A terceira dimensão é uma atuação direta, que pode trazer contribuições relevantes para o campo. Ela pode ocorrer por meio de mentorias, rodas de discussão, processos de aceleração ou várias outras maneiras que aproximem a academia ao campo, evitando a criação de uma dicotomia prática-teoria que não é benéfica para o ecossistema. Além de promover um impacto direto e apoiar o crescimento do ecossistema, esse tipo de iniciativa alimenta tanto o ensino como a pesquisa, pois as/os docentes têm uma visão mais vívida das problemáticas e desafios do campo.

Acredito que as três frentes podem se retroalimentar em um ciclo positivo, com uma academia mais ativa e atuante, que proporcione aulas mais engajadoras e pesquisa mais relevante. Infelizmente, o sistema de recompensas e de avaliação dos docentes não estimula essa prática integrada, focando muito no ensino-pesquisa e pouco na ação prática. Por isso, nós, professores, precisamos ter também uma veia empreendedora, além de buscar mecanismos e iniciativas que possam alavancar a conexão entre teoria e prática.

Na FGV EAESP, tentamos criar esse espaço por meio de parcerias. Por exemplo, temos parceria com a Artemisia e A Banca para a criação e o desenvolvimento da ANIP (Articuladora de Negócios de Impacto de Periferia), de modo a apoiar diretamente empreendedores sociais de periferia. Também temos parceria com Feira Preta, Afrobusiness e Diáspora.Black para desenvolver o programa Raça e Mercado, que objetiva fomentar o empreendedorismo negro. Mais do que iniciativas de atuação prática, elas geram diversos insumos para ensino e pesquisa que permitem, em seu conjunto, um avanço do campo.

Importante ressaltar também que as(os) pesquisadoras(es) e docentes precisam nessa caminhada não apenas do apoio de suas instituições, como também do próprio campo. Nesse ponto, destaca-se o trabalho do ICE, que promove a integração de diversos acadêmicos em todo o Brasil, fazendo com que a temática de negócios de impacto se prolifere e que melhores práticas possam ser compartilhadas. Iniciativas como essa que estimulem a ciência e a academia são essenciais para tirar o Brasil de um ostracismo de conhecimento e fomentar ainda mais o ecossistema de negócios de impacto.

Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa.

O novo Fundeb proverá uma nova Educação?

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Crédito: Equipe de Arte Aupa

As discussões sobre o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb) mobilizaram movimentos e fizeram parte do noticiário em diversos momentos de 2020, além de gerarem impactos na discussão sobre Educação no País.

Isso porque questões como a ampliação dos recursos da União para o Fundeb ou a destinação de parte do Fundo para escolas confessionais e Organizações Não Governamentais (ONGs) foram propostas e votadas ao longo do ano.

No novo Fundeb, que começa a partir de 2021, a União deve ampliar o financiamento. O aumento, contudo, será parcial, sendo de 10% para 12% em 2021; passando para 15% em 2022; 17% em 2023; 19% em 2024; 21% em 2025; e 23% em 2026. Outra conquista foi a promulgação da Emenda Constitucional n° 108, de 27 de agosto de 2020, regulamentada pela Lei nº 14.113, de 25 de dezembro de 2020.

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Renata Mesquita D’Aguiar, auditora de Finanças e Controle da Secretaria do Tesouro Nacional. Crédito: Arquivo pessoal.

Renata Mesquita D’Aguiar, auditora de Finanças e Controle da Secretaria do Tesouro Nacional e diretora de Gestão de Fundos e Benefícios, explica que “Independentemente da fonte de origem, todo o recurso gerado é redistribuído para aplicação exclusiva na manutenção e no desenvolvimento da Educação Básica pública, bem como na valorização dos profissionais da Educação, incluída sua condigna remuneração”.

Para ela, trata-se de uma oportunidade de melhorar a Educação Básica pública, com mais recursos, mais instrumentos de fiscalização e mais exigência quanto à eficácia das iniciativas e dos projetos dos gestores locais.

O objetivo é promover infraestrutura e valorizar os educadores para que haja equidade nos investimentos a nível nacional.

“Mais de 63% dos municípios dependem exclusivamente dos recursos do Fundeb para arcar com os investimentos necessários à Educação Básica pública de seus habitantes”, observa.

O fundo é distribuído de acordo com o número de estudantes que estão matriculados em sua rede de Educação Básica. Na soma de estudantes matriculados de cada rede de ensino, cada matrícula conta com peso diferente. Na tabela a seguir, veja os fatores de ponderação para 2019 – quanto mais próximo a 0, menores são os recursos por aluno para a etapa/ modalidade:

Avançamos, mas…
Gregório Grisa, doutor e mestre em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e docente no Instituto Federal do Rio Grande do Sul, destaca que oito em cada dez municípios gastam todos seus recursos do Fundeb com o pagamento dos professores. Ainda: as escolas de regiões mais pobres passaram a ver seus recursos se ampliarem a partir do Fundeb, que entrou em vigor em janeiro de 2007. 

Gregório Grisa, doutor e mestre em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e docente no Instituto Federal do Rio Grande do Sul. Crédito: Arquivo pessoal.

“A partir de 2007 a aplicação por aluno avançou no Brasil. Como nosso gargalo de infraestrutura é enorme, não se está falando de abundância de recursos, mas o Fundeb permitiu o pagamento do piso salarial do magistério, que teve ganho real nos últimos períodos”, salienta Grisa. Outros avanços permitiram a maior permanência dos estudantes na escola e a ampliação do Ensino Fundamental para nove anos.

Mas, só o aumento dos recursos não é suficiente. A organização “Todos pela Educação” criou um relatório com proposta para aprimoramento dnos mecanismos de financiamento da Educação Básica, intitulado #EducaçãoJá!

Crédito: Equipe de Arte Aupa
Felipe Poyares, coordenador de Relações Governamentais da Todos pela Educação. Crédito: Linkedin

Felipe Poyares, coordenador de Relações Governamentais da Todos pela Educação, explicou como os recursos chegam até as escolas e a partir de quando o Novo Fundeb entrará em vigor. “Os recursos do Fundeb são direcionados para as Secretarias de Educação, seja dos Estados, seja dos municípios e as secretarias atuam diversos programas, seja para valorização dos professores, seja para melhorias na alfabetização ou um programa específico de merenda, por exemplo. Então, por meio destes programas ou de transferência direta para a escola, para uma ação específica que os recursos chegam até as escolas”.

Em relação às novas regras do Fundeb, Poyares salientou que elas entram em vigor em abril de 2021 e, então, haverá o pagamento de todo o valor retroativo dos meses de janeiro a março.

Perde-ganha
A proposta da Secretaria de Governo do Brasil e do Ministério da Economia de transferir uma porcentagem do Fundeb para escolas confessionais, comunitárias ou filantrópicas, se aceita, acarretaria uma perda de R$12,8 bilhões ao ano para a rede pública, o que representa cerca de 10% do valor total do Fundo.

Porém,  o atendimento realizado por essas escolas é de 1% do Ensino Fundamental, e 0,2% no Ensino Médio, de acordo com dados do FNDE/MEC, Inep/MEC e Laboratório de Dados Educacionais, publicados pela organização Todos pela Educação.  Grisa explica que a medida teria um caráter regressivo, pois privilegia municípios mais ricos (com maior Índice de Desenvolvimento Humano), onde estão a maioria das vagas privadas ofertadas. “A capacidade instalada da rede privada concentrada em regiões mais ricas já esvazia o argumento de que esse precedente seja necessário, além disso, o Brasil não tem problemas de oferta de vagas no Ensino Fundamental e Médio. Não havia motivo técnico para permitir esse desvio dos recursos do Fundeb, a não ser abrir mercado para grupos específicos, inclusive os de cunho religioso”, avalia.

O docente salienta  ainda que governadores e prefeitos podem fazer convênios com escolas privadas com recursos próprios de estados e municípios. “O Fundeb é um fundo de colchão básico para financiar a ainda subfinanciada Educação pública. O problema não seria o convênio em si, mas, sim, retirar recurso exclusivo da Educação pública que precisa do dobro de recursos que recebe hoje, conforme aprovado no Plano Nacional de Educação”.

Além disso, Grisa ressalta que a distribuição dos recursos para instituições privadas no Ensino Fundamental e Médio tende a ampliar a desigualdade sem garantir benefício efetivo.

Mobilização e perspectivas
Grisa recorda que o Brasil é marcado por um crônico, histórico e sistemático subfinanciamento da Educação. “Tivemos um período de ampliação dos recursos, entre 2006 e 2014 na Educação, até que a crise de 2015 e agora a da pandemia desestabilizaram o financiamento das políticas sociais, da ciência e a Educação não ficou imune”, diz. O professor observa também que os recursos que viriam dos royalties do pré-sal não apareceram.

“Penso que o debate sobre o Fundeb foi bastante pedagógico, diferentes grupos políticos se aliaram em torno da causa do financiamento da Educação pública. Boas evidências e bons argumentos foram mobilizados para que os parlamentares aprovassem a Emenda Constitucional e depois a lei de regulamentação”, relata Gregório sobre o impacto das discussões no cotidiano das escolas públicas, que completa: “Diante de tanto descrédito da política, vejo no exemplo do Fundeb um processo de articulação e diálogo que foi maduro, apesar das discordâncias”.

Ana Júlia Ribeiro tem 20 anos, e cursa Direito na PUC-PR e Filosofia na UFPR. A jovem se destacou quando fez um discurso na tribuna da Assembleia Legislativa do Paraná (ALEP), em Curitiba, em 2016. Na ocasião, ela representou estudantes de escolas estaduais e institutos federais, que ocuparam mais de 300 instituições de ensino  paranaenses como protesto contra a medida provisória sobre a reforma do Ensino Médio. Movimento semelhante aconteceu também com os secundaristas de estados como São Paulo e Goiás na época. 

Ana Júlia Ribeiro, aluna de Direito na PUC-PR e de Filosofia na UFPR. Crédito: Arquivo pessoal.

Enquanto  estudante de instituições públicas, Ribeiro comemora o fato de, em julho de 2020, ter acontecido a Constitucionalização do Fundeb.  Para ela, a valorização dos profissionais da Educação é essencial para alcançar um patamar de equidade entre os municípios, que garanta a todos os estudantes qualidade mínima.  “Temos que fortalecer a escola pública, que é mais abrangente, mais plural, para que, assim, todos tenham acesso a uma Educação de qualidade. Por isso, precisamos ampliar a Educação pública”, explica. 

Ribeiro ainda comenta que, sem investimentos, não é possível avançar em termos de educação pública. “É importante garantir o CAQ – o Custo Aluno Qualidade. Ele é um mecanismo que une qualidade, controle social e financiamento adequado para a educação pública. É um recurso mínimo do que deve ser investido por aluno. O CAQ propõe um avanço, uma vez que na maioria das escolas públicas não se possui os recursos necessários para promover a educação”.

Vale dizer que o CAQ é um padrão de qualidade mais próximo dos países que têm altos índices de qualidade em termos de Educação. Ele diz respeito à superação das desigualdades na Educação, uma vez que garante direitos básicos e fundamentais para todas as escolas. Além disso,inda: é importante observar que faz-se preciso que o gerenciamento dos valores do Fundeb seja feito juntamente com as comunidades educacionais, para evitar desvios e corrupção.

Felipe Poyares explica que o Fundeb tem um conselho de acompanhamento, além do Tribunal de Contas Municipal em alguns municípios e Estaduais para os municípios menores, que ajudam a garantir o devido uso dos recursos. “Mecanismos de fiscalização foram aprimorados em 2020 com a aprovação da Lei de Regulamentação, que diz respeito a quantidade de recursos que as redes têm disponíveis para educação, já que o Fundeb tem um critério de distribuição de mais recursos para quem tem menos. Além disso, há outras formas de fiscalização como o Ministério Público, os Tribunais de Conta e, dentro das Secretarias, auditorias e a Controladoria”.

Participação da sociedade: uma responsabilidade
Para Gregório Grisa, o Fundeb é uma pauta que exige certo conhecimento técnico para ser observado também nos detalhes. Contudo, ele sugere que cada um pode acompanhar o funcionamento do Conselho Municipal dos municípios, bem como dos estados. “Caso faça parte de alguma comunidade escolar, pode-se buscar entender como é executado o recurso que a escola recebe ou mesmo fiscalizar junto do Poder Legislativo local como a Prefeitura aplica a verba do Fundeb”, explica.

Por sua vez, Renata Mesquita D’Aguiar afirma que a população deve colocar-se à disposição para compor os Conselhos Sociais do Fundeb, fiscalizando os recursos destinados às escolas da comunidade, do bairro ou da cidade.  Já Ana Júlia Ribeiro, considera que a participação de toda a sociedade na pauta é muito difícil. Para ela, o mais importante é que todos se unam para pedir uma educação pública de qualidade.

Outra ameaça para o Fundeb é a recente PEC Emergencial, que prevê compensar os gastos com auxílio emergencial recorrendo à desvinculação dos recursos para a Educação e a Saúde. A medida, se aprovada, impactará o orçamento para a educação pública do país, já que propõe revogar dispositivos da Constituição que garantem o percentual de repasse mínimo para as duas áreas. A pauta deverá ser votada pelo Senado no dia 2 de março.

O repasse dos recursos do Congresso Nacional  para o Fundeb ainda não aconteceu e deve atrasar, segundo cálculo da Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão vinculado ao Senado. O orçamento anual não foi aprovado, porque houve um impasse político na formação da Comissão Mista, responsável pela aprovação do Orçamento. Com o atraso, 73% dos recursos não estão disponíveis, o que corresponde a R$14,4 bilhões. 

O Fundeb e demais Políticas Públicas voltadas à Educação Básica são temas latentes e que envolvem a sociedade civil, pois tratam do presente e do futuro do país. Qual seria a contribuição efetiva do ecossistema de impacto neste debate? Passos e articulações para serem acompanhados de perto.

Teorias de Mudança: da descrição à integração

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Nos anos 1990, notou-se que a complexidade (lente para olhar o mundo) já circulava há algumas décadas, mas começou a entrar no campo organizacional a partir de perspectivas e termos como “pensamento sistêmico”.  No fim do século XX, vimos a eclosão de diferentes conteúdos e ferramentas voltadas a facilitar avanços no campo organizacional tradicional e de impacto, sensíveis a uma perspectiva sistêmica e complexa. 

O campo da avaliação de impacto vivia desafios em razão, entre outros fatores, da superficialidade sob a qual eram pensados e planejados alguns projetos ou programas, muitas vezes com frágeis relações causais entre contexto, intenções, ações deliberadas e efeitos desejados. Em 1995, Carol Weiss propôs a Teoria de Mudança (TdM) como uma alternativa para que profissionais do campo avançassem no modo como estudavam, avaliavam e comunicavam suas iniciativas socioambientais.

O tempo passou e, em 2012, Isabel Vogel, a partir de uma ampla revisão sobre compreensões e usos de TdMs, marcou um entendimento que considero central: a Teoria de Mudança pode ter várias formas e caminhos enquanto método e produto que é e, por isso, é vista menos como uma ferramenta e mais como uma abordagem, um modo de pensar, entender e organizar a narrativa de impacto de uma iniciativa (que Vogel nomeia como Theory of Change Thinking).

A abordagem da Teoria de Mudança se popularizou nestes últimos nove anos (da revisão de Vogel até hoje), mantendo centralmente a perspectiva inaugural que chamo aqui de descritiva. 

Esta perspectiva é marcada pela forte valorização e descrição da lógica de impacto da iniciativa (que encadeia elementos como estratégias, públicos, realizações, resultados e impactos) em si, orientando processos que, embora olhem para contexto, questões externas e até outros aspectos internos, não consideram a integralidade desta iniciativa e/ou do sistema complexo onde ela se insere.

Nos últimos anos, também começamos a compreender na prática (a contragosto ou a custos de uma pandemia!) que as instabilidades inevitáveis em contextos complexos e seus desafios precisam de soluções complexas, mais conscientes dos elementos, inter-relações e forças que caracterizam sistemas sociais e culturais como as iniciativas de impacto, além de seus territórios, públicos e alianças. É daí que surge uma segunda perspectiva para as TdMs, que valoriza a complexidade da iniciativa e também do (eco) sistema, gerando novas maneiras de se construir as narrativas de impacto – principalmente, buscando integrá-las a outros componentes, modelos e subsistemas. Chamo esta segunda perspectiva de integrativa.

Compreendo que a abordagem das TdMs demanda, sim, movimentos e aberturas para ser assim caracterizada. E apoiado em referenciais teóricos, reflexões e práticas, listo aqui nove chamados que podem nos guiar rumo às construções integrativas:

1) Criar visões compartilhadas, que mostrem onde o sonho (visão de impacto/mudança) de nossa iniciativa (ou do/a cliente) encontra o sonho da iniciativa do vizinho ou da vizinha de território (comunidade, cidade ou nação).

2) Eleger atividades de alta alavancagem, que consigam atingir e destravar pontos críticos que sustentam ou fortalecem problemas e dores socioambientais, evitando investir em pontos de inércia e sem potencial/energia para a transformação.

3) Estimular o engajamento inclusivo, para garantir que diferentes grupos e, principalmente, os mais impactados por desafios e problemas que buscamos enfrentar com nossas iniciativas, sejam incluídos. Ou seja, operar o princípio do “nada sobre nós sem nós”.

4) Facilitar aprendizagens estratégicas e coletivas, pautando decisões que fortaleçam a iniciativa ou a coalizão e suas chances de transformação positiva do mundo.

5) Fortalecer núcleos de gestão e sua capacidade para acolher, proteger e estimular diferentes parceiros/as da iniciativa, sustentando a gestão colaborativa.

6) Conectar nossas TdMs com equidade social e a regeneração ecológica, compreendendo que ambas são indissociáveis e urgentes.

7) Conectar diferentes dimensões organizacionais, de modo a facilitar análises mais complexas e decisões mais assertivas, que favoreçam a jornada rumo ao propósito evolutivo (o qual Frederic Laloux já fez referência) e que envolvam transição e amadurecimento de visão e modelos mentais, bem como de práticas, como planejamento, controle e gestão, marketing, entre outras.

8) Honrar e conectar diferentes vozes e poderes na organização, buscando favorecer trocas (de ideias e de histórias) que nem sempre circulam, articular pessoas ao processo e à visão de mudança que a teoria desenha.

9) Fortalecer a confiança e a coragem individual, para o fazer colaborativo e disruptivo. E, para isso, o convite é para cuidar de processos e jornadas de construção de TdMs, que também permitam destravar (ou descongelar, como diz Otto Scharmer no texto “Turning toward our blind spot:
seeing the shadow as a source for transformation“, de 2020
) a mente, o coração e a vontade de cada envolvido(a) no trabalho.

Um último chamado
A abordagem da TdM tem contribuído para mobilizar pessoas, grupos e organizações a criarem visões de impacto e pode avançar ainda mais, conectando e ajudando a conectar. Para isso, precisamos acessar e assumir uma perspectiva mais integrativa, inspirada por chamados, como os apresentados acima; que estão longe de serem regras ou contornos estanques, definitivos ou limitantes. A ideia é nutrir um debate já em curso e, quem sabe, apoiar mais pessoas, grupos ou organizações a criarem futuros promissores – para todos e todas nós e nosso planeta!

Este artigo é uma reflexão de Antonio Ribeiro.

Antonio Ribeiro é sócio-consultor da Move Social, facilitando processos de impacto de diferentes naturezas. É mestre em Psicologia Social, músico quando possível, pai da Cora e um multi-inconformado.

Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa.

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